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Como Sobreviver ao Dilema das Redes Sociais (e da Google)

Netflix lançou O Dilema das Redes Sociais em setembro, no mês anterior ao desta postagem, e desde então várias matérias e, é claro, postagens nas próprias redes enaltecem os argumentos apresentados pelos entrevistados, afinal muitas das situações já eram conhecidas, visíveis a quem estuda ou interage neste meio de maneira profissional. O documentário é eficiente por dar voz aos profissionais responsáveis pelas ferramentas viciantes, arrependidos de participar delas, além de demonstrar uma família prejudicada do dilema por meio de encenações dramáticas.
Eu já conhecia boa parte das características mostradas no documentário, confesso de ter falhado em reconhecer algumas delas serem parte do problema a gerar polarização e distração, de entender o quanto eu também fui afetado. Depois de assistir, comprei o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, cujo autor Jaron Lanier também aparece no documentário, e ao ler aprofundei mais do quanto somos manipuláveis e baratos ao fornecer nossos dados e com eles as nossas competências às plataformas digitais. Contribuímos a tornar pessoas obsoletas, mesmo as de formação acadêmica.
Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais

Deletar ou não deletar, eis a questão!

Somos testemunhas do quanto a polarização incentivada nas redes sociais por meio do mecanismo de engajamento favoreceu inúmeros incompetentes a assumir cargos no governo público e até mesmo no meio privado, enquanto a população fica mais acomodada, sem iniciativa de buscar informação. Depois de tudo isso, a vontade imediata foi de largar as redes sociais, criar uma nova conta de e-mail e abandonar o Gmail. Percebi a ansiedade, então permiti tempo para refletir quanto a alternativas depois de lidar com tudo isso. Apesar de ainda não ter todas as respostas, apresento neste texto os primeiros passos a tornar o uso da rede mais saudável na minha concepção, tanto na perspectiva do usuário, quanto na produção de conteúdo.

O mal do Engajamento

Conforme vimos no documentário e Jaron faz questão de mostrar em seu livro, os programadores das plataformas digitais são gente feito nós, há nenhum vilão cartunesco por trás dos servidores do Facebook ou Google planejando manipular pessoas a brigarem entre si, por vezes levando a discussão virtual a agressões reais. Mesmo sem esta má intenção, na prática ocorre graças ao modelo de negócio que sustenta financeiramente essas empresas.
O Suposto hacker - O Dilema das Redes Sociais

A máscara está caindo, e por trás há só mais outro rosto humano

Vamos chamar toda campanha publicitária ou partidária existente nas redes sociais e páginas indexadas na SEO ― Search Engine Optimization, o mecanismo de classificação dos resultados mais atraentes em sites como da Google ― de produto. Este produto torna rentável ao proprietário quando atrai muitos usuários ativos nele, e serem ativos significam ir além de seguir e curtir a publicação deste produto. É comentar, compartilhar na própria timeline e dali gerar mais interações. Respostas de comentários também são ótimos índices de sucesso neste meio, isso segundo as métricas da postagem, pois ao conferir o que de fato escrevem, é bem provável encontrarmos discussões ofensivas.
Um lançamento de game exclusivo de certa plataforma gera críticas dos fãs da plataforma concorrente. A estreia de filme ou série ter protagonista homossexual ― às vezes basta ser feminina e hétero ― atrai críticas de gente alheia ao público-alvo. Nem preciso comentar quando a postagem é sobre política. Todos os participantes das discussões favorecem essas publicações, e ainda puxam consigo alguns extremistas que se destacam, atraem seguidores e viram outro “produtor de conteúdo”, abusam desta estratégia ao promover nessa interação online enquanto as empresas tentam promover o produto real.
Entre o dono do produto e os produtores de conteúdo competentes ou desses citados no parágrafo anterior a conseguirem atenção apenas por xingamentos, há inúmeros usuários sustentando o engajamento deles sem terem consciência disso por acreditarem contribuir com a sua opinião ou militar pela causa. Eles desesperam e caem na armadilha de tumultuar a rede, alguns tornam mais desses produtores de conteúdo vazio, outros apenas repetem informações prováveis de serem equivocadas. Ninguém tem de provar nada a ninguém, no entanto todos deveriam se informar melhor. Promova qualidade a si em vez de contribuir no engajamento alheio sem ganhar por isso.
Polarização - O Dilema das Redes Sociais

Polarização boa, é polarização inexistente

Aos produtores de conteúdo, é bom considerar remover a seção de comentários do seu site e dar menos atenção a opiniões desperdiçadas na timeline do perfil social. Vocês podem argumentar que assim perderão feedbacks construtivos. Têm razão, ainda há pessoas online dotadas da melhor das intenções, e por elas seria bom informar um endereço de e-mail para o qual podem te comunicar sobre o conteúdo. Dará mais trabalho transmitir o feedback, e isto favorece os interessados a fazerem o esforço de conversar em vez de tocar na barra de comentário, escrever palavras feias e enviar. Ainda haverá usuários a mandarem e-mail ofensivo, assim basta classificar como spam e focar nos interessados em contribuir. Aliás, caso tenha gostado deste texto ou queira contribuir com complementos ou críticas, mande mensagem no e-mail araujo.die93@gmail.com — caso eu saia do Gmail, mudarei o endereço aqui.

Esqueça a quantidade

Algoritmos das plataformas digitais agem conforme os dados recebidos, e antes de classificar esses dados e formular informações, os dados são números. Precisou averiguar diversos usuários com publicações de fotos em tons azuis, escuros ou escalas de cinza, para o sistema supor desses serem suscetíveis a depressão. Antes de identificar os jovens capazes de agredir a si mesmos, foi preciso analisar o padrão de comportamento online dos muitos que já o fizeram, assim experimentaram adequações de, segundo os desenvolvedores, prevenirem novos casos. É uma afirmação enganosa, deixa de ser prevenção quando o estrago está evidente, a iniciativa é na verdade a tentativa de solução a parar novos incidentes.
Os algoritmos de SEO também consideram os números, a quantidade de visitas de determinada página classifica a eficiência dela, depois cruza outros índices, os que classificam usuários nos diferentes tipos de perfis, por fim indica as páginas bem sucedidas a quem é interessado no conteúdo delas. Personaliza o uso online onde o usuário navega, mergulha e afunda em uma bolha sem saber. Depois de conhecermos inúmeros adeptos a teoria da Terra Plana graças a essa personalização de pesquisa online, pouco adianta responder que deixará os conteúdos do tipo sejam menos visíveis, o estrago já foi feito, os perfis transmitem as teorias defasadas entre si.
SEO - O Dilema das Redes Sociais

Há tantas características de SEO, que perde espaço das características de bom conteúdo

O mesmo pode acontecer no seu projeto ao considerar os objetivos na quantidade de acessos ou de público. Jaron desabafou de quando trabalhou como redator no site HuffPost e tentou atingir o público cada vez maior. Acabou por publicar conteúdo em que nem acreditava, só porque os visitantes online gostariam de ler e assim o aproximava da meta. Também começou a escrever sobre assuntos revoltantes, pois provocava os leitores a alimentarem o engajamento.
Outra estratégia bem comum, inclusive visível a muitos portais conhecidos da internet, é de exagerar na quantidade de matérias diárias, assim o usuário pode navegar entre elas e prolongar o tempo de interação no site. Isto prejudica o bem-estar das pessoas por sobrecarregar o tempo gasto online, e afeta também a qualidade do conteúdo, pois deixou de focar nisso em prol da quantidade tanto de produtividade quanto de acessos. Uma hora o público perceberá a superficialidade da matéria, e no fim você perderá os números inconsciente do motivo.
Muitos canais da plataforma YouTube tentaram seguir as diretrizes do site em publicar vídeos com frequência semanal, muitos desses sobrecarregaram e desanimaram de trabalhar por lá, ficaram em hiato, migrou a outras plataformas ou desistiram da periodicidade de vídeos. Certos canais conseguiram manter essa rotina de publicação, já eu parei de os seguir, deixaram de ser atraentes, e hoje perdi o costume de frequentar o YouTube, só vejo o que de fato me interessa ou atenda uma curiosidade particular.
YouTube

Rosto todo desfigurado, mas desde que atenda aos algoritmos de recomendação…

Atingir a quantidade corresponde ao sucesso momentâneo, sob prazo de validade. Caso produza trabalho online, foque a longo prazo e na progressão pessoal. Esqueça a meta do milhão de seguidores, talvez no futuro você consiga mil capazes de sustentar a sua produção porque acreditam valer a pena dedicar o tempo contigo em vez de desperdiçar inúmeras matérias lidas equiparáveis a metade de uma útil.
Atualizo este blog toda segunda-feira, às vezes consigo dois conteúdos na semana e publico na quinta também, então você precisa visitar o meu site somente uma vez por semana ao acessar conteúdo novo. Acabei de sugerir para sabotar o ranking do meu site, abrir mão das minhas visualizações, mas a minha utilidade na internet é garantir no máximo dois conteúdos novos toda semana. Só acessaria o XP Literário além disso para pesquisar algum conteúdo antigo. Recuso a encher o blog com postagens ínfimas até capazes de tomar o tempo de navegação e favorecer os meus índices no Google Analytics. Eu uso este espaço virtual a compartilhar o pouco que aprendo, longe de conquistar um sucesso superficial.

A timeline é infinita, nosso tempo não

Continuando no raciocínio dos sites prenderem a atenção, lembremos dos feeds das redes sociais. Deslizamos a tela dos smartphones e sempre encontramos postagens novas, com propagandas no meio. O nosso esforço é pequeno, em troca recebemos atualizações sobre a situação de nossos amigos online, as novidades dos noticiários, as conquistas daquele influenciador contente em compartilhar contigo um produto da marca obtido de graça ― ou foi pago para promover ― graças a você, seguidor fiel. Tanta gente tendo sucesso virtual, e você apenas deslizando o dedo no celular ou girando a roda do mouse. Começa a sentir apreensão, lembra apenas os fracassos na própria vida. O pior é a probabilidade dos supostos vencedores que você vê na tela também fazerem o mesmo é grande. As postagens infinitas consomem o tempo e diminuem a autoestima, a única vantagem dela é tornar viciante, e isso beneficia apenas a plataforma.
Tristeza na timeline - O Dilema das Redes Sociais

Tristeza na timeline

A solução é dada por Jaron no título do próprio livro: saia das redes agora. Já eu proponho uma alternativa, evite o feed infinito e assuma o controle. Escolha quais canais e pessoas acompanhar naquele momento e vá direto no perfil deles, assim olhará publicações antigas, já vistas da respectiva timeline, e pode se dar por satisfeito. Evite os perfis viciados na quantidade de postagens e lhe tomam tempo. Enquanto trafegar assim, lembre de evitar as seções de comentários, algumas podem estar contaminadas de polarização; em vez de contribuir no engajamento, favoreça o contato com a pessoa ou produtor e mande uma mensagem privada.

Seja mais ativo, e dê mais valor aos seus dados

Já reparou em quanto há novas funcionalidades que entregam resultados em vez de garantir a você ir atrás? A barra de pesquisa do Google é a mesma, apesar de ter um quadro no lado direito com as informações mais prováveis de os usuários quererem, portanto podem parar ali mesmo. O Google Tradutor converte a expressão no outro idioma conforme você digita, mas isso te ajuda a entender mais sobre esse idioma? No máximo tem a sugestão de outras palavras correspondentes a um resultado melhor as quais você irá selecionar e ensinar o sistema qual é a melhor opção de tradução, e você ainda nem entende o porquê.

Google

Nem todo estudo precisa começar dali

Os donos das plataformas digitais querem influenciar o consumo. Às vezes acertam e contribuem em entregar algo marcante, seja o curso ideal a desenvolver novas habilidades, seja música ou livro novo capaz de te distrair. Só evite de dar toda a confiança a esses algoritmos e descubra outras possibilidades por si ou pelas indicações dos amigos, então vá atrás você mesmo, depois nem precisa publicar a respeito. Faça caminhada, tomando cuidado a evitar infecção por coronavírus, ou caso faça parte do grupo de risco, planeje esta atividade quando a pandemia acabar. Veja a paisagem sem ter de postar foto no Instagram. Anote ideias valiosas para a vida, não um tweet. Quer empreender, então veja como pode ser feito no mundo real antes de promover no virtual.
Jaron fala em largar a rede social para forçar as empresas mudarem o plano de negócio. Minha sugestão ― talvez ineficiente pela minha inocência ou falta de referências, qualquer coisa manda um e-mail ― é tornar cada usuário mais valioso. Depende de cada um de nós. Precisamos ser mais exigentes e oferecer menos do nosso tempo online, valorizar o conteúdo em vez do sucesso da pessoa revertido em angústia a nós por não atingirmos o mesmo patamar. Parando de encarar os números, podemos obter mais resultados com menos seguidores, sendo esses os exigentes a valorizarem o nosso trabalho.

Referências

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais
Autor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190
O Dilema das Redes Sociais
Diretor: Jeff Orlowski
Estreia: 2020
Plataforma: Netflix
Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Como o Facebook manipula os seus sentimentos
Como o YouTube impulsiona teorias conspiratórias sobre Terra plana
Does quitting social media make you happier?  Yes,  say young people doing it (reportagem em inglês)
Center for Humane Techonology — organização mantida por Tristan Harris, o principal entrevistado no documentário da Netflix, o site está cheio de conteúdo (também em inglês)

As Intermitências da Morte (José Saramago)

Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

Problemas Comuns dos Livros Brasileiros

Aqui vai outro XP de Escrita com puxões de orelha! Um terço das minhas leituras do ano até o momento foram de livros nacionais. Eu tenho o maior carinho por eles e torço para eu eleger algum desses como a minha melhor Experiência Literária do Ano, só que não premiarei tal obra apenas pela autoria conterrânea, o livro deve provar seu valor a alcançar o topo entre as dezenas de histórias conferidas. Por carregar essa ansiedade, por vezes me entristece conferir um livro nacional e avaliar o quanto ele poderia melhorar, o pior mesmo é eu ficar cansado de criticar os mesmos problemas em cada livro. Acontece com livros internacionais também — inclusive com best-sellers vencedores de prêmios —, porém vejo certo desleixo nas obras escritas por aqui pela recorrência da situação.

Listo neste post três dos problemas mais comuns nas minhas últimas leituras de livros nacionais. Longe de desprezar tais obras por esses erros, minha intenção aqui é incentivar os escritores a melhorar sua escrita e assim evoluir a qualidade dos nossos livros.

Advérbios terminados em “mente”

Stephen King critica os advérbios por serem redundantes na cena. O contexto de todo o parágrafo já determina a intensidade da ação citada no verbo sem precisar do advérbio. O autor caça os advérbios na revisão feito inimigos mortais da escrita literária, e isso deixa os longos livros prazerosos de ler, com frases dinâmicas graças a limpeza empenhada por King.

A regra vale na língua portuguesa também, e a nossa tem outro agravante sério: os advérbios terminados em “mente”. Exatamente, milagrosamente, paralelamente, irritantemente. É extremamente angustiante ver essas palavras no texto literário, elas quebram todo o ritmo de leitura devido a extensão da palavra, maiores do que qualquer outra disposta no mesmo parágrafo. O custo é alto e traz pouco significado, quando eu reviso meus textos e identifico essas palavras, eu consigo substituí-las por — pasmem — nada, apenas retiro a palavra e mal perco o significado da frase. Haverá casos quando fará falta ao tirá-los, então veja a possibilidade de trocar a palavra por um sinônimo mais curto, e se aquele advérbio é o termo apropriado naquela situação, então deixe-o. Faça isso e verá como terá poucos advérbios em “mente” no texto, depois leia em voz alta e perceba a mudança no ritmo da leitura. Lembre de me agradecer depois.

Verbos de Pensamento

Este problema vem da dica do escritor Chuck Palahniuk, que emplacou o segundo lugar nas minhas melhores leituras de 2018 com o livro Clube da Luta. Vários sites traduzem o conselho de Chuck na íntegra, acessível a qualquer escritor brasileiro conferir, e mesmo assim enlouqueço de ler esses verbos tantas vezes.

Verbos de pensamento resumem as ideias e sentimentos do personagem, e o problema está na palavra resumir. Ninguém abre um livro de ficção esperando a síntese de uma história, e sim acompanha cada triunfo e problema do personagem, sofre com ele e fica a mercê da catarse da vitória ou chora no fim trágico. Como o livro vai provocar essa explosão de sentimentos no leitor quando a descrição limita a dizer como o herói acha o vilão feio e gosta da garotinha indefesa, esta que se preocupa pelo bem-estar do herói enquanto ele quer apenas um mundo melhor? Não funciona!

Esses verbos são atalhos de descrições e atrasos da qualidade literária. Evitá-los o levará ao caminho da metodologia de mostrar a situação ao leitor ao invés de contá-la — o famoso show, don’t tell. Longe dessa abordagem ser obrigatória, eu elogiei A Parábola dos Talentos com a narrativa descritiva, e mesmo neste livro há poucos verbos de pensamento, sem falar na capacidade da autora em impactar o leitor por contar as piores situações vividas pelos personagens, causa desconforto quando esta é a intenção da cena. Francine Prose — autora de Para Ler Como Um Escritor — também defende a ideia de narrativa descritiva nos momentos que é melhor citar as situações pouco importantes naquela cena e focar no objetivo daquela parte do texto. Em suma, demonstre domínio e direcione sua intenção na escrita, e fará isso moderando os verbos de pensamento.

Siga o conselho de Chuck reforçado aqui. Odeie-o, odeie-me. Tire esses verbos e desenvolva os parágrafos a expressar o pensamento ao invés de condensá-lo na única palavra, depois leia, compare com a versão anterior, e entenderá o porquê de eu criticar tanto nas resenhas quando vejo abuso nos verbos de pensamento.

Impor mais peso no enredo do que nos personagens

Essa crítica é importante, pois aconteceu também na última temporada de Game of Thrones — até grandes produções cometem erros. As grandes reviravoltas no enredo têm o poder de surpreender o leitor. O problema ocorre quando vem a pergunta “o personagem faria tal coisa mesmo?” e não encontra a resposta. O enredo apelou a reviravolta sem dar a devida motivação ao personagem.

Toda história deve desenvolver os elementos essenciais da narrativa em conjunto, ficará nítido ao empenhar em um e fraquejar nos demais. Nem preciso dizer o quão horrível é o leitor descobrir a falha narrativa do autor, compromete a expectativa envolta da obra e a credibilidade de quem a construiu. Quando vi a transformação da Daenerys no término do seriado eu refleti: “isso seria legal, se tivesse me convencido”, mas os poucos episódios falharam em desenvolver essa nova característica dela.

Livros são mais flexíveis ao tamanho da história, então o escritor precisa desenvolver a motivação de cada personagem, mostrar os conflitos deles e alimentar justificativas da mudança radical. Quando acontece a reviravolta, é preciso sustentar os argumentos dela, seja pelas explicações posteriores ou remeter a eventos anteriores e demonstrar como existia o prenúncio da mudança. Deixe-me falar de Clube da Luta de novo, o livro faz a revelação que vira a história do avesso, e conforme lê os parágrafos seguintes, percebe como todos os indícios estavam lá e respondem as inquietações provocadas na revelação.


Esses são os problemas encontrados nas minhas leituras de livros nacionais. As histórias ainda tiveram a sua qualidade, pois demonstrei também quais foram os acertos delas nas respectivas resenhas. Evitei de listar quais livros eu vi os erros pois quero evitar de denegrir tais livros com o foco negativo deste post, ainda acredito no potencial dos escritores brasileiros e espero este texto ajudar alguém a melhorar a escrita.

Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

Mimimi Sobre Mimimi

Hoje é tudo mimimi. Pessoas reclamam tanto da “geração mimizenta”, que fazem mimimi delas também. Talvez soe como se eu desencadeasse outra corrente pelo título, o mimimi de pessoas que fazem mimimi com quem fica de mimimi. Negativo! Já chega disso. 

Chega de Mimimi

Reclamar de algo virou moda, está recorrente e criará bolas de neve cada vez maiores. Um dos meus primeiros textos no blog é sobre lamentar, explico sobre os problemas permanecerem enquanto só reclama. Por outro lado, críticas ajudam a todos, caso bem ditas.  

Percebo haver certa dificuldade de ver as vantagens entre conflitos de ideias. Certas soluções atendem um nicho de pessoas e prejudicam todas as outras, e devem ser refutadas. As outras ideias estão longe da perfeição, satisfazem certos grupos em certos momentos, e por isso precisam de debate sobre qual a melhor alternativa, a capaz de atingir o maior número de pessoas necessitadas. Pena eu ver pouca discussão entre as propostas e mais apelos, xingamentos e estímulos através da repulsa ou medo, mesmo utilizando mentiras

Vamos simplificar o exemplo com dois lados, o vencedor e a oposição. Quem perde repudia os erros, cada ideia do vencedor está errada, obra do malvado favorito da oposição. Muitas das ideias são horríveis mesmo, com pontos de vista limitados e diminuem a importância da outra causa. Mas a refutação dessas é atribuída ao malvado favorito do vencedor.

A oposição deveria se valorizar, parar de responder com emoção e, sabe, usar argumentos na discussão. Emoções não correspondem, e por isso são minimizadas, mimimizam o “mimimi” do contra. Entende onde quero chegar? 

Quem diminui a reclamação alheia também se prejudica. Ignora as críticas ao invés de filtrá-las, desconhece as falhas do plano e até fica surpreso pelo fracasso, então aponta os erros da oposição para ocultar os próprios. Só esquecem do principal: resolver o problema. “Problema? É só o outro problematizando minhas ideias. Impedem de eu trabalhar, esses mimimi.”

Mais Mimimi
Mais Mimimi

Então a oposição enfurece, esclarece os motivos da crítica ser válida, e o outro lado só ouve mais mimimi. É a culpa do vencedor? Convém a oposição que seja, pois vira brecha para apontar o quanto o outro é ignorante. Porém quero pegar nos braços da oposição neste momento e dizer: a culpa é sua. Deixe de esmurrar a ponta da faca, precisa de outro método, selecionar melhores argumentos e afiar ferramenta de defesa. Com isso o outro lado deve trabalhar nas réplicas, faltará oportunidades de diminuir a oposição e demonstrar a verdadeira capacidade, caso a tenha.  

Imagino alguns dizerem o quanto sou inocente. Ideias são o de menos dentro do jogo, há o mecanismo capaz de manipular e favorecer determinado lado. Só que o mecanismo funciona porque ninguém o vê. Se houvesse discussão de verdade, o mecanismo seria mais transparente, portanto os argumentos poderiam atacá-lo, mostrar motivos de removê-lo e tirar esta ferramenta ultrapassada. Em outras palavras, o mimimi está ocultando o mecanismo. 

Mind blow - Mimimi

Está além de ficar exausto com brigas irrelevantes. Eu vejo irmos ladeira abaixo, de todos os lados. Precisa eliminar este egoísmo caso queira mesmo ir em frente, senão é o mundo que seguirá adiante e nós ficaremos atrás. 

Estamos perto de outro final de ano, e caso seja desses a fazer promessas ao ano seguinte, recomendo esta: procure entender o outro lado. Ouvir a opinião alheia não lhe converterá, e esta nem é a questão. Toda informação é valiosa, mesmo as horríveis. Mantê-las demonstrará seus defeitos e evitará de elas retornarem sob novos aspectos. 

Cumpra essa promessa e já resolverá a outra: parar de mimimi e levar assuntos sérios com a devida importância! 

Impostor

Olho ao redor e o redor olha de volta. Senti a queda tarde demais, devaneios atormentam meus veraneios, afligem a carne de meus pensamentos. Permito-me sangrar, outro dia a sacrificar o cordeiro em mim; nego-me a ter Senhor Pastor, e tudo faltará.  

Desperto. 

Outra vez na sala escura, luzes alcançam meus olhos, estão de dentro das molduras. Alturas diferentes, largos ou estreitos, profundos, transparentes, nítidos. Todos refletem a mim, todos com perspectivas. 

Encaro o reflexo da direita. 

A cara na tela do computador. Códigos correm na janela preta às batidas do teclado. Era apenas a programação do formulário de animal para associar ao dono, um sistema veterinário. Trabalho de faculdade, ilusão de empreender na área de poucas opções ao mercado, vamos revolucionar esta merda! Empreender no Brasil já é piada… Agora um moleque sonhando alto sem saber administrar a própria carteira, incapaz de fazer funcionar a associação do animal ao dono no cadastro. Trabalho em trio, e olha lá, solitário, ganhando nota, garantiu a todos terem o papel impresso daqui um ano dizendo vocês conseguiram! Se for pego n’alguma fraude, terá direito a celas distintas na cadeia, ou acha mesmo que diploma é entrada no mercado de trabalho?  

Ah, já desistiu do empreendimento, né? Jogou a saúde no lixo, engolia massas recheadas e enterrava as frustrações. O antigo chefe te vê e diz o quão gordo está. Sabe o quanto comeu com raiva contra as porcarias dos códigos. A prisão em espiral, sempre volta ao começo, cinco anos de aprendizado e continua na estaca zero. Exception ocorre quando o programa recebe parâmetro fora do esperado, é preciso prever esses eventos e tratá-los, caso seja competente. Exceção era deixar de ver exceptions no próprio código. Programa direito, porra! 

E hoje? Vamos refletir hoje? Diploma arquivado na pasta. Recebe propostas de trabalho, os caras te veem trabalhando das oito às dezessete. Que tal fazer algo a noite? No fim de semana? O que tu faz entre meia-noite e seis da manhã? Faz é nada, única coisa capaz de realizar na vida. N. A. D. A. 

Fecho os olhos. Não, não fecho. Rosto vira a esquerda. 

Olha aqui, as mulheres. Reconhece elas, foge delas. Trocou risadas, disfarçou alegrias. Eram as mulheres de sua vida, especial por estar entre elas. Finalmente! Pertenceu a algum lugar, ganhou admiração, todas dizendo sobre o futuro brilhante, a inteligência acima da média. As merece, claro que merece. Ondas delas desabarão a seus pés, e sem problema com a cor de pele, verdade? Se cair na rede, é sua. 

Errado. Outra vez é idiota. Nada de admiradoras, elas são políticas. Vampiras sugam essência, te descartam e seguem a vida. Fica inconformado, deu tudo a elas. Esgotado, enfurece na solidão e berra. Por que está gritando? Todas perguntam com o rosto de quem é você? Um esquisito, torcem para encontrar alguém, te empurra as outras e se livram de ti. 

Demora mas vê, pelo menos. A posição delas, das políticas. Têm nada a ver com a vida desprezível que possui, insiste em ficar na minoria, curvado ao comodismo. Elas ascendem. Alemanha, filhos, dinheiro, aposentadoria, sexo. E só vê os saltos delas tomando distância, ajoelhado à inutilidade. 

Olhos molham meu corpo, as pernas negam a se levantar. Joelhos permanecem no chão e o rosto encara a frente. 

Está aí, de novo com a cara na tela. A janela é branca, desta vez. Todo mundo usa isso aí, mas o que faz com isso? Ah, claro! Outra babaquice. Pior, se superou desta vez. Escrever. Criar historinhas inúteis. Aqueles ingratos da faculdade elogiavam sua escrita, também era o único a escrever a monografia, deu o diploma de mão beijada a eles, tinham de elogiar mesmo. Ao menos já descobriu, agora reconhece o quanto escreve errado. Conjugações misturadas, discordância verbal, crase onde mal entende, e anotações ridículas de revisão. Confirmar grafia, confirmar informação, conferir significado da palavra, buscar sinônimo. 

E qual o problema? Essas anotações melhoram meu texto. Estou saindo da espiral da programação. Posso enfim criar uma carreira agradável. 

Já negaram seu romance. Escreve tudo do zero, achando que sairá melhor. O caralho! Perderá meses de oportunidades no novo manuscrito, mandará às betas, apenas uma te devolve. Faz a revisão, acha tudo lindo, submete a análise crítica, fica submisso às anotações educadas dizendo o quão merda é o texto. Ainda acha merecer prêmio de concursos com esses continhos. Sabe a verdade, só se ilude. 

Já fui finalista em concursos do Wattpad. Os contos ainda servirão no futuro, posso publicar… 

Até quando? Quando vai desistir? Sabe, é só questão de tempo, sempre desiste. Está fazendo curso, é de praxe abandonar os sonhos depois de terminar de estudar. Bem que o pai adoraria ver o filho eletricista, vê nem pegar mais no computador. Esconde esta nova carreira, paga de incompreendido, tem medo de eles falarem a verdade. Desperdício de tempo, de dinheiro com cursos, análises, blog, livros. Mercado em crise, as duas maiores livrarias na falência. O floquinho de neve a sobreviver no deserto literário… Sequer estará aí, só se projeta no lugar onde jamais pertencerá. 

Chega! Cala essa boca. E meus joelhos escapam do chão, as molduras tombam. Ouço vidros estilhaçarem, risadas ecoarem sobre os choros, gritos de lágrimas jogadas no canto do quarto, lembro de todas elas. Ele se aproxima, o Eu olha para mim com sobrancelhas apertadas, rosto vira de um lado a outro. Pés batem no piso e ofega com rajadas picantes de dragão. 

Já perdeu de novo. Sabe, eu não sou o Senhor Hyde a ser liberto com poções. Os lobisomens tomam posse na lua cheia, eu te domino nas noites fracas, de cansaço e desprezo, todas as fases da lua. Sou diferente da ficção, desses livros aí que perde tanto tempo. Eu sou a realidade. 

Abraço o Eu. Eu arregala os olhos, perde a força e cala a boca. Envolve os braços sobre meus ombros e se desfaz. 

Alarme toca e o desligo antes de colocar os pés no chão. Sinto o piso frio, ciente de encarar o calor em breve, prestes a trabalhar. Toco o Eu em repouso no meu coração e digo. Vai dar tudo certo.

O Perigo do Herói

Herói é um ser idolatrado pelas suas conquistas, superam problemas impossíveis. Os heróis gregos têm origem divina e capacidades super-humanas, embora ainda tenha alguma característica reconhecível a pessoas comuns.

Em aventuras posteriores, os protagonistas das histórias possuem diversas origens, até pessoas normais, independente de classe social ou profissão. Esses seres de fortes princípios encaram jornadas no mundo desconhecido, se adapta e conhece novos aliados e inimigos, enfrentam uma provação com risco de perder suas vidas, mas no fim vencem e trazem ao mundo comum o prêmio e a mudança de vida.

Herói na jornada ao Santo Graal

Nem sempre enfrenta essas fases literalmente. O mundo desconhecido pode ser um bairro da cidade onde o herói nunca pôs os pés, ou nem é um lugar, como fazer parte de um novo grupo do trabalho. O prêmio não precisa de forma física, e sim algum aprendizado do herói ou sentimento capaz de refletir sobre a transformação do mundo depois da jornada.

Vale o mesmo ao inimigo. A imagem do adversário traz um conceito divergente do protagonista, bem como explora as fraquezas que o herói precisa superar. Às vezes o inimigo é o próprio temor do herói ou obstáculo, personificado em uma pessoa no papel de vilão.

Neste ponto entra o perigo de criar um herói no mundo real. O protagonista idealizado por pessoas de interesses em comum define um problema e atribui alguém como o culpado por toda a miséria. Tudo relacionado a este “ser maléfico” deve desaparecer, inclusive quem o apoia, pois também são malvados. Já o protagonista é o único capaz de derrotar esse mal, só que em vez da definição comum dos heróis desde a Grécia Antiga, este é livre de defeitos.

Muitas pessoas não gostam dos filmes da Marvel. E uma parcela desta mesma gente reproduz a plateia dos heróis da telona nas telinhas das redes sociais, interagindo com exaltações ao seu ídolo e condenação do suposto inimigo, tudo por uma falsa impressão de retornar ao seu mundo comum com a conquista de uma vida diferente.

Herói - WarMachine2018

#warmachine2018

É muito mais fácil, portanto verossímil, definir alguém ou uma ideologia como o responsável quando esta também quer resolver o mesmo problema, só defende uma alternativa diferente.

A mania de implantar o maniqueísmo jamais resolverá. Passa o sentimento de lutarmos pelo bem, por selecionarmos o herói correto para nos salvar e livrar a consciência de imaginar que nós não precisaríamos repensar nossas atitudes.

Este comportamento é capaz de desconsiderar a própria Jornada do Herói. Ignora a passagem pelo mundo desconhecido ao dizer que tudo não presta por lá, o ídolo deles já possui o elixir capaz de salvar a pátria desde o começo, sem passar por provações que definiriam a sua proeza.

Tudo é inimigo para eles, as pobres vítimas. Fazem tudo correto; exceto furar fila, sonegar imposto, comprar produto pirata, matar pessoas por não conseguir identificar seu gênero sexual, tomar benefícios do governo por meios contraditórios… Quem poderá defendê-los?

Criança e pai bêbado - Herói

Professores deixaram meu filho beber. São monstros!

Quando não há mais aquele inimigo, o problema permanece. O Brainiac perde, então os roteiristas dos quadrinhos trazem Darkseid para o Superman salvar o mundo de novo, ao invés de fazer o herói acabar com a fome com distribuição imediata de alimentos, ou abastecer um gerador de eletricidade sem abusar de recursos naturais graças a sua força e velocidade.

Existe a necessidade insaciável de ser um herói. Alguns bombeiros já provocaram os incêndios que combateram. Já foi analisado que não é um caso comum de um indivíduo com doença comportamental, inclusive é feito muitas vezes em grupos de profissionais. O objetivo passa longe de conquistar a identidade de herói, mas o causam para justificar sua utilidade, como gerar uma falsa demanda e justificar a aquisição de recursos ao seu batalhão.

Percebe o perigo de empenhar uma solução imediata, mas no fim salvar ninguém? O combate é muito mais difícil, bem chato inclusive, e não deve ser feito por uma pessoa. Todos precisamos ser os heróis das nossas histórias. Se até as jornadas fictícias, onde os outros personagens são apenas degraus para elevar o protagonista, não fazem sucesso comercial, a realidade é ainda mais cruel.

Então empunham suas espadas, protejam-se com armaduras, e aprendem a andar com as próprias pernas.


Saiba mais

Estudo sobre os bombeiro estadunidenses que provocam incêndios

Definição de Herói

Quatro exemplos de concepções de herói

Tirinha sobre como Superman poderia salvar o mundo de verdade

Vídeo do Canal do Slow sobre o bem e o mal

Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

Problematização do Erro

Quem nunca errou durante a sua vida, atire uma pedra. Somos indivíduos capazes de aprimorar nossas habilidades e mudar nossos conceitos constantemente; qualquer um pode fazer algo melhor amanhã, bem como esta mesma pessoa fazer algo aquém do esperado ontem.

Nós conhecemos, estudamos, treinamos, praticamos aquilo em que trabalhamos; esforçamos tanto para garantir a eficiência e eficácia da execução das tarefas, sem dar chance às falhas. No fundo nós sabemos, uma hora vamos errar.

Ninguém deseja o erro. Traz tantas coisas negativas quando ocorre, consequências de diversas intensidades sob um contexto a ponto de desejar negar a verdade. Alguns negam sem pudor, e gostaria de falar sobre eles.

Somam-se provas e mais provas, apontam brechas em seus argumentos e os defeitos de seus atos. Humildade faz companhia à bota perdida de Judas, pois eles jamais erraram, nunca! São exemplos a seguir, competentes a serem admirados.

Talvez pense em pular o meu texto, ir na parte de comentários e tecer xingamentos por eu falar mal de seu ídolo, elaborar argumentos do quanto o outro é errado, dizer que sou bajulador daquele incompetente. Não estou apontando a esquerda ou a direita, nem falo dele ou dela, leia o parágrafo anterior. Refiro-me à ELES.

Sim, eles. Sem uma pessoa em específico, pois muitos possuem um comportamento semelhante quando cometem erros, eles deixam de assumir. A falha é um ponto gravitacional que atrai todas as adversidades à tona, e ninguém quer ser reconhecido como o responsável por esse ponto.

Mesmo sem se responsabilizar, os problemas persistem. Ao invés de solucionar, eles apontam a falha dos outros, pouco importa quais sejam ou a sua gravidade, destacam os defeitos alheios para ocultar o próprio.

Os seguidores compram a ideia, exaltam o erro do adversário em comum e faz pouco caso com os do próprio ou apontam como calúnia, ou que está certo mesmo.

Esta atitude impede algo muito importante a ser feito frente ao erro. Dar a devida punição pelos prejuízos do erro é um exemplo, mas ainda há outro fator mais essencial, e deixa de realizar porque prefere se manter na posição de infalível: o de se aprimorar.

O erro é a melhor fonte de aprendizado. Quando aceitamos a sua existência e refletimos, damos a chance de compreender como nos levou à falha e evita-la. É uma pena abrir mão de uma das melhores oportunidades de se aprimorar só porque não quer assumir a falha.

Permite-se errar, e faça o mesmo com quem admira. Se o erro for grave a ponto de punir seu herói, deixe de alimentar o problema mascarando seus defeitos. Fico triste quando percebo mais consequências dos atos nas histórias de ficção do que nas reais. Livros de terror não me dão medo, mas sim o motorista que me ultrapassa pela direita, quase causa acidente na rodovia, e sai impune até o dia quando prejudicar a si e aos próximos com esta atitude.

Por isso aconselho: seja honesto com o seu desejo. Se quer um mundo melhor assim como eu, avalie em quem confiar, aceite suas falhas e verifique se aprendeu com as mesmas. Caso decida atribuir responsabilidade a quem só coloca a culpa nos outros, eu só lamento.

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