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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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O Auto da Maga Josefa (Fantasia no Nordeste)

O Nordeste do Brasil carrega uma cultura singular. Mesmo nas dificuldades locais, o povo de lá enfeita a vida com danças e músicas, alcança a felicidade enquanto o povo de outras regiões só encontra lamentos, apesar dos privilégios. O ambiente serve de palco ideal à manifestação dos aspectos mais fantásticos do país, onde a luta não tira o sorriso do povo; onde vampiros, lobisomens e chupa-cabras aterrorizam pessoas simples, mas também amedrontam diante do caçador e a filha do próprio Diabo.

O Auto da Maga Josefa conta as caçadas de monstros em estados nordestinos feitas pela protagonista do título e o caçador Toninho. Publicado em 2018 por Paola Siviero através da editora Dame Blanche, os mais diversos aspectos da cultura nordestina manifestam nesta aventura fantástica.

“O peso da peixeira nas mãos nem se compara ao que um caçador carrega nos ombros”

Toninho é filho de caçadores. Seguindo a tradição familiar, ele aprendeu as características das mais diversas criaturas que ameaçam a região com o objetivo de caçá-las, tarefa incumbida logo após provar estar preparado aos pais. Enfrentou e venceu várias criaturas nas caçadas, até sentir dificuldade em capturar e exorcizar certo demônio. Procurando por quem pudesse lhe ajudar, encontra uma mulher de capacidades mágicas, a Josefa.

Josefa é maga, filha do próprio Diabo e já condenada ao inferno quando morrer. Seria mais outra criatura alvo de Toninho, se ela não o convencesse a ajudá-lo naquela caçada, a primeira de muitas em que eles farão juntos ao longo desta novela.

“Além de vampira, é alcoólatra. Desastre em dobro pro sertão”

Cada capítulo corresponde a uma caçada feita pelos dois protagonistas, enquanto dedica a resolver os problemas correspondentes ao episódio, desenvolve a relação entre Toninho e Josefa, personagens tão diferentes entre si que só poderia dar certo. As divergências deles provocam momentos de humor, realizam atitudes quando a princípio jamais um deles faria, e o decorrer dos capítulos os dois caçadores revelam novas intenções.

Bastaria a caracterização excelente dos protagonistas, O Auto da Maga Josefa ainda enche as páginas com referências nordestinas por todo lugar onde a história acontece. Seja na luta de obter os recursos escassos da região, na representação da felicidade humilde perante as criaturas fantásticas, ou até em noites de forró; a autora mescla a aventura de fantasia com elementos únicos, misturados por apenas quem convive com a cultura brasileira.

A edição deixou a desejar na revisão do texto, com diversos erros de digitação presentes, uma ou outra palavra sobrando, e problemas na concordância verbal ou nominal — nesses casos na linguagem do narrador, há problema nenhum quando faz isso com intenção de representar a fala coloquial dos personagens.

O Auto da Maga Josefa surpreende pela representação da cultura nordestina numa aventura de fantasia. A leitura é divertida tanto pelo clima festivo refletido na ambientação, como pelas situações cômicas causadas pelos protagonistas.

“Todo caçador do nordeste que se preze gosta de tapioca!”

O Auto da Maga Josefa - capaAutora: Paola Siviero
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 250

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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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Lobisomem Existe! (Livro Reportagem)

Já realizei pesquisa sobre as características do lobisomem brasileiro e compartilhei neste blog. Enquanto foi divertido conhecer as diferenças do mito tão conhecido na versão internacional, desanimou ver tão pouca fonte bibliográfica sobre os nossos, nem mesmo em livros de ficção. Acredito ser mais pela falta de acessibilidade a esses trabalhos do que a inexistência deles, e com o tempo encontrarei novas referência interessantes, como a da obra analisada neste post.

Lobisomem Existe! é um livro-reportagem com entrevistas dos cidadãos de Joanópolis, muitos afirmando da existência do lobisomem. Publicado em 2001 com nova edição em 2013 sob publicação independente dos autores Paiva Junior e Silvana Godoy, o livro transcreve a conversa dos moradores sobre como conheceram as bestas presentes na cidade.

“Guardávamos um ceticismo que estava prestes a ser derrubado”

Joanópolis é reconhecida como a Capital do Lobisomem. No princípio os cidadãos locais repudiaram o reconhecimento, pois parecia perpetuar a imagem de caipiras ou moradores ultrapassados. Apenas alguns viram a oportunidade de promover a cidade através desta fama, e com o tempo conseguiram atrair interesses por meio deste folclore. O lobisomem passou a ficar amigo dos moradores, representado com aspectos inofensivos de modo a até crianças gostarem da criatura sem sentir medo. Os cidadãos mais antigos e moradores de bairros periféricos da cidade ainda guardam na memória as histórias de quando conheceram o lobisomem. A dupla de entrevistadores foram atrás destas pessoas e pediram a eles relatarem esses eventos com a intenção de transcrever e compartilhar essas experiências peculiares em livro.

“Era mês de agosto, mês do mistério, mês de cachorro-louco e mês do folclore, enfim, mês do lobisomem”

Este livro difere dos outros resenhados pelo blog, pois apesar de tratar sobre criaturas fantásticas, tem nada de ficção. A proposta é registrar os relatos dos cidadãos que conheceram lobisomens. A escrita dos capítulos não é de narrativa, pois descrevem as ações dos autores até encontrar a pessoa disposta a compartilhar sua história relacionada ao mito. A transcrição das falas emulam o jeito de cada entrevistado contar a história, por vezes carregado de sotaque e formas próprias de realizar a narrativa. Os autores também opinaram sobre cada pessoa entrevistada e desabafaram sobre os momentos cômicos tidos com ela.

Muitas características dos relatos batem com a pesquisa feita a partir das obras de Luís da Câmara Cascudo e as demais relacionadas as dele, por outro lado há certas diferenças nos licantropos de Joanópolis, situação comum de acontecer conforme a região. O mais interessante é ver a relação dos moradores com o lobisomem, longe de sentir medo ou ímpeto em feri-lo; o povo de lá reconhece haver um humano por trás daquela fera, e respeita o cumprimento de seu fadário. Continua a respeitar mesmo ao saber a identidade do lobisomem, até realizaram o casamento entre um deles com a mula-sem-cabeça!

A edição peca na diagramação, com determinadas imagens pequenas demais para visualizar e tamanhos da fonte alternados no mesmo parágrafo em determinadas partes. Nada a atrapalhar a leitura, apenas causa pequenos desconfortos ao conferir o conteúdo com informações valiosas ou mesmo divertidas.

Lobisomem Existe! é uma ótima forma de retratar a cultura local através da experiência com o ser folclórico. Adoraria ver mais iniciativas iguais a esta, dedicada a outras regiões e mitos distintos. Todo o país tem muito a ganhar conhecendo a personalidade da outra região de nosso território.

“O lobisomem é um mito universal, mas com características locais”

Lobisomem Existe! - capaAutores: Paiva Junior e Silvana Godoy
Editora: publicação independente
Ano da publicação original: 2001
Edição: 2013
Quantidade de páginas: 145

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Lobo de Rua (Lobisomem nas Ruas de São Paulo)

Nem sempre a fantasia é escapista. Criaturas mitológicas surgem através das abstrações realizadas sob aspectos reais. Além da concepção, a ficção exercita a reflexão e extrapola as abstrações nos mais diversos ambientes, desenvolvem novos argumentos ao ponto exposto pela autora, usa o místico para denunciar a realidade enquanto prepara o terreno propenso a elaborar novas contextualizações.

Lobo de Rua usa conceitos da licantropia sobre a realidade de um morador de rua na capital de São Paulo. Publicado em 2016 por Jana P. Bianchi pela editora Dame Blanche, a novela traz conceitos da história ainda em fase de elaboração pela autora: a Galeria Creta.

“Era o monstro quem estava no comando daquele corpo, e ele só queria comer”

Raul vive nas ruas de São Paulo, é apenas outro rapaz perdido, de mãe desconhecida e invisível à sociedade. Ele sofre a transformação sob a lua cheia, confuso quanto ao ocorrido. Atrai a atenção de Tito, imigrante italiano da mesma espécie de Raul. Adulto bastante experiente, Tito testemunhou outras pessoas no início da transformação antes de Raul, e decide ajudar o rapaz a compreender a maldição contraída e despertada a cada noite de lua cheia, a maldição do lobisomem.

“Perto da lua cheia, o cheiro é simplesmente enlouquecedor”

A novela apresenta as características da licantropia conceituadas pela autora ao longo da história. Todo capítulo começa com trechos do livro Novus Codex Versiopelius, resultado de pesquisa acadêmica pelo personagem Caetano Estrada. Tito explica os outros conceitos enquanto exerce o papel de mentor a Raul, tornando um dos capítulos iniciais densos por exagerar na dosagem das informações. Os capítulos posteriores equilibram os conceitos com a narrativa, põem certas características apresentadas à prova, situa o protagonista ao evento e demonstra as capacidades sobrenaturais dele, bem como as consequências de possuí-las. Somando as condições anteriores da maldição de Raul, as novidades sobrenaturais agravam a realidade vivida por ele.

O mentor encontra dilemas ao acompanhar as dificuldades de Raul, viu tantos carregarem a maldição de lobisomem, e de todos eles o protagonista desta novela sofre problemas únicos além da licantropia. Tito tem muita história, apesar de pouca dela ser trazida nesta novela, insuficiente para justificar a atitude feita no final da história. Este desfecho abrupto surpreende pois foi feito sem levantar muitos argumentos, precisaria elaborar mais situações a Raul, demonstrar outros exemplos da angústia do protagonista enquanto aproveitaria a trazer detalhes da vida de Tito; trazendo assim maior convencimento do ato trágico. Tal proposta é cruel, causaria mais sofrimento ao Raul e por isso até soaria sádica, só a faço porque ficaria condizente com a proposta da novela.

Lobo de Rua traz conceitos conhecidos de lobisomem e elabora outros aspectos relacionados à realidade retratada na novela. Apesar de introduzir ao universo ficcional dos trabalhos ainda por vir, trata de enredo fechado — com início, meio e fim — à história de Raul sob a tutela de Tito, com particularidades capazes de chocar mesmo os acostumados com histórias de lobisomem.

“Como explicar o absurdo da licantropia para alguém cuja vida já carecia de sentido?”

Lobo de Rua - capaAutora: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2016
Quantidade de Páginas: 122

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Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

O Despertar, de Clecius Alexandre Duran

Mês de novembro está acabando, e as postagens especiais também. Eu sei, pode pegar seu lenço e enxugar as lágrimas. Achei uma ideia tão bacana que quero repetir no mês de novembro do ano que vem, então não precisa ficar triste! Alegre-se e sinta o terror com a história de hoje! Exato, dei uma folga a vocês com o conto do convidado passado, e agora volto com tudo neste texto d’A Maldição do Lobisomem.

Clecius aceitou compartilhar um texto no blog. Não é um conto como os demais, mas sim a disposição do primeiro capítulo de seu livro na íntegra neste post.

Autor de dois romances e um conto, Clecius merece aplausos por trazer as histórias viscerais de lobisomem em contraste com as versões amigáveis e felpudas de certas obras, além de trazer a realidade das lendas às cidades brasileiras tanto atuais como na Revolução Farroupilha. É um escritor independente cuja dedicação garantiu um serviço como editor da nova versão de O Brakki, escrito por André Regal e relançado sob o selo Acervo Books. Clecius promete a publicação de um livro inédito de terror, além do terceiro volume da antologia Crônicas da Lua Cheia, histórias que estou ansioso para ler!

Com as devidas apresentações dadas, confira o capítulo O Despertar de A Maldição do Lobisomem. Não se esqueça de seguir Clecius nas redes sociais e conferir seus livros, todos os links estarão após o texto:


Capítulo 1 – O despertar

28/Jul/2015 (terça-feira) – 1º dia do ciclo da lua cheia

CONFUSÃO.   CACOFONIA.   UMA   MIRÍADE   DE   ODORES  se mesclando na escuridão. Cheiros que ele conhece de longa data misturando-se com fragrâncias inéditas ao seu olfato. Os demais sentidos   ainda   estão   entorpecidos.   Os   membros,   paralisados  e dormentes. Este é o momento que ele mais odeia. O Despertar.

Vagarosamente a penumbra da inconsciência se afasta, descortinando o véu da realidade. Ele acorda exausto, dolorido e sentindo-se derrotado. – É sempre assim! – pensa com rancor. Esse é um dos fardos da maldição que ele carrega. Aos poucos, o animal percebe a dor que lhe perpassa o corpo, como uma avalanche infinita de agulhas em brasa. Ainda deitado em posição fetal, ele luta contra a vontade de permanecer imóvel até que cesse o martírio da recente transformação. No entanto, ele sabe que precisa se levantar e pôr-se em guarda.

A criatura bestial estica lentamente cada um dos membros, alongando os músculos e acompanhando cada movimento com um baixo grunhido sentido. Embora tenha vontade de urrar, revelando ao mundo a dificuldade da tarefa posta em execução, o monstro contém o impulso. Ele tenta se colocar em pé, mas falha miseravelmente caindo sobre suas quatro patas, retorcendo-se em intenso sofrimento. O demônio profano sente o aperto dos trapos espalhados por sobre seu corpo. Trapos impregnados com um cheiro que, num só momento, é e não é o seu.

Com o pingar dos segundos que aparentam durar uma eternidade, ele recupera a capacidade de movimento de cada um de seus membros. Um a um. Pouco a pouco. Embora a dor seja excruciante, sua capacidade de recuperação não é menos notável. Com o autocontrole voltando paulatinamente, a criatura rasga os restos das roupas que ainda insistem em se grudar ao torso. Enfim, completamente livre das amarras humanas!

Respirando lentamente e com dificuldade, o licantropo recupera suas forças e sua mobilidade, finalmente sentindo-se capaz de se pôr em pé. Sua altura prodigiosa é capaz de assustar mesmo o mais corajoso caçador e enganaria aqueles que, porventura, tivessem antevisto apenas o animal com a postura contraída e colocado sobre as quatro patas. Ao ficar ereto, o tronco hirsuto e musculoso do lobo se expande, revelando uma espantosa criatura antropomórfica: uma silhueta corporal que lembra um gigantesco ser humano, com exceção da longa cauda e das pernas cujo desenho ainda guarda estrita semelhança com as patas traseiras de sua ancestralidade animal, o canis lupus signatus. Por outro lado, ao arriscar uma olhada de mais perto, a visão de uma cabeça extremamente volumosa coroada com uma grande cabeleira e um par de orelhas triangulares e pontiagudas, além de uma poderosa mandíbula protuberante encimada de um focinho pronunciado, não permitem confundir a hórrida entidade com um ser humano. Sua pelagem escura tem a cor castanha, apresentando no dorso uma lista negra que se estende da nuca ao final da cauda.

Ao seu redor, uma fina película de vapor o envolve, resultado da contraposição do clima frio ao corpo hipertérmico do lobisomem.

Num rápido exame, ele aponta o focinho em direção ao céu e aspira profundamente o ar da noite para se localizar e determinar eventuais perigos à espreita. Assim como o olfato, os demais sentidos da criatura também são mais desenvolvidos, mais sensíveis, embora temporariamente reduzidos pelo recente e turbulento despertar. Ele já conheceu outros predadores. Alguns são aliados, outros não. Alguns são fortes, outros são numerosos, mas todos são capazes de representar um perigo à sua sobrevivência.

Terra úmida, mato recém-cortado e algumas árvores são os cheiros mais próximos. Nenhum perigo imediato foi revelado pelos odores captados. O fedor pungente de urina e fezes de animais menores destaca-se ao olfato. Utilizando a visão que se adapta à noite, como convém ao animal de hábitos noturnos, a fera esquadrinha a escuridão à sua volta, reconhecendo o território e percebendo estar em um local ermo, ligeiramente distanciado das casas e edifícios que rodeiam aquele pequeno perímetro parcamente arborizado. O lobo se encontra numa praça na cidade de Londrina chamada pelo apelido de Zerão em razão de seu formato ovalado. Um pequeno espaço de verde com árvores altas, vegetação rasteira, um amplo gramado e duas quadras cimentadas, encravado no centro da cidade. Junto ao leito do pequeno riacho onde ocorreu a transformação, o lobisomem toma consciência de que se encontra, novamente, cercado pelas construções com luzes artificiais que, mesmo com sua visão acurada, ofuscam o brilho das estrelas. Ele está em território hostil, longe das árvores abundantes de uma floresta ou de um mero matagal, que são seu habitat natural.

Apesar das dores lancinantes e da tontura provocada pelo excesso de informações que seu cérebro busca processar, a criatura tenta caminhar, mas é vencida pela vertigem, tombando de encontro ao chão. A dor em seu estômago aumenta repentinamente e ele sente o latejar de seu esôfago preparando-se para expelir todo o conteúdo estomacal semidigerido: pães, vegetais, frutas e apenas um pouco, somente um pouquinho intoleravelmente diminuto, de carne. A fera caliginosa sabe que precisará conseguir comida de verdade. Uma quantidade generosa de carne para saciar sua fome e satisfazer seu apetite voraz. Mas, antes, precisa livrar-se daquilo que a aflige.

As convulsões, então, aumentam provocando intesos espasmos até que o líquido quente e malcheiroso que se alojava em suas entranhas sobe pela garganta e é arremessado ao chão num jato multicolorido com predominância da cor verde. Uma pasta espessa composta de restos de folhas de alface, arroz, tomate, beterraba e outras folhas, frutos e raízes – que compõem o banquete de uma vaca, um cavalo ou qualquer outro ser nas escalas inferiores da cadeia alimentar, e não o repasto digno de um predador – é depositada no espaço à sua frente, entre seu corpo e um banco de concreto.

O monstro lupino respira com dificuldade em arquejos curtos, ainda não totalmente livre do enjoo.

Um novo regurgitar expulsa o resto da porcaria que ainda lhe ataca o estômago, sobressaindo em sua língua um toque ácido, levemente picante.

Imediatamente, o lobisomem torna a olhar para o céu noturno à procura da posição do pequeno disco prateado. A lua cheia, parcialmente escondida por nuvens escuras, indica, pela sua trajetória orbital, a proximidade da meia noite.

—Ladrão maldito! — é o insulto que cruza sua mente enquanto um nó dolorido lhe aperta a boca do estômago. — Dessa vez, sua beberagem não conseguiu atrasar minha chegada!

Depois de vomitar todo o conteúdo estomacal, o monstro metamórfico percebe o desaparecimento de grande parte de sua fraqueza anterior. A náusea que lhe limitava os movimentos e entorpecia parcialmente seus sentidos aguçados é substituída pelo ímpeto atávico de se alimentar.

A fome o envolve como uma amante antiga e familiar, abraçando todo seu corpo e fazendo surgir uma irrefreável vontade de saciar seus instintos primevos. O licantropo anseia não somente pela carne que lhe arrefecerá o vazio na barriga, mas também pelo sabor cúprico do sangue quente da presa a escorrer por sua boca, encharcando o pescoço.

Obedecendo ao desejo imperativo que lhe é inerente, a fera torna a se erguer sobre as patas traseiras, farejando o ar a fim de perscrutar os arredores na tentativa de localizar uma presa apetecível.

As lendas referentes aos hábitos alimentares da sua espécie ditam que os lobisomens têm especial predileção pela carne humana. Na verdade, esta espécie de predador consome qualquer animal, racional ou irracional, grande ou pequeno. Os animais de maior porte são preferíveis aos pequenos pela maior quantidade de carne oferecida, bem como por darem menos trabalho no momento da caça – os animais menores são excessivamente medrosos, rápidos para empreender fuga e encontram refúgio em diversos locais não alcançados pelas garras lupinas. Se a escolha da presa for entre um coelho e uma vaca, fica-se com a vaca. Por sua vez, a grande frequência do ataque aos humanos decorre do simples fato que esta presa encontra-se em qualquer localidade e com maior abundância. A caça selvagem a que os licantropos estavam acostumados no Velho Continente está incrivelmente escassa. O mesmo acontece em toda a América e no resto do mundo. A fauna abundante que permitia o sustento tranquilo dessas criaturas não mais existe. Em contrapartida, os seres humanos encontram-se disponíveis no cardápio de qualquer local, isolados em pequenos grupamentos rurais ou reunidos em grandes aglomerados urbanos.

Dos  odores  trazidos  pelo  gelado  ar  noturno,  destaca-se  um  suave  perfume adocicado  mesclado  pelo  cheiro  inconfundível  dos  hormônios  femininos secretados durante a gestação. Tal combinação de aromas faz o lobo salivar.

Dentro da espécie humana, os lupinos voltam especial atenção às mulheres em estado  final  de  gravidez.  Embora  consumam  a  integralidade  do  corpo  humano,  o lobisomem  costuma  começar  a  devorar  a  vítima  pelas  entranhas.  Geralmente,  as vísceras são ingeridas em primeiro lugar para atender o especial paladar da criatura. Não é de se estranhar, portanto, a particular preferência pelas grávidas. O ataque a uma fêmea prenhe tem duas vantagens: de um lado, seu estado físico dificulta a escapatória e faz com que oponha menor resistência, facilitando o ataque do animal; de outro lado, há o prêmio a ser saboreado. Embora o lobisomem aprecie o sabor das tripas em geral, o feto, nos últimos meses da gravidez, representa uma iguaria ímpar, um misto delicioso de carne tenra e ossos macios – a versão baby beef na licantropia.

Por sorte ou por interferência do destino, uma mulher grávida caminha em direção à praça. Esta noite, o atalho para chegar mais cedo em casa terá um alto custo…

Transição - Clecius

Sandra pensa que a pessoa que aconselha a caminhada como exercício ideal para as gestantes nunca experimentou o peso extra dos últimos meses da gestação. Além do volume que ela carrega no ventre esticado, seu corpo todo está inchado e sua forma física silfídica, que arrancava olhares de admiração da maioria dos rapazes (e de inveja da totalidade das outras moças), parece-lhe um sonho distante.

Cansada de um dia de trabalho, ela pensa nas tarefas domésticas que ainda tem pela frente e arruma a touca vermelha de lã que lhe escorrega da cabeça. Mãe solteira que vive sozinha, ela tenta melhorar de vida, arriscando um destino melhor que aquele partilhado pelos outros membros de sua pobre família, que se resignaram a permanecer na pequena cidade onde nasceram, com poucas oportunidades de trabalho e nenhuma perspectiva de ascensão social.

Mesmo surpreendida com a gravidez não planejada, Sandra continua a perseverar na busca de seus sonhos.

Naquela noite fria de final de julho, o cansaço e a pressa de encontrar o abrigo do lar modesto fazem-na decidir cortar caminho e, em vez de encarar o trajeto mais longo contornando o logradouro público, a jovem opta pelo precário e mal iluminado atalho. Sua decisão parece-lhe extremamente razoável, pois a trilha encurtada passa pelo meio de um punhado de árvores que, mesmo com fraca iluminação pública na orla da praça, não apresenta qualquer obstáculo.

Ao atravessar a rua que circunda o Zerão, uma vibração se faz sentir no interior de sua bolsa, acompanhada com o pegajoso refrão de uma música viralizada pela internet: “♪ Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego… ♫ Delícia, delícia, assim você me mata!”.

Sem diminuir o ritmo, Sandra saca o pequeno celular e, olhando rapidamente no visor do aparelho, atende à chamada.

— Oi, mãe — ela cumprimenta sem diminuir o ritmo dos passos.

— Oi, filha. Onde você está? — Dona Cremilda indaga deixando um leve traço de preocupação vazar pelas palavras.

Ligeiramente ofegante, Sandra responde com rispidez: – Já estou indo pra casa, mãe. Mais dez ou quinze minutos e já chego lá – conclui, esperando ter colocado um ponto final no colóquio.

— Tá bom, filha. Só liguei para saber se está tudo bem com meu netinho – acrescenta com voz langorosa.

Um carro, com os faróis baixos acesos, passa lentamente na rua adjacente à praça no momento em que Sandra inicia a passagem pela trilha do atalho. A luz do veículo ilumina por um breve relance o trecho em que a iluminação dos postes não alcança o caminho. Sandra procura disfarçar a ligeira preocupação que lhe assalta pensando que nada de errado pode acontecer em tão curto espaço. Uma suave brisa noturna passeia por entre as árvores, fazendo farfalhar a folhagem das copas e acariciando a nuca da jovem com um toque gélido. Um arrepio perpassa sua espinha e Sandra não consegue afirmar se a sensação se deve exclusivamente ao vento noturno. Ela coloca um cacho solto de cabelo atrás da orelha, gesto recorrente sempre que se encontra apreensiva, mas busca um tom de voz leve e relaxado para tranquilizar sua interlocutora.

— Ai, mãe! A senhora se deu ao trabalho de ligar a essa hora só para isso? — questiona fazendo um muxoxo. — O médico disse que demora mais duas ou três semanas. Não se preocupa, não — declara com segurança.

— Ah, Sandrinha… — Dona Cremilda recrimina a filha com um tom magoado. — A gente nunca deixa de se preocupar com os filhos, não importa a idade ou a distância. Você logo vai saber como é… De qualquer forma, só queria saber se estava tudo bem. Vê se descansa,

Sandra pensa ter vislumbrado uma sombra passar pelas árvores, numa trajetória paralela à sua, mas a conversa com a mãe a distrai: – Pode deixar, Dona Cremilda. Quando tiver novidades, eu te ligo. Deixa eu prestar atenção no caminho para não cair nem tropeçar em nada.

— Você está de novo voltando sozinha a pé pra casa? – Dona Cremilda dispara, sem conseguir disfarçar a crítica embutida na pergunta.

— Estou, mãe. Não se preocupa, já estou quase lá – Sandra responde tentando disfarçar o aborrecimento que sente.

Apesar do carinho revelado pela preocupação materna, a jovem se ressentia da suposta sabedoria materna que sempre tentava dissuadi-la de todas as suas escolhas de vida. Se fosse ouvir os conselhos da mãe, Sandra sequer teria saído de sua cidade natal. Assim, sem dar espaço para o início de uma longa e tediosa peroração sobre os perigos da cidade grande, Sandra se despede: – Um beijo, mãe. Depois eu volto a te ligar…

— Um beijo, filha — resigna-se Dona Cremilda.

 

Transição - Clecius

O caçador noturno avalia o rumo de sua presa e, encontra o melhor local de ataque, longe das luzes amareladas das lâmpadas de vapor de sódio dos postes de iluminação pública e dos olhos de eventuais testemunhas. Silenciosamente, como só as criaturas nascidas para caçar são capazes de se movimentar, ele corre pelo interior da praça, tomando dianteira e escondendo-se atrás do grosso tronco de um ipê-roxo, fazendo com que seu contorno sobrenatural se confunda com as sombras. A respiração lenta e compassada do lupino solta pequenas lufadas de vapor no ar da noite, mas nada que possa alertar a mulher sobre a sina que se aproxima.

Com a atenção voltada ao som dos passos que se avizinham e do cheiro adocicado do perfume feminino que se intensifica, o lobisomem contrai os músculos das pernas e permanece com as orelhas levantadas e direcionadas para a origem do barulho ritmado.

Quando o vulto da vítima se encontra no raio de alcance de seu salto, um par de olhos fosfóricos e flamejantes se acende na escuridão e o predador implacável dispara contra a mulher. Esta se vira instintivamente, seguindo o conselho de um sexto sentido atribuído ao gênero feminino, mas é tarde demais. O choque dos corpos faz com que o ar escape dos pulmões da presa, sufocando o grito nascido do horror. Ao ser derrubada, Sandra tenta inutilmente afastar o agressor com os braços, mas sua força é insuficiente para sequer sustentar a pesada criatura, e, antes que consiga recuperar o fôlego para gritar por uma ajuda que nunca chegaria a tempo, um poderoso torno de maxilar e mandíbula com dentes pontiagudos se fecha sobre seu pescoço, torcendo-o até que o estalo como de um galho seco se faz ouvir. O gosto de cobre derretido se espalha pela língua da fera. A adrenalina disparada no momento do ataque ainda se encontra no sangue da mãe-que-não-será quando uma garra peluda abre-lhe o ventre a partir do esterno. Diferente da estória clássica, não é o lobo que é eviscerado. O talho rompe diversas camadas de pele, gordura e músculos até deixar exposta a bolsa amniótica e o feto que ainda se agarra à vida. Sem hesitação ou remorso, o licantropo arranca-o da carcaça abatida, mastigando o pequeno ser que rapidamente se transforma em pedaços sangrentos de carne, deixando rubro o focinho e os cantos da bocarra animalesca. A trituração dos frágeis ossos fetais faz com que o paladar do lobisomem se perca em intenso deleite ao sentir o sabor levemente untuoso do líquido gelatinoso da medula óssea.

Após saciar o primeiro impulso carnívoro, o lobisomem arrasta o corpo inerte para longe da trilha em direção a um conjunto mais cerrado de árvores, próximo ao leito do riacho onde despertou há poucos minutos, e, uma vez nesse abrigo improvisado, termina calmamente seu banquete macabro. Sem pressa, a criatura arranca nacos generosos dos intestinos, desenrolando-os de dentro da barriga aberta de Sandra. Na sequência, o fígado, o estômago e todo o resto do aparelho digestivo são consumidos com volúpia.

Depois de saborear tranquilamente o que restou das vísceras da mulher, o lobisomem inicia o processo brutal de ingestão completa da presa.

Os pequenos ossos das mãos e dos pés estalam como salgadinhos crocantes quando mastigados pela bocarra sobrenatural. Depois de consumir a carne, o predador passa a roer prazerosamente os ossos, procedimento necessário para repor o cálcio utilizado na modificação esquelética ocorrida no momento da transformação arcana.

Sem deixar traços que identifiquem o ataque recente, a criatura alcança dois objetivos: alimentação plena e manutenção do segredo da sua existência. Antes mesmo que lhe seja ensinado, o lobisomem possui um sentido atávico de preservação que lhe aconselha a disfarçar e ocultar o que ocorre durante sua caça.

Terminada a lúgubre refeição, o lobisomem sabe que deve procurar um local afastado das construções humanas. Seu faro indica um caminho arborizado lindeiro ao riacho. Não é a primeira vez que ele se utiliza daquela trilha para escapar para os braços da natureza.

Mas antes de empreender a fuga, com o estômago cheio e inebriado pelo aroma penetrante do sangue fresco, o lobo empina seu focinho para a lua cheia e uiva longamente em cumprimento ao astro que lhe orienta a vida.


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Livros de Clecius

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

O Brinquedo (conto)

O Brakki (editado por Clecius no selo Acervo Books)

Resenhas do Blog

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

A Maldição do Lobisomem (Crônicas da Lua Cheia, Vol. 1)

Mitologias carregam consigo a história e cultura de um povo. Nascido de associações de fatos misteriosos, de certa forma desconhecidos, a criatividade humana dá respostas empíricas, sobrepondo o que pensou ter visto nessa visão pouco assimilada. 

A ficção fornece a oportunidade de demonstrar uma maneira dos seres mitológicos serem reais e quais seriam as consequências desta existência. Ou quem sabe a “ficção” só revela o fato de tais seres vagarem pelas diversas estradas e vilas remotas, ocultos da sociedade para preservar a própria espécie. 

A Maldição do Lobisomem traz esta questão à tona com a criatura licantrópica. Publicado em 2016, é o primeiro volume de uma antologia chamada Crônicas da Lua Cheia, porém narra a história na linha temporal posterior de Ascensão do Alfa. 

A Maldição do Lobisomem - capa

Clecius Alexandre Duran aparece pela segunda vez no blog com uma de suas obras. Atua no serviço público como procurador e adota a sua paixão pela literatura como o segundo emprego. No momento desta publicação ele também trabalha como editor da nova versão do livro O Brakki, de André Regal. 

Com o frio e as trevas das noites iniciava-se, pela primeira vez, a transformação 

Alexandre morava em São Paulo até conseguir um emprego como procurador na cidade de Londrina-PR. Sujeito de poucos amigos e apaixonado por motocicletas, adora percorrer estradas em alta velocidade. Uma dessas viagens velozes causa um incidente, rasga seu colete e arranha sua pele. Sem distinguir o que lhe atacou devido a escuridão da noite e a rapidez da moto, Alexandre jamais imaginaria um ataque de licantropo, muito menos que isso concedeu a ele a Dádiva da Lua, ou A Maldição do Lobisomem. 

Solitário é o alter ego lupino de Alexandre. Tem sua existência concebida nas noites de lua cheia, com a transformação plena ao por do sol e forte influência sobre a consciência do humano no quarto dia do ciclo lunar, e nos demais em horários posteriores da noite. O lobisomem caça as suas presas durante seu curto tempo de aparição, tendo como preferência a carne humana. 

Assim como os lobos, lobisomens agem em conjunto sob ordens do alfa correspondente, mas Solitário nasce longe de alguma alcateia. O grupo do lobisomem Maioral encontra Solitário enquanto sua contraparte humana vagava pela cidade de São Paulo. Tenta manter o novo lupino submisso, com discussões recorrentes entre os dois. 

O licantropo do protagonista ainda sofre outra dificuldade: os seres que compartilham da mesma vida se desprezam. Alexandre adia a transformação de Solitário abusando do chá de acônito, e a falta de aceitação causa dor e sofrimento ao lobisomem em toda mutação. Ambos não estão contentes com a existência do outro, e desejam viver plenamente eliminando a sua contraparte. 

Paródia da TPM, uma versão licantrópica da fúria e mau humor latentes 

A crise entre os protagonistas remete ao clássico da literatura de terror chamado O Médico e O Monstro, inspiração declarada em uma das anotações presentes no livro. Sem um conflito direto, cada ser interrompe a vida do outro à sua maneira. 

Quando o capítulo narra o cotidiano dos lobisomens, humanos deixam de ser seres essenciais da trama, são reduzidos a presas como um animal de gado qualquer.  Sem pressa de contar a história, passa a sensação de como é viver com a maldição, detalha as necessidades, fraquezas e condições de vida em alcateia nem sempre favoráveis para Solitário. 

Duas linhas temporais se mesclam entre os capítulos, uma de 2004 a 2007 e outra no ano de 2015. A linha temporal do passado conta as origens de situações narradas no tempo mais recente. Essas transições poderiam elaborar melhor um leve suspense, mas houve resposta cedo demais em um caso próximo do final. 

Só falta o cara mandar agora escolher entre a pílula vermelha e azul 

Este primeiro trabalho literário de Clecius é uma demonstração de autoficção, pois muitas das características de Alexandre remete ao próprio autor, só exigindo mais trabalho em elaborar as chacinas licantrópicas, espero.

O gosto literário e cultura pop do autor também se reflete nas várias referência expostas no livro. Há algumas citações em que o leitor terá o entendimento prejudicado se desconhecer a obra.

A linguagem empregada pelo narrador é rebuscada demais, diante da realidade retratada do protagonista. Embora o cargo de Alexandre exija uma comunicação formal, a história se passa nos momentos mais coloquiais de sua vida, por isso encaixaria melhor com uma narração com palavras mais comuns. Pelo menos os termos mais elaborados são fáceis de compreender pelo contexto de toda a frase. 

A Maldição do Lobisomem é uma leitura divertida e muito visceral. O livro aborda muitos dos conceitos internacionais do licantropo e soube entrelaçar a trama com esses elementos. Espero que, assim como aconteceu comigo, as últimas páginas arranquem seu fôlego com as garras das palavras que formam o desfecho deste primeiro volume.

Bloodborne (enredo e ambiente)

Jogos conseguem ser cada vez mais imersivos com os recursos atuais. Podem trazer um mundo vivo ou fazer o jogador sentir o que seu personagem encara na aventura digital. Como espectador, o jogador vê o mundo pelo lado de fora, e sua conexão é feita a partir de um personagem, neste caso um estrangeiro também alheio aos eventos da cidade. 

Juntos avançam pelas fases desafiadoras para satisfazer seu objetivo, mas o trajeto traz mistérios sedutores, com grandes consequências caso revelados. São segredos de seres superiores capazes de diminuir os humanos a animais insignificantes frente ao cosmo. Quanto mais desvendamos, maior será o horror. 

Bloodborne foi lançado em 2015. Um RPG de ação com temática horror e sistema desafiante. O jogador deve controlar um caçador e enfrentar criaturas bizarras na busca de uma cura à sua doença desconhecida. 

From Software é reconhecida pelos jogos Soulsborne, entre eles: Demon Souls, trilogia Dark Souls e Bloodborne. Esses compartilham a dificuldade acima da média na jogatina, e possui meios semelhantes de narrar sua história de forma indireta. 

Nascemos do sangue, tornamo-nos homens pelo sangue, somos desfeitos pelo sangue 

Seu personagem é um caçador doente que vê em Yharnan uma esperança de cura. A cidade é conhecida por usar um sangue singular capaz de curar todo tipo de doença, porém ela está quase destruída. Muitos humanos “curados” com esse sangue acabam se transformando em licantropos, bestas perigosas que trazem riscos aos demais. 

Alguns moradores ainda sobreviveram às transformações, e permanecem em casa, protegidos com incenso capaz de afastar as feras de seus lares. Mesmo amedrontados, eles rejeitam qualquer estrangeiro. 

O caçador seguirá sozinho pelas ruas de Yharnan contra os humanos transformados. Silêncio só se rompe com os passos, cortes de lâminas e disparos de revólver com balas de mercúrio. Os civis transformados tentam se defender contra o caçador implacável, rugidos se transformam em gemidos quando são dilacerados. Uma bala de mercúrio no momento certo deixa o inimigo vulnerável a um ataque visceral, mortal à maioria. Tudo isso até alcançar o chefe… 

A música estoura nos ouvidos do jogador quando uma fera gigante pula direto ao campo de batalha. As garras têm longo alcance e arremessam o caçador de um lado a outro. Rugidos da fera colaboram com o terror de sua aparência e resistência aos ataques de um simples humano. Além de estratégia, é preciso perseverança, e quando consegue enfim derrotar o monstro, não fica contente por ter vencido a batalha, mas sim por ter sobrevivido. 

O céu e o cosmo são um 

Bloodborne - céu e cosmos

Bloodborne e outros jogos da From Software oferecem excelente exemplos da técnica “mostre, não conte.” Pouco do enredo é narrado ao jogador, e este só conseguirá compreender o enredo se observar o ambiente, bem como as poucas conversas entre NPCs (personagens não jogáveis) e descrição dos itens adquiridos. Detalhes primordiais se misturam com as convenções de estética e objetos comuns, e oferecem o desafio ao jogador para decifrar a história.

As inspirações de H.P. Lovecraft são bastante evidentes com a imersão ao horror cósmico. Quanto mais o jogador avançar frente aos segredos do jogo, pior ficará. Ter muito discernimento aumenta os perigos de alguns lugares, deixa suscetível ao frenesi, revela seres ocultos aos humanos, e possibilita a presença de caçadores de outros mundos. Algumas ameaças são inevitáveis, outras punem jogadores curiosos ao mesmo tempo que compensam se vencer os desafios, e se ousar ir além: prepare-se, e veja seu personagem sofrer. 

Longe de ser apenas um jogo desafiante, Bloodborne é um vislumbre de ambiente e história de horror. Quem entrar na atmosfera e explorar os aspectos implícitos, será recompensado com novos desafios e temores, mas todos fenomenais. 

A Ascensão do Alfa (Crônicas de Lua Cheia, vol. 2)

O mito do lobisomem é conhecido por todos os continentes do nosso planeta. Há diversas versões sobre a aparência física, comportamento e origens, como a partir de pecados, ausência de batismo, ou através de doenças como porfiria. 

Não faltam referências sobre a fera cujo aspecto causa uma dualidade entre o comportamento humano e racional com a contraparte bestial e impulsiva. O que realmente necessita é de livros capazes de trazer essas referências para a ficção com pano de fundo histórico e realista, melhor ainda quando o faz em terras brasileiras. 

A Ascensão do Alfa cumpre a necessidade citada no parágrafo anterior. Publicado em 2016, trata a história do jovem Sétimo de Carvalho quando passa a enfrentar uma pequena alcateia de lobisomens durante a Guerra dos Farrapos. 

Ascensão do Alfa - capa

Clecius Alexandre Duran é procurador do estado do Paraná e descobriu a vocação na escrita enquanto pesquisava sobre lobisomens. Sua esposa o incentiva com a arte da escrita, e é responsável pela publicação deste livro e da provável continuação desta antologia conhecida como As Crônicas de Lua Cheia, hoje com dois livros lançados. 

Clecius também trabalha — neste momento da postagem — como editor da edição física do livro O Brakki de André Regal. Se ainda não conhece este trabalho, clique aqui e veja a análise do livro digital de André.

Os guerreiros acreditam estar do lado certo da disputa

Sétimo de Carvalho tem mais seis irmãos, todos perdidos na Revolução Farroupilha. Não querendo se acovardar, segue com seu pai numa expedição de tropeiros. Sua determinação supera a falta de experiência, mas o coloca no caminho de vagantes cujos eventos superiores travam o conflito da tropa com a pequena alcateia de lobisomens. 

A alcateia é composta apenas por quatro criaturas. Tchevolku é o alfa vigente, mas a idade o exige escolher o novo líder do bando, tarefa que gera conflitos internos entre os lobisomens. 

A trama ainda aproveita o momento histórico da região com a Guerra dos Farrapos, onde farroupilhas e caramurus têm a infelicidade de encontrar as criaturas. 

Como se não bastasse, há a Ordem dos Cavaleiros de Judas, organização antiga de caçadores de lobisomens. Tanto a organização como as criaturas não desejam tornar a público a existência das bestas, pois quando os humanos se encontram com lobisomens, o perigo para ambos os lados é eminente, além da carnificina garantida.

Acho que vosmecê confunde carência de escrúpulos com coragem

Acompanhamos principalmente a trajetória de Sétimo e o conflito sobre a ascensão do alfa na alcateia de Tchevolku. As duas linhas narrativas se cruzam e formam uma consequência das escolhas envolvidas por esses personagens. 

Livre de escrúpulos nas cenas de batalha, o autor não poupa nas descrições viscerais dos ataques lupinos, reduzindo os humanos a mais uma fonte de alimentação das criaturas. As referências coletadas por Clecius abrange também as limitações das feras, elemento aproveitado pelo alfa em suas estratégias de sobrevivência com o grupo, mas nem sempre respeitadas na alcateia. 

Adorei vislumbrar o regionalismo do lugar e época da história. A escrita das falas reflete no sotaque de forma realista, e as palavras espanholas mesclam as frases dos personagens próximos dos países latinos vizinhos. Diversas notas de rodapé complementam a história com explicações dos acontecimentos reais durante o trecho daquela narrativa. Ascensão do Alfa não conta apenas uma história, mas divulga nas entrelinhas traços do passado nacional nem sempre acessível nas aulas de história no colégio. 

Houve uma falha do regionalismo quanto ao próprio lobisomem. A fraqueza mortal abordada no romance não é característica dos lobisomens do folclore brasileiro. Nos mitos conterrâneos também se diz sobre essas criaturas terem aspectos de cachorro, porco, touro ou cavalo. Não é “errado” inspirar-se nas mais diversas mitologias do lobisomem, só considero o quanto contribuiria com as lendas nacionais nem sempre valorizadas. 

Não tenha medo de se maravilhar com esta obra nacional muito bem escrita e trabalhada. Fiquei com vontade de vislumbrar o primeiro livro desta antologia a qual Clecius dedica e se diverte. Vale a pena conferir!

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