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A Ilha do Tesouro (Clássico dos Piratas)

Certos autores vivem na eternidade de suas obras, outros vão além e são levados às histórias posteriores. Escrevem histórias de gênero reconhecido, e inovam as características de tal forma que novos trabalhos fazem questão de homenagear a inspiração a ponto de tornar algo quase verídico por ter os mesmos elementos. Canções feitas à capela, mapas com “X” demarcando o local do tesouro, papagaio no ombro e perna de pau. Tudo começou com A Ilha do Tesouro, lá no ano de 1881 lançado em periódicos por Robert Louis Stevenson, e republicado no Brasil em 2019 pela editora Antofágica sob tradução de Samir Machado de Machado e enfeitado com as ilustrações de Paula Puiupo.

“Ali estava o tipo de homem que tornava a Inglaterra o terror dos mares”

Jim Hawkins ajuda na estalagem do pai, este adoentado quando um marinheiro entrou e exigiu hospedagem até quando bem entender. Identifica a si somente por capitão, e deu tarefa extra a Jim, a de avisar caso visse o marujo com perna de pau. A saúde do pai deteriorava, o tal capitão alegou carecer de moedas a pagar pela hospedagem, mesmo assim continuou ali, a beber e cantarolar a canção do pirata. Os velhos conhecidos deste capitão o alcançam, exigem a justiça pela Marca Negra, e Jim descobre entre os trapos do capitão um mapa de ilha com “X” demarcado e breves orientações escritas, onde ele irá arriscar a encontrar o tesouro escondido na companhia do Dr. Livesey, o fidalgo Trelawney e do cozinheiro Long John Silver.

“― E lhe digo que eu vivi de rum”

Narrado por quase toda a história por Jim, o autor mostra os acontecimentos do romance a partir da perspectiva do garoto, este com escrita espontânea diante da narração feita da aventura passada. O enredo é dinâmico, todo capítulo ocorre ações ou revelações a mudar os planos feitos de início; reflete na sobrevivência dos piratas, esses na busca de obter a vantagem ignoram os escrúpulos, trapaceiam e tornam a história imprevisível. Nem parece ter sido escrito no final do século XIX devido ao dinamismo da história.

Mesmo sendo a aventura de Jim, a história é capaz de aprofundar os demais personagens, todos possuindo interesses transparentes na expedição. A caracterização vai além de protagonistas bonzinhos e vilões, os primeiros possuem defeitos e agem por si ao invés de em grupo ― e às vezes ajudam a todos por isso, apesar de trazer muitos riscos conscientes ―, e os segundos seguem princípios, transparecem a humanidade neles, recusam a serem meros adversários no enredo, possuem a própria história, e o conflito desta com a dos protagonistas é que resulta na história contada por Jim.

“― Marinheiro mimado, diabo criado”

Stevenson usou certos atalhos ao compor a estrutura dinâmica no texto, usando de adjetivos e advérbios tantas vezes a ponto de serem notados. Nada capaz de prejudicar a leitura da aventura juvenil, apenas poderia melhorar a experiência criativa já evidente na história. O autor recebeu elogios pela forma de contar na perspectiva do personagem, embora certas escolhas sejam vistas de outras formas em narrativas recentes. Stevenson usou outro personagem a narrar acontecimentos alheios a Jim quando precisavam ser contados, e o fez apenas por preencher esta lacuna, sem elaborar mais questões inerentes à perspectiva levantada por outro personagem. Em relação as outras limitações da narrativa de primeira pessoa, foram corrigidas com explicações breves da informação pendente no momento ocorrido, pois foi adquirida depois. Apesar de resolverem as questões da narrativas, são artifícios fáceis, pouco elaborados a ponto das inúmeras obras inspiradas na Ilha do Tesouro fazerem bem em formular outras soluções.

A Ilha do Tesouro sobrevive aos séculos com facilidade graças a escrita agradável a leitores atuais, com capítulos recheados de aventura e personagens marcantes pelas características a princípio, depois pela autenticidade em adequar à situação vigente do romance. Nem tudo permanece ideal aos elementos atuais da narrativa, apesar de esses relevarem a qualidade que ainda sobra da obra.

“Tínhamos dois aliados úteis: o rum e o clima”

A Ilha do Tesouro - CapaAutor: Robert Louis Stevenson
Tradutor: Samir Machado de Machado
Ilustradora: Paula Puiupo
Publicado pela primeira vez em: 1883 (edição em livro)
Edição: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: aventura / infantojuvenil / ficção histórica
Quantidade de Páginas: 368

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A Spoiladeira (Conto juvenil — serve para adultos também)

Hora do jantar, hora chata do jantar. Miguel senta no outro lado da mesa, distante da tevê, do suco e de si. Nada de olhar a companhia, abaixa o rosto e encara as cores no prato. Verde, laranja, marrom, marrom, branco. Ervilha, cenoura, carne, feijão e arroz. Michele deve ter pego sorvete em casca, certeza, antes dos refris e pipoca. Refrigerante, não, suquinho natural; ela está de regime. A vida saudável é interessante a Miguel, menos quando come ervilhas. Bolinhas verdes saltam da colher antes de chegar à boca. Nem elas querem ser comidas.

O talher raspa no prato, colhe a comida e perde a metade antes de dar outra mordida. Isso irrita, ele tem certeza. Ele fecha a cara e provoca as rugas no rosto da mãe.

— Vamos comer direito, Miguel?

— Estou comendo, estou comendo.

O prato dela vazio. O dele, cheio.

— De que adianta fazer essa cara? Era só pedir desculpas.

— Só peço quando faço coisa errada.

— E não fez? Você pintou os cachos do Matheus de rosa.

— É que ele…

Pôs a colher cheia na boca, inclusive as ervilhas. Tira a mãe da visão e mastiga o sabor amargo, morde a língua. Teria bombons por lá também, preços baixos após a Páscoa. E ele comendo ervilhas.

— O gato comeu a língua, Miguel? Fale o motivo.

— Ele chamou o Super Mago de bobo.

A mãe suspira, engole castigos e reprimendas e as digere no intestino da responsabilidade.

— Bobo. Bobo é brigar por isso.

— Você não entende, mãe.

— Não mesmo! Como é difícil botar bom senso nesta cabeça. Esse Super Mago é imaginário, moleque! Em vez de se divertir, fica brigando por causa de heroizinho. Já deveria procurar emprego.

— Mas eu só tenho dezessete anos.

— Eu trabalhei com treze, sem perder tempo com gibi, nem tinha essas porcarias de sunga em cima das calças no cinema.

— Também não tinha tempo para estudar. Por isso você acredita em astrologia até hoje.

— O quê?

É hora de Miguel ficar quieto, continuar a comer. Engolir verde, marrom e laranja e colocar mais branco na boca; pode até engasgar, tudo bem, melhor do que dar razão ao tabefe. Bater em filhos é proibido por lei, como se evitasse… Ele termina o prato e coloca a louça na pia, vira e olha a mãe apontando de volta. Encara a torneira e depois o dedo dela, ameaça um passo longe da pia e treme com o chinelo na mão da mãe.

Engole o choro.

Range os dentes na água fria sobre as mãos. Primeiro os copos, devagar depois de quebrar um ontem. Nada de olhar o resto de caldo do feijão nos pratos, tem nojinho. Coloca os talheres no escorredor. Como é chato limpar panela! Ele enxuga a pia e a mãe coloca a jarra de suco. Diz nada, prende a reclamação na garganta e lava também.

Pronto. Agora termina.

— Poderia me deixar agora, te ajudei em casa.

— Esqueceu o castigo? Ficará em casa até segunda. Nada de internet também.

— Eu vou perder o filme!

— Ainda estará em cartaz na próxima semana, caso comporte.

— Semana que vem é tarde. Hoje já é muito tarde. A Spoiladeira vai atacar com tudo.

— Espoi-quê? Pare de falar essas palavras feias.

— Você sabe, mãe. Ela vai me…

— Olha, Miguel, cansei desta conversa. Vai para o quarto, tranco você lá. Quando sua irmã voltar, ela destranca a porta para dormir. Entendeu?

Ele olha o chão.

— Entendeu, Miguel?

Balança o rosto.

Tropeça a cada bronca. Mais rápido! Não tenho o dia todo! Ele perde o dia desde o castigo, por tirá-lo da chance de ver Os Poderosos: Fim de Jogo, filme que encerra o ciclo dos heróis Super Mago, Morciga e Minúscula. Fechou todas as redes sociais, fone de ouvido durante a escola, perdeu aula, o preço de evitar spoiler. História já contada nas HQs, cinco livros já adaptaram os quinze anos de quadrinhos em romances. Miguel só vê os heróis no cinema, sem querer ler a história já sabida, o importante é descobrir na grande tela com som imersivo e pipoca recheada de leite ninho.

Porta trancada. Miguel entrega o corpo aos tormentos da cama ortopédica, vinte e quatro parcelas desde que Michele quebrou a antiga. O castigo dela foi de lascar! Perdeu o campeonato de Lulo, afogada nas próprias lágrimas. Miguel não chorará. É injusto. A irmã, todos os amigos, até alguns professores e o próprio diretor. Todos na cadeira enumerada, de óculos 3D e sorriso de caroços de pipoca nos dentes, risadas contagiam a alegria de ver o espetáculo da Terra: a estreia do grande filme. Não chorará. Fecha os olhos. Engole o soluço, a tristeza. Engole! Saberá quem morreu, como o vilão foi derrotado e como trouxeram os heróis mortos à vida.

Miguel chora.

Ninguém o vê no conforto das lágrimas. Tão molhadas e quente, permite deslizar pelo rosto e umedecer o colchão, falta apenas doze prestações. Soluços atacam e prendem o ar nos pulmões. Deixe assim! Ninguém precisa ser forte o tempo todo. Deixa extravasar, desabafa a angústia, tampa o rosto e chore. A escuridão o conforta, bicho papão só aparece caso pense nele. Ai, ele pensa, perde o sono. De olhos abertos, toma o escuro como terror, o pior ainda chegará.

Fecha os olhos. Funga o nariz. Escuta. Tampa os ouvidos e escuta, a chave raspando no buraco, a maçaneta desce, a porta range, e ela entra.

— O melhor filme de todos!

Pula no Miguel. Sem os tênis, as meias pisoteando o peito do irmão já basta. Doze anos de pisadeira, de provocação. Bagunça o cobertor, descobre o rosto de Miguel e aperta o chulé no nariz. O “sai daqui” de Miguel sai abafado, quase mudo. Os pezinhos dela estão mais molhados, além do suor, a meia recebe o choro do rapaz. Michele ri de tudo. O dia não podia ficar mais saboroso. Pipoca, nachos, trufas, suco de limão e a humilhação neste menino chato. Só precisa de uma coisa para finalizar:

— Super Mago morre!

E a Spoiladeira ataca novamente.

A Pirâmide Vermelha (Vol. 1 de As Crônicas dos Kane)

Meu blog já concedeu espaço para culturas e mitologias dos indígenas habitantes do Brasil e da América do Sul em geral, seja artigo de pesquisa ou resenha de livro. Esses são exemplos de cultura rica, mas injustiçados pelo pouco destaque recebido, e não são os únicos. Procurei exemplos de mitologia egípcia e me surpreendi por encontrar poucas obras recentes sobre ela. Tem uma ou outra homenagem em games e filmes, e poucos exemplos na literatura, pelo menos dentre os títulos disponíveis no Brasil.

A mitologia egípcia é rica e vem da civilização com maior tempo de existência. Ouve-se falar de personagens como Anúbis, Cleópatra, Osíris, Rá e Ramsés; mas é difícil saber quem eles são de fato. Se deseja conhecer todos eles, comece pelo livro resenhado neste post.

A Pirâmide Vermelha é o primeiro volume da saga As Crônicas de Kane. Publicado em 2010, os irmãos Carter e Sadie são envolvidos na trama onde os deuses egípcios voltam à Terra, e começam a jornada onde conhecerá muito desta mitologia e história ancestral.

A Pirâmide Vermelha - capa

Rick Riordan ficou conhecido por escrever os livros da saga Percy Jackson e os Olimpianos, focada na mitologia grega. Hoje ele possui sagas dedicadas a mitologia nórdica, romana, e a egípcia que começa neste livro. 

Não se podia rejeitar a oferta de uma deusa  

Carter vive com pai enquanto a irmã Sadie mora com os avós em Londres. Separaram-se desde a morte da mãe há seis anos. Julius, o pai dos irmãos, trabalha como arqueólogo especialista em Egito, e leva Carter nas viagens constantes do trabalho.

Os irmãos se encontram apenas duas vezes por ano, como na véspera de Natal. O pai dos dois decide passar o dia da reunião no museu enquanto examina a Pedra de Roseta. A princípio seria outro trabalho como arqueólogo, porém ele pretendia realizar o ritual de invocação. Carter e Sadie pouco entendem da situação, e testemunham o inimaginável: cinco deuses egípcios são libertos da Pedra de Roseta, e um deles rapta Lucius.

O choque de perder o pai de vista é apenas o começo da grande aventura que levarão os garotos a descobrir o passado da família, a relação deles com o Egito Antigo e com os deuses dessa mitologia.

Pelo menos nisso eu podia acreditar  

A Pirâmide Vermelha não é apenas um dos poucos livros com mitologia egípcia disponíveis no Brasil, ainda traz a abordagem completa deste tema. Proporciona várias informações de estudos feitos sobre a cultura egípcia antiga, distribuídas no meio da história cheia de ação. As explicações são didáticas, voltadas ao público da idade dos protagonistas (pré-adolescentes) e acessíveis a qualquer leitor, sem deixar de lado algumas tacadas de humor nessas informações.

Com narrativa em primeira pessoa, cada irmão conta dois capítulos antes de passar a vez ao outro. E eles contam literalmente, pois o livro na verdade é a transcrição das gravações feitas por eles em áudio. Há interrupções na história porque o narrador vigente desabafa algo no meio da gravação ou discute com o irmão atrapalhando.

Traz a forma diferente de narrar, só que nada convincente ao levá-la a sério. Pouco provável de eles falarem por dezenas de minutos no mesmo capítulo sem pausar a gravação, ou até simular o diálogo de cada personagem desta aventura. Difícil tornar crível mesmo se editasse todo o áudio registrado, e os irmãos nem tiveram tal recurso (teriam dito em meio a tantas informações compartilhadas por eles caso tivessem).

Os deuses têm grande poder, mas só os humanos têm criatividade  

Mesmo sendo apenas o primeiro volume, já apresenta boa parte do repertório de deuses egípcios.
Riordan trouxe muitos personagens no mesmo livro, esses com camadas complexas de personalidade. Há deuses antagonistas que não são malvados, só possuem opinião adversa sobre eventos ocorridos no passado que os levaram a tomar esta decisão. 

A Pirâmide Vermelha tem tudo a oferecer sobre a mitologia egípcia. Útil até para leitores de idade bem acima da faixa etária indicada nos livros de Rick Riordan, pois entrega de tudo um pouco. Caso desanime com um ou outro aspecto do livro infanto-juvenil, tenha a certeza de os vários pontos positivos ainda compensarem a leitura. 

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