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Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

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Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

O Gato Preto (adaptação em HQ do clássico de Poe)

Superstição inspira simbolismos, e estes inspiram interpretações a levar ações. Publicada há quase dois séculos, mesmo assim a história é atual, a violência sendo relatada na visão do agressor. Poderia ser o sobrenatural a condená-lo? Ou apenas ele o considera assim ao livrar a própria responsabilidade? Em ambas as situações temos o mesmo resultado, a catástrofe vinda de uma mão, repercutida até o ápice da culpa denunciada pelo meio interpretado correspondentemente.

O Gato Preto é um dos contos icônicos de Edgar Allan Poe, adaptado em quadrinho pela editora Martin Claret em 2017. Com tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg e ilustrado por Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi, a adaptação ilustra os parágrafos originais de Edgar sem deixar de enaltecer a prosa escrita no século XIX.

“Todavia, como amanhã eu morrerei, hoje gostaria de aliviar minha alma”

Narrado na perspectiva do protagonista sem nome, ele começa declarando a morte vindoura depois dos atos os quais é incapaz de explicar, contando apenas a maneira como aconteceu. Ele relembrou da infância sempre gentil aos animais e da própria inocência a ponto de acarretar em ingenuidade, sendo alvo de zombaria das crianças de mesma idade. Manteve a índole na vida adulta, cuidando dos animais junto a esposa, que arranjava novos bichos de estimação para a alegria do marido. Tinha amor por todos, apesar de enaltecer o Plutão, um gato grande e de pelagem negra; um gato o qual despertou atitudes inesperadas.

“Mas era, no mínimo, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada”

Esta edição traz a adaptação em quadrinhos e o conto original traduzido, ambos precedidos por um artigo sobre Edgar Allan Poe e o respectivo trabalho. As ilustrações mesclam com o texto disposto nos quadros, todos sendo da narrativa do protagonista, quase sem diálogo igual o original, inclusive esses textos são recortes do conto, editados conforme a ilustração correspondente, harmonizando imagens com as palavras.

Sendo a perspectiva do protagonista, ele relata com franqueza os sentimentos contraditórios em si ao realizar os atos de terror, porém deixa margens a interpretação, dignas do narrador não confiável. A visão dele sugere vir do gato preto, animal reconhecido pelo simbolismo da bruxaria. O personagem sempre o vê, ou o gato sempre o acompanha; as coincidências mesclam ambiguidades as quais o leitor pode assumir determinada interpretação. Este recurso narrativo é eficaz no objetivo, o de provocar o leitor ao não dar a devida resposta, causá-lo desconforto e submetê-lo ao terror.

O Gato Preto recebe a homenagem correspondente às qualidades do original nesta edição da Martin Claret. De coloração eficiente em ilustrar os variados níveis de tensão na breve história, os traços no rosto do protagonista mostram a respectiva reação dele no momento conforme é relatado no texto antes da condenação à morte, e finaliza ilustrando com exatidão o que já no texto provocava surpresa e pavor.

“Mais uma vez, eu respirei como um homem livre”

O Gato Preto - capaIlustradores: Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi
Tradutoras: Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg
Editora: Martin Claret
Ano de Publicação: 2017
Gênero: quadrinhos/terror
Quantidade de Páginas: 73

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A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Com tantas obras internacionais à disposição hoje, os leitores acostumaram com grandes escritos inspirados em originais de Bram Stoker ou nas investigações feitas por Sherlock Holmes. Mal sabem a riqueza proporcionada pela literatura brasileira e seus personagens distintos canonizados por mérito e reconhecimento de tais autores. Já o autor deste romance reconhece o valor de nossa cultura, e com isso homenageia alguns dos seres criados por escritores consagrados, levando-os ao Brasil transformado em ambiente steampunk.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison estreia a série brasiliana steampunk. Publicado em 2014 por Enéias Tavares através da editora Casa da Palavra, o romance traz relatos dos personagens envolvidos nesta trama ambientada por tecnologias de vapor.

“Um século tão extraordinário em invenções e horrores”

De narrativa epistolar, muitos dos personagens possuem a chance de expor o próprio ponto de vista conforme compartilham a sua parte envolvida no enredo. Os registros feitos em diários, noitários, cartas e gravações colaboram a mostrar o delito deste romance: o assassinato de oito vítimas de alta casta social, tudo feito pelas mãos do Dr. Louison entre a primeira e o início da segunda década do século XX.

Médico reconhecido pelos bons e enriquecidos cidadãos, a notícia de ele ser o responsável pela morte desses nobres civis choca a comunidade porto-alegrense, atrai atenção inclusive do jornal carioca, o qual envia o jornalista Isaías Caminha a reunir os fatos através de relatos e entrevistas. Isaías relata das novidades encontradas em Porto Alegre enquanto conhece algumas personalidades da sociedade, como a senhorita Vitória Acauã e o alienista Simão Bacamarte, dono do instituto psiquiátrico onde o próprio Dr. Louison é contido até o dia da execução pelos crimes cometidos: a forca. Isaías tem a oportunidade de reunir a versão de Louison aos fatos coletados, conversa com ele um dia antes da condenação, um dia antes da notícia do Dr. fugir das instalações do alienista.

“Ao escutar a mensagem ‘etnia desconhecida’, questionei-me sobre o absurdo daquela frase num país como o Brasil”

Toda a escrita é apresentada conforme a época, desde as grafias ― como o uso do “ph” em vez da consoante “f” ―, palavras características e a formalidade correspondente a autoria do personagem, este também elaborado de acordo com o original da obra clássica homenageada, salvo as criações originais de Enéias. A escrita demanda maior atenção aos leitores acostumados a linguagem dos romances recentes, e recompensa tal esforço por imergir todo o ambiente a partir desta construção de palavras.

Sem seguir ordem cronológica ― às vezes ignora até a lógica ―, os registros avançam e regressam no tempo, contam fragmentos dos acontecimentos com lacunas restritas ao convívio de outro personagem a preencher em registro posterior. Mal existe progressão no enredo, pois a intenção deste romance é outra, a de discutir o atentado já realizado pelo Louison e montar o quebra-cabeças da investigação motivada por determinados personagens, isso tudo enquanto cada pessoa compartilha da própria experiência e intimidades nos registros dispostos em todo o romance.

A ambientação steampunk é elemento secundário no meio de tamanha dedicação a reconstruir personagens consagrados neste ambiente. Presentes em momentos importantes da narrativa e até interfere na história de certas pessoas, os mecanismos movidos à vapor por vezes desaparecem dos relatos reunidos, deixa certos textos com características de romances de época em vez do gênero proposto. Também chama a atenção de um evento importante como a promulgação da Lei Dourada que garante alforria aos escravos no Brasil dez anos antes do acontecido neste romance; fica confuso sobre esta diferença ser proposital a encaixar no enredo ou foi equívoco do autor.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison propõe homenagear pessoas fictícias da literatura brasileira e adequar a narrativa correspondente na época. O livro cumpre esta promessa e proporciona ao leitor moderno o vislumbre da nossa linguagem um século antes de evoluir do modo como a conhecemos. Ainda elabora o enredo de forma singular, deixa a narrativa encantar nos detalhes vivenciados pelas pessoas do romance enquanto descobrimos os detalhes do atentado feito por Louison e as consequências.

“Agora, deves deixar para trás a criança que acusa e abraçar o homem que compreende”

A Lição de Anatomia do Temível Dr Louison - capaAutor: Enéias Tavares
Editora: Casa da Palavra
Ano de publicação: 2014
Quantidade de Páginas: 320

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Ponto de Impacto (Dan Brown)

Já falei neste blog sobre a importância de qualquer pessoa ter mais interesse pelo meio acadêmico e conferir os estudos feitos por indivíduos comprometidos a pesquisar as inúmeras questões do nosso mundo. Enquanto tal interesse permanecer escasso, outros pequenos grupos ou indivíduos formam ambições sobre o ambiente científico e tramam conspirações na garantia do benefício próprio e exclusivo. Tudo faz parte do jogo, e os envolvidos ditam as regras; quando quem precisa dos benefícios das pesquisas deixa de participar, o mesmo é o maior prejudicado da conspiração. Também há a ironia de até o conspirador tomar prejuízo na história, porém nunca ser capaz de perceber tal perda que atinge a todos. 

Ponto de Impacto conta a história da conspiração estadunidense na qual pode comprometer a NASA. Publicado em 2001 por Dan Brown e lançado em 2005 pela editora Arqueiro com tradução de Carlos Irineu da Costa, a conspiração desta vez envolve a política na ciência. 

 “Política, afinal, não se limitava a ganhar uma eleição” 

Rachel Sexton vive um momento delicado. Trabalha como agente de uma instituição governamental fazendo relatórios sobre as mais recentes informações adquiridas e as envia ao escritório da Casa Branca; ela também é a filha de Sedgewick Sexton, senador e candidato da eleição vigente como o principal opositor ao atual presidente dos Estados Unidos. Rachael jamais encontrou o líder do país em pessoa, mesmo assim seu emprego proporciona dilemas na campanha do senador, por vezes contornadas pela estratégia de Sedgewick de manter a própria boa imagem ao público. 

Ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos encomenda a tarefa extra-oficial a Rachel. A requisição traz poucos detalhes além da requisição da agente ir até o local onde realizará a tarefa misteriosa. Rachel tinha certeza em encontrar o presidente pela primeira vez quando na verdade é levada ao Polo Norte, dentro das instalações da NASA. Conhece pessoas envolvidas com a descoberta científica capaz de mudar a história da ciência atual, recebe o pedido do presidente, e se vê no meio da crise política e científica onde as ambições motivam os piores atos contra a vida e a verdade. 

 “Coisas altamente improváveis acontece na ciência” 

Dan Brown é reconhecido pelos romances focados em conspirações. Costuma manter a estrutura semelhante em cada livro escrito, tornando-o previsível ao ler mais de uma história de sua autoria. A trama é trabalhada sobre determinada área, os conhecimentos técnicos da mesma e as conspirações envolvidas e inventadas na originalidade do autor. Muito da parte técnica é transcrita nos romances com linguagem acessível, por vezes satirizando a relação dos acadêmicos com os personagens alheios ao assunto estudado. Mesmo acessível, a absorção dessas informações é comprometida pelo excesso. Parágrafos interrompem a história para explicar a tecnologia apresentada em determinada cena ou explica algo específico do conhecimento de determinado personagem, tiram o protagonismo da trama em troca de demonstrações presunçosas da pesquisa feita pelo autor. 

As descrições banais também pecam pelo uso de verbos nada elaborados. Os personagens tentam, sentem e pensam — com muitos verbos de pensamento — mais do que agem ao longo dos inúmeros capítulos curtos, quer dizer, mostra essa impressão pela carência do autor em desenvolver as cenas do livro com descrições capazes de demonstrar movimentos quando eles ocorrem. Até quando alguém está no ápice do desespero, com grandes feridas no corpo e prestes a morrer, o texto conta como o personagem pensa em como cometer qualquer erro poder ser fatal, ao invés de focar nos atos desesperados dele conforme aquela situação. 

Outro problema nas descrições simples está na repetição dessas. Além do narrador interferir na história e dar as explicações, ele as repete quando algum personagem as recebe, e ainda conta outra vez quando o ponto de vista alterna a outro personagem ao testemunhar a mesma situação. Até as pistas elaboradas nos vários mistérios construídos aparecem mais de uma vez, dão a resposta ao leitor muito antes do desfecho daquele mistério. Quase tudo é previsível, ainda mais quem já leu outro livro do autor e reconheceu o padrão de escrita. 

Ponto de Impacto me impressiona apenas pela questão levantada sobre a importância da ciência posta em cheque devido a pessoas capazes de interferir no trabalho dela sem reconhecer os problemas caso o fizer, além de outras pequenas situações paralelas à realidade — e atualidade. A escrita deixa muito a desejar. O autor é reconhecido pela elaboração do enredo, este também prejudicado pelo despejo constante de informações. 

 “Os cientistas das NASA até poderiam ter grandes cérebros, mas suas bocas eram ainda maiores” 

 Ponto de Impacto - capaAutor: Dan Brown
Tradutor: Carlos Irineu da Costa
Ano de Publicação Original: 2001
Edição: 2005
Editora: Arqueiro
Quantidade de Páginas: 398 

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Lobos de Calla (Torre Negra Vol. 5)

A longa jornada à Torre Negra sofre uma breve interrupção. Pessoas de costumes simples pedem socorro ao ka-tet do Pistoleiro, e ele deve seguir as regras desde Arthur Eld. Longe de sair de fato da jornada, o conflito encontrado em Calla Bryn Sturgis traz novos mistérios e respostas aos antigos, bem como a progressão dramática de cada membro da equipe de Roland, tudo traçado pelo ka. Os Lobos estão chegando, e todos devem tomar cuidado dentre as consequências das decisões feitas pelos envolvidos.

Lobos de Calla trata do quinto episódio da saga A Torre Negra. Publicado em 2003 e lançado em 2012 no Brasil pela editora Suma com tradução de Alda Porto, Stephen King leva o grupo de Roland a outra civilização peculiar com perigos inéditos e algumas respostas ao mistério em torno da Torre Negra.

“Crianças são uma safra como outra qualquer. Deus sempre manda mais”

Calla Bryn Sturgis é uma das regiões de Calla. Quase toda gravidez gera filhos gêmeos que crescem, se desenvolvem e realizam os trabalhos a garantir sustento pela família a permanecer na mesma cidade, por serem remotas demais de outras civilizações. Entre os moradores de Calla há Andy, o robô construído pelo Povo Antigo cujas poucas funções permitem ajudar os moradores em certas tarefas, além de insistir em contar a previsão do horóscopo a quem encontrar no caminho e avisar da notícia temida pela população. Andy anuncia aos moradores de Calla sobre a chegada dos Lobos no próximo ciclo da lua, também comenta da aproximação de Pistoleiros a caminho, capazes de confrontar os seres tão temidos.

Os Lobos vão até as regiões de Calla a cada vinte e poucos anos. O objetivo deles é selecionar um de alguns pares de gêmeos com pouca idade para levarem consigo, realizar o ritual neles e devolvê-los às famílias transformados em roonts, com mentalidade degenerada, crescimento abrupto a partir de determinada idade, e expectativa de vida precoce.

As opiniões divergem entre os moradores quanto ao grupo de Roland e geram discussões se aceitarão a ajuda deles ou não. Por serem Pistoleiros, eles cumprirão a tarefa sem exigir recompensas, apenas pedirão recursos conforme a necessidade da missão; aliás só o farão caso os moradores aceitem a ajuda e conforme for determinado pelo ka. Por fim Roland e seu ka-tet têm motivos para intervir contra os Lobos, pois também encontram pistas de como prosseguir à Torre Negra e testemunham prenúncios de eventos a enfrentar nos dois últimos volumes da saga.

“Primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio”

O quinto volume é marcado como o início da segunda parte da saga elaborada pelo Stephen King, esta rumo a conclusão. Vemos a apresentação e desenvolvimento da nova civilização encontrada neste volume com metodologia similar a de Mago e Vidro, embora tenha menos foco no arco dos moradores. Apenas o padre Callahan recebe destaque dentre os novos personagens por desempenhar o papel crucial nesta trama, e já ter vivido outras aventuras sob as palavras de King no livro Salem. Parte da história voltada a Callahan mescla com acontecimentos do outro livro, o que prejudica a quem não o leu, pois ficará carente do contexto da outra obra.

A partir do pedido de ajuda feito pelos moradores de Calla, o romance consiste no preparo do grupo de Roland até o momento de enfrentar os Lobos. Desenvolve o arco de suspense com entrevistas entre os moradores e busca de pistas sobre o tipo de ameaça a enfrentar. Os relatos remetem a perigos enfrentados em Terras Devastadas e são interligados com o conhecimento amadurecido de todo o ka-tet. Também há interlúdios sobre o principal destino de Roland e das tramas de cada companheiro, revisita situações encontradas na Escolha dos Três e interliga tudo ao arco central da saga. Em outras palavras, demonstra a força do ka sobre o enredo.

Pretendo abordar o final deste livro na resenha, então caso julgue esta parte da análise como #spoiler é melhor pular ao próximo parágrafo. A crítica é pertinente a batalha dos protagonistas contra os Lobos. Seres de ameaça tão aterrorizante, todo o livro focado no preparo contra o grande perigo à Calla, e a conclusão acontece depressa, com baixas apenas ao povo de Calla que talvez pouco impactará na jornada adiante do ka-tet. Em suma os antagonistas têm menos importância frente aos outros conflitos apresentados ao longo dessas centenas de páginas são mais importantes ao seguimento da saga.

Lobos de Calla traz outra demonstração de qualidade a King em desenvolver ótimos diálogos e construir novos personagens mesmo em direção à reta final da saga. A mistura desta história com a de Salem traz certa dificuldade na compreensão de determinada parte da história, embora o leitor assimile o bastante a compreender o papel de Callahan neste romance. O ka cumpriu seu trabalho soltando algumas pontas do enredo, estas a prosseguir na Canção de Susannah.

“Os deuses deixam sinais. Os homens deixam máquinas”

Lobos de Calla - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Alda Porto
Ano de Publicação Original: 2003
Edição: 2012
Editora: Suma
Saga: A Torre Negra, Vol. 5
Quantidade de Páginas: 744

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A Substância (Suspense YA de Marcelo Medeiros)

O terceiro ano do ensino médio traz muita importância na vida do adolescente. É o fim da saga com mais de dez anos de estudos, e o prenúncio da vida adulta. Preocupações sobre o futuro pesam mais pela experiência escassa, pois ainda há muito a aprender. O planejamento trará responsabilidades antes dos últimos momentos de amparo dos pais. Tem o vestibular e com ela a demanda absurda de estudos, capaz de transgredir o limite dos jovens. Agora imagina toda essa situação com o agravante do mistério em que os envolvidos ameaçam a vida de quem estiver no caminho?

A Substância* traz esse mistério na vida complicada dos alunos do ensino médio. Publicado em 2019 por Marcelo Medeiros pela Editora Tribo, este suspense jovem-adulto — YA — constrói o enredo inspirado em autores de investigação policial consagrados, como Agatha Christie.

* Livro cedido pelo autor para realizar a resenha

“Nenhum pai quer ver o filho em confusão”

Carlos Eduardo — o Cadu — começa o último ano letivo do ensino médio. A preocupação primordial do fim do ano já o acomete desde o primeiro dia: o Exame Nacional do Ensino Médio. Preocupação comum a dos amigos também, uns com planos definidos, outros nem tanto. Todos ansiosos pelas novas aulas, recebem a surpresa na aula de matemática, pois a grade indicava um professor e na hora chega outro sem dar nenhuma satisfação, o professor Fred. Pouco tempo depois o diretor interrompe a aula de Fred e apresenta o novo aluno da turma, chamado Victor. As interações entre o novo aluno e o misterioso professor provoca questões na cabeça de Cadu. Essas duas pessoas têm segredos relacionados à escola, e o jovem estudante pretende descobri-los.

“Quanto mais envolvido na história ficava, mais vontade me dava de solucionar esse mistério”

Este livro de suspense não só tem personagens adolescentes, como também é voltado a este tipo de público; com certeza muitos leitores se identificarão com a ansiedade pré-vestibular e a escolha da carreira a seguir pela vida. Planos sobre planos com nenhuma garantia de dar certo no final, faz parte da vida e é interessante retratar tal realidade na ficção. O suspense traz a estrutura clássica de investigação, com pistas e suposições dos personagens envolvidos durante a construção do mistério até chegar a conclusão com as respostas de todas as indagações; a abordagem é conhecida e atrai leitores interessados nesse gênero. É o primeiro romance do Marcelo Medeiros, e deixa nítido a maturidade de escrita ao autor iniciante por tomar decisões desconfortáveis que demonstra pouca confiança na escrita, cujos elementos apontarei com intenção de ajudar a amadurecer nos próximos trabalhos como autor.

Cadu é o protagonista/narrador — salvo alguns capítulos em terceira pessoa sobre o passado — e conta todos os detalhes da sua vida na passagem deste romance. Interrompe a trama a todo momento para contar da rotina dele, apresenta as justificativas sobre cada compromisso rejeitado, resume como foi o dia e só depois conta algo relevante ao enredo. Todos os fatos banais tiram o interesse do leitor, nós conhecemos as necessidades básicas pois nós também a fazemos, abrimos o livro na intenção de nos surpreender com a criatividade da trama, pouco importa ver o personagem desmarcar um almoço ou estudo em conjunto exceto quando interfere na trama construída. Este livro contém muitos detalhes incapazes de agregar ao enredo.

“Desisti de continuar com as perguntas bobas e fui direto ao ponto”

Cito a narrativa de pouca confiança por causa dos diálogos. Quase toda fala termina citando o autor da fala, é comum também descrevê-la com o verbo de dizer — ex: concordar, reclamar — que só repete a informação já dada pela fala do personagem. E as conversas passam longe do verossímil, apenas entregam as informações da história ao leitor, inclusive os personagens fazem as perguntas que deveriam ser feitas pelo leitor enquanto vê o desenrolar, e assim acontece rodadas de entrevistas criticadas pelo protagonista em um dos primeiros capítulos, mas que o próprio autor comete o erro na construção dos diálogos.

Por fim falo do desenvolvimento do enredo. O primeiro problema é Cadu mergulhar na investigação só por testemunhar uma conversa estranha entre o novo aluno e o professor. O livro não dá pistas do protagonista ter essa curiosidade desde o começo nem elabora algum conflito que justifique o tamanho interesse no rapaz. Os outros personagens tentam convencê-lo a deixar o mistério de lado ou pedir ajuda policial, e Cadu apenas nega por teimosia, sem elaborar argumentos. Os obstáculos têm solução rápida, como tal personagem de repente dizer possuir a ferramenta adequada, determinados personagens simplesmente chegam no momento certo para resolver o conflito, e até mesmo habilidades hackers surgem do nada quando é preciso obter resposta; o Deus Ex-Machina está à vontade.

A Substância é um trabalho vindo de alguém inspirado por boas referências literárias, é fácil de notá-las. Falta apenas o aprimoramento da narrativa, esta obtida pela prática e estudos sobre a escrita criativa, bem como na reflexão nos problemas apontados nesta resenha, caso concorde com elas.

“Era a oportunidade perfeita de conversar com ele. O único problema foi que acabei cochilando”

A Substância - capaAutor: Marcelo Medeiros
Editora: Tribo
Ano de publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 192

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Contato do autor:

Instagram: @marcelomedeirosm_
Telefone: (84) 9 9626-4127
E-mail: marcelo_medeiros_5@yahoo.com.br

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