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O Alquimista e O Pistoleiro (Uma sátira)

Ele enfim chega ao deserto. Após quase duzentas páginas de aventura, a jornada rumo ao tesouro está prestes a acabar, pois assim determina a Mão. Largou esposa, emprego, mãe, as mensalidades de pilates e o rim direito. Tudo vale a pena por estar perto do grande sonho. Mesmo se fracassar, a experiência da aventura é o mais importante, a experiência de perder tudo em troca de, sabe, de ver como vai acabar isso aqui.

O outro permanece há três horas no bar cuja cidade seguiu adiante, parada enquanto tudo desmoronava. Está bem, o ka tem as respostas do trajeto de cada pessoa, basta apenas segui-lo, por mais que perca alguns dedos, a namorada, anos de vida, saúde e amigos; é a história acontecendo sobre o já demarcado pelo ka. Capaz de empunhar a arma, mirar, disparar e recarregar ao tempo de um piscar de olhos, apenas o cansaço e delírio o enfraquecem.

Ele, o recém chegado do deserto, entra no bar a procura de orientação. O universo conspira a favor dele, só esqueceu de dar as coordenadas corretas. Tudo bem, na verdade o universo favorecerá o Alquimista com alguém dando as respostas necessárias. Talvez um deles ofereça tentações a desistir do sonho, e o alquimista sabe ser apenas outro teste da determinação na busca do tesouro. Pessoas mais sensatas chamariam o “teste” de bom senso, pessoas reais vivem independentes da Mão a seu favor, e frases bonitas e inspiradoras são úteis apenas em livros, ouvi-las não põe o pão na mesa.

O outro, o sentado no bar, levanta as sobrancelhas ao novo cliente. Cliente uma ova, bochecha engomada e lisa, jamais chegará à pele chupada, enrugada e rasgada do Pistoleiro, aquele ali morre antes. Poderia matá-lo? O ka o mandará puxar o gatilho? Por via das dúvidas, já deixa a mão esquerda — ainda há dedos nesta — no coldre. O novato do bar se aproxima, sorriso ingênuo da boca sempre aberta, Pistoleiro dispara a primeira fala primeiro.

— Você tem dois segundos para dizer três motivos porque não devo te matar.

— Estou na busca do meu tesouro!

— Isso é apenas um motivo — ele recolhe a pistola —, mas é o bastante.

Alquimista mantém os dentes exibidos, a mente suspira pelo universo conspirar a favor da vida. Senta na segunda cadeira da mesa, todas as outras mesas têm três lugares, e esta tem apenas o número suficiente dos personagens desta história. Quem diria, a Mão garante ao Alquimista ter a companhia do Pistoleiro.

— Eu encontrarei o tesouro neste deserto e alcançar meu objetivo de vida.

— O que tem de tão importante no tesouro?

— Ainda descobrirei, quando obtê-lo.

— Então me conte qual o objetivo.

— Meu objetivo é encontrar o tesouro.

— Pelo visto faz a menor ideia do que trata o tesouro nem o objetivo.

— Tem razão. Isso faz parte da aventura.

Pistoleiro repensa em mirar no Alquimista e livrá-lo da perdição. O ka jamais deixaria alguém feito ele vivo, é predestinado a morrer, talvez o faça numa etapa importante à jornada do Pistoleiro. Bobagem, o ka-tet jamais seria formado com alguém tão estúpido. Ao menos o Pistoleiro sabe onde deve chegar: na Torre. O que tem na Torre? Bem…

— Também tenho a minha aventura. Como pode ver, tive alguns ferimentos por causa dela.

— Você diz alguns, eu digo que tem muitos, senhor.

— Faz parte da aventura perder um dedo ou outro. Se isso lhe der medo, sugiro voltar.

— Eu perdi muito antes de chegar aqui. Família, dinheiro e conforto.

— Sua esposa morreu?

— Não.

— Como consegue encher o cantil de água neste deserto?

— Tenho algumas moedas.

— Também calça tênis esportivo. Então tem conforto, dinheiro e pode voltar a abraçar a esposa viva e depois pedir desculpas por ser idiota.

— Não sou idiota.

— Todos somos. A diferença é que meu amor morreu antes de eu admitir.

Alquimista perde o sorriso do rosto. O companheiro de bar tem motivos de sentir amargura, pelo menos ainda persiste na aventura. Faria o mesmo se a esposa morresse? O universo jamais deixaria acontecer, ele está na busca do tesouro, deve favorecer sua vida e a dela. Bem, ninguém disse sobre conspirar em prol dos outros, somente por ele. O Alquimista pode tê-la abandonado ao azar! Como pôde ser tão egoísta? Teve bons motivos para partir. O tesouro, a aventura. Valerá a pena, a Mão garantirá isso!

— Sinto pela perda, senhor. Eu preciso ir, encontrarei meu tesouro.

— Tem certeza que o tesouro está neste deserto?

— Como assim? — O Alquimista denuncia a falta de planejamento da aventura pelas feições do rosto.

— Esqueça, continue a busca. Caso falhe em encontrar, há outros desertos além deste.

Pistoleiro saca a arma e deixa na coxa, decide avaliar o ka do Alquimista. O resultado vem no tempo de um gole da bebida, e o cano do revólver lança a morte na cabeça de bochechas lisas, disparado por um saqueador. O Pistoleiro dispara a bala na barriga do Alquimista, atravessa as costas e acerta o peito do saqueador. A Mão abandona por quem buscou o tesouro, e o Pistoleiro termina a bebida, levanta da cadeira e cambaleia seus passos, é preciso chegar à Torre.

Livros homenageados

Compre O Pistoleiro (Stephen King)

Confira O Alquimista (Paulo Coelho)

As Terras Devastadas (Torre Negra – Vol. III)

Pessoas têm as vidas interferidas pelos outros e aprendem a conviver, senão a situação piora a todos, ainda mais para elas. Entram no novo mundo onde conhecem pouco quem as trouxe, piora quando o mesmo também pouco sabe do próprio objetivo ou de onde vive, nada além do mundo seguir adiante e algo os levar ao destino. 

Dá o nome a este algo de Ka, razão de coordenar as condições dele e das pessoas escolhidas pelo Ka-tet, segundo O Pistoleiro. O grupo segue nesta questão de fé, mesmo quando tudo parece ruir, a crença no Ka faz os protagonistas seguirem adiante. Talvez seja algo sobrenatural, quem sabe apenas crença. Felizmente eles pensam na primeira opção ― pelo menos neste volume ―, senão perderia muito da força e confiança extraordinárias; o Ka sumiria com o menor indício de descrença. 

As Terras Devastadas prossegue a história de Roland de Gilead com o grupo feito por ele no volume anterior de A Torre Negra. Publicado em 2005, é a terceira parte da grande saga fantástica escrita por Stephen King, o escritor mestre do suspense e terror. 

As Terras Devastadas - Capa

As lições mais lembradas são aprendidas por si mesmo  

A história avança alguns meses antes de ser contada. Susannah e Eddie vivem no mundo de Roland, treinam como Pistoleiros enquanto sofrem problemas individuais. Vozes atormentam Roland e memórias humilham Eddie enquanto enfrentam um ser antigo e buscam maneiras de prosseguir na jornada. 

Roland conta o pouco de seu conhecimento obtido em vida. O mistério se agrava aos colegas ― e ao leitor ― pelo distúrbio de Roland em conflito com duas versões de suas lembranças. Ao menos conseguem o sinal a seguir, um dos seis feixes de luz corridos de um extremo do mundo a outro. Devem seguir o feixe até onde cruza com os demais, e lá permanece A Torre Negra. Só que há As Terras Devastadas pelo caminho. 

Para cada coisa que sei, há cem que não sei  

Quanto mais leio esta saga do King, mais me convenço do quão é injusto classificar esta história como fantasia. O mundo distópico traz novas descobertas conforme eles avançam, artefatos científicos despertam ou persistem no mesmo universo mágico, a crença motiva Roland e reúne os demais protagonistas à sua causa, as cenas de ação causam horror sem perdão a quem seja a vítima, tudo envolto na aura de suspense. Por isso considero A Torre Negra uma obra fantástica

Os novos personagens se mantêm como a ponte entre o conhecimento do mundo comum ao leitor e das histórias e conflitos de Roland. Tensões se acirram com o medo da incompetência e de desconhecer as circunstâncias desta nova vida ou do companheiro velho, extraordinário a ponto de questionar quais as capacidades e limites do mesmo. 

As Terras Devastadas tem mais páginas que o livro anterior, com o quarto volume tendo muito mais. Essas centenas de folhas pesam na leitura e trazem à tona a crítica recorrente dos trabalhos literários do Stephen King. Precisa acontecer determinado evento na história, o leitor está ciente disto, apenas curioso em como acontecerá, mas ainda assim precisa superar parágrafos e até capítulos até alcançar o desfecho. Em A Escolha dos Três, temos tensão a todo momento devido as condições trágicas de Roland enquanto ele deve seguir a jornada, situação que manteve a tensão e o interesse na leitura. Neste terceiro livro falta esta sensação. Pelo menos traz informações novas, histórias paralelas úteis ao enredo, bem como grandes espaços para conhecer os personagens sob diferentes perspectivas e condições. Pena muitos desses trechos serem de pouco impacto, falham em sustentar a longa leitura rumo ao ápice da história. Então chega a surpresa: cadê o ápice?

Nunca é errado ter esperança  

A história de As Terra Devastadas não termina, as últimas palavras entregam apenas expectativas ao quarto volume, ou no meu caso, frustração. As notas do autor falham em consolar, dizem de ele estar ciente de não agradar a todos com justificativa fraca. Ficou como livro incompleto até quando leva em conta de ser a terceira parte da história. 

As proezas e deficiências na escrita de King se misturam em As Terras Devastadas. Acredito inexistir motivos que impeçam algum leitor a seguir adiante na Torre Negra, ainda mais se este já é ciente das características do escritor, e pelos mistérios a serem desvendados neste percurso longo onde acompanharemos Roland. 

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