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Um Banquete Para Deuses Mortos (Gleyzer Wendrew)

O poder traz o respeito gerado por medo. Raça submissa ao mais forte, a humanidade aceita as condições impostas ao atingir um objetivo maior, a sobrevivência, resiliente na miséria sob a constante e vã esperança. Já livre da mortalidade, os deuses ficam imunes ao medo, gananciosos quanto aos prazeres e ousados por desconhecer limites. Toda história literária impõe conflito, este capaz de transtornar a realidade dos personagens retratados e transformar a ponto provocar medo aos deuses.

Um Banquete Para Deuses Mortos explora o medo dos vampiros, autoproclamados deuses desta história, tendo Drácula como a divindade máxima e protagonista da tragédia. Publicado em 2019 por Gleyzer Wendrew através da editora Constelação, as cento e poucas páginas deste livro exploram a decadência de um dos seres místicos mais reconhecidos da ficção gótica.

“Um cheiro podre, nojento, quase humano”

A história parte do Drácula já abatido nos tempos atuais, sobrevivendo sob o sangue de animais. Evita contato humano, é motivo de piada a esse ser vivo antes inferior, submisso a ter a honra de conceder o próprio sangue aos deuses feito Drácula ao passado. Incapaz de reagir ou mesmo interagir com o mundo moderno, ele remói o passado, relembra o fim do seu Império de cinco mil anos sob a tragédia a qual ninguém da espécie/divindade conseguiu superar senão ele, condenado por sofrer pela eternidade.

“Mas não havia justiça no mundo dos homens”

Em seguida a história conta o passado, quando os demais personagens são apresentados. Os pontos de vistas alternam entre Enákia, o humano que virou vampiro entre os outros cem fracassados no ritual de Ascensão; a líder das Damas Negras Natara, amante da Vanda ― filha do Drácula; e de Nosferatu, o filho do deus supremo banido pelo próprio. Mesmo tendo diversas perspectivas, Drácula conquista o protagonismo não só por imposição do enredo, as qualidades do personagem repercutem em cada acontecimento: é o deus mais poderoso e também o mais velho, ele relembra cada ponto de seu passado eterno, consciente do vínculo ao acontecimento vigente, seja das leis criadas junto aos Alto Conselheiros ou qualquer outra decisão em vida.

Sem focar na ação, explora os dilemas e as preocupações dos deuses. Com Enákia o leitor pode conhecer os passos iniciais na vida de um vampiro, desde a transformação até o ápice das capacidades evoluídas no fim da transmutação. O gore escoa pelas palavras ao destacar a apreciação dos vampiros pelo sangue, e a descrição traz muitas maneiras de explorar a degustação escarlate entre as demais situações envolvidas, pelo sangue trazer tanto a vitalidade quanto a morte aos personagens. O texto dedica poucas frases à ambientação do Império de Drácula, a narrativa é concisa nesse sentido e nem deixa a desejar ao enredo; soaria negativo apenas aos leitores de fantasia com preferência aos detalhes de onde acontece a cena, já neste livro a ausência compensa ao oferecer a experiência de leitura direta, assertiva quanto ao objetivo da narração.

“Nosferatu preferiria arrancar o próprio coração a manchar sua honra com um ardil tão humano”

Vampiros são denominados deuses, seja proclamado pelos próprios ou reconhecidos pelos humanos. A história destaca as capacidades extraordinárias presentes em todo o legado vampiresco, só que este livro trata da situação oposta. Depois de tanto exaltar as capacidades, a história revela a situação de fraqueza, expõe os deuses diante da incompreensão, denuncia a vulnerabilidade, por fim amedronta os deuses.

Só há ressalva quanto a transmissão da informação ao longo do livro. Sendo de leitura curta, algumas informações foram postas com frequência sem necessidade, pois o leitor seria capaz de compreender sem o narrador relembrar. Não acontece de fato a repetição, nisso o autor teve o cuidado de evitar, na verdade a informação repercute de outras maneiras, isso seria útil ao leitor em narrativas longas ou complexas, já aqui incomoda.

Um Banquete Para Deuses Mortos é um terror inusitado. Em vez de explorar o medo dos humanos, tão recorrente nas histórias do gênero, este livro apela ao aterrorizar deuses. Comprova a superioridade das divindades, mostram a presunção delas desta invicção, e então explora a decadência sob argumentos críveis à realidade elaborada por esta história.

“Sim, deuses não bebiam água, igual aos humanos. Bebiam sangue.”

Um Banquete Para Deuses Mortos - capaAutor: Gleyzer Wendrew
Editora: Constelação
Ano de Publicação: 2019
Gênero: Fantasia Sombria / Terror
Quantidade de Páginas: 164

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S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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Sangue Ancestral (Crônicas da Terra de Ashar #1)

A ilha Kalós abriga diferentes espécies humanoides, onde convivem em constante desarmonia. As capacidades próprias são tão distintas quanto aos comportamentos estereotipados e persistidos pelos representantes políticos ou militares. Possuem as normas a manter ordem dentro do reinado ou império, essas mesmas aproveitadas para causar desordem e discordância pelo bem maior. Bem maior de si, daquele em busca de poder, ignorante a qualquer necessidade de quem estiver alheio a ambição. O ambiente está montado a possibilitar traições, disputas pessoais, enfim, uma aventura ao herdeiro a ter capacidades extraordinárias e conflitos de vitória improvável.

Sangue Ancestral nos apresenta esta ilha e as adversidades políticas enquanto conta a jornada de Hiten. Publicado em 2019 pela Fabi Drago Gimenes através da Constelação Editorial, é o primeiro volume da saga Crônicas da Terra de Ashar.

“Não se saca uma espada se não estiver disposto a morrer”

Hiten é herdeiro real de Kanaair, um dos reinos das Terras de Ashar, região dominada pelos ellemënts. O pai Hyshura é rei deste reino e imperador de toda a região, cujo domínio tem respaldo pelo Conselho composto por doze anciãos. Hiten é híbrido, filho de ellemënt e humana, algo fora da tradição e capaz de prejudicá-lo no decorrer da jornada. Ele viveu até a juventude no reino dos humanos, alheio das complicações políticas na terra do pai, até receber o convite indireto do próprio imperador.

O reino dos humanos fica restrito ao reino Krajiny. De capacidades limitadas perante as demais espécies, são reconhecidos pelo trabalho em lavoura e do comércio, apesar de possuir também força militar própria. O relacionamento de Hyshura com uma humana deu certa diplomacia entre Krajiny e Hyshura, nada a ponto de garantir a confiança entre as diversas personalidades.

E Lokimar é o reino dos salandris, seres guerreiros e de atitudes brutais. Escravizam humanos e os usam nos rituais de sacrifício. Os membros da realeza podem possuir a marca de uma lua na testa e a habilidade de manipular o ferro. Vivem se opondo aos ellemënts, Hyshura até tenta estabelecer a paz entre os reinos os unindo através do casamento entre seu herdeiro Hiten e a princesa Helin, o evento do início deste livro que culmina em sucessivas tragédias.

“— Leve seus homens para casa, comandante. Aqui só há morte e arrependimento”

Os três reinos principais — mais os de dohma, aliados dos ellemënts — compartilham mais além da ilha onde vivem. Aceitam a existência dos mesmos deuses, apesar de cada lugar favorecer determinada entidade. Fora essas distinções, as espécies têm algo em comum: ambições perseguidas sob meios ardilosos na tentativa de  conquistá-las. Os personagens principais são apresentados desde as características físicas, realçando assim as diferenças entre as espécies, mas incomoda ver a recorrência de elogios sobre a beleza deles, com tantas pessoas descritas dessa mesma maneira, compromete a variedade e o interesse do leitor em vislumbrar determinado personagem. Seria melhor fazer a descrição de forma imparcial e deixar a beleza subjetiva aos personagens e ao próprio leitor.

A caracterização das qualidades sofre da mesma questão. Muitos personagens são banhados em elogios a ponto de enfraquecer a veridicidade dos conflitos, esses movidos a traições e conspirações de outros personagens. Assim perde a oportunidade de explorar as fraquezas particulares desses personagens ou até fazê-los se aprimorar a partir delas — ou descobrirem a falha tarde demais e sofrer a consequência. Mesmo tendo a quantidade de páginas regular para uma obra de fantasia, existem muitos conflitos desencadeados ao longo dos capítulos, poderiam ter maior impacto caso acontecessem a partir de quem sofre, pena a maioria vir de fatores externos porque os personagens carecem de defeitos a serem explorados. O protagonista até tem um defeito citado, porém por vezes foi contraditório quando outro personagem demonstrou esta mesma característica de forma mais intensa diante dele.

“— Meu dever é dar-lhes alegria e paz e, em vez disso, dou-lhes guerra e destruição”

Outra perda de força no conflito — sem dar spoilers — foi a acusação levada em consideração a partir de certa prova limitada à afirmação de uma testemunha. A aceitação da denúncia foi espontânea, nada convincente. Faltou elaborar melhor este conflito, trabalhar em segundas intenções dos avaliadores, alguma aliança obscura ou outra situação capaz de mostrar o motivo daquele julgamento da testemunha ser aceito em tão poucos parágrafos e culminar na crise presente no capítulo seguinte. Já outros momentos de tensão foram bem trabalhados, dentre eles o do protagonista perder uma disputa pela aparente desconfiança de outro personagem, quando o mesmo apresenta atitudes contraditórias frente ao que o leitor acompanha e os demais personagens não tiveram como perceber.

Sangue Ancestral traz o mundo original elaborado pela autora com caracterizações interessantes e úteis a construção das intrigas e viradas interessantes já neste primeiro volume. Poderia aproveitar muito mais do potencial da história se explorasse defeitos de personagens ao provocar os conflitos, e estes também precisam de maior desenvolvimento, serem menos abruptos e constituídos de mais argumentos favoráveis à sua existência.

“A ira apenas nos torna vulneráveis e propensos ao erro”

Sangue Ancestral - capaAutora: Fabi Drago Gimenes
Ano de Publicação/Edição: 2019
Editora: Constelação Editorial
Série: Crônicas da Terra de Ashar #1
Quantidade de Páginas: 230

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Ninho de Cobras (Uma História de Maceió)

O texto literário contém narrativa desenhada com palavras combinadas através do estilo pretendido pelo autor. Livros considerados clássicos da literatura brasileira podem entregar histórias ímpares com a linguagem na mesma medida, transformando a língua portuguesa em arte, inovam na estrutura e desafiam o leitor a ter novas experiências sob o conforto da leitura. Acima de tudo, esta ficção ousa transgredir o limite de contar uma história, pois o autor conta também sobre a vida em si.

Ninho de Cobras é um romance experimental de Lêdo Ivo. Publicado pela primeira vez em 1973 e com nova edição pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano de 2015, o leitor contemporâneo é levado de volta a Maceió no tempo quando Getúlio Vargas era presidente, numa história iniciada pela aventura da raposa nas ruas da capital alagoana.

“Uma raposa em pleno coração da cidade! E ainda dizem que Maceió é um lugar civilizado”

Tudo começa pela raposa. Protagonista do primeiro capítulo, o animal passeia pelas ruas de Maceió enquanto o narrador oferece detalhes sobre onde ela passa, tomando liberdade de contar as histórias daquela parte da capital onde o animal põe as patas, e então retoma a aventura da raposa. Usa do discurso indireto livre ao trazer personalidade a este singular personagem, o de ser destemido, convicto da morte nunca a alcançar mesmo fora de seu habitat, o que, ao cruzar o caminho com dois sujeitos armados com pedaços de madeira, prova o equívoco do pobre animal. Nos dias — e capítulos — seguintes, a raposa vira a notícia mais comentada da capital alagoana, acompanhada a do suicídio de Alexandre Viana sob a suspeita de ser na verdade um assassinato encomendado pelo Sindicato da Morte.

“E as horas passaram, esponjosas, sugando o que, no tempo, era fluente como as palavras e a água”

A introdução do romance é única, feita a partir do personagem inumano: a raposa. Esta estratégia chama a atenção e antecipa a proposta da narrativa repetida inclusive nos demais personagens focados nos próximos capítulos, o de o narrador interromper a história do personagem e contar a história de Maceió. A capital do estado — por vezes até o próprio estado — atua como o personagem central deste romance a partir da intervenção do narrador, os contextos históricos se misturam à narrativa e entregam algo único durante a leitura.

Tal proposta exige maior atenção ao leitor. A mudança de foco é feita sem aviso prévio, um parágrafo conta sobre certo personagem em determinado ambiente, e em seguida este ambiente ganha história narrada pelo autor. Nem quando foca na pessoa facilita, pelas escolhas ao identificar o personagem, citando a característica dele em vez de lhe atribuir nome. Um coadjuvante em determinado capítulo pode ter o trecho protagonizado por ele em outro momento, contando a partir das informações já fornecidas, que a princípio eram secundárias.

Ninho de Cobras é um daqueles livros em que torna o enredo secundário em prol de oferecer a experiência singular de leitura, misturando contexto e narrativa, personagem e ambiente.

“Onde ele estava não havia Deus — era a jaula fedorenta dos homens”

Ninho de Cobras - capaAutor: Lêdo Ivo
Ano de Publicação Original: 1973
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Edição: 2015
Quantidade de Páginas: 270

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O Auto da Maga Josefa (Fantasia no Nordeste)

O Nordeste do Brasil carrega uma cultura singular. Mesmo nas dificuldades locais, o povo de lá enfeita a vida com danças e músicas, alcança a felicidade enquanto o povo de outras regiões só encontra lamentos, apesar dos privilégios. O ambiente serve de palco ideal à manifestação dos aspectos mais fantásticos do país, onde a luta não tira o sorriso do povo; onde vampiros, lobisomens e chupa-cabras aterrorizam pessoas simples, mas também amedrontam diante do caçador e a filha do próprio Diabo.

O Auto da Maga Josefa conta as caçadas de monstros em estados nordestinos feitas pela protagonista do título e o caçador Toninho. Publicado em 2018 por Paola Siviero através da editora Dame Blanche, os mais diversos aspectos da cultura nordestina manifestam nesta aventura fantástica.

“O peso da peixeira nas mãos nem se compara ao que um caçador carrega nos ombros”

Toninho é filho de caçadores. Seguindo a tradição familiar, ele aprendeu as características das mais diversas criaturas que ameaçam a região com o objetivo de caçá-las, tarefa incumbida logo após provar estar preparado aos pais. Enfrentou e venceu várias criaturas nas caçadas, até sentir dificuldade em capturar e exorcizar certo demônio. Procurando por quem pudesse lhe ajudar, encontra uma mulher de capacidades mágicas, a Josefa.

Josefa é maga, filha do próprio Diabo e já condenada ao inferno quando morrer. Seria mais outra criatura alvo de Toninho, se ela não o convencesse a ajudá-lo naquela caçada, a primeira de muitas em que eles farão juntos ao longo desta novela.

“Além de vampira, é alcoólatra. Desastre em dobro pro sertão”

Cada capítulo corresponde a uma caçada feita pelos dois protagonistas, enquanto dedica a resolver os problemas correspondentes ao episódio, desenvolve a relação entre Toninho e Josefa, personagens tão diferentes entre si que só poderia dar certo. As divergências deles provocam momentos de humor, realizam atitudes quando a princípio jamais um deles faria, e o decorrer dos capítulos os dois caçadores revelam novas intenções.

Bastaria a caracterização excelente dos protagonistas, O Auto da Maga Josefa ainda enche as páginas com referências nordestinas por todo lugar onde a história acontece. Seja na luta de obter os recursos escassos da região, na representação da felicidade humilde perante as criaturas fantásticas, ou até em noites de forró; a autora mescla a aventura de fantasia com elementos únicos, misturados por apenas quem convive com a cultura brasileira.

A edição deixou a desejar na revisão do texto, com diversos erros de digitação presentes, uma ou outra palavra sobrando, e problemas na concordância verbal ou nominal — nesses casos na linguagem do narrador, há problema nenhum quando faz isso com intenção de representar a fala coloquial dos personagens.

O Auto da Maga Josefa surpreende pela representação da cultura nordestina numa aventura de fantasia. A leitura é divertida tanto pelo clima festivo refletido na ambientação, como pelas situações cômicas causadas pelos protagonistas.

“Todo caçador do nordeste que se preze gosta de tapioca!”

O Auto da Maga Josefa - capaAutora: Paola Siviero
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 250

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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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Lobisomem Existe! (Livro Reportagem)

Já realizei pesquisa sobre as características do lobisomem brasileiro e compartilhei neste blog. Enquanto foi divertido conhecer as diferenças do mito tão conhecido na versão internacional, desanimou ver tão pouca fonte bibliográfica sobre os nossos, nem mesmo em livros de ficção. Acredito ser mais pela falta de acessibilidade a esses trabalhos do que a inexistência deles, e com o tempo encontrarei novas referência interessantes, como a da obra analisada neste post.

Lobisomem Existe! é um livro-reportagem com entrevistas dos cidadãos de Joanópolis, muitos afirmando da existência do lobisomem. Publicado em 2001 com nova edição em 2013 sob publicação independente dos autores Paiva Junior e Silvana Godoy, o livro transcreve a conversa dos moradores sobre como conheceram as bestas presentes na cidade.

“Guardávamos um ceticismo que estava prestes a ser derrubado”

Joanópolis é reconhecida como a Capital do Lobisomem. No princípio os cidadãos locais repudiaram o reconhecimento, pois parecia perpetuar a imagem de caipiras ou moradores ultrapassados. Apenas alguns viram a oportunidade de promover a cidade através desta fama, e com o tempo conseguiram atrair interesses por meio deste folclore. O lobisomem passou a ficar amigo dos moradores, representado com aspectos inofensivos de modo a até crianças gostarem da criatura sem sentir medo. Os cidadãos mais antigos e moradores de bairros periféricos da cidade ainda guardam na memória as histórias de quando conheceram o lobisomem. A dupla de entrevistadores foram atrás destas pessoas e pediram a eles relatarem esses eventos com a intenção de transcrever e compartilhar essas experiências peculiares em livro.

“Era mês de agosto, mês do mistério, mês de cachorro-louco e mês do folclore, enfim, mês do lobisomem”

Este livro difere dos outros resenhados pelo blog, pois apesar de tratar sobre criaturas fantásticas, tem nada de ficção. A proposta é registrar os relatos dos cidadãos que conheceram lobisomens. A escrita dos capítulos não é de narrativa, pois descrevem as ações dos autores até encontrar a pessoa disposta a compartilhar sua história relacionada ao mito. A transcrição das falas emulam o jeito de cada entrevistado contar a história, por vezes carregado de sotaque e formas próprias de realizar a narrativa. Os autores também opinaram sobre cada pessoa entrevistada e desabafaram sobre os momentos cômicos tidos com ela.

Muitas características dos relatos batem com a pesquisa feita a partir das obras de Luís da Câmara Cascudo e as demais relacionadas as dele, por outro lado há certas diferenças nos licantropos de Joanópolis, situação comum de acontecer conforme a região. O mais interessante é ver a relação dos moradores com o lobisomem, longe de sentir medo ou ímpeto em feri-lo; o povo de lá reconhece haver um humano por trás daquela fera, e respeita o cumprimento de seu fadário. Continua a respeitar mesmo ao saber a identidade do lobisomem, até realizaram o casamento entre um deles com a mula-sem-cabeça!

A edição peca na diagramação, com determinadas imagens pequenas demais para visualizar e tamanhos da fonte alternados no mesmo parágrafo em determinadas partes. Nada a atrapalhar a leitura, apenas causa pequenos desconfortos ao conferir o conteúdo com informações valiosas ou mesmo divertidas.

Lobisomem Existe! é uma ótima forma de retratar a cultura local através da experiência com o ser folclórico. Adoraria ver mais iniciativas iguais a esta, dedicada a outras regiões e mitos distintos. Todo o país tem muito a ganhar conhecendo a personalidade da outra região de nosso território.

“O lobisomem é um mito universal, mas com características locais”

Lobisomem Existe! - capaAutores: Paiva Junior e Silvana Godoy
Editora: publicação independente
Ano da publicação original: 2001
Edição: 2013
Quantidade de páginas: 145

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Lobo de Rua (Lobisomem nas Ruas de São Paulo)

Nem sempre a fantasia é escapista. Criaturas mitológicas surgem através das abstrações realizadas sob aspectos reais. Além da concepção, a ficção exercita a reflexão e extrapola as abstrações nos mais diversos ambientes, desenvolvem novos argumentos ao ponto exposto pela autora, usa o místico para denunciar a realidade enquanto prepara o terreno propenso a elaborar novas contextualizações.

Lobo de Rua usa conceitos da licantropia sobre a realidade de um morador de rua na capital de São Paulo. Publicado em 2016 por Jana P. Bianchi pela editora Dame Blanche, a novela traz conceitos da história ainda em fase de elaboração pela autora: a Galeria Creta.

“Era o monstro quem estava no comando daquele corpo, e ele só queria comer”

Raul vive nas ruas de São Paulo, é apenas outro rapaz perdido, de mãe desconhecida e invisível à sociedade. Ele sofre a transformação sob a lua cheia, confuso quanto ao ocorrido. Atrai a atenção de Tito, imigrante italiano da mesma espécie de Raul. Adulto bastante experiente, Tito testemunhou outras pessoas no início da transformação antes de Raul, e decide ajudar o rapaz a compreender a maldição contraída e despertada a cada noite de lua cheia, a maldição do lobisomem.

“Perto da lua cheia, o cheiro é simplesmente enlouquecedor”

A novela apresenta as características da licantropia conceituadas pela autora ao longo da história. Todo capítulo começa com trechos do livro Novus Codex Versiopelius, resultado de pesquisa acadêmica pelo personagem Caetano Estrada. Tito explica os outros conceitos enquanto exerce o papel de mentor a Raul, tornando um dos capítulos iniciais densos por exagerar na dosagem das informações. Os capítulos posteriores equilibram os conceitos com a narrativa, põem certas características apresentadas à prova, situa o protagonista ao evento e demonstra as capacidades sobrenaturais dele, bem como as consequências de possuí-las. Somando as condições anteriores da maldição de Raul, as novidades sobrenaturais agravam a realidade vivida por ele.

O mentor encontra dilemas ao acompanhar as dificuldades de Raul, viu tantos carregarem a maldição de lobisomem, e de todos eles o protagonista desta novela sofre problemas únicos além da licantropia. Tito tem muita história, apesar de pouca dela ser trazida nesta novela, insuficiente para justificar a atitude feita no final da história. Este desfecho abrupto surpreende pois foi feito sem levantar muitos argumentos, precisaria elaborar mais situações a Raul, demonstrar outros exemplos da angústia do protagonista enquanto aproveitaria a trazer detalhes da vida de Tito; trazendo assim maior convencimento do ato trágico. Tal proposta é cruel, causaria mais sofrimento ao Raul e por isso até soaria sádica, só a faço porque ficaria condizente com a proposta da novela.

Lobo de Rua traz conceitos conhecidos de lobisomem e elabora outros aspectos relacionados à realidade retratada na novela. Apesar de introduzir ao universo ficcional dos trabalhos ainda por vir, trata de enredo fechado — com início, meio e fim — à história de Raul sob a tutela de Tito, com particularidades capazes de chocar mesmo os acostumados com histórias de lobisomem.

“Como explicar o absurdo da licantropia para alguém cuja vida já carecia de sentido?”

Lobo de Rua - capaAutora: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2016
Quantidade de Páginas: 122

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Adágio (HQ Brasileira de Ficção Científica)

A tecnologia traz consigo novos meios de entretenimento, inspira outras maneiras de as pessoas interagiram entre si. Isso acontece desde os avanços da internet, com avatares representando a pessoa nos perfis sociais. Começou por meio de textos, logo evoluiu a postagens mais elaboradas e com imagens, vídeos e transmissões ao vivo de palestras ou jogatinas, e na realidade proposta da vez transmite até o sonho da pessoa! Sem mais custos de produção ou efeitos especiais, os usuários apenas assistem as imagens criadas durante o sono de alguém. Curte, comenta e compartilha as melhores transmissões, e assim torna o sonho público, vira entretenimento, causa obsessão em ter mais seguidores, ser mais famoso, alcançar o topo do ranking; pouco importa as consequências, as amizades e saúde perdidas. Ainda bem que estou falando de ficção, não é verdade?

Adágio é uma HQ futurista onde existe essa rede social baseada no streaming de sonhos. Publicado em 2018 pela editora Avec sob o roteiro de Felipe Cagno, ilustrado por Sara Prado e Brão e colorido pela Natália Marques, a história extrapola os males já conhecidos pela interação cibernética na vida real nesta história onde transmitem os sonhos pela internet.

“Você sonha, a gente compartilha”

Kaya é amiga de Penelope, as duas estudam na mesma faculdade. Pen trabalha como estagiária na divulgação de patches — pacotes — de sonhos os quais os usuários podem baixar e vivenciar o ambiente produzido naquele sonho e então compartilhá-los na rede social Adágio. Kaya inveja a amiga por viver tais sonhos e com isso ter popularidade, enquanto ela nunca consegue ter sonhos lúcidos, apenas pesadelos.

Ao frequentar uma festa com os demais colegas, Kaya é apresentada ao pó-de-fada, droga que potencializa o sono ao manter o cérebro do usuário ativo. Ela experimenta e vivencia os pesadelos como nunca antes. Resultado: a transmissão deste sonho atrai grande público da internet e torna Kaya famosa da noite para o dia. Feliz com a conquista, tentará permanecer em destaque na rede Adágio, e com isso trará consequências.

“Contar o sonho não é a mesma coisa que mostrá-lo”

A HQ apresenta a situação dos relacionamentos de Kaya e as mudanças nesses conforme a popularidade de seus pesadelos. Vemos alguns aspectos futuristas à parte, como as roupas distintas dos jovens, bem como conceitos de carros e moradias próprias daquela realidade; tudo sendo pano de fundo ao contexto principal: a interação na rede social. Conflitos pessoais acontecem pela falta de privacidade, considera o contato bloqueado na rede social uma ofensa, enxerga o anonimato como fracasso e ficam cegos quanto as consequências de permanecer em destaque nas condições impostas, pois tudo é espontâneo.

A arte produzida em aquarela realça os traços futuristas e aproveita os sonhos e pesadelos dispostos na HQ para representar elementos próprios da fantasia e terror. As combinações diferentes de cores ilustram as diversas sensações da protagonista no decorrer da HQ. Falha um pouco no quesito terror, pois enquanto os quadros demonstram o medo no olhar da protagonista, provoca nenhum sentimento semelhante ao leitor, apenas passa a informação do transtorno de Kaya.

Adágio discute problemas atuais através da interação digital nesta realidade onde nem os sonhos escapam da privacidade. Esta novidade atrai os jovens obcecados por diversão e sensações inéditas, enquanto levam outros a fazer de tudo para proporcionar tal experiência aos seguidores e assim conquistar a fama quando há questões relevantes próximas a eles, no mundo real.

“Sonhos são tão íntimos, pessoais, reveladores. Você postaria o seu sonho online? Teria coragem?”

Adágio - capaRoteiro: Felipe Cagno
Desenho: Sara Prado e Bräo
Cores: Natália Marques
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 112

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A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Com tantas obras internacionais à disposição hoje, os leitores acostumaram com grandes escritos inspirados em originais de Bram Stoker ou nas investigações feitas por Sherlock Holmes. Mal sabem a riqueza proporcionada pela literatura brasileira e seus personagens distintos canonizados por mérito e reconhecimento de tais autores. Já o autor deste romance reconhece o valor de nossa cultura, e com isso homenageia alguns dos seres criados por escritores consagrados, levando-os ao Brasil transformado em ambiente steampunk.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison estreia a série brasiliana steampunk. Publicado em 2014 por Enéias Tavares através da editora Casa da Palavra, o romance traz relatos dos personagens envolvidos nesta trama ambientada por tecnologias de vapor.

“Um século tão extraordinário em invenções e horrores”

De narrativa epistolar, muitos dos personagens possuem a chance de expor o próprio ponto de vista conforme compartilham a sua parte envolvida no enredo. Os registros feitos em diários, noitários, cartas e gravações colaboram a mostrar o delito deste romance: o assassinato de oito vítimas de alta casta social, tudo feito pelas mãos do Dr. Louison entre a primeira e o início da segunda década do século XX.

Médico reconhecido pelos bons e enriquecidos cidadãos, a notícia de ele ser o responsável pela morte desses nobres civis choca a comunidade porto-alegrense, atrai atenção inclusive do jornal carioca, o qual envia o jornalista Isaías Caminha a reunir os fatos através de relatos e entrevistas. Isaías relata das novidades encontradas em Porto Alegre enquanto conhece algumas personalidades da sociedade, como a senhorita Vitória Acauã e o alienista Simão Bacamarte, dono do instituto psiquiátrico onde o próprio Dr. Louison é contido até o dia da execução pelos crimes cometidos: a forca. Isaías tem a oportunidade de reunir a versão de Louison aos fatos coletados, conversa com ele um dia antes da condenação, um dia antes da notícia do Dr. fugir das instalações do alienista.

“Ao escutar a mensagem ‘etnia desconhecida’, questionei-me sobre o absurdo daquela frase num país como o Brasil”

Toda a escrita é apresentada conforme a época, desde as grafias ― como o uso do “ph” em vez da consoante “f” ―, palavras características e a formalidade correspondente a autoria do personagem, este também elaborado de acordo com o original da obra clássica homenageada, salvo as criações originais de Enéias. A escrita demanda maior atenção aos leitores acostumados a linguagem dos romances recentes, e recompensa tal esforço por imergir todo o ambiente a partir desta construção de palavras.

Sem seguir ordem cronológica ― às vezes ignora até a lógica ―, os registros avançam e regressam no tempo, contam fragmentos dos acontecimentos com lacunas restritas ao convívio de outro personagem a preencher em registro posterior. Mal existe progressão no enredo, pois a intenção deste romance é outra, a de discutir o atentado já realizado pelo Louison e montar o quebra-cabeças da investigação motivada por determinados personagens, isso tudo enquanto cada pessoa compartilha da própria experiência e intimidades nos registros dispostos em todo o romance.

A ambientação steampunk é elemento secundário no meio de tamanha dedicação a reconstruir personagens consagrados neste ambiente. Presentes em momentos importantes da narrativa e até interfere na história de certas pessoas, os mecanismos movidos à vapor por vezes desaparecem dos relatos reunidos, deixa certos textos com características de romances de época em vez do gênero proposto. Também chama a atenção de um evento importante como a promulgação da Lei Dourada que garante alforria aos escravos no Brasil dez anos antes do acontecido neste romance; fica confuso sobre esta diferença ser proposital a encaixar no enredo ou foi equívoco do autor.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison propõe homenagear pessoas fictícias da literatura brasileira e adequar a narrativa correspondente na época. O livro cumpre esta promessa e proporciona ao leitor moderno o vislumbre da nossa linguagem um século antes de evoluir do modo como a conhecemos. Ainda elabora o enredo de forma singular, deixa a narrativa encantar nos detalhes vivenciados pelas pessoas do romance enquanto descobrimos os detalhes do atentado feito por Louison e as consequências.

“Agora, deves deixar para trás a criança que acusa e abraçar o homem que compreende”

A Lição de Anatomia do Temível Dr Louison - capaAutor: Enéias Tavares
Editora: Casa da Palavra
Ano de publicação: 2014
Quantidade de Páginas: 320

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