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Larissa Start (finalista do Prêmio Kindle em 2019)

Iniciativas de prevenção ao suicídio existem aos montes, já as eficazes correspondem a números limitados. Enquanto há muita vontade de fazer a diferença nesses projetos solidários, a maioria carece de embasamento até mesmo para mensurar a eficácia da campanha. Pelo menos há esta minoria interessada em planejar desde a metodologia, empregando recursos desenvolvidos por pessoas capacitadas. Mais que desejar o bem das pessoas, o melhor seria agir de maneira consciente. O livro Larissa Start procura demonstrar esta prevenção embasada. Publicado por Rafael Caputo em 2019 de forma independente na Amazon, o livro foi finalista do Prêmio Kindle no ano correspondente.

“Este é Ricardo, e esse é o relato de como suas pesquisas nos sites de busca, literalmente, chegaram ao fim”

Ricardo navega pela internet antes de tentar se suicidar. Ciente de qual meio utilizaria, ele estaria pronto a encerrar tudo, quando surge a notificação de um perfil desconhecido por ele na rede social querendo entrar em contato. O avatar corresponde à Larissa, bailarina interessada em frequentar academia, apesar da preguiça. Começa a conversa depois de ver pelo perfil de Ricardo a profissão de instrutor de educação física, por isso quer a ajuda dele para fazer a matrícula. Na verdade tudo era pretexto para conversar com Ricardo, desenvolver o contato próximo e evitar de ele encerrar a própria vida, conforme uma equipe do CVV constatou a intenção a partir do novo algoritmo dedicado a monitorar comportamentos online suscetíveis a de suicidas.

“Falando em coincidências, também aprendeu que elas não existem”

Conforme o próprio autor esclarece no começo do livro, esta história usa muitos elementos da realidade ao compor esta ficção, desde a reprodução de localidades reais de Curitiba ― cidade onde a história ocorre ― até os detalhes profissionais dos personagens envolvidos, bem como os dados referentes ao suicídio. A ideia entorno do algoritmo do CVV tem elementos comuns de ficção científica, especula uma ferramenta a partir da tecnologia já conhecida hoje, apenas mais desenvolvida a ponto de possibilitar sua utilidade nesta história. Já a interação desta ferramenta é feita de forma honesta pelos personagens e realista no ponto de vista narrativo, os responsáveis pelo algoritmo mantém a postura profissional diante do paciente na maior parte da história, e o envolvimento entre as pessoas posteriormente sempre leva o humor vigente em consideração.

A história começa sob o cuidado de como abordar o assunto delicado do suicídio. Foca em mostrar a intenção do Ricardo, sem indicar causas simplistas à complexidade do suicídio. A abordagem da prevenção sobre o Ricardo também foi exemplar no começo, os diálogos proporcionaram ao personagem ficar à vontade, pois evitou o assunto de imediato, a discussão começa apenas quando ele fica confortável a contar do plano, antes a Larissa apenas oferecia conselhos ambíguos de propósito, ela correspondia à conversa do momento e ao mesmo tempo dava indiretas ao problema de Ricardo.

“Salvar vidas não era brincadeira”

Embora comece a conduzir a prevenção de maneira exemplar, os capítulos posteriores deixam a desejar. O narrador é minucioso nos detalhes, descrevendo tudo sobre a situação, o pensamento de Ricardo e de qualquer outro personagem, sendo muitos momentos desnecessários ou já sabidos pelo leitor sem precisar mencionar. Devido a este cuidado de deixar toda informação clara, repete-a inúmeras vezes, subestima o leitor de compreender por si ou até de lembrar de algo dito em capítulo anterior. Há também momentos em que a narrativa é deixada de lado e o texto assume caráter informativo, os dois tipos de textos são úteis, só ficam destoantes de ficarem juntos. A pesquisa realizada pelo autor é impressionante, é visível a atenção aos detalhes, porém incluir toda a pesquisa na narrativa prejudica a narrativa ficcional.

E neste interesse de explicar tudo, acaba por comprometer até a abordagem do tema delicado, pois descreve até nos mínimos detalhes qual a maneira escolhida pelo personagem de tirar a própria vida. Em outro capítulo começa a detalhar os motivos de outra personagem desejar o suicídio, contradizendo a prática elogiada no parágrafo anterior desta resenha. Outro fator chega a ter ressalvas por atingir apenas parcela dos leitores: é quanto a mensagens cristãs distribuídas nas falas dos personagens como maneiras de convencer alguém a desistir do suicídio. Isso pode induzir da solução contra o suicídio estar nas mensagens bíblicas, algo inadequado a seguidores de outras religiões ou entre os ateus, esses correspondentes a maior taxa de suicídio comparados às demais crenças.

“[…] detesta azeitonas e ainda prefere acreditar nas pessoas”

O livro carece de revisão tanto por erros ortográficos quanto gramaticais e semânticos. Um exemplo é o verbo “poder” conjugado no passado como auxiliar a outro verbo, no entanto sempre aparece sem o acento ― “pode” em vez de “pôde” ―, e a repetição do erro acaba destacando esse vício de usar a mesma expressão ao longo do livro. Precisa de revisão quanto a questões incoerentes também. Em certo diálogo fala sobre o personagem ir a Fortaleza em breve, na sequência outro personagem pergunta qual cidade ele iria, e a resposta sobre a “cidade” foi Ceará. Cita a idade de Larissa ser de vinte e três anos, já em outro momento é vinte e dois. Comenta de o Ricardo poderia evitar o rastreamento do acesso dele na internet caso usasse o modo anônimo do navegador, porém isso apenas deixaria de salvar o histórico no próprio computador, já os sites e possíveis algoritmos conseguiriam rastrear a atividade do usuário na mesma maneira; algo possível de Ricardo se confundir por ser formado em área diferente a da informática, já o narrador onisciente e dedicado a pesquisar sobre tudo não, faltou deixar claro de quem era a perspectiva nessa frase.

A intenção do livro Larissa Start é explícita de conscientizar sobre a prevenção do suicídio através da ficção, e apresenta maneiras exemplares de proceder neste objetivo. Uma pena o andamento da narrativa descontinuar a abordagem positiva, por vezes soando até contraditória, ainda mais pela escolha do narrador explicar todo aspecto do romance.

“O simples ‘Oi’ que mudara tudo”

Capa de Larissa StartAutor: Rafael Caputo
Ano de Publicação: 2019
Tipo de Publicação: independente
Gêneros: ficção / ficção científica
Quantidade de Páginas: 174

Confira o livro

Para Onde Vão os Suicidas? (Setembro Amarelo)

Suicídio é questão de saúde pública, apesar de sua fatalidade impactar as pessoas de maneiras individuais. Também gera comoção em pessoas inspiradas a apoiar a prevenção, pesquisar sobre o assunto tabu e escrever quanto a isso em vários formatos, seja em matérias, contos, estudos ou histórias específicas. Esta resenha tratará da história Para Onde Vão os Suicidas?, escrito por Felipe Saraiça e publicado pela PenDragon em 2017.

“É o seu corpo quem está preso. Você está livre”*

Angelina nasceu sem mãe, falecida no momento do parto. Permanece na família do pai a prosseguir na vida na companhia da nova esposa, e dela teve outra filha. Angelina encerra a própria vida, e em vez de repousar no além, encontra com a deusa Ixtab a lhe propor um desafio. Antes revela a situação de Angelina, em coma diante da família, e avisa: o corpo permanecerá assim enquanto ela aparecerá apenas a algumas pessoa para tentar impedi-las de cometerem suicídio.

“Na aglomeração de emoções, cada um vivia seus problemas”

Angelina aborda os casos em sequência, focando na pessoa vigente e só depois conhece a próxima de intenções suicidas. O narrador intervém no início de cada caso e apresenta o novo personagem, sendo onisciente, sabe de tudo sobre os envolvidos e mostra a situação dele ao leitor conforme a necessidade. A escolha da narrativa é certeira em dar oportunidade de explorar a intimidade de cada personagem o qual necessita de atenção, e então corresponder à missão de Angelina.

A boa intenção do autor é nítida em relação ao assunto principal do romance, repercutindo em todo o livro ao elaborar frases motivadoras entre os conflitos das pessoas a serem salvas pela Angelina. Porém abordar o tema do suicídio também exige responsabilidade, senão a boa intenção pode acabar causando o efeito reverso. Angelina resolve todos os casos de forma simples, indo direto ao assunto, falando do suicídio; enquanto os personagens reagiram bem ao confessar da intenção a outras pessoas, na realidade há risco de perturbar o indivíduo já conturbado pela intenção. Primeiro deveria estabelecer uma relação de confiança, conversar em busca de compreender os sentimentos do personagem, e só ao ter afinidade, poderia falar do ato pretendido, se planeja ou já possui os meios do qual deseja executar.

Falando dos meios, Angelina vê os itens escondidos pelos quais determinada pessoa pretendia usar, tendo a oportunidade de removê-los ― tirar os meios de suicídio do alcance da pessoa está entre as melhores maneiras de prevenir. Faltou cuidado ao apresentar justificativa ao desejo de cometer o suicídio, pois mesmo que a pessoa acredite ser determinado motivo, a causa tem múltiplos fatores, uns recentes, outros manifestados há mais tempo em períodos intermitentes, portanto afirmar qual problema culmina na intenção de interromper a própria vida oferece uma mensagem equivocada. O autor fez bem em evitar de dar detalhes nas formas as quais os personagens iriam executar na maior parte dos casos, pena haver exceção, esta ainda descrita de maneira violenta, de agressão direta ao corpo.

“Ser diferente pode ser perigoso”

A boa intenção do romance também precisaria de atenção à escrita, sem o devido polimento esperado a de livro publicado. Há frases em parágrafos longos a jazerem dispersas, incapazes de conectar às demais e por isso acabam prejudicando o foco na leitura. Por exemplo: o parágrafo foca na interação de dois personagens, quando uma frase interrompe esta interação e descreve o clima no cenário. Os diálogos falham na veracidade pela intenção de ressoarem mensagens morais, sempre levando ao assunto em vez de mostrar a história acontecer. Verbos de pensamento desencadeiam descrições rasas, contando os sentimentos do personagem em vez de mostrá-lo viver, interagir na cena. Existe falha na revisão inclusive no título, pois “onde” corresponde a localização de um lugar, então ao apontar o destino de alguém a ir até lá, deveria ser Para Aonde Vão os Suicidas?

Mantendo o título na forma publicada: Para Onde Vão os Suicidas? careceu da responsabilidade em tratar do assunto, o qual esbanjou de boa intenção. Todo o contexto e a exploração fantástica entorno do romance possuem excelentes elementos capazes de motivar leitores a desejarem melhorar as atitudes quanto a prevenção do suicídio. Caso tivesse o empenho de pesquisar as melhores maneiras de abordar o assunto, seria uma obra exemplar a conscientizar jovens ― possível público-alvo do livro ― a ter o cuidado de abordar diferentes casos de intenção suicida.

“Deixe que elas vivam suas próprias ilusões”

* citações copiadas conforme apresentadas no livro

Capa de Para Onde Vão os Suicidas?Autor: Felipe Saraiça
Editora: PenDragon
Publicado em: 2017
Gêneros: fantasia / YA
Quantidade de Páginas: 192

Confira o livro

O Suicídio e Sua Prevenção (Setembro Amarelo)

Desinformação traz o perigo de piorar a situação da qual deseja prevenir, mesmo sob boa intenção. Desvirtuar logo do assunto relacionado a manter vidas pode, infelizmente, acontecer o contrário. Sem atribuir culpa total ao desinformado, pois parte do problema corresponde ao assunto ser tabu, portanto menos acessível, ainda assim há quem estude, segue rigores científicos e assim impede dos sentimentos incitarem julgamentos equivocados. Assim funciona o estudo sobre O Suicídio e Sua Prevenção, escrito por José Manoel Bertolote e publicado pela editora Unesp em 2012, o texto aborda desde a definição do suicídio até as maneiras eficazes de o evitar, comprovadas no momento da publicação.

“Deveríamos começar pela criação de condições para vidas mais significativas e sociedades melhoradas”

Partindo das definições, o autor desenvolve os argumentos ricos em explicação didática. Todo leitor terá facilidade de compreender o conteúdo sem precisar de conhecimento prévio, pois tudo está explicado no próprio texto. Tabelas e gráficos ajudam a mostrar informações condensadas sobre o tópico correspondente, acompanhados de parágrafos elucidativos sobre os dados organizados ali, ou seja, nada dificulta o entendimento do leitor. Talvez seja aconselhável apenas conhecer a importância da metodologia científica para assimilar o porquê das iniciativas de objetivos mais rigorosos serem as mais confiantes quanto a prevenir o suicídio ― breve explicação: tendo metas definidas, é possível avaliar a eficácia da iniciativa, bem como replicá-la caso outro grupo julgue algum erro na metodologia, este têm a possibilidade de testar e assim discutir a melhor abordagem. Por outro lado, explicar a metodologia científica implicaria em desviar do assunto, cuja extensão é sucinta, mas ideal de abordar a quem deseja aprender sobre a prevenção do suicídio, podendo aprofundar depois em materiais complementares.

“Deuses e religiões não eliminam o absurdo, apenas o ocultam”

Embora a abordagem na escrita impede de surgir dúvidas ao leitor, tem uma afirmação contraditória por deixar de informar por completo. O autor reconhece a possibilidade dos registros das tentativas de suicídio serem subestimados, e quando trata sobre as tentativas, afirma das mulheres realizarem com mais frequência por causa do método empregado entre as pessoas deste sexo ocasionar em menos mortes. Apesar da observação resultar dos dados disponíveis, o autor poderia levantar a questão da subnotificação como contraponto capaz de tornar esta afirmação falseável, ou talvez ter explorado melhor esta situação que comprove de as mulheres tentarem mais vezes por esse motivo.

O Suicídio e Sua Prevenção tem conteúdo fiel ao título, começa a abordar da definição e fatos sobre o suicídio, em seguida discute sobre os meios de prevenção. O livro é excelente a qualquer pessoa ler sem dificuldade de assimilar, incentiva a consciência ao abordar este assunto, podendo assim impedir das pessoas limitadas a terem apenas boas intenções acabarem prejudicando a prevenção.

“E o futuro não existe, vivemos aqui e agora”

Capa de O Suicídio e Sua PrevençãoAutor: José Manoel Bertolote
Editora: Unesp
Ano de Publicação: 2012
Gênero: acadêmico / técnico / não ficção / suicídio
Quantidade de Páginas: 138
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Alerta de Gatilho Relacionado ao Suicídio

Ainda há poucos exemplos de produtoras e editoras atentas a efeitos negativos de certa cenas, capazes de comprometer pessoas sensíveis a reviver o passado traumático ou incentivar a cometer automutilação. Cenas de estupro, violência e consumo de drogas podem significar pouco à maioria dos espectadores, por outro lado transtorna a minoria quando poderia evitar apenas avisando sobre determinado conteúdo, publicando notas de alerta de gatilho.

Avisar sobre o gatilho passa longe de ser a carta branca que impedirá as pessoas sensíveis a assistir determinada cena. É muito difícil julgar a intensidade do conteúdo nas pessoas sensíveis, além de fatores subjetivos e do momento mental de quando a pessoa é exposta à cena. Mesmo assim é aconselhável manter o aviso a precaver de tais transtornos, pois o próprio público já procura saber de possíveis gatilhos antes de consumir determinada história. Também há abordagens de tema sensível sem provocar conflito a quem experiencia, até mesmo faz o efeito contrário, o de motivar o debate da situação ou traz pontos de vista esperançosos diante da problematização.

Como o blog traz questões sobre a prevenção do suicídio e publica análises de livros e às vezes de games, este artigo apresenta obras que retratam o suicídio em algum momento e aponta quais deveriam ter alerta de gatilho, além de bons exemplos de abordar esse tema sem expor os leitores/espectadores comprometidos.

Sekiro: Shadow Dies Twice, da From Software

Lançado no primeiro semestre de 2019, Sekiro foi a nova proposta da empresa reconhecida por fazer jogos desafiantes — Dark Souls —, desta vez ambientando os combates no japão feudal. A cena em questão trata de um dos finais alternativos do jogo, então fica o aviso de spoiler — apesar de quem precisar saber do gatilho, pouparei dos detalhes. Este final acarreta em suicídio, prática comum no período retratado no jogo, mas poderia ter maior cuidado em expor. O problema deste ato foi ter parabenizado o personagem por executar a si próprio, servindo de exemplo a outro personagem ter uma jornada semelhante até chegar ao mesmo fim “honroso”. Evite de retratar o suicídio como alternativa.

Depois do Azul, de Élaine Turgeon

A novela foca nas consequências enfrentadas por uma família após perder a filha pelo suicídio. A irmã gêmea idêntica a falecida também sofre, pois muito veem nela o rosto da garota ausente. Sem gatilho algum, o livro sabe retratar a dor da família com a perda do ente querido, abordagem rara na ficção e que pode conectar leitores com situações semelhantes. Ao comprar este livro, parte do valor é repassado ao Centro de Valorização da Vida — CVV.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Apesar da qualidade do livro inquestionável, pode  ser perturbador ler — spoiler Bentinho enquanto decide cometer suicídio. Chega até a procurar pelos remédios que podem fazê-lo mal, tudo ainda explícito em detalhes na narrativa. Ele decide desistir da ideia, de maneira ainda perturbadora: após ver a cena de suicídio no desfecho da peça teatral de Otelo — fim do spoiler. Em suma temos dois problemas, mostrar detalhes de como a pessoa pretende realizar o suicídio e a discussão de oferecer motivos ao realizar este ato — igual a Sekiro. Machado de Assis fez história na literatura, e apesar dessa crítica, tenho nada contra ele ou esta obra em particular, só é preciso cuidado para não levar pessoas sensíveis a este trecho apenas por ser obra clássica da literatura brasileira.

Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

A melhor experiência de leitura deste blog no ano passado passa mensagens lindas sobre a prevenção do suicídio. O livro trata da vila próxima à floresta reconhecida no Japão por muitos realizarem o suicídio por lá. Apesar da situação triste, Valter Hugo Mãe foca na esperança àqueles pretensos a encerrar a vida na floresta, mostra os moradores dispostos a oferecer conforto, dar a oportunidade de repensar a atitude, e por vezes consegue evitar a tragédia. Também vale notar o cuidado em trabalhar nesse lugar reconhecido por haver suicídio, o livro não cita o nome correspondente e até altera sua localização no romance, tirando o foco da floresta em si para destacar a mensagem de esperança.

É possível trabalhar com temas sensíveis e contornar esses gatilhos. Sendo “limitadores” à primeira vista, pode levar os autores a desenvolverem ótimos trabalhos conscientes, sem necessariamente conter mensagem motivadora, também pode trazer abordagens saudáveis a proporcionar debates.

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Saiba o que são “trigger warnings”, ou alertas de gatilho, sobre séries e filmes

Homens Imprudentemente Poéticos

A cultura de uma região exótica à nossa atrai olhares curiosos. Fatos e objetos trazem especulações distintas às sociedades, inspirações de reflexão ou até mesmo regras sociais. É a ficção de um povo virando realidade a partir das crenças.

A junção de palavras dá significados nos modos de expressar, e o trabalho poético nelas provoca sentimentos, tira o leitor do lugar comum e dá a oportunidade de olhar a mesma coisa na perspectiva singular aos relatos. É mais do que olhar a cultura japonesa com olhos estrangeiros, este livro traz o fluxo de interpretações aos leitores a partir da visão do autor.

Homens Imprudentemente Poéticos é o vislumbre do Japão aos olhos ocidentais com liberdade expressiva e poética. Publicado em 2016, conta a intimidade do artesão Itaro e a inimizade com o oleiro Saburo, vizinhos e moradores da vila próxima a floresta reconhecida pela frequência de suicidas no Japão.

Homens Imprudentemente Poéticos - capa

Valter Hugo Mãe é um dos escritores portugueses mais reconhecidos ainda vivos. Usa da prosa poética nos trabalhos literários e tem obras destacadas como O Remorso de Baltazar Serapião no Prêmio Literário José Saramago.

Os meninos, por impulso, erravam muito

Itaro confecciona leques artesanais e os comercializa para garantir a economia escassa da pequena família. Sustenta a irmã Matsu, deficiente visual que lhe gera despesas; e a criada Kame, mantida por tradição familiar. O artesão possui rixa com o vizinho Saburo, oleiro obcecado em cultivar seu jardim e com consciência perturbada por causa da esposa Fuyu.

Vivem próximos da floresta onde os suicidas vêm de todo o Japão e decidem encerrar ou não as suas vidas. Os moradores da vila acolhem quem pretende cometer suicídio e oferecem a oportunidade de refletir nesse desejo, a floresta em si também permite o espaço e tempo necessário antes de decidir sobre a vida. A cultura japonesa possui pensamentos distintos do ocidental quanto ao suicídio, nada justificativo à prática do mesmo, mas conhecer essas diferenças ajudam na forma de prevenir as mortes voluntárias.

Sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz

É injusto me aprofundar no enredo deste romance, a experiência de leitura contará além das citações referentes a trama. As sucessões dos fatos são recheadas com o uso próprio da linguagem pelo autor que tece a impressão das características de outro povo. Diálogos livres de pontuações e outras transgressões gramaticais funcionam como composição sonora na história de sujeitos comuns de uma vila japonesa, e ainda cheios de nuances a conhecer.

Bato palmas pela abordagem do tema tão complicado como a floresta dos suicidas. Valter Hugo Mãe não cita o nome do local referenciado no romance, e repetirei esta atitude, pois a propagação sobre o local pode servir de motivação a quem pretende cometer suicídio. Eu ficava triste ao ver qualquer notícia relacionada à floresta, e este romance me surpreendeu por me fazer sentir esperança, o autor demonstra que mesmo naquele lugar há a oportunidade de a pessoa voltar atrás, de marcar o ponto e vírgula ao invés do final em sua história.

Homens Imprudentemente Poéticos conseguiu me tocar na história de personagens imperfeitos com escrita de qualidade oposta. Além de elogiar este livro, eu agradeço ao Valter Hugo Mãe por compartilhar esta história. Só lembre-se de me agradecer depois, leitor, quando ler este livro graças a minha indicação.

Morte em Luto (Não ao Suicídio)

Este foi o primeiro texto escrito por mim com a intenção de abordar a prevenção do suicídio. Decidi compartilhar no blog após revisar o conto.

Boa leitura!

Morte em Luto - árvore

O sol castigava o solo com sua intensidade impiedosa no sertão, restringindo a ligeira manifestação de umidade para um nível ainda mais ínfimo. Senhor Inocêncio perambulava com sua pá repousada em seu ombro depois de mais um sepultamento realizado, o quarto somente naquele dia.

O suor refletia o brilho da luz sobre a barba grisalha enquanto o humilde chapéu de palha protegia modestamente a cabeça ausente de qualquer fio de cabelo. No passado o tom de pele estava aquém do que seria considerado um homem de cor, mas o período de cinquenta anos de trabalho a céu aberto no mesmo local definiu uma nova tonalidade ao seu corpo.

Interrompeu seu percurso ao fitar uma criança sozinha sobre o balanço instalado num grosso galho do umbuzeiro. A menina apenas permanecia sentada no banco suspenso de madeira, com a cabeça abaixada e uma foice em sua mão direita.

Os trapos vestidos por ela eram de um pano espesso, recortado improvisadamente para adequar às dimensões da garotinha pequena. O único aspecto peculiar é a cor preta da vestimenta. Ninguém ousava vestir nada escuro sob um clima tão quente.

Seus pés estavam descalços, com algumas unhas quebradas como as de qualquer pessoa trabalhadora no campo, principalmente os desfavorecidos de se ter ao menos um par de calçados, sendo o caso dela.

Ao chegar mais perto dela, via-se lágrimas percorrendo em seu corpo até se juntar às demais numa pequena poça cheia delas no chão. Seu rosto estava imundo, como o resto de sua pele negra, e a mão com a qual mantinha sua foice empunhada estava cheia de calos. Uma visão triste como a de qualquer outra naquele lugar.

“Boa tarde, senhor Inocêncio.” Os olhos verdes maquiados com sombra borrada encaravam o coveiro se aproximando.

Opa, menina! Pode descansar o quanto tu quiser nessa balança. Parece que teve um dia difíci hoje.” O sorriso sincero do coveiro não foi capaz de animar a menininha, embora ela também tenha respondido com uma flexão nos lábios. “E como sabe meu nome?”

“Eu não estou descansando, Inocêncio. Estava esperando pelo senhor. Como pode ver eu empunho uma foice para ceifar o que deve ser colhido, mas não sou uma colhedora de verduras. Eu ceifo almas, e está na hora de eu pegar a sua, pois eu sou a Morte.”

Ficava evidente o semblante tenso na garota ao ter de explicar o seu trabalho para mais uma pessoa. Desviou seu olhar da vítima, a garganta ficou contraída ao terminar sua fala ao mesmo tempo em que exerceu mais força na mão que segurava a foice; da mesma forma que acontecia todas as outras vezes.

As feições de suas vítimas mudavam abruptamente ao anunciarem o seu fim, os lamentos se manifestavam de uma só vez no indivíduo, transformando-o em uma criatura desesperada por achar sua partida acontecer cedo demais.

Só que isso não ocorreu com o coveiro. Seu instrumento de trabalho foi ao chão, mas seu sorriso não desvaneceu, na verdade até abriu-se para apresentar os dentes amarelados entre alguns vãos dos que já não estavam presentes em sua boca.

Intão posso dizer que a gente é colega de trabalho? Por causa de tu eu tive bastante serviço essa semana.

“Sua reação me impressiona, Inocêncio. A maioria teme à mim quando eu me apresento a eles, até mesmo para quem convive com a morte durante toda a vida.”

É natural partir, minha fia. Não posso me deixar triste agora que descobri que a morte é tão bonita.

O elogio arrancou um sorriso verdadeiro na garota. Não se esperava um tratamento admirável numa ocasião tão desconfortante. No entanto até ela mereceria uma frase carinhosa nesse dia.

Tu sempre lamenta quando leva a vida do povo?” questionou Inocêncio.

“Desculpe, não costumo ser assim. É que hoje aconteceram muitas coisas ruins.

“Tive de ceifar muito mais do que o previsto”, continuou a garota. “O fim acontece em muitos lugares distantes, mas a maioria é premeditada. Só que hoje muitas pessoas antecederam sua morte cometendo suicídio. É uma atitude pensada muitas vezes de cabeça quente, que é executada praticamente na hora e sem algum planejamento.”

Um vento seco derrubou algumas das poucas folhas da árvore que caiu nos cabelos avermelhados da menina, não que alguns ramos secos a mais sobre o seu corpo a incomodasse.

“Isto aumenta a minha carga de trabalho pelo número de pessoas a mais sem nenhuma previsão, e eu não gosto de coletar almas desta forma. Quantas vezes eu já não testemunhei um indivíduo que teria seu grande sonho realizado caso não tivesse se matado um mês antes? Sem falar da tristeza dos familiares ao descobrirem o ocorrido, sendo que alguns eu ainda vi se lamentando pela sua perda quando eu os reencontrava para recolher sua alma.”

A maquiagem da criança tornou a ficar ainda mais borrada, com riscos negros rabiscados até a bochecha, e Inocêncio tirou o sorriso de seu rosto.

Intendo sua dor, menina bonita. Aqui nesse tempo todinho de trabalho tive poucos casos desse, mas era de partir o coração.

“Obrigada por me permitir desabafar, o senhor é muito gentil. Talvez o mais simpático que conheci por um bom tempo.” Seus soluços intermitentes ficaram mais fracos, e a voz menos esganiçada. “Estou até feliz em finalmente poder te livrar daquelas tosses cheias de sangue, do incômodo da urina que não consegue atravessar as pedras em seu rim, e de sua coluna comprometida que o senhor disfarça tão bem enquanto exerce seu ofício com tanto afinco.”

A garota desceu da balança, e um vento gelado chegou repentinamente às costas de Inocêncio, como se o sol tomasse distância somente dele naquele momento. A menina o fitava enquanto ele ficava de joelhos, finalmente cedendo após suas pernas tremerem desde o último enterro, uma fadiga a ser extinta em breve para o repouso eterno.

“Basta um toque meu em qualquer parte do seu corpo para tudo acabar”, explicou a mocinha. “Como deseja ter seu fim, Inocêncio?”

Se posso escolher o jeito, intão eu não exijo mais que um beijo na bochecha esquerda, igual a minha netinha Adria me dava todas as manhãs, até sepultar ela há três semanas atrás.

“Você realmente é um amor de pessoa, Inô. Logo reencontrará Adria bem ao seu lado.”

Conforme pedido, os lábios quentes estalaram na bochecha do coveiro o qual deu um último suspiro para se despedir da terra seca. Uma chama branca tornou-se presente na foice da menina, colhendo finalmente a alma do coveiro mais simpático dos cemitérios, cujo corpo estava repousado e protegido da luz sob os galhos da árvore sagrada do sertão.

Down the Road (Romance/Thriller)

Há muitas formas de expressar o amor através da literatura: dos mais suaves a quentes; dos inocentes aos tenebrosos; e dos e viveram felizes para sempre ao até que a morte os separe. 

Este livro se trata da segunda opção de cada comparação citada. A mistura do thriller com romance elabora uma trama em que o amor dá forças à sobrevivência mesmo nos momentos mais bizarros e mortais. 

Down the Road trata deste romance cujo casal protagonista se torna vítima de uma seita fanática. Publicado pela Luna Editora em 2017, a narrativa alterna entre o passado dos personagens com a trama principal. 

Down the Road - capa

A autora V. Evans é o pseudônimo de Vivane Furtado. Formada em pedagogia, fluente em três idiomas. Até o momento possui dois livros publicados e posta ocasionalmente em seu blog pessoal. 

Ninguém percebe se está sendo educado enquanto aponta uma arma 

Lídia e Adrian são um casal e membros da banda Porridge 101, cuja tradução mingau tem tudo a ver com o estilo metaleiro. Eles conseguiam se manter com a venda de CDs e shows por todo o Brasil. 

O estilo musical muitas vezes não compreendido gerou revolta quando uma fã assassinou três colegas de escola e cometeu suicídio numa cidade remota. O casal vai até a cidade prestar uma homenagem a garota, mas são pegos pelos habitantes fanáticos de uma seita local. 

Destaca-se a abordagem feita ao tópico tão sensível como o suicídio. Não houve citações que poderiam minimizar a situação ou incentivar a prática de alguma forma. 

No decorrer dos capítulos ocorrem avanços quanto aos dois mantidos em cativeiro e torturados, mas também conta a história íntima do casal em outros trechos, além da história de cada personagem apresentado no livro. A quantidade de descrições sobre a vida dos personagens secundários é exagerada e muitas não colaboram com a trama. 

Não tinha sido uma boa cantada, mas ela o achou bonito 

A composição do casal não me impressionou pela sua aparência física. Está bastante detalhada não só nesses dois, mas em outros personagens. Não achei nada chamativo, só a beleza padrão descrita nas aparências. 

Por outro lado, a relação amorosa foi bem desenvolvida. A persistência no desejo de proteger o cônjuge quando a própria vida está em risco e a relação íntima do casal com alguns defeitos mostrados ao longo da história demonstram o quanto o amor pode ser mais do que uma relação íntima entre pessoas. 

Os erros de edição são constantes. Identifiquei ausências de acentos, frases repetidas, e pontos finais antes e após as aspas. A pontuação de diálogos é feita por hifens em vez de travessões. 

Com menos de duzentas páginas, Down the Road precisa se aprimorar na edição. Entrega um romance dentro de uma história com comportamentos macabros e a persistência da vida perante as dificuldades.


Links Externos

Livro físico

Site da autora

Ascensão – Bruno Crispim

O livro a ser analisado neste post é pequeno, objetivo e fascinante; com uma reviravolta no final de fazer o leitor abrir a primeira página e ler tudo outra vez.  Mesmo a abordagem da religião não sendo um dos meus maiores interesses, o carisma do protagonista roubou toda a atenção nesta história incrível. 

Ascensão foi publicado em 2017 na plataforma da Amazon. Uma história de suspense que aborda temas de espiritismo e suicídio. 

Ascensão - capa

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista Miguel, um médium que orienta espíritos na sua Ascensão aos céus. Acompanhamos a aventura dele com o espírito de Darla, uma adolescente cuja principal suspeita da sua morte é o suicídio.

De autoria de Bruno Crispim, autor do romance O Segundo Caçador, este vencedor do III Prêmio UFES de Literatura. Além de romancista, possui um conto publicado na coletânea do Escritor Profissional e possui destaque no Wattpad com o livro Guia do Escritor Iniciante, onde compartilha o seu aprendizado sobre a escrita e o mercado literário. 

 Vivi preso, mas livre. Entre loucos, mas lúcido

Difícil de ver livros com uma leitura tão fácil quanto este. Os capítulos são curtos, assim como os parágrafos. A composição das palavras foi bem-feita para contribuir com um ritmo fluído de leitura. Cada frase era interligada com a seguinte, sem devaneios ou descrições de pouca importância. Tudo contribui para uma leitura sem pausas. 

Os personagens soam naturais, com diálogos cheio de jargões correspondentes à sua personalidade e maturidade. O modo de falar do Miguel também reflete na sua narração, é fácil se apegar a este personagem tão carismático e, ao mesmo tempo, rabugento. 

Sendo um médium, vê-se o preconceito encarando Miguel em cada passo. É uma luta quase impossível de vencer sempre que é preciso convencer um personagem secundário sobre seus dons, ao passo que o leitor aceita fácil a capacidade espírita do personagem, ou talvez não. 

Teve bastante coragem em trazer na trama o tópico de suicídio. Darla não foi a única relacionada ao tema durante a história. Os casos foram se elencando com muitos conhecidos de Miguel. 

Uma abordagem equivocada em um desses casos, e a história refletiria em ações reais igual o ocorrido em Os Sofrimentos do Jovem Werther ou 13 Reasons Why 

Mesmo que possa parecer uma solução em determinado momento, logo em seguida demonstra o quanto essa atitude é errada, que só traz dor aos familiares e próximos. Contudo há uma exceção que aconselho o autor revisar, uma passagem rápida em que citou o suicídio de um personagem como consequência de um único evento. Esta abordagem simplista quanto ao tema pode servir de má influência. 

Três batida rápidas e o jornal desliza por baixo da porta

A história termina com um choque. O leitor poderá se sentir perdido, sem saber no que acreditar. Tive duas interpretações distintas ao chegar na última página. Na primeira leitura eu me inclinei a uma interpretação por causa da influência que o Miguel me proporcionou com o seu carisma, resultado da excelente narrativa e construção do personagem. Na releitura eu fui mais cético, e acabei concordando com a segunda interpretação. 

Encontrei alguns deslizes na revisão do livro. Às vezes uma palavra estava em falta, outras em que algo deveria ter sido retirado, além de poucos erros de digitação. Não são nada que prejudique a experiência no todo, exceto aos leitores mais rigorosos. 

Aos que querem se surpreender em um suspense curto, com diálogos divertidos entre um médium e um espírito adolescente, e ainda ser desafiado a te fazer pensar no final, recomendo esta obra nacional do Bruno Crispim, autor que tem muito a oferecer e a ensinar com sua própria experiência. 


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