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O Clube dos Suicidas (Setembro Amarelo)

Na busca de títulos relacionados ao suicídio no intuito de publicar ao longo do Setembro Amarelo, este último achado também é um dos primeiros livros policiais já escritos. Vindo do autor exemplar capaz de entregar história de pirata a inspirar tropos e clichês em novas narrativas até hoje, além do caso obsessivo pela dualidade a ponto de inspirar monstruosidades feito o Hulk; este outro trabalho de Robert Louis Stevenson demonstra maneiras de impor tensão na narrativa, conduzir mistérios revelados nos melhores momentos, e ainda serve de exemplo de abordagem de suicídio na ficção. O Clube dos Suicidas foi publicado pela primeira vez em 1878, com edição digital em 2012 feita pela editora Rocco sob a tradução de Eliana Sabino.

“Fale com franqueza com quem pode ajudá-lo”

O Príncipe da Boêmia de nome Florizel gosta de andar disfarçado pelas ruas de Londres junto ao general Geraldine, quando em certa noite os dois encontram alguém inusitado: um rapaz distribuía tortas de creme pelo bar, de graça, e caso alguém recusasse a oferta, ele mesmo comia. O Príncipe acompanhou este rapaz ao longo desta tarefa peculiar até conseguir satisfazer a curiosidade do porquê ele fazer isso. A resposta é a de o rapaz perder a razão de viver, a intenção era fazer este último gesto antes de participar d’O Clube dos Suicidas. A existência de tal clube intriga Florizel. Ele resolve participar, conhecer e desmantelar esta organização.

“A existência de um homem é fácil de destruir e tão poderosa de ser vivida!”

Composto por três histórias curtas, cada uma alterna o ponto de vista sobre outro personagem, apesar de Florizel estar presente em todas e protagonizar este episódio contra O Clube. A princípio as histórias soam distintas, pois começam a narrar a vida comum do personagem, só parágrafos mais tarde entrelaça à trama principal através do ponto de virada surpreendente. Enquanto as duas últimas prezam pela surpresa ao leitor de trabalhar no mistério enquanto as dicas existem diante do texto, a primeira história trabalha muito bem a tensão depois de apresentar O Clube dos Suicidas, revela as regras do jogo aos poucos, permite assimilar tudo com a leitura antes de vir o jogo em si. Por ter os elementos esclarecidos, a narrativa fica pronta a favorecer o suspense, e cada linha a estender o resultado daquela cena contribui na tensão cada vez mais elevada. O perigo aos personagens envolvidos fica claro ao longo da descrição, provoca receio quanto a se eles serão espertos o bastante a sobreviverem, e o enredo explora a inteligência dos envolvidos ao determinar o vitorioso.

Conforme dito no começo da resenha, sob o foco de analisar o suicídio representado nas ficções durante o mês de Setembro Amarelo, é impressionante de ver a condução do assunto neste livro. Apenas a primeira história aborda personagens sob tendências suicidas, em que os mesmos desabafam motivos de arriscar participar desta proposta do clube, porém muitos dos motivos são vagos, correspondentes à complexidade de problemas multicausais a proporcionarem tamanha infelicidade nos personagens. Embora as regras do jogo existentes no Clube sejam explicadas, o método de encerrar a vida de alguém é oculto entre os envolvidos, assim deixa de influenciar leitores sensíveis a repetir o ato. Também demonstra o medo dos personagens escolhidos a exterminar a vida, mostrando motivos a repensar na ideia. Por fim a existência do Clube dos Suicidas é repugnante diante do protagonista, algo a ser impedido.

“Um tolo, porém coerente em sua tolice”

O Clube dos Suicidas reúne ótimos exemplos ao contar a história de elementos comuns a inúmeros livros policiais publicados nos anos posteriores, até mesmo os atuais. Descrição de bom ritmo mesmo publicado em época quando a caracterização era cheia de detalhes, manipulação das pistas de modo a sempre estarem presentes e mesmo assim descobertos apenas quando o enredo revela os segredos da trama no momento certo, a capacidade de prender a atenção do leitor em parágrafos tensos, e ainda passa mensagens positivas quanto à conscientização do suicídio mesmo quando a proposta principal da história é outra.

“Leve em consideração a importância de sua vida, não apenas para seus amigos, mas para a causa pública”

Capa de O Clube dos SuicidasAutor: Robert Louis Stevenson
Tradutora: Eliana Sabino
Publicado pela primeira vez em: 1878
Editora: Rocco
Edição: 2012
Gêneros: mistério / suspense / policial
Quantidade de Páginas: 128

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Não Pare! (debut da saga escrita por FML Pepper)

Ter a vida repleta de segredos nunca revelados é complicado. Sempre quando algo deste segredo aproxima, acontece a mudança no sentido literal, mudança de casa, cidade, país. O desconforto só aumenta, ainda mais ao sofrer traumas quase mortais a todo momento, tudo decorrente dos segredos, cujas descobertas resultam na jornada da garota a enfim conhecer quem ela é. Não Pare! é o primeiro volume da trilogia ― além do quarto livro spin-off ― escrita por FML Pepper, autora brasileira de destaque na plataforma da Amazon quando lançou este livro em 2012.

“Ninguém da minha idade está preparado para morrer”

Nina Scott mora em Amsterdã junto da mãe Stela, profissional responsável pela produção de lentes oculares avançadas, serviço que demanda trabalhar em diversos lugares do planeta conforme a necessidade, segundo a mãe. Assim a filha adolescente e a mãe mudam de lugar a todo momento, inclusive acontece de novo depois de Nina quase sofrer um acidente fatal, o próximo destino seria Nova Iorque.

Desanimada de enfrentar outra vez a rotina de escola nova e logo ir embora a outro lugar, Nina fica surpresa quando a mãe diz permanecer de vez nos Estados Unidos. A animação tem prazo curto, pois os segredos ocultos a Nina em seus quase dezessete anos de vida serão revelados, sobre entidades residentes a um plano dimensional oculto à maioria dos humanos, e sobre a ambição alheia desses seres de tomarem a vida da garota.

“Nós somos a antítese da vida, todo nós”

A Nina narra a história em primeira pessoa. Começa sobre a tentativa de seguir a vida normal apesar das dificuldades da mudança constante e os acidentes evitados por pouco. A narrativa oferece a descrição das cenas e o que a Nina pensa naquele momento, demonstra a espontaneidade da protagonista adolescente e quanto a preocupações pertinentes a moças desta idade. Já o excesso de descrições físicas nos personagens apresentados na história engessa a narrativa, prolonga as cenas ao citar detalhes pouco relevantes da história. Variados verbos de dizer acompanham os diálogos, expressando o sentimento do personagem no momento da fala, sendo nem sempre essenciais, e assim alonga o texto. Os capítulos terminam com uma frase disposta a atrair o leitor ao próximo capítulo, também conhecido por gancho, recurso interessante de usar ao narrar cenas de tirar o fôlego e em seguida promete ao leitor que terá mais no próximo capítulo, ou sob estratégias semelhantes. Já neste livro fica apenas a repetição do recurso, isso diminui o impacto por ficar óbvio, ainda mais quando a frase de engajamento vem solta, pois o capítulo poderia terminar sem ela e já seria o suficiente ao desfecho daquele trecho. Tais observações deixariam o texto polido, facilitaria a leitura sem prejudicar o enredo.

Já os apontamentos a partir deste parágrafo abordam assuntos problemáticos. Por volta da metade do livro em diante a protagonista descobre sobre o universo fantástico existente nesta história, e desta parte em diante faz perguntas a todo momento; quase toda frase de diálogo de Nina termina com ponto de interrogação, então o outro personagem despeja a informação sobre a espécie dele. E mesmo assim a protagonista não entende, força a repetição da informação sob mais perguntas.

Foi interessante conferir os desejos íntimos da protagonista no começo da história, quando o perigo ainda tomava força e deixava Nina livre para distrações; agora manter a protagonista pensando em como os seres fantásticos ao redor estariam interessados de namorá-la quando a situação envolvia riscos à vida de todos, destoa do perigo apresentado. A ingenuidade de Nina insiste neste erro também, mantendo relacionamentos já claros de serem falsos, insiste mais ainda no personagem que a maltrata, provoca a todo momento e traça planos ocultos, mesmo assim ela continua a tentar relacionamento com ele.

“No final das contas, resgatar e matar têm o mesmo significado para nós”

Por agendar a publicação desta resenha em setembro, convém chamar atenção sobre a questão do suicídio neste mês dedicado à sua prevenção. A protagonista considera morrer por vontade própria, elencando os problemas que a fazem ter este desejo. Abordar o suicídio em si nas histórias teria problema nenhum, há casos frequentes na vida real e a ficção pode narrar tais acontecimentos a personagens. Porém precisa de cuidado quanto a forma a conduzir esta situação, e citar o suicídio como alternativa frente a problemas, além de descrever o que seria a causa desta intenção, contribui apenas aos péssimos exemplos de conduzir este assunto. Suicídio é questão de saúde pública, jamais uma solução; e quando alguém pensa no ato, é por motivos multicausais, muito além de traumas recentes e pontuais, abordar assim apenas passa mensagens equivocadas.

Não Pare! conduz a história da Nina de forma linear, de ritmo condizente na assimilação da protagonista às novidades de sua vida no começo da história. A metade do texto em diante compromete o livro pelas questões problemáticas expostas nesta crítica, a narrativa falha em introduzir os elementos fantásticos nas próprias cenas, em vez disso oferece capítulos cheios de diálogos explicativos, relacionamentos nada exemplares e ainda assim atrativos à protagonista.


Capa de Não Pare!Autora: FML Pepper
Editora: Valentina
Ano de Publicação Original: 2012
Série: Não Pare! #1
Gênero: fantasia urbana / YA
Quantidade de Páginas: 254

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Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

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Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

O Gato Preto (adaptação em HQ do clássico de Poe)

Superstição inspira simbolismos, e estes inspiram interpretações a levar ações. Publicada há quase dois séculos, mesmo assim a história é atual, a violência sendo relatada na visão do agressor. Poderia ser o sobrenatural a condená-lo? Ou apenas ele o considera assim ao livrar a própria responsabilidade? Em ambas as situações temos o mesmo resultado, a catástrofe vinda de uma mão, repercutida até o ápice da culpa denunciada pelo meio interpretado correspondentemente.

O Gato Preto é um dos contos icônicos de Edgar Allan Poe, adaptado em quadrinho pela editora Martin Claret em 2017. Com tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg e ilustrado por Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi, a adaptação ilustra os parágrafos originais de Edgar sem deixar de enaltecer a prosa escrita no século XIX.

“Todavia, como amanhã eu morrerei, hoje gostaria de aliviar minha alma”

Narrado na perspectiva do protagonista sem nome, ele começa declarando a morte vindoura depois dos atos os quais é incapaz de explicar, contando apenas a maneira como aconteceu. Ele relembrou da infância sempre gentil aos animais e da própria inocência a ponto de acarretar em ingenuidade, sendo alvo de zombaria das crianças de mesma idade. Manteve a índole na vida adulta, cuidando dos animais junto a esposa, que arranjava novos bichos de estimação para a alegria do marido. Tinha amor por todos, apesar de enaltecer o Plutão, um gato grande e de pelagem negra; um gato o qual despertou atitudes inesperadas.

“Mas era, no mínimo, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada”

Esta edição traz a adaptação em quadrinhos e o conto original traduzido, ambos precedidos por um artigo sobre Edgar Allan Poe e o respectivo trabalho. As ilustrações mesclam com o texto disposto nos quadros, todos sendo da narrativa do protagonista, quase sem diálogo igual o original, inclusive esses textos são recortes do conto, editados conforme a ilustração correspondente, harmonizando imagens com as palavras.

Sendo a perspectiva do protagonista, ele relata com franqueza os sentimentos contraditórios em si ao realizar os atos de terror, porém deixa margens a interpretação, dignas do narrador não confiável. A visão dele sugere vir do gato preto, animal reconhecido pelo simbolismo da bruxaria. O personagem sempre o vê, ou o gato sempre o acompanha; as coincidências mesclam ambiguidades as quais o leitor pode assumir determinada interpretação. Este recurso narrativo é eficaz no objetivo, o de provocar o leitor ao não dar a devida resposta, causá-lo desconforto e submetê-lo ao terror.

O Gato Preto recebe a homenagem correspondente às qualidades do original nesta edição da Martin Claret. De coloração eficiente em ilustrar os variados níveis de tensão na breve história, os traços no rosto do protagonista mostram a respectiva reação dele no momento conforme é relatado no texto antes da condenação à morte, e finaliza ilustrando com exatidão o que já no texto provocava surpresa e pavor.

“Mais uma vez, eu respirei como um homem livre”

O Gato Preto - capaIlustradores: Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi
Tradutoras: Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg
Editora: Martin Claret
Ano de Publicação: 2017
Gênero: quadrinhos/terror
Quantidade de Páginas: 73

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A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Com tantas obras internacionais à disposição hoje, os leitores acostumaram com grandes escritos inspirados em originais de Bram Stoker ou nas investigações feitas por Sherlock Holmes. Mal sabem a riqueza proporcionada pela literatura brasileira e seus personagens distintos canonizados por mérito e reconhecimento de tais autores. Já o autor deste romance reconhece o valor de nossa cultura, e com isso homenageia alguns dos seres criados por escritores consagrados, levando-os ao Brasil transformado em ambiente steampunk.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison estreia a série brasiliana steampunk. Publicado em 2014 por Enéias Tavares através da editora Casa da Palavra, o romance traz relatos dos personagens envolvidos nesta trama ambientada por tecnologias de vapor.

“Um século tão extraordinário em invenções e horrores”

De narrativa epistolar, muitos dos personagens possuem a chance de expor o próprio ponto de vista conforme compartilham a sua parte envolvida no enredo. Os registros feitos em diários, noitários, cartas e gravações colaboram a mostrar o delito deste romance: o assassinato de oito vítimas de alta casta social, tudo feito pelas mãos do Dr. Louison entre a primeira e o início da segunda década do século XX.

Médico reconhecido pelos bons e enriquecidos cidadãos, a notícia de ele ser o responsável pela morte desses nobres civis choca a comunidade porto-alegrense, atrai atenção inclusive do jornal carioca, o qual envia o jornalista Isaías Caminha a reunir os fatos através de relatos e entrevistas. Isaías relata das novidades encontradas em Porto Alegre enquanto conhece algumas personalidades da sociedade, como a senhorita Vitória Acauã e o alienista Simão Bacamarte, dono do instituto psiquiátrico onde o próprio Dr. Louison é contido até o dia da execução pelos crimes cometidos: a forca. Isaías tem a oportunidade de reunir a versão de Louison aos fatos coletados, conversa com ele um dia antes da condenação, um dia antes da notícia do Dr. fugir das instalações do alienista.

“Ao escutar a mensagem ‘etnia desconhecida’, questionei-me sobre o absurdo daquela frase num país como o Brasil”

Toda a escrita é apresentada conforme a época, desde as grafias ― como o uso do “ph” em vez da consoante “f” ―, palavras características e a formalidade correspondente a autoria do personagem, este também elaborado de acordo com o original da obra clássica homenageada, salvo as criações originais de Enéias. A escrita demanda maior atenção aos leitores acostumados a linguagem dos romances recentes, e recompensa tal esforço por imergir todo o ambiente a partir desta construção de palavras.

Sem seguir ordem cronológica ― às vezes ignora até a lógica ―, os registros avançam e regressam no tempo, contam fragmentos dos acontecimentos com lacunas restritas ao convívio de outro personagem a preencher em registro posterior. Mal existe progressão no enredo, pois a intenção deste romance é outra, a de discutir o atentado já realizado pelo Louison e montar o quebra-cabeças da investigação motivada por determinados personagens, isso tudo enquanto cada pessoa compartilha da própria experiência e intimidades nos registros dispostos em todo o romance.

A ambientação steampunk é elemento secundário no meio de tamanha dedicação a reconstruir personagens consagrados neste ambiente. Presentes em momentos importantes da narrativa e até interfere na história de certas pessoas, os mecanismos movidos à vapor por vezes desaparecem dos relatos reunidos, deixa certos textos com características de romances de época em vez do gênero proposto. Também chama a atenção de um evento importante como a promulgação da Lei Dourada que garante alforria aos escravos no Brasil dez anos antes do acontecido neste romance; fica confuso sobre esta diferença ser proposital a encaixar no enredo ou foi equívoco do autor.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison propõe homenagear pessoas fictícias da literatura brasileira e adequar a narrativa correspondente na época. O livro cumpre esta promessa e proporciona ao leitor moderno o vislumbre da nossa linguagem um século antes de evoluir do modo como a conhecemos. Ainda elabora o enredo de forma singular, deixa a narrativa encantar nos detalhes vivenciados pelas pessoas do romance enquanto descobrimos os detalhes do atentado feito por Louison e as consequências.

“Agora, deves deixar para trás a criança que acusa e abraçar o homem que compreende”

A Lição de Anatomia do Temível Dr Louison - capaAutor: Enéias Tavares
Editora: Casa da Palavra
Ano de publicação: 2014
Quantidade de Páginas: 320

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Ponto de Impacto (Dan Brown)

Já falei neste blog sobre a importância de qualquer pessoa ter mais interesse pelo meio acadêmico e conferir os estudos feitos por indivíduos comprometidos a pesquisar as inúmeras questões do nosso mundo. Enquanto tal interesse permanecer escasso, outros pequenos grupos ou indivíduos formam ambições sobre o ambiente científico e tramam conspirações na garantia do benefício próprio e exclusivo. Tudo faz parte do jogo, e os envolvidos ditam as regras; quando quem precisa dos benefícios das pesquisas deixa de participar, o mesmo é o maior prejudicado da conspiração. Também há a ironia de até o conspirador tomar prejuízo na história, porém nunca ser capaz de perceber tal perda que atinge a todos. 

Ponto de Impacto conta a história da conspiração estadunidense na qual pode comprometer a NASA. Publicado em 2001 por Dan Brown e lançado em 2005 pela editora Arqueiro com tradução de Carlos Irineu da Costa, a conspiração desta vez envolve a política na ciência. 

 “Política, afinal, não se limitava a ganhar uma eleição” 

Rachel Sexton vive um momento delicado. Trabalha como agente de uma instituição governamental fazendo relatórios sobre as mais recentes informações adquiridas e as envia ao escritório da Casa Branca; ela também é a filha de Sedgewick Sexton, senador e candidato da eleição vigente como o principal opositor ao atual presidente dos Estados Unidos. Rachael jamais encontrou o líder do país em pessoa, mesmo assim seu emprego proporciona dilemas na campanha do senador, por vezes contornadas pela estratégia de Sedgewick de manter a própria boa imagem ao público. 

Ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos encomenda a tarefa extra-oficial a Rachel. A requisição traz poucos detalhes além da requisição da agente ir até o local onde realizará a tarefa misteriosa. Rachel tinha certeza em encontrar o presidente pela primeira vez quando na verdade é levada ao Polo Norte, dentro das instalações da NASA. Conhece pessoas envolvidas com a descoberta científica capaz de mudar a história da ciência atual, recebe o pedido do presidente, e se vê no meio da crise política e científica onde as ambições motivam os piores atos contra a vida e a verdade. 

 “Coisas altamente improváveis acontece na ciência” 

Dan Brown é reconhecido pelos romances focados em conspirações. Costuma manter a estrutura semelhante em cada livro escrito, tornando-o previsível ao ler mais de uma história de sua autoria. A trama é trabalhada sobre determinada área, os conhecimentos técnicos da mesma e as conspirações envolvidas e inventadas na originalidade do autor. Muito da parte técnica é transcrita nos romances com linguagem acessível, por vezes satirizando a relação dos acadêmicos com os personagens alheios ao assunto estudado. Mesmo acessível, a absorção dessas informações é comprometida pelo excesso. Parágrafos interrompem a história para explicar a tecnologia apresentada em determinada cena ou explica algo específico do conhecimento de determinado personagem, tiram o protagonismo da trama em troca de demonstrações presunçosas da pesquisa feita pelo autor. 

As descrições banais também pecam pelo uso de verbos nada elaborados. Os personagens tentam, sentem e pensam — com muitos verbos de pensamento — mais do que agem ao longo dos inúmeros capítulos curtos, quer dizer, mostra essa impressão pela carência do autor em desenvolver as cenas do livro com descrições capazes de demonstrar movimentos quando eles ocorrem. Até quando alguém está no ápice do desespero, com grandes feridas no corpo e prestes a morrer, o texto conta como o personagem pensa em como cometer qualquer erro poder ser fatal, ao invés de focar nos atos desesperados dele conforme aquela situação. 

Outro problema nas descrições simples está na repetição dessas. Além do narrador interferir na história e dar as explicações, ele as repete quando algum personagem as recebe, e ainda conta outra vez quando o ponto de vista alterna a outro personagem ao testemunhar a mesma situação. Até as pistas elaboradas nos vários mistérios construídos aparecem mais de uma vez, dão a resposta ao leitor muito antes do desfecho daquele mistério. Quase tudo é previsível, ainda mais quem já leu outro livro do autor e reconheceu o padrão de escrita. 

Ponto de Impacto me impressiona apenas pela questão levantada sobre a importância da ciência posta em cheque devido a pessoas capazes de interferir no trabalho dela sem reconhecer os problemas caso o fizer, além de outras pequenas situações paralelas à realidade — e atualidade. A escrita deixa muito a desejar. O autor é reconhecido pela elaboração do enredo, este também prejudicado pelo despejo constante de informações. 

 “Os cientistas das NASA até poderiam ter grandes cérebros, mas suas bocas eram ainda maiores” 

 Ponto de Impacto - capaAutor: Dan Brown
Tradutor: Carlos Irineu da Costa
Ano de Publicação Original: 2001
Edição: 2005
Editora: Arqueiro
Quantidade de Páginas: 398 

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