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Lobo de Rua (Lobisomem nas Ruas de São Paulo)

Nem sempre a fantasia é escapista. Criaturas mitológicas surgem através das abstrações realizadas sob aspectos reais. Além da concepção, a ficção exercita a reflexão e extrapola as abstrações nos mais diversos ambientes, desenvolvem novos argumentos ao ponto exposto pela autora, usa o místico para denunciar a realidade enquanto prepara o terreno propenso a elaborar novas contextualizações.

Lobo de Rua usa conceitos da licantropia sobre a realidade de um morador de rua na capital de São Paulo. Publicado em 2016 por Jana P. Bianchi pela editora Dame Blanche, a novela traz conceitos da história ainda em fase de elaboração pela autora: a Galeria Creta.

“Era o monstro quem estava no comando daquele corpo, e ele só queria comer”

Raul vive nas ruas de São Paulo, é apenas outro rapaz perdido, de mãe desconhecida e invisível à sociedade. Ele sofre a transformação sob a lua cheia, confuso quanto ao ocorrido. Atrai a atenção de Tito, imigrante italiano da mesma espécie de Raul. Adulto bastante experiente, Tito testemunhou outras pessoas no início da transformação antes de Raul, e decide ajudar o rapaz a compreender a maldição contraída e despertada a cada noite de lua cheia, a maldição do lobisomem.

“Perto da lua cheia, o cheiro é simplesmente enlouquecedor”

A novela apresenta as características da licantropia conceituadas pela autora ao longo da história. Todo capítulo começa com trechos do livro Novus Codex Versiopelius, resultado de pesquisa acadêmica pelo personagem Caetano Estrada. Tito explica os outros conceitos enquanto exerce o papel de mentor a Raul, tornando um dos capítulos iniciais densos por exagerar na dosagem das informações. Os capítulos posteriores equilibram os conceitos com a narrativa, põem certas características apresentadas à prova, situa o protagonista ao evento e demonstra as capacidades sobrenaturais dele, bem como as consequências de possuí-las. Somando as condições anteriores da maldição de Raul, as novidades sobrenaturais agravam a realidade vivida por ele.

O mentor encontra dilemas ao acompanhar as dificuldades de Raul, viu tantos carregarem a maldição de lobisomem, e de todos eles o protagonista desta novela sofre problemas únicos além da licantropia. Tito tem muita história, apesar de pouca dela ser trazida nesta novela, insuficiente para justificar a atitude feita no final da história. Este desfecho abrupto surpreende pois foi feito sem levantar muitos argumentos, precisaria elaborar mais situações a Raul, demonstrar outros exemplos da angústia do protagonista enquanto aproveitaria a trazer detalhes da vida de Tito; trazendo assim maior convencimento do ato trágico. Tal proposta é cruel, causaria mais sofrimento ao Raul e por isso até soaria sádica, só a faço porque ficaria condizente com a proposta da novela.

Lobo de Rua traz conceitos conhecidos de lobisomem e elabora outros aspectos relacionados à realidade retratada na novela. Apesar de introduzir ao universo ficcional dos trabalhos ainda por vir, trata de enredo fechado — com início, meio e fim — à história de Raul sob a tutela de Tito, com particularidades capazes de chocar mesmo os acostumados com histórias de lobisomem.

“Como explicar o absurdo da licantropia para alguém cuja vida já carecia de sentido?”

Lobo de Rua - capaAutora: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2016
Quantidade de Páginas: 122

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A Balada do Black Tom (E O Horror em Red HooK)

O medo vem do desconhecido. Escapa da lógica, vislumbra algo distinto e teme ameaças infundadas. Autores aproveitaram esse conceito e despertaram sentimentos no leitor através das palavras, descrições sensíveis de coisas inacreditáveis a existir. Lovecraft foi um desses autores, tomou o desconhecido por ele como fonte das escritas do horror cósmico. Não compreendia imigrantes, nem religiões diferentes da cristã. Quanto aos negros, eles eram sinônimos de horror a Lovecraft, reflexo da visão equivocada do autor, em outras palavras: evidência do preconceito.

Victor LaValle denuncia o racismo de H.P. Lovecraft em A Balada do Black Tom. Publicada em 2016 e trazido ao Brasil pela editora Morro Branco em 2018 com tradução de Petê Rissatti e Giovana Bomentre, a história traz uma reinterpretação do conto Horror em Red Hook. Esta edição inclui tanto o trabalho de LaValle quanto o conto original.

“Ninguém jamais se vê como vilão, não é?”

Charles Thomas Tester é um rapaz negro. Vagueia pelas ruas com a mochila de violão, possui nenhum talento musical e precisa garantir sustento próprio e ao pai debilitado. Charles compreende a realidade onde vive e toma proveito dela, realiza serviços de idoneidade dúbia enquanto disfarça conforme a sociedade o vê, como negro. Robert Suydam enxerga algo distinto em Charles, o convida a trabalhar como músico na festa dele onde virá imigrantes de diversas origens. A oferta de pagamento é tentadora, e algo além do trabalho atrai Charles a Robert, como a capacidade arcana do anfitrião e o Rei Adormecido venerado por ele. Thomas Tester segue adiante com intenção de responder a todo sofrimento vivido.

A segunda parte do romance foca no ponto de vista de Malone, detetive policial a investigar o caso de Robert Suydam. Malone aborda Thomas no meio das atividades suspeitas e fica surpreso nas próximas aparições do rapaz negro durante o confronto contra as consequências dos atos feitos por Robert.

“Precisamos saber, mesmo que isso nos condene”

LaValle tem narrativa concisa. Descreve ações e conta como Charles sente nas situações enfrentadas pela sua condição, isso sem exagerar nos verbos de pensamento nem abusar de adjetivos, apenas entrega a história com ritmo dinâmico.

Focada em Charles, a primeira parte mistura a fantasia do horror cósmico à realidade vivida por pessoas semelhantes ao protagonista, cuja falta de oportunidades leva a seguir outras opções de vida, essas ainda com consequências graves. No decorrer da segunda parte revemos Charles Thomas transformado, no entanto ciente da vivência dele antes desta nova situação. A conclusão da história alinha a parte de Malone conforme o conto original enquanto aproveita em demonstrar mais da realidade vivida por pessoas como Thomas.

“É uma babel de som e sujeira”

O Horror em Red Hook conta a história de Malone, mostra o detetive atingido pelo horror e só depois contextualiza a aventura responsável por deixá-lo assim. De narrativa investigativa, explica a situação presente em Red Hook e apresenta o caso de Robert Suydam a ser desbravado por Malone.

A escrita de H.P. Lovecraft marca o horror em longas descrições e usos de adjetivos, sendo os negativos sempre presentes junto ao termo imigrante e negro. De leitura compreensível durante boa parte do conto, as descrições ficam confusas quando começam a contar o horror vivido por Malone, pois o ritmo do texto muda conforme distorce a realidade graças as ações de Robert Suydam. Pouco fica claro, e esta situação até fica de acordo com a proposta do horror cósmico, da humanidade enfrentar algo além da compreensão. Das poucas noções assertivas, está o medo de Lovecraft inspirado pelo preconceito contra os negros, usados nas descrições nesses momentos como algo maléfico, presentes ao lado de Robert, todos contra Malone, e sempre interligado com adjetivos pejorativos.

“Com todos os meus sentimentos conflitantes”

A Balada do Black Tom conta a história de Thomas, inexistente no conto original e cerne da discussão levantada pelo autor ao recontar uma história de Lovecraft. LaValle segue o desfecho de Malone conforme o original, mas aproveita a descrição rasa nas questões do horror e recria a cena fantástica. O pejorativo dá lugar a dificuldades enfrentadas por pessoas como Charles Thomas, essas ignoradas a ponto de especular realidades horrendas por causa de preconceito.

A Balada do Balck Tom - capaAutor: Vicor Lavalle
Ano da Publicação Original: 2016
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Petê Rissatti
Tradutora de Horror em Red Hook: Giovana Bomentre
Quantidade de Páginas: 190

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Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

Favela Gótica (Fantasia na Favela Carioca)

Podemos estar rodeados de coisas e seres invisíveis, pois recusamos a ver. Fantasiamos sobre conquistas alcançadas pela determinação, resumimos atitudes como sendo bem ou mal, preto no branco, e assim ignoramos o contexto alheio, tomamos o nosso sendo o único e o justo. O livro desta resenha fantasia de outra maneira, ela expõe a carne viva da sociedade menosprezada pela falta de oportunidade, demonstra a verdade fedida dos responsáveis por manter o mundo como é, e ousa cutucar tudo e todos à queima-roupa.

Favela Gótica* é a fantasia nacional inspirada nos fatores sociais os quais os brasileiros reconhecem à primeira vista — ou fingem desconhecer. Publicado em 2019 por Fábio Shiva pela editora Verlidelas, a história de fantasia preenche as ruas do Rio de Janeiro de monstros, com a diferença de ninguém se disfarçar nesta realidade.

*Livro recebido pelo autor para realizar a resenha

“No fim dá no mesmo; são apenas formas diferentes de exploração”

Liana vive na favela e é viciada na droga Z-SDA, também conhecida como hóstia ou apenas Z. Sustenta o vício diário comprando direto dos jacarés, os jovens vendedores desta droga. Ela obtém o dinheiro através da prostituição e da dança erótica enquanto tenta se manter de pé sob as adversidades da droga. Por vezes a dependência química é o menor dos problemas, a atmosfera envolta de Liana transpira violência, ela sofre ameaças e insultos de várias camadas da sociedade, sejam ogros, lobisomens ou endemoniados; ninguém a respeita por ela ser zumbi, a criatura dependente de Z. Algumas pessoas descobrirão a verdadeira natureza dela, esta desconhecida por ela, e assim convive enquanto sofre com as crises da dependência química.

“De todos os horrores, esse é o maior: a perda final das ilusões”

A protagonista conduz o romance no olhar representante de uma das classes mais rebaixadas, e desta forma oferece a oportunidade de mostrar a crueza nada agradável da rotina de Liana e do meio onde convive. Parágrafos são curtos e sucintos, progridem a história com descrições ácidas sobre a sociedade em geral. No lugar de pessoas, a realidade de Favela Gótica contém monstros, cada espécie com as devidas características físicas, mas as de comportamento têm destaque, pois é nada inventado da cabeça do autor, apenas observado. Os monstros refletem as piores condutas exercidas pelas pessoas representadas por eles, pessoas reais. Zumbis comedores de cérebro, o temperamento irascível dos lobisomens durante a noite e a fraqueza à prata, o contexto ao redor dos pequenos seres invisíveis; as explicações desses comportamentos são metáforas da realidade nem sempre acessível a quem recusa a ver.

Todo o contexto é mostrado ao longo da jornada de Liana conforme ela presencia cada particularidade dos seres incluindo a si própria, além dos Registros Akáshicos, textos explicativos sobre as criaturas, locais e situações encontradas pela protagonista. Com aspecto de verbete de enciclopédia, os Registros Akáshicos ficam no meio do texto, interrompem a narrativa do romance e dão informações sobre o mundo criado pelo autor. Tal intervenção textual é justificada no decorrer do livro e serve ao propósito do enredo, mas demora a contextualizar essas interrupções e tendem a atrapalhar a leitura no início do romance. A ideia seria melhor aproveitada se a sincronia entre os Registros e o enredo fossem claras desde o começo.

Favela Gótica nos convida a tomar um soco no estômago enquanto prosseguimos nas páginas de textos ágeis e ácidos a descrever a transparência da corrupção no Brasil e a vida das vítimas sob as consequências desses atos e desleixos. A metáfora usada de forma inteligente neste livro denuncia e expõe os detalhes já óbvios, no entanto nem sempre vistos pela sociedade.

“Por pior que seja a notícia, se ela for repetida por tempo suficiente todo mundo acaba se acostumando”

Favela Gótica - capaAutor: Fábio Shiva
Ano de Publicação: 2019
Editora: Verlidelas
Quantidade de Páginas: 276

Thronebreaker: The Witcher Tales

A nação próxima vê os reinos ao norte expostos a fraquezas e consideram a oportunidade de tomá-los como garantia certa. Os reis adversários combatem e sucumbem aos exércitos melhores equipados, de maior quantidade e excelência estratégica. A opção de desistir e ceder as cidades ao império de Nilfgaard soa como a única saída, exceto a Meve. Rainha dos reinos de Lyria e Rívia, ela desconhece o significado de desistir e motiva os seguidores a lutar pela liberdade do povo.

Thronebreaker: The Witcher Tales conta a história de Meve enquanto sobrevive na dominação certa do exército de Nilfgaard sobre os reinos do norte. Lançado em 2018 pela CD Projekt Red, o jogo de estratégia baseado em cartas simula as batalhas do exército da protagonista contra os mais diversos grupos de inimigos da saga The Witcher.

Documentos foram assinados. Papéis… O tempo dirá seu valor.”

Meve retorna a Lyria após uma expedição e encontra adversidades no reino sob o governo de Villem, seu único filho, durante a ausência. A ameaça de Nilfgaard encobre os reinos do norte com a sombra feita pelas armaduras de sol negro — o símbolo do império —, bem como delitos causados por infratores liderados pelo ser conhecido por muitos nomes, entre eles o Duque dos Cães.

Rívia - Thronebreaker: The Witcher

O caminho reserva oportunidades a Meve interagir com o próprio povo, livrá-los de perigos de tropas inimigas ou mesmo de monstros — tarefa mais adequada a Bruxos, mas a Rainha os enfrenta em favor de proteger interesses ao longo da jornada. Enfrenta decisões de como intervir nas demais necessidades do povo, acende velas aos santuários de Melitele e com isso inspira a fé e eleva o moral da tropa. Ao enfim chegar na capital de Lyria, Meve é surpreendida por golpes baixos de quem menos esperava, tudo por conta pelo medo da ameaça Nilfgaardiana, a qual ela jamais aceitará entregar seu reino, independente do custo.

OH, eu tenho coração… Mas eu prefiro usar minha cabeça”

O jogador controla Meve pelo mapa e pode interagir com diversos pontos de interesse, seja coleta de recursos — ouro, materiais ou novos integrantes da tropa — atender pedidos locais em troca de recompensas ou encarar batalhas além das previstas nos pontos principais do mapa. O combate é feito a partir de cartas, essas representantes dos membros disponíveis da tropa de Meve contra os seres adversários. Cada membro tem a sua especialidade e são escolhidos conforme a estratégia do jogador, ganha quem no fim da rodada tiver o maior poder somado por todas as cartas de tropa dispostas no campo. Certas condições apresentadas no contexto de determinada batalha interferem no duelo de cartas, surgem novas forças militares no meio do combate ou mudam a habilidade de determinado personagem em campo por estar focado a cumprir o objetivo específico daquele combate.

O "Campo de Batalha" - Thronebreaker: The Witcher Tales

Outro fator muito importante neste jogo é a tomada de decisões. Meve sofre testes constantes de sua liderança, enxerga as opções a qual o jogador deve escolher e então descobrir as consequências. A ambientação do jogo é realista, a guerra ameaça a todos em várias nuances, e a Rainha só conseguirá favorecer certa parte do reino enquanto todos julgam as decisões. O exército pode perder o moral e chegar ao próximo conflito com menos afinco — portanto menos força —, pode atrair novos aliados ou espantar certos seguidores, as mãos de Meve ficarão sujas pela culpa de certas mortes causadas pelas escolhas; inexiste a alternativa perfeita, muitas vezes existem somente as consequências ruins, e cabe decidir qual parte do exército de Meve sairá prejudicada.

Prefiro atos em vez de palavras”

A história de Thronebreaker acontece antes da trilogia de jogos The Witcher, e é baseada na saga de livros. Meve encontra outros personagens disponíveis nos livros ao longo da jornada, reconhecidos apenas por quem leu, apesar de o jogo apresentar o contexto de cada um através dos diálogos disponíveis. Ótima forma de homenagear a obra original e ainda somá-la aos recursos de jogo.

Mahakam - Thronebreaker: The Witcher Tales

Ainda quanto a história, toda ela é contada por certo personagem apresentado na cena de abertura do jogo, nominado apenas de Contador de Histórias. O contador narra todas as cenas do jogo conforme a transcrição surge na tela e cede espaço à fala dos demais personagens presentes no jogo quando ocorre diálogos. Esta mecânica faz uso de recursos literários, embora adaptados à mecânica do jogo. A narrativa é breve, por vezes resumida em adjetivos, pois apenas mostra a situação perante o combate vindouro ou o contexto do qual é preciso decidir dentre as alternativas. Por mais elaborados que os adjetivos e as situações sejam, as limitações de narrativa — como meio de anteceder a fase do jogo — forçam a repetição na forma de contar a história.

Thronebreaker: The Witcher Tales preenche o espaço vazio deixado pela ressaca após jogar The Witcher: Wild Hunt graças a inúmeras homenagens do universo ficcional e a oportunidade de continuar neste ambiente com novos sistemas de jogabilidade.

Como não desejam falar, ficarão em silêncio para sempre. Preparem uma corda!”

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe

Dentre as criaturas horripilantes das histórias de terror, zumbis estão entre os mais lembrados. Presentes em série, num dos mais recentes lançamentos da plataforma Playstation e do clássico da ficção científica Eu Sou a Lenda a muitos, inúmeros outros exemplos de trabalhos autorais. Este livro propõe um contexto original e bem humorado, o de permanecer vivo no meio da hordas de zumbis… Com a sua mãe.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi Com a Sua Mãe é o título de livro mais longo trazido neste blog até o momento. Publicado em 2019 por John Miller, é a história de sobrevivência do adolescente Edmílson em meio ao apocalipse zumbi junto com a mãe Ana e o tio Déco.

“Minha mãe nunca foi boa dando notícias ruins”

Ninguém sabe como a epidemia de zumbis aconteceu, Edmílson até tenta inventar uma introdução entre os clichês das histórias vistos na tevê, e logo desiste. Com o conhecimento adquirido em horas de seriados e filmes — sem garantia das situações apresentadas na tela condizer com a realidade desta história — Ed compartilha seu aprendizado com a mãe Ana que mal consegue pronunciar a palavra zumbi e ao tio Déco, irmão mais novo de Ana.

Dona Ana mantém o pulso firme na educação de Ed, além de exagerar nas preocupações de mãe coruja; comportamento retratado com sarcasmo pelo filho. Buzinas chamam a atenção da casa de Ed, vindas do pálio vermelho rodeado pelos zumbis na rua. O garoto coloca os conhecimentos das séries em cheque na hora do resgate, desencadeia outros eventos e trazem ameaças mais complicadas do que as hordas de mortos-vivos.

“Parece um plano promissor, mas eu aprendi a não confiar em planos infalíveis”

Narrado pelo próprio Ed, capítulos pequenos contam dos perigos enfrentado pela família enquanto tenta conviver com a própria. Crises de relacionamentos revelam ótimos momentos de humor pelas provocações de Ed nas situações comuns entre mãe e filho em meio ao perigo nada ordinário. O gosto por séries e filmes pelo protagonista reflete na citação de referências aos últimos lançamentos populares e das obras mais comuns focadas nessas criaturas.

Como já disse, os capítulos são pequenos, bem como os parágrafos, e o livro… A narrativa consiste em contar os acontecimentos em sequência, e tudo acontece rápido demais. Oferece poucos detalhes da situação atual e já avança ao próximo evento, ao próximo capítulo. Alguns eventos e falas clichês também aceleram a narrativa, pois é algo comum e portanto rápido de assimilar. Isso garante uma leitura dinâmica, simples e rápida; bem como apressada. Poderia ter dado mais espaço a interação entre os personagens, explorar mais da visão de cada pessoa envolvida na trama antes de dar o desfecho. Alguns diálogos têm explicações com verbos de dizer que repetem a informação já dada na fala, era possível tirar a maioria e evitar a redundância.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe traz o terror dos comedores de cérebro numa trama YA bem humorada e ágil. Muitos perigos ameaçam Ed e família, mas a pressa em mostrá-los restringe a qualidade da história apenas devido ao bom humor da relação materna, pois os momentos de tensão ocorrem e logo se resolvem, enquanto o clássico amor de mãe permanece e pelo menos é bem representado neste livro.

“Que cena linda. Pena estarmos cercados de monstros e sujos de entranhas podres”

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe - capaAutor: John Miller
Ano de Publicação: 2019
Publicação Independente
Quantidade de Páginas: 139

Confira o livro

Sekiro: Shadows Die Twice (Enredo e Ambiente)

O período Sengoku marca o Japão pelos conflitos civis consecutivos ao longo de mais de um século, bem como devido a importância dada pela força militar da época, os clãs de samurai e ninja. Cada classe de guerreiro tem sua conduta e modo de combate particular, ambos necessários na sede de conquista do Shogun, o general ambicioso por conquistar o país e governá-lo com mais autoridade que o próprio imperador. O fim desta era trouxe vários órfãos de guerreiros abandonados à miséria, alguns afortunados por novos mestres, treinados a prosseguir o Código de Ferro e ser fiel ao mesmo, a custo da própria vida.

Sekiro: Shadows Die Twice deixa o jogador na pele de um dos afortunados a tornar ninja e trilhar o caminho tortuoso do shinobi pela dificuldade desafiadora proporcionada pela From Software. Lançado em 2019, o jogo combina elementos de furtividade ao combate ágil no enredo construído conforme semelhanças de Dark Souls e Bloodborne.

“Fiel Lobo, aceite meu sangue e viva novamente”

O protagonista era uma criança perdida nos campos de batalha no fim da Era Sengoku. Foi encontrado pelo lendário shinobi Coruja, desde então treinou o garoto nas técnicas e conduta ninja. Depois de adulto, o ninja conhecido como Lobo é encarregado de servir ao Lorde Kuro, a criança sagrada por fazer parte da linhagem do Sangue de Dragão, com capacidade extraordinária de conceder a habilidade de ressurreição a outras pessoas, esta adquirida pelo Lobo, sob um custo que toda a região pagará.

Buda - Sekiro

Os ídolos de Buda acompanham toda a jornada de Sekiro

Conspiradores raptam Kuro e o Lobo precisa ser lembrado do dever, o de resgatar o mestre. Falha na primeira tentativa e perde o braço esquerdo como consequência. Pensa em ter perdido a vida também, quando na verdade desperta com uma prótese no lugar do braço amputado. A prótese é uma ferramenta complexa com acessórios capazes de ampliar as capacidades no campo de batalha, como a corda acoplada com gancho que o ajuda a alcançar lugares altos — parecido com o arpéu do Batman — e armas singulares capazes de tirar vantagem dos adversários. Assim o Lobo tenta resgatar lorde Kuro outra vez, e nesta nova jornada ganha o título de Sekiro, o Lobo de apenas um braço.

“Parece que morrer não é seu destino… Ainda”

Caso tente comparar a dificuldade deste jogo com Dark Souls e Bloodborne, Sekiro será mais difícil, pois as mudanças da jogabilidade vão punir os jogadores acostumados com as mecânicas dos jogos anteriores. O foco no combate está em prejudicar a postura do oponente e deixá-lo a mercê do golpe fatal, para isso deve atingi-lo com intenção de evitar a recomposição, além de desequilibrá-lo ao aparar os golpes deles pressionando o botão de defesa no momento certo. Cada inimigo tem fraqueza a determinado tipo de arma anexada a prótese de Sekiro, e às vezes oferece uma vantagem exorbitante a ponto de deixar o combate fácil. Neste ponto há certo contraste na questão da dificuldade, pois enquanto os inimigos punem os jogadores que falham no combate e os condenam à derrota, há certas estratégias tão eficientes contra os inimigos, que os deixam a mercê do jogador até surgir a oportunidade de executá-lo; pelo menos há maior parte garante vantagem apenas num período da batalha, pois o uso da arma contida na prótese — onde contém a maioria das vantagens absurdas — é bem limitado.

Sangue - Sekiro

Digamos que Sekiro seja um tanto… Sanguinário

A dificuldade também foi amenizada nas mecânicas de furtividade. Sekiro segue as convenções deste estilo de jogo que facilitam muito, como os inimigos possuírem memória fraca da ameaça. Caso o jogador seja flagrado, basta fugir do local ou permanecer escondido até os inimigos pararem de procurar, então volta aos ataques furtivos como se não fosse visto há cinco minutos. O inimigo fica alerta ao ver o companheiro morto, vasculha por um tempo e ao encontrar nada, também esquece do ocorrido e fica vulnerável a ataques surpresas. Ao programar os inimigos a ficarem alertas o tempo todo ao descobrir a ameaça, forçaria o jogador a elaborar mais estratégias furtivas e o penalizaria por ser descoberto com o aumento da dificuldade, além de contribuir com a abordagem mais realista.

“Vocês shinobi são todos iguais. Morrem anônimos, sem ninguém para lamentá-los”

O enredo mantém semelhanças com títulos anteriores da From Software pela composição da narrativa e ambiente através dos diálogos e pela descrição dos itens adquiridos durante o jogo. A diferença está no protagonista com história própria e interligado à maioria dos personagens existentes no jogo. Descobrimos mais da trama interagindo com quem encontramos no caminho, seja ajudando em missões secundárias, ou apenas oferecendo saquê a determinados personagens. Apenas os essenciais à história do jogo possuem arcos desenvolvidos ao longo da jornada de Sekiro, cujas reviravoltas têm informações ocultas, deixando a interpretação livre ao jogador, embora essa abordagem ocorra menos vezes. Sekiro: SDT entrega todo o contexto de determinados elementos do jogo a partir de um termo ou outro que dá a dica fundamental para a compreensão, e nesses casos a interpretação é restrita.

O mapa do jogo é livre até determinado ponto, quando deve vencer certos requisitos antes de continuar. Pena os diálogos não acompanharem a dinâmica desta exploração livre, por vezes haverá conversas sobre como chegar a determinado lugar onde o jogador já foi e mesmo assim Sekiro fala como se ainda desconhecesse tal lugar.

Ambiente - Sekiro

A beleza no ambiente está no nível da dificuldade – alta

[Parágrafo com #SPOILERS do final]
Há quatro desfechos disponíveis nesta Jornada de Sekiro, sendo um deles o cânone. O fim é marcado pelo ritual do seppuku, que consiste na desistência do guerreiro à vida na busca de preservar sua honra após a morte. Um dos finais alternativos proporciona outro suicídio no fim, este com a fala de uma frase nada agradável, pois ela induz o ato como algo inspirador. Tratar do suicídio no contexto deste jogo é demonstrar a prática comum desta época, e há problema nenhum retratá-la; por isso aponto o problema somente na frase dita.
[Fim dos #SPOILERS]

Sekiro: Shadows Die Twice recria certas abordagens nos trabalhos da From Software e causa uma experiência singular por causa disto. Escolheram poucos elementos deste período rico da Era Sengoku e focaram na abordagem e relacionamentos voltados à classe ninja, esta que o jogador deve reproduzir para prosseguir nos difíceis desafios desta jornada pelo Japão feudal.

“O refinamento de técnicas shinobi só pode ser alcançado por meio de batalhas”

Shinobi - Sekiro

Lembre-se do código Shinobi

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O Senhor do Vento (Gabriel Réquiem — Tennyson)

Quanto mais histórias brasileiras eu descubro, mais vejo o quanto os trabalhos feitos por brasileiros são injustiçados. É muito legal descobrir os mitos e culturas internacionais, aproximar-se de pessoas estrangeiras por meio dos laços feitos entre leitor e personagens e acompanhar dilemas éticos distintos dos nossos. Só que também temos as nossas histórias, conhecemos a linguagem e comportamento do nosso país e nos identificamos, talvez não ao todo pela vastidão da cultura brasileira, ainda assim reconhecemos o modo de falar, local, período histórico, ou lenda retratada. O conto de hoje traz a identificação de todos esses pontos.

Gabriel Tennyson adaptou as criaturas nacionais e de fora vivendo nas ruas de Rio de Janeiro em Deuses Caídos. Em 2014 ele era Gabriel Réquiem e publicou o conto O Senhor do Vento na antologia Contos do Dragão pela editora Draco, disponível também em compra avulsa.

“Tão intimamente ligado à natureza quanto um bebê ao cordão umbilical”

É fim do século XIX. Zezinho está na casa da avó com sua prima e passa o dia como o outro qualquer: enche a barriga das guloseimas feitas com carinho pela avó Benta e implica com a prima sobre problemas irrelevantes. Era proibido vasculhar os objetos antigos da avó, pois tinha artefatos tenebrosos de toda a família de Zezinho. Garoto teimoso como ele era, entrou no “quartinho proibido” e ali descobriu um cachimbo esquisito e um documento antigo: o diário do tio Sinésio Monteiro contando sobre o tempo quando serviu como capitão na guerra contra o Paraguai.

Deste ponto em diante o conto narra como aconteceu a aventura de Sinésio correspondente ao diário. O capitão liderava seu grupo contra o embate dos paraguaios, sempre alertas quanto a surpresas do inimigo. Só não conseguiram imaginar o encontro deles com os Senhores do Vento, criaturas sobrenaturais mais aterrorizantes do que qualquer inimigo estrangeiro. O conto termina voltando ao garoto depois de ler o relato do tio, e então resume a vida de Zezinho depois de conhecer tal história.

“— Num vali nem a pena matá um covarde que nem tu”

O conto respira a brasilidade desde a introdução feita na aventura de Zezinho. A birra entre ele e a irmã são recheadas de frases bem humoradas e características da nossa linguagem, bem como o comportamento da avó com os netos, tudo reconhecível aos leitores com infância simples ou que ouviram falar de como era na infância dos pais, pois apesar do conto retratar algo de mais de um século atrás, ainda retrata muitos aspectos comuns à família no Brasil. A história de Sinésio mantém a correspondência brasileira, toma o período histórico como o fundo da aparição da criatura clássica em nosso folclore. Também reforça a cultura através dos diálogos, representando a fala distinta de cada soldado do grupo de Sinésio conforme a origem deles, seja indígena ou com aparência alemã, todos a serviço da nação brasileira.

Sinésio fica a mercê do medo ao encontrar os Senhores do Vento. Os soldados estavam preparados e treinados no combate contra humanos com portes e recursos semelhantes, como poderiam imaginar as capacidades sobrenaturais daqueles seres? O terror toma conta quando a consequência é real na batalha extraordinária. Por outro lado faltou desenvolver a tensão na cena de Zezinho enquanto mexe nos objetos antigos da família, pois o suspense nesta parte foi trabalhado por dizer o quão medroso fica o garoto a cada evento estranho enquanto ele anda no lugar proibido. A cena ficaria melhor se demonstrasse o rosto ou os gestos desesperados de Zezinho frente ao medo citado.

O Senhor do Vento foi publicado antes de Gabriel Tennyson estrear como romancista na Suma de Letras. Já podemos conhecer uma das criaturas presente em Deuses Caídos neste conto e descobrir a competência do autor em entregar boas histórias e caracterizadas com elementos bem conhecidos no Brasil.

“Esperando que a careta tivesse a habilidade sobrenatural de extinguir o barulho”

O Senhor do Vento - capa

Ficha Técnica de O Senhor do Vento

Autor: Gabriel Réquiem (hoje Gabriel Tennyson)
Editora: Draco
Ano da Publicação: 2014
Número de Páginas: 22
Disponível também em: Antologia Contos do Dragão

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