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S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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A Hora da Estrela

Difícil dizer quem nunca questionou sobre sua própria existência. Corremos atrás de nossos objetivos certos de sermos capazes, destinados a um futuro melhor com grande reconhecimento.

Alguns de nós conseguem elevar sua carreira e aprimorar sua condição de vida, já outros simplesmente não são capazes de sair do mesmo nível desde o nascimento. Há também aqueles que desistem de perseguir o sonho e permanece numa situação desconfortável, mas o suficiente para sustentar sua vida.

Já A Hora da Estrela trata da existência de Macabéa, uma moça alagoana que tentou melhorar de vida ao se mudar para o Rio de Janeiro.

Só que ela foi para outro estado com a mesma consciência infame de não ser útil a ninguém. Continuou a observar objetos insignificantes iguais a ela enquanto tomava coca-cola e sonhava em virar uma estrela de cinema, simplesmente por influência de seu programa de rádio preferido.

Sobre o Livro e a Autora

A Hora da Estrela foi a última obra publicada em vida pela Clarice Lispector, no ano 1.977. Com estilo de escrita próprio, é difícil classificar o livro com apenas um gênero. A narração é realizada pelo personagem Rodrigo S.M., o autor que escreve a história da protagonista enquanto conta a sua história.

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e ainda bebê imigrou para o Brasil com sua família. É considerada uma das escritoras mais importantes brasileiras no século XX pelas obras que envolviam cenas cotidianas e aspectos psicológicos.

Clarice Lispector, autora de A Hora da Estrela

Análise

A protagonista nunca foi importante para alguém próximo a ela, exceto para o escritor Rodrigo S.M. que assume o papel de narrar a sua história no livro enquanto ele mesmo se pergunta da própria existência (e por trás de todo o livro, vimos os próprios questionamentos da autora real, além das distinções de classes sociais e do regionalismo retratado).

Macabéa apenas existiu. Não sabia se explicar aos outros e falava de coisas insignificantes em suas conversas do que ela ouvia na rádio diariamente.

Há interrupções constantes no livro onde Rodrigo comentava sobre a protagonista, com relatos pessoais e até desabafos sobre sua profissão e da própria existência. Mesmo interrompendo, não existe quebra na estrutura do romance. Não há divisão de capítulos ou seções, a narrativa simplesmente muda da história de Macabéa para o monólogo do escritor.

Esta particularidade não deixa a leitura monótona, pelo contrário. Os dois aspectos intercalados no romance contribuem para discursar dos dilemas dentre os dois personagens envolvidos.

Fiquei bastante incomodado enquanto lia este livro, só que de forma positiva. A história da alagoana é hilária; mas não chorei de rir, eu ri de tanto chorar.

Macabéa é ninguém importante, não possui obsessão e chateia as pessoas com quem conversa. Até que ela descobre um motivo para viver. Um evento mudará completamente o seu modo de vida. Finalmente chega A Hora da Estrela. E em seguida acontece o final da história… Enfim.

Adaptações

Filme homônimo lançado em 1.985 de direção da Suzana Amaral. Classificado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) como um dos cem melhores filmes brasileiros.

Curta-metragem realizado por estudantes do ensino médio da Escola Técnica de Comércio de Tubarão, premiado no 1º Cine Festival de Literatura da ETCT. Disponível no Youtube.

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