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Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

Sons da Fala (Estreia do Projeto Cápsula da Morro Branco)

Nunca tivemos tantos recursos de comunicação iguais os de hoje, e isso acarreta numa ideia ingênua de tirarmos grandes benefícios desta situação. Na verdade até podemos elencar elogios a esses avanços, só é preciso destacar também os problemas. Todos podem ter voz, e isso nada garante de a voz mais ouvida for transmitida por ter conhecimento ou propostas de melhoria. É aquela provinda do desgaste, da injustiça ou ingratidão reconhecida por muita gente, e por isso é mais difundida. E se perdermos essa capacidade de ampliarmos nossa voz, ou pior, perder a própria comunicação verbal ou escrita? O desgaste, injustiça e ingratidão ainda prevalecerão, e ganharão força na violência.

Sons de Fala aborda este mundo onde a comunicação foi perdida. Publicado pela primeira vez em 1983 por Octavia E. Butler, a editora Morro Branco disponibiliza este conto de graça através do Projeto Cápsulas. Com tradução de Heci Regina Candiani, o conto narra a história de Rye e sua tentativa de sobrevivência neste mundo sem comunicação verbal.

“Observou-o gritar com uma raiva sem palavras”

Rye está no ônibus, a caminho onde ainda poderia encontrar algum parente vivo, quando a confusão acontece. Dois passageiros começam a brigar, deixam os demais apavorados, apesar de terem consciência de algo do tipo acontecer. O motorista força manobras, balança o ônibus e tenta desequilibrar os lutadores a ponto de os derrubarem e impedir a agressão, e ao conseguir, dois outros passageiros também brigam.

O motorista pausa a viagem depois dessas confusões, Rye mantém distância até tranquilizar a situação e poder continuar a viagem, quando observa outro carro se aproximar — os veículos são raros tanto quanto os combustíveis —, é de um sujeito com o uniforme do Departamento de Polícia de Los Angeles, instituição que deixou de existir. Ele tenta comunicar com Rye através dos gestos, custa compreender a situação entre os passageiros do ônibus, tudo por causa da doença capaz de inibir a capacidade de comunicação entre eles, alguns desaprenderam a ler e escrever e/ou perderam a capacidade de formar palavras ao falar.

“A despeito do uniforme, lei e ordem não eram nada — já não eram sequer palavras”

O tema deste conto vem aos poucos, dilui pelos primeiros parágrafos e permite o leitor digerir a situação extraordinária. Só depois confirma: as pessoas perderam a capacidade de comunicar. Oferece um tempo confortável a interpretar o problema apresentado e as consequências dele, como o motivo de deixar as pessoas mais violentas — com maior incidência em homens — e denunciar muitos comportamentos presentes mesmo trinta e cinco anos depois do conto ter sido escrito.

Octavia usa da prosa descritiva, incisiva quanto ao que acontece aos personagens ou sobre sentimentos e ideias deles. O narrador diz sobre as pessoas desta ficção e das situações desconhecidas pelos personagens, cita o nome dos lugares mesmo quando Rye é incapaz de ler, servindo de intermediário entre o leitor e a protagonista com esta dificuldade. A autora prova outra vez de como contar a história em vez de mostrá-la pode funcionar, quando bem executado; o leitor pode deixar de sentir empatia através dos gestos e intertextualidade comum à narrativa exibicionista, por outro lado o percebe quando as questões do enredo surgem na hora certa e conseguem gerar impacto ao personagem afetado.

Também é nítida a exploração de temas sociais. A diferença entre os gêneros das pessoas e os possíveis conflitos dessa, a violência eminente no encontro de pessoas desconhecidas, pois apesar de compartilharem da mesma miséria, reagem de formas diferentes, e ainda por cima a esperança com a devida precaução de poder seguir mesmo nessas dificuldades. Octavia usa o gênero da ficção científica ao apontar e denunciar os aspectos de nossa humanidade.

O Projeto Cápsula da Morro Branco fez bem em estrear pelo conto Sons de Fala. O motivo vai além de Octavia trazer ótimos retornos à editora através dos outros romances já publicados pela primeira vez no Brasil — como a duologia Semente da Terra. Este conto persiste as qualidades da autora mesmo nessa história breve, trazendo aquele desconforto impactante capaz de nos provocar e refletir os problemas resilientes que parecem nunca desaparecer.

“E nesse mundo em que a única linguagem comum provável era a corporal, estar armada quase sempre bastava”

Sons da Fala - capaAutora: Octavia E. Bulter
Tradutora: Heci Regina Candiani
Ano de Publicação Original: 1983
Edição: 2019
Editora: Morro Branco (Projeto Cápsulas)
Quantidade de Páginas: 35

Acesse o conto

Adágio (HQ Brasileira de Ficção Científica)

A tecnologia traz consigo novos meios de entretenimento, inspira outras maneiras de as pessoas interagiram entre si. Isso acontece desde os avanços da internet, com avatares representando a pessoa nos perfis sociais. Começou por meio de textos, logo evoluiu a postagens mais elaboradas e com imagens, vídeos e transmissões ao vivo de palestras ou jogatinas, e na realidade proposta da vez transmite até o sonho da pessoa! Sem mais custos de produção ou efeitos especiais, os usuários apenas assistem as imagens criadas durante o sono de alguém. Curte, comenta e compartilha as melhores transmissões, e assim torna o sonho público, vira entretenimento, causa obsessão em ter mais seguidores, ser mais famoso, alcançar o topo do ranking; pouco importa as consequências, as amizades e saúde perdidas. Ainda bem que estou falando de ficção, não é verdade?

Adágio é uma HQ futurista onde existe essa rede social baseada no streaming de sonhos. Publicado em 2018 pela editora Avec sob o roteiro de Felipe Cagno, ilustrado por Sara Prado e Brão e colorido pela Natália Marques, a história extrapola os males já conhecidos pela interação cibernética na vida real nesta história onde transmitem os sonhos pela internet.

“Você sonha, a gente compartilha”

Kaya é amiga de Penelope, as duas estudam na mesma faculdade. Pen trabalha como estagiária na divulgação de patches — pacotes — de sonhos os quais os usuários podem baixar e vivenciar o ambiente produzido naquele sonho e então compartilhá-los na rede social Adágio. Kaya inveja a amiga por viver tais sonhos e com isso ter popularidade, enquanto ela nunca consegue ter sonhos lúcidos, apenas pesadelos.

Ao frequentar uma festa com os demais colegas, Kaya é apresentada ao pó-de-fada, droga que potencializa o sono ao manter o cérebro do usuário ativo. Ela experimenta e vivencia os pesadelos como nunca antes. Resultado: a transmissão deste sonho atrai grande público da internet e torna Kaya famosa da noite para o dia. Feliz com a conquista, tentará permanecer em destaque na rede Adágio, e com isso trará consequências.

“Contar o sonho não é a mesma coisa que mostrá-lo”

A HQ apresenta a situação dos relacionamentos de Kaya e as mudanças nesses conforme a popularidade de seus pesadelos. Vemos alguns aspectos futuristas à parte, como as roupas distintas dos jovens, bem como conceitos de carros e moradias próprias daquela realidade; tudo sendo pano de fundo ao contexto principal: a interação na rede social. Conflitos pessoais acontecem pela falta de privacidade, considera o contato bloqueado na rede social uma ofensa, enxerga o anonimato como fracasso e ficam cegos quanto as consequências de permanecer em destaque nas condições impostas, pois tudo é espontâneo.

A arte produzida em aquarela realça os traços futuristas e aproveita os sonhos e pesadelos dispostos na HQ para representar elementos próprios da fantasia e terror. As combinações diferentes de cores ilustram as diversas sensações da protagonista no decorrer da HQ. Falha um pouco no quesito terror, pois enquanto os quadros demonstram o medo no olhar da protagonista, provoca nenhum sentimento semelhante ao leitor, apenas passa a informação do transtorno de Kaya.

Adágio discute problemas atuais através da interação digital nesta realidade onde nem os sonhos escapam da privacidade. Esta novidade atrai os jovens obcecados por diversão e sensações inéditas, enquanto levam outros a fazer de tudo para proporcionar tal experiência aos seguidores e assim conquistar a fama quando há questões relevantes próximas a eles, no mundo real.

“Sonhos são tão íntimos, pessoais, reveladores. Você postaria o seu sonho online? Teria coragem?”

Adágio - capaRoteiro: Felipe Cagno
Desenho: Sara Prado e Bräo
Cores: Natália Marques
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 112

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Meu XP com a trilogia Sprawl

Ano passado eu me dei a oportunidade de conferir a obra Neuromancer, primeiro volume da trilogia Sprawl escrito por William Gibson. O livro é referência quando trata do gênero cyberpunk, sendo um dos primeiros lançamentos deste estilo, e por este motivo tem a devida importância. No entanto nada evitou do livro dividir a opinião dos leitores, como a dificuldade em compreender os aspectos do romance por causa da escrita. Eu adquiri o exemplar digital mesmo ciente de tais críticas, afinal eu quis formar a minha opinião sobre a obra de Gibson, além de conhecer mais do universo cyberpunk através da obra pioneira neste gênero.

Neuromancer - Sprawl

E eu gostei de Neuromancer, apesar de reconhecer os problemas tão criticados. Acompanhei Case ao longo das páginas, conferi os detalhes do ambiente cyberpunk e aprovei a criatividade do autor ao propor tecnologias com funcionalidades semelhantes às existentes hoje, depois do lançamento do livro. Comecei pelo glossário do livro e conheci os termos próprios do romance em geral, e isso ajudou na compreensão até certo ponto. O problema nunca foi esses conceitos usados no livro, e sim nos desleixos da escrita do autor. Progride a história sem oferecer informações suficientes ao leitor e deixa de citar qual pessoa disse determinado diálogo ou quem realizou tal ação.

Mesmo o resultado da leitura saindo como mediano, foi suficiente para eu conferir o resto da trilogia. Demorei ao adquirir a continuação, como demoro com qualquer saga, pois evito de sobrecarregar o blog com resenhas da mesma série, mas confesso estender demais na leitura entre um volume e outro. Ao decidir comprar Count Zero, já peguei Mona Lisa Overdrive junto, assim o intervalo de leitura entre o segundo e o terceiro livro ficou menos da metade de entre o primeiro e o segundo.

Count Zero - Sprawl

Alguns leitores preferem Count Zero entre os livros da trilogia, já para mim este foi o pior. O ambiente de Sprawl deixou de ser novidade após Neuromancer, apesar de Count introduzir conceitos interessantes como as entidades de religião africana existindo dentro do ambiente da Matrix. Habituado com o universo criado por Gibson no primeiro volume, eu desejei aspectos melhores na continuação, e por isso me decepcionei. Em vez de apenas Case, aqui acompanhamos a história de três protagonistas cujos focos alternavam entre capítulos, porém a coordenação deles falhou em levá-los a algum lugar até que de repente os arcos dos três intercalam rumo a conclusão. Soma esta falha do enredo com os problemas de escrita ainda pertinentes, e o resultado é a minha insatisfação com o livro.

Mona Lisa Overdrive - Sprawl

Como já comprei o terceiro volume, dei uma chance ao Mona Lisa Overdrive, até porque faltava apenas este da trilogia. Coloquei as expectativas lá embaixo, e com isso Overdrive as superou. Ainda comecei o terceiro volume pelo glossário, relembrei dos termos já usados antes e já notei mais destaque ao ambiente japonês só pelas definições das palavras ali. Então comecei os capítulos com um, dois, três, quatro arcos diferentes! Fiquei contente por Gibson melhorar a coordenação desses arcos comparados ao volume anterior, pude reconhecer onde cada personagem foi no capítulo correspondente. As descrições estavam mais claras — finalmente! —, ainda com ressalvas quanto a qualidade, pelo menos a leitura superou a expectativa de ser tortuosa.

A maior decepção ficou por conta do final, sem entrar em detalhes nem dar spoiler: a coordenação tão bem feita com a progressão das protagonistas foi deixada de lado, deu conclusão a apenas um arco delas — este pelo menos aceitável, por contribuir na criação do universo mesmo nas páginas finais — e as demais tiveram o último capítulo genérico, apenas dispensando-as da história. Pondo os pontos positivos e negativos na balança e com a baixa expectativa somada na equação, Mona Lisa Overdrive saiu como mediano igual Neuromancer.

Após me dedicar a ler toda a trilogia do Sprawl, considerei escrever este post analisando toda a trilogia e de forma pessoal, expondo minhas expectativas e pensamentos quanto a leitura, em suma, compartilhei a experiência completa de leitura desta série. Pretendo fazer posts como esse quando completar outras sagas — lembrando que só faltam dois volumes até eu concluir A Torre Negra e um das Crônicas dos Kane, qual dessas sagas será a próxima?


Confira a trilogia

Mona Lisa Overdrive (Sprawl Vol. 3)

Alta tecnologia, baixa qualidade de vida. Voltamos ao universo cyberpunk rumo a conclusão da trilogia de forte influência nos primórdios do gênero. Histórias intercaladas envolvem delinquentes de diversos meios, bem como garotas que já vivem nas condições vigentes sem poder de escolha. A tecnologia evolui por trás do mistério envolto nos personagens principais, ocupados pelos perigos de pessoas ambiciosas no meio de tanta gente com faltas de oportunidade.

Mona Lisa Overdrive conclui a história envolta de Sprawl. Publicado em 1988 por William Gibsom com edição de 2017 pela Alpeh e traduzido por Carlos Irineu, o terceiro livro da trilogia seleciona personagens dos volumes anteriores e entrega a última história deste universo cyberpunk.

“Como se as linhas de neon da matrix esperassem por elas atrás de suas pálpebras”

O livro alterna capítulos com quatro pontos de vista diferentes, entre eles o de Kumiko Yanaka, filha do chefe da Yakuza. A garota vai até Londres, afastada das ameaças direcionadas ao pai. Carrega consigo um dispositivo avançado capaz de formular o holograma com traços humanos e visível apenas a ela, tudo simulado a partir da inteligência artificial, além de possuir inúmeras informações armazenadas no próprio sistema.

Slick dedica os dias a construir autômatos na fábrica de Gentry, um indivíduo curioso e alucinado pelas próprias suposições. Precisa pagar pelo favor devido no passado, por isso deve acomodar duas pessoas, um homem inconsciente conectado a eletrodos, e a técnica em medicina Cherry, responsável por cuidar do rapaz inconsciente, conhecido apenas pelo apelido de Conde.

Angie Mitchel está anos mais velha de quando a conhecemos em Count Zero. É a celebridade do momento por conta das transmissões amorosas entre ela e Robin por meio dos stims. Continua a ouvir as vozes dos loas — entidades da mitologia vodu presente no ciberespaço — e sofre uma tentativa de envenenamento. Se recompõe e pretende voltar ao trabalho, inconsciente de toda conspiração tramada contra ela.

E Mona é a jovem prostituta que recebe a oportunidade de trabalhar em algo diferente, porém com detalhes nem tão diferentes assim. Tem grande admiração pela Angie e é usada pelos conspiradores desta celebridade enquanto lembra dos ensinamentos da colega de serviço mais experiente, já falecida.

“Não podia entender por que alguém assistiria a um vídeo se havia um stim por perto”

Gibson traz mais além dos elementos e personagens dos volumes anteriores nesta última história de Sprawl. O desenvolvimento narrativo progride de forma semelhante, desta vem enfim com melhoras na escrita. As ações ficam mais claras, bem como quem as fez. Cada capítulo coordena os personagens relacionados a algum ponto da trama, ao contrário da confusão narrativa de Count Zero. E as descrições completam as cenas antes de continuar a história. Por manter as expectativas baixas após as decepções dos livros anteriores, este provou melhorias e amadurecimento de Gibson na escrita.

Longe de tal amadurecimento mantê-lo livre de falhas. O ritmo dos capítulos perde força com o uso de verbos fracos, abusados na hora de passar a informação ao leitor. Descreve como o personagem pensa e vê em vez de fazê-lo interagir com o mundo rico elaborado pelo autor. Cada transição de capítulo começa descrevendo os acontecimentos do personagem sem mencionar qual é, propondo ao leitor descobrir com menções pertinentes aos capítulos anteriores respectivos a pessoa; chega a ser fácil de reconhecer, pena a proposta acrescentar nada senão um leve desafio ao leitor cujo único prêmio é saber o quanto antes de qual personagem o texto foca.

Como já dito, o enredo pelo menos coordena os personagens e entrega pequenos desfechos em cada capítulo, por vezes terminam em suspense a desvendar apenas quando o capítulo posterior retornar ao ponto de vista daquele personagem. Mesmo distantes, a situação dos personagens alinha com as demais, tornando improvável de se perder na progressão de cada um quando os pontos de principais estão interligados. Já a conclusão da história descarta todo esse empenho em prol de favorecer o final a apenas parte do elenco, o restante teve seus arcos progredidos até levar a trama principal ao fim e então receberam capítulos finais que nada acrescentam ou concluem as respectivas histórias.

Mona Lisa Overdrive até impressiona na leitura com expectativas baixas. Wiliiam Gibson sempre será lembrado por conta desta trilogia, cujo mérito está em construir o universo sci-fi original e inspirador a ponto de virar a base do gênero cyberpunk. Os pontos positivos das três obras jamais camuflarão os problemas de escrita, dificultando a leitura por desleixo do autor.

“Tinham um cheiro triste, os livros velhos”

Mona Lisa Overdrive - capaAutor: William Gibson
Tradutor: Carlos Irineu
Ano da publicação original: 1988
Edição: 2017
Editora: Aleph
Quantidade de páginas: 320
Série: Trilogia Sprawl #3

Confira o livro

A Taverna: Volume 2 da Revista de Contos (Divulgação)

Já tive a oportunidade de conferir a Revista de estreia do blog A Taverna com cinco contos muito bem escolhidos, caprichados e aperfeiçoados pelo trabalho de edição. Toda iniciativa a trazer maior visibilidade aos trabalhos nacionais é bem-vinda, e esta Revista serve como exemplo por trazer oportunidade a autores reconhecidos ou iniciantes a conseguirem publicar seu texto entre os demais em destaque.

Muitos aproveitaram a chance de ter o conto publicado na segunda edição da Revista A Taverna, poucos passaram pelos critérios rigorosos — e justos — dos editores do blog, e dentre eles houveram cinco escolhidos a terem seus contos conhecidos nesta pequena antologia digital. O mais surpreendente é, entre esses cinco, eu sou um deles. Isso mesmo! Eu, Diego Araujo, criador e editor deste site, venci o concurso e pude compartilhar meu conto junto com os demais quatro autores de contos extraordinários.

Reconheci a qualidade dos contistas premiados na primeira edição, e está difícil expressar tamanha gratidão por eu estar entre os cinco selecionados do novo trabalho da equipe A Taverna. Mas este post não é apenas uma comemoração, apresento a seguir cada conto disponível na Revista. Recuso a chamar de resenha, pois fico pouco à vontade de avaliar meu próprio texto. A intenção aqui é divulgar esta edição, mostrar os melhores pontos de cada conto e torcer para que a iniciativa do blog A Taverna persista e cresça cada vez mais.

Enfim, vamos aos contos!

“O que o Vento Sul Sussurra”, de H. Pueyo

Conhecemos Elías Bazuá em seu serviço solitário, o de manter o escudo da região Ushuaia contra colisões de cometas. O planeta Terra sofre impactos astronômicos há tempos, apenas os escudos protegem os locais da colisão. Elías conta com a ajuda de Heloise, um sistema de inteligência artificial, e enfim recebe uma colega de trabalho humana de acordo com as características pedidas por ele, a Lola. Tanto Elías como Lola são autistas, apesar de o rapaz ter maiores dificuldades com esta situação.

O conto de ficção científica situa o planeta no ambiente posterior a calamidade, que para variar é desconhecida da maioria das pessoas, essas alheias aos estudos científicos. Apresenta dois casos de autismo e torna nítida a diferença no desenvolvimento da pessoa em tais condições, de como a ausência de tratamento adequado pode prejudicar alguém, como privá-lo da interação com outras pessoas. Além do tratamento, os recursos desta ficção científica auxiliam os autistas, quando esses têm condições de obtê-los. O que o Vento Sul Sussurra representa esta minoria de necessidades específicas ao demonstrar de perto como tais pessoas convivem, ou no caso a dificuldade de elas conviverem.

“O Touro Vermelho”, de Ana Lúcia Merege

Antonio está na excursão com os amigos sobre a civilização minoica. Presunçoso quanto as informações dadas, o garoto demonstra a falta de coragem em outros aspectos, aquela insegurança comum de adolescente. Se distrai na excursão ao desenhar as peças em exposição, e de repente fica surpreso com a aventura disponível a frente.

O conto acompanha a intimidade do rapaz protagonista quanto aos dilemas típicos da idade. No plano de fundo há menções sobre a civilização apresentada nesta excursão, a contextualiza antes de levar os personagens rumo à conclusão inesperada, apesar da prova de superação por parte do Antonio.

“Limiar”, de Jaime de Andruart

Aqui encontramos um gaúcho a serviço de encontrar o touro sequestrado do patrão, exceto de nada do desenrolar desta história ser simples. O gaúcho ouve a profecia tanto pelo representante guarani quanto de cristão, e as mensagens demonstram pouca clareza quanto ao destino da caçada como também da humanidade.

O conto mescla conceitos de velho oeste adaptados na realidade da região sul brasileira. Além da ambientação bem representada, a narrativa em primeira pessoa carrega a linguagem distinta do gaúcho por todo o texto, enfeita as descrições com termos característicos e sempre mantém o ritmo da história no enredo reservado a esta aventura.

“Alameda dos Ratos”, de Guilherme Alaor

El Ratón puxa conversa com Ruan, um dos “Reportadores” do Conde a serviço de flagrar delitos na Alameda dos Gatos. El Ratón o convida a conhecer a outra parte deste bairro, a Alameda dos Ratos, e mostra de boa vontade a realidade negada pelos cidadãos de “Sangre”.

O conto constrói a sociedade elaborada pelo autor com terminologias próprias enquanto mostra ações ordinárias das pessoas desprovidas de benefícios. El Ratón coordena toda a história, desde a narrativa, as descrições e a interação de Ruan com o cenário a ser descoberto pelo Reportador junto com o leitor. Os argumentos sobre as diferenças de classes conclui pela justiça poética, ainda tendo espaço a mostrar outras particularidades da sociedade.

“Lembre-se, Setembro”, de Diego Araujo

Antônizo procura pelo colega de trabalho Elísio, o menino prodígio da empresa. Enquanto interage nessa realidade futurista, o amigo insiste em falar com o garoto após ele insinuar a desistir da própria vida.

Nesta ficção científica, a tecnologia funciona a favor do conforto de cada pessoa, atende as necessidades individuais enquanto prezam pelo respeito alheio. A sociedade previne o ócio através das competições constantes, motiva as pessoas a serem ativas ao entrar nas mais diversas disputas, sejam no trabalho ou na vida particular. Mas tal sistema não acomoda a todas as pessoas, e Antônizo busca a solução a Elísio por conta própria. Além das especulações científicas, este conto transmite a mensagem de conscientização e prevenção ao suicídio, acima de tudo: sobre a valorização da vida.


A Taverna Vol2. - capaAutores: Ana Lúcia Merege, Diego Araujo, Guilherme Alaor, H. Pueyo e Jaime de Andruart
Editora: A Taverna
Edição: 2
Ano de Publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 103

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LoveStar (Sci-Fi de Andri Snar Magnason)

Já discuti sobre o livro com foco em analisar a tecnologia vigente e discutir as prováveis consequências da humanidade com a evolução tecnológica. A história a seguir faz o mesmo a partir das próprias especulações, elabora discussões a partir de acontecimentos chocantes advindos do novo meio de produzir tecnologia, a possibilidade de criar novas funcionalidades alteram o modo de viver da população, atiça os obsessivos a ignorar os problemas decorrentes das novidades e proporciona o absurdo na realidade. Inacreditável mesmo é ler toda esta alucinação do autor transcrita em palavras, e mesmo assim traçar paralelos com a nossa realidade.

LoveStar extrapola a ficção científica a fim de fazer críticas ácidas sobre o desenvolvimento tecnológico e o comportamento da humanidade causado pela existência dessas funcionalidades imaginadas. Publicado em 2002 por Andri Snar Magnason com edição da Morro Branco em 2018 e traduzido por Fábio Fernandes, o livro traz duas histórias paralelas e apresenta nelas as nuances do ponto principal da obra.

“Em seus olhos brilhava a própria felicidade, reluzentes como a palavra LOVESTAR”

Tudo começa a partir de comportamentos estranhos de certos animais, como os pássaros que sempre iriam ao sul na véspera do inverno no hemisfério norte, e de repente elas seguem ainda mais ao norte. As pesquisas apontam a alguma interferência nas frequências emitidas e recebidas pelos animais como a causa, e isso leva a pessoas comuns atribuírem qualquer problema posterior como decorrente desta anomalia. Tais suposições absurdas levam a crer apenas a elementos sobrenaturais, aspectos ignorados pela ciência pelo simples motivos de serem inconcebíveis… Até o momento de determinados cientistas averiguarem essas especulações e comprovarem do sobrenatural na verdade ser real, é possível utilizar a frequência dos pássaros e revolucionar os meios de comunicação. A nova descoberta substitui todos os fios e cabos e possibilita a invenção de novas tecnologias com incríveis funcionalidades e absurdas transformações na vida de todas as pessoas.

O homem por trás de toda essa evolução assume o nome de LoveStar, cuja empresa é homônima e a mais potente do mundo graças às invenções bem como das estratégias de marketing da filial iStar. As invenções possibilitaram novas formas de trabalho, transformou a forma de lidar com a morte e possibilitou o cálculo certeiro do amor. Depois de tanto fazer pelo mundo, LoveStar faz a última viagem com uma semente em mãos, ciente de possuir menos de quatro horas de vida, tempo usado a refletir os acontecimentos importantes de sua vida.

Capítulos de LoveStar alternam com os da história de Indridi, um homem com a vida transtornada por conta das tecnologias produzidas pela empresa LoveStar. Vive a rotina apaixonada e louca com a namorada Sigrid até o momento de descobrirem que o cálculo do amor definiu Sigrid como a cara metade de outra pessoa. O cálculo infalível contradiz cada momento feliz do casal ainda crente de eles serem feitos um para o outro, porém a empresa encarregada pelo cálculo do amor — a LoveIN — insiste na Sigrid conhecer o verdadeiro amor da vida dela em prol do objetivo maior, o de estabelecer a paz na Terra através do amor.

“Pelo amor de Deus, comporte-se cientificamente!”

Os personagens e o enredo do livro são elementos secundários, responsáveis por sustentar o objetivo da história: o de mostrar as consequências na rotina e vida da humanidade a partir das invenções tecnológicas. O meio de desenvolvimento criado dessas tecnologias pouco tem a ver com a realidade, funcionam dentro das regras lógicas elaboradas pelo autor, essas quebradas na intenção de demonstrar um novo argumento da crítica ao progresso tecnológico. Toda especulação remete a reflexões propostas ao leitor, pois nos meios dos absurdos há a crítica quanto como grupos de pessoas desinformadas podem ser manipuladas, da obsessão de progredir na carreira comprometer a vida de gente próxima como a família, em como a apresentação de algo revolucionário pode mascarar o quanto este algo é na verdade perigoso.

Mesmo a intenção do enredo ter o foco menor, este perde a linha no meio do livro. Capítulos levam os personagens a nenhum ponto relevante, apenas oferece mais oportunidades de mostrar novas tecnologias criadas na mente criativa do autor, mas repete as críticas já ditas e assimiladas capítulos atrás. Pelo menos o enredo alinha à proposta original do livro ao final, oferece climas tensos acompanhadas ao ápice da criatividade maluca do autor nas extrapolações tecnológicas. O desfecho é bizarro de tão espetacular.

LoveStar consegue prender a atenção ao leitor às críticas sinceras por meio dos argumentos extraordinários a partir do mundo maluco criado ao longo dos capítulos. Exagera nas extrapolações e deixa o enredo de lado em prol da escrita  agradavelmente perturbadora.

“Não pensamos pelas pessoas. Só fazemos o que elas querem.”

LoveStar - capaAutor: Andri Snar Magnason
Ano de Publicação Original: 2002
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Fábio Fernandes
Quantidade de Páginas: 336

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Lobos de Calla (Torre Negra Vol. 5)

A longa jornada à Torre Negra sofre uma breve interrupção. Pessoas de costumes simples pedem socorro ao ka-tet do Pistoleiro, e ele deve seguir as regras desde Arthur Eld. Longe de sair de fato da jornada, o conflito encontrado em Calla Bryn Sturgis traz novos mistérios e respostas aos antigos, bem como a progressão dramática de cada membro da equipe de Roland, tudo traçado pelo ka. Os Lobos estão chegando, e todos devem tomar cuidado dentre as consequências das decisões feitas pelos envolvidos.

Lobos de Calla trata do quinto episódio da saga A Torre Negra. Publicado em 2003 e lançado em 2012 no Brasil pela editora Suma com tradução de Alda Porto, Stephen King leva o grupo de Roland a outra civilização peculiar com perigos inéditos e algumas respostas ao mistério em torno da Torre Negra.

“Crianças são uma safra como outra qualquer. Deus sempre manda mais”

Calla Bryn Sturgis é uma das regiões de Calla. Quase toda gravidez gera filhos gêmeos que crescem, se desenvolvem e realizam os trabalhos a garantir sustento pela família a permanecer na mesma cidade, por serem remotas demais de outras civilizações. Entre os moradores de Calla há Andy, o robô construído pelo Povo Antigo cujas poucas funções permitem ajudar os moradores em certas tarefas, além de insistir em contar a previsão do horóscopo a quem encontrar no caminho e avisar da notícia temida pela população. Andy anuncia aos moradores de Calla sobre a chegada dos Lobos no próximo ciclo da lua, também comenta da aproximação de Pistoleiros a caminho, capazes de confrontar os seres tão temidos.

Os Lobos vão até as regiões de Calla a cada vinte e poucos anos. O objetivo deles é selecionar um de alguns pares de gêmeos com pouca idade para levarem consigo, realizar o ritual neles e devolvê-los às famílias transformados em roonts, com mentalidade degenerada, crescimento abrupto a partir de determinada idade, e expectativa de vida precoce.

As opiniões divergem entre os moradores quanto ao grupo de Roland e geram discussões se aceitarão a ajuda deles ou não. Por serem Pistoleiros, eles cumprirão a tarefa sem exigir recompensas, apenas pedirão recursos conforme a necessidade da missão; aliás só o farão caso os moradores aceitem a ajuda e conforme for determinado pelo ka. Por fim Roland e seu ka-tet têm motivos para intervir contra os Lobos, pois também encontram pistas de como prosseguir à Torre Negra e testemunham prenúncios de eventos a enfrentar nos dois últimos volumes da saga.

“Primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio”

O quinto volume é marcado como o início da segunda parte da saga elaborada pelo Stephen King, esta rumo a conclusão. Vemos a apresentação e desenvolvimento da nova civilização encontrada neste volume com metodologia similar a de Mago e Vidro, embora tenha menos foco no arco dos moradores. Apenas o padre Callahan recebe destaque dentre os novos personagens por desempenhar o papel crucial nesta trama, e já ter vivido outras aventuras sob as palavras de King no livro Salem. Parte da história voltada a Callahan mescla com acontecimentos do outro livro, o que prejudica a quem não o leu, pois ficará carente do contexto da outra obra.

A partir do pedido de ajuda feito pelos moradores de Calla, o romance consiste no preparo do grupo de Roland até o momento de enfrentar os Lobos. Desenvolve o arco de suspense com entrevistas entre os moradores e busca de pistas sobre o tipo de ameaça a enfrentar. Os relatos remetem a perigos enfrentados em Terras Devastadas e são interligados com o conhecimento amadurecido de todo o ka-tet. Também há interlúdios sobre o principal destino de Roland e das tramas de cada companheiro, revisita situações encontradas na Escolha dos Três e interliga tudo ao arco central da saga. Em outras palavras, demonstra a força do ka sobre o enredo.

Pretendo abordar o final deste livro na resenha, então caso julgue esta parte da análise como #spoiler é melhor pular ao próximo parágrafo. A crítica é pertinente a batalha dos protagonistas contra os Lobos. Seres de ameaça tão aterrorizante, todo o livro focado no preparo contra o grande perigo à Calla, e a conclusão acontece depressa, com baixas apenas ao povo de Calla que talvez pouco impactará na jornada adiante do ka-tet. Em suma os antagonistas têm menos importância frente aos outros conflitos apresentados ao longo dessas centenas de páginas são mais importantes ao seguimento da saga.

Lobos de Calla traz outra demonstração de qualidade a King em desenvolver ótimos diálogos e construir novos personagens mesmo em direção à reta final da saga. A mistura desta história com a de Salem traz certa dificuldade na compreensão de determinada parte da história, embora o leitor assimile o bastante a compreender o papel de Callahan neste romance. O ka cumpriu seu trabalho soltando algumas pontas do enredo, estas a prosseguir na Canção de Susannah.

“Os deuses deixam sinais. Os homens deixam máquinas”

Lobos de Calla - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Alda Porto
Ano de Publicação Original: 2003
Edição: 2012
Editora: Suma
Saga: A Torre Negra, Vol. 5
Quantidade de Páginas: 744

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Entre Algoritmos e Princípios

Eu respiro fundo o ar ao redor, busco coragem e alívio puro, só encontro gases e desespero. Sujeira impregna debaixo das unhas e suja meu novo esmalte, demorei vinte minutos da cidade até aqui, imagina se ele morasse mais longe… Larguei as luvas antes de sair da casa, é preciso mostrar isso a ele, isso e todo o resto. Será difícil, ele sempre foi difícil, assim como eu. Tusso, coço o nariz, ajeito o cachecol sobre o pescoço e ergo a mão à porta, bato dois toques. Sem resposta, claro. Preciso erguer a outra mão, a que carrega o pote com o bolo de cenoura, mostro para a câmera da casa e um clique aciona a porta automática.
Coloco o pé direito dentro de casa, a lâmpada do cômodo não acende. Janelas bloqueiam a entrada de luz, até as artificiais. Arrasto meus passos, evito outro tropeço, outra fratura de perna. Empurro objetos com a ponta do pé, pedaços e mais pedaços de metal; chacoalho as pernas e expulso os fios e cabos, enrolam nos tornozelos feito cobras. Nada de venenos, nem moscas vivem neste lugar, a casa libera fumaças dedetizadoras ao menor sinal de vida inumana neste lugar.
— Venha até mim. Estou no cômodo três.
Esta era acasa de papai e mamãe, com cozinha, quartos, sala e banheiro; agora são cômodos um, dois, três, quatro… Controle-se, Joana. A visita de hoje é diferente, nada disso importa mais. Eu desisti, desisti de brigar, de esmurrar a ponta de faca através das palavras contra meu irmão. O bolo, começo pelo bolo e então digo a ele. Qual é o cômodo três mesmo? Ai! Seguro o braço e sinto o sangue manchar o dedo. Uma daquelas pinças dele estava jogada na mesa da sala, mesa invisível nessa escuridão. Meu pé encontra a cadeira e a puxo, sento e aguardo a dor passar.
Como isso pôde acontecer? Éramos dispostos aos abraços, todos os dias. Sorríamos na presença de coelhos, brincávamos em árvores, acariciávamos um ao outro quando alguém saía ferido do futebol. E hoje estou aqui sozinha nesta ferida causada por ele. Não, eu fui desatenta. Devo parar de fingir inocência. Tenho minhas culpas, vim aqui por elas. Deixe doer, preciso falar com ele.
E assim enxergo luz. Enxergo-o com os braços sobre o balcão, na parede dos fundos onde ficava a pia, onde era a cozinha. De costas a mim, concentra a atenção nos circuitos do corpo, ao tutorial transmitido no implante da orelha esquerda, mantém a postura com o exoesqueleto de modelo Ita7, os tendões do braço substituídos por cordas metálicas ligadas ao músculo, acionadas por dezenas dos milésimos algoritmos codificados junto ao sistema neural dele; os tendões dos tornozelos são iguais, e seus pés descalços sequer tem pele, substituída por circuitos e implantes.
Deixo o bolo na mesa ao lado. Ainda é a mesa de cozinha, a favorita da mamãe. Apaga a luz, Miguel para de operar o próprio braço. Aciona a luz das lâmpadas, até a da sala — o cômodo um. A pinça onde bati o braço brilha com a ponta em vermelho. Espero que ele limpe meu sangue antes de usá-la.
— Obrigado pelo bolo, irmã.
Permanece ali, de costas, esperando eu sair. Nunca deu certo, e desta vez é diferente. Pouco importa a falta de vontade dele, eu preciso avisá-lo. Olha para mim, Miguel! Garganta fica entalada de medo, as palavras ficam presas ali, abro a boca e fico em silêncio. Ele vira e enfim mostra o rosto, ainda livre de implantes.
— Veio discutir de novo?
— Não, irmãozinho. — As palavras saem. — Chega de discussão.
— Já tentou isso antes. “Chega de discussão”, em seguida trocamos insultos. Impossível, Joana. Ficamos muitos diferentes.
Sim, ficamos. Embora eu note pelas partes da pele substituídas por implantes; e ele me vê sempre igual, por isso sou diferente. Pernas tremem, rendo meu corpo a cadeira da cozinha. Suspiro a fumaça da rua ainda presente.
— Prometo não ser a mesma coisa.
— E o que são promessas a você, irmã? Eu tenho meus códigos, eles me ajudam na execução de minhas tarefas, no seguimento de meus princípios. Você é naturalista, submissa aos defeitos da nossa espécie, teimosa em aceitar a evolução.
— Você está errado no conceito de evolução, no significado acadêmico em relação à espécie. E os princípios são diferentes dos algoritmos, Miguel. Por Deus, quem é o teimoso aqui?
E pronto, começamos a discussão. Falhou de novo, Joana. Como sou burra. Deixei Miguel me provocar de novo. Burra, burra, burra.
— Continua sendo hipócrita, irmã. Pouco adianta ter nojo por todo este metal no meu corpo, isso é o nosso futuro, o da humanidade. Quinze dos meus protótipos já foram adiante, sete estão em produção e três já estão me dando lucro. Paguei todas as dívidas da família e fiz as reformas necessárias da casa enquanto você fica nesta facção das plantinhas e atrapalha trabalhos como o meu.
— Chega! Deixe-me falar. Por favor, Miguel.
Ele balança os ombros, cruza os braços e me permite falar…
— Eu mudei.
… e me interrompe:
— Há circuito nenhum no seu corpo, ainda acredita nas ideias dos naturalistas.
Percebe a ausência de circuitos, menos a ausência de outra coisa. Tanto implante no corpo, e só nos mantém distantes.
— Ainda acredito. Deixe-me dizer até o fim desta vez. O que eu mudei, Miguel, foi um princípio, e o deixei como principal. Você entende isso, certo? De mudar a prioridade de um princípio como a mais importante. É possível programar seus algoritmos assim também?
— É sim, irmã. Então me conte esse princípio de alta prioridade.
A garganta fica entalada de novo. Por que é tão difícil? Eu me redimi, rendi os meus pecados na igreja e desejei forças neste momento. Preciso delas agora, Deus! Tremo os lábios, boca expele apenas silêncio, meu olhar fugiu de Miguel há tempos, olho o piso cinza de poeira. Difícil falar, mais difícil ainda fazê-lo entender com as palavras. O relógio da parede ainda funciona, e pela hora… Está quase na hora!
— Venha comigo, é melhor te mostrar.
Pelo menos o convenci, ou minhas lágrimas o fizeram me seguir. Com a luz da sala acesa, tiro os pés do chão ao andar, ciente de cada dispositivo largado no chão. Miguel nunca sequer tentou organizar o quarto, só piorou com a idade. Eu também piorei nos meus defeitos. O nó na garganta afrouxa e engulo o silêncio em seco. Porta abre ao chegar perto e encontro a cidade diante de nós no lado de fora. Pouco do céu é visto, coberto pelas fileiras de arranha-céus e tráfego de aeromóveis. A enorme tela do edifício central é tão visível quanto a instalada no shopping da rua seguinte a da casa de Miguel; cada uma mostra determinado assunto, todos considerados úteis à população. Uma tela avisa da possibilidade de chuva esta noite, outra enumera o total de impostos colhidos pelo governo, vejo o mapa colorido dos distritos principais e denuncia com tom vermelho onde aconteceu algum delito ao longo do dia. Tantas informações sobre nossas cabeças, que deixamos de olhar para baixo, às ruas esburacadas e animais feridos, quando há animais; se procurar algo de tom verde só encontrará nos neons dos aeromóveis, ninguém cultiva planta neste lugar.
Meu choro molha a garganta, solta as amarras e libera a voz.
— Consegue enxergar o sol, Miguel?
— Todo este choro por isso? Ver o sol? Enxergamos o mesmo mundo de forma diferente, irmã. Pare de forçar a sua ideologia comigo, pois eu aceito todas essas luzes, as luzes do progresso.
— Desculpa. — Só tenho esta resposta. De certa forma sou culpada. Desisti a tempo, apesar de ainda ter culpa com o que vai acontecer. E acontece agora.
Todas as telas dispostas nos prédios desligam. Os prédios desativam, aeromóveis estacionam no céu e tem os aceleradores inutilizados. A casa de Miguel apaga, como a de todas as casas desta cidade, de todas as cidades do estado, talvez do mundo, algum dia. Ruídos param de atravessar meus ouvidos e escuto o bater de vento nas minhas orelhas, tão comum de onde resolvi morar, resolvi lutar, e então abandonei depois de saber que iriam fazer isso, iriam eliminar o mundo visto por Miguel.
Ele perde o apoio do corpo. O peso dos metais o fazem cair no chão, de joelhos. Ouvidos captam sons sem o filtro do aparelho, mãos ficam imóveis com tendões desativados. Deus o ajude, nem as pernas encontram meios de mexer.
— Desculpa, Miguel. Os naturalistas foram longe demais.
— Como eles puderam? — disse cada palavra aos soluços.
— O planeta está morrendo graças a toda essa tecnologia, devido ao progresso desenfreado e inconsequente. — Espero ele me interromper por dizer algo contrário ao pensamento dele, e ele fica quieto. — Sempre acolhi as ideias da preservação ambiental, do aproveitamento de recursos recicláveis, a manter nossos corpos sempre naturais; mas nunca aceitei impor tais desejos à força, mesmo com você. Jamais aceitaria te deixar assim, nem a sua cidade.
A boca de Miguel resseca, sem palavras no momento. Agora ele vê, sem a ajuda dos implantes, ele vê meus braços sem a pulseira de roseira, o laço dos naturalistas.
— Acredito em você, irmã. Eu detesto a forma com que me trata, apesar de sempre querer o meu bem. — Ele tenta levantar, incapaz de impor força no corpo entregue aos aparatos tecnológicos, inúteis agora. — Não tem volta, tem? Mesmo se reativar esses implantes os seus colegas, ex-colegas, impedirão de funcionar de novo.
Confirmo com a cabeça. Confirmo e dobro os joelhos ao meu irmão, o abraço e deságuo os restos das lágrimas sobre ele, de corpo pesado e frio.
— Vou seguir o princípio principal, Miguel, o de proteger tudo o que resta de nossa família: você, irmãozinho. Cuidarei de você. Seja quais forem as condições, garantirei a melhor vida possível a nós.
Lágrimas também escorrem de Miguel, desliza pela minha bochecha colada na dele.
— Eu consigo, Joana. — Esfrega o queixo sobre meu ombro e levanta a cabeça. — Eu consigo enxergar o sol. Obrigado.

20000 Léguas Submarinas (Pé da Letra)

Já falei de livros com histórias sobre o futuro como alerta à sociedade vivida no tempo da obra escrita. Hoje o exemplo é diferente, trata de uma tecnologia prevista no romance, exaltada como proporcionadora de encontrar maravilhas inalcançáveis antes mesmo de ela existir! Este livro nos leva aos tempos mais simples, e demonstra a engenhosidade de algo comum hoje, mas no passado abriu caminhos a explorar no fundo do oceano.

É uma aventura a percorrer 20000 Léguas Submarinas. Publicado pela primeira vez em 1870 por Júlio Verne e com edição de 2018 da editora Pé da Letra e traduzido pela Lívia Bono, conta a história do naturalista Aronnax e seus amigos enclausurados na tecnologia a frente do tempo, o submarino Náutilus. Esta edição entrega a versão compacta e simplificada da obra original, informação exposta em nenhuma parte do livro; por isso fique atento ao comprá-la.

“Irromperam as discussões intermináveis entres os crentes e os descrentes”

O livro começa com o compilado de relatos do elemento presente em vários lugares do oceano visto por diferentes embarcações. Incapaz de conhecer os detalhes da entidade misteriosa, suas características perturbam dúvidas tanto dos acadêmicos como dos religiosos. Aronnax é naturalista nascido na França, ele acompanha os eventos desta ameaça marítima e obtém a oportunidade de confrontá-la sobre a embarcação Abraham Lincoln com a ajuda do assistente Conseil e do arpoador canadense Ned Land.

Prestes a desistir da expedição, a embarcação encontra o elemento submerso. É capaz de produzir luz por conta própria, o corpo é resistente contra o arpão de Ned Land e a força é brutal, colide com o navio e arranca Aronnax da embarcação. Suspenso no mar com o fiel assistente, o navio está distante, apesar de inteiro. Os dois se encontram com Ned Land sobre o corpo do elemento ameaçador, cujo revestimento é de metal. Entram pela escotilha e são guiados a uma cabine pelos tripulantes daquela embarcação submarina, e ali eles conhecem Nemo, o Capitão e responsável por criar esta tecnologia que despertou tamanha imaginação dos navegantes em vários países. Descobrindo o submarino de Nemo, ele confina Aronnax e os amigos a viver junto com ele pelo resto da vida, onde há a oportunidade de conhecer tanto a engenharia do submarino, como as maravilhas do fundo do mar até então inacessíveis.

“Era um fenômeno ainda mais assombroso, por ser simplesmente uma construção humana”

Todo narrado pelo próprio Aronnax, a história reflete o olhar de acadêmico ao vislumbrar as belezas nunca vistas por ele antes, bem como as disponíveis apenas pelo levantamento de estudos e teorias da época. Ler um livro escrito no século XIX com o conhecimento científico da época nos tempos atuais traz riquezas interessantes quanto à visão acadêmica naquele tempo. É possível ver conhecimentos hoje já defasados, bem como os que serviram de princípio aos conceitos modernos — como o desenvolvimento da eletricidade — e a maneira de como as pessoas lidavam com animais em extinção, esta com discussões entre os personagens capazes de enriquecer ainda mais o assunto.

Pelo período da publicação, é de esperar passagens descritivas e parágrafos longos que desenham cada detalhe do quadro a ser registrado naquela cena; escrita característica da época. A linguagem técnica se mistura com a literária nas nuances marítimas focadas neste romance, oferece a oportunidade de conhecer tais termos enquanto mergulhamos — desculpe o trocadilho — na aventura submarina. Aronnax vislumbra lugares diferentes do globo, relata as condições climáticas do local e a diversidade dos seres aquáticos à vista, narração tão recorrente a ponto de cansar a leitura, desvia do foco da trama formada ao longo de todo o livro: o conflito entre a liberdade e o deslumbramento dessas maravilhas.

Além dos aspectos da ficção científica — uma das primeiras obras do gênero por sinal —, o mistério ronda pelo submarino de nome Náutilus, tudo centrado no Capitão Nemo. Sem forçar questionamentos ao leitor, as motivações do responsável pela temível entidade submarina ficam em segundo plano, e mesmo assim suficientes à compreensão quanto ao comportamento deste personagem singular que incita aos personagens principais tomarem a iniciativa, apesar da intenção de Nemo ser a oposta, assim sucedendo os conflitos até o desfecho da história.

20000 Léguas Submarinas traz o encanto tecnológico a proporcionar o vislumbramento de vida jamais acessível sem a criação da engenhoca ficcional a tornar real tempos após a publicação da história. A escrita comum de uma obra do século XIX proporciona a leitura lenta, convida o leitor a compor cada peça da cena e então elabora a trama a seguir pela história com tons de mistério nesta aventura interessante.

“A terra não precisa de novos continentes, e sim de novos homens”

20000 Léguas Submarinas - capaAutor: Júlio Verne
Editora: Pé da Letra
Ano de Publicação Original: 1870
Edição: 2018
Tradutora: Lívia Bono
Quantidade de Páginas: 295

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