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A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói (Antofágica)

A morte é inevitável, esta frase de significado comum e óbvio a qualquer pessoa, exceto quando aproxima a hora dela. Ao experimentar a vida durante toda a existência, de qual maneira poderia acostumar com a morte? Alguns escolhem rememorar os feitos passados, avaliando o quanto valeu a pena viver neles, afinal o momento a seguir é o fim, sem muito a presumir dele senão as consequências da partida. A Morte de Ivan Ilitch explora toda a questão da morte na perspectiva da família de um burocrata russo, escrito por Liev Tolstói em 1886 e traduzido por Lucas Simone na edição da Antofágica, lançada em 2020.

“A história pretérita […] era a mais simples e comum e também a mais terrível”

A história começa com a notícia da morte do protagonista entre os colegas de trabalho. Mal desenvolve a tensão pesarosa da partida do exemplar burocrata, e os colegas já traçam planos quanto a ocupar os possíveis cargos rearranjados a partir da vacância a de Ivan Ilitch. O funeral demonstra a vida das pessoas próximas de Ivan seguindo adiante, já os capítulos seguintes focam na vida do protagonista, desde a educação, formação profissional e familiar, até retomar o acontecimento culminante das cenas do primeiro capítulo.

“Tudo se fazia com mãos limpas, camisas limpas, palavras francesas e, sobretudo, na mais alta sociedade”

O autor conta toda a vida do personagem nesta história sob o gênero de novela, ou seja, de poucas palavras a desenvolver a trama a percorrer todos os anos de Ivan. Assim o narrador recorre a narrativas pontuais, contar passagens de tempo em poucos parágrafos, para então chegar no momento de estender as frases a situações constantes as quais pretende explorar, a consciência do personagem quanto a morte. Durante a descrição pontual da vida do protagonista, o narrador permanece distante, relata sobre os feitos dele e contextualiza os pensamentos diante das etapas da vida. Comentar a passagem desta forma deixa até a entender que esta parte da história é entediante, graças à escrita do autor ocorre o contrário. Ao compilar a história de Ivan, o narrador não conta, e sim mostra os aspectos sociais envoltos ao personagem responsáveis por influenciar determinadas escolhas.

Depois o narrador aproxima do personagem, pois chega o momento de compartilhar a dor dele por meio das palavras. Assim a escrita toma outro rumo, apesar de aproveitar o que trouxe do começo da vida de Ivan nesta novela. As cenas trazem as consequências quanto ao modo de vida do protagonista, agora enfrentadas pelo Ivan moribundo, consciente de sua partida, reagindo da condição a tornar a situação cada vez pior. O narrador segue Ivan até o fim, é incansável enquanto transcreve as palavras sentidas pelo protagonista, assim consegue mostrar ao leitor o sofrimento até chegar ao fim.

A Morte de Ivan Ilitch é um livro bem escrito a ponto de provocar sensações ruins na leitura, de tão realistas ao retratar os últimos momentos de Ivan. Aborda ainda várias questões pontuais da vida burocrata na Rússia na época descrita pelo Tolstói, demonstrando os aspectos sociais de quem trabalhava no serviço público naquela ocasião e as maneiras possíveis de seguir adiante neste tipo de vida tão bem questionada pelo próprio protagonista em determinado momento.

“[…] fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas que ocupavam os mais altos postos”

Capa de A Morte de Ivan Ilitch, na edição da editora AntofágicaAutor: Liev Tolstói
Tradutor: Lucas Simone
Ano da Publicação Original: 1886
Edição: 2020
Editora: Antofágica
Gênero: novela / literatura russa / literatura clássica
Quantidade de Páginas: 312

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O Hobbit (Clássico Nostálgico de J. R. R. Tolkien)

A hora de termos a resenha sobre este livro neste site chegou. O prelúdio da saga épica de anões e elfos, trols e dragões. Aventura repleta de perigos, é uma viagem inesquecível ao indivíduo cuja raça preferiria o conforto do lar. Mesmo assim o pequeno Bilbo Bolseiro enfrenta os desafios e se destaca em alguns deles. O Hobbit é uma das obras consagradas de J. R. R. Tolkien, escrita em 1937 e de nova edição brasileira elaborada pela editora Harper Collins em 2019, com tradução diferente das edições anteriores assinada por Reinaldo José Lopes.

“Numa toca num chão vivia um hobbit”

O narrador apresenta Bilbo Bolseiro, um hobbit dentre os vários a viver na mesma vila de rotina pacata. Ali Gandalf o encontra, os dois começam uma conversa confusa, afinal o mago convida Bilbo a participar da aventura, algo jamais desejado pelos hobbits, eles preferem o conforto do lar sem pensar duas vezes. Sem afirmar nada sobre aceitar tal aventura, muitos anãos chegam à casa de Bilbo e entram sem pedir, aliás pedem toda a hospitalidade, de preparar a ceia e até mais. Entre os anãos há ainda Thorin, o rei de sua raça em busca de recuperar o reino dele e o respectivo tesouro, os dois tomados pelo dragão Smaug. Entre promessas de conceder a parte do tesouro e provocações sobre ele de fato ser quem faltava na jornada, Bilbo por fim aceita e viaja nessa expedição sem garantia de retornar ― quiçá chegar ao destino ― vivo.

“[…] dava para saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer questão sem o incômodo de perguntar a ele”

Seja a primeira leitura ou a enésima, todas serão nostálgicas quando trata de O Hobbit. Muitas características das outras histórias de fantasia foram inspiradas deste livro, mesmo quando o autor assume ter outra referência, esta ainda é provável de ter tirado algo em comum da aventura de Bilbo Bolseiro. Do chamado incerto à aventura e a viagem cheia de perigos em si, conhecemos o roteiro enquanto permitimos encontrar as surpresas elaboradas pelo autor a encantar o mundo construído por ele.

E tratando das características, Tolkien é conhecido por expor vários aspectos dos elementos da história através de longos parágrafos, desde a toca e vila onde o protagonista mora, até a linhagem herdeira das famílias Bolseiro e Tûk, isso logo nos primeiros parágrafos do romance. Há uma apresentação elaborada sobre o mago Gandalf, e assim acontece nos demais personagens e cenários. Sendo assim, é óbvio considerar o narrador de abordagem onisciente, até mesmo por prever o leitor de determinadas ações a ocorrer em capítulos posteriores. Também é o narrador consciente de sua existência e conversa com o leitor, aproxima-o da história feito um amigo mais velho.

“’Pensando em dragões e em toda aquela bobagem extravagante em sua idade!’”

O enredo não limita a jornada de um ponto a outro, pois há vários perigos além do principal, todos capazes de colocar tudo a perder. O autor desenvolve esses episódios elencando os problemas, eleva a tensão, chega a elaborar tão bem a ponto de os protagonistas nem terem a chance de vencer o desafio; e neste ponto o enredo peca, pois a solução vem de elemento alheio a todo perigo, um artifício conhecido por Deus Ex-machina. Isso acontece por várias vezes no romance, inclusive na última batalha. Além de tornar a saída previsível, impede de o aperfeiçoamentos dos personagens através da aventura; por mais que Bilbo sofra mudanças graças à jornada, algumas delas foi por causa de acontecimentos externos e pouco relacionado ao desempenho dele.

O Hobbit transpira a nostalgia de todos os leitores, desde os idosos às crianças, graças a língua acessível independente da faixa etária e por várias obras lidas por qualquer um deles também refletirem a aventura de Bilbo. Vale a pena conferir esta história rica em características fantásticas e de narrativa bem humorada.

“Nada consegue escapar de Smaug depois que ele vê algo”

Capa de O HobbitAutor: J. R. R. Tolkien
Tradutor: Reinaldo José Lopes
Publicado pela primeira vez em: 1937
Editora: Harper Collins
Edição: 2019
Gêneros: alta fantasia / aventura
Quantidade de Páginas: 336

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A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

Autores brasileiros desbravam desde as poucas horas vagas reservadas a exercer o sonho de criar histórias, a conquistar horas de atenção dos possíveis leitores. Este segmento e até mesmo depois de atrair leituras faz parte da jornada do escritor, de etapas mistas de sucesso, perseverança e tragédia; em certos momentos a tragédia tomará os holofotes e perdurará sobre o mercado minúsculo de autores nacionais, onde um grão de poeira deste corresponde aos autores de literatura fantástica. Exagero ou realidade, é bom os iniciantes encararem tal carreira feito uma jornada cheia de provações, baixas e às vezes até vitórias. Também recomenda conferir livros técnicos e sobre o mercado de literatura, e deste último existe A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, um compilado de entrevistas a autores nacionais elaborado pela Kátia Regina Souza e publicado através da editora Metamorfose em 2017.

“Todo escritor sabe que a boa história, e também a boa vida, é sobre a jornada”

As entrevistas foram feitas ao longo de 2016 e tem quantidade surreal de autores de ficção fantástica brasileiros, entre eles alguns editores também, todos listados no apêndice em breves biografias válidas de consultar. Por mais de os nomes serem conhecidos, seria impossível os leitores deste livro ter conferido as obras de todos eles, assim isso pode servir de guia de novas leituras ou dar a chance a eles após conferir as dicas ou ao comentarem o assunto de seus livros durante a entrevista. Conhecê-los também faz parte de uma das dicas do livro quanto a importância de saber do mercado a atuar e ter referências de leitura ao escrever obras originais.

Os dez capítulos do livro fazem alusão às etapas da jornada do herói, usadas como tópico a abordar as diferentes questões profissionais. Kátia elenca as perguntas iniciais na apresentação do tópico, em seguida deixa a transcrição do entrevistado trazer as respostas pessoais, então Kátia intercala as entrevistas com reflexões pessoais dela em relação às opiniões dos autores convidados. Detalhar a estrutura do livro assim passa a impressão de o ritmo ficar engessado, mas Kátia provoca pequenas variações entre as entrevistas a ponto de conduzir uma leitura rápida, cheia de informações úteis. Tratando de informações, por vezes elas serão contraditórias entre as respostas de diferentes autores, e isso faz parte por vários motivos: as experiências são pessoais, portanto variam sob autores de trajetórias diferentes; quase nada no trabalho da escrita criativa tem padronização; ou mesmo da diversidade em si sustentar o mercado, pois possibilita novas maneiras de desbravar esta jornada.

“Você pode pensar em desistir todos os dias da sua vida, desde que não o faça”

Por ser publicado em 2017, é natural de certas informações estarem desatualizadas. O saldo positivo é que a Odisseia de Literatura Fantástica voltou e até premiou obras em 2019, apesar do livro afirmar da última edição ter sido em 2015. Muitos autores comentaram usar a rede social Facebook no meio de divulgação, e muitos desses já deixaram a plataforma, afinal as publicações em Páginas Oficiais aparecem cada vez menos no feed dos usuários. Clara Madrigano deixou de ser editora da Dame Blanche este ano de 2020. E o mais importante: o mercado estava em crise já quando este livro foi lançado, agora na pandemia está aos cacos. Editoras paralisaram as publicações previstas deste ano, muitas oportunidades se fecharam e permanecerão assim, apesar da DarkSide ir na contramão e premiar cinco autores com publicação e adiantamento de vinte mil reais na seleção de inscrições abertas no momento (julho de 2020). Livrarias prestes a falir, editoras podem fechar, os poucos leitores dispostos a comprar os livros nacionais nem terão dinheiro, e seja quais forem as outras consequências ainda a descobrirmos. Mesmo assim vale a leitura pelas dicas que podem ser flexíveis, cabendo o leitor as adaptar na realidade pela frente, sem falar das válidas em qualquer circunstância: leia, persista, apareça e aprenda.

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil mostra os detalhes do mercado brasileiro na ficção fantástica através da praticidade, das experiências de quem persiste nele há dois ou quarenta anos. Trajetórias se entrelaçam neste mercado pequeno, trazendo a diversidade das divergências, caminhos possíveis ao escritor iniciante seguir onde for o melhor a ele. Algumas dicas podem servir de registro histórico de como era a profissão do ficcionista brasileiro fantástico antes do surto de coronavírus, e por outro lado sempre mostrará a trilha da escrita criativa marcada pela persistência e de conquistas a valerem a pena.

“Quantos mais brasileiros estiverem fazendo literatura de qualidade, a gente vai deixar de ter aquela síndrome de vira-lata”

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil - capaAutora: Kátia Regina Souza
Editora: Metamorfose
Publicado em: 2017
Gênero: escrita criativa / entrevista
Quantidade de Páginas: 173

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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Romancista Como Vocação (Haruki Murakami)

Quando o autor idoso possui mais da metade do tempo de vida de carreira na escrita, ele deve possuir algum conhecimento literário. Sarcasmo à parte, toda a trajetória de vida vira fonte de aprendizado quando o escritor decide contar a própria vida, das maneiras e dificuldades encontradas ao insistir em contar histórias. Conhecer as variadas técnicas de escrita criativa é importante, apesar da literatura também ser produzida a partir da experiência, e vale a pena ao menos conferir o trabalho do autor disposto a compartilhá-la.

Romancista Como Vocação é a autobiografia de Haruki Murakami, o autor disposto a compartilhar o pouco que aprendeu na vida. Publicado em 2015 e trazido em 2017 no Brasil através da editora Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras ― sob a tradução de Eunice Suenaga, a escrita fluida de Murakami persiste nas breves passagens de aprendizado.

“Mas por que um escritor tem que ser um artista? Quando isso foi decidido, e por quem? Ninguém decidiu isso”

Cada capítulo consiste em perguntas feitas a ele ao longo da vida, algumas o autor revela sentir intimidado pela incapacidade de respondê-las em poucas palavras. Por mais simples seja a pergunta, ele considera toda a experiência ao responder, precisando de palavras o suficiente a escrever este livro. Combina as respostas práticas com aspectos de sua vida, fala desde o trabalho como dono de clube de jazz à premiação a garantir o primeiro livro publicado, até a carreira internacional a partir das publicações feitas nos Estados Unidos. No meio de toda essa jornada, tem lições a novos escritores sobre as possibilidades de criar histórias e desenvolver a carreira literária.

“Essa é minha opinião, mas isso não muda muita coisa”

Toda declaração presente em Romancista Como Vocação é de cunho pessoal, e Murakami faz questão de afirmar e relembrar disso. O leitor tem a oportunidade de conhecer detalhes pessoais do autor, um resumo da trajetória após garantir várias publicações de sucessos comerciais. Garantiu poucos prêmios, e ele comenta sobre o assunto em determinado capítulo, dá opiniões sinceras sobre as premiações, tudo condizente com as declarações dos demais capítulos, ou seja, passam longe de serem desculpas por deixar de vencer os concursos ― inclusive o prêmio Nobel de Literatura.

Apesar dos fãs de Murakami ainda poderem aproveitar este livro, o conteúdo é dedicado a autores e aspirantes, afinal o foco é óbvio. Só deixa de ser tão claro a utilidade das dicas passadas pelo autor japonês. Os escritores precisam estar dispostos a acompanhar as maneiras encontradas pelo autor de seguir na carreira e avaliar quais delas seriam viáveis na própria rotina. Murakami é restrito quanto as dicas, compartilhando as bem sucedidas para ele, e é honesto ao confessar a inviabilidade de servir a quem ler, inclusive faz comparações a comportamentos dos demais autores japoneses e revela a diferença dele com a maioria. Lembrando da nacionalidade dele, Murakami fez carreira nos aspectos do mercado editorial no Japão ou até em fatores sociais — entre eles o sistema educacional da época —, inclusive lembra o leitor da situação política do país durante sua vida, do Japão em crise após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando começou a publicar nos Estados Unidos teve de adaptar a forma de trabalhar por ser japonês, então cabe ao leitor fazer o mesmo, conferir as dicas e verificar a possibilidade de ajustar a própria realidade, isso caso a dica funcione.

Romancista Como Vocação é um resumo da vida do autor. O conteúdo também convida aos escritores encontrarem os meios de produzir literatura a partir da reflexão das dicas oferecidas por Murakami. São ensinamentos prático e rasos, há livros sobre escrita de melhor conteúdo, escrito por profissionais com experiência em formar escritores, entre eles o trabalho da Francine Prose, enquanto este é limitado a dicas pontuais e ainda incertos da utilidade; ao menos o autor é honesto em afirmar isso.

“Eu já havia me tornado romancista; e a vida é uma só”

Romancista Como Vocação - capaAutor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Ano da Publicação Original: 2015
Editora: Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras
Edição: 2017
Gênero: Não ficção / autobiografia / escrita
Quantidade de Páginas: 168

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Vidas Secas (e a triste história da cachorra Baleia)

Chegamos em outra história onde o espaço vivido pelos personagens os molda. Difícil importar por algo a vir na frente enquanto agoniza no momento presente. Ciente do lugar e da pobreza, faltam escolhas disponíveis a agir, sobreviver neste tipo de vida. Isto na possibilidade de ao menos existir tal escolha, na verdade, tão raras ao ponto de exaltar, divagar nas possibilidades antes da vida lhe forçar no único caminho. Reconhece o papel na sociedade, papel de bicho, sem jamais perder as esperanças.

Vidas Secas moldam a família de Fabiano, sinha Vitória e ― claro ― a cachorra Baleia. Publicado pela primeira vez em 1938 por Graciliano Ramos, o Grupo Editorial Record lançou a edição comemorativa de 80 anos em 2018, dispondo trechos do manuscrito original de cada capítulo rabiscado à mão pelo autor, exceto no conto Baleia, onde a versão final divide cada par de páginas com o rascunho do texto sob edição.

“Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça”

Fabiano perambula pelo sertão junto à família, composta da esposa sinha Vitória, os dois filhos identificados por todo o romance em menino mais velho e menino mais novo, e a cachorra de nome curioso, Baleia. Tinha papagaio também, este já comido pela família, devido a falta de alimento na perambulação. Os pés eram moldados pelos seixos no solo, aliás todo o corpo era moldado na seca. Um dos filhos cede ao cansaço, logo recuperado pela bronca de Fabiano, único meio de encorajar o filho. Eles chegam enfim a algum lugar, em terreno abandonado onde eles ocupam, conseguem trabalhar e manter um teto sobre as cabeças. Conquistam alívio, pena encontrar novas dificuldades em breve.

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo”

O romance veio a partir de Baleia, de início era o conto isolado, até depois inspirar Graciliano a rabiscar mais capítulos sobre a família de Fabiano. A cachorra humanizada pela narrativa sofre os últimos momentos de vida, confusa de tanto sofrimento sob o punho de quem sempre lhe cuidou e tratou feito família. A escrita esboça o medo sentido pela personagem, a reação dela com toda a dor, e finaliza revelando o desejo dela, deixa o fim implícito para o leitor sentir o desfecho da coitada. Igual a raposa de Ninho de Cobras, a cachorra sofre a descoberta da tragédia, e a história desta repercute na criação dos demais capítulos, de certo modo sendo contos entrelaçados na mesma narrativa, sobre os acontecimentos anteriores e posteriores deste episódio da Baleia.

Quanto ao resto da narrativa, é sobre a história de toda a família. Dedica capítulos/contos dedicados a cada personagem, bem como alterna o ponto de vista de um a outro entre os parágrafos. Fabiano toma a maior parte da narrativa pela proporção da responsabilidade. Seus defeitos são explorados na história, sempre lembra da família a cuidar diante das oportunidades perdidas por causa dela. Sinha Vitória tem as devidas responsabilidades, além de sobreviver por meio de desejos e da sabedoria a qual Fabiano aprende admirar. E sobre os filhos, é melhor ler o final do livro e descobrir por conta própria, admirar a esperança resiliente mesmo nas dificuldades impostas.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha”

Capítulos breves e de pouca quantidade provocam o defeito do livro em ser curto demais. Por nascer do conto, o autor acrescentou mais narrativas breves até formar a história estreita, restrita à família. Vê pouco além dos personagens principais, apesar do ambiente bem explorado. Ao ler as passagens de cada membro da família, já tem a consciência de a história logo acabar, e disso vem o desejo negligenciado de ler mais sobre Fabiano e companhia pelas poucas páginas restantes.

Vidas Secas demonstra domínio em impor peso dramático sobre os ombros dos protagonistas. A escrita reflete no comportamento dos personagens, os deixam próximos ao leitor e faz este imaginar toda dificuldade passada por eles, com oportunidades humanas tão escassas, que por vezes passam a viver feito animais. Ao mesmo tempo atribui humanidade à cadela quiçá mais importante da literatura brasileira.

“A catinga ficaria verde”

Vidas Secas - capaAutor: Graciliano Ramos
Publicado pela primeira vez em: 1938
Edição: 2018 (especial de 80 anos)
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: ficção regional / clássico
Quantidade de Páginas: 320

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Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Existe algo em comum entre a categorização desta obra em romance moderno e a repercussão após a publicação: incitou discussões interessantes sobre quedas de paradigmas. No primeiro caso há a disputa com livro Dom Quixote quanto a qual dos dois inaugura como romance moderno, no segundo tem acusações direcionadas ao autor por transgredir conceitos já estabelecidos, seja provocar paródias sobre romances de cavalaria ou desnudar o adultério em meio a críticas à moral cristã e demais insinuações de deboche do autor. As qualidades vão além dessas, como será visto ao longo desta resenha.

Madame Bovary é a obra geradora de polêmicas e qualidades literárias. Publicado pela primeira vez em 1856 por Gustave Flaubert e com edição em 2007 pela editora Nova Alexandria sob a tradução de Fúlvia M. L. Moretto, conta da rotina provinciana em vila remota francesa e das aventuras de adultério cometidas por Emma Bovary.

“Aliás, não era ela uma mulher da sociedade e uma mulher casada? Uma verdadeira amante, enfim?”

Primeiro apresenta Charles Bovary desde a infância, um garoto tímido com dificuldade de falar o próprio nome, incapaz de conquistar reconhecimento ao longo da vida. Mesmo depois de estudar medicina, conseguiu apenas graduar como oficial de saúde em vez de doutor, e ainda assim com dificuldade. Segue na vida adulta, ausente de acontecimentos extraordinários. Tem uma esposa, cujo matrimônio dura pouco pela morte abrupta dela. Viúvo ainda jovem, trocou olhares com a Emma, filha do cliente Sr. Rouault, e logo realizou o novo casamento.

Deste momento em diante a Sra. Emma Bovary ganha espaço na narrativa. Ela sofre infelicidades a princípio difíceis de reconhecer, pois o matrimônio soa diferente dos muitos conferidos por ela nos romances literários. Alcançava algum prazer na vida quando interagia em ambientes alheios aos do marido, desejando tê-los com mais frequência e assim conhecer mais pessoas interessantes, homens interessantes… Primeiro com León, e com Rodolphe fica mais intenso. Ela cede à loucura de romper o compromisso fiel e sucumbe no amor vindo de alguém diferente a quem prometeu amar.

“[…] considerava a música menos perigosa para os costumes do que a literatura”

O foco narrativo alterna durante o romance, e isso acontece de um parágrafo a outro, focando também nos demais personagens além do casal protagonista. A mudança de perspectiva adapta não apenas o que o personagem focado presencia, mas ainda reflete o pensamento dele, expõe a opinião sobre determinado assunto conforme a experiência de vida, esta também relatada quando preciso. Nenhuma mudança de foco ou abordagem é explícita, cabe ao leitor perceber as nuances conforme a leitura, favorecendo assim o ritmo narrativo, interessado em mostrar a história.

Tal cuidado permanece na forma de conduzir as descrições, oscilando entre diálogos expostos ou descrevendo a fala do personagem no mesmo parágrafo, este último é na verdade um recurso com que garantiu reconhecimento ao autor pelo uso do discurso indireto livre, aproveitado em obras posteriores ao constatar sua eficiência. Assim uma cena com inúmeros personagens interagindo e conversando poderia ser escrita sem precisar de cada passagem dita em diálogo, fundindo falas com a narração, pintando tudo num mesmo quadro ao invés de desmembrar a imagem descrita em parágrafos quebrados.

Ambientado em vila humilde, a história tem propostas e críticas ousadas na época quando foi publicada. Discute as mudanças políticas após a Revolução Francesa conforme as interações entre os personagens for oportuna. Provoca ceticismo ao cristianismo a partir de determinado personagem numa época e país em que desenvolveu o iluminismo. Já a trama central nem precisa de comentários, a de tornar protagonista uma mulher adúltera, uma afronta aos bons costumes! Além de outras segundas intenções pontuais, sempre a implicar a sociedade pretensa a manter as aparências sem esforçar em corrigir as condutas quando elas estão ocultas.

Madame Bovary é um trabalho de destaque em seu tempo por transgredi-lo e sugerir novos meios de contar uma história. Dentre outras qualidades, abriu oportunidades a romances posteriores em arriscar, questionar valores vigentes por meio do exercício literário.

“Ela bem que gostaria de apoiar-se em algo mais sólido do que o amor”

Madame Bovary - capaAutor: Gustave Flaubert
Ano de Publicação Original: 1856
Editora: Nova Alexandria
Edição: 2007
Tradutora: Fúlvia M. L. Moretto
Gênero: ficção / clássico
Quantidade de Páginas: 360

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Caetés (livro sobre a tentativa de um romance histórico)

Quem já arriscou a escrever algo sabe o quão solitário é esta tarefa. Precisa dedicar horas a preencher as páginas inspiradoras, e fazer disto rotina, hábito de escrever sem deixar dias em branco. Ainda tem a revisão, o início de muito trabalho pós-escrita. Ao escrever, descobre assuntos desconhecidos entre os jamais esperados serem necessários na vida, e de repente precisa pesquisar antes de terminar apenas uma frase. Enquanto isso a vida acontece, trabalhar pelo prato a almoçar todos os dias, a garantir a higiene, ter roupas limpas e boas relações com os próximos. Todo escritor deve superar esses empecilhos, ou melhor, organizar a rotina ao dedicar na escrita, seja isso hoje, ou no passado.

Caetés conta a história de quem pretende escrever um romance histórico sobre os índios homônimos. Publicado pela primeira vez em 1933 por Graciliano Ramos com nova edição em 2019 pela editora Record, é o romance de estreia do escritor alagoano, que aborda a vida na cidade de Palmeira dos Índios ― no interior de Alagoas ― entre o protagonista e os demais personagens.

“Tive raiva de mim. Animal estúpido e lúbrico”

João Valério é guarda-livros (contador de antigamente) do armazém Teixeira & Irmão, cujo dono Adrião adoece conforme a idade. Valério costuma visitar o patrão em casa toda semana, onde compartilha da companhia dos amigos e da esposa de Adrião, a quem certo dia atreve beijar. Arrepende em seguida, sem saber como agir em diante, elencando esse problema no meio de tantos outros, entre eles dos assuntos comentados pelas pessoas próximas sobre política, saúde alheia ou religião, e ainda tem o compromisso firmado e conhecido apenas por ele, o de escrever um romance sobre os índios caetés, este protelado por cinco anos, sem saber nada da tribo indígena senão dela ter existido.

“Não disseram nada que referisse ao desastroso sucesso”

Narrado pelo próprio João Valério, o romance expressa de forma espontânea pelas palavras do personagem, demonstrando a personalidade no modo de narrar, sem esconder as ideias vigentes do momento descrito. O protagonista é acanhado, entre outros defeitos, uns conscientes e os demais nem tanto. O autor usa do sarcasmo ao criticar seu personagem por meio do mesmo, contando desculpas a cobrir as falhas, despreza o ato dos conhecidos ao evitar falar do próprio, assim a vida avança e João permanece em inquietações.

Muitos personagens são apresentados a partir de Valério, e eles aparecem vívidos ao longo do romance, a maioria com quantidade generosa de participação nos diálogos, com modos próprios de dizer e personalidades distintas, defendidas por vários argumentos exaltados pelos mesmos quando a oportunidade aparece. Muitos capítulos avançam entre essas conversas cuja escrita economiza na hora de citar quem disse determinada frase, exigindo maior atenção do leitor ao acompanhar as discussões, apesar da dificuldade diminuir conforme vira as páginas e reconhece o dono da frase pelo modo de falar ou do ponto de vista exposto por ele. O ritmo da conversa flui entre frases de discurso indireto livre, quando Valério resume a fala dele ou de outro personagem e então continua o diálogo com a pontuação usual. Não basta alternar linhas começadas por travessão pelos parágrafos, é preciso organizar qual fala pode resumir de modo indireto e escolher o melhor momento de aplicá-lo a favor do ritmo, dificuldade superada pelo autor, pois o resultado final traz uma conversa dinâmica.

Caetés trata da frustração do personagem nas dificuldades em escrever romance, enquanto o Graciliano esbanja qualidade a escrever sobre esta situação. Também ao contrário do protagonista, o autor domina o regionalismo ao tratar personalidades variadas do interior alagoano, com vocabulário correspondente e realidade nítida conforme a interação entre os personagens.

“Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever”

Caetés - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1933
Edição: 2019
Editora: Record
Gênero: ficção / clássico / regional
Quantidade de Páginas: 336

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Melhores XPs Literários de 2019

O momento chegou! Deixamos o ano atrás, agora um tempo apenas de lembranças e muitas leituras, as quais algumas destacam entre os melhores XPs Literários de 2019. Oitenta ― sim, oitenta ― livros finalizados recebem a oportunidade de entrar em destaque nesse ano recém acabado, na verdade parte desta quantia já foi considerada e entrou no pódio do blog Ficções Humanas, e aqui os livros competidores devem ter passado por resenha neste blog ao longo de 2019,  e isto ainda deixa a disputa acirrada, com mais de cinquenta competidores!

A lista funciona igual o ano passado, primeiro vem a lista das melhores leituras do segundo semestre de 2019 com breve comentário do motivo de ser o melhor, então ao fim da postagem tem a lista definitiva dos melhores do ano, levando em consideração os livros eleitos no primeiro semestre. Sem mais delongas, vamos aos finalistas do segundo semestre:

10 – Lovestar

LoveStar - resenha

Esta ficção científica tem argumentos tão inteligentes a ponto de virar insanos! A sanidade foge da descrição do autor ao elaborar conflitos absurdos a partir da tecnologia imaginada pelo autor. Deve aproveitar a leitura com a mente aberta, assim desfrutará dessa escrita maluca e ainda assim entendível ― quer dizer, certo ponto da história fica inviável compreender dado o nível da maluquice, mas faz parte da experiência.

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9 – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Só mesmo um autor brasileiro muito criativo poderia escrever esta história steampunk tomando personagens de obras clássicas da ficção nacional. A escrita reflete na época onde a história acontece, desde a ortografia até o modo de falar dos personagens, e o autor ainda ousa alternar a narrativa em primeira pessoa de um a outro, moldando as frases conforme a personalidade do narrador e do meio onde é gravado esta narrativa epistolar. É uma viagem literária por meio das obras homenageadas.

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8 – A Balada de Black Tom

A Balada de Black Tom

“Se tanto critica, por que não faz melhor?”, um argumento tosco por ignorar a capacidade de crítico que desenvolve qualidades distintas as do autor cujo livro foi analisado. Pelo menos serve quando compara outro autor, e Victor Lavalle de fato entregou uma adaptação capaz de superar a inspiração original. A Balada de Black Tom reconta a história de O Horror em Red Hook, usando dos personagens originais além do protagonista elaborado pelo Lavalle ao apresentar a perspectiva da pessoa negra na história do universo de Lovecraft, tece críticas ao racismo do autor e reaproveita os elementos deste ao criar a sua versão da história.

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7 – O Gato Preto

O Gato Preto - resenha

Igual o anterior, reaproveita a história clássica de terror, desta vez a adaptando aos quadrinhos. Imagens e textos se complementam ao pintar a história do narrador condenado à morte, atormentado pelos simbolismos trazidos pelo seu animal de estimação tão amado. A história oferece informações ao leitor e deixa outras em aberto de propósito a permitir cada um tirar suas conclusões enquanto vê as ilustrações criativas, nascidas da inspiração do conto original.

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6 – Um Banquete Para Deuses Mortos

Um Banquete Para Deuses Mortos - resenha

E Gleyzer Wendrew aparece em outra lista entre os melhores do semestre com esta história sobre  o vampiro Drácula, um ser considerado deus nesta história. Uma história curta de enredo composto de forma criativa pelo autor, sem deixar de lado as qualidades descritivas quando trata de contar como o sangue flui sob o ataque das vítimas dilaceradas.

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5 – Desafiadores do Destino

Desafiadores do Destino

Outra HQ conquista esta lista, e ao lê-la é fácil perceber os motivos. Esta aventura steam fantasy é rica em mitologia ao criar a trama onde o grupo de guerreiros deve cumprir sua missão enquanto divide os quadros para apresentar o contexto deles, e ainda assim consegue entregar do melhor e na medida certa.

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4 – Sons da Fala

Sons da Fala - Resenha

Foi o conto de estreia do Projeto Cápsulas da editora Morro Branco, jamais poderia começar com escolha melhor. Responsável por trazer as histórias de Octavia E. Butler no Brasil, vemos em Sons de Fala as qualidades narrativas da autora nesta história sucinta, de descrição objetiva e ainda capaz de chocar. Ainda leu nenhuma história da Octavia? Aproveita este conto disponibilizado de graça pela Morro Branco e conheça as qualidades da autora.

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3 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas - resenha

Um personagem contando a própria história depois de morto, é esta a premissa do livro de Machado de Assis que soube aproveitar da situação criada e elabora a narrativa distinta por conta da perspectiva excepcional do narrador. Mesmo sendo publicada gerações atrás, ainda é capaz de divertir ao acompanhar os relatos ditos pelo protagonista no ponto de vista enviesado dele, possibilitando interpretações conforme o assimilado pelo leitor, e o próprio Brás Cubas brinca com isso em certos capítulos, supondo reações dos leitores ao longo do livro.

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2 – O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa - resenha

Aqui destaca duas qualidades dos autores brasileiros: a criatividade e o regionalismo nacional. A história acontece em alguns lugares do nordeste brasileiro, com situações cheias de fantasia, capaz de proporcionar ótimos momentos de humor sem deixar de denunciar as dificuldades vividas pelas pessoas locais.

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1 – S. Bernardo

S. Bernardo

Falando do nordeste, um autor alagoano conquista o primeiro lugar das melhores leituras do semestre. A história de S. Bernardo acontece no interior de Alagoas, narrada pelo próprio protagonista em busca de refletir atitudes passadas. Graciliano Ramos nos entrega o protagonista não para concordar ou inspirar, a proposta é refletir as questões envolvidas ao homem de campo, este influenciado a agir feito tal, e capaz de agir além quando tem mais oportunidades, apesar de ainda possuir pouco discernimento.

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Menções Honrosas:

Ninho de Cobras: entrega narrativa singular, desafiante e moldada com a intenção da prosa do autor
Favela Gótica: mistura os monstros mitológicos com as camadas sociais brasileiras de modo claro e excepcional
Adágio: pelo ótimo uso da ficção científica ao tratar de assuntos vigentes

Uma lista diversa, com certeza! De sci-fi a terror; quadrinhos, romances, e até conto. O mais impressionante: os três primeiros colocados do semestre são livros nacionais! Sem parcialidade, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Paola Siviero demonstraram qualidade na escrita a ponto de serem bem elogiados nas resenhas e tiverem pontuação máxima no Skoob e Amazon por mim. É um orgulho ver livros de conterrâneos conquistando as primeiras posições, sendo um deles ainda de autora contemporânea. Quem sabe em 2020 o pódio seja de autores brasileiros atuais? Será difícil, pois ainda pegarei livros de brasileiros clássicos e valiosos, bem como excelentes romancistas estrangeiros; o melhor a fazer é torcer.

Os melhores de 2019

Antes de dar a lista definitiva, lembremos dos finalistas do primeiro semestre, os quais competem com os dez destacados acima:

10 – A Arte de Escrever
9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1
8 – Mago e Vidro
7 – Ordem Vermelha – Filhos da Degradação
6 – A Pirâmide Vermelha
5 – Para Ler Como um Escritor
4 – A Revolução dos Bichos
3 – Fahreinheit 451
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

Sem quadrinhos e nenhum clássico brasileiro, e os concorrentes continuam sendo de peso. A hora é agora, as melhores experiências de leitura do ano 2019 são:

Melhores XPs Literários de 2019

5 – Fahreinheit 451
4 – O Auto da Maga Josefa
3 – S. Bernardo
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

E os melhores do primeiro semestre conquistaram os dois primeiros lugares de todo ano. Parabéns ao Ian Fraser por ser o autor brasileiro que mais chegou longe na classificação. E uma congratulação excepcional à editora Morro Branco por enfim trazer essa duologia da Octavia E. Butler ao Brasil, vinte anos após a publicação original nos Estados Unidos ― antes tarde do que nunca ―, e só agora tivemos a oportunidade de conhecer sua escrita, destrinchando críticas sociais, ambientais e políticas por meio desta distopia em dois volumes.

Por hoje é só. No fim deste semestre veremos quais leituras se destacarão ao longo de 2020. As expectativas são altas, pois a literatura é igual o universo, infinito em obras com qualidade excepcional.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Editora Antofágica)

A quantidade de grandes obras capazes de eternizar escritores consagrados em seu tempo e nas eternas gerações póstumas pode assustar o leitor contemporâneo. Por outro lado esta parcela de autores corresponde ao número ínfimo dentre os diversos nomes já existentes nas capas de livros, porém esquecidos com o tempo ou cuja qualidade falhou em predominar na atenção da nova geração. O livro em questão é exemplo de autor eternizado e ousado, pois traz a narrativa feita por um defunto, pois começa a história quando este já está morto.

Memórias Póstumas de Brás Cubas traz o realismo literário através das palavras sobrenaturais de um cadáver. Publicado pela primeira vez em 1880 e com nova edição em 2019 pela editora Antofágica, a obra persiste na recorrência correspondente na qualidade, além de homenageada em ilustrações de Cândido Portinari inclusas entre os capítulos.

“Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”

O livro começa com a indagação do narrador/protagonista sobre a maneira de contar a própria história, considerando de ele já estar morto. Assim revela ao leitor sobre a situação dele, do sujeito morto disposto a contar sua história de vida, ponderando começar pelo início ou já no fim. Após a decisão, descreve como foi o enterro presenciado por poucos amigos e mulheres em menor quantidade, essas coadjuvantes essenciais da narrativa ao longo dos mais de cem capítulos breves deste livro.

“Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos”

A obra é ímpar a ponto de o fato de ser romance ou não estar subjetivo ao leitor. O próprio Brás Cubas considera os dois tipos de leitores de opiniões opostas ao buscar satisfazer ambos com este trabalho. Aconselho encarar a leitura diferente a de romance, assim possibilita desfrutar das situações contadas pelo protagonista sem critério de continuidade senão o próprio tempo cronológico e sem esperar aquela evolução nos agravamentos de conflitos. Até surge empecilhos quanto ao desejo do personagem, com pontos de virada recorrentes ao romance, situações acontecidas mais a partir do meio da narrativa, e deste jeito frustra caso espere tal abordagem desde o começo conforme os livros comuns de ficção.

Machado de Assis foi além de conceber a ideia do narrador cadáver, pois aproveitou desta situação em toda a narrativa. Criou alguém disposto a falar sobre si com toda a consciência adquirida sobre a vida, capaz de narrar a história desde o nascimento e contar detalhes jamais percebidos quando era bebê ― ou pelo menos impossível de expor naquele momento da vida. Sempre deixa claro que é o Brás velho e morto contando sobre ele mais novo, a prosa em primeira pessoa ganha aspectos do narrador onisciente comum à terceira pessoa.

“Advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto”

Brás Cubas aproveita da ousadia e elabora capítulos singulares. Nada narrativos, quebram a expectativa do leitor e entregam passagens divertidas no meio da leitura ou mesmo grandes reflexões elaboradas em poucas palavras. Também puxa conversas com o leitor, sugerindo a reação dele com o texto lido ou prestes a ler no capítulo seguinte. São leitores concebidos na imaginação de Brás, presumindo de ter a própria obra lida por poucas pessoas, e a partir desta concepção se permite ter maior intimidade em fazer tal interação. A realidade é outra, pois foi lido por inúmeros leitores verdadeiros e de gerações posteriores, com diversas bagagens literárias e pensamentos improváveis de corresponder à sugestão do protagonista, mas dizem muito mais respeito ao próprio Brás Cubas; ou seja, mostra mais de si ao puxar conversa com os leitores.

Memórias Póstumas de Brás Cubas possui diversas qualidades capazes de tornar o livro difícil de soar maçante mesmo aos leitores acostumados com a leitura atual. Os termos e referências recorrentes da época são explicados nas notas de rodapé desta edição publicada na Antofágica, úteis na compreensão do texto conforme o período escrito e limitados a isso, deixando o leitor livre a assimilar os demais aspectos da obra.

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”

Memórias Póstumas de Brás Cubas - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Ano de Publicação Original: 1880 em fragmentos na Revista Brasileira, e reunido em livro em 1881
Editora: Antofágica
Edição: 2019
Gênero: clássico brasileiro / romance realista
Quantidade de Páginas: 480

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