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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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A Dança dos Mortos (Crônicas da Aurora, vol 2)

Continuo a falar sobre morte, afinal a amostra anterior foi pequena.

A história progride por meio das tragédias. Reis caem, reinos entram em perigo, o mundo pode colapsar e dar espaço a outro. O destino é incerto, Deuses manifestam suas apostas sem garantir o vencedor. A guerra traz perda a todos, os vencedores apenas ganham a oportunidade de testemunhar mais tragédias que os perdedores. Quando acabará? Nunca! No máximo conquista momentos de paz, até a história decidir a progredir outra vez…

A Dança dos Mortos continua a história dos três países de Dünya apresentada em A Face dos Deuses. Publicado em 2018, demonstra as tentativas dos líderes de cada país a favorecer o seu lar e a ambição nem sempre transparente. 

A Dança dos Mortos - capa

Gleyzer Wendrew traz a continuação desta saga sombria com elementos fantásticos. Violência, política e podridão lapidam a imagem de seus textos. Trabalha na Hydra Produções Editoriais e atua como co-host no podcast LeituraCast de Autores para Autores.

Traiu nosso povo, nossa cultura, nossa história… Traiu nosso Deus!  

Personagens têm poucas oportunidades de lamentar da Grande Guerra acontecida no passado entre os três países de Dünya, pois o conflito a seguir promete ser ainda maior. Os reinos sofrerão mudanças das conspirações iniciadas no primeiro volume de As Crônicas da Aurora: uma seita demonstrará certo potencial contra Vatria, guerra interna promete colocar Maäen nos eixos, e Venn enfrentará ameaças externas.

O menor dos três países enfrentará outro povo, os tribais estrangeiros reunidos sob comando de Azrael, um vatriano renegado e convicto em ser capaz de subjugar Venn e coletar os recursos do país. Mais que isso, os tribais contribuem na revelação do passado de Dünya, esse desconhecido pelos registros disponíveis nos três países. 

Limpou o rosto com a mão suja de alívio  

A Dança dos Mortos compensa o vazio sentido ao acabar de ler A Face dos Deuses. Com quinhentas páginas, tem espaço o suficiente em conhecer as diversas faces dos locais e dos vários personagens, alguns inéditos neste segundo volume. Facilita inclusive a entender os diversos aspectos deste mundo, pois já tem informações prévias do livro anterior, além da mão sutil do escritor levando o leitor aos diversos pontos com mais calma, as centenas de páginas dão tempo o suficiente para apresentar as características de Dünya enquanto a história progride com as mortes.

Nada deixa a desejar. Os capítulos continuam com a mudança de foco entre personagens, todos com oportunidades de apresentar seu ponto de vista e ambição. Difícil torcer para alguém, as revelações de caráter são constantes e ainda escondem surpresas posteriores, algumas levantadas lá n’A Face dos Deuses.

Toda esta complexidade beneficia outra característica incrível do livro: é imprevisível. Difícil prever quem a morte alcançará nos vários conflitos ou nas péssimas condições oferecidas por este mundo. O leitor pode fazer apostas, bem como os Deuses; mas o resultado real só é visto na hora. 

Os desfechos em A Dança dos Mortos são aceitáveis e prometem mais surpresas no terceiro volume. Guerras, violências e reviravoltas estão garantidas caso mantenha a mesma qualidade desta obra.

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Resenha do primeiro volume d’As Crônicas da Aurora (A Face dos Deuses)

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A Face dos Deuses (Crônicas da Aurora vol. 1)

A morte fede, traumatiza e pode transformar pessoas. Atitudes imprevisíveis desencadeiam desastres, além de outras ações ousadas. Na violência constante, a vida escapa do corpo com poucos movimentos. A morte salva os responsáveis por causá-la.

Algo cruel de dizer, porém a realidade é esta. Heróis perdem lugar a assassinos, os personagens cinzentos estão de tons mais escuros. Mate se quiser sobreviver, os civis do reino querem o mesmo caminho, cientes de garantir o futuro longo e próspero através do presente breve e mortal.

A Face dos Deuses apresenta os conflitos existentes entre os três países do continente Dünya. Publicado em 2017, é o primeiro volume d’As Crônicas da Aurora, saga de muita violência e eventos sangrentos.

A Face dos Deuses - capa

Gleyzer Wendrew é autor independente. Além de escrever, trabalha na agência Hydra Produções Editoriais, com serviços a autores com revisão e copidesque, capa, diagramação e assessoria editorial. Também atua como co-host no podcast Leituracast de Autores para Autores, onde um autor convidado fala do tema sugerido no episódio correspondente.

Fez tudo que podia para impedir que sua vida escoasse pelas pedras

Dünya é dividida em três países. Vatra fica ao norte do continente e tem treinamento rígido com novos soldados, é o responsável por desencadear a Longa Guerra que deixa marcas até o momento vigente na trama. Maäen tem o maior território do continente e venceu a Longa Guerra. Venn é o menor dos países, conhecido pela barreira natural das montanhas.

Os povos deste continente acreditam em deuses originais do universo criado. Cada país é mais atento a certos deuses conforme as crenças e eventos vistos.

Apesar da vitória, a Longa Guerra deixa várias perdas; e apesar da derrota, não houve rendição absoluta. O livro conta os acontecimentos e decisões dos principais líderes de cada país (reis, príncipes, generais e comandantes), todos amargurados pelas consequências sofridas no passado. Sem distinção de oprimidos ou opressores, eles garantem a sobrevivência do reino associado através de atitudes extremas, dando ótimas oportunidades para chocar o leitor.

Estava sujo e fedia a raiva e suor

Minha apresentação do enredo citou sequer um personagem da trama por motivo bem simples: são vários, muitos personagens presentes nas cento e poucas páginas do livro. Conhecemos eles a partir das descrições, principalmente pelas atitudes, e as mais chocantes facilitam de lembrar quem é tal pessoa na história.

Gleyzer sabe como aproveitar as figuras de linguagem. Mistura metáforas nas descrições e confunde os sentidos do leitor com combinações ilógicas, mas que provocam a imaginação. É preciso preparar o estômago para as outras descrições, não basta ler o lado visceral dos países em guerra, certos ambientes respiram gore no dia a dia.

A Face dos Deuses é uma introdução aos conflitos a vir em Dünya enquanto oferece detalhes da Longa Guerra no passado. Eu adoraria que o livro entregasse mais, teve muito pouco conteúdo para a proposta deste universo e dos muitos personagens. A história fica com lacunas pendentes ao próximo volume, onde espero ficar satisfeito com o preenchimento dessas.

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Dark Souls 2: Scholar of the First Sin

Existem tempos sombrios. Momentos quando toda uma região colapsa e condena os indivíduos a uma vida tenebrosa e deprimente. Fugir ou aceitar o destino só piora as condições. É preciso vaguear, vestir armadura e encarar a nova vida. Por mais difícil seja a jornada, persista na esperança em meio a dor.

Muitos tentam superar a aventura perigosa. Embora tenham fisionomia e talentos diferentes, todos irão perder várias vezes nesse difícil, mas possível trajeto.

Dark Souls 2 é a continuação da aventura feita pelos morto-vivos. Publicado em 2014, traz novos desafios aos jogadores na ambientação de outro reino com nova história a ser desvendada em vez de contada.

Trailer

From Software definiu novos paradigmas de jogo com um sistema desafiante e forma sutil de apresentar o enredo aos jogadores, sem contar da maestria de transmitir sentimentos durante a jogatina como em Bloodborne.

Busque almas. Almas maiores, mais poderosas

O protagonista é alguém definido por quem joga, seja pela aparência, na origem e evolução de suas capacidades conforme avança no jogo. Independente da escolha, o personagem é apenas outra pessoa amaldiçoada com a imortalidade, um morto-vivo com perigo de perder o resto de humanidade e tornar a criatura chamada de Vazio, humanoide irracional e sem pretensões.

Dark Souls 2

Há a possibilidade de desfazer a maldição no reino de Drangleic, local arruinado que abriga seres lendários do passado, todos degenerados pelos segredos a descobrir durante o jogo. Só fica o aviso: muitos tentaram, nenhum conseguiu.

Você perderá suas almas… todas elas. De novo e de novo

O ambiente sombrio não define este jogo o suficiente, a palavra melancolia é que explica a atmosfera de Dark Souls 2. Cada passo atrai novos desafios, e a recompensa de seguir adiante é a oportunidade de enfrentar perigos maiores. Encaramos algumas pessoas de capacidades incríveis nos tempos do rei Vendrick, agora todos degenerados. Sombras do que já foram, ainda assim perigosas. Apresenta o ciclo constante de depressões mesmo após as ascensões de personagens marcantes, as paredes sustentam apenas os detritos da glória uma vez existente.

Estratégia deve compensar as fraquezas de cada personagem no sistema de progressão livre, e por isso perigoso. Deve aproveitar a vantagem, atacar durante a brecha do oponente enquanto o restringe de explorar suas limitações. E depois de vencê-los? Há muitos outros até o fim da jornada, quando no máximo traz a esperança momentânea, pois como todos sabem, existe o Dark Souls 3.

Dark Souls 2

Há também a possibilidade de conferir a história de reis antepassados dos reinos também despedaçados na região de Drangleic. Mais ruínas escondem resquícios de talentos dos guerreiros lendários e amaldiçoados. Magias e criaturas complementam o ciclo conhecido de Dark Souls com os desafios mais difíceis do jogo.

E em toda esta ambientação melancólica, há quem possa se exaltar e glorificar sobre o avanço de obstáculos dos chefes e armadilhas mais sinistros. Os jogadores levam seus avatares amaldiçoados aos lugares perigosos e os condenam várias vezes até vencer o sistema rigoroso e gratificante a quem supera.

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