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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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Lobos de Calla (Torre Negra Vol. 5)

A longa jornada à Torre Negra sofre uma breve interrupção. Pessoas de costumes simples pedem socorro ao ka-tet do Pistoleiro, e ele deve seguir as regras desde Arthur Eld. Longe de sair de fato da jornada, o conflito encontrado em Calla Bryn Sturgis traz novos mistérios e respostas aos antigos, bem como a progressão dramática de cada membro da equipe de Roland, tudo traçado pelo ka. Os Lobos estão chegando, e todos devem tomar cuidado dentre as consequências das decisões feitas pelos envolvidos.

Lobos de Calla trata do quinto episódio da saga A Torre Negra. Publicado em 2003 e lançado em 2012 no Brasil pela editora Suma com tradução de Alda Porto, Stephen King leva o grupo de Roland a outra civilização peculiar com perigos inéditos e algumas respostas ao mistério em torno da Torre Negra.

“Crianças são uma safra como outra qualquer. Deus sempre manda mais”

Calla Bryn Sturgis é uma das regiões de Calla. Quase toda gravidez gera filhos gêmeos que crescem, se desenvolvem e realizam os trabalhos a garantir sustento pela família a permanecer na mesma cidade, por serem remotas demais de outras civilizações. Entre os moradores de Calla há Andy, o robô construído pelo Povo Antigo cujas poucas funções permitem ajudar os moradores em certas tarefas, além de insistir em contar a previsão do horóscopo a quem encontrar no caminho e avisar da notícia temida pela população. Andy anuncia aos moradores de Calla sobre a chegada dos Lobos no próximo ciclo da lua, também comenta da aproximação de Pistoleiros a caminho, capazes de confrontar os seres tão temidos.

Os Lobos vão até as regiões de Calla a cada vinte e poucos anos. O objetivo deles é selecionar um de alguns pares de gêmeos com pouca idade para levarem consigo, realizar o ritual neles e devolvê-los às famílias transformados em roonts, com mentalidade degenerada, crescimento abrupto a partir de determinada idade, e expectativa de vida precoce.

As opiniões divergem entre os moradores quanto ao grupo de Roland e geram discussões se aceitarão a ajuda deles ou não. Por serem Pistoleiros, eles cumprirão a tarefa sem exigir recompensas, apenas pedirão recursos conforme a necessidade da missão; aliás só o farão caso os moradores aceitem a ajuda e conforme for determinado pelo ka. Por fim Roland e seu ka-tet têm motivos para intervir contra os Lobos, pois também encontram pistas de como prosseguir à Torre Negra e testemunham prenúncios de eventos a enfrentar nos dois últimos volumes da saga.

“Primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio”

O quinto volume é marcado como o início da segunda parte da saga elaborada pelo Stephen King, esta rumo a conclusão. Vemos a apresentação e desenvolvimento da nova civilização encontrada neste volume com metodologia similar a de Mago e Vidro, embora tenha menos foco no arco dos moradores. Apenas o padre Callahan recebe destaque dentre os novos personagens por desempenhar o papel crucial nesta trama, e já ter vivido outras aventuras sob as palavras de King no livro Salem. Parte da história voltada a Callahan mescla com acontecimentos do outro livro, o que prejudica a quem não o leu, pois ficará carente do contexto da outra obra.

A partir do pedido de ajuda feito pelos moradores de Calla, o romance consiste no preparo do grupo de Roland até o momento de enfrentar os Lobos. Desenvolve o arco de suspense com entrevistas entre os moradores e busca de pistas sobre o tipo de ameaça a enfrentar. Os relatos remetem a perigos enfrentados em Terras Devastadas e são interligados com o conhecimento amadurecido de todo o ka-tet. Também há interlúdios sobre o principal destino de Roland e das tramas de cada companheiro, revisita situações encontradas na Escolha dos Três e interliga tudo ao arco central da saga. Em outras palavras, demonstra a força do ka sobre o enredo.

Pretendo abordar o final deste livro na resenha, então caso julgue esta parte da análise como #spoiler é melhor pular ao próximo parágrafo. A crítica é pertinente a batalha dos protagonistas contra os Lobos. Seres de ameaça tão aterrorizante, todo o livro focado no preparo contra o grande perigo à Calla, e a conclusão acontece depressa, com baixas apenas ao povo de Calla que talvez pouco impactará na jornada adiante do ka-tet. Em suma os antagonistas têm menos importância frente aos outros conflitos apresentados ao longo dessas centenas de páginas são mais importantes ao seguimento da saga.

Lobos de Calla traz outra demonstração de qualidade a King em desenvolver ótimos diálogos e construir novos personagens mesmo em direção à reta final da saga. A mistura desta história com a de Salem traz certa dificuldade na compreensão de determinada parte da história, embora o leitor assimile o bastante a compreender o papel de Callahan neste romance. O ka cumpriu seu trabalho soltando algumas pontas do enredo, estas a prosseguir na Canção de Susannah.

“Os deuses deixam sinais. Os homens deixam máquinas”

Lobos de Calla - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Alda Porto
Ano de Publicação Original: 2003
Edição: 2012
Editora: Suma
Saga: A Torre Negra, Vol. 5
Quantidade de Páginas: 744

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A Escolha dos Três (Torre Negra – Vol. 2)

Não tem como negar a diferença na vida de cada indivíduo quando são de épocas diferentes. A pessoa se desenvolve de forma distinta, entra em contato com tecnologias inexistentes no passado ou ultrapassadas no futuro. O próprio conceito das mesmas pode se alterar com o avanço do tempo, quando o mundo segue adiante. 

O contraste entre gerações ao se encontrarem de repente é perceptível, traz momentos estranhos e também descontraídos, mas o principal é a dúvida: será possível compreender o outro? 

A Escolha dos Três aborda esta questão. O segundo volume de A Torre Negra foi publicado em 1987 e dá sequência no ponto que encerrou no primeiro volume, quando Roland segue o conselho do Homem de Preto a encontrar três pessoas. 

A Escolha dos três - capa

Faz parte da ambição de Stephen King em criar uma história épica. É acima de tudo um desejo pessoal do autor conhecido pelos livros de terror em criar sua grande história. 

Mais fácil beber a água do oceano com uma colher 

A história mal começa e já ocorre uma tragédia a Roland pela sua falta de atenção. O Pistoleiro está acabado, enfraquecido pelo envelhecimento, isolado e sem saber se suas pistolas ainda disparam alguma das balas disponíveis. 

A angústia é repassada durante todo o livro, inclusive aos novos personagens com quem Roland se encontra. Ele atravessa o litoral do deserto à procura de três portas, cada uma com alguém destinado a conhecer, conforme a previsão do Homem de Preto. 

Ao entrar na porta, começa o conflito de realidade no novo mundo em que se encontra. Roland assimila os objetos ao redor a partir da sua perspectiva, traz uma interpretação singular das tecnologias conhecidas pelo leitor. Os processos de interação e comunicação também entram em conflito e aumenta a dificuldade de Roland seguir seu ka. 

…do que discutir com alguém apaixonado 

Este volume está cheio de palavrões e frases nojentas, ameaças violentas e ações obscenas. A atmosfera mais radical e crua reflete na linguagem empregada junto com as cenas chocantes. 

O humor negro está presente, quebra o ritmo e traz descontração mesmo quando o perigo testa os limites dos personagens. 

O destino prega peças e traz oportunidades a Roland. Ele as aproveita, faz apostas arriscadas e tenta melhorar as condições tenebrosas em prosseguir ao seu caminho até a Torre Negra. O livro encerra com este arco relacionado à escolha dos três, mas responde poucas perguntas sobre o objetivo do Pistoleiro. Nessas, há muitas páginas e livros pela frente, os quais até o momento são dignos de serem acompanhados.

O Pistoleiro (Volume 1 de A Torre Negra)

A Torre Negra se trata apenas de uma história. Está dividida em sete volumes, apesar do lançamento de um oitavo livro posteriormente. Sua criação partiu da obsessão em se criar uma história grande, cuja ambição era pessoal em vez de comercial.

Tudo começa no volume chamado O Pistoleiro, em que apresenta o protagonista Roland em sua perseguição à Torre Negra. Publicado periodicamente de 1978 a 1981, com versão revisada em 2003 para aperfeiçoar a coerência com o restante dos livros.

Muitos trabalhos de S. King já foram adaptados ao cinema, entre esses a própria Torre Negra em 2017. As principais obras do escritor são de gênero terror, gênero o qual é fascinado desde a leitura, já que segundo o mesmo: “se você não tem tempo para ler, você não tem tempo (ou as ferramentas) para escrever.”

Stephen King - autor de O Pistoleiro

Por que tem de achar que está no meio de algum mistério?

As duzentas páginas deste livro contam basicamente duas coisas: a perseguição do Pistoleiro ao Homem de Preto, este ciente de como alcançar a Torre Negra; e flashbacks do protagonista em que sabemos do seu passado e da formação de um pistoleiro, sendo Roland o único sobrevivente.

Quando não descobrimos de seu passado, conhecemos mais da personalidade do Pistoleiro. Longe de ser o herói, não desperdiça tempo com gentilezas, anda com precaução, preparado para se defender de quem encontrar no caminho. Presenciamos momentos de compaixão, esta descartada em prol de seu objetivo.

O leitor se encherá de perguntas sobre a história de forma sutil, e com o tempo absorverá as respostas. Estamos acompanhando a trajetória de um cavaleiro rude e ignorante dos segredos que envolvem sua obsessão. Roland não sabe mais da Torre Negra do que o próprio leitor no final deste volume.

É o último pistoleiro sobrevivente. O título não é apenas por ser portador de pistolas, mas sim uma classe de guerreiro. É possível sentir o poder dos revólveres sob a atmosfera deste mundo, embora a aspereza das pessoas no ambiente decadente impede de impor respeito.

Não um final, mas o final do começo

Com apenas duzentas páginas das 3000 de toda a saga, a fala do Homem de Preto ao fim do primeiro volume foi uma bela sacada de King para com o leitor. De fato foi o fim do começo da história, que terá muito a ser contada nos próximos volumes.

Há um desfecho em O Pistoleiro quanto à sua perseguição ao indivíduo. Só tenha em mente que a história está incompleta até chegar ao último volume.

Compartilharei minha experiência com o resto da saga nas próximas resenhas, confiante em confirmar o testemunho de muitos do quanto esta história é maravilhosa.

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