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Larissa Start (finalista do Prêmio Kindle em 2019)

Iniciativas de prevenção ao suicídio existem aos montes, já as eficazes correspondem a números limitados. Enquanto há muita vontade de fazer a diferença nesses projetos solidários, a maioria carece de embasamento até mesmo para mensurar a eficácia da campanha. Pelo menos há esta minoria interessada em planejar desde a metodologia, empregando recursos desenvolvidos por pessoas capacitadas. Mais que desejar o bem das pessoas, o melhor seria agir de maneira consciente. O livro Larissa Start procura demonstrar esta prevenção embasada. Publicado por Rafael Caputo em 2019 de forma independente na Amazon, o livro foi finalista do Prêmio Kindle no ano correspondente.

“Este é Ricardo, e esse é o relato de como suas pesquisas nos sites de busca, literalmente, chegaram ao fim”

Ricardo navega pela internet antes de tentar se suicidar. Ciente de qual meio utilizaria, ele estaria pronto a encerrar tudo, quando surge a notificação de um perfil desconhecido por ele na rede social querendo entrar em contato. O avatar corresponde à Larissa, bailarina interessada em frequentar academia, apesar da preguiça. Começa a conversa depois de ver pelo perfil de Ricardo a profissão de instrutor de educação física, por isso quer a ajuda dele para fazer a matrícula. Na verdade tudo era pretexto para conversar com Ricardo, desenvolver o contato próximo e evitar de ele encerrar a própria vida, conforme uma equipe do CVV constatou a intenção a partir do novo algoritmo dedicado a monitorar comportamentos online suscetíveis a de suicidas.

“Falando em coincidências, também aprendeu que elas não existem”

Conforme o próprio autor esclarece no começo do livro, esta história usa muitos elementos da realidade ao compor esta ficção, desde a reprodução de localidades reais de Curitiba ― cidade onde a história ocorre ― até os detalhes profissionais dos personagens envolvidos, bem como os dados referentes ao suicídio. A ideia entorno do algoritmo do CVV tem elementos comuns de ficção científica, especula uma ferramenta a partir da tecnologia já conhecida hoje, apenas mais desenvolvida a ponto de possibilitar sua utilidade nesta história. Já a interação desta ferramenta é feita de forma honesta pelos personagens e realista no ponto de vista narrativo, os responsáveis pelo algoritmo mantém a postura profissional diante do paciente na maior parte da história, e o envolvimento entre as pessoas posteriormente sempre leva o humor vigente em consideração.

A história começa sob o cuidado de como abordar o assunto delicado do suicídio. Foca em mostrar a intenção do Ricardo, sem indicar causas simplistas à complexidade do suicídio. A abordagem da prevenção sobre o Ricardo também foi exemplar no começo, os diálogos proporcionaram ao personagem ficar à vontade, pois evitou o assunto de imediato, a discussão começa apenas quando ele fica confortável a contar do plano, antes a Larissa apenas oferecia conselhos ambíguos de propósito, ela correspondia à conversa do momento e ao mesmo tempo dava indiretas ao problema de Ricardo.

“Salvar vidas não era brincadeira”

Embora comece a conduzir a prevenção de maneira exemplar, os capítulos posteriores deixam a desejar. O narrador é minucioso nos detalhes, descrevendo tudo sobre a situação, o pensamento de Ricardo e de qualquer outro personagem, sendo muitos momentos desnecessários ou já sabidos pelo leitor sem precisar mencionar. Devido a este cuidado de deixar toda informação clara, repete-a inúmeras vezes, subestima o leitor de compreender por si ou até de lembrar de algo dito em capítulo anterior. Há também momentos em que a narrativa é deixada de lado e o texto assume caráter informativo, os dois tipos de textos são úteis, só ficam destoantes de ficarem juntos. A pesquisa realizada pelo autor é impressionante, é visível a atenção aos detalhes, porém incluir toda a pesquisa na narrativa prejudica a narrativa ficcional.

E neste interesse de explicar tudo, acaba por comprometer até a abordagem do tema delicado, pois descreve até nos mínimos detalhes qual a maneira escolhida pelo personagem de tirar a própria vida. Em outro capítulo começa a detalhar os motivos de outra personagem desejar o suicídio, contradizendo a prática elogiada no parágrafo anterior desta resenha. Outro fator chega a ter ressalvas por atingir apenas parcela dos leitores: é quanto a mensagens cristãs distribuídas nas falas dos personagens como maneiras de convencer alguém a desistir do suicídio. Isso pode induzir da solução contra o suicídio estar nas mensagens bíblicas, algo inadequado a seguidores de outras religiões ou entre os ateus, esses correspondentes a maior taxa de suicídio comparados às demais crenças.

“[…] detesta azeitonas e ainda prefere acreditar nas pessoas”

O livro carece de revisão tanto por erros ortográficos quanto gramaticais e semânticos. Um exemplo é o verbo “poder” conjugado no passado como auxiliar a outro verbo, no entanto sempre aparece sem o acento ― “pode” em vez de “pôde” ―, e a repetição do erro acaba destacando esse vício de usar a mesma expressão ao longo do livro. Precisa de revisão quanto a questões incoerentes também. Em certo diálogo fala sobre o personagem ir a Fortaleza em breve, na sequência outro personagem pergunta qual cidade ele iria, e a resposta sobre a “cidade” foi Ceará. Cita a idade de Larissa ser de vinte e três anos, já em outro momento é vinte e dois. Comenta de o Ricardo poderia evitar o rastreamento do acesso dele na internet caso usasse o modo anônimo do navegador, porém isso apenas deixaria de salvar o histórico no próprio computador, já os sites e possíveis algoritmos conseguiriam rastrear a atividade do usuário na mesma maneira; algo possível de Ricardo se confundir por ser formado em área diferente a da informática, já o narrador onisciente e dedicado a pesquisar sobre tudo não, faltou deixar claro de quem era a perspectiva nessa frase.

A intenção do livro Larissa Start é explícita de conscientizar sobre a prevenção do suicídio através da ficção, e apresenta maneiras exemplares de proceder neste objetivo. Uma pena o andamento da narrativa descontinuar a abordagem positiva, por vezes soando até contraditória, ainda mais pela escolha do narrador explicar todo aspecto do romance.

“O simples ‘Oi’ que mudara tudo”

Capa de Larissa StartAutor: Rafael Caputo
Ano de Publicação: 2019
Tipo de Publicação: independente
Gêneros: ficção / ficção científica
Quantidade de Páginas: 174

Confira o livro

O Suicídio e Sua Prevenção (Setembro Amarelo)

Desinformação traz o perigo de piorar a situação da qual deseja prevenir, mesmo sob boa intenção. Desvirtuar logo do assunto relacionado a manter vidas pode, infelizmente, acontecer o contrário. Sem atribuir culpa total ao desinformado, pois parte do problema corresponde ao assunto ser tabu, portanto menos acessível, ainda assim há quem estude, segue rigores científicos e assim impede dos sentimentos incitarem julgamentos equivocados. Assim funciona o estudo sobre O Suicídio e Sua Prevenção, escrito por José Manoel Bertolote e publicado pela editora Unesp em 2012, o texto aborda desde a definição do suicídio até as maneiras eficazes de o evitar, comprovadas no momento da publicação.

“Deveríamos começar pela criação de condições para vidas mais significativas e sociedades melhoradas”

Partindo das definições, o autor desenvolve os argumentos ricos em explicação didática. Todo leitor terá facilidade de compreender o conteúdo sem precisar de conhecimento prévio, pois tudo está explicado no próprio texto. Tabelas e gráficos ajudam a mostrar informações condensadas sobre o tópico correspondente, acompanhados de parágrafos elucidativos sobre os dados organizados ali, ou seja, nada dificulta o entendimento do leitor. Talvez seja aconselhável apenas conhecer a importância da metodologia científica para assimilar o porquê das iniciativas de objetivos mais rigorosos serem as mais confiantes quanto a prevenir o suicídio ― breve explicação: tendo metas definidas, é possível avaliar a eficácia da iniciativa, bem como replicá-la caso outro grupo julgue algum erro na metodologia, este têm a possibilidade de testar e assim discutir a melhor abordagem. Por outro lado, explicar a metodologia científica implicaria em desviar do assunto, cuja extensão é sucinta, mas ideal de abordar a quem deseja aprender sobre a prevenção do suicídio, podendo aprofundar depois em materiais complementares.

“Deuses e religiões não eliminam o absurdo, apenas o ocultam”

Embora a abordagem na escrita impede de surgir dúvidas ao leitor, tem uma afirmação contraditória por deixar de informar por completo. O autor reconhece a possibilidade dos registros das tentativas de suicídio serem subestimados, e quando trata sobre as tentativas, afirma das mulheres realizarem com mais frequência por causa do método empregado entre as pessoas deste sexo ocasionar em menos mortes. Apesar da observação resultar dos dados disponíveis, o autor poderia levantar a questão da subnotificação como contraponto capaz de tornar esta afirmação falseável, ou talvez ter explorado melhor esta situação que comprove de as mulheres tentarem mais vezes por esse motivo.

O Suicídio e Sua Prevenção tem conteúdo fiel ao título, começa a abordar da definição e fatos sobre o suicídio, em seguida discute sobre os meios de prevenção. O livro é excelente a qualquer pessoa ler sem dificuldade de assimilar, incentiva a consciência ao abordar este assunto, podendo assim impedir das pessoas limitadas a terem apenas boas intenções acabarem prejudicando a prevenção.

“E o futuro não existe, vivemos aqui e agora”

Capa de O Suicídio e Sua PrevençãoAutor: José Manoel Bertolote
Editora: Unesp
Ano de Publicação: 2012
Gênero: acadêmico / técnico / não ficção / suicídio
Quantidade de Páginas: 138
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1499: O Brasil Antes de Cabral (Reinaldo J. Lopes)

Este blog já realizou várias abordagens sobre aspectos nacionais ocultos ou negligenciados por nós mesmos, ou ainda graças da carência de informação. Fora da abordagem literária, desta vez temos uma obra técnica a comunicar sobre os empenhos acumulados a entender mais sobre o chão onde pisamos, focando no tempo antes da colonização. 1499: O Brasil Antes de Cabral conta sobre a diversidade dos povos indígenas conhecidos através de trabalhos arqueológicos. Publicado em 2017 por Reinaldo José Lopes através da editora Harper Collins.

“Dizem por aí que o passado é outro país, não é?”

Quem esperar um livro dedicado sobre a vida dos tupi-guarani, xingu ou mundurucu, pode acabar surpreso do livro abordar muito além disso. Na verdade o foco está na vida indígena por aqui, retratada em ordem cronológica desde as possibilidades desses povos conseguirem imigrar no continente americano, da vida cotidiana de grupo caçadores-coletores, da formação de várias sociedades distintas e da maneira em estender o domínio pelo continente, até os motivos de sucumbirem após a chegada do povo europeu.

Conforme pontua os eventos cronológicos, Reinaldo fala da vida da tribo correspondente àquele período, deixando claro de onde retira esta informação e confessa quando há divergências entre os acadêmicos, ou mesmo dúvidas. Os acadêmicos encontram várias limitações quanto ao conhecimento dos povos antigos, ainda precisam encontrar muitas respostas pontuais para enfim montar um cenário completo da vida antepassada, por enquanto há discussões especulativas até as futuras evidências as confirmarem ou negarem. Talvez torne o livro menos atraente aos leitores por abordar esses furos e divergências ao longo dos capítulos, porém o autor fez bem em tornar esta situação das pesquisas transparente, pois assim mantém o aviso das informações contidas neste livro estarem sujeitas a mudanças em pesquisas futuras. Outro motivo positivo é o de demonstrar a partir desta abordagem de como a pesquisa acadêmica está suscetível a mudanças nos conceitos e contextualizações conforme ela avança, mostra o quanto a discussão entre pesquisas divergentes só favorecem ao melhor entendimento do todo.

A abordagem do conteúdo é excelente, por outro lado o livro deixa a desejar no desenvolvimento da escrita. O autor tenta amenizar a parte técnica usando de tons informais ou mesmo faz brincadeiras com os termos, e isso foi insuficiente. Faltou concentrar a narrativa nos pontos interessantes das pesquisas, por vezes concentrou mais em mostrar os contrapontos do tópico abordado ― algo importante de fazer, conforme dito no parágrafo anterior ― sem ao menos atiçar o leitor a este tema, deixando assim o interesse subjetivo, ou seja, depende mais do interesse particular de quem lê por causa da falta de motivação. A sinopse promete a abordagem de metrópoles “perdidas”, redes de comércio, grandes monumentos e tradições artísticas espetaculares; porém tudo isso demora a aparecer. O próprio autor confessa de quase toda a metade do livro ser o prólogo sobre a vida dos indígenas, e então narra a maioria dos pontos interessantes adiante. Poderia focar a escrita nos tópicos em vez da ordem cronológica, esta deixando em segundo plano ao desenvolver a evolução da construção dessas metrópoles e comércio; desta forma teria êxito em instigar a curiosidade do leitor, e então presenteá-lo às discussões técnicas.

“Os Tapajós teriam o costume de ‘temperar’ a comida de indesejáveis […] eliminá-las no melhor estilo ‘Game of Thrones’”

1499: O Brasil Antes de Cabral é excelente quanto ao conteúdo e a transparência sobre as abordagens divergentes das pesquisas e das limitações do conhecimento ainda em desenvolvimento sobre os povos habitantes desde antes dos europeus. Poderia ser ainda melhor caso dedicasse esforço em montar os tópicos de modo mais interessante, tarefa nada fácil que pelo menos tornaria este livro excepcional a todos os curiosos pelo conteúdo. Já na edição vigente, ainda pode ser excepcional a leitores já acostumados com abordagens arqueológicas ou a quem esforçar mais em compreender as discussões elencadas pelo Reinaldo.

“O maior rio do mundo não ganhou seu nome atual por acaso”

1499 - capaAutor: Reinaldo José Lopes
Editora: Harper Collins
Ano de Publicação: 2017
Gênero: texto acadêmico / arqueologia / história
Quantidade de Páginas: 248

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O João Valério em Escritores Atuais

Ao ler livros fora da minha área de conforto (ficção fantástica), por vezes encontro descobertas ricas em reflexão. Assim o desafio de encarar algo diferente a mim recompensa com ideias as quais seria difícil de eu ter seguindo nos mesmos gêneros de história de sempre. O livro Caetés trouxe uma surpresa digna de reflexão a nível de compartilhar por aqui, pois o protagonista é alguém aspirante a escritor, submetido a dificuldades frustrantes e dilemas autoimpostos. Reconheceu-se? Pois essa é a proposta desta postagem, falar das semelhanças deste protagonista da obra publicada na década de 1930 e nós, aspirantes a autores do século seguinte.

Escrita X Rotina X “Trabalho de Verdade”

A atividade da escrita é solitária, seja nas teclas do computador ou na pena de João Valério. É preciso organizar a rotina, alocar determinada parte do dia a dedicar na elaboração da história, abrir mão da companhia de amigos e demais compromissos enquanto dedica a esta tarefa. O problema, tanto ao João quanto a nós, é conseguir empregar este tempo exclusivo.

Sobrecarregado - Escritores Atuais

Depois de um dia longo de trabalho: trabalhando na escrita

Ao sonhar em exercer a literatura, também é preciso exercer outra profissão capaz de sustentar nossa vida e pagar as dívidas. Havia menos variedade de despesas na época de João Valério, mas ele próprio guardava as cobranças pendentes de clientes do armazém onde trabalha, assim como ele possuía as próprias. Tem compromisso com a revista gerenciada pelo pároco de Palmeira dos Índios. Troca prosa com amigos próximos, assim descobria dos acontecimentos importantes da cidade no meio das fofocas, sem falar de estar presente em alguns deles; não bastasse o contato próximo na rua ou durante o trabalho, ainda nos relacionamos pela internet, o que facilita muito a interação de pessoas distantes, pena ocupar muito do nosso tempo quando falhamos em controlá-lo.

Falando em internet, temos dificuldades inatingíveis a João Valério. Na época dele só podia publicar histórias por meio de instituição, seja editora ou algum tipo de periódico. Caso alguém da época dele conseguisse os recursos escassos de imprimir a própria obra, ainda atingiria pouco público, repercutindo apenas onde pudesse alcançar fisicamente com os seus livros. O século XXI nos brindou com as publicações independentes, podemos alcançar leitores em lugares onde jamais pisamos ou pisaremos, sequer precisamos conhecer! Basta o lugar ter acesso a internet, e o leitor de lá consegue acessar nosso livro digital ou mesmo a versão impressa à venda em sites.

Comprando livros - escritores atuais

Uma leitora comprando meu livro – uhul!!!

A publicação de livros está mais democrática comparada ao tempo de João Valério, quando poucos poderiam publicar. Hoje somos muitos, de milhares a milhões! Com níveis de qualidades variados, todos nós temos o direito de arriscar, e nesta quantidade vem a dificuldade dos leitores encontrarem nossos livros entre tantos outros. Alguns de nós optamos atrair público por meio de outras atividades, seja com perfil de rede social engajado, produção de conteúdo via podcast, canal de vídeo, ou mesmo blog… E acumulamos tarefas ao manter esses canais, mais tempo reservado além da escrita, ou até dividi-lo entre escrever e produzir conteúdo.

São problemas exclusivos nossos, e isso pouco significam serem piores que na época de João Valério. Afinal no tempo dele tudo ocorria mais devagar, ou em outras palavras, a nossa rotina é acelerada. Mesmo dispondo de veículos mais rápidos que carros de boi, interação pessoal sem precisar deslocar até o sujeito, e jamais pisar na biblioteca ao estudar. Cada vantagem tem consequência: local de trabalho costuma ser mais distante, acabamos extrapolando o tempo online e demoramos mais em filtrar boas fontes bibliográficas antes de estudá-las ou deixamos de conferir e assumimos o risco de prejudicar o estudo. Nossas rotinas são diferentes a de João, ainda assim fazem parte do nosso tempo, o qual é preciso administrar.

Pouco adianta culpar os compromissos quando fracassamos em escrever, por falharmos em reservar o tempo de escrita. A literatura não vai nos livrar dos compromissos com o emprego e devemos persistir nessas dificuldades, algumas maiores para uns quanto a outros. As oportunidades estão mais democráticas, só falha ainda em ser democraticamente ideal.

O desânimo

Eu preciso citar #spoilers de Caetés neste tópico, então leia o seguinte caso queira evitá-los ― só lembre de voltar aqui depois de ler o livro. No início de Caetés, João Valério possui apenas dois capítulos do livro feito, e no fim ficou igual o começo com uma diferença: ele desistiu da literatura. Já estava há cinco anos com este trabalho engavetado quando tenta prosseguir ao longo do romance, e é interessante observar de ele só continuar a escrita quando algo o desanima na vida pessoal. Ele usa a produção da literatura no intuito de obter prestígio, possuir qualidade distinta das pessoas próximas a ele, esconde a inveja do sucesso alheio por se reafirmar de estar no caminho certo ao escrever o romance. Já no final do livro, quando ele consegue subir na posição de sócio do armazém, perde o interesse pela literatura.

Burguês safado - escritores atuais

Parou de escrever porque virou burguês, safado!?

Podemos criticar a postura de João quanto a literatura, mas estaríamos fadados a sofrer a mesma consequência? Como já dito, literatura ainda rende pouco dinheiro aos brasileiros, mesmo assim alguns de nós buscam prestígio a partir da escrita, de ser reconhecido entre os leitores, apesar das outras profissões terem melhor remuneração. Há quem nem considere profissão pelo fraco retorno financeiro, igual as outras atividades artísticas.

Prosseguir no desejo de produzir literatura requer resiliência, esta recompensada por valores os quais devemos estar dispostos a receber, digo valor no sentido de reconhecimento. Então é comum haver desistências, já testemunhei amigos que perderam as esperanças de produzir histórias. Uma situação triste, real e obrigatória a conformar.

Pesquisa

Por último tem a situação mais hilária mostrada por João Valério, e mesmo assim importante e recorrente entre escritores atuais. Antes de comentar, segue a transcrição do trecho disponível na contracapa:

“[…] Também aventurar-me a fabricar um romance histórico sem conhecer história! Os meus caetés realmente não tem verossimilhança, porque deles apenas sei que existiram, andavam nus e comiam gente.”

Sim, João Valério é desleixado. Já bastou escrever apenas quando queria alimentar o ego, ainda faz pouco esforço em tornar a prosa verossímil! Às vezes tenta compreender mais da civilização tratada no romance, elabora perguntas absurdas aos conhecidos, pois evita de contar a eles sobre a tentativa de escrever romance; ao falhar em obter resposta, fica por isso mesmo.

Hoje podemos entrar em contato com conhecedores do assunto pendente em nossas histórias, sem falar do Dr. Google e inúmeros artigos online acessíveis. E mesmo assim há escritores desleixados quanto a pesquisa, ou mesmo de boa intenção acaba falhando na contextualização. Pode acontecer do escritor receber tal informação de algum site de credibilidade duvidosa e acreditá-la sem a devida averiguação, ou também por tomar inspiração em outra obra que tenha adaptado algo no mundo criado pelo autor com a devida licença poética, e acaba repetindo esta adaptação como verossímil. Tal problema surge em maior frequência quando retratam períodos ou regiões diferentes a do autor, embora ainda aconteça ao representar determinado tipo de trabalho. Por exemplo: personificar alguém da minha área ― informática ― sendo um hacker capaz de invadir o sistema de segurança militar… composto do algoritmo real que calcula fórmulas de astronomia. A série Arrow cometeu essa gafe, mesmo sendo produção de grande orçamento:

"Criptografia avançada" em Arrow

Flagra feito pelo blog Vida de Programador (link do post original na imagem)

Enfim, erros acontecem. Mesmo com os recursos atuais é difícil acertar na verossimilhança através de pesquisa, sob o risco de provocar a ira do leitor ambientado no contexto mal adaptado em seu romance. O melhor a fazer é esforçar a cometer menos erros. Procure ler obras de autores sob o contexto disposto a representar, igual optei a ler livros de Graciliano Ramos para aprender mais sobre os alagoanos numa época próxima a qual retrato na minha nova tentativa de romance ― e ainda tive a coincidência de ler este livro dele que inspirou toda esta postagem! ― E até isso pode ser difícil dependendo de qual região queira abordar, tendo o azar de encontrar pouca ou nenhuma obra de autor local; ou mesmo existindo, é inviável adquirir ou falha em repercutir no resto do país, mesmo através da internet. Ainda pode ir além da literatura e consumir o que tiver disponível sobre aquele povo. Seja música, notícia, vlog. Ou encontre alguém disposto a conversar sobre a cultura local. Caso tenha condições financeiras, lembre de contratar a análise crítica do profissional mais próximo de conviver ou entender do contexto de sua história.

Neste tópico eu posso afirmar sim a facilidade de trabalhar em relação à realidade de João Valério. No entanto aumenta também a exigência dos leitores quanto a representatividade, pois incluir diversidade apenas para “cumprir cota” deixou de ser suficiente. O autor tem o direito de ignorar tamanha exigência, pois considera uma “problematização desnecessária” ― vulgo mimimi ― e assim ele deixa de atrair grande parcela do seu público, o qual tem a possibilidade de crescer nos próximos anos e passará a te ignorar por isso.


Gostou das reflexões? Caetés traz questões contemporâneas mesmo em tempos posteriores da primeira publicação ao possibilitar esta discussão sobre os costumes de autor fictício semelhantes aos escritores atuais e reais. Também demonstra como ler obras diferentes da área de conforto exercita novas ideias.

Post do blog Vida de Programador que reconheceu a gafe em Arrow

Código-fonte de onde o seriado retirou o “sistema de segurança militar”

Como Estudar a Escrita Criativa

Quando comecei o XP Literário, tinha apenas publicações no Wattpad cujo resultado já comentei em outro artigo, fora isso tentei um concurso e ganhei somente experiência — longe de ver fracasso, já valeu por participar e ter esta iniciativa —, além de submeter um romance a análise crítica a qual descreveu os pontos necessários onde eu precisava melhorar. Em suma tive respostas negativas enquanto persistia e continuava a estudar escrita criativa.

Já neste ano a resiliência passou a valer a pena. Consegui minha primeira publicação comercial na segunda edição da Revista A Taverna e logo terei outro conto publicado também na antologia Creepypastas 2, esta em versão física pela editora Lendari! Submeti outro conto a mais um concurso e ainda aguardo o resultado.

Essas conquistas recentes não foram exclusivas de sorte, e sim fruto da minha dedicação em melhorar a escrita e construção de histórias. Nenhum romance escrito por mim foi publicado, e tenho o otimismo de colocar um “ainda” no final dessa frase. Aprendi e continuo aprendendo de diversas formas, aplicando esse conhecimento em cada tentativa de escrita. E agora compartilho quais são essas maneiras de saber mais sobre a escrita.

Pelas críticas

Como já disse, submeti meu primeiro romance a análise crítica e tive vários apontamentos e sugestões de melhorias. O foco desta análise é de fato identificar as falhas no texto apresentado, feito com a intenção de aprimorar a escrita. Este tipo de serviço serve apenas a autores com condições de abrir mão do ego, e sendo bem honesto, quem tem ego sofrerá muito pela dificuldade de lidar com as críticas. Quando o livro for publicado, estará disponível a todo tipo de leitor, com direito a dar todo tipo de crítica, é preciso respeitar todas elas — e também ignorar as feitas sob nenhum argumento senão o de menosprezar o trabalho alheio.

Voltando ao meu caso, eu tive dificuldade ao aproveitar melhor essa crítica. Aceitei e agradeci por todos os apontamentos, tirei algumas dúvidas com a avaliadora e ela respondeu de boa vontade. O problema foi a minha falta de preparo conceitual ao recebê-la. Pensei ter entendido na hora, mas se fosse hoje eu passaria vergonha de receber um feedback feito aquele. Cometi muitos erros de quem sabia pouco da escrita criativa, e só tive a verdadeira noção desses deslizes depois de estudar mais. Agradeço muito pela paciência e carinho da avaliadora ao analisar meu texto, e apesar de ser pouco eficiente devido a minha limitação, fez parte dessa trajetória de erro e aprendizado.

Aconselho a procurar este tipo de serviço caso tenha condições de pagá-lo, por outro lado também sugiro saber muito bem os conceitos da estruturação do romance e da escrita criativa, assim poderá aproveitar melhor os apontamentos. Também é ótimo exercício de lidar com as críticas, pois a análise fica restrita ao autor e avaliador, podendo se preparar quando receber algo negativo em público. Não importa o quão bom seja o autor, alguém com certeza achará algum ponto ruim e terá razão nele, pois nenhum escritor é perfeito. Caso falte dinheiro e queira estudar escrita criativa sem gastar dinheiro, aproveite o próximo tópico!

Sites gratuitos

Alguns autores exercem certos tipos de trabalho com intenção de conquistar reconhecimento ao público a ponto de convencê-lo a adquirir seu livro ou serviços, dentre esses trabalhos existe o de disponibilizar conteúdo gratuito em sites! Seja uma amostra da matéria presente no curso dele, discussão de ideias defendidas entre autores diferentes ou listas sobre lições compartilhadas pelo autor ou de quem ele admira; há muitas formas de compartilhar informação. Podemos estudar escrita criativa nessas breves postagens com o custo apenas de nosso acesso a internet, também teremos noção do que cada responsável pelo conteúdo pode nos ensinar quando tivermos condições de pagar pelo curso ou livro vendido por ele.

O problema deste recurso é o conteúdo estar muito fragmentado em diversas postagens. Os criadores de conteúdo o fazem desta forma para manter o site deles atrativo nas redes sociais e no ranking dos buscadores de sites — tipo o Google —, inclusive eu mantenho este blog com novas postagens em cada semana pelo mesmo motivo. Mesmo ao tentar reunir esses fragmentos com intuito de “montar” o conteúdo completo, perceberá furos entre os artigos, pois cada um é escrito voltado ao tópico ou sub-tema específico, nenhum deles têm obrigação de interligar tudo, fazer assim gera muito trabalho e planejamento, algo que os produtores desempenham na criação do curso ou livro a vender através dos artigos gratuitos e das outras estratégias de marketing. Evite culpar o produtor do conteúdo por isso, pois eles apenas seguem as condições do mercado atual, e ainda assim pode aproveitar esses textos concisos, então os consuma!

Eu também tenho alguns artigos do tipo, no qual este mesmo faz parte! É só acessar a categoria XP de Escrita — tenho nenhum curso ou livro de escrita à venda no momento, então pode me seguir apenas pelo conteúdo gratuito 🙂

Livros técnicos

Aqui teremos a abordagem completa do que o autor pretende ensinar, mesmo quando dividida em temas pelos capítulos. Possuem o preço mínimo de livro comum ou muitas vezes até mais caro por valorizarem o conteúdo disposto nele, e ao ter condições de pagá-lo e conferir por si mesmo, é bem provável valer a pena.

Esses livros podem ser baseados em pesquisa, sobre discussão técnica ou ainda do autor compartilhando da própria experiência. Apresentam os pontos defendidos por eles e alguns até discutem os possíveis argumentos contrários. Ao ler diferentes livros do tipo, é fácil perceber as divergências de ideias entre os autores, cabendo ao leitor refletir e seguir qual ideia lhe convence mais, ou ainda formular sua própria concepção a partir da leitura e aplicar na prática.

O ponto negativo? Sempre tem… Você consumirá o conteúdo compartilhado pelo autor sem interagir com ele. Terá nenhum acompanhamento enquanto lê o conteúdo por si, caso arranje um colega ou grupo e discuta as lições interpretadas no livro, ainda faltará a figura do profissional capaz de conduzir esse aprendizado da melhor maneira possível, isto sendo exclusivo apenas a certas opções do tópico a seguir.

Cursos onlines de escrita

Aqui o investimento é pesado, mesmo os mais baratos superam o preço dos livros técnicos. Alguns cursos disponibilizam apenas o conteúdo em vídeo, recortado em várias aulas com intenção de abordar os detalhes necessários conforme a proposta do instrutor. Muitos outros vão além dos vídeos, oferecendo material escrito complementar, pequenos testes — questões — sobre o conteúdo, acompanhamento do próprio instrutor caso tenha dúvidas, por vezes tem até um retorno sincero do professor quanto ao material escrito enquanto aprende no curso! Este último não chega a ser análise crítica completa, pelo menos dentre os vistos por mim, apenas garantem a análise de um fragmento da escrita, seja capítulo ou determinada quantidade de palavras.

A vantagem está na diversidade em atender o aluno e pelo próprio acompanhamento do instrutor. Lembra da análise crítica que eu submeti? Apesar de avaliar apenas parte do romance, o instrutor apontará a falha através do conteúdo apresentado em aula, então já terá a base a refletir nessa crítica profissional. Também possuirá o conhecimento necessário ao encomendar esta crítica completa depois de realizar o curso.

É preciso avaliar bem em qual curso investir. Considerando o valor bem acima das demais opções de aprendizado, ninguém deseja correr o risco de desperdiçar dinheiro. Busque conhecer bem o instrutor a ponto de identificar se os pontos fortes vão te atender. Pouco importa quando o professor for a melhor referência em romance de época caso pretenda escrever ficção científica futurista. Às vezes a forma abordada também não é a mais confortável a você, criando empecilho ao ponto principal: o aprendizado.

Qual das opções é a melhor para estudar escrita criativa?

A resposta é muito simples: confira todas! Aproveite tudo o que tiver condições de pagar e esforce rumo a obter o melhor do conteúdo disponível. Enquanto estudar, jamais deixe de manter a rotina de escrita. A melhor maneira de fixar o aprendizado é pela prática, além de o estudo já servir para aplicar o conhecimento em seu trabalho, conforme deveria acontecer em qualquer outra profissão. Aprenda em cada oportunidade ao alcance, espero que lhe ajude.

Já Leu Um Artigo Acadêmico Hoje?

Já leu um artigo acadêmico hoje? Caso ache esta pergunta estranha por ser escritor e não cientista, é preciso me acompanhar neste post, pois falta compreensão da importância de tais textos, e estendo essa importância a qualquer cidadão ao conferir um artigo ou outro de vez em quando, de preferência sempre. O motivo é simples, e eu já expliquei ano passado como sendo o grande problema de 2018. Com tanta informação disponível, a sociedade falham em obter mais conhecimento e ficam sujeitas a notícias falsas, a mercê de narrativas medíocres no sentido literário e na comunicação em geral. Este Aprendizado faz abordagem genérica, útil tanto a escritores como pessoas interessadas em aprender, ou pelo menos deveriam.

Meu relacionamento com os artigos

Começarei a falar da importância dos textos acadêmicos a partir da minha experiência, demonstrando como eu também dava pouca importava a princípio. Deixo a modéstia de lado e digo que já fiz quatro monografias — concluí a última aos vinte e três anos —, quantidade pequena numa carreira acadêmica, mas maior de muitos que estudaram até o ensino superior como eu. Na minha bolha de estudantes, monografia significava apenas o passo final a concluir o curso. Procurar referências bibliográficas e catalogá-las no fim do Trabalho de Conclusão de Curso traumatiza o aluno ansioso por concluir aquele trabalho, defendê-lo e comemorar a vinda do certificado. Em outras palavras, os artigos eram apenas obstáculos quando já estávamos exaustos de estudar.

Obstáculo - artigo

Eu levando meu TCC para a banca avaliadora

Também foi assim comigo. Pesquisava pelos artigos, selecionava trechos relacionados ao tópico que eu precisava, o resumia, colocava na monografia e registrava a devida referência; e nesse meio tempo também checava as normas da ABNT, cheia de detalhes. Minha metodologia foi sistemática, voltada ao objetivo sem aproveitar as oportunidades proporcionadas por aqueles tantos textos lidos.

Só comecei a ver importância nos artigos científicos fora da acadêmia, numa plataforma incomum a buscar este tipo de conteúdo: o YouTube. Larguei canais de games e os vlogs ao descobrir influenciadores com argumentos embasados em pesquisa prévia. Comecei pelo Nerdologia e Pirula, depois conheci Ponto em Comum, Peixe Babel, Primata Falante, Canal do Slow, Blablalogia, Ciência Todo Dia… A maioria faz vídeos em formatos de vlogs, ligam a câmera e falam do assunto indicado no título do vídeo, elenca argumentos e faz a discussão do que é verídico ou pelo menos atestados pelos artigos, esses disponíveis na descrição do vídeo, bem como notícias e outras mídias embasadas.

A importância do artigo

O ideal seria ver cada artigo desses vídeos e entender mais do assunto, confesso minha culpa por fazê-lo apenas ao assistir o vídeo na segunda vez, com intenção de destrinchar o assunto e colher as referências para fazer minhas pesquisas, essas disponíveis neste blog na categoria Aprendizado. E por que é importante conferir as fontes desses vídeos? Porque a maioria são de artigos acadêmicos, cuja autoria vêm de pessoas formadas ou em formação na área de conhecimento relacionada. A dedicação deste trabalho deve ser comprovada pela bancada avaliadora com profissionais de nível acadêmicos superior, e só então torna público; toda a burocracia desta publicação garante o texto vir com a menor probabilidade de equívocos, e se eles existirem, terão outros artigos que contestarão aquele trabalho, como aconteceu na influência de jogos violentos nos atos reais, onde argumentam contra esta relação. Depois de saber a importância das referências, ainda confiará naquelas matérias sensacionalistas em que dizem “os estudos apontam” e no fim nunca explicam quais estudos são esses?

Outra crítica nada fundamentada aos ignorantes da importância das referência é sobre a Wikipédia. Tiram sarro só de ouvir alguma informação tirada de lá como tivesse nenhuma credibilidade, logo esta plataforma que disponibiliza toda referência usada! O site é excelente ponto de partida a pesquisa de fontes, e quando há falta delas, a própria página comunica ao visitante quando determinado artigo pode conter informações erradas.

Wikipedia - artigo

Wikipédia: leia as fontes!

Como aproveitar os artigos

Evitarei me estender em como buscar os artigos acadêmicos. Eu já dei a dica de começar na Wikipédia ou pelo vídeo dos canais citados. Outro ponto de partida é conferir portais de instituições renomadas pela comunidade científica, como a NASA e a revista Science. E eu preciso dizer sobre o Google? Existe a ferramenta Google Acadêmico, onde todos os resultados da pesquisa são artigos acadêmicos.

Então você acessa um daqueles textos lindos feitos por profissionais, e se espanta pelas 60, 80, 240 páginas de puro estudo! Precisa ler tudo isso? Não! Começa lendo o resumo e a introdução, caso trate do assunto desejado, pode pular direto ao tópico que responde as indagações, como a discussão e a própria conclusão. Conforme a necessidade, leia os outros tópicos e aproveite apenas as informações úteis. Caso o estudo for diferente da sua área de conhecimento, pouco adianta acompanhar cada passo da pesquisa, deixe esta parte a outros acadêmicos capazes de contestar e até provar algum engano naquele trabalho; caso provem, você não terá culpa, só recomendo acompanhar as novidades na acadêmia e encontrar o equívoco o quanto antes.

Estudar - artigo

Hum, já entendi que a terra não é plana na página 30

Além da injustiça quanto a relevância desses artigos, existem outros obstáculos ao acessar os artigos acadêmicos. Um deles é o custo, só pode consultar certos artigos ao pagar por ele, chega a desanimar a pesquisa só de olhar o preço. Alguns desses artigos ainda são acessíveis em sites piratas, feito por ativistas que discordam da distribuição desse material somente a quem tem condições de pagar. Todo profissional relacionado à publicação merece ter a remuneração garantida pelo trabalho feito, e concordo com os ativistas sobre a fonte pagadora deixar de ser os leitores, existe a possibilidade de tornar os trabalhos viáveis através de financiamento público ou privado nas pesquisas, então torne o acesso aos estudantes e curiosos o mais fácil possível! É um investimento à sociedade que ficará cada vez mais crítica e menos manipulável por narrativas fajutas.

Outro problema é o idioma. O inglês é a língua universal dos trabalhos científicos, é bom por tornar a discussão entre as pesquisas internacionais mais acessível por focar em um idioma, mas restringe a leitura de quem o desconhece. Quanto a isso eu recomendo o esforço de entender o inglês, pelo menos o necessário a interpretar as informações; eu não sou fluente, minha escrita é regular, tenho dificuldade em ouvir em inglês e sou pior ainda na hora de falar, e ainda assim leio os textos e consigo apreender as informações disponíveis. Mesmo enquanto souber apenas o português, ainda poderá consultar a partir de quem leu, como os artigos de Aprendizado deste blog, os canais do YouTube e outros sites comprometido em acompanhar pesquisas.

Conferir as novidades científicas deveriam ser exercício de cidadania. Valorizando a informação acima do locutor oferece a oportunidade de conhecer mais, reavaliar os próprios equívocos e criticar quando o outro tenta menosprezar a informação verídica. Escritores podem usá-lo como ferramenta até nos elementos fantásticos, uma fonte para especular sobre o conhecimento de hoje e refletir na construção original da ficção. Agora encerro o post com a pergunta: você lerá um artigo acadêmico hoje?

Referências

Vídeo do Canal do Slow sobre como fazer uma boa pesquisa

Vídeo do Nerdologia sobre a Wikipédia

Nostalgia — dos Equívocos ao Benefícios

Nostalgia: eu demorei a entender o significado desta palavra, achava-a esquisita mesmo depois de compreendê-la e meu subconsciente ansiava por conhecer mais. Termo singular como este deve ser visto de forma distinta, procurar e descobrir o motivo de suas qualidades, de abusarem deste sentimento no marketing ou de produções remetentes ao passado, como a adaptação dos heróis de gibi no cinema, o reboot dos filmes infantis clássicos do século que terminou há menos de vinte anos ou qualquer narrativa sobre lembranças dos tempos mais simples. Nostalgia é um sentimento, bem como uma ferramenta ardilosa. Teve a origem conturbada por equívocos, então vê apenas benefícios com ela — além de convencer pessoas a ver novas adaptações do velho. Enfim eu atendi meu desejo inconsciente e estudei esse fenômeno, cujo aprendizado resumo a seguir.

No princípio, Nostalgia era o Caos

O termo nostalgia foi criado para definir algo ruim, um sintoma patológico de inadequação ao presente, pois o indivíduo suspirava pelos bons tempos do passado. A origem corresponde aos mercenários suíços do século XVII, eles enfrentavam conflitos cada vez mais distantes dos lares e por isso ansiavam pelo retorno, sentiam saudade de casa e com isso rememorava os bons tempos de lá; consideravam esse comportamento ruim por acharem a ostentação do passado o sinal de estar descontente com o presente, e portanto desmotivados a cumprir suas tarefas.

Lar - nostalgia

Nada melhor — e humilde — do que o lar

Nostalgia vem das palavras gregas nostos (retorno) e algos (dor), ou seja, o sofrimento pelo desejo de retorno. A inspiração original também veio de uma história grega, sobre as aventuras de Odysseus. Por mais longe ele alcançasse as conquistas, ele sempre ansiava por voltar ao lar e aos braços da amada Penélope; algo romântico traduzido como trágico na situação dos mercenários suíços.

A perspectiva só começa a mudar ao longo do século XX, com propostas da nostalgia trazer consigo outros sentimentos prazerosos. Houve muita discussão quanto a isso, estudiosos elencaram sentimentos ruins e positivos atrelados ao sentir nostalgia, e notaram a maior incidência dos positivos. Desde então observa benefícios através da nostalgia, assim como eu percebi nos materiais consultados — lembre de ver as referência no final!

Nostalgia como elixir

O sentimento traz uma cadeia de benefícios: elevar a autoestima como se a recuperasse do passado, melhorar o otimismo quanto ao futuro e viver bem em sociedade; todo benefício é interligado a outro! Pessoas do mesmo grupo podem corresponder à boa lembrança, seja a mesma ou semelhante, como a brincadeira de tazos de quem teve infância nos anos 1990, reouvir a música de sucesso de determinada época ou lembrar de alguma situação em comum; até mesmo os feriados festivos alimentam a nostalgia ao reunir pessoas distantes depois de tanto tempo sem ver. Em outras palavras, nostalgia serve de gatilho a boas relações sociais, sejam de pessoas próximas ou aquelas com gostos parecidos. E esta boa convivência estimula os outros benefícios citados, pessoas sentirão melhor com a autoestima dos bons tempos e ficarão mais empolgados com os planos do futuro.

Infância - nostalgia

A nostalgia une quem teve infância semelhante

Quem vive rotinas mais solitárias também consegue esse benefício, pois a nostalgia é capaz de ampliar a intensidade do pouco convívio social desta pessoa. Apenas fica mais complicado quando há pessoas com dificuldade em reaver o passado, nesse caso elas têm problemas ao imaginar novas experiências, pois perdem a visão otimista atribuída com a nostalgia. Por outro lado,  mesmo ao ter o passado conturbado consegue bom proveito, pois pode projetar planos futuros de modo a evitar situações semelhantes do passado ruim.

E por que as narrativas nostálgicas causam impacto ímpar contra as boas histórias sem esse apelo? Simples, os elementos do primeiro entregam algo abstrato, e ainda assim correspondente a autenticidade de quem reconhece o aspecto memorável. É útil inclusive quando há transtornos pessoais quanto ao significado da vida ao recordar das crenças fundamentais e particulares da pessoa, reavidas por meio dos bons sentimentos do passado.

Alegações sob a ótica do copo meio vazio atestam apenas de a reapresentação de obras nostálgicas ser campanha com garantia de ganhar dinheiro fácil pela geração que viu o original. Já os argumentos trazidos neste artigo trazem, na maioria, visões otimistas — até fico impressionado pelo tanto de benefícios! — que merecem mais visibilidade. Eu, como muitos, pensa na rotina vivida por nós hoje como complicada, para não dizer sofrível ou adjetivos piores. Descobrir mais sobre a nostalgia estimula minha esperança e incentiva a aprender mais, pela possibilidade de conhecer outras coisas legais através dessas pesquisas.

Referências

Back to the Future: Nostalgia Increases Optimism

Nostalgia: Past, Present and Future

Why Nostalgia Makes Us Happy… And Healthy

Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

Mind Upload e o Pós-Vida no Mundo Virtual

Who wants to live forever? Músicas, histórias e discussões alimentam o desejo de superar as limitações físicas e melhorar os nossos aspectos de vida. A breve história da humanidade traz situações controversas entre a evolução social e tecnológica frente a real melhora nas condições vitais. Nada impede os cientistas de estudarem e buscarem maneiras de transformar nossas rotinas, e isso ainda é bom em muitos sentidos.

Quero abordar no post de hoje quanto a possibilidade de manter a vida humana mesmo após a morte biológica, através do armazenamento e reprodução da mente e do comportamento do indivíduo em ambiente virtual. Será mesmo possível salvar a consciência de alguém no computador e reproduzi-la em outro ambiente? Confira o artigo e saberá mais desta discussão.

Redes Sociais como meio de eternizar pessoas

Os perfis das redes sociais podem dizer muito sobre quem é determinada pessoa. Empresas vasculham os conteúdos compartilhados pelos candidatos de emprego antes de decidir a contratação. Amigos distantes podem manter as relações por esses sites, bem como namorados, que podem causar dor de cabeça após o término e ainda acompanharem a vida do ex no ambiente virtual.

É difícil obter a noção da quantidade de informação pessoal disponível de um usuário nesses sites, pois ela é gigantesca! Chega no ponto de empresas trabalharem na possibilidade de analisar as postagens e interações dos perfis, e então produzir algoritmos capazes de reproduzir os comportamentos depois de a pessoa morrer.

Sim. Você leu isso mesmo.

Rede Social após a morte - mind upload

Eter9 e Eterni.me

Eter9 é uma rede social criada pelo português Henrique Jorge, ainda em fase beta. O usuário da rede faz as postagens e interage com outras pessoas do site sem fazer nada de diferente. E enquanto o utilizam, a inteligência artificial analisa o comportamento de cada perfil para gerar o avatar correspondente àquela pessoa, e então este avatar postaria e interagiria da mesma forma durante a ausência do usuário.

Outra empresa com ideia semelhante é a Eterni.me. Sem rede social própria, ela sugere coletar informações pessoais já disponíveis na internet em outros sites e assim construir o avatar do indivíduo após seu falecimento. Mais ainda, o perfil do falecido poderá interagir com as pessoas vivas e próximas a ele.

Nem tudo são flores

A ideia pode até ser inusitada, pelo menos a execução é possível. A inteligência artificial precisa de muita informação gerada daquele usuário no ambiente virtual, e por isso a eficácia depende dos perfis serem ativos.

Toda esta quantidade da vida digital exposta de alguém acarreta noutras preocupações a serem analisadas. Precisa verificar se essas empresas garantirão a segurança desses dados, do contrário outros podem roubar toda essa informação e fazer atos ilícitos ou sem consentimento. Mesmo os perfis de pessoas mortas podem expor as das vivas por estarem conectados. Certos dados podem demonstrar o momento quando as pessoas estão mais vulneráveis a assaltos ou quais estão sujeitas a golpes de fraudes. Lembre-se que já aproveitaram dados do Facebook para propagar fake news ao público-alvo nas campanhas eleitorais.

Segurança digital - mind upload
Mantenha a informação digital trancada

Mesmo sendo possível, eu duvido quanto a eficácia de reproduzir uma pessoa real através da sua rede social, pois existem muitas maneiras de utilizar esses sites. Nem tudo da vida pessoal é exposto por lá; há quem faça postagens com intenção de criar uma imagem melhor de si, mesmo que seja falsa; além de comportamentos destoantes da pessoa e usuário, como o autor de ameaças virtuais que mal olharia nos olhos de alguém na vida real (felizmente).

Em suma se publica muitos livros do Stephen King, o sistema dessas empresas reproduzirão, na verdade, a pessoa idealizada pelo dono do perfil. E quem presenciar o comportamento emulado pelo avatar, verá a diferença da pessoa em carne e osso.

Mind upload

Tem como eliminar essa dependência de coletar o conteúdo feito pela pessoa afim de emulá-la. Consiste em pegar o cérebro de alguém, mantê-lo intacto até ser possível digitalizar todas as memórias e reproduzir os comportamentos do indivíduo para então ressuscitá-lo através da emulação por programas.

Calma, isso não é Blackmirror ou outra realidade fictícia. Há quem de fato trabalha nisso, como a Nectome.

Nectome é uma empresa de pesquisa dedicada aos estudos da memória. Sua proposta afirma a possibilidade de realizar o mind upload no futuro quando poderá emular a consciência da pessoa em ambiente virtual. Mesmo sendo algo futurista, os pesquisadores garantem de as pessoas de hoje já poderem armazenar seus cérebros através da operação que é garantida… de ser fatal.

Paciente morto - mind upload
O paciente está morto, vida longa à ele!

Destinado a pacientes de doença terminal, a operação consiste em preservar toda a constituição cerebral e mantê-lo assim até ser possível escanear e reproduzir a consciência. Para tal conservação, o cérebro ainda precisa estar ativo, em outras palavras, o humano deve se sujeitar a operação enquanto está vivo. Porém, este procedimento é fatal, e por isso feito apenas em pacientes com possibilidade legal de eutanásia.

A ideia soa absurda, e apesar de já ter pessoas interessadas, pode ser absurda mesmo. A Nectome teve parceria com o Instituto de Pesquisa de Massachusetts (MIT) que logo foi desfeita, pois o conhecimento vigente da neurociência não garante a eficácia da preservação do cérebro, tão pouco há garantia de reviver o cérebro no futuro através da digitalização.

Discussões sem fim

Só porque o MIT recusou uma iniciativa de mind upload e alegou falhas referentes à possibilidade, pouco significa a morte do assunto. Muitas discussões já foram feitas com pontos positivos e negativos, além de muitas outras que virão.

Duvidam da capacidade informática de conter e processar memórias no mesmo nível funcional do cérebro, porém inexiste evidência sobre os sistemas serem incapazes. Falam da impossibilidade de converter as memórias salvas em comportamentos idênticos aos humanos, e a resposta afirma haver avanços na neurociência sobre como as funções neurais funcionam e poderiam adaptá-las na emulação. Contestam da falta de contato físico na pós-vida virtual que resultaria em algo diferente da vida como conhecemos, e o outro lado alega sobre a experiência ser real no ponto de vista do indivíduo cibernético; mesmo considerando a criação do ambiente simulado onde as pessoas mortas conviveriam, ou a transferência da consciência delas em corpos sintéticos, esses de fato são desafios a serem avaliados em etapas avançadas deste estudo.

Discussão - mind upload
Os dois pontos estão certos… em discutir

Citei apenas exemplos vistos em dois artigos discutindo pontos contrários, e o debate com certeza é ainda maior. Este é o modus operandi de toda pauta científica, e deve fazer desta forma. Quanto mais autores de especialidades distintas entrarem na conversa, maior será o entendimento do assunto sobre a viabilidade.

É uma causa perdida?

E mesmo o mind upload sendo, no máximo, uma possível realidade apenas no futuro, significa que esses estudos feitos no presente geram pouco ou nenhum resultado? Pelo contrário! Pesquisas com objetivos distantes como esse podem beneficiar pontos intermediários.

Já disse no meio daqueles argumentos contrários sobre estudos da neurociência que descobrem como o sistema neural funciona e possibilita no futuro a reprodução dessas funções pelos programas de emulação da mente. Todo este estudo pode também gerar conhecimentos avançados e com esses dar oportunidades a outras pesquisas, como as de tratamento contra doenças degenerativas do sistema nervoso. Ou seja, quando ver pessoas se voluntariando em operações como a Nectome, não pense nelas como iludidas ou fanáticas por uma capacidade improvável, pois eles podem tornar possível os estudos capazes de curar doenças.

Pelo bem do mundo - mind upload
Pelo bem do mundo e da vida

Vivemos na época onde mind upload existe somente em ficção ou na obsessão de pesquisadores e idealistas ao futuro. Eu trouxe motivos para desconfiar dessas iniciativas atuais, e por outro lado mostrei benefícios em tópicos paralelos nesses estudos de resultado improvável. Sou a favor quanto ao prosseguimento dessas pesquisas e o incentivo à discussão como em qualquer outro tópico científico. Já sobre me sujeitar ao pós-vida, ainda prefiro tentar me eternizar através dos meus textos, deixando-os disponíveis mesmo após da minha morte.

Referências

** Todos os artigos usados como referência estão em inglês, infelizmente. **

Site da Eter9

Artigo sobre Eterni.me

Artigo sobre a Nectome

O rompimento entre MIT e Nectome

História sobre o neurocientista que deseja salvar a humanidade em computador

Sua mente jamais será armazenada em computador

Resposta ao artigo “Sua mente jamais será armazenada em computador”

Sapiens: Uma breve história da humanidade

Somos considerados homens racionais, porém até que ponto usamos a nossa racionalidade? Desenvolvemos a tecnologia como jamais fizeram as gerações passadas, o nosso convívio em sociedade é fonte inesgotável de pesquisa, discussão e conhecimento; e ainda não somos tão felizes. Deveríamos ser felizes? Qual é de fato o objetivo da nossa existência? 

Estudamos muitos só para admitir o quanto ainda precisamos aprender, levar outras questões da humanidade nas pesquisas de nossos ancestrais, chegar mais perto a compreender como chegamos aqui e sermos mais conscientes a aonde desejamos alcançar. 

Sapiens: Uma breve história da humanidade traz esta reflexão enquanto apresenta compilados de estudos científicos sobre a única espécie humana sobrevivente. Publicado em 2015, analisa desde a nossa origem como espécie até o momento da publicação, além de trazer provocações quanto ao futuro. 

Sapiens - capa

Yuval Noah Harari é doutor em história formado na universidade de Oxford. Uma de suas linhas de pesquisa analisa a relação entre a história da humanidade e a biologia, esta abordada neste livro.

Não existe um único estilo de vida natural aos sapiens  

Difícil dizer em poucas palavras quais pontos Harari discute sobre a humanidade em Sapiens, pois abrange vários aspectos do desenvolvimento da espécie. Das nossas estratégias de sobrevivência a formação da sociedade e o funcionamento de nossas crenças (nem sempre relacionadas a religião), usa as  fontes bibliográficas de conceitos já formados e das informações ainda inexatas, sejam pelas limitações da pesquisa vigente ou ausência de determinados pontos de vistas sobre o mesmo estudo. 

O livro começa a contar do surgimento do Homo sapiens e as possíveis interações com as outras espécies humanas, como os neandertais. Os próximos capítulos saem da ordem cronológica, pois pegam conceitos atuais e seleciona momentos históricos para analisar como chegamos a este contexto. 

Sapiens tem muitas provocações quanto a se realmente nos aprimoramos como espécie, apesar das melhorias na sociedade e tecnologia. Questões de crenças e rotinas entram em contraste com as necessidades do nosso organismo para se manter saudável. Prosperamos em situações abstratas, baseamos nossa sobrevivência em contextos ficcionais impregnados, como a concepção de empresas e estados. Diminuímos o número de mortes, reduzimos doenças, podemos até impedir a morte pela velhice e nos tornar amortais no futuro. E as perguntas persistem: o que a humanidade deseja? Somos felizes graças a esses avanços?

É vital fazer perguntas às quais não há respostas  

A linguagem do livro é bastante acessível, ainda mais se tratando da abordagem científica em todo o texto. Toda a bibliografia utilizada é citada, e o autor é honesto ao dizer das limitações dos estudos vigentes e na possibilidade de não conseguir responder tal pergunta. 

Divide-se em capítulos fragmentados com subtítulos. Há ainda divisões sutis no decorrer do texto, uma frase chamativa no começo do parágrafo incita a leitura sobre o assunto a discutir nas próximas linhas. Apesar de estimular o interesse, a repetição desta técnica deixa ela explícita, com risco de soar banal ao leitor atento e diminuir a intensidade do efeito desejado. 

Harari finaliza Sapiens com um questionamento que extrapola o contexto do livro e soa mais como propaganda sobre o próximo livro do que uma discussão científica. Apesar da seriedade das informações e o resumo destas no final como justificativa, houve apelo ao livro como marca a ser vendida da próxima obra já disponível, o Homo Deus. Pelo menos atingiu seu objetivo, pois estou interessado nesta continuação e até já comprei o livro. 

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