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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

Confira o livro

* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

O Despertar, de Clecius Alexandre Duran

Mês de novembro está acabando, e as postagens especiais também. Eu sei, pode pegar seu lenço e enxugar as lágrimas. Achei uma ideia tão bacana que quero repetir no mês de novembro do ano que vem, então não precisa ficar triste! Alegre-se e sinta o terror com a história de hoje! Exato, dei uma folga a vocês com o conto do convidado passado, e agora volto com tudo neste texto d’A Maldição do Lobisomem.

Clecius aceitou compartilhar um texto no blog. Não é um conto como os demais, mas sim a disposição do primeiro capítulo de seu livro na íntegra neste post.

Autor de dois romances e um conto, Clecius merece aplausos por trazer as histórias viscerais de lobisomem em contraste com as versões amigáveis e felpudas de certas obras, além de trazer a realidade das lendas às cidades brasileiras tanto atuais como na Revolução Farroupilha. É um escritor independente cuja dedicação garantiu um serviço como editor da nova versão de O Brakki, escrito por André Regal e relançado sob o selo Acervo Books. Clecius promete a publicação de um livro inédito de terror, além do terceiro volume da antologia Crônicas da Lua Cheia, histórias que estou ansioso para ler!

Com as devidas apresentações dadas, confira o capítulo O Despertar de A Maldição do Lobisomem. Não se esqueça de seguir Clecius nas redes sociais e conferir seus livros, todos os links estarão após o texto:


Capítulo 1 – O despertar

28/Jul/2015 (terça-feira) – 1º dia do ciclo da lua cheia

CONFUSÃO.   CACOFONIA.   UMA   MIRÍADE   DE   ODORES  se mesclando na escuridão. Cheiros que ele conhece de longa data misturando-se com fragrâncias inéditas ao seu olfato. Os demais sentidos   ainda   estão   entorpecidos.   Os   membros,   paralisados  e dormentes. Este é o momento que ele mais odeia. O Despertar.

Vagarosamente a penumbra da inconsciência se afasta, descortinando o véu da realidade. Ele acorda exausto, dolorido e sentindo-se derrotado. – É sempre assim! – pensa com rancor. Esse é um dos fardos da maldição que ele carrega. Aos poucos, o animal percebe a dor que lhe perpassa o corpo, como uma avalanche infinita de agulhas em brasa. Ainda deitado em posição fetal, ele luta contra a vontade de permanecer imóvel até que cesse o martírio da recente transformação. No entanto, ele sabe que precisa se levantar e pôr-se em guarda.

A criatura bestial estica lentamente cada um dos membros, alongando os músculos e acompanhando cada movimento com um baixo grunhido sentido. Embora tenha vontade de urrar, revelando ao mundo a dificuldade da tarefa posta em execução, o monstro contém o impulso. Ele tenta se colocar em pé, mas falha miseravelmente caindo sobre suas quatro patas, retorcendo-se em intenso sofrimento. O demônio profano sente o aperto dos trapos espalhados por sobre seu corpo. Trapos impregnados com um cheiro que, num só momento, é e não é o seu.

Com o pingar dos segundos que aparentam durar uma eternidade, ele recupera a capacidade de movimento de cada um de seus membros. Um a um. Pouco a pouco. Embora a dor seja excruciante, sua capacidade de recuperação não é menos notável. Com o autocontrole voltando paulatinamente, a criatura rasga os restos das roupas que ainda insistem em se grudar ao torso. Enfim, completamente livre das amarras humanas!

Respirando lentamente e com dificuldade, o licantropo recupera suas forças e sua mobilidade, finalmente sentindo-se capaz de se pôr em pé. Sua altura prodigiosa é capaz de assustar mesmo o mais corajoso caçador e enganaria aqueles que, porventura, tivessem antevisto apenas o animal com a postura contraída e colocado sobre as quatro patas. Ao ficar ereto, o tronco hirsuto e musculoso do lobo se expande, revelando uma espantosa criatura antropomórfica: uma silhueta corporal que lembra um gigantesco ser humano, com exceção da longa cauda e das pernas cujo desenho ainda guarda estrita semelhança com as patas traseiras de sua ancestralidade animal, o canis lupus signatus. Por outro lado, ao arriscar uma olhada de mais perto, a visão de uma cabeça extremamente volumosa coroada com uma grande cabeleira e um par de orelhas triangulares e pontiagudas, além de uma poderosa mandíbula protuberante encimada de um focinho pronunciado, não permitem confundir a hórrida entidade com um ser humano. Sua pelagem escura tem a cor castanha, apresentando no dorso uma lista negra que se estende da nuca ao final da cauda.

Ao seu redor, uma fina película de vapor o envolve, resultado da contraposição do clima frio ao corpo hipertérmico do lobisomem.

Num rápido exame, ele aponta o focinho em direção ao céu e aspira profundamente o ar da noite para se localizar e determinar eventuais perigos à espreita. Assim como o olfato, os demais sentidos da criatura também são mais desenvolvidos, mais sensíveis, embora temporariamente reduzidos pelo recente e turbulento despertar. Ele já conheceu outros predadores. Alguns são aliados, outros não. Alguns são fortes, outros são numerosos, mas todos são capazes de representar um perigo à sua sobrevivência.

Terra úmida, mato recém-cortado e algumas árvores são os cheiros mais próximos. Nenhum perigo imediato foi revelado pelos odores captados. O fedor pungente de urina e fezes de animais menores destaca-se ao olfato. Utilizando a visão que se adapta à noite, como convém ao animal de hábitos noturnos, a fera esquadrinha a escuridão à sua volta, reconhecendo o território e percebendo estar em um local ermo, ligeiramente distanciado das casas e edifícios que rodeiam aquele pequeno perímetro parcamente arborizado. O lobo se encontra numa praça na cidade de Londrina chamada pelo apelido de Zerão em razão de seu formato ovalado. Um pequeno espaço de verde com árvores altas, vegetação rasteira, um amplo gramado e duas quadras cimentadas, encravado no centro da cidade. Junto ao leito do pequeno riacho onde ocorreu a transformação, o lobisomem toma consciência de que se encontra, novamente, cercado pelas construções com luzes artificiais que, mesmo com sua visão acurada, ofuscam o brilho das estrelas. Ele está em território hostil, longe das árvores abundantes de uma floresta ou de um mero matagal, que são seu habitat natural.

Apesar das dores lancinantes e da tontura provocada pelo excesso de informações que seu cérebro busca processar, a criatura tenta caminhar, mas é vencida pela vertigem, tombando de encontro ao chão. A dor em seu estômago aumenta repentinamente e ele sente o latejar de seu esôfago preparando-se para expelir todo o conteúdo estomacal semidigerido: pães, vegetais, frutas e apenas um pouco, somente um pouquinho intoleravelmente diminuto, de carne. A fera caliginosa sabe que precisará conseguir comida de verdade. Uma quantidade generosa de carne para saciar sua fome e satisfazer seu apetite voraz. Mas, antes, precisa livrar-se daquilo que a aflige.

As convulsões, então, aumentam provocando intesos espasmos até que o líquido quente e malcheiroso que se alojava em suas entranhas sobe pela garganta e é arremessado ao chão num jato multicolorido com predominância da cor verde. Uma pasta espessa composta de restos de folhas de alface, arroz, tomate, beterraba e outras folhas, frutos e raízes – que compõem o banquete de uma vaca, um cavalo ou qualquer outro ser nas escalas inferiores da cadeia alimentar, e não o repasto digno de um predador – é depositada no espaço à sua frente, entre seu corpo e um banco de concreto.

O monstro lupino respira com dificuldade em arquejos curtos, ainda não totalmente livre do enjoo.

Um novo regurgitar expulsa o resto da porcaria que ainda lhe ataca o estômago, sobressaindo em sua língua um toque ácido, levemente picante.

Imediatamente, o lobisomem torna a olhar para o céu noturno à procura da posição do pequeno disco prateado. A lua cheia, parcialmente escondida por nuvens escuras, indica, pela sua trajetória orbital, a proximidade da meia noite.

—Ladrão maldito! — é o insulto que cruza sua mente enquanto um nó dolorido lhe aperta a boca do estômago. — Dessa vez, sua beberagem não conseguiu atrasar minha chegada!

Depois de vomitar todo o conteúdo estomacal, o monstro metamórfico percebe o desaparecimento de grande parte de sua fraqueza anterior. A náusea que lhe limitava os movimentos e entorpecia parcialmente seus sentidos aguçados é substituída pelo ímpeto atávico de se alimentar.

A fome o envolve como uma amante antiga e familiar, abraçando todo seu corpo e fazendo surgir uma irrefreável vontade de saciar seus instintos primevos. O licantropo anseia não somente pela carne que lhe arrefecerá o vazio na barriga, mas também pelo sabor cúprico do sangue quente da presa a escorrer por sua boca, encharcando o pescoço.

Obedecendo ao desejo imperativo que lhe é inerente, a fera torna a se erguer sobre as patas traseiras, farejando o ar a fim de perscrutar os arredores na tentativa de localizar uma presa apetecível.

As lendas referentes aos hábitos alimentares da sua espécie ditam que os lobisomens têm especial predileção pela carne humana. Na verdade, esta espécie de predador consome qualquer animal, racional ou irracional, grande ou pequeno. Os animais de maior porte são preferíveis aos pequenos pela maior quantidade de carne oferecida, bem como por darem menos trabalho no momento da caça – os animais menores são excessivamente medrosos, rápidos para empreender fuga e encontram refúgio em diversos locais não alcançados pelas garras lupinas. Se a escolha da presa for entre um coelho e uma vaca, fica-se com a vaca. Por sua vez, a grande frequência do ataque aos humanos decorre do simples fato que esta presa encontra-se em qualquer localidade e com maior abundância. A caça selvagem a que os licantropos estavam acostumados no Velho Continente está incrivelmente escassa. O mesmo acontece em toda a América e no resto do mundo. A fauna abundante que permitia o sustento tranquilo dessas criaturas não mais existe. Em contrapartida, os seres humanos encontram-se disponíveis no cardápio de qualquer local, isolados em pequenos grupamentos rurais ou reunidos em grandes aglomerados urbanos.

Dos  odores  trazidos  pelo  gelado  ar  noturno,  destaca-se  um  suave  perfume adocicado  mesclado  pelo  cheiro  inconfundível  dos  hormônios  femininos secretados durante a gestação. Tal combinação de aromas faz o lobo salivar.

Dentro da espécie humana, os lupinos voltam especial atenção às mulheres em estado  final  de  gravidez.  Embora  consumam  a  integralidade  do  corpo  humano,  o lobisomem  costuma  começar  a  devorar  a  vítima  pelas  entranhas.  Geralmente,  as vísceras são ingeridas em primeiro lugar para atender o especial paladar da criatura. Não é de se estranhar, portanto, a particular preferência pelas grávidas. O ataque a uma fêmea prenhe tem duas vantagens: de um lado, seu estado físico dificulta a escapatória e faz com que oponha menor resistência, facilitando o ataque do animal; de outro lado, há o prêmio a ser saboreado. Embora o lobisomem aprecie o sabor das tripas em geral, o feto, nos últimos meses da gravidez, representa uma iguaria ímpar, um misto delicioso de carne tenra e ossos macios – a versão baby beef na licantropia.

Por sorte ou por interferência do destino, uma mulher grávida caminha em direção à praça. Esta noite, o atalho para chegar mais cedo em casa terá um alto custo…

Transição - Clecius

Sandra pensa que a pessoa que aconselha a caminhada como exercício ideal para as gestantes nunca experimentou o peso extra dos últimos meses da gestação. Além do volume que ela carrega no ventre esticado, seu corpo todo está inchado e sua forma física silfídica, que arrancava olhares de admiração da maioria dos rapazes (e de inveja da totalidade das outras moças), parece-lhe um sonho distante.

Cansada de um dia de trabalho, ela pensa nas tarefas domésticas que ainda tem pela frente e arruma a touca vermelha de lã que lhe escorrega da cabeça. Mãe solteira que vive sozinha, ela tenta melhorar de vida, arriscando um destino melhor que aquele partilhado pelos outros membros de sua pobre família, que se resignaram a permanecer na pequena cidade onde nasceram, com poucas oportunidades de trabalho e nenhuma perspectiva de ascensão social.

Mesmo surpreendida com a gravidez não planejada, Sandra continua a perseverar na busca de seus sonhos.

Naquela noite fria de final de julho, o cansaço e a pressa de encontrar o abrigo do lar modesto fazem-na decidir cortar caminho e, em vez de encarar o trajeto mais longo contornando o logradouro público, a jovem opta pelo precário e mal iluminado atalho. Sua decisão parece-lhe extremamente razoável, pois a trilha encurtada passa pelo meio de um punhado de árvores que, mesmo com fraca iluminação pública na orla da praça, não apresenta qualquer obstáculo.

Ao atravessar a rua que circunda o Zerão, uma vibração se faz sentir no interior de sua bolsa, acompanhada com o pegajoso refrão de uma música viralizada pela internet: “♪ Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego… ♫ Delícia, delícia, assim você me mata!”.

Sem diminuir o ritmo, Sandra saca o pequeno celular e, olhando rapidamente no visor do aparelho, atende à chamada.

— Oi, mãe — ela cumprimenta sem diminuir o ritmo dos passos.

— Oi, filha. Onde você está? — Dona Cremilda indaga deixando um leve traço de preocupação vazar pelas palavras.

Ligeiramente ofegante, Sandra responde com rispidez: – Já estou indo pra casa, mãe. Mais dez ou quinze minutos e já chego lá – conclui, esperando ter colocado um ponto final no colóquio.

— Tá bom, filha. Só liguei para saber se está tudo bem com meu netinho – acrescenta com voz langorosa.

Um carro, com os faróis baixos acesos, passa lentamente na rua adjacente à praça no momento em que Sandra inicia a passagem pela trilha do atalho. A luz do veículo ilumina por um breve relance o trecho em que a iluminação dos postes não alcança o caminho. Sandra procura disfarçar a ligeira preocupação que lhe assalta pensando que nada de errado pode acontecer em tão curto espaço. Uma suave brisa noturna passeia por entre as árvores, fazendo farfalhar a folhagem das copas e acariciando a nuca da jovem com um toque gélido. Um arrepio perpassa sua espinha e Sandra não consegue afirmar se a sensação se deve exclusivamente ao vento noturno. Ela coloca um cacho solto de cabelo atrás da orelha, gesto recorrente sempre que se encontra apreensiva, mas busca um tom de voz leve e relaxado para tranquilizar sua interlocutora.

— Ai, mãe! A senhora se deu ao trabalho de ligar a essa hora só para isso? — questiona fazendo um muxoxo. — O médico disse que demora mais duas ou três semanas. Não se preocupa, não — declara com segurança.

— Ah, Sandrinha… — Dona Cremilda recrimina a filha com um tom magoado. — A gente nunca deixa de se preocupar com os filhos, não importa a idade ou a distância. Você logo vai saber como é… De qualquer forma, só queria saber se estava tudo bem. Vê se descansa,

Sandra pensa ter vislumbrado uma sombra passar pelas árvores, numa trajetória paralela à sua, mas a conversa com a mãe a distrai: – Pode deixar, Dona Cremilda. Quando tiver novidades, eu te ligo. Deixa eu prestar atenção no caminho para não cair nem tropeçar em nada.

— Você está de novo voltando sozinha a pé pra casa? – Dona Cremilda dispara, sem conseguir disfarçar a crítica embutida na pergunta.

— Estou, mãe. Não se preocupa, já estou quase lá – Sandra responde tentando disfarçar o aborrecimento que sente.

Apesar do carinho revelado pela preocupação materna, a jovem se ressentia da suposta sabedoria materna que sempre tentava dissuadi-la de todas as suas escolhas de vida. Se fosse ouvir os conselhos da mãe, Sandra sequer teria saído de sua cidade natal. Assim, sem dar espaço para o início de uma longa e tediosa peroração sobre os perigos da cidade grande, Sandra se despede: – Um beijo, mãe. Depois eu volto a te ligar…

— Um beijo, filha — resigna-se Dona Cremilda.

 

Transição - Clecius

O caçador noturno avalia o rumo de sua presa e, encontra o melhor local de ataque, longe das luzes amareladas das lâmpadas de vapor de sódio dos postes de iluminação pública e dos olhos de eventuais testemunhas. Silenciosamente, como só as criaturas nascidas para caçar são capazes de se movimentar, ele corre pelo interior da praça, tomando dianteira e escondendo-se atrás do grosso tronco de um ipê-roxo, fazendo com que seu contorno sobrenatural se confunda com as sombras. A respiração lenta e compassada do lupino solta pequenas lufadas de vapor no ar da noite, mas nada que possa alertar a mulher sobre a sina que se aproxima.

Com a atenção voltada ao som dos passos que se avizinham e do cheiro adocicado do perfume feminino que se intensifica, o lobisomem contrai os músculos das pernas e permanece com as orelhas levantadas e direcionadas para a origem do barulho ritmado.

Quando o vulto da vítima se encontra no raio de alcance de seu salto, um par de olhos fosfóricos e flamejantes se acende na escuridão e o predador implacável dispara contra a mulher. Esta se vira instintivamente, seguindo o conselho de um sexto sentido atribuído ao gênero feminino, mas é tarde demais. O choque dos corpos faz com que o ar escape dos pulmões da presa, sufocando o grito nascido do horror. Ao ser derrubada, Sandra tenta inutilmente afastar o agressor com os braços, mas sua força é insuficiente para sequer sustentar a pesada criatura, e, antes que consiga recuperar o fôlego para gritar por uma ajuda que nunca chegaria a tempo, um poderoso torno de maxilar e mandíbula com dentes pontiagudos se fecha sobre seu pescoço, torcendo-o até que o estalo como de um galho seco se faz ouvir. O gosto de cobre derretido se espalha pela língua da fera. A adrenalina disparada no momento do ataque ainda se encontra no sangue da mãe-que-não-será quando uma garra peluda abre-lhe o ventre a partir do esterno. Diferente da estória clássica, não é o lobo que é eviscerado. O talho rompe diversas camadas de pele, gordura e músculos até deixar exposta a bolsa amniótica e o feto que ainda se agarra à vida. Sem hesitação ou remorso, o licantropo arranca-o da carcaça abatida, mastigando o pequeno ser que rapidamente se transforma em pedaços sangrentos de carne, deixando rubro o focinho e os cantos da bocarra animalesca. A trituração dos frágeis ossos fetais faz com que o paladar do lobisomem se perca em intenso deleite ao sentir o sabor levemente untuoso do líquido gelatinoso da medula óssea.

Após saciar o primeiro impulso carnívoro, o lobisomem arrasta o corpo inerte para longe da trilha em direção a um conjunto mais cerrado de árvores, próximo ao leito do riacho onde despertou há poucos minutos, e, uma vez nesse abrigo improvisado, termina calmamente seu banquete macabro. Sem pressa, a criatura arranca nacos generosos dos intestinos, desenrolando-os de dentro da barriga aberta de Sandra. Na sequência, o fígado, o estômago e todo o resto do aparelho digestivo são consumidos com volúpia.

Depois de saborear tranquilamente o que restou das vísceras da mulher, o lobisomem inicia o processo brutal de ingestão completa da presa.

Os pequenos ossos das mãos e dos pés estalam como salgadinhos crocantes quando mastigados pela bocarra sobrenatural. Depois de consumir a carne, o predador passa a roer prazerosamente os ossos, procedimento necessário para repor o cálcio utilizado na modificação esquelética ocorrida no momento da transformação arcana.

Sem deixar traços que identifiquem o ataque recente, a criatura alcança dois objetivos: alimentação plena e manutenção do segredo da sua existência. Antes mesmo que lhe seja ensinado, o lobisomem possui um sentido atávico de preservação que lhe aconselha a disfarçar e ocultar o que ocorre durante sua caça.

Terminada a lúgubre refeição, o lobisomem sabe que deve procurar um local afastado das construções humanas. Seu faro indica um caminho arborizado lindeiro ao riacho. Não é a primeira vez que ele se utiliza daquela trilha para escapar para os braços da natureza.

Mas antes de empreender a fuga, com o estômago cheio e inebriado pelo aroma penetrante do sangue fresco, o lobo empina seu focinho para a lua cheia e uiva longamente em cumprimento ao astro que lhe orienta a vida.


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Livros de Clecius

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

O Brinquedo (conto)

O Brakki (editado por Clecius no selo Acervo Books)

Resenhas do Blog

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

Convergência (pt. 1)

Um estalo da fechadura após a virada da chave. Eles empurram a maçaneta, a porta ainda permanece trancada. Abrem apenas quando dão a segunda volta na fechadura, o clique precede a rangida das dobradiças antigas. Agora podem entrar. 

Thiago e Joana atravessam a porta ao mesmo tempo. Abraçados e entre beijos. Tropeçam na sala escura, o jovem bate as costas na porta, sente uma pontada na cintura com a maçaneta. Fecha a cara frente a dor, esfrega onde bateu e abre o sorriso de volta. 

Caminha na escuridão com a sacola plástica em mãos, bate o nó dos dedos numa peça de granito, guarda a sacola ali, na mesa agora visível com a luz acesa pela namorada. A embalagem amarela do mercado escorrega e derruba a garrafa de refrigerante e os pacotes de salgadinhos, só as duas barras de chocolate ficam no saco. 

Troca olhares com Joana até ela fitar o chão aos risos e bochechas avermelhadas, iguais as dele. Cabelo alisado a tarde, unhas roxas feitas um dia antes, camiseta com a imagem do último álbum do Grave Digger, nunca vista por ele, comprada e reservada nesta ocasião especial. 

Sem roupas novas, só faz barba aos sábados, os pelos castanhos cobrem o rosto nesta quarta-feira; cabelo despenteado. Pelo menos cortou as unhas mais cedo, afinal, é um dia especial. 

— Pronta para a nossa primeira noite a sós? 

— Pronta. — Ela apoia as mãos nos ombros e lhe beija a bochecha. — Nervosa, mas preparada. 

— O Felipe disse que deixou o chromecast instalado na TV do quarto. Podemos assistir aquele lançamento da Netflix. Quer dizer, vamos apenas começar a noite com o seriado, né? 

Dois selinhos e se soltam, ela precisa ir ao banheiro. Thiago adianta os preparos, abre a porta do quarto e coloca os salgados no criado mudo. Liga a TV, única luz necessária naquele quarto; sincroniza a Netflix com o chromecast, deixa na página do Mundo Sombrio de Sabrina, pronto para transmitir. 

Joana chega no quarto, para na entrada e tira os tênis Converse, guarda o par ao pé da cama e salta sobre o colchão. Cai ao lado de Thiago, já deitado. Ataca o pescoço dela com cócegas, e Joana contorce todo o corpo; chuta as pernas, arranha o peito dele e diz “bobo” antes de ajeitar a cabeça no travesseiro. 

Thiago dá play no celular e a TV começa a passar o primeiro episódio da série. Exibe o logotipo de fundo prateado e letras vermelhas, então a tela escurece. O aparelho desliga junto com a luz de todo o quarteirão. 

— O destino quer acelerar as coisas pra gente, Jô. 

Ela liga a lanterna do celular, flagra os olhos de Thiago sobre os seios e a mão direita a caminho da cintura. Segura o braço dele. 

— Thi, preciso conversar contigo antes. 

— Conversar? — Estala a boca com os lábios fechados. — O Felipe emprestou a casa dele pra gente enquanto ele viaja, e você quer conversar? 

— É coisa séria, Di. 

— Odeio quando me chama assim. 

— Desculpa. É mais fácil falar Di do que Thi, todos da escola te chamavam desta forma. 

Thiago solta o ar denso pela boca. Arrasta o corpo, as costas contra o encosto da cama. Encara os olhos dela, cabeça deitada no travesseiro, abaixo dele. Pescoço se contrai, ela engole em seco, desvia o olhar e fala: 

— Você tirou algumas fotos de mim, escondido. 

— Como? 

— Eu percebi, Thiago, não sou tonta! Faz um mês que fotografa minhas pernas, bunda, os peitos. 

— Sim, mas nós somos namorados. 

— Somos, amor. Só peço respeito. Adoro quando vê minhas fotos, só que não desta forma, de surpresa. 

Silêncio. 

Ele desliza as costas até encostar os ombros no travesseiro. Olha a camisa que veste, de cor azul e sem estampa, algumas dobras sobre a barriga gorda. Enxerga apenas pelo flash do celular da namorada, sua mão persegue a luz, e ela recua. 

— Você apagará essas fotos, Thiago. 

— Claro, Jô. Deixa que amanhã eu… 

— Agora! 

— Larga de ser chata. 

Atravessa o braço sobre a barriga dela e avança. Mãos pequenas tentam tirá-lo de cima, derruba o celular no colchão. Fecha as pernas sobre ela, prende o corpo franzino que se debate abaixo dele.  

— Era para ser o nosso dia, Joana. 

— Egoísta! — Bate no rosto dele. — Só quer perder sua virgindade. 

Lágrimas escorrem até o queixo de Joana e caem na camisa, molham a estampa de olhos revirados da menina zumbi com a faca ensanguentada na mão.

Thiago desliza o dorso da mão no pescoço, deita o peito sobre o dela, beija as bochechas molhadas de choro, e recebe uma mordida que rasga o lábio inferior. 

Algo explode do lado de fora. O brilho branco atravessa a fresta da janela e ilumina todo o quarto num instante, reflete no sangue escorrendo no lábio. Televisão reacende, retorna a luz no bairro, e explodem gritos de terror nas ruas. Thiago levanta o rosto, encara a janela, pisca luzes vermelhas, laranjas e brancas do lado de fora. Sente a barriga queimar, arde onde Joana o empurra, volta a encarar as mãos dela. Estão em chamas! 

Fogo negro da ponta dos dedos com esmalte roxo à palma da mão. Joana está de olhos fechados, sem sentir calor, apenas empurra e bate no Thiago, tenta tirá-lo de cima. Dá socos na barriga, sobe aos poucos, atinge o peito, mas em vez de acertar a pele, atravessa o corpo. A mão toca no coração dentro do diafragma. Thiago berra, Joana abre os olhos e só então vê o que fez, está queimando o seu namorado. 

A chama dispara uma energia pelo corpo de Thiago, aquece o corpo. Fumaça negra escapa pelas costelas, e por fim a mão se solta do peito. 

Sai da cama. Segura onde foi queimado, ou seja lá o que aconteceu. Encara a namorada, sem chamas nas mãos, sentada de joelhos, olhos esbugalhados iguais os dele. 

— Como você fez comigo, Joana? 

— Eu… O que foi isso? 

— É o que estou perguntando! 

— Eu não sei. 

Acende a luz do quarto. Ainda há gritos na rua. Os dois imóveis, ele alterna a visão da janela a Joana, da fresta ao rosto, da rua aos peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago. 

— O que vamos fazer? — Ela estica as pernas e desliza da cama. 

— Vamos embora. Levo você em casa, depois vou na minha. 

Ela assente e ergue a mão. Ele recusa a pegar. Vão até a saída da casa sem se tocarem. Fecha a porta, busca a chave nos bolsos da calça, quis tanto ficar sem as calças, sem a cueca; da forma que veio ao mundo, sobre ela. Hoje não. Vira uma vez na fechadura, então se vira. Porta, casa e planos falhos tornam-se coisas do passado ao encarar a rua.

O céu noturno está claro. A luz branca prevalece por todo o horizonte, ofusca as estrela e as lâmpadas dos postes. Humanoides correm pelas ruas, peles coloridas como azuis ou lilás, outros com escamas, cabeças de formatos diversos, alguns com apenas um olho na cabeça! 

Um deles pula sobre Thiago e o derruba. Quase na metade de seu tamanho, pele cinzenta toda enrugada, olhos largos. Dentes não cabem na boca, tortos no lado de fora. 

Goblin - convergência

Thiago esmurra o rosto. Tenta puxar a nuca, tirar a máscara. Não é disfarce, ninguém planejou uma festa de 31 de outubro nas ruas de Terra Preta. Não, um goblim está em cima dele, é de verdade, e agora fareja o rosto de suor frio do Thiago. 

— Sinto uma essência sobrenatural em você, humano. — Desliza a língua áspera, com muitos caroços na ponta, e lambe a ferida aberta da boca. — Bem-vindo ao grupo!


Clique e leia a parte 2

A Maldição do Lobisomem (Crônicas da Lua Cheia, Vol. 1)

Mitologias carregam consigo a história e cultura de um povo. Nascido de associações de fatos misteriosos, de certa forma desconhecidos, a criatividade humana dá respostas empíricas, sobrepondo o que pensou ter visto nessa visão pouco assimilada. 

A ficção fornece a oportunidade de demonstrar uma maneira dos seres mitológicos serem reais e quais seriam as consequências desta existência. Ou quem sabe a “ficção” só revela o fato de tais seres vagarem pelas diversas estradas e vilas remotas, ocultos da sociedade para preservar a própria espécie. 

A Maldição do Lobisomem traz esta questão à tona com a criatura licantrópica. Publicado em 2016, é o primeiro volume de uma antologia chamada Crônicas da Lua Cheia, porém narra a história na linha temporal posterior de Ascensão do Alfa. 

A Maldição do Lobisomem - capa

Clecius Alexandre Duran aparece pela segunda vez no blog com uma de suas obras. Atua no serviço público como procurador e adota a sua paixão pela literatura como o segundo emprego. No momento desta publicação ele também trabalha como editor da nova versão do livro O Brakki, de André Regal. 

Com o frio e as trevas das noites iniciava-se, pela primeira vez, a transformação 

Alexandre morava em São Paulo até conseguir um emprego como procurador na cidade de Londrina-PR. Sujeito de poucos amigos e apaixonado por motocicletas, adora percorrer estradas em alta velocidade. Uma dessas viagens velozes causa um incidente, rasga seu colete e arranha sua pele. Sem distinguir o que lhe atacou devido a escuridão da noite e a rapidez da moto, Alexandre jamais imaginaria um ataque de licantropo, muito menos que isso concedeu a ele a Dádiva da Lua, ou A Maldição do Lobisomem. 

Solitário é o alter ego lupino de Alexandre. Tem sua existência concebida nas noites de lua cheia, com a transformação plena ao por do sol e forte influência sobre a consciência do humano no quarto dia do ciclo lunar, e nos demais em horários posteriores da noite. O lobisomem caça as suas presas durante seu curto tempo de aparição, tendo como preferência a carne humana. 

Assim como os lobos, lobisomens agem em conjunto sob ordens do alfa correspondente, mas Solitário nasce longe de alguma alcateia. O grupo do lobisomem Maioral encontra Solitário enquanto sua contraparte humana vagava pela cidade de São Paulo. Tenta manter o novo lupino submisso, com discussões recorrentes entre os dois. 

O licantropo do protagonista ainda sofre outra dificuldade: os seres que compartilham da mesma vida se desprezam. Alexandre adia a transformação de Solitário abusando do chá de acônito, e a falta de aceitação causa dor e sofrimento ao lobisomem em toda mutação. Ambos não estão contentes com a existência do outro, e desejam viver plenamente eliminando a sua contraparte. 

Paródia da TPM, uma versão licantrópica da fúria e mau humor latentes 

A crise entre os protagonistas remete ao clássico da literatura de terror chamado O Médico e O Monstro, inspiração declarada em uma das anotações presentes no livro. Sem um conflito direto, cada ser interrompe a vida do outro à sua maneira. 

Quando o capítulo narra o cotidiano dos lobisomens, humanos deixam de ser seres essenciais da trama, são reduzidos a presas como um animal de gado qualquer.  Sem pressa de contar a história, passa a sensação de como é viver com a maldição, detalha as necessidades, fraquezas e condições de vida em alcateia nem sempre favoráveis para Solitário. 

Duas linhas temporais se mesclam entre os capítulos, uma de 2004 a 2007 e outra no ano de 2015. A linha temporal do passado conta as origens de situações narradas no tempo mais recente. Essas transições poderiam elaborar melhor um leve suspense, mas houve resposta cedo demais em um caso próximo do final. 

Só falta o cara mandar agora escolher entre a pílula vermelha e azul 

Este primeiro trabalho literário de Clecius é uma demonstração de autoficção, pois muitas das características de Alexandre remete ao próprio autor, só exigindo mais trabalho em elaborar as chacinas licantrópicas, espero.

O gosto literário e cultura pop do autor também se reflete nas várias referência expostas no livro. Há algumas citações em que o leitor terá o entendimento prejudicado se desconhecer a obra.

A linguagem empregada pelo narrador é rebuscada demais, diante da realidade retratada do protagonista. Embora o cargo de Alexandre exija uma comunicação formal, a história se passa nos momentos mais coloquiais de sua vida, por isso encaixaria melhor com uma narração com palavras mais comuns. Pelo menos os termos mais elaborados são fáceis de compreender pelo contexto de toda a frase. 

A Maldição do Lobisomem é uma leitura divertida e muito visceral. O livro aborda muitos dos conceitos internacionais do licantropo e soube entrelaçar a trama com esses elementos. Espero que, assim como aconteceu comigo, as últimas páginas arranquem seu fôlego com as garras das palavras que formam o desfecho deste primeiro volume.

Maldições das Terras Secas

Terra seca. Poeira sob ventos. Madeira podre das árvores sem folhas ainda de pé. Os cercados de arames das terras com donos mortos. A grande chama no céu, o abafo do cerrado sobre as duas cabeças. Visão turva depois de três cidades, sempre a pé. E o pai à frente.

São os únicos vivos do bando, ele e seu pai. A trilha marcada por pegadas há muito fincadas pelos cavalos. Espirra contra os resquícios de terra sobre seu nariz, o catarro sai seco, e seu nariz ameaça sangrar.

— Que diabo de terra você veio, cabra? Vinte ano e ainda num se acostuma com as estrada?

— Hoje tá pior do que ontem, pai.

Severino cospe. Cuspe seco da pouca saliva de si, pela falta de água.

— De todas as putas, a Mariele tinha de parir uma cria minha. E cria frouxa ainda por cima! Nome gringo desses, Joséfe — cospe —, num é desse mundo, não.

Joseph emudece, apressa o passo e tropeça. Anda muitos passos atrás do pai, o velho nunca fraqueja. A barriga de ambos roncam, os galhos secos mal enganam o estômago. Somente o pó os alimentam com coceira na garganta. Seu pai para e ergue o braço.

— Três volante. Há vila aqui, talvez os cabra vive menos pior que nós.

— Podemos pedir ajuda. — O brilho dos olhos de Joseph logo se apaga com a recusa do pai.

— Enlouquece, minino fresco? Nós é cangaço bandido. Temos de matá esses três homi antes d’eles nos matá. Dispois vamo a vila e coletar alguma recompensa.

O filho emudece, Severino pigarreia.

— Aquele de trás é muito avoado, parece ocê. Dê um jeito nele, eu me viro nos dois restante.

Sem permitir discussão, Severino avança por trás dos volantes. Joseph precisa dar cobertura ao pai, e com desgosto corre contra seu alvo.

Salta sobre o soldado, seu corpo arremessado derruba ambos no chão. Procura seu punhal no bolso, o oponente debaixo dele é mais rápido e corta o ombro com a faca da cintura. Joseph recua de dor, e o soldado aponta o cano da winchester em seu rosto. Agarra a mão que empunha o revólver e consegue virar um momento antes do disparo, faz a bala percorrer o ar seco do sertão.

Disputam as forças da mão, mas perde do volante. O desespero auxilia na busca da peixeira embainhada no couro fervido pelo calor. O fio da lâmina cruza o dorso da mão do soldado, ele tenta apertar o gatilho, falha com o corte da peixeira no pulso. A dor o faz largar a arma de fogo, recua aos tropeços. Joseph obedece seu pai, alcança o inimigo e degola o pescoço, onde o sangue esguicha e o corpo cai sem vida.

Olha ao lado e vê seu pai de pé, assistindo o filho com os dois volantes mortos há tempos.

— Pensei que ia dançá com ele pelo resto do dia. Vamo pegá a recompensa.

Joseph abre a boca, mas apenas soa o estalo de seus lábios. Meneia a cabeça e segue o mais velho.

Alcançam a vila após muitos passos. Apenas quatro casas, três de madeira frágil e a principal de tijolos, com dois cômodos onde mal caberiam um cavalo.

Somente um homem vive na vila, senhor de idade avançada, o patriarca das suas esposas e filhos ainda crianças. Ninguém ousa pronunciar alguma palavra, seus olhos arregalam e tremem diante do velho cangaceiro.

— Demo um jeito nos volante daqui perto. Eles devem abusar d’ocês com imposto fajuto.

— Sim, — foi a resposta do patriarca, rouca e abafada.

— Pois eu exijo um pagamento apenas, daí ninguém irá mais incomodá.

— Não pedimos por sua ajuda, cangaço, — uma das esposas diz e dá um passo à frente. — Sabemos resolver nossos problemas.

— Então não crie um novo probrema pá tua vila, muié. Eu e esse cabra precisa de algo pra cumê e bebê, nada demais.

O rosnar de cachorro invade as orelhas de Severino, e ele segue o olhar até o pequeno filhote canino. Os dedos finos seguram os pelos marrons do animal com dentes à mostra; o garoto mastiga os próprios lábios, suor escorrega gelado sobre a pele.

—Tenho nem o que dá de comer à minha família, senhores. Agradeço pela sua boa vontade, pena termos nada a retribuir.

— Nada, é? Ouço um grunhido dentro da casa do sinhô, e tem aquele cachorro também.

As crianças começam a chorar. A explosão da pólvora lança uma bala aos céus logo que Severino saca seu revólver e abafa o choro das crianças. Todos tremerem, menos o patriarca, que abaixa a cabeça.

Severino empurra o idoso, indiferente ao estalo de ossos frágeis quando ele cai. Abre a porta. As pessoas ouvem um grunhido de surpresa, depois de dor dentro da casa, então silêncio.

Sai da casa com a mão dentro do buraco feito no leitão e o entrega a Joseph. Fecha os olhos diante do sangue a manchar suas vestes, vomita ao ver a mão encharcada do pai com o sangue, além do odor da morte em suas narinas.

A criança tenta fugir com o cachorro no colo. As pernas saltam pequenas distâncias e tropeça os dedos dos pés no chão árido. Lágrimas escorrem o pó da terra em seu rosto, chora mais ao receber um soco na nuca e um chute nas costas. O cachorro sai de seus braços, tenta fugir, e o velho cangaço agarra a pata traseira, suspende o bicho com as patas da frente debatendo o ar.

—Que adianta este cachorro fracote pr’ocês? Vou fazê um favô tirando uma barriga pra alimentá.

Mais choros. Muitos se ajoelham e molham a terra, gemidos de “por favor” ecoam ao redor de Joseph, e alcança Severino.

— Então vô fazê o seguinte: se esse bicho aguentá uma queda, ele volta pr’ocês.

Sem esperar a resposta dos moradores, lança o animal ao céu. Tira a peixeira de seu coldre, e Joseph desvia o olhar um segundo antes do último gemido do cachorro, quando desliza da lâmina encravada em sua barriga no ar.

Caído no chão, entra em convulsão antes de enfim morrer.

— Num deu pr’ele não, moçada.

— Cangaço do diabo! Você sofrerá as consequências. Foi pra proteger de gente feito você que eu sacrifiquei uma das minhas filhas, o senhor vai ver!

Responde com o disparo no meio da testa daquela esposa. Joelhos atingem o chão antes das gotas vermelhas caírem do buraco feito. Sua testa encontra a terra batida, ríspida e árida, agora úmida com o líquido carmesim ainda saltando do furo. O som mal ressoa quando seu corpo encontra o chão, nenhum som sai da grande família, apenas de Severino.

— Vem logo pegá esse cachorro, Joséfe. Vamo embora e prepará nossa janta.

O cheiro arde nas narinas e os animais escorregam em cada mão, cheias de sangue.

Percorrem por um morro até o sol se por, e só alcançam o cume no fim do crepúsculo. Vê o seu pai recolhendo as madeiras de árvores fracas enquanto ainda o alcança.

Deixa os animais próximos ao conjunto de madeira e espera o pai acender a fogueira. Espirra novamente quando o vento gelado coça o rosto.

— Tá temperando o nosso jantar? Aproveita e já esfola o cão pra nós cumê mais rápido.

— Esfola você! Vou comer nada disso.

— Certo, morra de fome, miserávi.

O cuspe de catarro alcança a perna do filho. Sem reagir, deita de bruços, com as costas viradas à fogueira.

Escuta o fogo estalar sobre a carne dos cadáveres suspensos em gravetos. Ri quando o graveto parte ao meio com uma das comidas e condena a carne no meio da fogueira. Depois o trincar de dentes ao mastigar a refeição de dias trouxe-lhe água na boca. Tampa os ouvidos, insiste na fome.

As palmadas na barriga e o arroto de seu pai são acompanhadas de passos e um estalo no galho solto. Pai e filho se levantam com peixeira em mãos. Uma senhora de cabelos dourados e desgrenhados, vestido com trapos da cor de folhas murchas está diante deles. Ao invés de dedos tem garras de gavião, e ao se aproximar, Joseph nota traços de jacaré em sua face.

— A moça que o senhor matou esperava um filho, cangaceiro. — A voz estridente sibila pelos ouvidos dos dois. — Eu fiz um acordo com ela em pegar cada filho que ela tivesse. Não tem problema, há muitos lá que eu posso pegar quando bem quiser, mas você pagará por sua atitude.

Severino saca a arma e aperta o gatilho. Nada sai do cano.

A senhora meneia o dedo indicador.

— Eu disse, você pagará por isso, cangaceiro. Amaldiçoo com o primeiro de uma nova espécie, te transformarei em uma criatura híbrida do que comeu essa noite, e devorará o que lhe vier a frente.

Chamas acendem Severino, consome o tecido de suas vestes, derrete o metal do revólver e de suas facas, e arranca gritos do velho cangaço. Seu corpo se transforma sob aquelas chamas: os dedos viram garras, crescem pelos dos seus pés ao pescoço. O rosto incha e fica sem pelos, o focinho redondo e gordo substitui seu nariz, orelhas engordam, toda a pele rosada, mesmo tom do leitão morto.

Severino levanta o queixo gordo para o céu, ainda sofrendo da mutação. Sem formar palavras, grunhe como se estivesse latindo. Assume a postura com as quatro patas no chão, a cabeça próximo da terra, a cauda levantada com as pernas traseiras esticadas. Ele corre morro abaixo, berrando uma mistura de vozes suínas, lupinas e humanas.

Joseph paralisa todo o corpo, os olhos arregalam e as palavras são incapazes de expressar sobre o que testemunhou.

— E o que eu posso aprontar com você? Estou disposta a testar novos feitiços.

— O meu pai… Foi na direção da vila, vai assassinar as pessoas de lá.

— É verdade, está muito faminto. Ele devorará cada mulher e criança, e ainda ficará com fome. Eu posso conseguir crianças em outro lugar, sempre haverá bebês por essas terras secas.

— Ele era um traste. Um miserável filho da puta, mas nem ele merece isso, seja lá o que for! Desfaça a maldição, bruxa!

— Prefiro testar algo novo em você. — Ela rodeia Joseph, o analisa, até decidir pegar no lampião suspenso numa corda em sua cintura. — Isso está apagado, vamos resolver isso.

O calor invade o corpo do jovem, consome a sua estrutura e lhe causa dor. Joelhos cedem pela temperatura, olhos ardem, sai fogo pela boca. Queima tudo, arranca a vida de si, a alma escapa do seu corpo, entra no lampião onde a bruxa aprisiona.

— Pronto, concedo-lhe a imortalidade. Sua alma está atrelada ao lampião, que por minha vontade permanecerá inquebrável.

Reage com gritos, saca a peixeira e corta atrás de si. A senhora com rosto de jacaré não está em lugar algum. A fome desaparece, o mesmo com a sede. Só a raiva e o medo permanecem, juntos se transformam em desespero.

Ele corre morro abaixo, vai onde Severino provavelmente estará. Poeira não incomoda mais seu nariz, o vento frio se aquece em contato com a cara queimada em ira.

Sob as luzes da aurora chega na vila do velho patriarca. Enxerga partes de corpos da família. Tripas, excrementos, sangue e ossos; nenhum corpo inteiro. Sem faces de horror em suas mortes, sem face alguma.

Do patriarca resta apenas um braço, de frente a sua casa. Os trapos arrancados do corpo manchados de sangue, junto com o lampião ainda inteiro.

Sobre aquele braço está Severino, de pé. Os pelos estão sumindo, e seu rosto perde as feições de um suíno. Vomita tudo que comeu nessa madrugada na entrada da casa de tijolos. Fica sem fôlego com o despejo contínuo de ácido, e continua a vomitar.

Joseph prende a respiração, saca a peixeira e caminha até seu pai.

— Desculpa, velho. Não posso te deixar assim.

Severino vira o rosto para o filho, ainda vomitando. Não xinga, não reclama, não reage, não entende.

Joseph corta sua barriga de um lado a outro, faz uma abertura onde seus órgãos começam a escorrer.

Severino grita de joelhos a seu filho, o jovem derrama lágrimas ao pai. Diz nada, apenas segue o instinto de sobrevivência: a futilidade de usar o lampião do patriarca contra o cangaceiro imortal. Golpeia com o lampião sem mirar em um ponto específico, e acerta no próprio lampião do filho. Um fragmento da brasa escapa de lá e entra o lampião segurado pelo pai, e essa brasa mágica acende o objeto.

Severino é queimado vivo pela segunda vez, passa a carregar a mesma maldição do filho.

A faca penetra no peito e fere o coração. Tira a vida de Severino, mas essa foge até o lampião. O feitiço da bruxa recuperará a vida do velho cangaceiro, Joseph tem certeza.

Encontra uma pá na casa do patriarca e cava a alcova para o velho. Isso não o impedirá, Severino morrerá e renascerá até escapar do sepultamento.

— Que seja, pai. O caçarei, seja em forma de homem ou qualquer outra. O caçarei pela eternidade.

Cacto - Maldições das Terras Secas

A Ascensão do Alfa (Crônicas de Lua Cheia, vol. 2)

O mito do lobisomem é conhecido por todos os continentes do nosso planeta. Há diversas versões sobre a aparência física, comportamento e origens, como a partir de pecados, ausência de batismo, ou através de doenças como porfiria. 

Não faltam referências sobre a fera cujo aspecto causa uma dualidade entre o comportamento humano e racional com a contraparte bestial e impulsiva. O que realmente necessita é de livros capazes de trazer essas referências para a ficção com pano de fundo histórico e realista, melhor ainda quando o faz em terras brasileiras. 

A Ascensão do Alfa cumpre a necessidade citada no parágrafo anterior. Publicado em 2016, trata a história do jovem Sétimo de Carvalho quando passa a enfrentar uma pequena alcateia de lobisomens durante a Guerra dos Farrapos. 

Ascensão do Alfa - capa

Clecius Alexandre Duran é procurador do estado do Paraná e descobriu a vocação na escrita enquanto pesquisava sobre lobisomens. Sua esposa o incentiva com a arte da escrita, e é responsável pela publicação deste livro e da provável continuação desta antologia conhecida como As Crônicas de Lua Cheia, hoje com dois livros lançados. 

Clecius também trabalha — neste momento da postagem — como editor da edição física do livro O Brakki de André Regal. Se ainda não conhece este trabalho, clique aqui e veja a análise do livro digital de André.

Os guerreiros acreditam estar do lado certo da disputa

Sétimo de Carvalho tem mais seis irmãos, todos perdidos na Revolução Farroupilha. Não querendo se acovardar, segue com seu pai numa expedição de tropeiros. Sua determinação supera a falta de experiência, mas o coloca no caminho de vagantes cujos eventos superiores travam o conflito da tropa com a pequena alcateia de lobisomens. 

A alcateia é composta apenas por quatro criaturas. Tchevolku é o alfa vigente, mas a idade o exige escolher o novo líder do bando, tarefa que gera conflitos internos entre os lobisomens. 

A trama ainda aproveita o momento histórico da região com a Guerra dos Farrapos, onde farroupilhas e caramurus têm a infelicidade de encontrar as criaturas. 

Como se não bastasse, há a Ordem dos Cavaleiros de Judas, organização antiga de caçadores de lobisomens. Tanto a organização como as criaturas não desejam tornar a público a existência das bestas, pois quando os humanos se encontram com lobisomens, o perigo para ambos os lados é eminente, além da carnificina garantida.

Acho que vosmecê confunde carência de escrúpulos com coragem

Acompanhamos principalmente a trajetória de Sétimo e o conflito sobre a ascensão do alfa na alcateia de Tchevolku. As duas linhas narrativas se cruzam e formam uma consequência das escolhas envolvidas por esses personagens. 

Livre de escrúpulos nas cenas de batalha, o autor não poupa nas descrições viscerais dos ataques lupinos, reduzindo os humanos a mais uma fonte de alimentação das criaturas. As referências coletadas por Clecius abrange também as limitações das feras, elemento aproveitado pelo alfa em suas estratégias de sobrevivência com o grupo, mas nem sempre respeitadas na alcateia. 

Adorei vislumbrar o regionalismo do lugar e época da história. A escrita das falas reflete no sotaque de forma realista, e as palavras espanholas mesclam as frases dos personagens próximos dos países latinos vizinhos. Diversas notas de rodapé complementam a história com explicações dos acontecimentos reais durante o trecho daquela narrativa. Ascensão do Alfa não conta apenas uma história, mas divulga nas entrelinhas traços do passado nacional nem sempre acessível nas aulas de história no colégio. 

Houve uma falha do regionalismo quanto ao próprio lobisomem. A fraqueza mortal abordada no romance não é característica dos lobisomens do folclore brasileiro. Nos mitos conterrâneos também se diz sobre essas criaturas terem aspectos de cachorro, porco, touro ou cavalo. Não é “errado” inspirar-se nas mais diversas mitologias do lobisomem, só considero o quanto contribuiria com as lendas nacionais nem sempre valorizadas. 

Não tenha medo de se maravilhar com esta obra nacional muito bem escrita e trabalhada. Fiquei com vontade de vislumbrar o primeiro livro desta antologia a qual Clecius dedica e se diverte. Vale a pena conferir!

Darkson (Fantasia nacional sobre piratas!)

Entre saques, mutilações, bebidas e mulheres, uma maldição não é o bastante para o pirata deixar de fazer o seu melhor. Ser amaldiçoado duas vezes também não o impede. 

Sem saber a própria história, ele não passa de um humano entre o conflito de deuses e diabo. Mas este humano foi agraciado com presentes de seu pai. Tais presentes fizeram o próprio deus dos oceanos o temer e agir a favor de seu domínio e proteger os de seus irmãos. 

Darkson* conta a história deste pirata amaldiçoado, homônimo ao título do livro. Publicado em 2016, com narrativa em terceira pessoa e treze capítulos breves. 

Darkson - capa

Marcos Perillo é formado em administração e relembrou sua vida na década de 80 ao escrever Darkson. Deixou-se levar pela juventude rebelde e roqueira influenciada pela leitura de quadrinhos e criou a história de seu anti-herói. 

O sexto filho do sexto neto! 

O ser sinistro recebe a visita de um marinheiro com o filho nos braços. O pai não tem condições de sobreviver, e viu no sonho com este ser uma oportunidade de ter a boa vida de riquezas e prazeres. Entregou o filho à maldição e permitiu sua adoção ao sujeito misterioso. Este devolveu o filho para o pai e cumpriu a sua parte do tratado, mas somente o combinado. 

Darkson foi criado por prostitutas até descobrir sua vocação. Sem saber da maldição, se tornou o pirata mais temível dos mares. Adquiriu as heranças do ser misterioso, comandou uma tropa leal através da demonstração de poder e rigor, e tratou as prostitutas com respeito como se fossem figuras maternas. 

Seus feitos extraordinários causaram preocupação ao próprio deus dos oceanos. Ciente de toda a história do pirata, não aguardou o desfecho de suas consequências e intercedeu, amaldiçoando Darkson pela segunda vez. 

O mais fantástico de todos os navios piratas até então construídos 

A descrição física dos personagens, navios e criatura é incrível. As palavras desenham as figuras dos personagens enquanto detalham sua aparência, mostrando rapidamente o resultado da pintura desses em um simples parágrafo. 

A linguagem empregada é simples e favorece uma leitura fluída e até rápida, capaz de deixar o leitor concluir as cem páginas em um par de horas. Não há descrições exageradas, mas algumas frases se repetem de modo dramático. 

O livro conta a história de Darkson, mas peca por se limitar a isso. Não há uma narrativa elaborada da aventura do pirata, e mesmo sendo bem escritos (raros erros de escrita) soam como resumo de sua vida. 

Um personagem já feito desde o início, ele pouco se desenvolve e alcança suas conquistas de forma espontânea. Darkson consegue o que quer sem dificuldade, até fácil demais. 

Houve uma adaptação na concepção dos deuses ao incluir o ser demoníaco dentro da mitologia. Tal adaptação mesclou muito bem com a história do livro, embora eu estranhe a mistura do nome dos deuses, por ter nomeado o deus dos mares com o nome romano de Netuno, mas os demais com nomes gregos (Afrodite, Zeus e Hades). 

Darkson é uma obra simples e objetiva. Capaz de trazer uma experiência rápida, porém pouco exploradora do mundo e protagonista desenvolvidos na trama.

 

* Um exemplar do livro foi cedido pelo autor para realizar a análise

Link Externo

Instagram oficial do livro

 

Contra o Espelho

Este é o segundo texto feito para o projeto o Colecionador de Maldições. O primeiro está disponível no Wattpad, clique aqui caso não tenha lido.

Devo avisar que é um texto com linguagem vulgar e ofensiva, além de cenas explícitas e perturbadoras. Se está de acordo: boa leitura!

Águia - Contra o Espelho

Volto a esta sala escura onde a única luz surge do chão ao redor de meus pés. Enxergo a camada densa de poeira, uma praia cujos grãos de pó cinzento se prolongam ao horizonte sem mar. Paredes invisíveis impedem de sair, só fico livre se vencê-lo. 

A porção de luz também irradia sob os pés dele. Corpo alto, largo. Cabelos longos e ensebados. Unhas enegrecidas e lábios rachados. Postura curvada. Ele me olha, como todas as outras vezes. 

Quero exigir respostas. Berrar pr’aquele desgraçado explicar de uma vez. Tenho vontade de esmurrar a fuça dele, abrir buracos naquela cara até obter uma resposta. Passou o tempo quando me assustava com sons de crânio se partindo, hoje não importa mais. 

Mas não farei isso. Seu crânio é invulnerável, e assim como eu está mudo. Nós apenas gememos. 

Ele dá um passo, eu faço o mesmo. Levanta o seu queixo e observa minha face, eu faço o mesmo. Deixa seus braços soltos, eles balançam conforme anda, parece escapar de seus ombros a qualquer momento; só que não cairão, assim como os meus. 

Nossos narizes se tocam. Ele ergue sua mão esquerda e eu a toco com a minha. Nos olhamos nos olhos, mergulhamos no globo escuro com borda castanha. Nessa borda algo se mexe constantemente, no primeiro momento parecem riscos. Mergulho mais fundo, as imagens se ampliam a mim, e eu enxergo um mar de formigas naqueles olhos. As formigas mergulham no abismo do centro. Mergulham tantas que preenchem o abismo, e a pupila diminui. É tomada por aquelas antenas e patas frenéticas, elas não param de se mexer, não param de andar naquele olho, não param de consumir a pupila. 

Vejo no último instante seu olho tomado por insetos, tal como o meu. Nossas pupilas consumidas não absorvem mais luz, e não enxergo mais nada. A imagem dos insetos fica impregnada na minha mente. 

Soltamos um grito mudo. Batemos na testa e derrubamos a cabeça sobre o ombro direito do outro.  

Boca seca permanece aberta, não consigo fechá-la. A saliva escapa pelos meus lábios, escorre pelas suas costas, e nas minhas sinto um tracejado morno. O pequeno riacho vai escorrendo até o trapo de pano usado como cueca absorver a umidade. Poeiras também preenchem o trapo, faz tudo formigar por dentro. Droga, esse pó entra até no cu! 

Seus braços me envolvem, eu percorro seu corpo gordo e apoio nas suas costas. Ele começa a me arranhar. 

As unhas pretas cravam minha pele e arranca sangue. Reajo como ele e a dor nos remexe. De arranhões evolui a murros. Agrido a coluna dele. Atinge o meu cóccix, e meus olhos derrubam lágrimas. 

Empurro o corpo dele e pulo na direção oposta. Minha boca sangra feito cachoeira, o sangue não acaba. O fundo do meu trapo incha, ganha cor, aos poucos o sangue que sai de meu rabo se mistura à poeira do chão. 

Meu peito está carmesim. Engasgo com o sangue que não para de sair de minha boca. A saliva se mistura e tusso. Meu estômago começa a queimar, e vomito junto com sangue. 

Demos uma nova cor ao chão. Vermelho com grãos cinzentos e gosma amarela esverdeada. Eu tinha que voltar a enxergar neste momento… Vomito mais. 

O desgraçado agarra meus cabelos e empurra minha cabeça contra o chão podre. Grito gemidos, levanto e começo a socar sua cara. O sangue de sua boca salta a cada porrada, pinta todo o meu rosto. Esmurro a boca, não quebrará os dentes, mas dói a gengiva. 

Uma grande poça surgiu com nossos líquidos acumulados. Mexo meu pé descalço tentando me equilibrar, e escorrego. O cheiro azedo arde as narinas, me afogo naquele mar escroto. 

Meu corpo adormece. 

Minha visão permanece. 

Vejo ele fincar seus dentes na minha pele e arrancá-la. Mastiga entre o sangue escorrendo de sua boca. Morde meu pescoço, braço e antebraço, inclina sua cara até mastigar a barriga. Mastiga meu intestino que não se quebra com os seus dentes. 

Volto a mexer a ponta de meus dedos, aos poucos a mão, mas meu corpo desperta, e reclama da dor dessas mordidas. Berro e assumo o controle de meu corpo, abocanho sua orelha e arranco do seu corpo. Minha orelha cai junto com a dele. Gritamos. 

Berramos um contra o outro. Ele esmurra minha cabeça, eu o seu peito. Trocamos agressões, arrancamos a superfície de nossa pele. 

Continuamos a sangrar. Sangramos mais do que mil humanos carregam consigo. 

Sangra, sangra. A gente soca, e sangra mais. Soca, fere a pele. Soca, arranca pedaço. Soca, músculo dói. Soca, berra. 

Ele tira a minha bochecha direita na porrada. Eu abro o buraco no seu coração. Nós dois temos buracos no mesmo lado da bochecha e no peito. É agora ou nunca. 

Venço outra vez esta disputa. Sou o primeiro a pegar o coração do outro. Fecho meus punhos sobre o órgão e o torço. 

Ele desmancha. O sujeito com a mesma aparência que a minha vira pó.  

Supero a maldição por esta noite. A sala escura ganha luz, luz vermelha. A claridade assume a forma de uma águia gigante. Ela consome, abraça e me leva ao mundo fora deste sonho. 

 

— Di. Di! Acorda! 

Abro meus olhos e enxergo Lara sobre mim. 

Ela desaba seu corpo sobre meu peito, encharca o rosto com suas lágrimas. 

Corpo inteiro, não sangro mais. Apenas o suor frio corre pela pele. 

— Então é você? Você era aquela criatura? 

— Sou um amaldiçoado. — Ainda chocada comigo, continuo a explicar: — Às vezes a maldição invade meu sono, tenta me consumir. 

— Amaldiçoados não salvam pessoas.

Ela sorri, e agora sim eu desperto. 

Tento retribuir o gesto, daí lembro da última imagem do sonho: a enorme águia vermelha, a Águia de Sangue. Que inferno! Ela virá hoje. 

Empurro seu braço de leve e ela sai de cima de mim. Pego a cueca e calça mais esfarrapadas e peço privacidade a Lari. 

Saio do meu quarto e vejo seus olhos castanhos curiosos. Desliza uma mão sobre a outra, as pernas cruzadas. 

— Eu preciso sair. Alguém me aguarda, mas eu voltarei, está bem? Não saia daqui. 

— Você vai ficar bem? 

— Vou. — Meu corpo tremeu. 

Ela abre a boca, eu a interrompo. 

— Eu irei sozinho, e vou voltar. 

— Vai sofrer mais? Não quero isso para você! 

— Minha vida é assim agora. Por favor, Lara. Não quero envolvê-la. 

Apoio a mão direita em seu ombro. Ela assentiu, e eu parti para enfrentar a Águia de Sangue. Eu sonhei com aquilo desta vez, algo mais irá acontecer. O que planeja desta vez, Helga?

Eu não vou me render aos deuses!

MiTÓPOLIS (JP Arcanjo)

Alguém pediu por uma história de fantasia urbana com representatividade LGBT, personagens singulares, onze palavrões em cada dez palavras ditas e marés de azar consecutivas? Talvez não, até ler o livro que trago na resenha deste post e ver o quanto é sensacional!

A abordagem de uma mitologia/religião não é o suficiente para refletir o caos das ruas na cidade de São Paulo. Todos os seres fantásticos e deuses existem, ninguém está errado e sobrevivem conforme a crença de seus fiéis.

MiTÓPOLIS é narrado pelo protagonista P, um humano amaldiçoado que se transforma num híbrido de dragão durante a noite. Publicado pela editora Luna Editora em 2018, disponível também na Amazon.

MiTÓPOLIS - capa

Primeiro livro publicado comercialmente de JP Arcanjo. Devorador de livros, idealista e sonhador; conhecido no Wattpad pelos seus livros LGBTQ+.

Meu P não é de paciência

Conhecemos o mundo através do ponto de vista de P, e logo nas primeiras páginas sabemos como é o personagem. Amargurado por sua maldição, mas sempre disposto a soltar as piores piadas em momentos aleatórios.

Novos personagens entram na sua trajetória em meio a confusões e participam na aventura mortal. Mesmo nos últimos momentos há gente nova ajudando o P, mas esses não têm tanto espaço para o leitor conhecer como os demais. Não bastam ser apenas seres fantásticos distintos (cronista, estrela, filhos de deuses…), cada um possui personalidade forte que entram em conflito com a do protagonista. O leitor se diverte com as discussões fora de hora.

Conhecemos um pouco das mitologias indígena, nórdica, grega, egípcia, japonesa; das religiões cristã, budista, wicca e umbandista. Nenhuma crença se prevalece a outra e permanece presente durante a aventura de P. Como se não fosse o suficiente, há ainda um crossover na aventura com o livro de zumbis do escritor John Miller.

Nenhuma representatividade é forçada. Algumas descrições de P têm tendências homossexuais, nada que interrompa o andamento da trama, mas que contribui com a personalidade refletida na narração em primeira pessoa.

Não suporto ver quem eu gosto sofrer sem tomar as dores pra mim

Os plots são recheados de azar constante para P. É incrível observar tantas criaturas e acontecimentos em apenas 200 páginas. Entre discussões calorosas do grupo, a amizade ressoa e mostra o que realmente importa.

[spoiler]

Aconselho o autor a revisar a cena do sacrifício (suicídio). Apesar de no capítulo seguinte já mostrar que não foi nada definitivo, a prática soou como um ato heroico. Mesmo criando um contexto que justifique o ato, insisto em pensar que o suicídio não é uma opção.

A abordagem deste sacrifício pode desencadear atos reais com pessoas que podem tomar uma ideia equivocada com esta cena.

[fim do spoiler]

MiTÓPOLIS retrata as confusões existentes no cotidiano urbano e reflete as dificuldades da vida de uma pessoa através de uma maldição. É possível observar a realidade de muitas pessoas reais sob esta fantasia.

O livro de JP passa uma lição importante aos leitores: a boa convivência entre pessoas, independentes de como elas são.


Livro físico no site da Luna Editora

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