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Infortunium, de Wan Moura (Conto do Convidado)

Tenho novidade para os posts do blog nas segundas-feiras! Trarei autores convidados que vão compartilhar um de seus textos no blog neste mês de novembro. Aqui terá uma amostra de seus talentos, e após o conto tem os links das redes sociais para conhecer mais do autor e de seus trabalhos.

O primeiro convidado é o escritor Wan Moura. Possui uma mão cheia para preencher folhas em branco com elementos de horror dos mais diversos contos já escritos. Mais do que escritor, é um entusiasta do terror, adora buscar histórias macabras em livros conhecidos ou através de autores independentes. Esse amor inusitado começou desde quando era criança, quando sua vó Madalena lhe contava histórias sombrias do folclore nordestino, experiência compartilhada no livro em homenagem a ela.

Agora fique com o conto Infortunium. Boa leitura (e pesadelo)!


Infortunium, de Wan Moura - capa

“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no Inferno do Abismo, mas sim aquelas que escolhem se libertar do Abismo e circular silenciosamente entre nós.”

HALLOWEEN — O Início

A luz oscilante do abajur destaca a pilha de revistas “Mestres do Terror” em cima da escrivaninha. Pôsteres do Donkey Kong e Castlevania decoram as paredes, assim como prateleiras abarrotadas de brinquedos e alguns frascos de remédios. Tudo coberto por poeira e teias de aranha.

O quarto é um labirinto de quinquilharias. A janela permanece fechada, mas através do vidro um brilho esquálido ilumina o garoto sobre a cama. As mãos dele vibram, os dedos percorrem um objeto com agilidade. Os olhos são bolotas acinzentadas, a boca adota o formato de “O” e após um bocejo se fecha.

Inspira e expira, pinça as pálpebras.

Recomeça a missão.

Sincroniza as seis faces de seis cores diferentes com tempo recorde. As dores no pescoço incomodam, o fedor de mofo dificulta a respiração, mas nada o impede de registrar na mente a centésima vitória sobre os mecanismos do Cubo Mágico.

O menino observa o relógio e verifica que a meia noite chegou. Joga o Cubo para baixo da cama. Olha em volta. Desliga a luz do abajur e esconde o corpo sob o lençol com estampas do Pac-Man.

Encharca o pijama com suor. Os pés coçam, um formigamento alcança as costas. Gira sobre o colchão, se contorce em agonia.

Não há sono algum.

Senta na cama; a coluna encurvada, mãos no queixo. Vislumbra o isolamento.

As prateleiras, os pôsteres, os brinquedos, tudo retém a escuridão. O guarda-roupa agora se assemelha a um caixão e faz o menino imaginar Bela Lugosi surgindo com presas sedentas por sangue.

Stanley sorri. Aos onze anos sabe que não há nada na escuridão ou sob a cama esperando o momento certo para atacar. Porém, pensar nisso incomoda.

O sorriso desaparece.

O menino abraça os joelhos, fixa o olhar num dos cantos do quarto e relembra o que a mãe dizia quando a visitava no hospital: “É tudo produto da nossa imaginação.”

A recordação o conforta até algo deslizar de uma parede a outra.

O garoto treme. Escuta estalos no teto, arranhões no chão, sussurros próximos ao ouvido. Uma gargalhada.

Vultos rastejam nas paredes; entram no guarda-roupa, escorrem para debaixo da cama e escavam o colchão.

Stanley deseja gritar, no entanto a voz se esconde na garganta. Sente o azedume desgastar a língua como as limonadas que toma antes de ver Caverna do Dragão.

Os sussurros se tornam gritos agudos.

O jovem cerra os punhos e fecha os olhos.

As sombras se aproximam pelo forro de madeira, desprendem um odor de comida estragada.

Stanley joga o lençol para o lado e liga o abajur; a luz falha como a respiração de um asmático em crise.

Olhos apavorados correm pelo quarto. O pânico pulsa, rasteja pela coluna. A frieza do medo o toca na nuca com arrepios.

O menino levanta da cama. Corre e aciona o interruptor próximo da porta; a luz do quarto brilha como o Sol. Stanley caminha até o guarda-roupa. Conta até três e abre as portas.

Roupas, tênis, pôsteres da Nintendo, fotos dos pais. Tudo empoeirado no mesmo lugar de sempre.

O silêncio reina.

Stanley abandona o quarto ainda com o medo pulsando nas veias. Chega ao corredor, desce a escada até a sala de estar. O clarão azulado sinaliza que o pai ainda jaz vendo TV. Ele o vê esparramado na poltrona e o chama.

Não há resposta.

Tenta outra vez.

Nada.

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.

Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.

“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”

Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.

O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.

O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.

Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.

Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.

O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:

— É tudo culpa sua!

O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.

As luzes oscilam.

Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

A sombra chega à porta desejando entrar. A madeira começa a ceder, as dobradiças rangem, rachaduras nascem na superfície de mogno e a maçaneta gira.

De súbito os empurrões cessam.

O silêncio sepulcral se abriga no ar.

Stanley salta da cama, corre para olhar pela fechadura e não percebe uma névoa vermelha se materializando sob a cama.

Ele vira para o lado e projeta as costas para a parede. Da névoa nascem garras, faíscas, um par de olhos negros e uma criatura que surge brandindo ódio. O fedor estrangulador perfura as narinas de Stanley, sua face é um misto de pavor e alegria.

O infante segura a vontade insana de correr para longe, lançar-se pela vidraça da janela.

Stanley desdobra os braços; as mãos espalmadas, os dedos em riste, os olhos marejados nublando a visão. A boca é um abismo de onde grunhidos escapam tentando formar frases compreensíveis.

A criatura vai ao encontro do garoto. As garras brilham, as presas gotejam uma saliva gosmenta, o corpo escamoso libera insetos asquerosos e os cabelos despejam um líquido viscoso.

Eles se abraçam.

Stanley sorri em meio a lágrimas.

A Coisa o aperta. Asfixia. As costelas do garoto cedem ao abraço do reencontro, o sangue escapa pelos cantos dos olhos e narinas. Os membros alcançam ângulos impossíveis, a carne fica azulada e os lábios roxos. Mais terra escapa da boca, os dentes apodrecem e caem. O rosto empalidece, as juntas ficam rígidas e o fedor de carne em decomposição sobrepuja todos os outros. Apesar de tudo o sorriso permanece.

A névoa se enovela nos tornozelos de Stanley e o arrasta para debaixo da cama. Depois para dentro do Cubo Mágico. A fera se mistura à bruma e some como a luz do abajur no momento em que os barulhos na porta recomeçam.

A chave é introduzida na fechadura; a maçaneta gira e um homem entra no quarto cambaleando, maldizendo a vida. Em uma das mãos carrega a garrafa de uísque. Inclina o vidro sobre a boca e despeja o líquido, engole o álcool em doses cavalares. Limpa os lábios com a costa da mão. Desliga o Walkman, retira os fones do ouvido.

O sujeito joga os olhos pelo quarto e vê o relógio marcando meia noite e treze. Ao lado o calendário com imagens do Super Mario Bros. Ostenta, rabiscado sobre o dia 2 de Julho de 1989, um “X” feito com giz de cera. O homem jura ter ouvido barulhos vindos do quarto do filho, mas não há nada fora do lugar.

A bombinha para asmáticos, os frascos dos remédios que não surtiram efeito, os pôsteres dos jogos que o garoto adorava, as revistas tenebrosas que alimentavam a imaginação, a data de seis meses atrás marcada com giz no calendário e o Cubo Mágico esquecido sob a cama. Tudo intacto desde o estrangulamento de Stanley pela mãe, portadora da Síndrome de Münchausen.

O homem fecha a porta com o choro travando a respiração, injetando dor nos pensamentos. No caminho de volta desliga a lâmpada do corredor quando a luz começa a oscilar; bebe outro gole de uísque e retorna para a sala sussurrando arrependimentos.

Dentro do quarto algo arranha a porta.

As sombras parecem mais vivas agora.


Mais de Wan Moura:

Perfil do Wattpad

Perfil no site Mal do Horror

Publicação original de Infortunium

Livro Madalena

Estação das Almas (conto)

Compartilho com vocês um breve conto inspirado na música homônima (que está disponível ao final do post) e na convivência do meu sobrinho, este apresentado um pouco mais velho na história a seguir:

Estação das Almas

“Eu quero sentar!”

Mantenho-me firme de pé. A terceira lombada seguida quase me levou ao chão imundo deste maravilhoso transporte municipal — de merda.

“Eu quero sentar!”

Minhas mãos estão encardidas, e mais partículas de sujeira se reúnem para uma assembleia em meus dedos, não importa onde eu me apoie. Seguro a respiração para que meu nariz coçando não contribua com a imundice. Tampar minhas narinas com o meu braço só traria mais pó em minha cara.

“Eu quero sentar!”

A sinfonia do motor roncando, o balanço do ônibus e dos grandes sofistas de busão que opinam sobre tudo e sabem nada, atrapalharia até os solos de guitarra do Korzus no volume máximo em meu fone de ouvido.

Mas jamais abafaria o choro do pirralho à minha frente.

“Eu quero sentar!”

Tenho ele apoiado na perna esquerda, forçando para que esta parte do meu corpo não pule junto com o ônibus e arremesse o meu sobrinho para longe.

Somos os únicos de pé neste momento. Um dos sofistas ao fundo já berrou sobre a geração mimada que chora por tudo. O restante apenas olhava a janela ou compartilhava memes em seus celulares.

Pergunto-me se aquele sofista levou pancadas na cabeça só por sua mãe não gostar de sua própria cria após inúmeras aventuras na cama. Ou se ficou meses sem família no orfanato para depois ser adotado por pessoas totalmente estranhas a ele.

“Eu quero sentar!”

Cinco anos hoje, mas já sofreu demais no primeiro mês de vida.

“Eu quero sentar!”

“Não vai sentar, Fábio. Hoje não.” Afago sua cabeça da maneira que posso. Pena não poder berrar contra os folgados para ceder o lugar a uma criança.

Sinto algo molhado no meio das pernas, mas são apenas suas lágrimas. Seu choro nunca funcionou comigo, por mais que este fosse verdadeiro.

“Eu quero SENTAR!” O agudo cortou meus ouvidos feito faca, outro sofista ordenou-me calar o garoto. Se dependesse dos outros, cada um de nós teria o nome “Viado” ou “Vagabundo”.

“Não está gostando da brincadeira?” Sorrio para o Fábio, e seus olhos encharcados encaram a minha indagação.

“Isso ne-tem graça.” O garoto fala melhor do que eu quando era criança.

“Mas ainda assim é uma brincadeira, e vamos comer um baita bolo se ganharmos!” Tomara que tenha bolo mesmo.

“Não quero bolo, quero sentar.” Criança é um ser muito complicado em sua simplicidade.

“Nem sempre podemos ter tudo o que queremos, ninguém aqui tem.”

“Fale por você, Vagabundo Viado! É só trabalhar que cê consegue tudo na vida.”

Ignoro.

“Essas pessoas estão cansadas, Fábio. Trabalharam muito para comprar o pão do café da manhã. Muitos vão estudar, outros ainda têm serviços domésticos, e o resto está exausto demais para ouvir o problema dos outros.”

Sem respostas alheias. O bom senso agradece.

Ele vira seu rosto para cada uma das pessoas sentadas. Não recebe o olhar de volta.

Seus braços escapam de minha perna. Agacho de imediato para pegá-lo antes de cair. Se eu encontrar um concurso de quedas de crianças, farei questão de inscrever este meu sobrinho.

A senhora do banco à minha frente oferece o seu assento. Seu cabelo branco, pele esticada e as rugas fizeram-me negar a ajuda.

“Isso naé justo”, resmunga mais uma vez.

“A vida é injusta, rapaz. Nossas vidas são cheias de problemas. Mesmo trabalhando duro, somos incapazes de resolver nossas vidas.”

Ergo meu dedo do meio sobre a nuca dele para não ver a minha resposta a mais um discurso do sofista julgador de vagabundos.

Ainda com o meu joelho dobrado, seguro firme seus ombros e aguardo sua atenção.

“A vida é injusta, e ficará ainda pior se você deixar de sorrir.

“Nunca corresponderemos às expectativas de todos.

“Cometeremos o erro de tornar o semelhante ao lado um inimigo por pensar diferente.

“Falharemos em deixar o coração na palma da pessoa errada.”

O menino me olha confuso. Acho que exagerei.

Era para ser um dia divertido, e eu acabo de jogar na cara dele a dura realidade do que ele terá de enfrentar.

Mas não temos controle sobre o que acontece ao nosso redor. Filhotes fofos de cachorros podem sangrar, sua mãe pode jamais retornar para casa num acidente fatal, ou seu melhor amigo pode se tornar uma peste após a separação dos pais.

Fico triste só de pensar pelo o que ele vai sofrer no futuro por causa de seu tom de pele, e desejo que ele não possua outras caraterísticas capazes de gerar mais ódio contra ele.

Eu quero do fundo do coração a melhor infância para o Fábio, mas sua linda inocência se perderá mais cedo do que nossa família espera.

“Então não é uma bincadera.” Olha para o chão.

“Claro que é!” Chacoalho seus bracinhos para erguer seu rosto. “É uma brincadeira ótima para fortalecer esta armadura que protege nossos corações.”

Uma brincadeira que nos abrigará da tempestade da vida, digo para mim mesmo. Nos deixará firmes em frente a enxurrada de lama que insistem em derrubar qualquer um. Uma brincadeira que nos ensina a viver, c@ralho! 

Amadura? Somos guerreiros?”

“Com certeza! Alguns são para tornarem-se livres, outros querem ser fortes. Só que todos devemos lutar.

“Você não é exceção, Fabinho. Então levante seu rosto, mostre seu melhor sorriso, e aprende a andar diante dos problemas da vida.”

Solto o garotinho e ele se apoia firme no banco.

Levanto para acionar o sinal de parada, e ele corre alegre na saída do ônibus ao parar no ponto.

Os demais passageiros seguirão seu destino. Compartilhamos essa breve viagem, e poderemos estar no mesmo lugar nos próximos dias, sem conhecer um ao outro ou sequer reconhecer que já partilhamos do mesmo transporte municipal de merda.

Os sofistas ainda irão reclamar, as maiores ideias continuarão sendo contestadas por memes, e as correntes de notícias falsas que eles compartilharam ainda vão chegar à minha timeline de poucos contatos.

Mas no fim todos embarcaremos no mesmo destino. Não importa o veículo nem quando. Todos iremos nos reencontrar ao chegarmos na Estação das Almas, e quem sabe lá seja possível perdoarmos uns aos outros.

Enquanto este momento não chega — e espero demorar muito —, eu comemoro por ver novamente o sorriso deste pequeno moleque que ri a cada tropeço seu.

Assim que a porta do apartamento se abre, Fábio salta ao abraço de sua mãe.

Eu não me atrevo a dizer o quanto seus cabelos perderam a cor desde que ela o adotou, principalmente quando ela recebeu em troca uma grande alegria graças ao menino.

“Brincou bastante com o tio?”

“Sim! Tio me ensinou como deixar a minha amadura mais forte!”

“Armadura?” Ela olha para mim. Apenas dou de ombros. “O seu tio está te enchendo com bobagens de video games de novo, é?”

“Isso aí, irmãzinha.” O que mais eu poderia dizer? “Bobagens de video games.”


A música inspirada é a última faixa do álbum Rock Brasil, da banda Motorocker. Com certeza é uma música que garante boas inspirações:

 

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