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Laços de Família (Contos Rotineiros de Clarice Lispector)

A resenha deste livro foi feita depois da segunda leitura, pois a primeira gerou nenhum impacto, quando o leitor adolescente buscava resultados espontâneos no final de cada conto, igual a personagem de O Búfalo. Dez anos depois, este leitor capta as entrelinhas do texto, conhece o fluxo de consciência, além de ler livros por prazer. Por descrever acontecimentos tão cotidianos, a autora consegue explorar significados peculiares no modo de escrever, ou revela o óbvio oculto pelas aparências. Laços de Família é uma coletânea de contos da Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1960, já a edição lida nesta resenha foi a de 2007, da editora Rocco. Segue os comentários referentes a cada conto do livro:

Devaneio e embriaguez duma rapariga

É o conto da mulher dona de casa. O marido trabalha fora, os filhos estavam na casa da tia. A mulher transpira pensamentos por todos os parágrafos, tudo contado sob fluxo de consciência, mostra devaneio correspondente ao título do conto. Sempre voltada a ela, mesmo quando a cena retrata outras pessoas, apenas ela é a personagem, a mulher livre, de mérito conquistado, cujas qualidades atraem olhares. Então a ressaca lembra a realidade dela; retorna à rotina.

“[…] só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso ainda não era nada”

Amor

Ana vivia dias seguros. Dona de família, a rotina correspondia ao ideal segundo a concepção dela, até encontrar um senhor cego no bonde, sorridente ao mascar chicles, e transforma a vida de Ana do avesso. A protagonista tinha certezas da própria convivência, e encarar essa nova realidade alheia a impressiona a ponto de preocupar. Seria certo ir atrás de conhecer algo novo? Seguindo ao diferente, ela perde o caminho de volta, e o desespero a consome.

“Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”

Uma galinha

Uma galinha prestes a ser abatida foge do galinheiro da família. O dono vai atrás, e a perseguição surpreenderá a todos. A narrativa foca no animal do começo ao fim, demonstra as limitações de sua vida, e nem isso impede do extraordinário acontecer, para depois voltar ao normal e chocar o desfecho.

“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”

A imitação da rosa

Laura irá, junto do marido Armando, ao jantar com a Carlota e o marido, amigos do casal. Há tempos não os via ou jantava assim, mesmo Laura sem ter filhos. Ela ocupa a mente com a casa, segue o ritual de tomar leite, em seguida ela ficava calma, algo tão natural quanto ficar cansada no fim do dia. O leite a tranquila, já as rosas a perturba. Tão perfeitas de modo a proibir o direito de as ter. Pretende entregar à Carlota, ou quem sabe mantém consigo; o conto segue por este impasse da protagonista. Laura ocupa a cabeça no aguardo do marido, até descobrir algo capaz de ela resolver, apesar de haver nada, é apenas um exercício útil a encher a protagonista de significados.

“’Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir’”

Feliz aniversário

É a festa de oitenta e nove anos da aniversariante. Toda a família reunida nesta data especial, já a homenageada da festa permanece muda, até escancarar a verdade, o evento é compromisso ao invés de festa. Conforme narra a cena, demonstra a situação de cada membro desta família. Sob tantos anos sobrevividos, há dificuldade de encontrar motivos de ter alegria em alguém a permanecer sentada; aos filhos, netos e bisnetos interromperem um dia de vida a fazer companhia à senhora. Enfim, mostra a melancolia escancarada nessa data a fingir bem-estar familiar.

“Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais”

O jantar

É sobre alguém observando outra pessoa comer, um sujeito intimidador pela própria existência. Melhor ler o conto por si e tirar as conclusões sobre quem é o sujeito e o narrador observador, tudo demonstrado nas entrelinhas, apesar da intenção na escrita ambígua. Todo o conto persiste em narrar este personagem comendo, foca nos detalhes, pois cada gesto dele desencadeia reações nas pessoas ao redor.

“Num dedo o anel de sua força”

A menor mulher do mundo

Marcel Petre é pesquisador francês. Dentre os humanos pequenos, pretende descobrir o menor dos menores. Assim segue pela África, até encontrar o objetivo: mulher negra, grávida, e a menor de todas as pessoas. A partir do retrato desta mulher, o conto segue numa questão nada agradável, mostra a reação dos espectadores de seu retrato, encaram-na feito espécie distinta, feito alguém sujeito a ser possuído, usufruído ao bel prazer; em suma, escancara o racismo sob desculpa desta mulher negra ser diferente. O conto também trata da visão dela diante do pesquisador francês, mostrando a visão limitada a sobreviver em contraste a alguém novo, estrangeiro.

“[…] obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria”

Preciosidade

É sobre uma adolescente na rotina de estudos. Vida solitária, ia até a escola sozinha, de ônibus, entre os demais passageiros, tem medo de ser vista, pois apesar de não se achar bonita, já está na idade. Muda de postura nas aulas, segura do mundo. Ao voltar para casa tem companhia somente da empregada. Vive enclausurada, mesmo assim sofre o que tanto teme, mudando assim a vida dela. A escrita é capaz de transmitir o medo da personagem em cada passagem correspondente, estendendo o terror ao leitor conforme acontece na garota.

“É que eles ‘sabiam’. E como também ela sabia, então o desconforto”

Os laços de família

Catarina acompanhava a mãe ir embora, e ao voltar no lar, leva o filho rua afora enquanto Antônio, o marido, aproveita a tarde de sábado que pertence a ele. E entre essas interações, mostra quais são os laços desta família, do patriarca engenheiro e esposa talvez cansada do apartamento todo arrumado, do filho nervoso sem fazerem nada por ele, e das provocações que tornam esta relação pacífica.

“’Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um’”

Começos de uma fortuna

O maior problema de Artur é pedir o dinheiro aos pais. Tenta a manhã toda e falha, na escola há oportunidades de gastar dinheiro, até mesmo pegar emprestado, o problema é já estar devendo a outro colega de classe. Assim Artur enfrenta agora os dilemas que ele precisa preocupar quando estiver mais velho, apesar da idade já estar próxima. E nesta crise adolescente, mostra os pais lidando com o garoto entre críticas e oportunidades divergentes entre pai e mãe.

“Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem”

Mistério em São Cristóvão

Toda a família da casa vai dormir, quando sai três moços mascarados da residência vizinha e encontram no jardim desta primeira casa os jacintos ideais a combinar com as fantasias deles. Ao tentarem pegar, chama a atenção de uma moça a berrar de susto contra eles a fugirem até a festa. O susto desperta todos na casa, apesar de este já ter passado, desencadeia emoções nesta família cheia de desconfiança, como se os membros desta vivessem mascarados. Os rapazes de fantasia somem faz tempo, e ainda assim a tensão na família permanece.

“Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio”

O crime do professor de matemática

Ele sobe até a colina, busca forças e fôlego ao tirar os óculos da face, só então ele age, tira o cachorro morto na mochila, o outro cachorro, não aquele, e começa a cavar. Aparenta ser um caso de agressão ao animal inocente, na verdade revela ser algo pior, pois este é o objetivo do protagonista sob pleno raciocínio lógico, lúcido, só que chocante ao leitor.

“Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade”

O búfalo

Desapontada no amor, ela decide ter ódio. Tenta buscar esse sentimento irracional no zoológico, só não o encontra. Explorando os animais de lá, o conto acusa a ansiedade humana em conquistar anseios imediatos, de procurar algo em seres ditos inferiores e encontrar só a própria fragilidade de si. Odeia por amar, e assim acaba amando o mundo todo.

“Ela mataria a nudez dos macacos”


Capa de Laços de FamíliaAutora: Clarice Lispector
Publicado pela primeira vez em: 1960
Edição: 2007
Editora: Rocco
Gênero: contos / ficção feminina
Quantidade de páginas: 135

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Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

Rotina de Escritor (Reclusão? A que Custo?)

“Feliz é aquele capaz de viver da escrita, com espaço e tempo próprio, sem interrupção de outras pessoas.” Era o que eu pensava…

Enquanto mantenho meu emprego na área de informática e me dedico a este blog, eu busco oportunidades de elaborar e aprimorar as minhas próprias histórias. Invisto boa parte do meu tempo em leitura, esta sem faltar um dia, inclusive feriado e finais de semana. Já não consigo o mesmo com a escrita. 

É uma luta conseguir três dias livres numa semana para desbravar a tela branca do word, além de outros períodos pequenos quando edito os textos e as resenhas do blog. O emprego me toma o dia todo, chego esgotado em casa onde moro com meus pais, tento trabalhar com o meu notebook quando os bons velhinhos não precisam de mim e meus adoráveis cachorros não resolvam latir contra o outro. 

Menino Mau - rotina

Menino mau >:(

Fim de semana tenho a manhã comprometida com o rádio ligado da senhora minha mãe até a hora do almoço, só começo a escrever de tarde. Se eu fosse religioso, rezaria pelo bom senso da vizinha não explodir funk como se estivessem tocando na minha casa. E o mais incrível: não sei por que é tão fácil jogar videogame mesmo ocorrendo todos esses empecilhos. 

Tentei planejar uma mudança drástica, com melhores condições de ter o tempo desejado: morar sozinho. Poderia ter o espaço tão querido para desenvolver essa profissão, mas o custo tomaria quase tudo de mim, tanto no quesito financeiro como de desgaste. 

Desisti desta ideia e desanimei. Felizmente recuperei meu ânimo, precisaria ser grato por cada oportunidade de criar meus textos. Também fiquei curioso com a seguinte questão: os autores famosos conseguiam se empenhar numa rotina? Eles precisaram ficar reclusos? Pesquisei sobre a rotina de alguns deles, esses mostrados a seguir: 

Autores que não poderiam ser incomodados 

  • Charles Dickens sua necessidade pelo silêncio o fez abafar os barulhos de fora ao instalar uma segunda porta em seu local de criação. Seu espaço era organizado com critérios rigorosos, como a mesa de frente a uma janela já com os materiais de trabalho dispostos e enfeites próximos a si, como vasos de flores frescas e estatuetas; 
  • Liev Tolstói escrevia todos os dias com o objetivo de não perder o hábito. Trabalhava de forma isolada, ninguém tinha permissão de interrompê-lo, e todos os cômodos próximos deviam estar trancados; 
  • Mark Twain tomava café da manhã e já se isolava até o fim de tarde, nem almoçava. Se a família precisasse dele, tocava um instrumento de sopro; 
  • H.P. Lovecraft seu receio em relação a estrangeiros e racismo (infelizmente) inspiraram as suas histórias de horror. Lovecraft também era conhecido por ser tímido. 

HP Lovecraft - rotina

Nunca imaginei metodologias tão distintas como a desses autores. Analisando as abordagens de Tolstói e Twain, jamais colocaria tantos obstáculos a pessoas próximas por causa de minha carreira. 

Lovecraft conseguiu elaborar incríveis contos com seu isolamento, criou uma mitologia e o próprio mundo imaginado. Porém sejamos sinceros: os diálogos são raros em seus contos, e esses de fato não são o ponto forte de H.P., pois reflete na própria deficiência de se comunicar com outras pessoas. 

Autores com rotinas equilibradas 

  • Victor Hugo escrevia durante a manhã após tomar seu café numa pequena mesa de frente a um espelho. Ao encerrar a manhã, jogava um balde de água fria sobre a cabeça, se revigorava e fazia outras atividades pelo resto do dia; 
  • Haruki Murakami acorda às quatro horas da madrugada e criava seus textos por seis horas seguidas, pratica atividade física a tarde, lê e ouve música a noite, e dorme as 21h; 
  • André Vianco acredita que a rotina e disciplina são necessárias na realização de seus sonhos e controle de ansiedade. Escreve durante a manhã e realiza os outros trabalhos à tarde; 
  • Stephen King um exemplo de produtividade e quantidade de livros publicados, não exclui um dia da sua vida na escrita. Não para até atingir a cota de duas mil palavras diárias. 

Um espaço para chamar de meu - rotina

 Autores com limitações 

  • Franz Kafka trabalhava durante o dia e só escrevia quando todos da casa dormiam, às 22h ou 23h30 até 2h ou 3h da madrugada, já conseguiu se dedicar até às seis horas da manhã; 
  • George Orwell também mantinha outro emprego, incapaz de viver somente da publicação mesmo com o primeiro livro bem aceito. Encontrou um trabalho de horário flexível, e aproveitou o tempo livre nos romances, em torno de quatro horas diárias. Fez a distopia 1984 numa casa de fazenda remota já com a saúde debilitada, datilografando na cama; 
  • George R. R. Martin tem outros compromissos além dos romances e um modo de criar a história que compromete o tempo da conclusão de suas obras: ele se considera um autor tal como jardineiro, planta as sementes da sua história e observa como ela se desenvolve. 

O autor de Guerra dos Tronos tem consciência sobre a existência de dias produtivos e outros nem tanto, e é normal ser desta forma. Mesmo com a melhor ferramenta e eliminando distrações, haverá dias com somente uma frase na página, quem sabe menos. 

Sam Tarly - rotina

E há a Jane Austen 

A autora de Orgulho e Preconceito misturava a rotina com a da sua família. Escrevia na companhia de sua mãe e irmã durante o dia, de noite lia seu manuscrito em voz alta para a família. 

Dentre todos os exemplos de rotina, gostei mais da Austen por conciliar o seu trabalho com as outras pessoas da casa, sem restrições absurdas ou dificuldades aparentes.  

Agora pergunto: qual o problema de não conseguir adotar a rotina de Jane Austen na minha vida, ou a de Stephen King ou Vianco? Depois de conversas entre amigos, aulas relacionadas no meu curso de preparação do romance e reflexão nesses vários exemplos mostrados, respondo: nenhum. 

Veredito 

Cometi um erro grave ao pensar que eu precisava de uma rotina com espaço e tempo garantido. São com certeza fatores essenciais ao escritor, mas é um erro idealizar essas condições e deixar de ser grato com a minha produção mesmo com essas limitações. 

Dou total razão ao George R. R. Martin sobre dias bons e ruins. Certo dia formei três mil palavras em apenas um dia, por que me importei mais quando mal consegui escrever quinhentas palavras? Ainda preciso fazer a revisão do texto, e talvez essas 500 palavras sejam mais proveitosas do que as três mil do outro dia, a ponto de serem descartadas. 

Comemore os dias bons - rotina

Comemore os dias bons

A besteira continua por eu limitar a minha visão por causa desta dificuldade. Vi autores com rotina garantida, entretanto isso não impede de eles não terem outras dificuldades, nem mesmo sobre a qualidade de seus trabalhos. Já mostrei as críticas quanto a H.P. Lovecraft, o próprio S. King confessou sua dificuldade com a produção de Sob a Redoma e de seus problemas pessoais idênticos ao protagonista de O Iluminado, ou quando sofreu o acidente de carro, problemas que interferiram nos trabalhos literários. Mesmo eu elegendo seu livro como a melhor leitura do primeiro semestre de 2018, tenho ciência que a qualidade de seus livros diverge, nem todos são grandes obras, outros têm críticas negativas, assim como as obras de André Vianco ou dos demais autores citados. 

Prosseguirei na jornada de escritor enquanto me mantenho como técnico em informática. Aprenderei a agradecer por cada avanço em meus textos e continuar nesse trabalho. Mesmo se demorar mais tempo pelas minhas restrições, não preciso de pressa, mas sim de aproveitar a escrita enquanto ela acontece. 

Referências

Minimalism, Success, and the Curious Writing Habit of George R.R. Martin

George R.R. Martin’s friends explain the complicated reasons his next book might be taking so long to write

11 Writing Lessons From George R.R. Martin, Because There’s A Lot To Learn From ‘Game Of Thrones’

The Daily Rituals Of Famous Writers

George Orwell’s Writing Habits

Entrevista | André Vianco

Desgraça (Conto sobre Correntes)

Sabe o que é desgraça? Sei muito bem, sou um exemplo disso. A vida toda sempre foi assim, não vivo no planeta Terra. Eu moro no mundo chamado Desgraça.

Mãe me disse que eu deveria parar de repetir esta palavra. Contou até uma historinha bem curta: o jovem se casou, mas não parava de reclamar, nada era o suficiente. A esposa não aguentou tanto ódio e largou dele, e assim começou a perder tudo.

Respondi depois de ouvir esta história que casamento é uma desgraça mesmo. Apanhei na cara.

Hoje não me bate mais. Está fora de alcance.

Ninguém mais da família além de mim mora na terra de meu avô, aquele bêbado desgraçado. Graças à tecnologia sou importunado por eles no celular.

Saio do grupo, a família coloca de volta. Eles mandam aquelas malditas correntes cheias de mentiras ou difamações. Eu reclamo, aponto os erros da corrente, mostro quando é vírus; e eles me xingam de chato. Sou expulso por alguém ao mandar a merda, comemoro, mas logo eles me colocam de volta.

Trabalho e pago as minhas contas. Quando se é adulto tudo se resume a contas. Os happy hours não agregam em nada, só alimentam ilusões sociais quando todos deveriam pagar suas dívidas. No dia seguinte falam de seus problemas financeiros. Eu escuto, e trabalho enquanto escuto. Basta abrir a minha boca e perderia o emprego na hora. Minha principal função é ouvir. Deveria ganhar um aumento!

Preciso ir na academia, só que meu tempo já está esgotado. Quando vou poder desgraçar da vida se eu ficar treinando bíceps? Melhor engordar com este doce de milho sem sabor, nada mais tem gosto.

O celular recebe chamadas. Vinte vezes. Atendo na vigésima quinta. Falo “porra” para o meu irmão. Marcos nunca desiste quando teima em falar comigo, sempre a mesma conversa.

“Já viu as correntes do grupo? Compartilhou para doar aqueles cinco centavos?
“Você tem que passear comigo, agora que estou com um [cita um modelo de carro diferente toda vez].

“Pare de usar sua mão e arranje uma garota.

“Mantenho segredo se curte garoto, só deixe de usar a mão.”

Tudo deboche. Só no fim fala algo sério. Desta vez foi:

“Fiz um convênio em seu nome. Tem cobertura com os hospitais de onde mora. Só faça alguns exames, está bem? Pelo amor de… Faça por você mesmo, e pela família.”

A família é o pior tipo de corrente. Nunca fui livre com eles. Nunca é o bastante. Eles sempre querem mais de mim. Terminei meu mestrado enquanto o resto se contentou com cursinho técnico. Mas no fim eu estou sempre errado, nunca faço nada direito. Não falam, mas eu ouço entrelinhas que sou a vergonha da família.

E sou vagabundo também. Minhas mãos não ficam calejadas no fim do expediente, logo eu não trabalho.

Aqui há mais feriados que no resto do Brasil. Nesses dias dão uma pausa nas correntes tradicionais e mandam a clássica “vida boa, hein? Só nos feriado!”, nem têm o trabalho de escrever, copiam e colam até o fim do dia.

Gravo um áudio com a voz do fundo da garganta em resposta. As mensagens dizem que áudio é apenas para o gemidão do zap. Além de impor regra, é uma regra tosca.

No dia seguinte recebo multa do condomínio pelo berro. Recebo outra por acrescentar “porra” no meu pedido de desculpas.

Paguei, depois caguei.

Os colegas insistem em convidar nas confraternizações. Cinco anos de recusas não são o suficiente para eles entenderem. Eles perguntam: por quê? Mas não querem saber o porquê, porque já sabem a minha resposta. Por que eles enchem tanto o meu saco?!

Duzentas mensagens recebidas no grupo da família. Imagina o caos se eu não tivesse desabilitado as notificações. Abro, todas iguais. Não perco tempo em ler, encerro o expediente e vou embora enquanto o resto gritam para eu ficar. Até estão tristes quando me veem saindo. Caguei.

Ruas totalmente desertas. Todos os dias é uma disputa desgraçada de pedestres para permanecer na calçada, mas não vejo nem os carros na rua.

Acelero o passo. Oito quadras até o apartamento. Ainda estou sozinho.

Lojas fechadas. Todas as casas trancadas até nas janelas. Corro ainda mais e nada.

Celular toca. Atendo e Marcos grita:

“Veja as porra das mensagens, Pedro!”

Se meu irmão meteu palavrão no meio da frase, é coisa séria. Tinha mais de cinquenta cópias da corrente sobre a seguinte notícia: guerra de facções no fim do dia, e é exatamente na minha cidade.

Corro pra caralho. Tropeço entre as pernas, mal caio, me levanto e continuo correndo.

Suo frio e ouço estrondos, rachas de pneus e tiros.

Polícia chega. Tentam me apreender, mas mudam de ideia quando grito socorro. Entro no carro e eles prometem me levar até onde moro.

Ruas são preenchidas com carros das gangues. O policial desvia de três. O quarto, quinto e o sétimo batem na viatura. Meu corpo bate de um lado para outro, esqueci de por o cinto. Sangue escorre da minha cabeça, os policiais gritam mais palavrões que eu.

O carro bate outra vez e eu fico derrubado no banco de trás. Ouço os disparos, vejo a cabeça do motorista sendo aberta por bala. Apago.

A dor percorre o meu corpo. Dói até ao abrir os olhos. Vejo tudo branco entre os borrões. Maca, lençol, parede, uniforme… O enfermeiro é negro, não que isso faça diferença.

Ele me tranquiliza. Segura meus braços até eu relaxar. Pergunta quantos dedos erguidos há na sua mão, mas acho estranho enxergar seis.

O sorriso do profissional me deixa tranquilo. Prossegue com suas análises, me engasgo com o palito na garganta (sempre acontece), e no fim ele pega meu celular.

Tela toda rachada, mas ainda funcionando. Mostra a mim a corrente da família. Cheia de mensagens de carinhos, xingamentos e comemorações em nome de Deus; gratos por eu ter sobrevivido.

“Você tem uma família e tanto!”
“É. Na verdade eu tenho sim.”

O que mais eu poderia dizer? Sou grato por estar vivo.

A Maldita Expressão “Ter Que”

Dentre as frases mais marcantes do personagem Seu Madruga do seriado Chaves, destaco esta para abrir uma discussão neste artigo: “Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar.” [grifo meu]

Seu madruga - Ter que trabalhar

Há quem ri desta fala mesmo ao ouvir pela milésima vez, tirando sarro do caráter preguiçoso do pai da Chiquinha. Todavia tenho uma opinião diferente. O ruim não é trabalhar, e sim a expressão ter que.

Meu pai fez cateterismo há menos de duas semanas. A principal recomendação médica após a operação foi ele ter que descansar por uma semana. Ele dizia várias vezes nos últimos dias o quanto estava cansado por ser obrigado a ficar em repouso.

Quando fazemos algo de nosso prazer sob condições favoráveis, temos a sensação agradável de realizar nossas tarefas. Do contrário, até o que mais adoramos torna algo desgastante.

A profissão de nossos sonhos fica chata se permanecemos no emprego que não nos agrada ou o ambiente de trabalho for sobrecarregado, só tendo que trabalhar para pagar as contas. Quem não arranja motivos para estudar além do que a escola/faculdade ensina, uma hora vai ficar decepcionado com algum professor e fará apenas o suficiente, tira uma nota satisfatória, passa de ano inconformado por ter que estudar assim até se formar.

Sempre senti repulsa ao ouvir esta expressão. Ficava puto quando alguém falava para eu ter que ficar calmo por estar nervoso. Desligava minha audição quando meus parentes gordos diziam que eu tinha de maneirar na comida.

Nervosinho - ter que ser assim

Não vejo sentido na obrigação de todos serem felizes. Felicidade é um acontecimento espontâneo e passageiro. “Ter que ser feliz” soa como uma imposição desconfortável em encontrar um caminho confortável na vida. Focamos nas metas que não acabam, sentimos pressionados em perseguir a felicidade quando poderíamos comemorar com o quanto já alcançado.

Consequência que temos de aturar

Sem falar da noção de fracasso ao não cumprir uma tarefa. Ser incapaz de fazer algo é visto como uma derrota em vez da oportunidade em refletir onde erramos e melhorarmos. Mas por que refletir e mudar nossas atitudes? Afinal é só termos que fazer tudo certinho e não teremos problemas.

Na obsessão de realizar as tarefas, pecamos em aprimorar nossas qualidades. Não temos tempo para estudar ou sequer relaxar porque temos de fazer o quanto antes. Se não consegue ou acha ruim, tem outros milhares querendo sua vaga.

É uma expressão venenosa. Ao seguirmos à risca, atenderemos as demandas imediatas. Porém perdemos o foco em desenvolver novas habilidades, a ponto de sermos incapazes de atender novas demandas ou ser substituído por algo automatizado.

Impus a mim uma rotina com o blog XP Literário. Publico um artigo toda segunda e análise toda quinta, além das postagens diárias. Mas eu não tenho que fazer nada disso! Faço por reconhecer como um exercício de escrita, faço para os leitores entenderem a frequência e visitar o blog nesses dias cientes de um conteúdo novo. Faço por motivação, e não obrigação.

Caso seja escritor, não terá que escrever todos os dias. Mas irá escrever para desenvolver o hábito e criar sua obra sem perder o ritmo de escrita.

Ou seja, ficamos desmotivados em realizar algo só por termos que fazer. Quando compreendemos a situação, traçamos metas e observamos a nossa progressão, buscamos formas de melhorar. Não lamentamos pela nossa incapacidade, e sim aprendemos com os erros.

Não sejamos amaldiçoados por esta expressão. Ninguém tem que fazer nada, quando temos motivos para alcançar tudo que sonhamos.

Hábito: conheça e domine

“Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves […]” 

 

As primeiras frases de Circuito Fechado do escritor Ricardo Ramos remetem ao que muitos de nós fazemos todos os dias de manhã. Sem sequer ter escrito uma frase com sujeito e verbo, já somos capazes de imaginar quais ações que o personagem está fazendo, e muitas delas nós também realizamos.

Fazemos tudo isso praticamente no automático. Não precisa pensar em cada um dos objetos para interagir, nem mesmo pensar em cada passo do que se faz de manhã. Sabe em que lado dos dentes começa a escovar? Pois é, nem planejamos por qual dente iniciamos, ainda assim escovamos sempre partindo do mesmo lado. 

Escovação diária - hábito

Essas e muitas rotinas são executadas sem um planejamento meticuloso. O nosso cérebro condiciona ações repetidas no automático, poupa a sua própria energia de ter que processar o que já ocorre inúmeras vezes. Este condicionamento do cérebro é o que se chama de hábito.

Características do Hábito

Sejam comportamentos bons ou ruins, mal pensamos e já fazemos. O objetivo principal é poupar esforço do que se faz com frequência enquanto dedicamos mais energia em tarefas novas e complexas. 

Sua estrutura é definitiva, embora as motivações e consequências têm muitas variedades. É um ciclo composto em três partes: 

  • Deixa: a condição que provoca o comportamento; 
  • Rotina: a ação do hábito; e 
  • Recompensa: o retorno positivo da ação tomada.

Analise os dois ciclos:

Acorda de manhã, vê os tênis de corrida (deixa), realiza a caminhada (rotina), e retorna satisfeito com o exercício concluído (recompensa). O cansaço do percurso atiça sua fome (deixa), abre a geladeira e come aquele pudim que sobrou da sobremesa de ontem (rotina), satisfeito pela refeição  (recompensa).

Corrida X Gula

Nestes dois ciclos consecutivos tivemos uma boa atitude e outra nada recomendada. A ânsia pela recompensa nos faz desejar o que tiver de mais agradável ao nosso alcance. O corredor pode até dizer não, mas já está levando o doce até a boca. 

Uma vez que sabemos o ciclo dos hábitos, podemos tentar mudar o comportamento e o ambiente de modo que consigamos manter as atitudes saudáveis.  

Para incentivar a caminhada, podemos deixar os tênis de corrida à vista e fácil de pegar. Qualquer obstáculo que nos faça ter de pensar, como tentar lembrar onde está o bendito do tênis, comprometeria nosso ciclo do hábito, e lá se vai a disposição para uma deliciosa caminhada.

O mesmo serve com o doce. Ao ficarmos cansados e vemos uma coisa saborosa fácil de alcançar, é difícil resistir à tentação. Pode ser possível negar a guloseima algumas vezes, e isso vai descarregar muita energia do cérebro para lutar com a recompensa do hábito. Uma hora vamos perder tal disposição, e renderemos à recompensa mais saborosa.

Em suma, a disposição do ambiente gera gatilhos no nosso comportamento. Quanto mais fácil for alcançar, maior a probabilidade de iniciarmos a ação. 

Uma vez que possuímos determinado hábito, não espere exterminá-lo em poucas tentativas. Esses não são destrutíveis, e sim substituíveis.

No próprio exemplo do lanche após a caminhada. Se o doce não estiver ao alcance, o corredor optará com outra comida para repor as energias. Basta que as opções saudáveis estejam mais fáceis de alcançar, e o comportamento será realizado de forma diferente, mas benigna. 

Este último exemplo é uma possibilidade, mas não servirá a todos. Se é alguém que come compulsivamente, pode precisar de tratamentos mais complexos, os que com certeza teriam de ser acompanhado por profissionais de saúde. 

O Meu Caso

Às vezes a fome nem é responsável por este anseio, o que eu particularmente pus em teste na última semana. 

Realizo alguns exercícios físicos todas as noites, uma luta intensa contra o meu sedentarismo. Não há muito o que me impede de fazer as flexões e abdominais diárias. Meu problema está após o exercício. 

Exausto, eu anseio por algo que me relaxe. Esta ansiedade atiça um dos meus piores problemas: a gula. Comia mais no final do dia do que quando chegava do trabalho ou no próprio almoço. E o pior: eu nem estava com fome. 

Tem como resistir? Mas é preciso

O desafio agora é trocar a minha rotina após me cansar com os exercícios. Substituir com algo agradável, de fácil alcance e relaxante. 

Felizmente a minha recente namorada está me ajudando com isto. Todos os fins de noites conversamos no chat, trocamos inúmeros elogios e mensagens de carinho. Condicionei-me a aceitar isto como a nova rotina que me dará a recompensa de poder descansar. Nestes primeiros dias de mudança parece estar funcionando, mas só saberei responder com certeza no futuro.

Esta mudança de ponto de vista não é o bastante. É preciso avaliar se eu realmente identifiquei os processos do ciclo deste meu hábito. Caso esteja correto, ainda pode demorar algum tempo.

O Milagre do Hábito (não existe)

Se pesquisar na internet, facilmente encontrará um número mágico de dias em que um hábito estaria modificado. Infelizmente não existe tempo definido. 

O artigo publicado pela European Journal of Social Psychology relatou um estudo com 96 voluntários que se propuseram a mudar algum hábito durante a pesquisa. Praticamente todos conseguiram mudar seu comportamento, mas o período que aconteceu variou de 18 dias a mais de 8 meses!

Muitas mudanças ocorrerão de forma gradual, com riscos de haver recaídas se não tiver o devido cuidado (como a disposição do ambiente). Fica mais perigoso se não estiver com a devida disposição.

Como melhorar

Com objetivo de incentivar a si mesmo, invista mais na sua recompensa, de modo que o deixe ambicioso por ela logo que comece a atividade. Igual o meu processo de relaxamento após os exercícios físicos: fico animado pela conversa divertida com a minha namorada assim que começo o meu alongamento.

Recompensa pela jornada

Outro exemplo de melhorar a disposição é se empenhar em mudar hábitos-chaves, estes que ao alcançá-los condicionam o corpo e/ou a mente de forma positiva a mudar os demais com facilidade. São hábitos como não dormir tarde, realizar atividades físicas, se tornar mais comunicativo ou mudar o modo de encarar as adversidades. Qualquer atitude contra o sedentarismo, procrastinação, ou desânimo dará mais forças a cumprir outros desafios. 

Anotar as tarefas do seu dia-a-dia também pode ajudar. Como o cérebro quer economizar energia, este não ficará pensando constantemente o que deve ser feito. Com o hábito de anotar suas necessidades e inserir no local de fácil visualização (para estimular a deixa), vai visualizar e se programar a cumpri-las (rotina), e ao ser feita pode retirar ou riscar a anotação com a sensação de um dever cumprido (recompensa).

A forma com que as anotações são feitas variam de acordo com o perfil de cada um. Desde post its a listas feitas em documento de texto ou em aplicativos próprios. Eu costumo usar um programa que mistura as tarefas diárias com um jogo online.

Habitica

Habitica é um jogo com características de RPG em que o usuário possui um personagem corresponte com atributos próprios do estilo de jogo, como pontos de vida, experiência, mana, força, constituição, inteligência e persistência. 

Habitica - logo

No jogo você mesmo cria os objetivos em três categorias: hábitos, tarefas diárias e tarefas a cumprir. Sempre que concluir uma tarefa ou realizar hábitos positivos, seu avatar ganhará pontos de experiência que elevarão seu nível e aperfeiçoará os atributos, além de ouro para comprar itens no jogo (como armaduras e equipamentos) e uma chance de conseguir item especial (ovos de animais de montaria e alimentos para os mesmos). 

Por outro lado, cada tarefa diária que deixou de fazer ou admitir ter feito um hábito ruim, o seu personagem perderá pontos de vida.

Ao participar de um grupo, é possível realizar missões com outros usuários, em que deve derrotar um chefe ou encontrar itens a partir do cumprimento de tarefas, mas se uma pessoa do grupo falhar em suas tarefas e hábitos, todos perdem vida.  

As missões garantem prêmios únicos quando concluídas. Aliado a punição de todo o grupo se alguém vacilar, são ótimos incentivos a melhorar seus hábitos. 

Conheça e Domine

O que aparenta ser uma forma de seu cérebro ficar ocioso e ocupar menos esforço com tarefas repetidas e agradáveis, pode também prejudicar uma pessoa no futuro.

Felizmente é possível utilizar desta característica para o nosso benefício, ao tomar ciência do porquê fazemos certa ação em determinado momento, é possível burlar suas próprias regras e adaptar com iniciativas mais saudáveis.

Shia LaBeouf - JUST DO IT!


Links Recomendados

O Poder do Hábito (Charles Duhigg) – clique e veja a resenha do livro 

Trecho de Circuito Fechado (Ricardo Ramos)

How are habits formedModelling habit formation in the real world

Habitica

Nerdcast sobre Hábito

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