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Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

Pedro Páramo (Juan Rulfo)

Nem sempre uma carreira é definida por publicar muitos escritos durante sua vida. Um livro de 100 páginas rendeu inúmeros trabalhos acadêmicos, e a soma de páginas escritas desses trabalhos são bem mais do que o autor escreveu por toda a sua vida. 

Esta obra vai além do que contar uma história, ela representa a população de lugares remotos. A visita em um lugar repleto de mortos deixa a atmosfera macabra, e então mostra a realidade ainda pior. 

Pedro Páramo é a obra ímpar com narrativas variadas e fora de ordem temporal. Publicada em 1955 ao público e depois eternizada nos trabalhos acadêmicos. 

Juan Rulfo é o responsável pela obra. Escritor mexicano, publicou somente um livro de contos além de Pedro Páramo, e jamais publicou outros trabalhos. 

Estou cheirando que alguém morreu no povoado 

Juan Preciado vai até Comala, um vilarejo remoto do México onde mora seu pai, Pedro Páramo. Nunca conheceu seu genitor, mas prometeu a sua mãe que o conheceria um dia e partiu após a morte dela. 

Seu pai governava o lugar com crueldade. Pedro Páramo eliminava qualquer oposição de quem pensava diferente, teve vários filhos bastardos, sem reconhecer seu único filho legítimo. 

Juan conhece algumas pessoas por lá, e descobre aos poucos a condição de cada um: estão todos mortos. Nem sempre o sujeito sabe disso, pois eles vagam pelo vilarejo normalmente. É uma jornada para conhecer seu pai, enquanto a jornada do leitor será a de conhecer as pessoas de Comala. 

Todos escolhem o mesmo caminho; todos se vão 

O texto começa a narrativa em primeira pessoa, quando Juan Preciado introduz a história ao leitor. No decorrer do livro outros personagens narram a sua história e a cronologia dos eventos contados é fora de ordem. 

Não é uma história sobre aventura ou a vida de um personagem. É a apresentação crua da vida de um vilarejo pequeno, distante de tudo. Passa-se por pessoas de diversos níveis, todas relacionadas ao dom Pedro Páramo, aquele quem dita o que acontece nessas terras. 

Não tive uma experiência de leitura igual a esta. As diversas vozes e tempos me levaram ao povoado, deixaram-me confuso e freou meu ritmo para assimilar melhor o lugar mostrado. É uma obra que causa discussões internas com o leitor, os murmúrios das diversas vozes ecoa e provoca uma sensação ímpar conforme vira as páginas.

Aproveite as cem páginas sem pressa, estranhe os sussurros dos moradores da Comala, e assimile a cultura mexicana através dos mortos deste livro.

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