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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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O Auto da Maga Josefa (Fantasia no Nordeste)

O Nordeste do Brasil carrega uma cultura singular. Mesmo nas dificuldades locais, o povo de lá enfeita a vida com danças e músicas, alcança a felicidade enquanto o povo de outras regiões só encontra lamentos, apesar dos privilégios. O ambiente serve de palco ideal à manifestação dos aspectos mais fantásticos do país, onde a luta não tira o sorriso do povo; onde vampiros, lobisomens e chupa-cabras aterrorizam pessoas simples, mas também amedrontam diante do caçador e a filha do próprio Diabo.

O Auto da Maga Josefa conta as caçadas de monstros em estados nordestinos feitas pela protagonista do título e o caçador Toninho. Publicado em 2018 por Paola Siviero através da editora Dame Blanche, os mais diversos aspectos da cultura nordestina manifestam nesta aventura fantástica.

“O peso da peixeira nas mãos nem se compara ao que um caçador carrega nos ombros”

Toninho é filho de caçadores. Seguindo a tradição familiar, ele aprendeu as características das mais diversas criaturas que ameaçam a região com o objetivo de caçá-las, tarefa incumbida logo após provar estar preparado aos pais. Enfrentou e venceu várias criaturas nas caçadas, até sentir dificuldade em capturar e exorcizar certo demônio. Procurando por quem pudesse lhe ajudar, encontra uma mulher de capacidades mágicas, a Josefa.

Josefa é maga, filha do próprio Diabo e já condenada ao inferno quando morrer. Seria mais outra criatura alvo de Toninho, se ela não o convencesse a ajudá-lo naquela caçada, a primeira de muitas em que eles farão juntos ao longo desta novela.

“Além de vampira, é alcoólatra. Desastre em dobro pro sertão”

Cada capítulo corresponde a uma caçada feita pelos dois protagonistas, enquanto dedica a resolver os problemas correspondentes ao episódio, desenvolve a relação entre Toninho e Josefa, personagens tão diferentes entre si que só poderia dar certo. As divergências deles provocam momentos de humor, realizam atitudes quando a princípio jamais um deles faria, e o decorrer dos capítulos os dois caçadores revelam novas intenções.

Bastaria a caracterização excelente dos protagonistas, O Auto da Maga Josefa ainda enche as páginas com referências nordestinas por todo lugar onde a história acontece. Seja na luta de obter os recursos escassos da região, na representação da felicidade humilde perante as criaturas fantásticas, ou até em noites de forró; a autora mescla a aventura de fantasia com elementos únicos, misturados por apenas quem convive com a cultura brasileira.

A edição deixou a desejar na revisão do texto, com diversos erros de digitação presentes, uma ou outra palavra sobrando, e problemas na concordância verbal ou nominal — nesses casos na linguagem do narrador, há problema nenhum quando faz isso com intenção de representar a fala coloquial dos personagens.

O Auto da Maga Josefa surpreende pela representação da cultura nordestina numa aventura de fantasia. A leitura é divertida tanto pelo clima festivo refletido na ambientação, como pelas situações cômicas causadas pelos protagonistas.

“Todo caçador do nordeste que se preze gosta de tapioca!”

O Auto da Maga Josefa - capaAutora: Paola Siviero
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 250

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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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Morte em Luto (Não ao Suicídio)

Este foi o primeiro texto escrito por mim com a intenção de abordar a prevenção do suicídio. Decidi compartilhar no blog após revisar o conto.

Boa leitura!

Morte em Luto - árvore

O sol castigava o solo com sua intensidade impiedosa no sertão, restringindo a ligeira manifestação de umidade para um nível ainda mais ínfimo. Senhor Inocêncio perambulava com sua pá repousada em seu ombro depois de mais um sepultamento realizado, o quarto somente naquele dia.

O suor refletia o brilho da luz sobre a barba grisalha enquanto o humilde chapéu de palha protegia modestamente a cabeça ausente de qualquer fio de cabelo. No passado o tom de pele estava aquém do que seria considerado um homem de cor, mas o período de cinquenta anos de trabalho a céu aberto no mesmo local definiu uma nova tonalidade ao seu corpo.

Interrompeu seu percurso ao fitar uma criança sozinha sobre o balanço instalado num grosso galho do umbuzeiro. A menina apenas permanecia sentada no banco suspenso de madeira, com a cabeça abaixada e uma foice em sua mão direita.

Os trapos vestidos por ela eram de um pano espesso, recortado improvisadamente para adequar às dimensões da garotinha pequena. O único aspecto peculiar é a cor preta da vestimenta. Ninguém ousava vestir nada escuro sob um clima tão quente.

Seus pés estavam descalços, com algumas unhas quebradas como as de qualquer pessoa trabalhadora no campo, principalmente os desfavorecidos de se ter ao menos um par de calçados, sendo o caso dela.

Ao chegar mais perto dela, via-se lágrimas percorrendo em seu corpo até se juntar às demais numa pequena poça cheia delas no chão. Seu rosto estava imundo, como o resto de sua pele negra, e a mão com a qual mantinha sua foice empunhada estava cheia de calos. Uma visão triste como a de qualquer outra naquele lugar.

“Boa tarde, senhor Inocêncio.” Os olhos verdes maquiados com sombra borrada encaravam o coveiro se aproximando.

Opa, menina! Pode descansar o quanto tu quiser nessa balança. Parece que teve um dia difíci hoje.” O sorriso sincero do coveiro não foi capaz de animar a menininha, embora ela também tenha respondido com uma flexão nos lábios. “E como sabe meu nome?”

“Eu não estou descansando, Inocêncio. Estava esperando pelo senhor. Como pode ver eu empunho uma foice para ceifar o que deve ser colhido, mas não sou uma colhedora de verduras. Eu ceifo almas, e está na hora de eu pegar a sua, pois eu sou a Morte.”

Ficava evidente o semblante tenso na garota ao ter de explicar o seu trabalho para mais uma pessoa. Desviou seu olhar da vítima, a garganta ficou contraída ao terminar sua fala ao mesmo tempo em que exerceu mais força na mão que segurava a foice; da mesma forma que acontecia todas as outras vezes.

As feições de suas vítimas mudavam abruptamente ao anunciarem o seu fim, os lamentos se manifestavam de uma só vez no indivíduo, transformando-o em uma criatura desesperada por achar sua partida acontecer cedo demais.

Só que isso não ocorreu com o coveiro. Seu instrumento de trabalho foi ao chão, mas seu sorriso não desvaneceu, na verdade até abriu-se para apresentar os dentes amarelados entre alguns vãos dos que já não estavam presentes em sua boca.

Intão posso dizer que a gente é colega de trabalho? Por causa de tu eu tive bastante serviço essa semana.

“Sua reação me impressiona, Inocêncio. A maioria teme à mim quando eu me apresento a eles, até mesmo para quem convive com a morte durante toda a vida.”

É natural partir, minha fia. Não posso me deixar triste agora que descobri que a morte é tão bonita.

O elogio arrancou um sorriso verdadeiro na garota. Não se esperava um tratamento admirável numa ocasião tão desconfortante. No entanto até ela mereceria uma frase carinhosa nesse dia.

Tu sempre lamenta quando leva a vida do povo?” questionou Inocêncio.

“Desculpe, não costumo ser assim. É que hoje aconteceram muitas coisas ruins.

“Tive de ceifar muito mais do que o previsto”, continuou a garota. “O fim acontece em muitos lugares distantes, mas a maioria é premeditada. Só que hoje muitas pessoas antecederam sua morte cometendo suicídio. É uma atitude pensada muitas vezes de cabeça quente, que é executada praticamente na hora e sem algum planejamento.”

Um vento seco derrubou algumas das poucas folhas da árvore que caiu nos cabelos avermelhados da menina, não que alguns ramos secos a mais sobre o seu corpo a incomodasse.

“Isto aumenta a minha carga de trabalho pelo número de pessoas a mais sem nenhuma previsão, e eu não gosto de coletar almas desta forma. Quantas vezes eu já não testemunhei um indivíduo que teria seu grande sonho realizado caso não tivesse se matado um mês antes? Sem falar da tristeza dos familiares ao descobrirem o ocorrido, sendo que alguns eu ainda vi se lamentando pela sua perda quando eu os reencontrava para recolher sua alma.”

A maquiagem da criança tornou a ficar ainda mais borrada, com riscos negros rabiscados até a bochecha, e Inocêncio tirou o sorriso de seu rosto.

Intendo sua dor, menina bonita. Aqui nesse tempo todinho de trabalho tive poucos casos desse, mas era de partir o coração.

“Obrigada por me permitir desabafar, o senhor é muito gentil. Talvez o mais simpático que conheci por um bom tempo.” Seus soluços intermitentes ficaram mais fracos, e a voz menos esganiçada. “Estou até feliz em finalmente poder te livrar daquelas tosses cheias de sangue, do incômodo da urina que não consegue atravessar as pedras em seu rim, e de sua coluna comprometida que o senhor disfarça tão bem enquanto exerce seu ofício com tanto afinco.”

A garota desceu da balança, e um vento gelado chegou repentinamente às costas de Inocêncio, como se o sol tomasse distância somente dele naquele momento. A menina o fitava enquanto ele ficava de joelhos, finalmente cedendo após suas pernas tremerem desde o último enterro, uma fadiga a ser extinta em breve para o repouso eterno.

“Basta um toque meu em qualquer parte do seu corpo para tudo acabar”, explicou a mocinha. “Como deseja ter seu fim, Inocêncio?”

Se posso escolher o jeito, intão eu não exijo mais que um beijo na bochecha esquerda, igual a minha netinha Adria me dava todas as manhãs, até sepultar ela há três semanas atrás.

“Você realmente é um amor de pessoa, Inô. Logo reencontrará Adria bem ao seu lado.”

Conforme pedido, os lábios quentes estalaram na bochecha do coveiro o qual deu um último suspiro para se despedir da terra seca. Uma chama branca tornou-se presente na foice da menina, colhendo finalmente a alma do coveiro mais simpático dos cemitérios, cujo corpo estava repousado e protegido da luz sob os galhos da árvore sagrada do sertão.

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