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Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

Problemas Comuns dos Livros Brasileiros

Aqui vai outro XP de Escrita com puxões de orelha! Um terço das minhas leituras do ano até o momento foram de livros nacionais. Eu tenho o maior carinho por eles e torço para eu eleger algum desses como a minha melhor Experiência Literária do Ano, só que não premiarei tal obra apenas pela autoria conterrânea, o livro deve provar seu valor a alcançar o topo entre as dezenas de histórias conferidas. Por carregar essa ansiedade, por vezes me entristece conferir um livro nacional e avaliar o quanto ele poderia melhorar, o pior mesmo é eu ficar cansado de criticar os mesmos problemas em cada livro. Acontece com livros internacionais também — inclusive com best-sellers vencedores de prêmios —, porém vejo certo desleixo nas obras escritas por aqui pela recorrência da situação.

Listo neste post três dos problemas mais comuns nas minhas últimas leituras de livros nacionais. Longe de desprezar tais obras por esses erros, minha intenção aqui é incentivar os escritores a melhorar sua escrita e assim evoluir a qualidade dos nossos livros.

Advérbios terminados em “mente”

Stephen King critica os advérbios por serem redundantes na cena. O contexto de todo o parágrafo já determina a intensidade da ação citada no verbo sem precisar do advérbio. O autor caça os advérbios na revisão feito inimigos mortais da escrita literária, e isso deixa os longos livros prazerosos de ler, com frases dinâmicas graças a limpeza empenhada por King.

A regra vale na língua portuguesa também, e a nossa tem outro agravante sério: os advérbios terminados em “mente”. Exatamente, milagrosamente, paralelamente, irritantemente. É extremamente angustiante ver essas palavras no texto literário, elas quebram todo o ritmo de leitura devido a extensão da palavra, maiores do que qualquer outra disposta no mesmo parágrafo. O custo é alto e traz pouco significado, quando eu reviso meus textos e identifico essas palavras, eu consigo substituí-las por — pasmem — nada, apenas retiro a palavra e mal perco o significado da frase. Haverá casos quando fará falta ao tirá-los, então veja a possibilidade de trocar a palavra por um sinônimo mais curto, e se aquele advérbio é o termo apropriado naquela situação, então deixe-o. Faça isso e verá como terá poucos advérbios em “mente” no texto, depois leia em voz alta e perceba a mudança no ritmo da leitura. Lembre de me agradecer depois.

Verbos de Pensamento

Este problema vem da dica do escritor Chuck Palahniuk, que emplacou o segundo lugar nas minhas melhores leituras de 2018 com o livro Clube da Luta. Vários sites traduzem o conselho de Chuck na íntegra, acessível a qualquer escritor brasileiro conferir, e mesmo assim enlouqueço de ler esses verbos tantas vezes.

Verbos de pensamento resumem as ideias e sentimentos do personagem, e o problema está na palavra resumir. Ninguém abre um livro de ficção esperando a síntese de uma história, e sim acompanha cada triunfo e problema do personagem, sofre com ele e fica a mercê da catarse da vitória ou chora no fim trágico. Como o livro vai provocar essa explosão de sentimentos no leitor quando a descrição limita a dizer como o herói acha o vilão feio e gosta da garotinha indefesa, esta que se preocupa pelo bem-estar do herói enquanto ele quer apenas um mundo melhor? Não funciona!

Esses verbos são atalhos de descrições e atrasos da qualidade literária. Evitá-los o levará ao caminho da metodologia de mostrar a situação ao leitor ao invés de contá-la — o famoso show, don’t tell. Longe dessa abordagem ser obrigatória, eu elogiei A Parábola dos Talentos com a narrativa descritiva, e mesmo neste livro há poucos verbos de pensamento, sem falar na capacidade da autora em impactar o leitor por contar as piores situações vividas pelos personagens, causa desconforto quando esta é a intenção da cena. Francine Prose — autora de Para Ler Como Um Escritor — também defende a ideia de narrativa descritiva nos momentos que é melhor citar as situações pouco importantes naquela cena e focar no objetivo daquela parte do texto. Em suma, demonstre domínio e direcione sua intenção na escrita, e fará isso moderando os verbos de pensamento.

Siga o conselho de Chuck reforçado aqui. Odeie-o, odeie-me. Tire esses verbos e desenvolva os parágrafos a expressar o pensamento ao invés de condensá-lo na única palavra, depois leia, compare com a versão anterior, e entenderá o porquê de eu criticar tanto nas resenhas quando vejo abuso nos verbos de pensamento.

Impor mais peso no enredo do que nos personagens

Essa crítica é importante, pois aconteceu também na última temporada de Game of Thrones — até grandes produções cometem erros. As grandes reviravoltas no enredo têm o poder de surpreender o leitor. O problema ocorre quando vem a pergunta “o personagem faria tal coisa mesmo?” e não encontra a resposta. O enredo apelou a reviravolta sem dar a devida motivação ao personagem.

Toda história deve desenvolver os elementos essenciais da narrativa em conjunto, ficará nítido ao empenhar em um e fraquejar nos demais. Nem preciso dizer o quão horrível é o leitor descobrir a falha narrativa do autor, compromete a expectativa envolta da obra e a credibilidade de quem a construiu. Quando vi a transformação da Daenerys no término do seriado eu refleti: “isso seria legal, se tivesse me convencido”, mas os poucos episódios falharam em desenvolver essa nova característica dela.

Livros são mais flexíveis ao tamanho da história, então o escritor precisa desenvolver a motivação de cada personagem, mostrar os conflitos deles e alimentar justificativas da mudança radical. Quando acontece a reviravolta, é preciso sustentar os argumentos dela, seja pelas explicações posteriores ou remeter a eventos anteriores e demonstrar como existia o prenúncio da mudança. Deixe-me falar de Clube da Luta de novo, o livro faz a revelação que vira a história do avesso, e conforme lê os parágrafos seguintes, percebe como todos os indícios estavam lá e respondem as inquietações provocadas na revelação.


Esses são os problemas encontrados nas minhas leituras de livros nacionais. As histórias ainda tiveram a sua qualidade, pois demonstrei também quais foram os acertos delas nas respectivas resenhas. Evitei de listar quais livros eu vi os erros pois quero evitar de denegrir tais livros com o foco negativo deste post, ainda acredito no potencial dos escritores brasileiros e espero este texto ajudar alguém a melhorar a escrita.

Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

Mimimi Sobre Mimimi

Hoje é tudo mimimi. Pessoas reclamam tanto da “geração mimizenta”, que fazem mimimi delas também. Talvez soe como se eu desencadeasse outra corrente pelo título, o mimimi de pessoas que fazem mimimi com quem fica de mimimi. Negativo! Já chega disso. 

Chega de Mimimi

Reclamar de algo virou moda, está recorrente e criará bolas de neve cada vez maiores. Um dos meus primeiros textos no blog é sobre lamentar, explico sobre os problemas permanecerem enquanto só reclama. Por outro lado, críticas ajudam a todos, caso bem ditas.  

Percebo haver certa dificuldade de ver as vantagens entre conflitos de ideias. Certas soluções atendem um nicho de pessoas e prejudicam todas as outras, e devem ser refutadas. As outras ideias estão longe da perfeição, satisfazem certos grupos em certos momentos, e por isso precisam de debate sobre qual a melhor alternativa, a capaz de atingir o maior número de pessoas necessitadas. Pena eu ver pouca discussão entre as propostas e mais apelos, xingamentos e estímulos através da repulsa ou medo, mesmo utilizando mentiras

Vamos simplificar o exemplo com dois lados, o vencedor e a oposição. Quem perde repudia os erros, cada ideia do vencedor está errada, obra do malvado favorito da oposição. Muitas das ideias são horríveis mesmo, com pontos de vista limitados e diminuem a importância da outra causa. Mas a refutação dessas é atribuída ao malvado favorito do vencedor.

A oposição deveria se valorizar, parar de responder com emoção e, sabe, usar argumentos na discussão. Emoções não correspondem, e por isso são minimizadas, mimimizam o “mimimi” do contra. Entende onde quero chegar? 

Quem diminui a reclamação alheia também se prejudica. Ignora as críticas ao invés de filtrá-las, desconhece as falhas do plano e até fica surpreso pelo fracasso, então aponta os erros da oposição para ocultar os próprios. Só esquecem do principal: resolver o problema. “Problema? É só o outro problematizando minhas ideias. Impedem de eu trabalhar, esses mimimi.”

Mais Mimimi
Mais Mimimi

Então a oposição enfurece, esclarece os motivos da crítica ser válida, e o outro lado só ouve mais mimimi. É a culpa do vencedor? Convém a oposição que seja, pois vira brecha para apontar o quanto o outro é ignorante. Porém quero pegar nos braços da oposição neste momento e dizer: a culpa é sua. Deixe de esmurrar a ponta da faca, precisa de outro método, selecionar melhores argumentos e afiar ferramenta de defesa. Com isso o outro lado deve trabalhar nas réplicas, faltará oportunidades de diminuir a oposição e demonstrar a verdadeira capacidade, caso a tenha.  

Imagino alguns dizerem o quanto sou inocente. Ideias são o de menos dentro do jogo, há o mecanismo capaz de manipular e favorecer determinado lado. Só que o mecanismo funciona porque ninguém o vê. Se houvesse discussão de verdade, o mecanismo seria mais transparente, portanto os argumentos poderiam atacá-lo, mostrar motivos de removê-lo e tirar esta ferramenta ultrapassada. Em outras palavras, o mimimi está ocultando o mecanismo. 

Mind blow - Mimimi

Está além de ficar exausto com brigas irrelevantes. Eu vejo irmos ladeira abaixo, de todos os lados. Precisa eliminar este egoísmo caso queira mesmo ir em frente, senão é o mundo que seguirá adiante e nós ficaremos atrás. 

Estamos perto de outro final de ano, e caso seja desses a fazer promessas ao ano seguinte, recomendo esta: procure entender o outro lado. Ouvir a opinião alheia não lhe converterá, e esta nem é a questão. Toda informação é valiosa, mesmo as horríveis. Mantê-las demonstrará seus defeitos e evitará de elas retornarem sob novos aspectos. 

Cumpra essa promessa e já resolverá a outra: parar de mimimi e levar assuntos sérios com a devida importância! 

Impostor

Olho ao redor e o redor olha de volta. Senti a queda tarde demais, devaneios atormentam meus veraneios, afligem a carne de meus pensamentos. Permito-me sangrar, outro dia a sacrificar o cordeiro em mim; nego-me a ter Senhor Pastor, e tudo faltará.  

Desperto. 

Outra vez na sala escura, luzes alcançam meus olhos, estão de dentro das molduras. Alturas diferentes, largos ou estreitos, profundos, transparentes, nítidos. Todos refletem a mim, todos com perspectivas. 

Encaro o reflexo da direita. 

A cara na tela do computador. Códigos correm na janela preta às batidas do teclado. Era apenas a programação do formulário de animal para associar ao dono, um sistema veterinário. Trabalho de faculdade, ilusão de empreender na área de poucas opções ao mercado, vamos revolucionar esta merda! Empreender no Brasil já é piada… Agora um moleque sonhando alto sem saber administrar a própria carteira, incapaz de fazer funcionar a associação do animal ao dono no cadastro. Trabalho em trio, e olha lá, solitário, ganhando nota, garantiu a todos terem o papel impresso daqui um ano dizendo vocês conseguiram! Se for pego n’alguma fraude, terá direito a celas distintas na cadeia, ou acha mesmo que diploma é entrada no mercado de trabalho?  

Ah, já desistiu do empreendimento, né? Jogou a saúde no lixo, engolia massas recheadas e enterrava as frustrações. O antigo chefe te vê e diz o quão gordo está. Sabe o quanto comeu com raiva contra as porcarias dos códigos. A prisão em espiral, sempre volta ao começo, cinco anos de aprendizado e continua na estaca zero. Exception ocorre quando o programa recebe parâmetro fora do esperado, é preciso prever esses eventos e tratá-los, caso seja competente. Exceção era deixar de ver exceptions no próprio código. Programa direito, porra! 

E hoje? Vamos refletir hoje? Diploma arquivado na pasta. Recebe propostas de trabalho, os caras te veem trabalhando das oito às dezessete. Que tal fazer algo a noite? No fim de semana? O que tu faz entre meia-noite e seis da manhã? Faz é nada, única coisa capaz de realizar na vida. N. A. D. A. 

Fecho os olhos. Não, não fecho. Rosto vira a esquerda. 

Olha aqui, as mulheres. Reconhece elas, foge delas. Trocou risadas, disfarçou alegrias. Eram as mulheres de sua vida, especial por estar entre elas. Finalmente! Pertenceu a algum lugar, ganhou admiração, todas dizendo sobre o futuro brilhante, a inteligência acima da média. As merece, claro que merece. Ondas delas desabarão a seus pés, e sem problema com a cor de pele, verdade? Se cair na rede, é sua. 

Errado. Outra vez é idiota. Nada de admiradoras, elas são políticas. Vampiras sugam essência, te descartam e seguem a vida. Fica inconformado, deu tudo a elas. Esgotado, enfurece na solidão e berra. Por que está gritando? Todas perguntam com o rosto de quem é você? Um esquisito, torcem para encontrar alguém, te empurra as outras e se livram de ti. 

Demora mas vê, pelo menos. A posição delas, das políticas. Têm nada a ver com a vida desprezível que possui, insiste em ficar na minoria, curvado ao comodismo. Elas ascendem. Alemanha, filhos, dinheiro, aposentadoria, sexo. E só vê os saltos delas tomando distância, ajoelhado à inutilidade. 

Olhos molham meu corpo, as pernas negam a se levantar. Joelhos permanecem no chão e o rosto encara a frente. 

Está aí, de novo com a cara na tela. A janela é branca, desta vez. Todo mundo usa isso aí, mas o que faz com isso? Ah, claro! Outra babaquice. Pior, se superou desta vez. Escrever. Criar historinhas inúteis. Aqueles ingratos da faculdade elogiavam sua escrita, também era o único a escrever a monografia, deu o diploma de mão beijada a eles, tinham de elogiar mesmo. Ao menos já descobriu, agora reconhece o quanto escreve errado. Conjugações misturadas, discordância verbal, crase onde mal entende, e anotações ridículas de revisão. Confirmar grafia, confirmar informação, conferir significado da palavra, buscar sinônimo. 

E qual o problema? Essas anotações melhoram meu texto. Estou saindo da espiral da programação. Posso enfim criar uma carreira agradável. 

Já negaram seu romance. Escreve tudo do zero, achando que sairá melhor. O caralho! Perderá meses de oportunidades no novo manuscrito, mandará às betas, apenas uma te devolve. Faz a revisão, acha tudo lindo, submete a análise crítica, fica submisso às anotações educadas dizendo o quão merda é o texto. Ainda acha merecer prêmio de concursos com esses continhos. Sabe a verdade, só se ilude. 

Já fui finalista em concursos do Wattpad. Os contos ainda servirão no futuro, posso publicar… 

Até quando? Quando vai desistir? Sabe, é só questão de tempo, sempre desiste. Está fazendo curso, é de praxe abandonar os sonhos depois de terminar de estudar. Bem que o pai adoraria ver o filho eletricista, vê nem pegar mais no computador. Esconde esta nova carreira, paga de incompreendido, tem medo de eles falarem a verdade. Desperdício de tempo, de dinheiro com cursos, análises, blog, livros. Mercado em crise, as duas maiores livrarias na falência. O floquinho de neve a sobreviver no deserto literário… Sequer estará aí, só se projeta no lugar onde jamais pertencerá. 

Chega! Cala essa boca. E meus joelhos escapam do chão, as molduras tombam. Ouço vidros estilhaçarem, risadas ecoarem sobre os choros, gritos de lágrimas jogadas no canto do quarto, lembro de todas elas. Ele se aproxima, o Eu olha para mim com sobrancelhas apertadas, rosto vira de um lado a outro. Pés batem no piso e ofega com rajadas picantes de dragão. 

Já perdeu de novo. Sabe, eu não sou o Senhor Hyde a ser liberto com poções. Os lobisomens tomam posse na lua cheia, eu te domino nas noites fracas, de cansaço e desprezo, todas as fases da lua. Sou diferente da ficção, desses livros aí que perde tanto tempo. Eu sou a realidade. 

Abraço o Eu. Eu arregala os olhos, perde a força e cala a boca. Envolve os braços sobre meus ombros e se desfaz. 

Alarme toca e o desligo antes de colocar os pés no chão. Sinto o piso frio, ciente de encarar o calor em breve, prestes a trabalhar. Toco o Eu em repouso no meu coração e digo. Vai dar tudo certo.

O Perigo do Herói

Herói é um ser idolatrado pelas suas conquistas, superam problemas impossíveis. Os heróis gregos têm origem divina e capacidades super-humanas, embora ainda tenha alguma característica reconhecível a pessoas comuns.

Em aventuras posteriores, os protagonistas das histórias possuem diversas origens, até pessoas normais, independente de classe social ou profissão. Esses seres de fortes princípios encaram jornadas no mundo desconhecido, se adapta e conhece novos aliados e inimigos, enfrentam uma provação com risco de perder suas vidas, mas no fim vencem e trazem ao mundo comum o prêmio e a mudança de vida.

Herói na jornada ao Santo Graal

Nem sempre enfrenta essas fases literalmente. O mundo desconhecido pode ser um bairro da cidade onde o herói nunca pôs os pés, ou nem é um lugar, como fazer parte de um novo grupo do trabalho. O prêmio não precisa de forma física, e sim algum aprendizado do herói ou sentimento capaz de refletir sobre a transformação do mundo depois da jornada.

Vale o mesmo ao inimigo. A imagem do adversário traz um conceito divergente do protagonista, bem como explora as fraquezas que o herói precisa superar. Às vezes o inimigo é o próprio temor do herói ou obstáculo, personificado em uma pessoa no papel de vilão.

Neste ponto entra o perigo de criar um herói no mundo real. O protagonista idealizado por pessoas de interesses em comum define um problema e atribui alguém como o culpado por toda a miséria. Tudo relacionado a este “ser maléfico” deve desaparecer, inclusive quem o apoia, pois também são malvados. Já o protagonista é o único capaz de derrotar esse mal, só que em vez da definição comum dos heróis desde a Grécia Antiga, este é livre de defeitos.

Muitas pessoas não gostam dos filmes da Marvel. E uma parcela desta mesma gente reproduz a plateia dos heróis da telona nas telinhas das redes sociais, interagindo com exaltações ao seu ídolo e condenação do suposto inimigo, tudo por uma falsa impressão de retornar ao seu mundo comum com a conquista de uma vida diferente.

Herói - WarMachine2018

#warmachine2018

É muito mais fácil, portanto verossímil, definir alguém ou uma ideologia como o responsável quando esta também quer resolver o mesmo problema, só defende uma alternativa diferente.

A mania de implantar o maniqueísmo jamais resolverá. Passa o sentimento de lutarmos pelo bem, por selecionarmos o herói correto para nos salvar e livrar a consciência de imaginar que nós não precisaríamos repensar nossas atitudes.

Este comportamento é capaz de desconsiderar a própria Jornada do Herói. Ignora a passagem pelo mundo desconhecido ao dizer que tudo não presta por lá, o ídolo deles já possui o elixir capaz de salvar a pátria desde o começo, sem passar por provações que definiriam a sua proeza.

Tudo é inimigo para eles, as pobres vítimas. Fazem tudo correto; exceto furar fila, sonegar imposto, comprar produto pirata, matar pessoas por não conseguir identificar seu gênero sexual, tomar benefícios do governo por meios contraditórios… Quem poderá defendê-los?

Criança e pai bêbado - Herói

Professores deixaram meu filho beber. São monstros!

Quando não há mais aquele inimigo, o problema permanece. O Brainiac perde, então os roteiristas dos quadrinhos trazem Darkseid para o Superman salvar o mundo de novo, ao invés de fazer o herói acabar com a fome com distribuição imediata de alimentos, ou abastecer um gerador de eletricidade sem abusar de recursos naturais graças a sua força e velocidade.

Existe a necessidade insaciável de ser um herói. Alguns bombeiros já provocaram os incêndios que combateram. Já foi analisado que não é um caso comum de um indivíduo com doença comportamental, inclusive é feito muitas vezes em grupos de profissionais. O objetivo passa longe de conquistar a identidade de herói, mas o causam para justificar sua utilidade, como gerar uma falsa demanda e justificar a aquisição de recursos ao seu batalhão.

Percebe o perigo de empenhar uma solução imediata, mas no fim salvar ninguém? O combate é muito mais difícil, bem chato inclusive, e não deve ser feito por uma pessoa. Todos precisamos ser os heróis das nossas histórias. Se até as jornadas fictícias, onde os outros personagens são apenas degraus para elevar o protagonista, não fazem sucesso comercial, a realidade é ainda mais cruel.

Então empunham suas espadas, protejam-se com armaduras, e aprendem a andar com as próprias pernas.


Saiba mais

Estudo sobre os bombeiro estadunidenses que provocam incêndios

Definição de Herói

Quatro exemplos de concepções de herói

Tirinha sobre como Superman poderia salvar o mundo de verdade

Vídeo do Canal do Slow sobre o bem e o mal

Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

Problematização do Erro

Quem nunca errou durante a sua vida, atire uma pedra. Somos indivíduos capazes de aprimorar nossas habilidades e mudar nossos conceitos constantemente; qualquer um pode fazer algo melhor amanhã, bem como esta mesma pessoa fazer algo aquém do esperado ontem.

Nós conhecemos, estudamos, treinamos, praticamos aquilo em que trabalhamos; esforçamos tanto para garantir a eficiência e eficácia da execução das tarefas, sem dar chance às falhas. No fundo nós sabemos, uma hora vamos errar.

Ninguém deseja o erro. Traz tantas coisas negativas quando ocorre, consequências de diversas intensidades sob um contexto a ponto de desejar negar a verdade. Alguns negam sem pudor, e gostaria de falar sobre eles.

Somam-se provas e mais provas, apontam brechas em seus argumentos e os defeitos de seus atos. Humildade faz companhia à bota perdida de Judas, pois eles jamais erraram, nunca! São exemplos a seguir, competentes a serem admirados.

Talvez pense em pular o meu texto, ir na parte de comentários e tecer xingamentos por eu falar mal de seu ídolo, elaborar argumentos do quanto o outro é errado, dizer que sou bajulador daquele incompetente. Não estou apontando a esquerda ou a direita, nem falo dele ou dela, leia o parágrafo anterior. Refiro-me à ELES.

Sim, eles. Sem uma pessoa em específico, pois muitos possuem um comportamento semelhante quando cometem erros, eles deixam de assumir. A falha é um ponto gravitacional que atrai todas as adversidades à tona, e ninguém quer ser reconhecido como o responsável por esse ponto.

Mesmo sem se responsabilizar, os problemas persistem. Ao invés de solucionar, eles apontam a falha dos outros, pouco importa quais sejam ou a sua gravidade, destacam os defeitos alheios para ocultar o próprio.

Os seguidores compram a ideia, exaltam o erro do adversário em comum e faz pouco caso com os do próprio ou apontam como calúnia, ou que está certo mesmo.

Esta atitude impede algo muito importante a ser feito frente ao erro. Dar a devida punição pelos prejuízos do erro é um exemplo, mas ainda há outro fator mais essencial, e deixa de realizar porque prefere se manter na posição de infalível: o de se aprimorar.

O erro é a melhor fonte de aprendizado. Quando aceitamos a sua existência e refletimos, damos a chance de compreender como nos levou à falha e evita-la. É uma pena abrir mão de uma das melhores oportunidades de se aprimorar só porque não quer assumir a falha.

Permite-se errar, e faça o mesmo com quem admira. Se o erro for grave a ponto de punir seu herói, deixe de alimentar o problema mascarando seus defeitos. Fico triste quando percebo mais consequências dos atos nas histórias de ficção do que nas reais. Livros de terror não me dão medo, mas sim o motorista que me ultrapassa pela direita, quase causa acidente na rodovia, e sai impune até o dia quando prejudicar a si e aos próximos com esta atitude.

Por isso aconselho: seja honesto com o seu desejo. Se quer um mundo melhor assim como eu, avalie em quem confiar, aceite suas falhas e verifique se aprendeu com as mesmas. Caso decida atribuir responsabilidade a quem só coloca a culpa nos outros, eu só lamento.

Rotina de Escritor (Reclusão? A que Custo?)

“Feliz é aquele capaz de viver da escrita, com espaço e tempo próprio, sem interrupção de outras pessoas.” Era o que eu pensava…

Enquanto mantenho meu emprego na área de informática e me dedico a este blog, eu busco oportunidades de elaborar e aprimorar as minhas próprias histórias. Invisto boa parte do meu tempo em leitura, esta sem faltar um dia, inclusive feriado e finais de semana. Já não consigo o mesmo com a escrita. 

É uma luta conseguir três dias livres numa semana para desbravar a tela branca do word, além de outros períodos pequenos quando edito os textos e as resenhas do blog. O emprego me toma o dia todo, chego esgotado em casa onde moro com meus pais, tento trabalhar com o meu notebook quando os bons velhinhos não precisam de mim e meus adoráveis cachorros não resolvam latir contra o outro. 

Menino Mau - rotina

Menino mau >:(

Fim de semana tenho a manhã comprometida com o rádio ligado da senhora minha mãe até a hora do almoço, só começo a escrever de tarde. Se eu fosse religioso, rezaria pelo bom senso da vizinha não explodir funk como se estivessem tocando na minha casa. E o mais incrível: não sei por que é tão fácil jogar videogame mesmo ocorrendo todos esses empecilhos. 

Tentei planejar uma mudança drástica, com melhores condições de ter o tempo desejado: morar sozinho. Poderia ter o espaço tão querido para desenvolver essa profissão, mas o custo tomaria quase tudo de mim, tanto no quesito financeiro como de desgaste. 

Desisti desta ideia e desanimei. Felizmente recuperei meu ânimo, precisaria ser grato por cada oportunidade de criar meus textos. Também fiquei curioso com a seguinte questão: os autores famosos conseguiam se empenhar numa rotina? Eles precisaram ficar reclusos? Pesquisei sobre a rotina de alguns deles, esses mostrados a seguir: 

Autores que não poderiam ser incomodados 

  • Charles Dickens sua necessidade pelo silêncio o fez abafar os barulhos de fora ao instalar uma segunda porta em seu local de criação. Seu espaço era organizado com critérios rigorosos, como a mesa de frente a uma janela já com os materiais de trabalho dispostos e enfeites próximos a si, como vasos de flores frescas e estatuetas; 
  • Liev Tolstói escrevia todos os dias com o objetivo de não perder o hábito. Trabalhava de forma isolada, ninguém tinha permissão de interrompê-lo, e todos os cômodos próximos deviam estar trancados; 
  • Mark Twain tomava café da manhã e já se isolava até o fim de tarde, nem almoçava. Se a família precisasse dele, tocava um instrumento de sopro; 
  • H.P. Lovecraft seu receio em relação a estrangeiros e racismo (infelizmente) inspiraram as suas histórias de horror. Lovecraft também era conhecido por ser tímido. 

HP Lovecraft - rotina

Nunca imaginei metodologias tão distintas como a desses autores. Analisando as abordagens de Tolstói e Twain, jamais colocaria tantos obstáculos a pessoas próximas por causa de minha carreira. 

Lovecraft conseguiu elaborar incríveis contos com seu isolamento, criou uma mitologia e o próprio mundo imaginado. Porém sejamos sinceros: os diálogos são raros em seus contos, e esses de fato não são o ponto forte de H.P., pois reflete na própria deficiência de se comunicar com outras pessoas. 

Autores com rotinas equilibradas 

  • Victor Hugo escrevia durante a manhã após tomar seu café numa pequena mesa de frente a um espelho. Ao encerrar a manhã, jogava um balde de água fria sobre a cabeça, se revigorava e fazia outras atividades pelo resto do dia; 
  • Haruki Murakami acorda às quatro horas da madrugada e criava seus textos por seis horas seguidas, pratica atividade física a tarde, lê e ouve música a noite, e dorme as 21h; 
  • André Vianco acredita que a rotina e disciplina são necessárias na realização de seus sonhos e controle de ansiedade. Escreve durante a manhã e realiza os outros trabalhos à tarde; 
  • Stephen King um exemplo de produtividade e quantidade de livros publicados, não exclui um dia da sua vida na escrita. Não para até atingir a cota de duas mil palavras diárias. 

Um espaço para chamar de meu - rotina

 Autores com limitações 

  • Franz Kafka trabalhava durante o dia e só escrevia quando todos da casa dormiam, às 22h ou 23h30 até 2h ou 3h da madrugada, já conseguiu se dedicar até às seis horas da manhã; 
  • George Orwell também mantinha outro emprego, incapaz de viver somente da publicação mesmo com o primeiro livro bem aceito. Encontrou um trabalho de horário flexível, e aproveitou o tempo livre nos romances, em torno de quatro horas diárias. Fez a distopia 1984 numa casa de fazenda remota já com a saúde debilitada, datilografando na cama; 
  • George R. R. Martin tem outros compromissos além dos romances e um modo de criar a história que compromete o tempo da conclusão de suas obras: ele se considera um autor tal como jardineiro, planta as sementes da sua história e observa como ela se desenvolve. 

O autor de Guerra dos Tronos tem consciência sobre a existência de dias produtivos e outros nem tanto, e é normal ser desta forma. Mesmo com a melhor ferramenta e eliminando distrações, haverá dias com somente uma frase na página, quem sabe menos. 

Sam Tarly - rotina

E há a Jane Austen 

A autora de Orgulho e Preconceito misturava a rotina com a da sua família. Escrevia na companhia de sua mãe e irmã durante o dia, de noite lia seu manuscrito em voz alta para a família. 

Dentre todos os exemplos de rotina, gostei mais da Austen por conciliar o seu trabalho com as outras pessoas da casa, sem restrições absurdas ou dificuldades aparentes.  

Agora pergunto: qual o problema de não conseguir adotar a rotina de Jane Austen na minha vida, ou a de Stephen King ou Vianco? Depois de conversas entre amigos, aulas relacionadas no meu curso de preparação do romance e reflexão nesses vários exemplos mostrados, respondo: nenhum. 

Veredito 

Cometi um erro grave ao pensar que eu precisava de uma rotina com espaço e tempo garantido. São com certeza fatores essenciais ao escritor, mas é um erro idealizar essas condições e deixar de ser grato com a minha produção mesmo com essas limitações. 

Dou total razão ao George R. R. Martin sobre dias bons e ruins. Certo dia formei três mil palavras em apenas um dia, por que me importei mais quando mal consegui escrever quinhentas palavras? Ainda preciso fazer a revisão do texto, e talvez essas 500 palavras sejam mais proveitosas do que as três mil do outro dia, a ponto de serem descartadas. 

Comemore os dias bons - rotina

Comemore os dias bons

A besteira continua por eu limitar a minha visão por causa desta dificuldade. Vi autores com rotina garantida, entretanto isso não impede de eles não terem outras dificuldades, nem mesmo sobre a qualidade de seus trabalhos. Já mostrei as críticas quanto a H.P. Lovecraft, o próprio S. King confessou sua dificuldade com a produção de Sob a Redoma e de seus problemas pessoais idênticos ao protagonista de O Iluminado, ou quando sofreu o acidente de carro, problemas que interferiram nos trabalhos literários. Mesmo eu elegendo seu livro como a melhor leitura do primeiro semestre de 2018, tenho ciência que a qualidade de seus livros diverge, nem todos são grandes obras, outros têm críticas negativas, assim como as obras de André Vianco ou dos demais autores citados. 

Prosseguirei na jornada de escritor enquanto me mantenho como técnico em informática. Aprenderei a agradecer por cada avanço em meus textos e continuar nesse trabalho. Mesmo se demorar mais tempo pelas minhas restrições, não preciso de pressa, mas sim de aproveitar a escrita enquanto ela acontece. 

Referências

Minimalism, Success, and the Curious Writing Habit of George R.R. Martin

George R.R. Martin’s friends explain the complicated reasons his next book might be taking so long to write

11 Writing Lessons From George R.R. Martin, Because There’s A Lot To Learn From ‘Game Of Thrones’

The Daily Rituals Of Famous Writers

George Orwell’s Writing Habits

Entrevista | André Vianco

Campanha (Discurso contra a sujeira brasileira)

As eleições se aproximam. Quantos discursos de presidenciáveis já assistiu? Eles só falam bobagens? Já imaginou como seria os bastidores nos últimos minutos de se pronunciar ao público?

Eu imaginei através da pequena crônica a seguir. Não é o reflexo de todo político, mas sim dos muitos vistos por mim.

Boa leitura!

Campanha

Cinco minutos até eu me apresentar ao povo brasileiro. Tenho de provar a eles como serei a salvação deste país em decadência. 

Tudo está pronto: investi no terno da Itália, vim de automóvel japonês com mecanismos de segurança produzidos na Alemanha e conduzido pelo melhor motorista holandês, este fala até português! Botas Australianas e óculos de design americano. Não tive tempo de comprar relógio, pedi ao garoto malabarista comprar de qualquer camelô da rua antes de fechar o sinal, mas os ponteiros estavam parados. 

Tudo está pronto: exceto meu discurso. Afinal, sou Brasileiro. Tenho tempo o suficiente se planejar tudo a partir de agora. Se não der certo, o improviso está no meu sangue. 

Começando com segurança. Já vi sugestões de mais fiscalizações nas rodovias quanto ao limite de velocidade. A justificativa é boa, os motoristas não respeitam as leis exceto quando correm risco de serem multados, agora o risco à vida é ignorado, pois nada acontecerá com eles, quando é motorista de caminhão principalmente. 

Entretanto tenho um problema. Como vou chegar as inúmeras cidades andando a oitenta ou sessenta por hora? Meu tempo anda esgotado, meus amigos! 

A culpa é das autoescolas, só formam motoristas sem habilidade. Condutores competentes sabem escapar de caminhão que jogam seu veículo sobre o deles. E ultrapassar só pela esquerda? Bobagem! Não tive problema em ultrapassar em nenhum lado, até no acostamento, só porque o motorista incompetente dirige devagar, no limite da velocidade. 

A educação ficará a salvo graças ao Escola sem Partido. Criança precisa estudar, não ouvir besteiras de professores despreparados, enviesados de ideologias. Cazuza morreu. Brasil precisa de trabalhadores, não de pensadores. 

Saúde é complicado. A população acha o quê? Por acaso leram o livro Doutores Fantásticos e Onde Habitam e quer torná-lo real? Doutor também é gente! Eles precisam pagar as contas, por isso atendem muitos pacientes. O cidadão quer médico como o seu coaching da saúde, por isso reclama. E se fizerem o diagnóstico completo por paciente do jeito como desejam, reclamam também. Assim aconteceu semana passada, quando meu amigo Dr. Garcia me atendeu com muito cuidado. 

Não. Não, não, não; não. Falar isso é um tiro no pé. A grande população carente não quer ouvir verdades. Cadastrei meu nome como Wandegívio para me aproximar dos nordestinos, Pedro só agradaria os saudosistas. Mas se mudar meu discurso a favor do paciente, os médicos são mais organizados, podem me tirar da campanha, inclusive Garcia. 

— Três minutos e começaremos, Wlandevídio. 

— Chame-me de Pedro mesmo, Judas! Nem consegue aprender meu nome. 

Este primo de meu sobrinho só traz problemas. Parece aqueles servidores públicos: fazem o mínimo e recebem seu pagamento em dia. Quando atuei como deputado eu ajudava todo colega disposto a me pagar por fora, aprovei muitos de seus projetos, até consegui emenda à prefeitura de minha cidade e reformei três escolas da mesma maneira. 

E imposto. O país sobrevive sem o controverso imposto? Poderia cobrar menos se não gastasse tanto com servidores, se tirasse benefícios de deputados e senadores que não colaboram, se os artistas mamadores não tiverem de onde tirar verba pública para seus projetos culturais.  

O imposto é alto, mas insuficiente. Deixei de fazer três viagens importantes pela falta de verba com hospedagens cinco estrelas. 

Dinheiro público não é roubo. Roubo é deixar de investir em campanhas publicitárias à nova copa, e priorizar a prevenção do suicídio. Suicida não faz gol, só fica no canto sem produzir nada, gastando energia da família preocupada com ele. Não suportei aquela campanha de… Qual mesmo? Para falar a verdade não teve mesmo, mas precisamos investir no futebol, o Brasil precisa recuperar sua glória. 

— Um minuto, Wan. 

— Olha o respeito, Judas! Não sou seu namorado, não me chame assim. Diga Pedro, só Pedro. 

Falta pouco tempo. Tudo que pensei em dizer tem um lado negativo. Tudo o povo critica. Se faz critica, se deixa de fazer critica, se abre um debate só vem crítica! Mas preciso oferecer minha cara à tapa. Minha campanha não pode ser alvo de ódio, isso não. 

Preciso pensar. A ideia já está aqui, na ponta da língua. Quer sair, mas não vem. Pense, Pedro! 

— Trinta segundos. 

Já sei. Vou usar a estratégia do espantalho. Vou direcionar a crítica a algo que muitos não gostam, ou deixarão de gostar após esclarecer meus argumentos. Ainda haverá quem não goste, mas será a minoria, não importa se minha mamãe seja deste grupo. 

— Prepare-se, Pedro! Em cinco, quatro… 

Enfim posso me apresentar ao povo amado. Ergo meus braços perante a plateia exaltada. Meus colegas sabem escolher o público, até o carpinteiro está lá, devo três meses a ele, mas posso oferecer um cabide quando eu ganhar. 

Parentes à frente e nos fundos. Parente de Garcia e Malaquiaz, de Jacinto e Marino, de Teonor e Te Hemir. A esposa de Dilmo Youssef é uma graça, poderosa por sustentar este par de melões, e ela ainda queria ser feminista. 

— Amada população brasileira! Venho por esta tribuna esclarecer-vos sobre a sujeira em nosso país. Ela escorre sob nossos pés sem enxergarmos. Somos insipientes à esta adversidade. Mas chega, nobre população. Este que vos representa soube da verdade. Esta sujeira prejudica a nossa saúde, esgota os recursos financeiros do cidadão trabalhador aos problemas de toda repartição pública. Gastamos tanto recurso: mão de obra, tempo, tudo por uma coisa fácil de dirimir. Vejo muitos amigos cidadãos perplexos, porém quando eu falar a solução contra toda essa sujeira, os senhores ficarão banzados pela simplicidade da solução. Sem mais dilações, digo a todos meu bordão de como fazer do Brasil um país limpo. 

É agora: 

— Tapete bom é tapete queimado! 

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