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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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