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20000 Léguas Submarinas (Pé da Letra)

Já falei de livros com histórias sobre o futuro como alerta à sociedade vivida no tempo da obra escrita. Hoje o exemplo é diferente, trata de uma tecnologia prevista no romance, exaltada como proporcionadora de encontrar maravilhas inalcançáveis antes mesmo de ela existir! Este livro nos leva aos tempos mais simples, e demonstra a engenhosidade de algo comum hoje, mas no passado abriu caminhos a explorar no fundo do oceano.

É uma aventura a percorrer 20000 Léguas Submarinas. Publicado pela primeira vez em 1870 por Júlio Verne e com edição de 2018 da editora Pé da Letra e traduzido pela Lívia Bono, conta a história do naturalista Aronnax e seus amigos enclausurados na tecnologia a frente do tempo, o submarino Náutilus. Esta edição entrega a versão compacta e simplificada da obra original, informação exposta em nenhuma parte do livro; por isso fique atento ao comprá-la.

“Irromperam as discussões intermináveis entres os crentes e os descrentes”

O livro começa com o compilado de relatos do elemento presente em vários lugares do oceano visto por diferentes embarcações. Incapaz de conhecer os detalhes da entidade misteriosa, suas características perturbam dúvidas tanto dos acadêmicos como dos religiosos. Aronnax é naturalista nascido na França, ele acompanha os eventos desta ameaça marítima e obtém a oportunidade de confrontá-la sobre a embarcação Abraham Lincoln com a ajuda do assistente Conseil e do arpoador canadense Ned Land.

Prestes a desistir da expedição, a embarcação encontra o elemento submerso. É capaz de produzir luz por conta própria, o corpo é resistente contra o arpão de Ned Land e a força é brutal, colide com o navio e arranca Aronnax da embarcação. Suspenso no mar com o fiel assistente, o navio está distante, apesar de inteiro. Os dois se encontram com Ned Land sobre o corpo do elemento ameaçador, cujo revestimento é de metal. Entram pela escotilha e são guiados a uma cabine pelos tripulantes daquela embarcação submarina, e ali eles conhecem Nemo, o Capitão e responsável por criar esta tecnologia que despertou tamanha imaginação dos navegantes em vários países. Descobrindo o submarino de Nemo, ele confina Aronnax e os amigos a viver junto com ele pelo resto da vida, onde há a oportunidade de conhecer tanto a engenharia do submarino, como as maravilhas do fundo do mar até então inacessíveis.

“Era um fenômeno ainda mais assombroso, por ser simplesmente uma construção humana”

Todo narrado pelo próprio Aronnax, a história reflete o olhar de acadêmico ao vislumbrar as belezas nunca vistas por ele antes, bem como as disponíveis apenas pelo levantamento de estudos e teorias da época. Ler um livro escrito no século XIX com o conhecimento científico da época nos tempos atuais traz riquezas interessantes quanto à visão acadêmica naquele tempo. É possível ver conhecimentos hoje já defasados, bem como os que serviram de princípio aos conceitos modernos — como o desenvolvimento da eletricidade — e a maneira de como as pessoas lidavam com animais em extinção, esta com discussões entre os personagens capazes de enriquecer ainda mais o assunto.

Pelo período da publicação, é de esperar passagens descritivas e parágrafos longos que desenham cada detalhe do quadro a ser registrado naquela cena; escrita característica da época. A linguagem técnica se mistura com a literária nas nuances marítimas focadas neste romance, oferece a oportunidade de conhecer tais termos enquanto mergulhamos — desculpe o trocadilho — na aventura submarina. Aronnax vislumbra lugares diferentes do globo, relata as condições climáticas do local e a diversidade dos seres aquáticos à vista, narração tão recorrente a ponto de cansar a leitura, desvia do foco da trama formada ao longo de todo o livro: o conflito entre a liberdade e o deslumbramento dessas maravilhas.

Além dos aspectos da ficção científica — uma das primeiras obras do gênero por sinal —, o mistério ronda pelo submarino de nome Náutilus, tudo centrado no Capitão Nemo. Sem forçar questionamentos ao leitor, as motivações do responsável pela temível entidade submarina ficam em segundo plano, e mesmo assim suficientes à compreensão quanto ao comportamento deste personagem singular que incita aos personagens principais tomarem a iniciativa, apesar da intenção de Nemo ser a oposta, assim sucedendo os conflitos até o desfecho da história.

20000 Léguas Submarinas traz o encanto tecnológico a proporcionar o vislumbramento de vida jamais acessível sem a criação da engenhoca ficcional a tornar real tempos após a publicação da história. A escrita comum de uma obra do século XIX proporciona a leitura lenta, convida o leitor a compor cada peça da cena e então elabora a trama a seguir pela história com tons de mistério nesta aventura interessante.

“A terra não precisa de novos continentes, e sim de novos homens”

20000 Léguas Submarinas - capaAutor: Júlio Verne
Editora: Pé da Letra
Ano de Publicação Original: 1870
Edição: 2018
Tradutora: Lívia Bono
Quantidade de Páginas: 295

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Saluh

O conhecimento dos ancestrais se perpetuam por inúmeras gerações desde quando o ser humano soube deixar registros. Transcreveram sua abstração do mundo, e essas se transmitiram durante séculos, alguns por milênios! 

O ensinamento é sagrado. Por outro lado, os escritos revelam apenas o desejado pelos autores. Podem criar uma história “original” sobre a verdadeira, e levar os seus ensinamentos como se fossem de alguém com maior importância, atribui existência ao inexistente, distorce as afirmações de outros, e com isso traz um conceito simplificado, mas palpável, a uma enorme parcela da população. 

Essa é a discussão levantada por Saluh enquanto traz os acontecimentos reais desde a origem da humanidade. Publicado em 2015 pela Luna Editora, é o segundo volume sobre as histórias do brasileiro Fernando Eastman, arqueólogo que descobrirá a verdadeira história das religiões de Abraão em sua viagem ao Egito. 

Saluh - capa

Cesar Luis é o editor e proprietário da Luna Editora. Formado em direito, já trabalhou como músico e tocou pela Europa, mas agora se dedica à escrita e edição de romances. 

Somente grandes seres deixam grandes histórias! 

Fernando Eastman viaja ao Egito após seu pai avisar de um presente destinado a ele: um livro antigo na livraria conhecida por muitos poucos. Tal livro traz perigo ao seu portador, por conter informações que mesmo sendo poucos capazes de assimilar, desconstrói muitos dos ensinamentos perpetuados por anos na humanidade. O item é alvo de conspiradores motivados a pegá-lo antes de Fernando, sem remorso de eliminar vidas no caminho. 

Durante os ataques dos conspiradores, Eastman encontra outra brasileira de nome Laura e depois Saluh, o autor do livro. Este homem se compromete a ajudar o protagonista e transmite o conhecimento que possui, enquanto revela aos poucos os mistérios sobre si próprio. 

Trocar seus medos por dinheiro e leitura fácil é perda de tempo 

Saluh é um personagem peculiar. Dono de muita sabedoria a partir de sua experiência extraordinária a qual ele compartilha durante a história. Os capítulos se alternam entre o presente e o passado deste sábio, demonstrando a influência que teve a certa figura histórica e religiosa. 

Suas palavras de sabedoria são transmitidas de forma mista: simples, mas ainda conforme o modo de falar dos anciões. São falas extensas e bastante abrangentes, mas ainda eloquente com o ouvinte e o próprio leitor. Saluh é uma fonte rica de frases memoráveis capazes de trazer reflexão. Já Fernando e Laura falam de forma objetiva, limitados ao próprio conhecimento, e revelam descontrole quando contrariados.  

O contraste entre os personagens é interessante, e eu preferiria ver mais disso, pois muito da história se passa sob a perspectiva de Saluh, e assim torna a leitura mais densa. 

Saluh revela muito de seu conhecimento em pouco tempo passado com os dois jovens e nas poucas centenas de páginas da história. O tempo presente do livro é usado para introduzir a trama, mostrar o lado do seguidor da conspiração, e trazer o desfecho de Saluh e sobre o conteúdo do livro destinado a Fernando. 

Usai o pouco tempo que tens… antes que o tempo use a ti 

O extraordinário é apresentado como algo crível, mas com reações exacerbadas àqueles incapazes de aceitar. As conversas com o escritor convidam a refletir o quanto a linguagem pode ser manipulável por aquele quem escreve. A mensagem é importante e reflete na vida real, pois precisamos consultar a informação com fontes diferentes se não quisermos ser enganados.

[spoiler] 

O desfecho sobre o livro destinado a Fernando me decepcionou. Foi apresentado como algo bastante perigoso a quem possuísse devido ao seu conteúdo, para no fim revelar que toda a informação já está pública na internet. Saluh alega que poucos entenderiam o conteúdo e sequer o achariam interessante, então porque comprometer uma livraria remota do Egito a proteger um livro já acessível a qualquer um? 

Talvez eu deixei escapar alguma justificativa no livro, embora essa conclusão tenha se passado muito rápido em comparação às outras informações. 

[fim do spoiler] 

Saluh é um livro de reflexão antes de mistério. A contextualização no presente oferece a base para a discussão sobre os escritos sagrados considerados por grande parte da população mundial e que sofrem adaptações conforme a cultura e religião. 

Uma Encomenda para um Novo Mundo

O que será possível (e aceitável) fazer no desenvolvimento de um livro? Trabalhar numa ficção a partir de conhecimentos reais? Entregar o mundo utópico, mesmo a qualquer custo? Transformar uma possibilidade em inúmeras outras? 

Não há limites quando se é bem desenvolvido. Tais obras tiram o silêncio do leitor, o provoca a ponto de xingar o personagem por suas atitudes e depois se perguntar: eu faria diferente? 

Uma Encomenda para um Novo Mundo foi publicado em 2015 na plataforma Wattpad, disponível também na Amazon. É um livro de mistério com temática futurística criada a partir dos conhecimentos científicos vigentes. 

Obra de Deco Sampaio, engenheiro florestal e membro da ONG Sociedade Chauá, além de trabalhar na arte de forma independente através de seus textos e trabalhos musicais. 

A vida é uma estrada que não se enxerga o fim e é para lá que eu vou 

Trata da história de Thomas Waldmann. Após despertar do coma de 20 anos, no ano de 2333, o protagonista se vê com amnésia, e compartilha do que ele descobre da própria história. Narra suas memórias da mesma forma que vêm em sua mente. 

Os capítulos são intercalados entre a sua vida em 2333 e as memórias restauradas, sendo essas desde o século XX. Cada parte da história começa com o local e ano do acontecimento, seguido de uma epígrafe relacionada ao capítulo. 

É um quebra-cabeça cujas peças surgem no decorrer da trama. Enquanto o enigma é montado, descobre-se as tecnologias e aspectos da sociedade no ano de 2333. O Brasil apresentado enche os olhos de esperança, a realidade totalmente distinta da atual. 

Parece uma utopia, mas não se engane: acumule mais peças de memória de Thomas e verá que nada acontece de maneira fácil. O protagonista questionará das próprias ações do passado para trazer as mudanças no mundo.

Não sendo o bastante, a revelação dos mistérios trará mais perguntas aos leitores. Vários “E Se?” surgirão, cada um com oportunidade de criar uma nova história.

A composição da história não se limita a ordem das memórias. O tamanho dos capítulos reflete na velocidade de como Thomas enxerga a memória. A extensão de parágrafos também é proposital na obra, embora eu acredite que esses podem prejudicar um pouco a experiência de leitura.

Me senti como um besouro de costas para o chão 

Muito do conteúdo apresentado é focado ao público maduro, quanto nos conceitos mais complexos de tecnologia e política como na convivência entre os personagens. As ações são planejadas, longes de serem simples reações de alguém desgostoso com o que via quando jovem.

Quanto mais se avança na história, mais teme uma reviravolta abrupta. Tudo pode acontecer no próximo capítulo.

Senti um vazio quando cheguei ao fim do livro. Imaginei o quanto ainda não foi contado da história de Thomas, as inúmeras histórias possíveis na própria trama.

Pode-se criar uma longa série a partir de Uma Encomenda para um Novo Mundo. Exijo do autor pelo menos mais um livro. Vi um universo muito rico, principalmente nos últimos capítulos. Não vou me contentar com apenas esta obra.

Seus olhos com chamas do inferno deixam um suor de medo 

Quero destacar também o trabalho musical de Deco Sampaio. Lançou dois álbuns disponíveis além do single Romance Nu, tudo disponível no Spotify. 

Encerro o post com a minha música favorita deste brilhante artista: Apocalipse. 

 


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