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O Suicídio e Sua Prevenção (Setembro Amarelo)

Desinformação traz o perigo de piorar a situação da qual deseja prevenir, mesmo sob boa intenção. Desvirtuar logo do assunto relacionado a manter vidas pode, infelizmente, acontecer o contrário. Sem atribuir culpa total ao desinformado, pois parte do problema corresponde ao assunto ser tabu, portanto menos acessível, ainda assim há quem estude, segue rigores científicos e assim impede dos sentimentos incitarem julgamentos equivocados. Assim funciona o estudo sobre O Suicídio e Sua Prevenção, escrito por José Manoel Bertolote e publicado pela editora Unesp em 2012, o texto aborda desde a definição do suicídio até as maneiras eficazes de o evitar, comprovadas no momento da publicação.

“Deveríamos começar pela criação de condições para vidas mais significativas e sociedades melhoradas”

Partindo das definições, o autor desenvolve os argumentos ricos em explicação didática. Todo leitor terá facilidade de compreender o conteúdo sem precisar de conhecimento prévio, pois tudo está explicado no próprio texto. Tabelas e gráficos ajudam a mostrar informações condensadas sobre o tópico correspondente, acompanhados de parágrafos elucidativos sobre os dados organizados ali, ou seja, nada dificulta o entendimento do leitor. Talvez seja aconselhável apenas conhecer a importância da metodologia científica para assimilar o porquê das iniciativas de objetivos mais rigorosos serem as mais confiantes quanto a prevenir o suicídio ― breve explicação: tendo metas definidas, é possível avaliar a eficácia da iniciativa, bem como replicá-la caso outro grupo julgue algum erro na metodologia, este têm a possibilidade de testar e assim discutir a melhor abordagem. Por outro lado, explicar a metodologia científica implicaria em desviar do assunto, cuja extensão é sucinta, mas ideal de abordar a quem deseja aprender sobre a prevenção do suicídio, podendo aprofundar depois em materiais complementares.

“Deuses e religiões não eliminam o absurdo, apenas o ocultam”

Embora a abordagem na escrita impede de surgir dúvidas ao leitor, tem uma afirmação contraditória por deixar de informar por completo. O autor reconhece a possibilidade dos registros das tentativas de suicídio serem subestimados, e quando trata sobre as tentativas, afirma das mulheres realizarem com mais frequência por causa do método empregado entre as pessoas deste sexo ocasionar em menos mortes. Apesar da observação resultar dos dados disponíveis, o autor poderia levantar a questão da subnotificação como contraponto capaz de tornar esta afirmação falseável, ou talvez ter explorado melhor esta situação que comprove de as mulheres tentarem mais vezes por esse motivo.

O Suicídio e Sua Prevenção tem conteúdo fiel ao título, começa a abordar da definição e fatos sobre o suicídio, em seguida discute sobre os meios de prevenção. O livro é excelente a qualquer pessoa ler sem dificuldade de assimilar, incentiva a consciência ao abordar este assunto, podendo assim impedir das pessoas limitadas a terem apenas boas intenções acabarem prejudicando a prevenção.

“E o futuro não existe, vivemos aqui e agora”

Capa de O Suicídio e Sua PrevençãoAutor: José Manoel Bertolote
Editora: Unesp
Ano de Publicação: 2012
Gênero: acadêmico / técnico / não ficção / suicídio
Quantidade de Páginas: 138
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A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói (Antofágica)

A morte é inevitável, esta frase de significado comum e óbvio a qualquer pessoa, exceto quando aproxima a hora dela. Ao experimentar a vida durante toda a existência, de qual maneira poderia acostumar com a morte? Alguns escolhem rememorar os feitos passados, avaliando o quanto valeu a pena viver neles, afinal o momento a seguir é o fim, sem muito a presumir dele senão as consequências da partida. A Morte de Ivan Ilitch explora toda a questão da morte na perspectiva da família de um burocrata russo, escrito por Liev Tolstói em 1886 e traduzido por Lucas Simone na edição da Antofágica, lançada em 2020.

“A história pretérita […] era a mais simples e comum e também a mais terrível”

A história começa com a notícia da morte do protagonista entre os colegas de trabalho. Mal desenvolve a tensão pesarosa da partida do exemplar burocrata, e os colegas já traçam planos quanto a ocupar os possíveis cargos rearranjados a partir da vacância a de Ivan Ilitch. O funeral demonstra a vida das pessoas próximas de Ivan seguindo adiante, já os capítulos seguintes focam na vida do protagonista, desde a educação, formação profissional e familiar, até retomar o acontecimento culminante das cenas do primeiro capítulo.

“Tudo se fazia com mãos limpas, camisas limpas, palavras francesas e, sobretudo, na mais alta sociedade”

O autor conta toda a vida do personagem nesta história sob o gênero de novela, ou seja, de poucas palavras a desenvolver a trama a percorrer todos os anos de Ivan. Assim o narrador recorre a narrativas pontuais, contar passagens de tempo em poucos parágrafos, para então chegar no momento de estender as frases a situações constantes as quais pretende explorar, a consciência do personagem quanto a morte. Durante a descrição pontual da vida do protagonista, o narrador permanece distante, relata sobre os feitos dele e contextualiza os pensamentos diante das etapas da vida. Comentar a passagem desta forma deixa até a entender que esta parte da história é entediante, graças à escrita do autor ocorre o contrário. Ao compilar a história de Ivan, o narrador não conta, e sim mostra os aspectos sociais envoltos ao personagem responsáveis por influenciar determinadas escolhas.

Depois o narrador aproxima do personagem, pois chega o momento de compartilhar a dor dele por meio das palavras. Assim a escrita toma outro rumo, apesar de aproveitar o que trouxe do começo da vida de Ivan nesta novela. As cenas trazem as consequências quanto ao modo de vida do protagonista, agora enfrentadas pelo Ivan moribundo, consciente de sua partida, reagindo da condição a tornar a situação cada vez pior. O narrador segue Ivan até o fim, é incansável enquanto transcreve as palavras sentidas pelo protagonista, assim consegue mostrar ao leitor o sofrimento até chegar ao fim.

A Morte de Ivan Ilitch é um livro bem escrito a ponto de provocar sensações ruins na leitura, de tão realistas ao retratar os últimos momentos de Ivan. Aborda ainda várias questões pontuais da vida burocrata na Rússia na época descrita pelo Tolstói, demonstrando os aspectos sociais de quem trabalhava no serviço público naquela ocasião e as maneiras possíveis de seguir adiante neste tipo de vida tão bem questionada pelo próprio protagonista em determinado momento.

“[…] fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas que ocupavam os mais altos postos”

Capa de A Morte de Ivan Ilitch, na edição da editora AntofágicaAutor: Liev Tolstói
Tradutor: Lucas Simone
Ano da Publicação Original: 1886
Edição: 2020
Editora: Antofágica
Gênero: novela / literatura russa / literatura clássica
Quantidade de Páginas: 312

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1499: O Brasil Antes de Cabral (Reinaldo J. Lopes)

Este blog já realizou várias abordagens sobre aspectos nacionais ocultos ou negligenciados por nós mesmos, ou ainda graças da carência de informação. Fora da abordagem literária, desta vez temos uma obra técnica a comunicar sobre os empenhos acumulados a entender mais sobre o chão onde pisamos, focando no tempo antes da colonização. 1499: O Brasil Antes de Cabral conta sobre a diversidade dos povos indígenas conhecidos através de trabalhos arqueológicos. Publicado em 2017 por Reinaldo José Lopes através da editora Harper Collins.

“Dizem por aí que o passado é outro país, não é?”

Quem esperar um livro dedicado sobre a vida dos tupi-guarani, xingu ou mundurucu, pode acabar surpreso do livro abordar muito além disso. Na verdade o foco está na vida indígena por aqui, retratada em ordem cronológica desde as possibilidades desses povos conseguirem imigrar no continente americano, da vida cotidiana de grupo caçadores-coletores, da formação de várias sociedades distintas e da maneira em estender o domínio pelo continente, até os motivos de sucumbirem após a chegada do povo europeu.

Conforme pontua os eventos cronológicos, Reinaldo fala da vida da tribo correspondente àquele período, deixando claro de onde retira esta informação e confessa quando há divergências entre os acadêmicos, ou mesmo dúvidas. Os acadêmicos encontram várias limitações quanto ao conhecimento dos povos antigos, ainda precisam encontrar muitas respostas pontuais para enfim montar um cenário completo da vida antepassada, por enquanto há discussões especulativas até as futuras evidências as confirmarem ou negarem. Talvez torne o livro menos atraente aos leitores por abordar esses furos e divergências ao longo dos capítulos, porém o autor fez bem em tornar esta situação das pesquisas transparente, pois assim mantém o aviso das informações contidas neste livro estarem sujeitas a mudanças em pesquisas futuras. Outro motivo positivo é o de demonstrar a partir desta abordagem de como a pesquisa acadêmica está suscetível a mudanças nos conceitos e contextualizações conforme ela avança, mostra o quanto a discussão entre pesquisas divergentes só favorecem ao melhor entendimento do todo.

A abordagem do conteúdo é excelente, por outro lado o livro deixa a desejar no desenvolvimento da escrita. O autor tenta amenizar a parte técnica usando de tons informais ou mesmo faz brincadeiras com os termos, e isso foi insuficiente. Faltou concentrar a narrativa nos pontos interessantes das pesquisas, por vezes concentrou mais em mostrar os contrapontos do tópico abordado ― algo importante de fazer, conforme dito no parágrafo anterior ― sem ao menos atiçar o leitor a este tema, deixando assim o interesse subjetivo, ou seja, depende mais do interesse particular de quem lê por causa da falta de motivação. A sinopse promete a abordagem de metrópoles “perdidas”, redes de comércio, grandes monumentos e tradições artísticas espetaculares; porém tudo isso demora a aparecer. O próprio autor confessa de quase toda a metade do livro ser o prólogo sobre a vida dos indígenas, e então narra a maioria dos pontos interessantes adiante. Poderia focar a escrita nos tópicos em vez da ordem cronológica, esta deixando em segundo plano ao desenvolver a evolução da construção dessas metrópoles e comércio; desta forma teria êxito em instigar a curiosidade do leitor, e então presenteá-lo às discussões técnicas.

“Os Tapajós teriam o costume de ‘temperar’ a comida de indesejáveis […] eliminá-las no melhor estilo ‘Game of Thrones’”

1499: O Brasil Antes de Cabral é excelente quanto ao conteúdo e a transparência sobre as abordagens divergentes das pesquisas e das limitações do conhecimento ainda em desenvolvimento sobre os povos habitantes desde antes dos europeus. Poderia ser ainda melhor caso dedicasse esforço em montar os tópicos de modo mais interessante, tarefa nada fácil que pelo menos tornaria este livro excepcional a todos os curiosos pelo conteúdo. Já na edição vigente, ainda pode ser excepcional a leitores já acostumados com abordagens arqueológicas ou a quem esforçar mais em compreender as discussões elencadas pelo Reinaldo.

“O maior rio do mundo não ganhou seu nome atual por acaso”

1499 - capaAutor: Reinaldo José Lopes
Editora: Harper Collins
Ano de Publicação: 2017
Gênero: texto acadêmico / arqueologia / história
Quantidade de Páginas: 248

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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Final Fantasy VII Remake (A nova versão do clássico)

Após tanto tempo de promessas, a espera acabou! Um dos jogos mais bem reconhecidos da franquia foi refeito, atualizado à tecnologia e jogabilidade, sem esquecer da reelaboração da narrativa, esta responsável por multiplicar as primeiras dez horas do jogo original em três ou até cinco vezes. A dedicação aos detalhes vai além da fisiologia dos personagens e da arquitetura da cidade, a história ganha mais espaço ao explorar as nuances de Midgard por mais tempo. Está na hora de conferir a nova versão de Final Fantasy VII, Remake feito pela Square Enix com a primeira parte lançada agora em 2020.

“O planeta sangra verde, como você e eu sangramos vermelho”

Midgard é a metrópole de recursos tecnológicos avançados graças às reservas de energia chamadas de mako. Construída em forma de círculo, possui dois pavimentos: o superior construído por plataformas conectadas e estendidas por toda a cidade, onde abriga os recursos avançados e as pessoas com melhores poder aquisitivo; já o nível inferior fica no solo da cidade, moradia de pessoas carentes cujo sol bloqueado pela plataforma superior é substituído por geradores de energia mako. Ambos os pavimentos são divididos em oito setores, cada um contendo usina de mako.

O grupo Avalanche repudia o uso de mako por razões ambientais, afinal a fonte desta energia é a própria vitalidade do planeta. A equipe deste grupo liderada por Barret decide invadir e destruir a usina do Setor 1, contando com a ajuda do mercenário Cloud Strife, ex-membro da SOLDIER, equipe de soldados aprimorados com mako treinados e desenvolvidos pela Shinra, a empresa que produz a energia, controla a cidade de Midgard, e possui ambições ameaçadoras a ponto de sacrificar a própria cidade ao satisfazê-las, e ainda assim perde a disputa do antagonismo principal — sim, aquele mesmo.

Grupo Avalanche - Final Fantasy VII Remake

Avalanche deixando sua marca em Midgard

“Eles querem fazer disso um espetáculo? Então bora dar um pra eles!”

Sem estender esta resenha nas repaginações visuais ― estas nostálgicas a recriar mesmo detalhes dos principais lugares do jogo original ―, vamos ao foco do blog e prosseguir na análise de enredo. A apresentação dos personagens de Avalanche e Cloud é feita em cenas consecutivas de ação, todas as falas são espontâneas e revelam comportamentos dos personagens. Batalhas travadas em posições e em turnos acabaram, o ambiente faz parte da jogabilidade, servindo de proteção contra ataques, levado em consideração na estratégia. Pode explorar pontos fracos ao mirar em determinadas partes dos adversários, algo nada sofisticado igual Horizon Zero Dawn, é apenas outro recurso a planejar ao longo da luta.

A comunidade do piso inferior

A comunidade do piso inferior

Após a apresentação, o Remake começa a mostrar a proposta de fazer o jogo inteiro focado em Midgard. De fato elaborar este lugar tão complexo em detalhes apenas a passar poucas horas na versão original foi um desperdício necessário ao suprir todo o conteúdo com a tecnologia vigente. Hoje há a possibilidade de os jogos estenderem o conteúdo por meio de expansões, dedicando maiores esforços na mesma ambientação, trabalho abusado pelos desenvolvedores desta primeira parte do jogo, para a alegria dos fãs. Entre os diálogos agora de fato falados, há muitas características acrescentadas em Midgard, novos personagens e conflitos a resolver. Wedge, Biggs e Jessie agora possuem os próprios arcos dentro da narrativa principal, tornando-os mais memoráveis por ter motivos ao jogador importar com eles.

“Pode crer. A gente já podia ter morrido umas mil vezes”

Ainda estamos falando em adaptar um trabalho antigo aos moldes atuais, e isso gera dilemas no tanto os produtores podem modificar e ainda manter a essência de Final Fantasy VII. Por exemplo: as caricaturas dos personagens foram o recurso usado a princípio a resumir comportamentos dos personagens em pequenos gestos, o que gerou a identidade deles, e portanto manteve na nova versão. Apesar de ser extravagante ver em projetos atuais, tem o apelo nostálgico capaz de prejudicar caso estivesse ausente. As cenas de ação beiram ao exagero, Cloud realiza acrobacias impossíveis enquanto empunha a espada do tamanho dele, e seus rivais fazem o mesmo e sequer suam. Esses exageros tornam as situações do jogo contraditórias, pois ao precisar disparar centenas de balas de Barret até enfim exterminar mesmo os adversários fracos, o mesmo não deveria temer quando alguém apenas aponta o revólver contra ele; isso sendo somente um exemplo dentre muitos.

Midgard - Final Fantasy VII Remake

Midgard: a cidade que nunca dorme

O jogo aproveitou a exploração de Midgard ao máximo durante a campanha principal, já as tarefas secundárias deixam a desejar pelo excesso de simplicidade. Nada além de ir a certo lugar e derrotar monstros, procurar determinada pessoa ou objeto, tem ainda alguns minigames capazes de variar um pouco. Já o que frustra mesmo na jogabilidade é o problema comum nas produções da Square Enix, bastante criticado na resenha de Kingdom Hearts 3, e apesar de ocorrer em situações pontuais nesta versão de Final Fantasy VII, deixa muito a desejar. Com lutas voltadas à ação, nem sempre deixa claro os movimentos dos inimigos, seja pela câmera mal enquadrada incapaz de mostrar o golpe sendo executado, ou pelo tempo de execução tornar inviável do personagem controlado pelo jogador conseguir reagir, por vezes mesmo tomando distância pelo comando de esquivar, ainda é atingido. Os golpes dos inimigos são capazes de interromper a ação dos personagens e prejudica, pune o jogador por algo sequer visto. É mais frequente na luta contra chefes, por elaborar combates mais criativos, porém prejudicados nesses problemas frustrantes nem sempre sob a culpa do jogador.

Final Fantasy VII Remake não substitui a versão original, e sim elabora uma nova criação a partir da ambientação já existida  — deixa tal proposta nítida em determinada etapa do jogo. Com elementos em comum, a jogabilidade é inovada, bem como o aprofundamento dos personagens melhor explorado por dedicar muitas horas em mostrar os respectivos dilemas de cada membro da Avalanche e dos protagonistas. Sem informar quantas partes serão lançadas, a Square Enix pode avaliar o retorno desta introdução da história, então moldar e aperfeiçoar a continuação, portanto seria bom melhorar o combate enquanto cria animações de brilhar os olhos.

“Todos conhecem a verdadeira natureza do mako, mas o povo ignora voluntariamente esse preço”

Final Fantasy VII Remake - capaProdutora: Square Enix
Lançamento: 2020
Série: Final Fantasy #7
Gêneros: aventura / fantasia / cyberpunk / RPG
Plataforma: PlayStation 4
Idioma: legenda em português

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Vidas Secas (e a triste história da cachorra Baleia)

Chegamos em outra história onde o espaço vivido pelos personagens os molda. Difícil importar por algo a vir na frente enquanto agoniza no momento presente. Ciente do lugar e da pobreza, faltam escolhas disponíveis a agir, sobreviver neste tipo de vida. Isto na possibilidade de ao menos existir tal escolha, na verdade, tão raras ao ponto de exaltar, divagar nas possibilidades antes da vida lhe forçar no único caminho. Reconhece o papel na sociedade, papel de bicho, sem jamais perder as esperanças.

Vidas Secas moldam a família de Fabiano, sinha Vitória e ― claro ― a cachorra Baleia. Publicado pela primeira vez em 1938 por Graciliano Ramos, o Grupo Editorial Record lançou a edição comemorativa de 80 anos em 2018, dispondo trechos do manuscrito original de cada capítulo rabiscado à mão pelo autor, exceto no conto Baleia, onde a versão final divide cada par de páginas com o rascunho do texto sob edição.

“Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça”

Fabiano perambula pelo sertão junto à família, composta da esposa sinha Vitória, os dois filhos identificados por todo o romance em menino mais velho e menino mais novo, e a cachorra de nome curioso, Baleia. Tinha papagaio também, este já comido pela família, devido a falta de alimento na perambulação. Os pés eram moldados pelos seixos no solo, aliás todo o corpo era moldado na seca. Um dos filhos cede ao cansaço, logo recuperado pela bronca de Fabiano, único meio de encorajar o filho. Eles chegam enfim a algum lugar, em terreno abandonado onde eles ocupam, conseguem trabalhar e manter um teto sobre as cabeças. Conquistam alívio, pena encontrar novas dificuldades em breve.

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo”

O romance veio a partir de Baleia, de início era o conto isolado, até depois inspirar Graciliano a rabiscar mais capítulos sobre a família de Fabiano. A cachorra humanizada pela narrativa sofre os últimos momentos de vida, confusa de tanto sofrimento sob o punho de quem sempre lhe cuidou e tratou feito família. A escrita esboça o medo sentido pela personagem, a reação dela com toda a dor, e finaliza revelando o desejo dela, deixa o fim implícito para o leitor sentir o desfecho da coitada. Igual a raposa de Ninho de Cobras, a cachorra sofre a descoberta da tragédia, e a história desta repercute na criação dos demais capítulos, de certo modo sendo contos entrelaçados na mesma narrativa, sobre os acontecimentos anteriores e posteriores deste episódio da Baleia.

Quanto ao resto da narrativa, é sobre a história de toda a família. Dedica capítulos/contos dedicados a cada personagem, bem como alterna o ponto de vista de um a outro entre os parágrafos. Fabiano toma a maior parte da narrativa pela proporção da responsabilidade. Seus defeitos são explorados na história, sempre lembra da família a cuidar diante das oportunidades perdidas por causa dela. Sinha Vitória tem as devidas responsabilidades, além de sobreviver por meio de desejos e da sabedoria a qual Fabiano aprende admirar. E sobre os filhos, é melhor ler o final do livro e descobrir por conta própria, admirar a esperança resiliente mesmo nas dificuldades impostas.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha”

Capítulos breves e de pouca quantidade provocam o defeito do livro em ser curto demais. Por nascer do conto, o autor acrescentou mais narrativas breves até formar a história estreita, restrita à família. Vê pouco além dos personagens principais, apesar do ambiente bem explorado. Ao ler as passagens de cada membro da família, já tem a consciência de a história logo acabar, e disso vem o desejo negligenciado de ler mais sobre Fabiano e companhia pelas poucas páginas restantes.

Vidas Secas demonstra domínio em impor peso dramático sobre os ombros dos protagonistas. A escrita reflete no comportamento dos personagens, os deixam próximos ao leitor e faz este imaginar toda dificuldade passada por eles, com oportunidades humanas tão escassas, que por vezes passam a viver feito animais. Ao mesmo tempo atribui humanidade à cadela quiçá mais importante da literatura brasileira.

“A catinga ficaria verde”

Vidas Secas - capaAutor: Graciliano Ramos
Publicado pela primeira vez em: 1938
Edição: 2018 (especial de 80 anos)
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: ficção regional / clássico
Quantidade de Páginas: 320

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Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Existe algo em comum entre a categorização desta obra em romance moderno e a repercussão após a publicação: incitou discussões interessantes sobre quedas de paradigmas. No primeiro caso há a disputa com livro Dom Quixote quanto a qual dos dois inaugura como romance moderno, no segundo tem acusações direcionadas ao autor por transgredir conceitos já estabelecidos, seja provocar paródias sobre romances de cavalaria ou desnudar o adultério em meio a críticas à moral cristã e demais insinuações de deboche do autor. As qualidades vão além dessas, como será visto ao longo desta resenha.

Madame Bovary é a obra geradora de polêmicas e qualidades literárias. Publicado pela primeira vez em 1856 por Gustave Flaubert e com edição em 2007 pela editora Nova Alexandria sob a tradução de Fúlvia M. L. Moretto, conta da rotina provinciana em vila remota francesa e das aventuras de adultério cometidas por Emma Bovary.

“Aliás, não era ela uma mulher da sociedade e uma mulher casada? Uma verdadeira amante, enfim?”

Primeiro apresenta Charles Bovary desde a infância, um garoto tímido com dificuldade de falar o próprio nome, incapaz de conquistar reconhecimento ao longo da vida. Mesmo depois de estudar medicina, conseguiu apenas graduar como oficial de saúde em vez de doutor, e ainda assim com dificuldade. Segue na vida adulta, ausente de acontecimentos extraordinários. Tem uma esposa, cujo matrimônio dura pouco pela morte abrupta dela. Viúvo ainda jovem, trocou olhares com a Emma, filha do cliente Sr. Rouault, e logo realizou o novo casamento.

Deste momento em diante a Sra. Emma Bovary ganha espaço na narrativa. Ela sofre infelicidades a princípio difíceis de reconhecer, pois o matrimônio soa diferente dos muitos conferidos por ela nos romances literários. Alcançava algum prazer na vida quando interagia em ambientes alheios aos do marido, desejando tê-los com mais frequência e assim conhecer mais pessoas interessantes, homens interessantes… Primeiro com León, e com Rodolphe fica mais intenso. Ela cede à loucura de romper o compromisso fiel e sucumbe no amor vindo de alguém diferente a quem prometeu amar.

“[…] considerava a música menos perigosa para os costumes do que a literatura”

O foco narrativo alterna durante o romance, e isso acontece de um parágrafo a outro, focando também nos demais personagens além do casal protagonista. A mudança de perspectiva adapta não apenas o que o personagem focado presencia, mas ainda reflete o pensamento dele, expõe a opinião sobre determinado assunto conforme a experiência de vida, esta também relatada quando preciso. Nenhuma mudança de foco ou abordagem é explícita, cabe ao leitor perceber as nuances conforme a leitura, favorecendo assim o ritmo narrativo, interessado em mostrar a história.

Tal cuidado permanece na forma de conduzir as descrições, oscilando entre diálogos expostos ou descrevendo a fala do personagem no mesmo parágrafo, este último é na verdade um recurso com que garantiu reconhecimento ao autor pelo uso do discurso indireto livre, aproveitado em obras posteriores ao constatar sua eficiência. Assim uma cena com inúmeros personagens interagindo e conversando poderia ser escrita sem precisar de cada passagem dita em diálogo, fundindo falas com a narração, pintando tudo num mesmo quadro ao invés de desmembrar a imagem descrita em parágrafos quebrados.

Ambientado em vila humilde, a história tem propostas e críticas ousadas na época quando foi publicada. Discute as mudanças políticas após a Revolução Francesa conforme as interações entre os personagens for oportuna. Provoca ceticismo ao cristianismo a partir de determinado personagem numa época e país em que desenvolveu o iluminismo. Já a trama central nem precisa de comentários, a de tornar protagonista uma mulher adúltera, uma afronta aos bons costumes! Além de outras segundas intenções pontuais, sempre a implicar a sociedade pretensa a manter as aparências sem esforçar em corrigir as condutas quando elas estão ocultas.

Madame Bovary é um trabalho de destaque em seu tempo por transgredi-lo e sugerir novos meios de contar uma história. Dentre outras qualidades, abriu oportunidades a romances posteriores em arriscar, questionar valores vigentes por meio do exercício literário.

“Ela bem que gostaria de apoiar-se em algo mais sólido do que o amor”

Madame Bovary - capaAutor: Gustave Flaubert
Ano de Publicação Original: 1856
Editora: Nova Alexandria
Edição: 2007
Tradutora: Fúlvia M. L. Moretto
Gênero: ficção / clássico
Quantidade de Páginas: 360

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Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

O Alienista (Machado de Assis pela Antofágica)

Tenha as melhores intenções, mas caso extravase, as consequências serão as piores. Obcecar-se no objetivo a ponto de abrir mão do resto ― relacionamento, reputação, humildade ― leva a confrontos de pessoas altruístas, inclusive também aos prejudicados pela obsessão, buscando justificativas a interromper suas atividades. Caso essas pessoas falhem em impedir, e portanto garantem mais liberdade na ambição desenfreada, testemunharão o ápice da busca desta pessoa já sem perspectiva há tempos.

Assim acontece a decadência d’O Alienista. Publicado em 1882 na coletânea Papéis Avulsos e com nova edição pela editora Antofágica em 2019, esta novela é outra história clássica de Machado de Assis, também homenageada com ilustrações de Cândido Portinari, presentes nesta edição.

“― A ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”

Simão Bacamarte é um homem da ciência. Vive na companhia da esposa D. Evarista enquanto põe o objetivo da vida em prática: estudar a psicologia. Assim ele inaugura a Casa Verde, instituição onde ele abrigará os cidadãos da vila de Itaguaí com sintomas de problemas mentais. Com o apoio dos vereadores e sob o respeito do padre local, Simão recolhe esses enfermos e procura curá-los enquanto estuda sobre as particularidades da loucura e formula teorias.

Ele vai além e recolhe mais pessoas, essas de comportamentos nada condenáveis à sociedade, quem contesta a decisão do alienista também é trazido à Casa Verde e submetido a tratamento. Assim inicia o confronto entre a sociedade e o estudo de Simão, também poderia dizer discussão entre as duas partes sobre o conceito de loucura e quais limites devem considerar ao tratá-la.

“Era uma via láctea de algarismos”

A narrativa começa focalizando no Simão Bacamarte e demonstra o interesse dele em contribuir com a ciência, desde a escolha da área a atuar até a implantação da Casa Verde. Os capítulos seguintes focam nos demais personagens, concentrando sempre na pessoa afetada pela insistência do alienista de seguir além com o propósito. Assim culmina em discussões de pessoas de conhecimento popular contra o sujeito imbuído de capacidade científica, e por apenas este ter tal visão, todas as outras pessoas carecem de argumentos contrários, tendo assim recorrer a manifestações reativas quando contrariadas pelos objetivos do cientista.

Machado de Assis manipula a questão sobre a loucura e impõe dúvidas sobre a sociedade desde o conceito às consequências. Como identificar alguém louco? Seria a pessoa com comportamento diferente da sociedade? Deveríamos aceitar a palavra de alguém só pelo nível de formação? Ao discordarmos deste suposto profissional, seríamos loucos? O autor aproveita das indagações e alfineta a sociedade com sarcasmos. Sem demarcar os antagonistas entre honestos e loucos, elabora uma confusão proposital nos personagens para desmascarar a ignorância dos personagens que permitem certa pessoa atuar sem escrúpulos. Toda decisão equivocada ou isenção de atitude é devolvida com consequências, ainda mais ao insistir ficar na mercê do poder concentrado, este cujo dono também enfrenta dilemas ao obtê-lo.

O Alienista é uma novela e portanto traz a narrativa concisa quanto ao objetivo. A histórias traz ótimos questionamentos sobre a sociedade e a classificação da loucura, demonstra as consequências quando o controle fica concentrado em uma só pessoa, e também adverte dos problemas quando a sabedoria científica fica limitada a esta pessoa e os demais carecem de conhecimento ao debater com esta, tendo de recorrer a medidas reacionárias ou apelo popular, prejudicando assim a sociedade e a evolução do conhecimento.

“A ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimento de rua”

O Alienista - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Primeira publicação: 1882
Edição resenhada: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: clássico brasileiro / novela / ficção
Quantidade de Páginas: 304

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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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