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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Romancista Como Vocação (Haruki Murakami)

Quando o autor idoso possui mais da metade do tempo de vida de carreira na escrita, ele deve possuir algum conhecimento literário. Sarcasmo à parte, toda a trajetória de vida vira fonte de aprendizado quando o escritor decide contar a própria vida, das maneiras e dificuldades encontradas ao insistir em contar histórias. Conhecer as variadas técnicas de escrita criativa é importante, apesar da literatura também ser produzida a partir da experiência, e vale a pena ao menos conferir o trabalho do autor disposto a compartilhá-la.

Romancista Como Vocação é a autobiografia de Haruki Murakami, o autor disposto a compartilhar o pouco que aprendeu na vida. Publicado em 2015 e trazido em 2017 no Brasil através da editora Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras ― sob a tradução de Eunice Suenaga, a escrita fluida de Murakami persiste nas breves passagens de aprendizado.

“Mas por que um escritor tem que ser um artista? Quando isso foi decidido, e por quem? Ninguém decidiu isso”

Cada capítulo consiste em perguntas feitas a ele ao longo da vida, algumas o autor revela sentir intimidado pela incapacidade de respondê-las em poucas palavras. Por mais simples seja a pergunta, ele considera toda a experiência ao responder, precisando de palavras o suficiente a escrever este livro. Combina as respostas práticas com aspectos de sua vida, fala desde o trabalho como dono de clube de jazz à premiação a garantir o primeiro livro publicado, até a carreira internacional a partir das publicações feitas nos Estados Unidos. No meio de toda essa jornada, tem lições a novos escritores sobre as possibilidades de criar histórias e desenvolver a carreira literária.

“Essa é minha opinião, mas isso não muda muita coisa”

Toda declaração presente em Romancista Como Vocação é de cunho pessoal, e Murakami faz questão de afirmar e relembrar disso. O leitor tem a oportunidade de conhecer detalhes pessoais do autor, um resumo da trajetória após garantir várias publicações de sucessos comerciais. Garantiu poucos prêmios, e ele comenta sobre o assunto em determinado capítulo, dá opiniões sinceras sobre as premiações, tudo condizente com as declarações dos demais capítulos, ou seja, passam longe de serem desculpas por deixar de vencer os concursos ― inclusive o prêmio Nobel de Literatura.

Apesar dos fãs de Murakami ainda poderem aproveitar este livro, o conteúdo é dedicado a autores e aspirantes, afinal o foco é óbvio. Só deixa de ser tão claro a utilidade das dicas passadas pelo autor japonês. Os escritores precisam estar dispostos a acompanhar as maneiras encontradas pelo autor de seguir na carreira e avaliar quais delas seriam viáveis na própria rotina. Murakami é restrito quanto as dicas, compartilhando as bem sucedidas para ele, e é honesto ao confessar a inviabilidade de servir a quem ler, inclusive faz comparações a comportamentos dos demais autores japoneses e revela a diferença dele com a maioria. Lembrando da nacionalidade dele, Murakami fez carreira nos aspectos do mercado editorial no Japão ou até em fatores sociais — entre eles o sistema educacional da época —, inclusive lembra o leitor da situação política do país durante sua vida, do Japão em crise após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando começou a publicar nos Estados Unidos teve de adaptar a forma de trabalhar por ser japonês, então cabe ao leitor fazer o mesmo, conferir as dicas e verificar a possibilidade de ajustar a própria realidade, isso caso a dica funcione.

Romancista Como Vocação é um resumo da vida do autor. O conteúdo também convida aos escritores encontrarem os meios de produzir literatura a partir da reflexão das dicas oferecidas por Murakami. São ensinamentos prático e rasos, há livros sobre escrita de melhor conteúdo, escrito por profissionais com experiência em formar escritores, entre eles o trabalho da Francine Prose, enquanto este é limitado a dicas pontuais e ainda incertos da utilidade; ao menos o autor é honesto em afirmar isso.

“Eu já havia me tornado romancista; e a vida é uma só”

Romancista Como Vocação - capaAutor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Ano da Publicação Original: 2015
Editora: Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras
Edição: 2017
Gênero: Não ficção / autobiografia / escrita
Quantidade de Páginas: 168

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Vidas Secas (e a triste história da cachorra Baleia)

Chegamos em outra história onde o espaço vivido pelos personagens os molda. Difícil importar por algo a vir na frente enquanto agoniza no momento presente. Ciente do lugar e da pobreza, faltam escolhas disponíveis a agir, sobreviver neste tipo de vida. Isto na possibilidade de ao menos existir tal escolha, na verdade, tão raras ao ponto de exaltar, divagar nas possibilidades antes da vida lhe forçar no único caminho. Reconhece o papel na sociedade, papel de bicho, sem jamais perder as esperanças.

Vidas Secas moldam a família de Fabiano, sinha Vitória e ― claro ― a cachorra Baleia. Publicado pela primeira vez em 1938 por Graciliano Ramos, o Grupo Editorial Record lançou a edição comemorativa de 80 anos em 2018, dispondo trechos do manuscrito original de cada capítulo rabiscado à mão pelo autor, exceto no conto Baleia, onde a versão final divide cada par de páginas com o rascunho do texto sob edição.

“Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça”

Fabiano perambula pelo sertão junto à família, composta da esposa sinha Vitória, os dois filhos identificados por todo o romance em menino mais velho e menino mais novo, e a cachorra de nome curioso, Baleia. Tinha papagaio também, este já comido pela família, devido a falta de alimento na perambulação. Os pés eram moldados pelos seixos no solo, aliás todo o corpo era moldado na seca. Um dos filhos cede ao cansaço, logo recuperado pela bronca de Fabiano, único meio de encorajar o filho. Eles chegam enfim a algum lugar, em terreno abandonado onde eles ocupam, conseguem trabalhar e manter um teto sobre as cabeças. Conquistam alívio, pena encontrar novas dificuldades em breve.

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo”

O romance veio a partir de Baleia, de início era o conto isolado, até depois inspirar Graciliano a rabiscar mais capítulos sobre a família de Fabiano. A cachorra humanizada pela narrativa sofre os últimos momentos de vida, confusa de tanto sofrimento sob o punho de quem sempre lhe cuidou e tratou feito família. A escrita esboça o medo sentido pela personagem, a reação dela com toda a dor, e finaliza revelando o desejo dela, deixa o fim implícito para o leitor sentir o desfecho da coitada. Igual a raposa de Ninho de Cobras, a cachorra sofre a descoberta da tragédia, e a história desta repercute na criação dos demais capítulos, de certo modo sendo contos entrelaçados na mesma narrativa, sobre os acontecimentos anteriores e posteriores deste episódio da Baleia.

Quanto ao resto da narrativa, é sobre a história de toda a família. Dedica capítulos/contos dedicados a cada personagem, bem como alterna o ponto de vista de um a outro entre os parágrafos. Fabiano toma a maior parte da narrativa pela proporção da responsabilidade. Seus defeitos são explorados na história, sempre lembra da família a cuidar diante das oportunidades perdidas por causa dela. Sinha Vitória tem as devidas responsabilidades, além de sobreviver por meio de desejos e da sabedoria a qual Fabiano aprende admirar. E sobre os filhos, é melhor ler o final do livro e descobrir por conta própria, admirar a esperança resiliente mesmo nas dificuldades impostas.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha”

Capítulos breves e de pouca quantidade provocam o defeito do livro em ser curto demais. Por nascer do conto, o autor acrescentou mais narrativas breves até formar a história estreita, restrita à família. Vê pouco além dos personagens principais, apesar do ambiente bem explorado. Ao ler as passagens de cada membro da família, já tem a consciência de a história logo acabar, e disso vem o desejo negligenciado de ler mais sobre Fabiano e companhia pelas poucas páginas restantes.

Vidas Secas demonstra domínio em impor peso dramático sobre os ombros dos protagonistas. A escrita reflete no comportamento dos personagens, os deixam próximos ao leitor e faz este imaginar toda dificuldade passada por eles, com oportunidades humanas tão escassas, que por vezes passam a viver feito animais. Ao mesmo tempo atribui humanidade à cadela quiçá mais importante da literatura brasileira.

“A catinga ficaria verde”

Vidas Secas - capaAutor: Graciliano Ramos
Publicado pela primeira vez em: 1938
Edição: 2018 (especial de 80 anos)
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: ficção regional / clássico
Quantidade de Páginas: 320

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Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Existe algo em comum entre a categorização desta obra em romance moderno e a repercussão após a publicação: incitou discussões interessantes sobre quedas de paradigmas. No primeiro caso há a disputa com livro Dom Quixote quanto a qual dos dois inaugura como romance moderno, no segundo tem acusações direcionadas ao autor por transgredir conceitos já estabelecidos, seja provocar paródias sobre romances de cavalaria ou desnudar o adultério em meio a críticas à moral cristã e demais insinuações de deboche do autor. As qualidades vão além dessas, como será visto ao longo desta resenha.

Madame Bovary é a obra geradora de polêmicas e qualidades literárias. Publicado pela primeira vez em 1856 por Gustave Flaubert e com edição em 2007 pela editora Nova Alexandria sob a tradução de Fúlvia M. L. Moretto, conta da rotina provinciana em vila remota francesa e das aventuras de adultério cometidas por Emma Bovary.

“Aliás, não era ela uma mulher da sociedade e uma mulher casada? Uma verdadeira amante, enfim?”

Primeiro apresenta Charles Bovary desde a infância, um garoto tímido com dificuldade de falar o próprio nome, incapaz de conquistar reconhecimento ao longo da vida. Mesmo depois de estudar medicina, conseguiu apenas graduar como oficial de saúde em vez de doutor, e ainda assim com dificuldade. Segue na vida adulta, ausente de acontecimentos extraordinários. Tem uma esposa, cujo matrimônio dura pouco pela morte abrupta dela. Viúvo ainda jovem, trocou olhares com a Emma, filha do cliente Sr. Rouault, e logo realizou o novo casamento.

Deste momento em diante a Sra. Emma Bovary ganha espaço na narrativa. Ela sofre infelicidades a princípio difíceis de reconhecer, pois o matrimônio soa diferente dos muitos conferidos por ela nos romances literários. Alcançava algum prazer na vida quando interagia em ambientes alheios aos do marido, desejando tê-los com mais frequência e assim conhecer mais pessoas interessantes, homens interessantes… Primeiro com León, e com Rodolphe fica mais intenso. Ela cede à loucura de romper o compromisso fiel e sucumbe no amor vindo de alguém diferente a quem prometeu amar.

“[…] considerava a música menos perigosa para os costumes do que a literatura”

O foco narrativo alterna durante o romance, e isso acontece de um parágrafo a outro, focando também nos demais personagens além do casal protagonista. A mudança de perspectiva adapta não apenas o que o personagem focado presencia, mas ainda reflete o pensamento dele, expõe a opinião sobre determinado assunto conforme a experiência de vida, esta também relatada quando preciso. Nenhuma mudança de foco ou abordagem é explícita, cabe ao leitor perceber as nuances conforme a leitura, favorecendo assim o ritmo narrativo, interessado em mostrar a história.

Tal cuidado permanece na forma de conduzir as descrições, oscilando entre diálogos expostos ou descrevendo a fala do personagem no mesmo parágrafo, este último é na verdade um recurso com que garantiu reconhecimento ao autor pelo uso do discurso indireto livre, aproveitado em obras posteriores ao constatar sua eficiência. Assim uma cena com inúmeros personagens interagindo e conversando poderia ser escrita sem precisar de cada passagem dita em diálogo, fundindo falas com a narração, pintando tudo num mesmo quadro ao invés de desmembrar a imagem descrita em parágrafos quebrados.

Ambientado em vila humilde, a história tem propostas e críticas ousadas na época quando foi publicada. Discute as mudanças políticas após a Revolução Francesa conforme as interações entre os personagens for oportuna. Provoca ceticismo ao cristianismo a partir de determinado personagem numa época e país em que desenvolveu o iluminismo. Já a trama central nem precisa de comentários, a de tornar protagonista uma mulher adúltera, uma afronta aos bons costumes! Além de outras segundas intenções pontuais, sempre a implicar a sociedade pretensa a manter as aparências sem esforçar em corrigir as condutas quando elas estão ocultas.

Madame Bovary é um trabalho de destaque em seu tempo por transgredi-lo e sugerir novos meios de contar uma história. Dentre outras qualidades, abriu oportunidades a romances posteriores em arriscar, questionar valores vigentes por meio do exercício literário.

“Ela bem que gostaria de apoiar-se em algo mais sólido do que o amor”

Madame Bovary - capaAutor: Gustave Flaubert
Ano de Publicação Original: 1856
Editora: Nova Alexandria
Edição: 2007
Tradutora: Fúlvia M. L. Moretto
Gênero: ficção / clássico
Quantidade de Páginas: 360

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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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Melhores XPs Literários de 2019

O momento chegou! Deixamos o ano atrás, agora um tempo apenas de lembranças e muitas leituras, as quais algumas destacam entre os melhores XPs Literários de 2019. Oitenta ― sim, oitenta ― livros finalizados recebem a oportunidade de entrar em destaque nesse ano recém acabado, na verdade parte desta quantia já foi considerada e entrou no pódio do blog Ficções Humanas, e aqui os livros competidores devem ter passado por resenha neste blog ao longo de 2019,  e isto ainda deixa a disputa acirrada, com mais de cinquenta competidores!

A lista funciona igual o ano passado, primeiro vem a lista das melhores leituras do segundo semestre de 2019 com breve comentário do motivo de ser o melhor, então ao fim da postagem tem a lista definitiva dos melhores do ano, levando em consideração os livros eleitos no primeiro semestre. Sem mais delongas, vamos aos finalistas do segundo semestre:

10 – Lovestar

LoveStar - resenha

Esta ficção científica tem argumentos tão inteligentes a ponto de virar insanos! A sanidade foge da descrição do autor ao elaborar conflitos absurdos a partir da tecnologia imaginada pelo autor. Deve aproveitar a leitura com a mente aberta, assim desfrutará dessa escrita maluca e ainda assim entendível ― quer dizer, certo ponto da história fica inviável compreender dado o nível da maluquice, mas faz parte da experiência.

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9 – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Só mesmo um autor brasileiro muito criativo poderia escrever esta história steampunk tomando personagens de obras clássicas da ficção nacional. A escrita reflete na época onde a história acontece, desde a ortografia até o modo de falar dos personagens, e o autor ainda ousa alternar a narrativa em primeira pessoa de um a outro, moldando as frases conforme a personalidade do narrador e do meio onde é gravado esta narrativa epistolar. É uma viagem literária por meio das obras homenageadas.

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8 – A Balada de Black Tom

A Balada de Black Tom

“Se tanto critica, por que não faz melhor?”, um argumento tosco por ignorar a capacidade de crítico que desenvolve qualidades distintas as do autor cujo livro foi analisado. Pelo menos serve quando compara outro autor, e Victor Lavalle de fato entregou uma adaptação capaz de superar a inspiração original. A Balada de Black Tom reconta a história de O Horror em Red Hook, usando dos personagens originais além do protagonista elaborado pelo Lavalle ao apresentar a perspectiva da pessoa negra na história do universo de Lovecraft, tece críticas ao racismo do autor e reaproveita os elementos deste ao criar a sua versão da história.

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7 – O Gato Preto

O Gato Preto - resenha

Igual o anterior, reaproveita a história clássica de terror, desta vez a adaptando aos quadrinhos. Imagens e textos se complementam ao pintar a história do narrador condenado à morte, atormentado pelos simbolismos trazidos pelo seu animal de estimação tão amado. A história oferece informações ao leitor e deixa outras em aberto de propósito a permitir cada um tirar suas conclusões enquanto vê as ilustrações criativas, nascidas da inspiração do conto original.

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6 – Um Banquete Para Deuses Mortos

Um Banquete Para Deuses Mortos - resenha

E Gleyzer Wendrew aparece em outra lista entre os melhores do semestre com esta história sobre  o vampiro Drácula, um ser considerado deus nesta história. Uma história curta de enredo composto de forma criativa pelo autor, sem deixar de lado as qualidades descritivas quando trata de contar como o sangue flui sob o ataque das vítimas dilaceradas.

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5 – Desafiadores do Destino

Desafiadores do Destino

Outra HQ conquista esta lista, e ao lê-la é fácil perceber os motivos. Esta aventura steam fantasy é rica em mitologia ao criar a trama onde o grupo de guerreiros deve cumprir sua missão enquanto divide os quadros para apresentar o contexto deles, e ainda assim consegue entregar do melhor e na medida certa.

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4 – Sons da Fala

Sons da Fala - Resenha

Foi o conto de estreia do Projeto Cápsulas da editora Morro Branco, jamais poderia começar com escolha melhor. Responsável por trazer as histórias de Octavia E. Butler no Brasil, vemos em Sons de Fala as qualidades narrativas da autora nesta história sucinta, de descrição objetiva e ainda capaz de chocar. Ainda leu nenhuma história da Octavia? Aproveita este conto disponibilizado de graça pela Morro Branco e conheça as qualidades da autora.

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3 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas - resenha

Um personagem contando a própria história depois de morto, é esta a premissa do livro de Machado de Assis que soube aproveitar da situação criada e elabora a narrativa distinta por conta da perspectiva excepcional do narrador. Mesmo sendo publicada gerações atrás, ainda é capaz de divertir ao acompanhar os relatos ditos pelo protagonista no ponto de vista enviesado dele, possibilitando interpretações conforme o assimilado pelo leitor, e o próprio Brás Cubas brinca com isso em certos capítulos, supondo reações dos leitores ao longo do livro.

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2 – O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa - resenha

Aqui destaca duas qualidades dos autores brasileiros: a criatividade e o regionalismo nacional. A história acontece em alguns lugares do nordeste brasileiro, com situações cheias de fantasia, capaz de proporcionar ótimos momentos de humor sem deixar de denunciar as dificuldades vividas pelas pessoas locais.

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1 – S. Bernardo

S. Bernardo

Falando do nordeste, um autor alagoano conquista o primeiro lugar das melhores leituras do semestre. A história de S. Bernardo acontece no interior de Alagoas, narrada pelo próprio protagonista em busca de refletir atitudes passadas. Graciliano Ramos nos entrega o protagonista não para concordar ou inspirar, a proposta é refletir as questões envolvidas ao homem de campo, este influenciado a agir feito tal, e capaz de agir além quando tem mais oportunidades, apesar de ainda possuir pouco discernimento.

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Menções Honrosas:

Ninho de Cobras: entrega narrativa singular, desafiante e moldada com a intenção da prosa do autor
Favela Gótica: mistura os monstros mitológicos com as camadas sociais brasileiras de modo claro e excepcional
Adágio: pelo ótimo uso da ficção científica ao tratar de assuntos vigentes

Uma lista diversa, com certeza! De sci-fi a terror; quadrinhos, romances, e até conto. O mais impressionante: os três primeiros colocados do semestre são livros nacionais! Sem parcialidade, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Paola Siviero demonstraram qualidade na escrita a ponto de serem bem elogiados nas resenhas e tiverem pontuação máxima no Skoob e Amazon por mim. É um orgulho ver livros de conterrâneos conquistando as primeiras posições, sendo um deles ainda de autora contemporânea. Quem sabe em 2020 o pódio seja de autores brasileiros atuais? Será difícil, pois ainda pegarei livros de brasileiros clássicos e valiosos, bem como excelentes romancistas estrangeiros; o melhor a fazer é torcer.

Os melhores de 2019

Antes de dar a lista definitiva, lembremos dos finalistas do primeiro semestre, os quais competem com os dez destacados acima:

10 – A Arte de Escrever
9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1
8 – Mago e Vidro
7 – Ordem Vermelha – Filhos da Degradação
6 – A Pirâmide Vermelha
5 – Para Ler Como um Escritor
4 – A Revolução dos Bichos
3 – Fahreinheit 451
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

Sem quadrinhos e nenhum clássico brasileiro, e os concorrentes continuam sendo de peso. A hora é agora, as melhores experiências de leitura do ano 2019 são:

Melhores XPs Literários de 2019

5 – Fahreinheit 451
4 – O Auto da Maga Josefa
3 – S. Bernardo
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

E os melhores do primeiro semestre conquistaram os dois primeiros lugares de todo ano. Parabéns ao Ian Fraser por ser o autor brasileiro que mais chegou longe na classificação. E uma congratulação excepcional à editora Morro Branco por enfim trazer essa duologia da Octavia E. Butler ao Brasil, vinte anos após a publicação original nos Estados Unidos ― antes tarde do que nunca ―, e só agora tivemos a oportunidade de conhecer sua escrita, destrinchando críticas sociais, ambientais e políticas por meio desta distopia em dois volumes.

Por hoje é só. No fim deste semestre veremos quais leituras se destacarão ao longo de 2020. As expectativas são altas, pois a literatura é igual o universo, infinito em obras com qualidade excepcional.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Editora Antofágica)

A quantidade de grandes obras capazes de eternizar escritores consagrados em seu tempo e nas eternas gerações póstumas pode assustar o leitor contemporâneo. Por outro lado esta parcela de autores corresponde ao número ínfimo dentre os diversos nomes já existentes nas capas de livros, porém esquecidos com o tempo ou cuja qualidade falhou em predominar na atenção da nova geração. O livro em questão é exemplo de autor eternizado e ousado, pois traz a narrativa feita por um defunto, pois começa a história quando este já está morto.

Memórias Póstumas de Brás Cubas traz o realismo literário através das palavras sobrenaturais de um cadáver. Publicado pela primeira vez em 1880 e com nova edição em 2019 pela editora Antofágica, a obra persiste na recorrência correspondente na qualidade, além de homenageada em ilustrações de Cândido Portinari inclusas entre os capítulos.

“Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”

O livro começa com a indagação do narrador/protagonista sobre a maneira de contar a própria história, considerando de ele já estar morto. Assim revela ao leitor sobre a situação dele, do sujeito morto disposto a contar sua história de vida, ponderando começar pelo início ou já no fim. Após a decisão, descreve como foi o enterro presenciado por poucos amigos e mulheres em menor quantidade, essas coadjuvantes essenciais da narrativa ao longo dos mais de cem capítulos breves deste livro.

“Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos”

A obra é ímpar a ponto de o fato de ser romance ou não estar subjetivo ao leitor. O próprio Brás Cubas considera os dois tipos de leitores de opiniões opostas ao buscar satisfazer ambos com este trabalho. Aconselho encarar a leitura diferente a de romance, assim possibilita desfrutar das situações contadas pelo protagonista sem critério de continuidade senão o próprio tempo cronológico e sem esperar aquela evolução nos agravamentos de conflitos. Até surge empecilhos quanto ao desejo do personagem, com pontos de virada recorrentes ao romance, situações acontecidas mais a partir do meio da narrativa, e deste jeito frustra caso espere tal abordagem desde o começo conforme os livros comuns de ficção.

Machado de Assis foi além de conceber a ideia do narrador cadáver, pois aproveitou desta situação em toda a narrativa. Criou alguém disposto a falar sobre si com toda a consciência adquirida sobre a vida, capaz de narrar a história desde o nascimento e contar detalhes jamais percebidos quando era bebê ― ou pelo menos impossível de expor naquele momento da vida. Sempre deixa claro que é o Brás velho e morto contando sobre ele mais novo, a prosa em primeira pessoa ganha aspectos do narrador onisciente comum à terceira pessoa.

“Advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto”

Brás Cubas aproveita da ousadia e elabora capítulos singulares. Nada narrativos, quebram a expectativa do leitor e entregam passagens divertidas no meio da leitura ou mesmo grandes reflexões elaboradas em poucas palavras. Também puxa conversas com o leitor, sugerindo a reação dele com o texto lido ou prestes a ler no capítulo seguinte. São leitores concebidos na imaginação de Brás, presumindo de ter a própria obra lida por poucas pessoas, e a partir desta concepção se permite ter maior intimidade em fazer tal interação. A realidade é outra, pois foi lido por inúmeros leitores verdadeiros e de gerações posteriores, com diversas bagagens literárias e pensamentos improváveis de corresponder à sugestão do protagonista, mas dizem muito mais respeito ao próprio Brás Cubas; ou seja, mostra mais de si ao puxar conversa com os leitores.

Memórias Póstumas de Brás Cubas possui diversas qualidades capazes de tornar o livro difícil de soar maçante mesmo aos leitores acostumados com a leitura atual. Os termos e referências recorrentes da época são explicados nas notas de rodapé desta edição publicada na Antofágica, úteis na compreensão do texto conforme o período escrito e limitados a isso, deixando o leitor livre a assimilar os demais aspectos da obra.

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”

Memórias Póstumas de Brás Cubas - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Ano de Publicação Original: 1880 em fragmentos na Revista Brasileira, e reunido em livro em 1881
Editora: Antofágica
Edição: 2019
Gênero: clássico brasileiro / romance realista
Quantidade de Páginas: 480

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Terminei o NaNoWriMo, e Agora? (A jornada da revisão)

Começo saudando aos escritores valentes, dispostos a encarar o NaNoWriMo, desafio de escrever um romance no mês de novembro. Parabéns! Independente de terem concluído o romance ou não, já foi ótimo participar. O desafio permite repensar a rotina de escrita e avaliar o quanto esta atividade é importante ao escritor. De meta ousada, cobra além da realidade disposta à maioria, nem sempre por desleixo, comodidade ou falta de vontade; todo indivíduo tem responsabilidades que precisam priorizar ao garantir a renda particular ou até da família, algo garantido pela carreira literária apenas a mínima parcela de escritores consagrados.

Eu terminei a nova tentativa de romance. Com total de 40 mil palavras, cheguei próximo à meta de 50 mil do NaNo, e mesmo assim encerrei a jornada antes do mês acabar. Eu planejei o romance nos meses anteriores e já o considerava a história curta desde o começo, inclusive previ esta quantidade de palavras. Minha justificativa foi pelo elemento sobrenatural demorar a aparecer na história, e se esta fosse maior ainda, poderia desanimar os leitores a encarar longas páginas até ver o elemento central do gênero. Afinal não sou nenhum Stephen King nem qualquer outro autor que tenha feito algo do tipo depois de comprovar qualidade na escrita mesmo prolixa. Quando for retomar este romance, avaliarei a necessidade de incluir novas cenas após a aparição sobrenatural.

E falando em retomar, o objetivo deste texto é este mesmo: o que fazer depois de terminar o romance iniciado no NaNoWriMo? Listo as etapas as quais pretendo cumprir, talvez alguma seja interessante a você, colega participante do NaNo ou colega escritor, sobre como lidar com o livro depois de concluído o rascunho do manuscrito. Longe de te impor a imitar os meus passos, a intenção é incentivar a ter ideias, maneiras de lapidar a partir do que ver aqui. Também esteja a vontade a compartilhar na seção de comentários caso pretenda fazer algo diferente.

Qual trilho seguir? - NaNoWrimo

Há mais de um caminho depois do NaNo

Após NaNoWriMo: Edição, Leitura, Revisão, Revisão e Revisão

Sim, o processo seguirá próximo desta ordem. Digo próximo pois a primeira revisão e leitura podem acontecer no mesmo período, enquanto as demais etapas acontecem entre intervalos de tempo. Trabalhar no romance de forma constante poderia desgastar o autor e até viciá-lo no texto, deixando passar erros crassos na hora de submeter a futuros avaliadores, por vezes sobrar até mesmo aos leitores, dependendo do preparo antes da publicação.

Apesar disso, já estou realizando a primeira etapa, a edição. Na verdade são edições específicas, pois determinadas partes do texto foram escritas sem ater aos detalhes de cenário. Demarco os pedaços a averiguar com citações entre colchetes — [desta forma]. Já vi autores destacando de outras formas, como colocando uma palavra particular quando precisa editar e colocar mais detalhes depois, seja “melancia” ou “elefante” no meio do texto, por exemplo. Prefiro do meu jeito, não por eu ter receio de colocar de fato um elefante no meio da ambientação agreste do meu romance e acabar confundindo na hora de editar, o faço por ter a liberdade de esclarecer ao eu do futuro o que preciso arrumar em determinada parte do texto. Na verdade eu coloquei colchetes inclusive neste texto, esses vistos e editados antes de agendar a publicação da versão final no blog.

Elefante ou colchete - NaNoWriMo

Elefante ou colchete: escolha sua caçada

Foi inevitável plantar colchetes no romance. Por mais pesquisas prévias feitas, sempre tem algo na hora da escrita mais específico, exige mais estudo. Ainda mais neste caso por eu escrever este romance de contexto histórico, diferente no quesito tecnologia, costume, vestimenta, político e outros capazes de interferir no romance. Considero desnecessário guardar o texto na gaveta neste momento por eu cuidar apenas de pedaços pontuais da história, na verdade aparando as pontas deixadas na escrita contínua para de fato terminá-la, depois deixo intocado por pelo menos um mês antes de realizar a revisão.

Pausa, preparo, ação!

O manuscrito descansa na gaveta, já eu prossigo na labuta sobre a escrivaninha. Jamais pararei de escrever, continuarei elaborando resenhas, escreverei novos textos ao blog conforme necessidade, e tentarei elaborar contos capazes de participar em alguma seleção de antologia no próximo ano. O mais importante é continuar escrevendo, manter a atividade e evitar a hibernação, senão sofreria ao começar outro projeto de escrita ― já aconteceu comigo, quem nunca?

Também vou aproveitar este intervalo para começar as leituras de livros capazes de me ajudar a avaliar certos pontos executados no romance. Já comentei haver elementos sobrenaturais e do romance contar a história no ambiente agreste. Também disse de ter contexto histórico, sendo mais específico, referente a primeira metade do século XX. Então por ser obra de ambientação brasileira e com aspectos de fantasia, tenho em mente os seguintes livros de referência futura: A Fúria dos Reis, livros de Graciliano Ramos no geral, e Madame Bovary.

Ler e Aprender - NaNoWrimo

Ler e Aprender

É fácil reconhecer o motivo de ler Graciliano Ramos, por conta da abordagem regionalista de seus trabalhos; também o lerei por ele ser escritor alagoano, mesmo estado por onde acontece a maior parte de minha história. Já li S. Bernardo antes do NaNo e aprendi aspectos da ambientação já incluídos nesta jornada da primeira versão do manuscrito, inclusive usei termos locais aprendidos na leitura, e pretendo aprender mais elementos alagoanos direto da pessoa que viveu em período próximo ao do romance e do lugar correspondente.

E o que essa fantasia medieval e o clássico da literatura francesa poderiam ajudar na revisão do meu livro? Na verdade é por eu usar certos recursos narrativos e pretendo revisá-los a partir de obras reconhecidas por esses. A Fúria dos Reis será útil para eu ver como George R. R. Martin focou na perspectiva de cada personagem. Executei a narrativa em terceira pessoa focada apenas no personagem principal, e por George Martin alternar todo o calhamaço em diversas perspectivas, terei vários exemplos de abordagem por meio de um mesmo livro. Já li este segundo volume das Crônicas de Gelo e Fogo e até o elegi entre minhas melhores leituras de 2018, mas como retomei a leitura da saga desde o começo, aproveito e atendo duas metas na mesma leitura.
P.S: Não garanto eleger A Fúria dos Reis entre as melhores leituras de novo, pode ter outros livros espetaculares na concorrência.

Agora sobre Madame Bovary, foi por ter ousado ― confesso eu ser meio teimosos quanto a isso ― usar o discurso indireto livre enquanto escrevia. Já tentei fazer isso no meio do NaNoWriMo passado, gostei da ideia apesar de reconhecer a necessidade de aperfeiçoar. Por isso preciso recorrer a ótimos exemplos desta abordagem. E qual seria melhor senão o provável pioneiro do discurso indireto livre? Claro, posso pegar outros bons exemplos a usar deste recurso, caso conheça algum, indique nos comentários!

Revisar, revisar, revisar…

Ainda estarei lendo esses livros de referência ― e outros pela demanda por escrever resenhas para dois blogs ― quando começar a realizar a primeira revisão, quando farei leitura atenta do meu texto. Pretendo caçar os erros mais absurdos de ortografia, apesar do foco estar em avaliar o ritmo da história, segmento e prováveis furos de enredo, bem como analisar onde posso acrescentar novas cenas e onde devo tirar. Muitas ideias “extraordinárias” na hora da concepção do manuscrito podem ser desnecessárias na verdade. Mesmo adorando determinado elemento, preciso atentar à importância no todo, e descartá-lo caso falhe; em suma, devo matar meus queridinhos.

A segunda revisão é a mais trabalhosa, pelo menos o retorno vale a pena por transformar o texto de rascunho em obra literária ― ou pelo menos tentar. Tenho uma lista de palavras as quais caçarei capítulo por capítulo e diminuir a reincidência delas ao máximo possível. A intenção vai além de prevenir a repetição de palavras na versão final, pois também podem comprometer o ritmo da leitura ou entregar experiências rasas ao leitor.

Parte da lista corresponde aos verbos de pensamento, item já criticado neste blog. Pela narrativa focar na perspectiva do protagonista, é melhor deixá-lo ativo, participar da história em vez de ele ser o espectador daquele mundo. Por isso ele sempre deve agir, demonstrar sentimentos em vez de citá-los ao leitor. Aqui também entra o uso do discurso indireto livre, pois há perspectivas do protagonista interessantes de expor, e nem por isso devo ficar dizendo ao leitor que Nicolas pensou isso, imaginou aquilo; posso tornar essas passagens mais agradáveis, misturá-las ao texto em vez de alternar entre parágrafos de ação e de reflexão.

Expor ideia - NaNoWriMo

O romance não é um arquivo de slides que informam as ideias dos personagens

Ainda a evitar de tornar Nicolas o espectador da própria história, outra parte da lista refere a verbos correspondentes aos sentidos humanos. Nicolas não vai apenas olhar, ouvir, sentir e cheirar o mundo ao redor, precisa interagir com o ambiente. Caçarei essas palavras para garantir a maior interação possível e garantir um mundo vivo. Passamos da época quando os textos literários deviam desenvolver parágrafos rebuscados de descrição estática, quer dizer, o escritor contemporâneo pode fazer isso também, só lembre de considerar o risco de atrair menos leitores com esta abordagem.

Já a terceira revisão seguirá no ritmo da primeira. Depois de editar tantas vezes o livro, é melhor prevenir de possíveis desleixos de escrita que passaram despercebidos durante as alterações. Ainda pode haver pontas soltas, algumas criadas com essas edições ou ainda despercebidas desde o começo, então irei à caça delas!

Com tanta revisão assim, preciso ter cuidado. Posso comprometer a história caso eu mude muitas cenas, muitas vezes. Pode ser sinal de falha no planejamento de enredo, ou exagero de minha parte devido a insegurança em trabalhar no romance. Por isso defini essas três revisões e o respectivo objetivo delas, assim tenho ideia de onde pretendo mexer e fico ciente de quando parar. Também pretendo submeter o texto a uma análise profissional, com alguém capaz de ler meu romance sem os meus vícios e conseguir apontar onde de fato continua ruim. Ao passar desta etapa, é possível correr atrás da publicação do livro nascido no NaNoWriMo.

Epílogo

A jornada do NaNo é ínfima ao que ainda está por vir. Acredito da maioria dos autores amarem o romance escrito por eles, e esse amor deve refletir ao cuidado semelhante ao próprio filho, dá muito trabalho criá-lo, de vê-lo engatinhar até viver independente, longe do papai para as livrarias físicas ou onlines. Aproveitando minha citação a Madame Bovary, o autor Gustave Flaubert demorou seis anos até concluir este romance, cujo tempo foi previsto por ele; e essas etapas citadas podem nem durar um ano inteiro, então todo esforço ainda resulta da prática humilde comparada a um dos trabalhos canonizados pela literatura clássica. Se ainda assim acha ser demais ter tanto trabalho a frente ― ou do quanto empenhará no seu romance através de outros meios ― lembre: o mais importante já fez através do NaNoWriMo: começou a escrever sua história.

S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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Ninho de Cobras (Uma História de Maceió)

O texto literário contém narrativa desenhada com palavras combinadas através do estilo pretendido pelo autor. Livros considerados clássicos da literatura brasileira podem entregar histórias ímpares com a linguagem na mesma medida, transformando a língua portuguesa em arte, inovam na estrutura e desafiam o leitor a ter novas experiências sob o conforto da leitura. Acima de tudo, esta ficção ousa transgredir o limite de contar uma história, pois o autor conta também sobre a vida em si.

Ninho de Cobras é um romance experimental de Lêdo Ivo. Publicado pela primeira vez em 1973 e com nova edição pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano de 2015, o leitor contemporâneo é levado de volta a Maceió no tempo quando Getúlio Vargas era presidente, numa história iniciada pela aventura da raposa nas ruas da capital alagoana.

“Uma raposa em pleno coração da cidade! E ainda dizem que Maceió é um lugar civilizado”

Tudo começa pela raposa. Protagonista do primeiro capítulo, o animal passeia pelas ruas de Maceió enquanto o narrador oferece detalhes sobre onde ela passa, tomando liberdade de contar as histórias daquela parte da capital onde o animal põe as patas, e então retoma a aventura da raposa. Usa do discurso indireto livre ao trazer personalidade a este singular personagem, o de ser destemido, convicto da morte nunca a alcançar mesmo fora de seu habitat, o que, ao cruzar o caminho com dois sujeitos armados com pedaços de madeira, prova o equívoco do pobre animal. Nos dias — e capítulos — seguintes, a raposa vira a notícia mais comentada da capital alagoana, acompanhada a do suicídio de Alexandre Viana sob a suspeita de ser na verdade um assassinato encomendado pelo Sindicato da Morte.

“E as horas passaram, esponjosas, sugando o que, no tempo, era fluente como as palavras e a água”

A introdução do romance é única, feita a partir do personagem inumano: a raposa. Esta estratégia chama a atenção e antecipa a proposta da narrativa repetida inclusive nos demais personagens focados nos próximos capítulos, o de o narrador interromper a história do personagem e contar a história de Maceió. A capital do estado — por vezes até o próprio estado — atua como o personagem central deste romance a partir da intervenção do narrador, os contextos históricos se misturam à narrativa e entregam algo único durante a leitura.

Tal proposta exige maior atenção ao leitor. A mudança de foco é feita sem aviso prévio, um parágrafo conta sobre certo personagem em determinado ambiente, e em seguida este ambiente ganha história narrada pelo autor. Nem quando foca na pessoa facilita, pelas escolhas ao identificar o personagem, citando a característica dele em vez de lhe atribuir nome. Um coadjuvante em determinado capítulo pode ter o trecho protagonizado por ele em outro momento, contando a partir das informações já fornecidas, que a princípio eram secundárias.

Ninho de Cobras é um daqueles livros em que torna o enredo secundário em prol de oferecer a experiência singular de leitura, misturando contexto e narrativa, personagem e ambiente.

“Onde ele estava não havia Deus — era a jaula fedorenta dos homens”

Ninho de Cobras - capaAutor: Lêdo Ivo
Ano de Publicação Original: 1973
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Edição: 2015
Quantidade de Páginas: 270

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