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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

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Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Vivemos tempos difíceis por conta do cenário político. Toda discussão fica complicada pela repulsa ao ponto de vista alheio, da propagação de notícias e conceitos falsos e a ausência de coordenação entre os representantes — eleitos ou não. Pelo menos ainda podemos criticar qualquer decisão mal feita, às vezes conseguimos mostrar os argumentos no meio de tanto fervor de pessoas com visões verossímeis apenas quando lhe convém. Já num governo autoritário temos direito a nada, inexiste lados senão o opressor e os oprimidos. A coordenação é eficiente, impõe submissão a todos com condições difíceis de perseverar. Tal regime totalitário incitará rebeldia nas pessoas capazes de ameaçar a opressão, mesmo que aconteça depois de mil anos.

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação mostra o domínio de Una e o desespero de alguns habitantes de Untherak ao descobrir seus segredos. Publicado em 2017 na editora Intrínseca, Felipe Castilho entrega esta fantasia nacional onde a violência é exposta e imposta aos personagens.

“Com requintes de crueldade a cada sílaba”

Untherak é o lar da civilização após os seis Deuses darem a última chance aos seres existentes. Humanos, kaorshs, anões, sinfos, gnolls e os gigantes vivem sob a consequência dos pecados dos ancestrais, todos submissos à vontade dos seis Deuses que se uniram e viraram Una, a governanta imortal da cidade. Com força militar dominante, o general Proghon coordena os soldados — chamados de Únicos — com a ajuda da tenente Sureyya. Centípede é o grupo de arautos da Deusa, com rostos de difícil assimilação. A vontade de Una também é garantida pelos Autoridades, fiscais com permissão de punir qualquer cidadão que falte com as obrigações.

Entre os cidadãos há duas classes. Os servos prestam serviços mais pesados durante seis dias da semana e moram em celas, e os semilivres possuem mais liberdade quanto a tarefas e onde podem ir, mas ainda sujeitos a qualquer demanda do governo. O servo consegue ascender à semiliberdade ao pagar um preço exorbitante ou sobreviver na batalha jamais vencida no Festival da Morte.

Aelian serve no setor de correspondências como assistente de falcoeiro. Apesar de presenciar na pele as reprimendas dos Autoridades, o humano insiste em se arriscar nas ações nada prudentes. Harun é anão e Autoridade, sonha em reconquistar as relíquias dos antepassados, valores quase perdidos no domínio de Una. Ziggy é um sinfo, criatura ainda menor que os anões, assexuado e de pouco tempo de vida; vive com os outros da mesma espécie no Segundo Bosque, nada comparado ao lar original deles, o Primeiro Bosque. Raazi e Yanisha são amantes e kaorshs, espécie com capacidade de mudar o tom da própria pele. Yanisha descobriu o segredo de Una, e quer acabar o reinado dela junto com Raazi desde então. Todos esses personagens conhecem Aparição, um guerreiro oculto com vontade de combater o governo totalitário de Una, portador de espada grande e com a cabeça coberta com o capuz da cor proibida, a vermelha.

“O tempo tem a capacidade de transformar tudo, exceto a si mesmo”

Conhecemos Untherak e seu regime totalitário através das histórias dos personagens citados, em especial Aelian e o casal de kaorshs. Eles têm os próprios objetivos, com o tempo alinhados com o da trama, o de dar um fim a Una e o sistema cruel da cidade. Aparição é o símbolo de ameaça aos Autoridades e Únicos, bem como a esperança a quem é salvo pelo ser excepcional. As demonstrações de violência são constantes, punição é eficiente apenas ao impor medo, muitas pessoas — cidadãos e Autoridades — aproveitam das brechas e vistas grossas para benefício próprio, demonstrando a Lei de Gérson através da fantasia brasileira.

Cada personagem tem as suas particularidades. Passado, problemas e ambições possibilitam empatia enquanto mostra os perrengues do capítulo vigente, demonstram-se verdadeiros a ponto do leitor importar com cada um deles, mesmo quando não de primeira, pode mudar de opinião após descobrir todo o contexto vivido. É fácil compartilhar sorrisos nos momentos pertinentes, bem como prender a respiração ao longo do enredo tenso. Mesmo assim o autor perde algumas oportunidades de aprimorar a empatia por usar verbos de pensamento em certas partes do capítulo. Tais verbos resumem a sensação do personagem sem a repassar ao leitor.

O enredo trabalha a formação e evolução dos protagonistas e impressiona nas reviravoltas. Cenas surpreendem e oferecem o suspense antes de dar a resposta, umas no momento certo, já outras sob entrevistas — diálogos feitos de perguntas e respostas — que despejam a informação no leitor. Seja na construção ou destruição de conceitos, tudo empolga a curiosidade quanto a surpresas reservadas nas próximas páginas.

Ao começar a ler as cenas de ação, espere qualquer resultado. As batalhas ameaçam retalhar seja quem for, lâminas rasgam o corpo sem pudor e terminam vidas importantes, reconstroem o enredo com as consequência levando a novas possibilidades.

“Pessoas prestes a morrer eram bem mais perigosas do que brutamontes”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tem ótimos pontos positivos em fantasia e comprova a capacidade de Felipe Castilho como autor brasileiro de ótima qualidade. Com ressalvas quanto a passar a informação e demonstrar sentimentos do personagem em vez de contá-los por verbos de pensamento, ainda assim é preciso congratular pela ambientação e demonstração verossímil de um governo violento que recorre a qualquer alternativa capaz de manter os moradores submissos; o vilão gera a consequência de causar empatia ao leitor nos personagens vivos através das palavras.

“Alguns infernos duram mil anos; outros, um dia. Mas nenhum é melhor que o outro”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação - capa

 

Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Gênero: Fantasia
Quantidade de Páginas: 448

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O Cavaleiro da Morte (Vol 2. de As Crônicas Saxônicas)

Existe certo fascínio nas ficções voltadas aos aspectos da idade média. Modo de vida mais simples, natureza presente, orgulho de ser leal a uma causa contrastam com os perigos de morte, saneamento básico inexistente comparada a de hoje, e as oportunidades nulas de ascender na sociedade e permanecer na posição social onde nasceu. 

Cada grupo tem a própria ambição e crença. Cavaleiros lutam em busca de mérito, principalmente pela sobrevivência e a garantia do reino onde sua família possa perseverar. Já os guerreiros dinamarqueses lutam para conquistar o lugar junto aos deuses no salão de Valhalla após a morte, enquanto em vida querem conquistar as terras saxônicas por serem mais férteis, e assim garantir a qualidade de vida ao seu povo. 

O contraste destas populações distintas é retratada em O Cavaleiro da Morte. Publicado em 2005, é a continuação do romance O Último Reino. Este segundo volume da saga Crônicas Saxônicas obriga Uhtred a se decidir em qual lado da batalha combater. 

O Cavaleiro da Morte - Capa

Bernard Cornwell é autor de dezenas de romances sobre ficção histórica, em especial os relacionados à Inglaterra, e conhecido pelos romances inspirados em fatos históricos e pelas cenas de batalhas viscerais. 

Sejam bons cristãos! Machuquem um pagão!  

Uhtred venceu o temível Ubba, porém deu pouca importância de tomar o mérito no momento certo. Já Odda, o Jovem, aproveita e se diz o responsável pela derrota do dinamarquês e consegue se promover com o rei Alfredo. Após descobrir a ascensão de Odda, Uhtred exige o reconhecimento na maneira pouco usual aos saxões e nada cristã, e recebe apenas penitência e repúdio do rei como recompensa. 

O protagonista é herdeiro de um castelo inglês (após a morte do irmão primogênito) e viveu entre os dinamarqueses da infância a juventude. Por viver entre os dois povos, ele vê a oportunidade de escolher a quem se aliar, apesar de ponderar os riscos em cada lado. Conhece Svein durante o período de indecisão, líder das tropas irlandesas e galesas que pretende derrotar o restante da Inglaterra junto com o líder dinamarquês Guthrum. Vários fatores surgem nos acontecimentos conturbados enquanto Uhtred se decide na escolha entre a impossibilidade da vitória ou da sobrevivência. 

Os dinamarqueses faziam seu trovão de batalha e nós rezávamos  

Narrado em primeira pessoa, Uhtred conta a história de quando era mais jovem sem se incomodar de ressaltar as próprias qualidades e os defeitos na época. As palavras de Bernard refletem a partir do protagonista na preocupação de deixar a história acessível aos leitores atuais, além de reforçar esta facilidade de compreensão também na tradução brasileira, com notas sobre escolha de quais termos se empregam. Há ainda explicações repetitivas dos acontecimentos anteriores da saga, pequenos lembretes entre tantas informações de personagens ao leitor, isso porque ainda se trata do segundo volume da saga de dez livros publicados. 

Esqueça o charme da idade média exaltado em outras ficções. Bernard Cornwell reflete a realidade crua e nojenta do período medieval. Revela os podres da justiça, nobreza e religião sem pudor daquela época, muitos gerando conflitos políticos, desafios a superar por Uhtred enquanto mantém a posição instável. Tudo fica ainda pior com o reino saxão quase destruído, muitos nobres ingleses se aliam aos dinamarqueses e abandonam o rei Alfredo.

As crises políticas e de sobrevivência dão espaços aos conflitos brutais no romance, os melhores aspectos na escrita de Bernard. As descrições imergem o leitor para dentro da batalha, acompanhamos a perspectiva de Uhtred e vemos como se participássemos dela. Sem dispensar detalhes, retrata a crueza e crueldade das colisões das paredes de escudos e duelos consecutivos na batalha não só entre povos, mas entre os deuses (nórdicos e O cristão). 

Cometo a injustiça pela minha demora em ler os livros de Bernard Cornwell. Eu não gosto de ler livros do mesmo autor em sequência, nem mesmo os volumes da mesma saga, só que eu demoro demais entre um livro e outro deste autor. Surpreendo-me com a ótima qualidade da escrita sobre a história medieval e das batalhas viscerais muito bem retratadas em palavras.

Deuses Caídos

A religião deve ser respeitada. Transmite ensinamentos ancestrais dos quais muitos valem até os dias de hoje. Independente das questões sobre a veracidade de suas histórias, essas são extraordinárias por trazerem os aspectos da cultura daquele povo que prevalece com o passar das gerações.

Mas a religião infelizmente possui sua prática adversa, essa executada por quem se diz fiel, mas suas ações não condizem com o dito. O que se deve fazer contra esse tipo de pessoa?

É um dos tópicos principais de Deuses Caídos, fantasia urbana com elementos de horror ocorrida no Rio de Janeiro.

Deuses Caídos - capa

Publicado em 2018, é o livro de estreia do Gabriel Tennyson, que escreve quando deixa de assistir séries ou jogar RPG. Acredita na popularização na literatura fantástica a ponto de alcançar a de Zeca Pagodinho.

Terror é o combustível da fé que alimenta os deuses

Judas Cipriano é um padre exorcista, membro da Sociedade de São Tomé responsável por realizar expurgação, mantendo o segredo sobre seus dons e da existência de criaturas feéricas da humanidade. É aprendiz de Tomás de Torquemada, o mesmo inquisidor espanhol do século XV.

Torquemada atribui uma nova missão a Cipriano: o de investigar a morte sobrenatural de um pastor corrupto transmitido no YouTube. Também ordena trabalhar junto com a policial Júlia e avaliar o seu dom com tecnologia.

A aventura mescla investigação policial com horror, a fantasia de criaturas ancestrais com o conhecimento e tecnologias atuais, a religião católica com a sua distorção por parte dos personagens.

Havia coisa que um homem só podia fazer quando não se encarava no espelho

Um dos melhores aspectos de se ler uma ficção fantástica ambientada no Brasil é testemunhar a verossimilhança do país onde vivo misturada ao universo criado pelo escritor. Tennyson empregou muito bem o regionalismo carioca nessa história e trouxe ideias originais ao adaptar conceitos de algumas criaturas existentes em outros países a uma residente no Rio de Janeiro.

A profanação dos personagens é exposta de forma explícita e grotesca. Descrições breves e simples contam os comportamentos mais bizarros das criaturas repugnantes cuja disputa de feiura é acirrada.

Mistérios são distribuídos ao longo da trama. Além das próprias questões do caso investigado por Judas e Júlia, os parágrafos levantam perguntas sobre esses dois personagens ao leitor, mas  já conhecidas por Cipriano. A resposta dessas perguntas chega no decorrer da história, bem mastigado ao leitor. Um capítulo específico sobre o antagonista traz as respostas descarregadas de uma vez e no ritmo fora do comum com o resto da história, pois apenas transmite informações quando as outras são mostradas na medida certa.

Repleto de cenas perturbadoras sem pecar na redundância, Deuses Caídos choca com o horror exposto em cada capítulo. As trezentas páginas prenderão o seu fôlego numa leitura bastante fluída e darão orgulho de oferecer a oportunidade de conferir um exemplo de literatura nacional de qualidade.

Saluh

O conhecimento dos ancestrais se perpetuam por inúmeras gerações desde quando o ser humano soube deixar registros. Transcreveram sua abstração do mundo, e essas se transmitiram durante séculos, alguns por milênios! 

O ensinamento é sagrado. Por outro lado, os escritos revelam apenas o desejado pelos autores. Podem criar uma história “original” sobre a verdadeira, e levar os seus ensinamentos como se fossem de alguém com maior importância, atribui existência ao inexistente, distorce as afirmações de outros, e com isso traz um conceito simplificado, mas palpável, a uma enorme parcela da população. 

Essa é a discussão levantada por Saluh enquanto traz os acontecimentos reais desde a origem da humanidade. Publicado em 2015 pela Luna Editora, é o segundo volume sobre as histórias do brasileiro Fernando Eastman, arqueólogo que descobrirá a verdadeira história das religiões de Abraão em sua viagem ao Egito. 

Saluh - capa

Cesar Luis é o editor e proprietário da Luna Editora. Formado em direito, já trabalhou como músico e tocou pela Europa, mas agora se dedica à escrita e edição de romances. 

Somente grandes seres deixam grandes histórias! 

Fernando Eastman viaja ao Egito após seu pai avisar de um presente destinado a ele: um livro antigo na livraria conhecida por muitos poucos. Tal livro traz perigo ao seu portador, por conter informações que mesmo sendo poucos capazes de assimilar, desconstrói muitos dos ensinamentos perpetuados por anos na humanidade. O item é alvo de conspiradores motivados a pegá-lo antes de Fernando, sem remorso de eliminar vidas no caminho. 

Durante os ataques dos conspiradores, Eastman encontra outra brasileira de nome Laura e depois Saluh, o autor do livro. Este homem se compromete a ajudar o protagonista e transmite o conhecimento que possui, enquanto revela aos poucos os mistérios sobre si próprio. 

Trocar seus medos por dinheiro e leitura fácil é perda de tempo 

Saluh é um personagem peculiar. Dono de muita sabedoria a partir de sua experiência extraordinária a qual ele compartilha durante a história. Os capítulos se alternam entre o presente e o passado deste sábio, demonstrando a influência que teve a certa figura histórica e religiosa. 

Suas palavras de sabedoria são transmitidas de forma mista: simples, mas ainda conforme o modo de falar dos anciões. São falas extensas e bastante abrangentes, mas ainda eloquente com o ouvinte e o próprio leitor. Saluh é uma fonte rica de frases memoráveis capazes de trazer reflexão. Já Fernando e Laura falam de forma objetiva, limitados ao próprio conhecimento, e revelam descontrole quando contrariados.  

O contraste entre os personagens é interessante, e eu preferiria ver mais disso, pois muito da história se passa sob a perspectiva de Saluh, e assim torna a leitura mais densa. 

Saluh revela muito de seu conhecimento em pouco tempo passado com os dois jovens e nas poucas centenas de páginas da história. O tempo presente do livro é usado para introduzir a trama, mostrar o lado do seguidor da conspiração, e trazer o desfecho de Saluh e sobre o conteúdo do livro destinado a Fernando. 

Usai o pouco tempo que tens… antes que o tempo use a ti 

O extraordinário é apresentado como algo crível, mas com reações exacerbadas àqueles incapazes de aceitar. As conversas com o escritor convidam a refletir o quanto a linguagem pode ser manipulável por aquele quem escreve. A mensagem é importante e reflete na vida real, pois precisamos consultar a informação com fontes diferentes se não quisermos ser enganados.

[spoiler] 

O desfecho sobre o livro destinado a Fernando me decepcionou. Foi apresentado como algo bastante perigoso a quem possuísse devido ao seu conteúdo, para no fim revelar que toda a informação já está pública na internet. Saluh alega que poucos entenderiam o conteúdo e sequer o achariam interessante, então porque comprometer uma livraria remota do Egito a proteger um livro já acessível a qualquer um? 

Talvez eu deixei escapar alguma justificativa no livro, embora essa conclusão tenha se passado muito rápido em comparação às outras informações. 

[fim do spoiler] 

Saluh é um livro de reflexão antes de mistério. A contextualização no presente oferece a base para a discussão sobre os escritos sagrados considerados por grande parte da população mundial e que sofrem adaptações conforme a cultura e religião. 

A Menina que Não Gostava de COR-DE-ROSA

Sempre há oportunidades em conhecer conceitos inusitados em sua vivência. Alguns negam essa oportunidade por ser contraditório às suas crenças, julgam o diferente como impróprio.

Eu me considero agnóstico, e estou aberto a conhecer novos tópicos independentes de tomar como verdades. Deve-se lembrar que a obra relacionada neste post é de ficção, acessível a qualquer um, mas sobretudo a leitores de mente aberta.

A Menina que Não Gostava de Cor-de-Rosa é uma história do gênero paranormal. Publicada pela Luna Editora em 2017, conta sobre o encontro da jovem brasileira Jéssica Kramer e o russo Dimitri Zirkov, ambos de capacidades sobrenaturais e alvos de uma sociedade secreta para instalar a maldade a partir de seus sacrifícios.

COR-DE-ROSA - capa

Boriska Petrovna é o pseudônimo de Carlos Pompeu, redator publicitário, colunista e escritor de artigos de blogs além dos livros. Este trabalho foi feito em parceria com Cesar Luis, editor e proprietário da Luna Editora.

Não era culto, mas sabia bastante sobre o oculto

Jéssica Kramer tem dons paranormais, resultado da relação de seus pais sob orientações ocultas. Ela foi destinada desde o seu nascimento a participar de um ritual de uma sociedade secreta, esta escondida após virar alvo de conspiração entre as religiões católica do vaticano e ortodoxa. Está destinada a ser sacrificada junto ao Dimitri Zirkov, o garoto adotado pela matriarca da sociedade secreta.

Jéssica encontra pessoas interessadas em ajudá-la. O livro dedica capítulos a contar as histórias dessas pessoas enquanto compartilha o conhecimento do ocultismo; há repetições de algumas informações na história desses, sendo por vezes desnecessárias. Nem toda ajuda é recebida de braços abertos ao saber do passado de certos personagens, cujo mistério é desvendado no melhor momento.

Uma das histórias desses personagens precisa ser revista. Numa descrição rápida da cena de suicídio, a história aponta qual o motivo de cometer o ato. Atribuir uma única razão é uma abordagem simplista para um tópico tão complexo, que pode trazer conceitos equivocados ao público.

Entendimentos errôneos são até desejáveis no mundo em que vivemos

As explicações sobre as crenças mesclam elementos mais populares como exemplos de demonstração, citando Caverna do Dragão e Harry Potter, entre outros.

O livro não acompanha a história de Jéssica, mas sim aborda a sua relação com o culto até o desfecho após a união com o jovem russo. Ressalto esta diferença pela narrativa não focar na protagonista. Preocupa-se mais em contar a história no todo do que na aventura desta moça. Longe de ser uma crítica, foi uma abordagem inesperada quando comecei a ler, e me levou pela história da forma diferente como imaginava.

A manifestação paranormal ocorre de forma espontânea e imediata, rápida até demais.

Com apenas 150 páginas, A Menina que Não Gostava de Cor-de-Rosa faz uma abordagem breve ao ocultismo e fácil de compreender enquanto se explica a trama principal, e por fim traz um desfecho rápido da história da seita maligna.

Down the Road (Romance/Thriller)

Há muitas formas de expressar o amor através da literatura: dos mais suaves a quentes; dos inocentes aos tenebrosos; e dos e viveram felizes para sempre ao até que a morte os separe. 

Este livro se trata da segunda opção de cada comparação citada. A mistura do thriller com romance elabora uma trama em que o amor dá forças à sobrevivência mesmo nos momentos mais bizarros e mortais. 

Down the Road trata deste romance cujo casal protagonista se torna vítima de uma seita fanática. Publicado pela Luna Editora em 2017, a narrativa alterna entre o passado dos personagens com a trama principal. 

Down the Road - capa

A autora V. Evans é o pseudônimo de Vivane Furtado. Formada em pedagogia, fluente em três idiomas. Até o momento possui dois livros publicados e posta ocasionalmente em seu blog pessoal. 

Ninguém percebe se está sendo educado enquanto aponta uma arma 

Lídia e Adrian são um casal e membros da banda Porridge 101, cuja tradução mingau tem tudo a ver com o estilo metaleiro. Eles conseguiam se manter com a venda de CDs e shows por todo o Brasil. 

O estilo musical muitas vezes não compreendido gerou revolta quando uma fã assassinou três colegas de escola e cometeu suicídio numa cidade remota. O casal vai até a cidade prestar uma homenagem a garota, mas são pegos pelos habitantes fanáticos de uma seita local. 

Destaca-se a abordagem feita ao tópico tão sensível como o suicídio. Não houve citações que poderiam minimizar a situação ou incentivar a prática de alguma forma. 

No decorrer dos capítulos ocorrem avanços quanto aos dois mantidos em cativeiro e torturados, mas também conta a história íntima do casal em outros trechos, além da história de cada personagem apresentado no livro. A quantidade de descrições sobre a vida dos personagens secundários é exagerada e muitas não colaboram com a trama. 

Não tinha sido uma boa cantada, mas ela o achou bonito 

A composição do casal não me impressionou pela sua aparência física. Está bastante detalhada não só nesses dois, mas em outros personagens. Não achei nada chamativo, só a beleza padrão descrita nas aparências. 

Por outro lado, a relação amorosa foi bem desenvolvida. A persistência no desejo de proteger o cônjuge quando a própria vida está em risco e a relação íntima do casal com alguns defeitos mostrados ao longo da história demonstram o quanto o amor pode ser mais do que uma relação íntima entre pessoas. 

Os erros de edição são constantes. Identifiquei ausências de acentos, frases repetidas, e pontos finais antes e após as aspas. A pontuação de diálogos é feita por hifens em vez de travessões. 

Com menos de duzentas páginas, Down the Road precisa se aprimorar na edição. Entrega um romance dentro de uma história com comportamentos macabros e a persistência da vida perante as dificuldades.


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