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H.P. Lovecraft (Medo Clássico Vol. 1)

Somos sete bilhões de humanos no planeta Terra. Convivemos em divisões políticas com regras que tentam harmonizar nossas vidas enquanto fazemos a se orgulhar. Estudamos, trabalhamos, relacionamos com outros; desenvolvemos nossas vidas e contribuímos à sociedade nem sempre compreendida. Fazemos tanto por nós, pelo planeta, porém vivemos em um minúsculo ponto azul, sequer somos visíveis quando comparados à imensidão do universo. 

O horror cósmico é um gênero literário em que explora a mediocridade humana quando em face a criaturas de outros mundos com capacidades não apenas superiores, mas inconcebíveis a nós. De nomes impronunciáveis pelo aparelho fonético humano, entrar em contato com tais seres ou simplesmente estar ciente de sua existência é o suficiente para o ser humano enlouquecer de horror. 

Esta é a proposta dos contos da coletânea Medo Clássico Vol. 1 — H.P. Lovecraft. Publicada em 2017 pela Darkside Books na edição Miskatonic, reúne algumas das histórias enquanto oferece materiais complementares como artigos, cópias de cartas e rascunhos originais, e ilustrações dos seres abordados em cada história. 

Howard Philips Lovecraft não obteve sucesso em vida por publicar seus trabalhos em revistas pouco conhecidas com outros autores de qualidade regular ou questionável, entretanto seus amigos conseguiram levar seus contos a um público maior e transcendeu gerações a ponto de muitos trabalhos atuais fazerem referências e homenagens ao trabalho de H.P. Lovecraft. 

Em sua casa, em R’lyehCthulhu, morto, aguarda sonhando  

Os contos são narrados em primeira pessoa. O protagonista faz o registro de suas investigações ou do que testemunhou por experiência própria, cujo relato formal se mescla com a espontaneidade do personagem quanto ao desespero de relatar algo surreal. 

Por ser apenas relatos dos personagens, não sabemos por vezes qual foi o seu fim quando alcançamos a última linha do conto. A angústia toma conta do leitor, a falta de informações proposital pode influenciar a imaginar inúmeros desfechos do personagem que pôde vislumbrar o inimaginável. 

Esses registros também ficam disponíveis aos demais personagens de Lovecraft, que interliga os contos usando os próprios como referências a outros. Alguns ficam explícitos no conto, outros exigem uma maior percepção do leitor quanto aos detalhes. 

A curiosidade supera o horror 

É importante destacar: são histórias publicadas há quase um século, quando o estilo e a narrativa eram diferentes dos livros recentes. Prepare-se para desbravar extensos textos descritivos até formar a imagem de cada cena. Diálogos são raros nessas histórias de Lovecraft, algumas nem têm, o que mantém a estrutura firme de parágrafos longos. 

Além de entregar uma história, os relatos dos protagonistas expressam o sentimento deles enquanto descrevem o horror a ponto de atingir o leitor. A minha curiosidade com Cthulhu se transformou em desespero após conhece-lo em seu conto. Quando o terror não atinge, ainda há o vislumbre de imaginar as criaturas elaboradas de forma tão criativa pelo autor, cujas homenagens dos trabalhos atuais não são em vão. De filmes, desenhos, músicas a jogos; todas as mídias oferecem formas distintas de imersão à Mitologia Lovecraftiana que se originou por essas conexões de palavras impressas capazes de incitar a nossa imaginação. 

Treze Dias (pt. 1)

Sobre o quê é este conto? Não vou dizer. Se haverá uma segunda parte, só o tempo pode responder. Acompanhe o texto a seguir, se for capaz…

Treze Dias

Escuridão

Amordaçado. Amarrado. Enclausurado

Quanto mais se mexe, mais preso fica

Ele é fraco; a prisão, opressora

Faltam exatos treze dias. Precisa correr, se dedicar e ter a mínima oportunidade de ser reconhecido pelo seu mérito. Infelizmente a meritocracia está além das exigências do edital, suas regras não abrangem os seres malignos dispostos a humilhá-lo todo dia, ignora a Menina do Caos sempre à espreita, ou a Dona Furacão em sua casa, ou a Legião que sussurra pelas feições discretas do quanto Manoel é um incompetente. 

Manoel, um nome de português. Manoel foi pro céu ninguém mais ouve. Manoel cara de pastel resume sua infância. Manoel bicho do hell é ridículo. Manoel puta de Abel é o episódio atual. 

Abel tem dois seguidores na escola e quatro mil no Instagram. O cheiro de seu chulé está impregnado nas narinas de Manoel após tantos chutes na cara. Nada acontece com o bully; Manoel sofre tudo. 

Recebe socos dele e de seus seguidores. As cusparadas escorrem pelas blusas amarradas até alcançar o rosto do garoto. Ele ouve o som do zíper se abrir, e em seguida um empurrão com a voz de Abel: 

— Esta blusa é nova, arrombado! 

— Arrombado é este verme, enrolado feito sushi. 

— Feito sushi. — Risadas ecoam. 

E os passos se distanciam. O garoto fica sozinho com as suas lágrimas e o ódio deste mundo. 

Queria participar do culto e invocar o deus cósmico de nome impronunciável. Poderia ser um estranho com o poder paranormal de explodir todos da escola, ou um lobisomem que se alimenta de humanos como se eles fossem gado. 

Manoel é nada disso. É somente humano de braços finos e pernas moles. Rebate todo o corpo, um peixe fora d’água. Rasteja feito minhoca, geme mais que um cão abandonado, rodeado apenas por urubus. 

Os movimentos desesperados tiraram a manga da blusa amarrada sobre seus olhos, mas as órbitas trêmulas voltam a chorar. O curto traço de sua visão revelou o par de tênis All Star vermelho, movido pelas pernas morenas de bermudas jeans com rasuras de desgaste. Vê ainda suas mãos e o esmalte negro incapaz de disfarçar as unhas roídas. 

Fios de cabelo negro serpenteiam sobre os olhos dele enquanto as mãos puxam as blusas. Pior do que a humilhação de Abel é ficar à mercê da Menina do Caos. Seu toque provoca doença, os lábios rachados já beijaram a morte, olhos verdes não piscam enquanto transmite o horror. 

As roupas afrouxam e Manoel pula, os braços chacoalham até as peças de roupa saírem de seu corpo. Vê a franja sempre molhada dela, desce a visão no rosto e vê um sorriso. Engole o grito, a dor invade sua cabeça enquanto o frio escorre na pele através do suor.

Pernas desvencilham e escorregam até recuperar a força e correr. Ela o encara, de joelhos sobre as três blusas. Ele olha apenas o resquício de luz na porta da saída, chora de alegria por estar livre, estar vivo, estar apavorado o suficiente para desenvolver seu manuscrito, e assustar a todos. 

1984 (Distopia de George Orwell)

Como dito no texto O Grande Problema de 2018, há quem recorra a estratégias de refutar o posicionamento contrário propagando notícias falsas ou distorcendo a imagem pública em vez de debater com argumentos válidos. Ideias políticas contrárias tentam a todo custo eliminar a do oponente, iludir os seus seguidores com sua solução a prova de falhas, e quem discordar é do contra.

Esta realidade já foi um dos pontos de uma obra distópica escrita na década de 1940. Independente da ideia defendida: quando um governo autoritário governa sobre a vida e censura o pensamento da população, aliado a capacidade de destruir não somente o indivíduo, mas apagar qualquer registro de sua existência, se torna um perigo a humanidade.

Muitos definem a leitura deste livro como obrigatória. Uma obra a refletir do quanto a liberdade pode ser valiosa, do perigo existente na censura e imposição de fatos independentes de serem verdadeiros.

1984 é uma distopia publicada em 1949. Narrado em terceira pessoa na perspectiva do protagonista Winston Smith, trata de um mundo futurístico (imaginada pelo autor daquela época) onde os cidadãos são controlados e vigiados constantemente pelo governo autoritário.

1984 - livro

Último trabalho de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair. É conhecido pelos textos críticos contra as injustiças sociais e regimes totalitários. Defende o socialismo democrático, mas é contra ao regime socialista impregnado na União Soviética, posicionamento encontrado neste livro e em Revolução dos Bichos.

O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ

Winston Smith é membro do Partido e trabalha no Ministério da Verdade. Sua função é modificar os registros existentes de modo que toda notícia atual seja absoluta. Cada registro contrário do atual é eliminado ou modificado, como se nunca tivesse acontecido.

Toda a informação é controlada e difundida através das teletelas, essas impõem sobre o que os cidadãos precisam acreditar. Winston tem lembranças contrárias das mostradas a ele, e enquanto deseja de alguma forma lutar contra esse regime, teme ser capturado e apagado da história a qualquer momento.

A figura soberana aparece em todos os lugares. O Grande Irmão é o líder absoluto de Oceânia, e nos anúncios onde seu rosto é estampado sempre afirma: ele está vigiando a todos. O líder nunca aparece publicamente, mas a sua imagem é predominante.

Nenhum ato contrário ao governo é tolerado, sequer é permitido pensar diferente. O medo está em até olhar ao rosto de uma pessoa. Um gesto mal compreendido pode desencadear acusação de traição.

GUERRA É PAZ; LIBERDADE É ESCRAVIDÃO; IGNORÂNCIA É FORÇA

Oceânia está em guerra contra uma das outras duas potências mundiais, todas as três são conjuntos de vários países do planeta. Ataques de mísseis acontecem sem ninguém saber. Aliados e oponentes são trocados constantemente, embora os registros sempre passam a informação como se nunca mudasse.

Não se tem a ideia exata do quê exatamente é o Partido ou detalhes do Grande Irmão. Winston não é uma pessoa influente, não protagoniza com os acontecimentos desse mundo; não passa de um homem comum. Abordar a história do ponto de vista dele traz poucas respostas dos fatos em Oceânia. As informações escassas e muitas ambivalentes refletem a sensação de insegurança quanto ao que se sabe dessa realidade. Tal sentimento é trazido ao próprio leitor.

Não é um livro de terror, mas as imposições do Partido causam medo. Não basta destruir o indivíduo e elimina-lo da história. O castigo acontece além da tortura, e ler tais cenas traz muita tristeza.

Esta obra choca sem refletir a realidade, mas alerta dos perigos a serem evitados com atitudes semelhantes. 1984 é referência quanto a críticas de governos que querem controlar a liberdade do cidadão ou censurar a informação e todo pensamento contrário.

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