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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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Sangue Ancestral (Crônicas da Terra de Ashar #1)

A ilha Kalós abriga diferentes espécies humanoides, onde convivem em constante desarmonia. As capacidades próprias são tão distintas quanto aos comportamentos estereotipados e persistidos pelos representantes políticos ou militares. Possuem as normas a manter ordem dentro do reinado ou império, essas mesmas aproveitadas para causar desordem e discordância pelo bem maior. Bem maior de si, daquele em busca de poder, ignorante a qualquer necessidade de quem estiver alheio a ambição. O ambiente está montado a possibilitar traições, disputas pessoais, enfim, uma aventura ao herdeiro a ter capacidades extraordinárias e conflitos de vitória improvável.

Sangue Ancestral nos apresenta esta ilha e as adversidades políticas enquanto conta a jornada de Hiten. Publicado em 2019 pela Fabi Drago Gimenes através da Constelação Editorial, é o primeiro volume da saga Crônicas da Terra de Ashar.

“Não se saca uma espada se não estiver disposto a morrer”

Hiten é herdeiro real de Kanaair, um dos reinos das Terras de Ashar, região dominada pelos ellemënts. O pai Hyshura é rei deste reino e imperador de toda a região, cujo domínio tem respaldo pelo Conselho composto por doze anciãos. Hiten é híbrido, filho de ellemënt e humana, algo fora da tradição e capaz de prejudicá-lo no decorrer da jornada. Ele viveu até a juventude no reino dos humanos, alheio das complicações políticas na terra do pai, até receber o convite indireto do próprio imperador.

O reino dos humanos fica restrito ao reino Krajiny. De capacidades limitadas perante as demais espécies, são reconhecidos pelo trabalho em lavoura e do comércio, apesar de possuir também força militar própria. O relacionamento de Hyshura com uma humana deu certa diplomacia entre Krajiny e Hyshura, nada a ponto de garantir a confiança entre as diversas personalidades.

E Lokimar é o reino dos salandris, seres guerreiros e de atitudes brutais. Escravizam humanos e os usam nos rituais de sacrifício. Os membros da realeza podem possuir a marca de uma lua na testa e a habilidade de manipular o ferro. Vivem se opondo aos ellemënts, Hyshura até tenta estabelecer a paz entre os reinos os unindo através do casamento entre seu herdeiro Hiten e a princesa Helin, o evento do início deste livro que culmina em sucessivas tragédias.

“— Leve seus homens para casa, comandante. Aqui só há morte e arrependimento”

Os três reinos principais — mais os de dohma, aliados dos ellemënts — compartilham mais além da ilha onde vivem. Aceitam a existência dos mesmos deuses, apesar de cada lugar favorecer determinada entidade. Fora essas distinções, as espécies têm algo em comum: ambições perseguidas sob meios ardilosos na tentativa de  conquistá-las. Os personagens principais são apresentados desde as características físicas, realçando assim as diferenças entre as espécies, mas incomoda ver a recorrência de elogios sobre a beleza deles, com tantas pessoas descritas dessa mesma maneira, compromete a variedade e o interesse do leitor em vislumbrar determinado personagem. Seria melhor fazer a descrição de forma imparcial e deixar a beleza subjetiva aos personagens e ao próprio leitor.

A caracterização das qualidades sofre da mesma questão. Muitos personagens são banhados em elogios a ponto de enfraquecer a veridicidade dos conflitos, esses movidos a traições e conspirações de outros personagens. Assim perde a oportunidade de explorar as fraquezas particulares desses personagens ou até fazê-los se aprimorar a partir delas — ou descobrirem a falha tarde demais e sofrer a consequência. Mesmo tendo a quantidade de páginas regular para uma obra de fantasia, existem muitos conflitos desencadeados ao longo dos capítulos, poderiam ter maior impacto caso acontecessem a partir de quem sofre, pena a maioria vir de fatores externos porque os personagens carecem de defeitos a serem explorados. O protagonista até tem um defeito citado, porém por vezes foi contraditório quando outro personagem demonstrou esta mesma característica de forma mais intensa diante dele.

“— Meu dever é dar-lhes alegria e paz e, em vez disso, dou-lhes guerra e destruição”

Outra perda de força no conflito — sem dar spoilers — foi a acusação levada em consideração a partir de certa prova limitada à afirmação de uma testemunha. A aceitação da denúncia foi espontânea, nada convincente. Faltou elaborar melhor este conflito, trabalhar em segundas intenções dos avaliadores, alguma aliança obscura ou outra situação capaz de mostrar o motivo daquele julgamento da testemunha ser aceito em tão poucos parágrafos e culminar na crise presente no capítulo seguinte. Já outros momentos de tensão foram bem trabalhados, dentre eles o do protagonista perder uma disputa pela aparente desconfiança de outro personagem, quando o mesmo apresenta atitudes contraditórias frente ao que o leitor acompanha e os demais personagens não tiveram como perceber.

Sangue Ancestral traz o mundo original elaborado pela autora com caracterizações interessantes e úteis a construção das intrigas e viradas interessantes já neste primeiro volume. Poderia aproveitar muito mais do potencial da história se explorasse defeitos de personagens ao provocar os conflitos, e estes também precisam de maior desenvolvimento, serem menos abruptos e constituídos de mais argumentos favoráveis à sua existência.

“A ira apenas nos torna vulneráveis e propensos ao erro”

Sangue Ancestral - capaAutora: Fabi Drago Gimenes
Ano de Publicação/Edição: 2019
Editora: Constelação Editorial
Série: Crônicas da Terra de Ashar #1
Quantidade de Páginas: 230

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Ninho de Cobras (Uma História de Maceió)

O texto literário contém narrativa desenhada com palavras combinadas através do estilo pretendido pelo autor. Livros considerados clássicos da literatura brasileira podem entregar histórias ímpares com a linguagem na mesma medida, transformando a língua portuguesa em arte, inovam na estrutura e desafiam o leitor a ter novas experiências sob o conforto da leitura. Acima de tudo, esta ficção ousa transgredir o limite de contar uma história, pois o autor conta também sobre a vida em si.

Ninho de Cobras é um romance experimental de Lêdo Ivo. Publicado pela primeira vez em 1973 e com nova edição pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano de 2015, o leitor contemporâneo é levado de volta a Maceió no tempo quando Getúlio Vargas era presidente, numa história iniciada pela aventura da raposa nas ruas da capital alagoana.

“Uma raposa em pleno coração da cidade! E ainda dizem que Maceió é um lugar civilizado”

Tudo começa pela raposa. Protagonista do primeiro capítulo, o animal passeia pelas ruas de Maceió enquanto o narrador oferece detalhes sobre onde ela passa, tomando liberdade de contar as histórias daquela parte da capital onde o animal põe as patas, e então retoma a aventura da raposa. Usa do discurso indireto livre ao trazer personalidade a este singular personagem, o de ser destemido, convicto da morte nunca a alcançar mesmo fora de seu habitat, o que, ao cruzar o caminho com dois sujeitos armados com pedaços de madeira, prova o equívoco do pobre animal. Nos dias — e capítulos — seguintes, a raposa vira a notícia mais comentada da capital alagoana, acompanhada a do suicídio de Alexandre Viana sob a suspeita de ser na verdade um assassinato encomendado pelo Sindicato da Morte.

“E as horas passaram, esponjosas, sugando o que, no tempo, era fluente como as palavras e a água”

A introdução do romance é única, feita a partir do personagem inumano: a raposa. Esta estratégia chama a atenção e antecipa a proposta da narrativa repetida inclusive nos demais personagens focados nos próximos capítulos, o de o narrador interromper a história do personagem e contar a história de Maceió. A capital do estado — por vezes até o próprio estado — atua como o personagem central deste romance a partir da intervenção do narrador, os contextos históricos se misturam à narrativa e entregam algo único durante a leitura.

Tal proposta exige maior atenção ao leitor. A mudança de foco é feita sem aviso prévio, um parágrafo conta sobre certo personagem em determinado ambiente, e em seguida este ambiente ganha história narrada pelo autor. Nem quando foca na pessoa facilita, pelas escolhas ao identificar o personagem, citando a característica dele em vez de lhe atribuir nome. Um coadjuvante em determinado capítulo pode ter o trecho protagonizado por ele em outro momento, contando a partir das informações já fornecidas, que a princípio eram secundárias.

Ninho de Cobras é um daqueles livros em que torna o enredo secundário em prol de oferecer a experiência singular de leitura, misturando contexto e narrativa, personagem e ambiente.

“Onde ele estava não havia Deus — era a jaula fedorenta dos homens”

Ninho de Cobras - capaAutor: Lêdo Ivo
Ano de Publicação Original: 1973
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Edição: 2015
Quantidade de Páginas: 270

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Thronebreaker: The Witcher Tales

A nação próxima vê os reinos ao norte expostos a fraquezas e consideram a oportunidade de tomá-los como garantia certa. Os reis adversários combatem e sucumbem aos exércitos melhores equipados, de maior quantidade e excelência estratégica. A opção de desistir e ceder as cidades ao império de Nilfgaard soa como a única saída, exceto a Meve. Rainha dos reinos de Lyria e Rívia, ela desconhece o significado de desistir e motiva os seguidores a lutar pela liberdade do povo.

Thronebreaker: The Witcher Tales conta a história de Meve enquanto sobrevive na dominação certa do exército de Nilfgaard sobre os reinos do norte. Lançado em 2018 pela CD Projekt Red, o jogo de estratégia baseado em cartas simula as batalhas do exército da protagonista contra os mais diversos grupos de inimigos da saga The Witcher.

Documentos foram assinados. Papéis… O tempo dirá seu valor.”

Meve retorna a Lyria após uma expedição e encontra adversidades no reino sob o governo de Villem, seu único filho, durante a ausência. A ameaça de Nilfgaard encobre os reinos do norte com a sombra feita pelas armaduras de sol negro — o símbolo do império —, bem como delitos causados por infratores liderados pelo ser conhecido por muitos nomes, entre eles o Duque dos Cães.

Rívia - Thronebreaker: The Witcher

O caminho reserva oportunidades a Meve interagir com o próprio povo, livrá-los de perigos de tropas inimigas ou mesmo de monstros — tarefa mais adequada a Bruxos, mas a Rainha os enfrenta em favor de proteger interesses ao longo da jornada. Enfrenta decisões de como intervir nas demais necessidades do povo, acende velas aos santuários de Melitele e com isso inspira a fé e eleva o moral da tropa. Ao enfim chegar na capital de Lyria, Meve é surpreendida por golpes baixos de quem menos esperava, tudo por conta pelo medo da ameaça Nilfgaardiana, a qual ela jamais aceitará entregar seu reino, independente do custo.

OH, eu tenho coração… Mas eu prefiro usar minha cabeça”

O jogador controla Meve pelo mapa e pode interagir com diversos pontos de interesse, seja coleta de recursos — ouro, materiais ou novos integrantes da tropa — atender pedidos locais em troca de recompensas ou encarar batalhas além das previstas nos pontos principais do mapa. O combate é feito a partir de cartas, essas representantes dos membros disponíveis da tropa de Meve contra os seres adversários. Cada membro tem a sua especialidade e são escolhidos conforme a estratégia do jogador, ganha quem no fim da rodada tiver o maior poder somado por todas as cartas de tropa dispostas no campo. Certas condições apresentadas no contexto de determinada batalha interferem no duelo de cartas, surgem novas forças militares no meio do combate ou mudam a habilidade de determinado personagem em campo por estar focado a cumprir o objetivo específico daquele combate.

O "Campo de Batalha" - Thronebreaker: The Witcher Tales

Outro fator muito importante neste jogo é a tomada de decisões. Meve sofre testes constantes de sua liderança, enxerga as opções a qual o jogador deve escolher e então descobrir as consequências. A ambientação do jogo é realista, a guerra ameaça a todos em várias nuances, e a Rainha só conseguirá favorecer certa parte do reino enquanto todos julgam as decisões. O exército pode perder o moral e chegar ao próximo conflito com menos afinco — portanto menos força —, pode atrair novos aliados ou espantar certos seguidores, as mãos de Meve ficarão sujas pela culpa de certas mortes causadas pelas escolhas; inexiste a alternativa perfeita, muitas vezes existem somente as consequências ruins, e cabe decidir qual parte do exército de Meve sairá prejudicada.

Prefiro atos em vez de palavras”

A história de Thronebreaker acontece antes da trilogia de jogos The Witcher, e é baseada na saga de livros. Meve encontra outros personagens disponíveis nos livros ao longo da jornada, reconhecidos apenas por quem leu, apesar de o jogo apresentar o contexto de cada um através dos diálogos disponíveis. Ótima forma de homenagear a obra original e ainda somá-la aos recursos de jogo.

Mahakam - Thronebreaker: The Witcher Tales

Ainda quanto a história, toda ela é contada por certo personagem apresentado na cena de abertura do jogo, nominado apenas de Contador de Histórias. O contador narra todas as cenas do jogo conforme a transcrição surge na tela e cede espaço à fala dos demais personagens presentes no jogo quando ocorre diálogos. Esta mecânica faz uso de recursos literários, embora adaptados à mecânica do jogo. A narrativa é breve, por vezes resumida em adjetivos, pois apenas mostra a situação perante o combate vindouro ou o contexto do qual é preciso decidir dentre as alternativas. Por mais elaborados que os adjetivos e as situações sejam, as limitações de narrativa — como meio de anteceder a fase do jogo — forçam a repetição na forma de contar a história.

Thronebreaker: The Witcher Tales preenche o espaço vazio deixado pela ressaca após jogar The Witcher: Wild Hunt graças a inúmeras homenagens do universo ficcional e a oportunidade de continuar neste ambiente com novos sistemas de jogabilidade.

Como não desejam falar, ficarão em silêncio para sempre. Preparem uma corda!”

Ponto de Impacto (Dan Brown)

Já falei neste blog sobre a importância de qualquer pessoa ter mais interesse pelo meio acadêmico e conferir os estudos feitos por indivíduos comprometidos a pesquisar as inúmeras questões do nosso mundo. Enquanto tal interesse permanecer escasso, outros pequenos grupos ou indivíduos formam ambições sobre o ambiente científico e tramam conspirações na garantia do benefício próprio e exclusivo. Tudo faz parte do jogo, e os envolvidos ditam as regras; quando quem precisa dos benefícios das pesquisas deixa de participar, o mesmo é o maior prejudicado da conspiração. Também há a ironia de até o conspirador tomar prejuízo na história, porém nunca ser capaz de perceber tal perda que atinge a todos. 

Ponto de Impacto conta a história da conspiração estadunidense na qual pode comprometer a NASA. Publicado em 2001 por Dan Brown e lançado em 2005 pela editora Arqueiro com tradução de Carlos Irineu da Costa, a conspiração desta vez envolve a política na ciência. 

 “Política, afinal, não se limitava a ganhar uma eleição” 

Rachel Sexton vive um momento delicado. Trabalha como agente de uma instituição governamental fazendo relatórios sobre as mais recentes informações adquiridas e as envia ao escritório da Casa Branca; ela também é a filha de Sedgewick Sexton, senador e candidato da eleição vigente como o principal opositor ao atual presidente dos Estados Unidos. Rachael jamais encontrou o líder do país em pessoa, mesmo assim seu emprego proporciona dilemas na campanha do senador, por vezes contornadas pela estratégia de Sedgewick de manter a própria boa imagem ao público. 

Ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos encomenda a tarefa extra-oficial a Rachel. A requisição traz poucos detalhes além da requisição da agente ir até o local onde realizará a tarefa misteriosa. Rachel tinha certeza em encontrar o presidente pela primeira vez quando na verdade é levada ao Polo Norte, dentro das instalações da NASA. Conhece pessoas envolvidas com a descoberta científica capaz de mudar a história da ciência atual, recebe o pedido do presidente, e se vê no meio da crise política e científica onde as ambições motivam os piores atos contra a vida e a verdade. 

 “Coisas altamente improváveis acontece na ciência” 

Dan Brown é reconhecido pelos romances focados em conspirações. Costuma manter a estrutura semelhante em cada livro escrito, tornando-o previsível ao ler mais de uma história de sua autoria. A trama é trabalhada sobre determinada área, os conhecimentos técnicos da mesma e as conspirações envolvidas e inventadas na originalidade do autor. Muito da parte técnica é transcrita nos romances com linguagem acessível, por vezes satirizando a relação dos acadêmicos com os personagens alheios ao assunto estudado. Mesmo acessível, a absorção dessas informações é comprometida pelo excesso. Parágrafos interrompem a história para explicar a tecnologia apresentada em determinada cena ou explica algo específico do conhecimento de determinado personagem, tiram o protagonismo da trama em troca de demonstrações presunçosas da pesquisa feita pelo autor. 

As descrições banais também pecam pelo uso de verbos nada elaborados. Os personagens tentam, sentem e pensam — com muitos verbos de pensamento — mais do que agem ao longo dos inúmeros capítulos curtos, quer dizer, mostra essa impressão pela carência do autor em desenvolver as cenas do livro com descrições capazes de demonstrar movimentos quando eles ocorrem. Até quando alguém está no ápice do desespero, com grandes feridas no corpo e prestes a morrer, o texto conta como o personagem pensa em como cometer qualquer erro poder ser fatal, ao invés de focar nos atos desesperados dele conforme aquela situação. 

Outro problema nas descrições simples está na repetição dessas. Além do narrador interferir na história e dar as explicações, ele as repete quando algum personagem as recebe, e ainda conta outra vez quando o ponto de vista alterna a outro personagem ao testemunhar a mesma situação. Até as pistas elaboradas nos vários mistérios construídos aparecem mais de uma vez, dão a resposta ao leitor muito antes do desfecho daquele mistério. Quase tudo é previsível, ainda mais quem já leu outro livro do autor e reconheceu o padrão de escrita. 

Ponto de Impacto me impressiona apenas pela questão levantada sobre a importância da ciência posta em cheque devido a pessoas capazes de interferir no trabalho dela sem reconhecer os problemas caso o fizer, além de outras pequenas situações paralelas à realidade — e atualidade. A escrita deixa muito a desejar. O autor é reconhecido pela elaboração do enredo, este também prejudicado pelo despejo constante de informações. 

 “Os cientistas das NASA até poderiam ter grandes cérebros, mas suas bocas eram ainda maiores” 

 Ponto de Impacto - capaAutor: Dan Brown
Tradutor: Carlos Irineu da Costa
Ano de Publicação Original: 2001
Edição: 2005
Editora: Arqueiro
Quantidade de Páginas: 398 

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Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Vivemos tempos difíceis por conta do cenário político. Toda discussão fica complicada pela repulsa ao ponto de vista alheio, da propagação de notícias e conceitos falsos e a ausência de coordenação entre os representantes — eleitos ou não. Pelo menos ainda podemos criticar qualquer decisão mal feita, às vezes conseguimos mostrar os argumentos no meio de tanto fervor de pessoas com visões verossímeis apenas quando lhe convém. Já num governo autoritário temos direito a nada, inexiste lados senão o opressor e os oprimidos. A coordenação é eficiente, impõe submissão a todos com condições difíceis de perseverar. Tal regime totalitário incitará rebeldia nas pessoas capazes de ameaçar a opressão, mesmo que aconteça depois de mil anos.

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação mostra o domínio de Una e o desespero de alguns habitantes de Untherak ao descobrir seus segredos. Publicado em 2017 na editora Intrínseca, Felipe Castilho entrega esta fantasia nacional onde a violência é exposta e imposta aos personagens.

“Com requintes de crueldade a cada sílaba”

Untherak é o lar da civilização após os seis Deuses darem a última chance aos seres existentes. Humanos, kaorshs, anões, sinfos, gnolls e os gigantes vivem sob a consequência dos pecados dos ancestrais, todos submissos à vontade dos seis Deuses que se uniram e viraram Una, a governanta imortal da cidade. Com força militar dominante, o general Proghon coordena os soldados — chamados de Únicos — com a ajuda da tenente Sureyya. Centípede é o grupo de arautos da Deusa, com rostos de difícil assimilação. A vontade de Una também é garantida pelos Autoridades, fiscais com permissão de punir qualquer cidadão que falte com as obrigações.

Entre os cidadãos há duas classes. Os servos prestam serviços mais pesados durante seis dias da semana e moram em celas, e os semilivres possuem mais liberdade quanto a tarefas e onde podem ir, mas ainda sujeitos a qualquer demanda do governo. O servo consegue ascender à semiliberdade ao pagar um preço exorbitante ou sobreviver na batalha jamais vencida no Festival da Morte.

Aelian serve no setor de correspondências como assistente de falcoeiro. Apesar de presenciar na pele as reprimendas dos Autoridades, o humano insiste em se arriscar nas ações nada prudentes. Harun é anão e Autoridade, sonha em reconquistar as relíquias dos antepassados, valores quase perdidos no domínio de Una. Ziggy é um sinfo, criatura ainda menor que os anões, assexuado e de pouco tempo de vida; vive com os outros da mesma espécie no Segundo Bosque, nada comparado ao lar original deles, o Primeiro Bosque. Raazi e Yanisha são amantes e kaorshs, espécie com capacidade de mudar o tom da própria pele. Yanisha descobriu o segredo de Una, e quer acabar o reinado dela junto com Raazi desde então. Todos esses personagens conhecem Aparição, um guerreiro oculto com vontade de combater o governo totalitário de Una, portador de espada grande e com a cabeça coberta com o capuz da cor proibida, a vermelha.

“O tempo tem a capacidade de transformar tudo, exceto a si mesmo”

Conhecemos Untherak e seu regime totalitário através das histórias dos personagens citados, em especial Aelian e o casal de kaorshs. Eles têm os próprios objetivos, com o tempo alinhados com o da trama, o de dar um fim a Una e o sistema cruel da cidade. Aparição é o símbolo de ameaça aos Autoridades e Únicos, bem como a esperança a quem é salvo pelo ser excepcional. As demonstrações de violência são constantes, punição é eficiente apenas ao impor medo, muitas pessoas — cidadãos e Autoridades — aproveitam das brechas e vistas grossas para benefício próprio, demonstrando a Lei de Gérson através da fantasia brasileira.

Cada personagem tem as suas particularidades. Passado, problemas e ambições possibilitam empatia enquanto mostra os perrengues do capítulo vigente, demonstram-se verdadeiros a ponto do leitor importar com cada um deles, mesmo quando não de primeira, pode mudar de opinião após descobrir todo o contexto vivido. É fácil compartilhar sorrisos nos momentos pertinentes, bem como prender a respiração ao longo do enredo tenso. Mesmo assim o autor perde algumas oportunidades de aprimorar a empatia por usar verbos de pensamento em certas partes do capítulo. Tais verbos resumem a sensação do personagem sem a repassar ao leitor.

O enredo trabalha a formação e evolução dos protagonistas e impressiona nas reviravoltas. Cenas surpreendem e oferecem o suspense antes de dar a resposta, umas no momento certo, já outras sob entrevistas — diálogos feitos de perguntas e respostas — que despejam a informação no leitor. Seja na construção ou destruição de conceitos, tudo empolga a curiosidade quanto a surpresas reservadas nas próximas páginas.

Ao começar a ler as cenas de ação, espere qualquer resultado. As batalhas ameaçam retalhar seja quem for, lâminas rasgam o corpo sem pudor e terminam vidas importantes, reconstroem o enredo com as consequência levando a novas possibilidades.

“Pessoas prestes a morrer eram bem mais perigosas do que brutamontes”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tem ótimos pontos positivos em fantasia e comprova a capacidade de Felipe Castilho como autor brasileiro de ótima qualidade. Com ressalvas quanto a passar a informação e demonstrar sentimentos do personagem em vez de contá-los por verbos de pensamento, ainda assim é preciso congratular pela ambientação e demonstração verossímil de um governo violento que recorre a qualquer alternativa capaz de manter os moradores submissos; o vilão gera a consequência de causar empatia ao leitor nos personagens vivos através das palavras.

“Alguns infernos duram mil anos; outros, um dia. Mas nenhum é melhor que o outro”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação - capa

 

Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Gênero: Fantasia
Quantidade de Páginas: 448

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Fatos à Venda (Crônica sobre narrativas)

Fatos à venda! Fatos à venda! Vocês sabem do que estou falando, posso produzir qualquer visão, teço a narrativa para favorecer ideais, ligo veracidades e monto a verdade. Todos podemos ser como queremos, basta produzir fatos convincentes, por isso estou aqui! Pretende subir na carreira? Precisa cultivar ódio numa pessoa? Tornar o corpo gordo a nova tendência do verão? Virar o novo presidente da República? Vem cá, rapaz, seus olhos transmitem o desejo honesto e faminto pelos caminhos fáceis. Solta o verbo.

— O senhor garante todo tipo de conquista mesmo?

Garanto. É tudo verdade, tudo obtido através de fatos, sob narrativas assertivas que favorecerão os sonhos, seja qual for. Ninguém verá a Mão por trás da visão, apenas os méritos de sua dedicação formulada pelas minhas palavras.

— E o senhor oferta tal serviço em plena praça pública. Sem ofensas, mas parece lunático.

“Sem ofensas, mas já ofendendo…” Por isso poucos respeitam meus talentos.

— Além do preço rabiscado nesta caixa de papelão. Algo tão caro e nem monta um estabelecimento decente…

Estabelecimento decente?! Isso aqui não é servicinho de loja, não. Acha que existe CREA sobre vendas de fatos? Chegue mais perto, amigo, fique do meu lado e olhe ao redor. Lembre-se daquele vestido azul para alguns e dourado a outros, isso acontece a todo momento. Todos esses pedestres, motoristas, guardas, engravatados e garis veem cores diferentes do mesmo objeto, visões alternativas do mesmo fato. Eu conheço o motorista triste por outros não terem condições de pagar pelas aulas de direção, já o outro critica de qualquer meia-roda conseguir tirar carta hoje em dia. Garis sonham com dinheiro, uns com trabalho duro e outros com distribuição de renda justa. Aquela de salto-alto odeia a obrigação de usá-lo no emprego, e nem queira saber onde a moça de casaco colocou a boca na última noite.

— Ou disse apenas ideias sobre eles tiradas da cabeça.

Fiz isso mesmo, e funciona! Ou você irá perguntar a cada um deles se estou dizendo a verdade? Os motoristas já saíram do alcance, a vida de todos seguiram adiante, e meus fatos sobre eles continuam aí, na cachola. Você verá o próximo gari e refletirá em qual lado ele está, mais ainda, verá um gari beiçudo e o tomará como quem defende a distribuição de renda. Por quê? Porque eu te disse.

— Errado, senhor. Posso discordar de tudo dito até agora.

Tem razão, pode, discorde enquanto todo o resto acredita. A sociedade quer seguir a narrativa, seduzir-se a ter esperança ou motivos a odiar alguém.

— Suas respostas são coerentes, eu até sinto em dizer o quanto desacredito.

Isto é o importante: fazer sentido, de preferência o mais simples possível. Existem verdades compreensíveis apenas através de muito tempo e estudo, e aquelas capazes de mudar a vida hoje. Nem preciso perguntar quais verdades o povo deseja mais, a minoria do primeiro grupo pode trabalhar à vontade, eu faço acontecer a maioria do segundo.

— Está bem. O senhor me convenceu.

Maravilha! Sou mesmo bom nisso, e posso convencer qualquer pessoa de qualquer fato sobre você. Já viu qual o meu preço, se consegue pagá-lo, basta pedir. Qual cargo tanto almeja?

— Nenhum.

Então já trabalha com o que quer, é um jovem de sorte. Eu posso tornar o seu produto ou serviço como o melhor da concorrência.

— Já é. Modéstia à parte, ninguém faz sites responsivos e rápidos como eu.

Olha a humildade, rapaz! Vamos assegurar esta sua posição. Qual a concorrência? Eu posso destruir a reputação de quem detesta.

— Eu sou cristão, senhor! Jamais pedirei pela desgraça de meu semelhante.

Está fingindo de ingênuo ou é babaca mesmo? Veja o quanto de cristão passando a perna por aí, eles precisam tirar vantagem, só assim garante o sustento da própria família.

— Este é o problema.

Não entendi. Explica direito este problema.

— Moro sozinho, longe de irmãos e pais. E, sabe… Tem uma garota, conheci ela há pouco tempo. Tenho calafrio só de vê-la. Queria apenas trocar algumas palavras…

Olha, este pedido é bastante diferente, rapaz. E eu gostei, será desafiante. Apesar de você conseguir algo muito melhor com meus serviços, eu te vendo o fato a ela.

— Impossível conseguir algo muito melhor. Ela é o amor da minha vida!

Certo, jovem. Sou velho e tarado demais para te entender, ainda assim acredito nessas palavras românticas. Pegue este cartão com meu telefone, mande todos os detalhes sobre ela, fotos também, e fale também de você, qualidade e defeitos. Manda tudo no zap-zap mesmo, eu saindo da praça já desenvolvo minha narrativa, divulgo nos lugares certos e ela ficará doidinha por um papo com você. Ela não mergulhará a seus pés ou implorará por passar noites no motel, seu pedido é outro. Pode pagar tudo depois do serviço feito, só lembre de trazer dinheiro vivo, viu?

Rapaz, que jovem foi esse? Desperdiçar o talento como o meu em troca de namoro honesto. É cada uma! Pior, adorei esta tarefa. Dá aquela sensação de o mundo ainda ter jeito, da humildade persistir e quem sabe um dia salvar este país da corrupção. É, existe esperança amanhã, hoje eu ainda preciso forjar em como a mídia manipulou um vídeo pornográfico postado pelo presidente. Todo dia tenho de arrumar as presepadas deste asno!

A Revolução dos Bichos (George Orwell)

Tempos de crise exigem iniciativa daqueles dispostos a melhorar a vida de seus semelhantes, oferece motivação suficiente a reconhecer os problemas atuais causados pelo responsável e traçar a alternativa salvadora. Os de iniciativa ganham reconhecimento ao criar oportunidade e mudança no modo de vida, olhos brilham com o trabalho contínuo rumo a realidade justa e garantida de direitos iguais. Mantém confiança aos responsáveis pela Revolução, carentes de lembrança e atitudes, o povo acredita nas novas inverdades e volta a ficar submisso à classe dominante, aquela com direitos mais iguais que o resto.

A Revolução dos Bichos traz sátiras ao regime totalitário de Stálin por meio dos animais na Granja do Solar. Publicado em 1945, é o livro mais importante de George Orwell com críticas a medidas do governo soviético, junto com 1984.

A Revolução dos Bichos - capa

Humano bom é humano morto

Major é o nome do porco mais velho da Granja do Solar. Reúne os animais depois de sonhar com a oportunidade de libertar todos os bichos da tirania do humano Jones e seus comparsas de duas pernas. Porcos, cachorros, ovelhas, cavalos e galinhas ouvem a ideia e se entusiasmam, cantam em conjunto a canção Bichos da Inglaterra, louvam o início da Revolução.

O velho porco morre dias depois, ainda assim os bichos sonham com a liberdade. Certo dia acontece a rebelião, atos desesperados levam os bichos ao limite contra Jones e os funcionários da granja, conseguem expulsar os humanos de lá. Os bichos tomam o ocorrido como inacreditável, acordam no dia seguinte ainda estupefatos, sozinhos na fazenda, enfim estão livres e podem trabalhar na garantia dos recursos ao sustento próprio.

Bola-de-Neve e Napoleão assumem os trabalhos de administrar a agora nomeada Granja dos Bichos, ambos são porcos e demonstram inteligência na estratégia e liderança nos afazeres para manterem a vida de todos confortável. Os dois líderes possuem opiniões divergentes a como coordenar a Granja e no princípio resolvem através de debates, até o porco Napoleão expulsar Bola-de-Neve à força e ser o único líder restante. Sem contrapontos, a nova postura de Napoleão traz medidas estranhas aos demais bichos, mesmo assim aceitam após a explicação eloquente do porco Garganta, demonstrando o quanto eles estavam enganados a determinado assunto jamais ocorrido. Assim prossegue, onde Napoleão ordena atitudes severas e depois justifica por meio de Garganta, além de proporcionar mais benefícios aos porcos comparado ao resto dos animais.

Napoleão sempre tem razão

Com pouco mais de cem páginas, Orwell retrata o desejo da população animal sob abuso dos humanos, existindo apenas em função de sustentar as necessidades do dono. Após o inacreditável tornar-se verdade, os bichos são coordenados sob nova direção sem observar os detalhes nem questionar as novas decisões, ficam a mercê da liderança cada vez mais autoritária, inconscientes de perderem recursos aos poucos.

Basta fazer bom discurso e aproveitar da memória escassa dos bichos e os manterá no controle, caso alguém contrarie algum posicionamento, tira-o da jogada e explica depois, reescreve as regras e os acontecimentos. Há quem questione, mas mudam de ideia após ouvir os argumentos do porquinho sob a narrativa sarcástica que entrega a história vista de fora. Sem mais liberdade e alterando fatos conforme os interesses do líder tal como mostra bem no livro 1984.

Os acontecimentos ocorridos na Revolução dos Bichos parodiam ações reais do regime totalitário na União Soviética. Mesmo quem desconheça a história do regime tratado, o leitor consegue visualizar alguns pontos através do livro, basta acompanhar a ironia quanto às ações dos porcos e o desconhecimento dos outros animais. Indo além das críticas ao socialismo de Stálin, certas atitudes não são exclusivas da ideologia e precisam ser desencorajadas independentes do lado político, por isso a leitura deste trabalho de Orwell é imprescindível aos interessados em política.

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Mimimi Sobre Mimimi

Hoje é tudo mimimi. Pessoas reclamam tanto da “geração mimizenta”, que fazem mimimi delas também. Talvez soe como se eu desencadeasse outra corrente pelo título, o mimimi de pessoas que fazem mimimi com quem fica de mimimi. Negativo! Já chega disso. 

Chega de Mimimi

Reclamar de algo virou moda, está recorrente e criará bolas de neve cada vez maiores. Um dos meus primeiros textos no blog é sobre lamentar, explico sobre os problemas permanecerem enquanto só reclama. Por outro lado, críticas ajudam a todos, caso bem ditas.  

Percebo haver certa dificuldade de ver as vantagens entre conflitos de ideias. Certas soluções atendem um nicho de pessoas e prejudicam todas as outras, e devem ser refutadas. As outras ideias estão longe da perfeição, satisfazem certos grupos em certos momentos, e por isso precisam de debate sobre qual a melhor alternativa, a capaz de atingir o maior número de pessoas necessitadas. Pena eu ver pouca discussão entre as propostas e mais apelos, xingamentos e estímulos através da repulsa ou medo, mesmo utilizando mentiras

Vamos simplificar o exemplo com dois lados, o vencedor e a oposição. Quem perde repudia os erros, cada ideia do vencedor está errada, obra do malvado favorito da oposição. Muitas das ideias são horríveis mesmo, com pontos de vista limitados e diminuem a importância da outra causa. Mas a refutação dessas é atribuída ao malvado favorito do vencedor.

A oposição deveria se valorizar, parar de responder com emoção e, sabe, usar argumentos na discussão. Emoções não correspondem, e por isso são minimizadas, mimimizam o “mimimi” do contra. Entende onde quero chegar? 

Quem diminui a reclamação alheia também se prejudica. Ignora as críticas ao invés de filtrá-las, desconhece as falhas do plano e até fica surpreso pelo fracasso, então aponta os erros da oposição para ocultar os próprios. Só esquecem do principal: resolver o problema. “Problema? É só o outro problematizando minhas ideias. Impedem de eu trabalhar, esses mimimi.”

Mais Mimimi
Mais Mimimi

Então a oposição enfurece, esclarece os motivos da crítica ser válida, e o outro lado só ouve mais mimimi. É a culpa do vencedor? Convém a oposição que seja, pois vira brecha para apontar o quanto o outro é ignorante. Porém quero pegar nos braços da oposição neste momento e dizer: a culpa é sua. Deixe de esmurrar a ponta da faca, precisa de outro método, selecionar melhores argumentos e afiar ferramenta de defesa. Com isso o outro lado deve trabalhar nas réplicas, faltará oportunidades de diminuir a oposição e demonstrar a verdadeira capacidade, caso a tenha.  

Imagino alguns dizerem o quanto sou inocente. Ideias são o de menos dentro do jogo, há o mecanismo capaz de manipular e favorecer determinado lado. Só que o mecanismo funciona porque ninguém o vê. Se houvesse discussão de verdade, o mecanismo seria mais transparente, portanto os argumentos poderiam atacá-lo, mostrar motivos de removê-lo e tirar esta ferramenta ultrapassada. Em outras palavras, o mimimi está ocultando o mecanismo. 

Mind blow - Mimimi

Está além de ficar exausto com brigas irrelevantes. Eu vejo irmos ladeira abaixo, de todos os lados. Precisa eliminar este egoísmo caso queira mesmo ir em frente, senão é o mundo que seguirá adiante e nós ficaremos atrás. 

Estamos perto de outro final de ano, e caso seja desses a fazer promessas ao ano seguinte, recomendo esta: procure entender o outro lado. Ouvir a opinião alheia não lhe converterá, e esta nem é a questão. Toda informação é valiosa, mesmo as horríveis. Mantê-las demonstrará seus defeitos e evitará de elas retornarem sob novos aspectos. 

Cumpra essa promessa e já resolverá a outra: parar de mimimi e levar assuntos sérios com a devida importância! 

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