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Raposas: Contos Fantásticos Orientais

Histórias persistem ao longo dos séculos, e mesmo as autóctones chegam também a outras regiões, por vezes demonstram significados diferentes de um mesmo fenômeno, ou gera uma reflexão ímpar daquela cultura capaz de a admirar da forma apresentada. Este livro traz o exemplo da contemplação de certo animal nos países asiáticos. Raposas: Contos Fantásticos Orientais reúne algumas dessas histórias tradicionais aos leitores brasileiros. Organizado por Lua Bueno Cyríaco e traduzido por ela além de Felipe Medeiros e Yu Pin Fang, foi publicado em 2020 graças ao sucesso da campanha de financiamento coletivo.

“’E, lembre-se, também não sou uma raposa ingrata’”

São contos oriundos da China, Vietnã, Coreia e Japão, distribuídos em período de dez séculos de escrita. Alguns já são adaptações de narrativas orais para a escrita, persistentes graças as gerações a recontarem essas histórias até alguém as registrar no papel. Das mais diversas nuances, as narrativas compartilham a raposa como elemento central ao explorar os diversos significados dados a esses animais na cultura da respectiva autoria. Desta diversidade, a edição do livro engloba os contos em três categorias de raposas, as ardilosas, amorosas e malignas, e mesmo dentro desse enquadramento cada conto é único em significado.

Esta resenha não aborda cada conto em respeito ao leitor conferir por si, senão acabaria comentando detalhes prejudiciais a experiência de leitura. Por outro lado há um ponto importante em avisar a quem pretende ler esta coletânea, a publicação dedica a traduções dos contos orientais conforme eles são, sem adaptar em prosa moderna, respeitou até as narrativas de origem oral, o que tornam a escrita plana, de frases objetivas a transparecerem as intenções dos personagens e as simbologias explicadas. A coletânea é interessante quando a depara sob a curiosidade de vislumbrar o significado cultural empreendido às raposas pelos países de onde a história é contada, um material de referência útil a escritores interessados em elaborar as próprias histórias de raposas.

Raposas: Contos Fantásticos Orientais traz os olhares tradicionais de quatro países asiáticos sobre as raposas, respeita as culturas de todos eles ao traduzirem os contos da forma como são, e assim oferece uma referência de qualidade por meio do design editorial de encadernação oriental e lindas imagens feitas também por artistas vigentes aos dos períodos dos contos.

“Sua beleza fez uma raposa má se apaixonar por você”

Capa de RaposasOrganizadora: Lua Bueno Cyríaco
Tradutores: Felipe Medeiros, Yu Pin Fang e Lua Bueno Cyríaco
Editora: Laboralivros
Origens dos contos: entre os séculos VIII e XIX
Edição: 2020
Gêneros: fantasia / ficção regional
Quantidade de Páginas: 120

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Melhores XPs Literários de 2020

Parece até incrível ver o ano de 2020 está prestes a acabar. Todo mês de dezembro recheia as conversas sobre o quanto o ano vigente foi pior de todos os anteriores, sob esperança de o próximo melhorar, mas no fim de 2019 poucos acreditavam na possibilidade de haver a pandemia e o quanto dificultou a vida de todos, ainda mais por causa desses poucos ainda descrentes na gravidade da doença e agravam toda a situação. Mesmo assim mantenho o ritual de dezembro, espero encontrar um mundo melhor em 2021, que a vacina nos ajude a ter mais segurança sanitária de sair de casa e diminuir o medo de trazer a doença a pessoas do grupo de risco, além de possibilitar projetos ousados de melhorar a vida ou novas experiências.

Pela primeira vez optei entrar em recesso nas postagens semanais deste blog, também revi conceitos sobre a interação social pela internet, esses ainda pendentes a reformular a presença digital do blog. Já de resto mantive a rotina, inclusive esta, a de listar as melhores leitura do ano.

Tive o menor número de leituras desde quando inaugurei o blog, e me orgulho delas do mesmo jeito. Nego a sobrecarregar pela quantidade a troco de corresponder rankings na internet poucos significativos na prática, e ainda aumentaria o risco de entregar o material abaixo do esperado. Estou cada vez mais exigente, afinal devo valorizar o tempo investido em livros capazes de proporcionar boa experiências. Por isso, confira agora quais foram as minhas Melhores XPs de Leitura em 2020:

10 ― Laços de Família

10 - Laços de Família

Eu tenho uma história em particular sobre a escrita desta autora a completar o centenário caso estivesse viva em 2020. Li Clarice pela primeira vez quando adolescente e detestei. A culpa foi minha, falhei por esperar resultados diferentes aos oferecidos pelos contos. As histórias tratam de rotinas escritas em reflexão a proporcionar novos olhares tais como a das protagonistas revelavam pelos fluxos de consciência, ou por despertar os horrores tão corriqueiros a ponto de precisarmos nos lembrar o quanto é grave. Por esses motivos, vale a pena o esforço de explorar as histórias desta antologia.

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9 ― Atômica

9 - Atômica

Esta graphic novel tem a proeza de tomar o elemento-chave do conto ― o de apresentar duas histórias ao mesmo tempo ― e acrescentar a surpresa do mistério revelado, fazer o leitor puxar a narrativa submersa e fundir todo o enredo, façanha ideal aos apreciadores de ficções policiais. O filme mantém o nível e acrescenta cenas de ação imersivas ― sem o jogo de câmera usado a disfarçar performances desagradáveis ― e trilha sonora da época presente por quase toda a duração do filme; só o final desvirtua do enredo original, talvez por ser polêmico demais ao público de cinema.

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8 ― O Iluminado

8 - O Iluminado

E Stephen King aparece por aqui de novo, desta vez pelo livro a conquistar a minha preferência entre os livros já lidos, apesar de este figurar num ranking inferior aos dos demais ― como eu disse, ando cada vez mais exigente, e encontro livros a suprir esta demanda. Eu admirei a construção de suspense neste romance a ponto de elaborar uma matéria no blog Ficções Humanas focado nisso, exemplo do quanto a leitura agradou e ainda foi útil a conversar sobre a elaboração desse elemento importante da ficção.

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7 ― Story

7 - Story

Já é de praxe conferir livros técnicos sobre escrita tanto a melhorar minhas habilidades como autor, quanto a compreender melhor o porque de obras excelentes atenderem esta expectativa. Portanto eu teria de conferir Story, um dos livros mais mencionados entre os outros autores, e garanto ser bom o bastante a conquistar elogios de muitas pessoas. A proposta é discutir sobre as formas de enredo e aprender por si a elaboração de roteiros, dar autonomia a explorar maneiras de aprofundar a escrita em vez de seguir regras funcionais de outro autores.

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6 ― O Suicídio e sua Prevenção

6 - O Suicídio e Sua Prevenção

Eu procuro falar sobre suicídio e alertar autores que poderiam melhorar a discussão deste assunto ao escrever histórias desde o começo do blog, e busco conceitos a embasar as maneiras conscientes de tratar o assunto. No meio desta procura, encontrei o melhor conteúdo em O Suicídio e sua Prevenção. A abordagem didática é ideal a qualquer leitor aprender sobre a importância de tratar o suicídio como questão de saúde pública, sendo útil a autores refletirem os conceitos e adotá-los na hora de escrever histórias ou cenas dedicadas ao assunto, compartilhei dicas pelo blog Ficções Humanas graças a este livro.

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5 ― O Clube dos Suicidas

5 - O Clube dos Suicidas

O livro anterior também serviu de base a eu elaborar críticas ao longo do mês de setembro de ficções a tratarem do assunto em algum momento, e O Clube dos Suicidas foi o único capaz de atender minhas expectativas. Também reconhecido entre as primeiras histórias de investigação escritas, esta novela leva o nível de raciocínio dos protagonistas ao limite, arriscando as próprias vidas caso falham em prever os atos dos adversários. Publicado no fim do século XIX, a abordagem quanto ao suicídio surpreende por ter mais consciência quando comparada a obras recentes, pois essas deveriam ter conhecimento acessível ao assunto.

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4 ― A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

4 - A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

A campanha de financiamento coletivo proposto pela editora Wish superou todas as expectativas e garantiu inúmeras vantagens pelas metas estendidas e alcançadas ao longo da campanha. O resultado foi o acréscimo de novas novelas além a da história principal, essas tão boas quanto ao demonstrar a qualidade de Washington Irving em explorar as narrativas folclóricas e tornar as próprias vivas de contadores verossímeis de causos estadunidenses sob influência de lendas europeias.

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3 ― Caetés

3 - Caetés

Graciliano Ramos volta ao pódio do XP Literário. Primeiro livro publicado pelo autor, cujo protagonista reflete críticas pertinentes até a aspirantes a escritores de hoje, quase um século depois de escrito. O protagonista narra a própria história sem ter consciência de suas contradições impostas por Graciliano e que os leitores atentos podem inferir por meio dos ensaios reunidos nesta nova edição da editora Record.

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2 ― A Morte de Ivan Ilitch

2 - A Morte de Ivan Ilitch

A Antofágica se destaca em renovar histórias de domínio público num trabalho moderno e de identidade única desta editora. O título já avisa como a história acaba, o prefácio disponível da edição também explica de o leitor poder sentir a morte do personagem, e nada disso estraga a experiência de leitura, pois a escrita de Tolstói provoca tamanha sensação só por meio das palavras. Antes do ápice, a novela explora a condição social de servidor público russo daquela época, explora ainda o dilema feminino da esposa sujeita à união do protagonista, e escancara quanto mesmo na morte de um, a vida dos outros continua.

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1 ― As Intermitências da Morte

1 - As Intermitências da Morte

E outro autor português conquista o espaço de melhor leitura do ano, embora eu acredite poucos queixariam de este autor ser José Saramago. O jeito próprio de escrever fornece a leitura singular, desafiadora e ao mesmo tempo prazerosa de conferi-la funcionar diante dos olhos enquanto acompanha as consequências de um lugar onde a morte deixa de tirar vidas. Quando tem a impressão de o autor ter explorado o bastante da premissa, ele provoca o tumulto que transforma o objetivo da história em outro enquanto aproveita a explorar novas perspectivas descobertas neste ponto de virada.

Story (técnicas de roteiro, úteis a romances também)

Após se encantar pelo mundo criativo a ponto de desejar fazer parte dele, muitos empolgam e pulam a parte do estudo e aprofundamento no objetivo de compreender o motivo de essas histórias fascinarem o público. Avançam direto na parte prática e repetem as cenas reconhecidas apenas na superficialidade. Sem amadurecerem e treinarem através de falhas, ficam sensíveis a críticas e negam aprimorar a partir delas, apenas contribuem na crise constatada pelo autor deste livro. Story é uma das opções a estudar sobre criar ficções voltadas ao cinema e ainda úteis a romancistas. Elaborado por Robert McKee em 2006 e conferido na edição de 2018 publicada pela editora Arte & Letra sob a tradução de Chico Marés, o livro já inspirou diversos profissionais criativos.

“Pois talento sem o conhecimento da arte é como combustível sem um motor”

McKee usa as primeiras páginas do livro de desabafo sobre a qualidade das histórias em geral. Os aspirantes deixam de estudar as formas da obra cinematográfica e apelam aos recursos visuais, falham em aproveitar os recursos narrativos e de mergulhar nos aspectos da ficção. Também aponta questões pessoais e outras que é melhor conferir por si e tirar as próprias conclusões, pois isso faz parte do estudo.

Depois do desabafo, o texto mergulha na abordagem prática da experiência do diretor de cinema além de mencionar a influência literária, por isso torna relevante a romancistas também. O autor baseia toda sugestão em exemplos práticos existentes nos filmes, e por explicar o motivo de as reviravoltas de enredo e outros elementos funcionarem, ele teve de mencionar os principais spoilers das obras citadas, cuja utilidade das dicas superam qualquer infortúnio de descobrir pontos-chave de filmes ainda não vistos, na verdade podem até atiçar o interesse de assistir mesmo ciente das reviravoltas e conferir o efeito prático descrito no livro.

“Criatividade raramente é tão racional”

Caso tenha lido outros livros sobre estudo das ficções, é provável encontrar os mesmo termos usados por McKee em definições diferentes, às vezes por perspectivas distintas de cada autor entender aquele termo, ou no intuito de conduzir o leitor ao mesmo raciocínio enquanto aborda o tópico. O importante é assimilar o aprendizado além do conteúdo exposto, ou conforme o próprio livro demonstra: aprofundar nos conceitos para assim propor obras imersivas da mesma maneira a das exploradas em Story e demais livros cheios de exemplos práticos.

Apesar de ter a seção exclusiva a falar das diferenças entre histórias narradas em prosa, teatro e cinema, o autor compara as características correspondentes a todo momento, e favorece o conteúdo a aspirantes dos três tipos de produção. A utilidade exclusiva a roteiristas de cinema está restrita a comentários específicos sobre as práticas da produção de filmes ― enquadramento de câmera e o trabalho reservado a atores, por exemplo ―, de resto os demais ficcionistas podem aproveitar cada sugestão do autor. A única ressalva quanto a aspirantes em prosa está na qualidade do texto, que abusa da palavra “mas” e elenca os contrapontos de argumentos por todo o livro, tornando a leitura repetitiva neste aspecto.

Story é reconhecido entre os profissionais por ótimos motivos. De conteúdo equilibrado entre conceitos e exemplos práticos, cada sessão de leitura rende anotações úteis a refletir e aprimorar seus trabalhos ficcionais seja em qual formato ou gênero desejado.

“Story é sobre arquétipos, não estereótipos”

Capa de StoryAutor: Robert McKee
Tradutor: Chico Marés
Publicação original em: 2006
Edição: 2018
Editora: Arte & Letra
Gêneros: não ficção / escrita
Quantidade de Páginas: 430

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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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Laços de Família (Contos Rotineiros de Clarice Lispector)

A resenha deste livro foi feita depois da segunda leitura, pois a primeira gerou nenhum impacto, quando o leitor adolescente buscava resultados espontâneos no final de cada conto, igual a personagem de O Búfalo. Dez anos depois, este leitor capta as entrelinhas do texto, conhece o fluxo de consciência, além de ler livros por prazer. Por descrever acontecimentos tão cotidianos, a autora consegue explorar significados peculiares no modo de escrever, ou revela o óbvio oculto pelas aparências. Laços de Família é uma coletânea de contos da Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1960, já a edição lida nesta resenha foi a de 2007, da editora Rocco. Segue os comentários referentes a cada conto do livro:

Devaneio e embriaguez duma rapariga

É o conto da mulher dona de casa. O marido trabalha fora, os filhos estavam na casa da tia. A mulher transpira pensamentos por todos os parágrafos, tudo contado sob fluxo de consciência, mostra devaneio correspondente ao título do conto. Sempre voltada a ela, mesmo quando a cena retrata outras pessoas, apenas ela é a personagem, a mulher livre, de mérito conquistado, cujas qualidades atraem olhares. Então a ressaca lembra a realidade dela; retorna à rotina.

“[…] só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso ainda não era nada”

Amor

Ana vivia dias seguros. Dona de família, a rotina correspondia ao ideal segundo a concepção dela, até encontrar um senhor cego no bonde, sorridente ao mascar chicles, e transforma a vida de Ana do avesso. A protagonista tinha certezas da própria convivência, e encarar essa nova realidade alheia a impressiona a ponto de preocupar. Seria certo ir atrás de conhecer algo novo? Seguindo ao diferente, ela perde o caminho de volta, e o desespero a consome.

“Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”

Uma galinha

Uma galinha prestes a ser abatida foge do galinheiro da família. O dono vai atrás, e a perseguição surpreenderá a todos. A narrativa foca no animal do começo ao fim, demonstra as limitações de sua vida, e nem isso impede do extraordinário acontecer, para depois voltar ao normal e chocar o desfecho.

“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”

A imitação da rosa

Laura irá, junto do marido Armando, ao jantar com a Carlota e o marido, amigos do casal. Há tempos não os via ou jantava assim, mesmo Laura sem ter filhos. Ela ocupa a mente com a casa, segue o ritual de tomar leite, em seguida ela ficava calma, algo tão natural quanto ficar cansada no fim do dia. O leite a tranquila, já as rosas a perturba. Tão perfeitas de modo a proibir o direito de as ter. Pretende entregar à Carlota, ou quem sabe mantém consigo; o conto segue por este impasse da protagonista. Laura ocupa a cabeça no aguardo do marido, até descobrir algo capaz de ela resolver, apesar de haver nada, é apenas um exercício útil a encher a protagonista de significados.

“’Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir’”

Feliz aniversário

É a festa de oitenta e nove anos da aniversariante. Toda a família reunida nesta data especial, já a homenageada da festa permanece muda, até escancarar a verdade, o evento é compromisso ao invés de festa. Conforme narra a cena, demonstra a situação de cada membro desta família. Sob tantos anos sobrevividos, há dificuldade de encontrar motivos de ter alegria em alguém a permanecer sentada; aos filhos, netos e bisnetos interromperem um dia de vida a fazer companhia à senhora. Enfim, mostra a melancolia escancarada nessa data a fingir bem-estar familiar.

“Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais”

O jantar

É sobre alguém observando outra pessoa comer, um sujeito intimidador pela própria existência. Melhor ler o conto por si e tirar as conclusões sobre quem é o sujeito e o narrador observador, tudo demonstrado nas entrelinhas, apesar da intenção na escrita ambígua. Todo o conto persiste em narrar este personagem comendo, foca nos detalhes, pois cada gesto dele desencadeia reações nas pessoas ao redor.

“Num dedo o anel de sua força”

A menor mulher do mundo

Marcel Petre é pesquisador francês. Dentre os humanos pequenos, pretende descobrir o menor dos menores. Assim segue pela África, até encontrar o objetivo: mulher negra, grávida, e a menor de todas as pessoas. A partir do retrato desta mulher, o conto segue numa questão nada agradável, mostra a reação dos espectadores de seu retrato, encaram-na feito espécie distinta, feito alguém sujeito a ser possuído, usufruído ao bel prazer; em suma, escancara o racismo sob desculpa desta mulher negra ser diferente. O conto também trata da visão dela diante do pesquisador francês, mostrando a visão limitada a sobreviver em contraste a alguém novo, estrangeiro.

“[…] obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria”

Preciosidade

É sobre uma adolescente na rotina de estudos. Vida solitária, ia até a escola sozinha, de ônibus, entre os demais passageiros, tem medo de ser vista, pois apesar de não se achar bonita, já está na idade. Muda de postura nas aulas, segura do mundo. Ao voltar para casa tem companhia somente da empregada. Vive enclausurada, mesmo assim sofre o que tanto teme, mudando assim a vida dela. A escrita é capaz de transmitir o medo da personagem em cada passagem correspondente, estendendo o terror ao leitor conforme acontece na garota.

“É que eles ‘sabiam’. E como também ela sabia, então o desconforto”

Os laços de família

Catarina acompanhava a mãe ir embora, e ao voltar no lar, leva o filho rua afora enquanto Antônio, o marido, aproveita a tarde de sábado que pertence a ele. E entre essas interações, mostra quais são os laços desta família, do patriarca engenheiro e esposa talvez cansada do apartamento todo arrumado, do filho nervoso sem fazerem nada por ele, e das provocações que tornam esta relação pacífica.

“’Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um’”

Começos de uma fortuna

O maior problema de Artur é pedir o dinheiro aos pais. Tenta a manhã toda e falha, na escola há oportunidades de gastar dinheiro, até mesmo pegar emprestado, o problema é já estar devendo a outro colega de classe. Assim Artur enfrenta agora os dilemas que ele precisa preocupar quando estiver mais velho, apesar da idade já estar próxima. E nesta crise adolescente, mostra os pais lidando com o garoto entre críticas e oportunidades divergentes entre pai e mãe.

“Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem”

Mistério em São Cristóvão

Toda a família da casa vai dormir, quando sai três moços mascarados da residência vizinha e encontram no jardim desta primeira casa os jacintos ideais a combinar com as fantasias deles. Ao tentarem pegar, chama a atenção de uma moça a berrar de susto contra eles a fugirem até a festa. O susto desperta todos na casa, apesar de este já ter passado, desencadeia emoções nesta família cheia de desconfiança, como se os membros desta vivessem mascarados. Os rapazes de fantasia somem faz tempo, e ainda assim a tensão na família permanece.

“Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio”

O crime do professor de matemática

Ele sobe até a colina, busca forças e fôlego ao tirar os óculos da face, só então ele age, tira o cachorro morto na mochila, o outro cachorro, não aquele, e começa a cavar. Aparenta ser um caso de agressão ao animal inocente, na verdade revela ser algo pior, pois este é o objetivo do protagonista sob pleno raciocínio lógico, lúcido, só que chocante ao leitor.

“Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade”

O búfalo

Desapontada no amor, ela decide ter ódio. Tenta buscar esse sentimento irracional no zoológico, só não o encontra. Explorando os animais de lá, o conto acusa a ansiedade humana em conquistar anseios imediatos, de procurar algo em seres ditos inferiores e encontrar só a própria fragilidade de si. Odeia por amar, e assim acaba amando o mundo todo.

“Ela mataria a nudez dos macacos”


Capa de Laços de FamíliaAutora: Clarice Lispector
Publicado pela primeira vez em: 1960
Edição: 2007
Editora: Rocco
Gênero: contos / ficção feminina
Quantidade de páginas: 135

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As Intermitências da Morte (José Saramago)

Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói (Antofágica)

A morte é inevitável, esta frase de significado comum e óbvio a qualquer pessoa, exceto quando aproxima a hora dela. Ao experimentar a vida durante toda a existência, de qual maneira poderia acostumar com a morte? Alguns escolhem rememorar os feitos passados, avaliando o quanto valeu a pena viver neles, afinal o momento a seguir é o fim, sem muito a presumir dele senão as consequências da partida. A Morte de Ivan Ilitch explora toda a questão da morte na perspectiva da família de um burocrata russo, escrito por Liev Tolstói em 1886 e traduzido por Lucas Simone na edição da Antofágica, lançada em 2020.

“A história pretérita […] era a mais simples e comum e também a mais terrível”

A história começa com a notícia da morte do protagonista entre os colegas de trabalho. Mal desenvolve a tensão pesarosa da partida do exemplar burocrata, e os colegas já traçam planos quanto a ocupar os possíveis cargos rearranjados a partir da vacância a de Ivan Ilitch. O funeral demonstra a vida das pessoas próximas de Ivan seguindo adiante, já os capítulos seguintes focam na vida do protagonista, desde a educação, formação profissional e familiar, até retomar o acontecimento culminante das cenas do primeiro capítulo.

“Tudo se fazia com mãos limpas, camisas limpas, palavras francesas e, sobretudo, na mais alta sociedade”

O autor conta toda a vida do personagem nesta história sob o gênero de novela, ou seja, de poucas palavras a desenvolver a trama a percorrer todos os anos de Ivan. Assim o narrador recorre a narrativas pontuais, contar passagens de tempo em poucos parágrafos, para então chegar no momento de estender as frases a situações constantes as quais pretende explorar, a consciência do personagem quanto a morte. Durante a descrição pontual da vida do protagonista, o narrador permanece distante, relata sobre os feitos dele e contextualiza os pensamentos diante das etapas da vida. Comentar a passagem desta forma deixa até a entender que esta parte da história é entediante, graças à escrita do autor ocorre o contrário. Ao compilar a história de Ivan, o narrador não conta, e sim mostra os aspectos sociais envoltos ao personagem responsáveis por influenciar determinadas escolhas.

Depois o narrador aproxima do personagem, pois chega o momento de compartilhar a dor dele por meio das palavras. Assim a escrita toma outro rumo, apesar de aproveitar o que trouxe do começo da vida de Ivan nesta novela. As cenas trazem as consequências quanto ao modo de vida do protagonista, agora enfrentadas pelo Ivan moribundo, consciente de sua partida, reagindo da condição a tornar a situação cada vez pior. O narrador segue Ivan até o fim, é incansável enquanto transcreve as palavras sentidas pelo protagonista, assim consegue mostrar ao leitor o sofrimento até chegar ao fim.

A Morte de Ivan Ilitch é um livro bem escrito a ponto de provocar sensações ruins na leitura, de tão realistas ao retratar os últimos momentos de Ivan. Aborda ainda várias questões pontuais da vida burocrata na Rússia na época descrita pelo Tolstói, demonstrando os aspectos sociais de quem trabalhava no serviço público naquela ocasião e as maneiras possíveis de seguir adiante neste tipo de vida tão bem questionada pelo próprio protagonista em determinado momento.

“[…] fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas que ocupavam os mais altos postos”

Capa de A Morte de Ivan Ilitch, na edição da editora AntofágicaAutor: Liev Tolstói
Tradutor: Lucas Simone
Ano da Publicação Original: 1886
Edição: 2020
Editora: Antofágica
Gênero: novela / literatura russa / literatura clássica
Quantidade de Páginas: 312

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O Hobbit (Clássico Nostálgico de J. R. R. Tolkien)

A hora de termos a resenha sobre este livro neste site chegou. O prelúdio da saga épica de anões e elfos, trols e dragões. Aventura repleta de perigos, é uma viagem inesquecível ao indivíduo cuja raça preferiria o conforto do lar. Mesmo assim o pequeno Bilbo Bolseiro enfrenta os desafios e se destaca em alguns deles. O Hobbit é uma das obras consagradas de J. R. R. Tolkien, escrita em 1937 e de nova edição brasileira elaborada pela editora Harper Collins em 2019, com tradução diferente das edições anteriores assinada por Reinaldo José Lopes.

“Numa toca num chão vivia um hobbit”

O narrador apresenta Bilbo Bolseiro, um hobbit dentre os vários a viver na mesma vila de rotina pacata. Ali Gandalf o encontra, os dois começam uma conversa confusa, afinal o mago convida Bilbo a participar da aventura, algo jamais desejado pelos hobbits, eles preferem o conforto do lar sem pensar duas vezes. Sem afirmar nada sobre aceitar tal aventura, muitos anãos chegam à casa de Bilbo e entram sem pedir, aliás pedem toda a hospitalidade, de preparar a ceia e até mais. Entre os anãos há ainda Thorin, o rei de sua raça em busca de recuperar o reino dele e o respectivo tesouro, os dois tomados pelo dragão Smaug. Entre promessas de conceder a parte do tesouro e provocações sobre ele de fato ser quem faltava na jornada, Bilbo por fim aceita e viaja nessa expedição sem garantia de retornar ― quiçá chegar ao destino ― vivo.

“[…] dava para saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer questão sem o incômodo de perguntar a ele”

Seja a primeira leitura ou a enésima, todas serão nostálgicas quando trata de O Hobbit. Muitas características das outras histórias de fantasia foram inspiradas deste livro, mesmo quando o autor assume ter outra referência, esta ainda é provável de ter tirado algo em comum da aventura de Bilbo Bolseiro. Do chamado incerto à aventura e a viagem cheia de perigos em si, conhecemos o roteiro enquanto permitimos encontrar as surpresas elaboradas pelo autor a encantar o mundo construído por ele.

E tratando das características, Tolkien é conhecido por expor vários aspectos dos elementos da história através de longos parágrafos, desde a toca e vila onde o protagonista mora, até a linhagem herdeira das famílias Bolseiro e Tûk, isso logo nos primeiros parágrafos do romance. Há uma apresentação elaborada sobre o mago Gandalf, e assim acontece nos demais personagens e cenários. Sendo assim, é óbvio considerar o narrador de abordagem onisciente, até mesmo por prever o leitor de determinadas ações a ocorrer em capítulos posteriores. Também é o narrador consciente de sua existência e conversa com o leitor, aproxima-o da história feito um amigo mais velho.

“’Pensando em dragões e em toda aquela bobagem extravagante em sua idade!’”

O enredo não limita a jornada de um ponto a outro, pois há vários perigos além do principal, todos capazes de colocar tudo a perder. O autor desenvolve esses episódios elencando os problemas, eleva a tensão, chega a elaborar tão bem a ponto de os protagonistas nem terem a chance de vencer o desafio; e neste ponto o enredo peca, pois a solução vem de elemento alheio a todo perigo, um artifício conhecido por Deus Ex-machina. Isso acontece por várias vezes no romance, inclusive na última batalha. Além de tornar a saída previsível, impede de o aperfeiçoamentos dos personagens através da aventura; por mais que Bilbo sofra mudanças graças à jornada, algumas delas foi por causa de acontecimentos externos e pouco relacionado ao desempenho dele.

O Hobbit transpira a nostalgia de todos os leitores, desde os idosos às crianças, graças a língua acessível independente da faixa etária e por várias obras lidas por qualquer um deles também refletirem a aventura de Bilbo. Vale a pena conferir esta história rica em características fantásticas e de narrativa bem humorada.

“Nada consegue escapar de Smaug depois que ele vê algo”

Capa de O HobbitAutor: J. R. R. Tolkien
Tradutor: Reinaldo José Lopes
Publicado pela primeira vez em: 1937
Editora: Harper Collins
Edição: 2019
Gêneros: alta fantasia / aventura
Quantidade de Páginas: 336

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A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

Autores brasileiros desbravam desde as poucas horas vagas reservadas a exercer o sonho de criar histórias, a conquistar horas de atenção dos possíveis leitores. Este segmento e até mesmo depois de atrair leituras faz parte da jornada do escritor, de etapas mistas de sucesso, perseverança e tragédia; em certos momentos a tragédia tomará os holofotes e perdurará sobre o mercado minúsculo de autores nacionais, onde um grão de poeira deste corresponde aos autores de literatura fantástica. Exagero ou realidade, é bom os iniciantes encararem tal carreira feito uma jornada cheia de provações, baixas e às vezes até vitórias. Também recomenda conferir livros técnicos e sobre o mercado de literatura, e deste último existe A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, um compilado de entrevistas a autores nacionais elaborado pela Kátia Regina Souza e publicado através da editora Metamorfose em 2017.

“Todo escritor sabe que a boa história, e também a boa vida, é sobre a jornada”

As entrevistas foram feitas ao longo de 2016 e tem quantidade surreal de autores de ficção fantástica brasileiros, entre eles alguns editores também, todos listados no apêndice em breves biografias válidas de consultar. Por mais de os nomes serem conhecidos, seria impossível os leitores deste livro ter conferido as obras de todos eles, assim isso pode servir de guia de novas leituras ou dar a chance a eles após conferir as dicas ou ao comentarem o assunto de seus livros durante a entrevista. Conhecê-los também faz parte de uma das dicas do livro quanto a importância de saber do mercado a atuar e ter referências de leitura ao escrever obras originais.

Os dez capítulos do livro fazem alusão às etapas da jornada do herói, usadas como tópico a abordar as diferentes questões profissionais. Kátia elenca as perguntas iniciais na apresentação do tópico, em seguida deixa a transcrição do entrevistado trazer as respostas pessoais, então Kátia intercala as entrevistas com reflexões pessoais dela em relação às opiniões dos autores convidados. Detalhar a estrutura do livro assim passa a impressão de o ritmo ficar engessado, mas Kátia provoca pequenas variações entre as entrevistas a ponto de conduzir uma leitura rápida, cheia de informações úteis. Tratando de informações, por vezes elas serão contraditórias entre as respostas de diferentes autores, e isso faz parte por vários motivos: as experiências são pessoais, portanto variam sob autores de trajetórias diferentes; quase nada no trabalho da escrita criativa tem padronização; ou mesmo da diversidade em si sustentar o mercado, pois possibilita novas maneiras de desbravar esta jornada.

“Você pode pensar em desistir todos os dias da sua vida, desde que não o faça”

Por ser publicado em 2017, é natural de certas informações estarem desatualizadas. O saldo positivo é que a Odisseia de Literatura Fantástica voltou e até premiou obras em 2019, apesar do livro afirmar da última edição ter sido em 2015. Muitos autores comentaram usar a rede social Facebook no meio de divulgação, e muitos desses já deixaram a plataforma, afinal as publicações em Páginas Oficiais aparecem cada vez menos no feed dos usuários. Clara Madrigano deixou de ser editora da Dame Blanche este ano de 2020. E o mais importante: o mercado estava em crise já quando este livro foi lançado, agora na pandemia está aos cacos. Editoras paralisaram as publicações previstas deste ano, muitas oportunidades se fecharam e permanecerão assim, apesar da DarkSide ir na contramão e premiar cinco autores com publicação e adiantamento de vinte mil reais na seleção de inscrições abertas no momento (julho de 2020). Livrarias prestes a falir, editoras podem fechar, os poucos leitores dispostos a comprar os livros nacionais nem terão dinheiro, e seja quais forem as outras consequências ainda a descobrirmos. Mesmo assim vale a leitura pelas dicas que podem ser flexíveis, cabendo o leitor as adaptar na realidade pela frente, sem falar das válidas em qualquer circunstância: leia, persista, apareça e aprenda.

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil mostra os detalhes do mercado brasileiro na ficção fantástica através da praticidade, das experiências de quem persiste nele há dois ou quarenta anos. Trajetórias se entrelaçam neste mercado pequeno, trazendo a diversidade das divergências, caminhos possíveis ao escritor iniciante seguir onde for o melhor a ele. Algumas dicas podem servir de registro histórico de como era a profissão do ficcionista brasileiro fantástico antes do surto de coronavírus, e por outro lado sempre mostrará a trilha da escrita criativa marcada pela persistência e de conquistas a valerem a pena.

“Quantos mais brasileiros estiverem fazendo literatura de qualidade, a gente vai deixar de ter aquela síndrome de vira-lata”

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil - capaAutora: Kátia Regina Souza
Editora: Metamorfose
Publicado em: 2017
Gênero: escrita criativa / entrevista
Quantidade de Páginas: 173

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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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