Tag: internet

Creepypastas: Lendas da Internet 2 (Divulgação)

Vivi o começo da infância na década de 1990, tempo de acesso limitado a internet. Eu mesmo só comecei a acessar depois de 2006, antes até existia conexão em casa, mas achava muito difícil de usar, deixava aquilo para minha irmã. Chega a ser inacreditável lembrar deste passado! Eu uso da internet a manter este portal online, é de onde tiro a maior parte do material de leitura, escrita, de muitos outros recursos desta rotina, assim como qualquer leitor a visitar este site.

Todo acesso comum hoje era novidade nos anos ‘90, isso quando existia, pois esqueça vídeos ou toda a família presente nas redes sociais. Sendo novidade no passado, os primeiros programadores de internet ainda descobririam as possibilidades, muitas dessas desconhecidas aos usuários. E o desconhecido é a palavra-chave provocadora do medo, segundo H. P. Lovecraft. Nesta época ainda tinha outra particularidade, a facilidade de acesso à internet durante a madrugada, bem oportuno a proporcionar o fenômeno das Creepypastas, histórias macabras dúbias de serem reais ou ficção, com imagens perturbadoras e relatos de conspirações, assassinatos, aparição sobrenatural; um mundo virtual repleto de terror.

A editora Lendari resolveu homenagear este fenômeno lançando uma coletânea de contos nesta temática, e o sucesso da coletânea gerou a possibilidade de uma nova chamada para publicar o segundo volume. O mais incrível foi o sucesso em número de participantes e colaboradores no financiamento coletivo a ponto de garantir a publicação simultânea da terceira coletânea! Entretanto focarei em falar de Creepypastas 2, e quem acompanha este blog sabe: quando eu falo de algum livro por aqui na primeira pessoa, é por motivos especiais. Desta vez é por eu ser autor de um dos contos publicado no livro!

É a segunda oportunidade de mostrar um texto de minha autoria a partir da seleção e edição profissional. Esta postagem seguirá na mesma intenção da Revista A Taverna a qual participei, apresentando os contos presentes no livro, destacando as qualidades. Creepypastas 2 tem uma diversidade de contos, tanto em quantidade quanto em tópicos abordados dentro do contexto das lendas da internet, então preferi falar só de alguns afim de demonstrar o que o leitor pode esperar do livro no geral. Saiba mais sobre eles apresentados a seguir:

A Sombra do Disco ― Mauro Plastina

Júlia tem nove anos, órfã de pai e briga a todo momento com o irmão. Ela ganha um LP de presente da mãe, entre as músicas presentes há aquela especial, pois ouvia junto do pai antes de ele falecer, e por isso toca o disco logo quando recebe. Ela posiciona a agulha da vitrola a tocar direto na faixa preferida, assim a nostalgia começa a trazer alegria e angústia, até que o aparelho para de funcionar. Inconformada, pede ajuda à pessoa mais próxima capaz de entender como uma vitrola funciona, o irmão. Ele vai a contragosto e ensina a maneira de ela tocar o LP, e assim Júlia acaba tocando o disco ao contrário.

De narrativa focada na criança protagonista, o conto desenvolve a história a partir da ingenuidade infantil além das intrigas casuais entre irmãos, apesar de no fundo sabermos o quanto se amam. Mauro é pontual em demonstrar os sentimentos da menina em cada situação, exercendo a empatia ao mesmo tempo de coordenar a tragédia na garota, abusa da boa vontade dela ao provocar a desgraça reservada a este conto.

“É como diz o ditado: ‘se matarmos todos os assassinos, os assassinos seríamos nós.’”

ERISinninthcirclexxxiv ― João Marciano Neto

O conto começa com um aviso. Pare de ler, apague esta mensagem, de preferência descarte o computador usado no acesso deste relato. Continuando a leitura, avisa sobre manter o domínio mortis.com intacto, em seguida há a narrativa sobre a programação da inteligência artificial chamada ERIS. O protagonista é o narrador, um dos programadores e, de certo modo, “segurança” deste sistema. Enclausurado pelo causador do temor, também o motiva a fazer de tudo pela sobrevivência, a dele e da humanidade, e o conto comprova o quanto este “fazer de tudo” significa.

“ERIS nos chamava em sua dimensão eterna, querendo nossos segredos […]”

O Horror no Bairro da Pedreira ― Igor Moraes

Rafael é colecionador de artefatos dos mais diversos países e culturas, de armas a amuletos de tempos remotos, ou de épocas recentes, o importante é o valor apavorante atribuído ao material colecionado. Por isso investiu o dinheiro restante numa coleção nazista, cuja simbologia faltava em seu estoque de atrocidades. Vieram informações anexas aos itens, sobre o misticismo envolto do nazismo, sobre a mensagem de alguém envolvido ter vindo no Brasil, e sobre o projeto Werwolf, este de surpresas interessantes no conto.

A descrição de Igor mistura referências de povos tradicionais a elementos recentes, e dentre as tradições escolheu a certeira de causar desconforto quando citado: o nazismo. A História exerce o papel acadêmico de relatar as consequências internacionais deste partido eleito na Alemanha, já as tantas outras histórias ficcionais ou conspiratórias possuem impacto garantido pelo respectivo contexto. Assim a história ocorre na perspectiva de Rafael, tudo fica crível, e complementa com a história em torno da relíquia nazista prosseguindo no Brasil décadas depois.

“[…] uma figura em decomposição, extraída de de alguma história em quadrinhos de Alan Moore”

Onde está a Duda? ― Alane Brito

Bia enfim recebe de presente da mãe a famosa boneca Duda, em homenagem ao aniversário de quinze anos. A temporada da boneca já tinha passado, nem se produzia mais, então óbvio da mãe ter comprado uma usada, embora bem conservada. Já o irmão de treze anos detestou o presente, na verdade a palavra correta é temer, pois ouviu histórias desta boneca ser amaldiçoada.

O conto usa o tropo clássico de terror, usando de artefato infantil ao aterrorizar jovens do jeito que nem mesmo adultos poderiam superar, caso esses fossem as vítimas. Sobrevivendo ou não, é um episódio a ficar marcado por toda a vida, e só poderia ser assim. Conhecendo tantas histórias macabras, ninguém imaginaria ser alvo delas. E quando acontece, bom, é preciso fazer de tudo ao sobreviver, ainda que tudo pareça loucura.

“O que eu deveria dizer sobre aquela noite era que um homem invadiu nossa casa e tentou nos matar”

Dias Sombrios, Noites Claras ― Diego de Araujo Silva

Fernando sofre de insônia e tenta seguir a rotina de trabalho enquanto tenta descobrir a causa das noites em claro. A narrativa segue em fluxo de consciência, ou seja, descreve conforme o protagonista pensa durante as cenas, de mente atordoada por permanecer desperto. O protagonista é alguém comum, vive sem ambições, manter o emprego de contábil seria o suficiente, pois o extraordinário da vida dele está em Mirela, a esposa que saiu a negócios bem na crise de insônia dele. Pois mesmo uma coletânea de Creepypastas fala sobre o amor, apesar deste tipo de conto ainda provocar o autor a revelar os espinhos desta rosa. E o que mais teria neste conto? Uma referência a Machado de Assis, claro.

“Não durmo, não concluo o dia, relógio desperta às cento e vinte e seis horas e contando.”


Creepypastas 2 - capaOrganizadores: Glau Kemp e Mário Bentes
Editora: Lendari
Ano de Publicação: 2020
Gêneros: terror / creepypasta / horror
Quantidade de Páginas: 230

Compre o livro

A Louca dos Likes

Olá! Tudo bem? 

Você está com pressa, eu sei. Precisa chegar no trabalho, atravessar esse mar de gente e pegar mais três conduções. Posso te acompanhar? Só quero trocar palavras contigo, pode ser andando mesmo. Isso é um sim com a cabeça? Maravilha! Deixa eu me apresentar.

Sou Paula. Vinte e dois anos e três faculdades, todas abandonadas. Tenho um sonho e os estudos me deixavam longe dele. Li essa frase naquele livro:
“quando quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”. Por isso larguei tudo, até emprego, e agora sou feliz perseguindo meu objetivo.

O que faço hoje em dia? Produzo conteúdo. É, sei, mas passo longe de ser essas blogueirinhas ou vloggers da moda. Eu por exemplo evito incomodar muita gente para me dar like ou compartilhar meu conteúdo. Digo, há quem perturbe muito mais gente do que eu. E sim, fui até você e comecei a falar de mim. Estou incomodando? Posso continuar a conversa? Obrigada.

Faço esses conteúdos enquanto trabalho no meu grande sonho. Assim os meus seguidores de hoje serão os compradores da minha realização amanhã.  

Desculpa, não posso dizer qual o meu projeto. Em meio a toda essa gente, alguém pode plagiar. Ninguém pode roubar minha preciosa ideia. Caso siga meu perfil, vai pegar algumas dicas do meu projeto. Ah, verdade. Você já está me acompanhando, ou sou eu quem está te seguindo? Jamais! Odeio ser stalker. Só estou ao seu lado enquanto você me deixar.

Ai, espero ninguém ter gravado a última frase e mandado no zap do meu namorado. Ele é ciumento, pode entender errado. Oi? Com certeza alguém pode me reconhecer! Tenho duzentos seguidores, bem. Beijinho no ombro a quem tem apenas 199. 

Consegui um tantão de fãs por causa de meus memes superengraçados. O outro tanto foi trocando curtidas, no começo deve ser assim. Só papai e mamãe curtiam o meu trabalho, e a vaca da minha tia recusou meu convite. Eu xingo ela, sim! Falta de respeito comigo. Custa dar aquele likezinho na fanpage? A hipócrita me marcava nas mensagens de reza, até eu responder com a foto de Bafomé; meus pais até me colocaram de castigo. Sim, já era adulta e detestei de eles fazerem isso comigo.

Segui as dicas de como conseguir likes. Gastei centavo nenhum em curso, eles ensinam nada, só querem ganhar dinheiro de trouxa! Fui expulsa de alguns grupos por me acharem spam, é só recalque das inimiga com menos fama. Nem vem, duzentas pessoas é número grande, sim. E obtive elas por mérito, óquei? Nem apelei com as fotos dos meus peitos, e olha que eles são…

Espere! Desculpa. Perdi a linha e estou sendo chata. Uma idiota. Estúpida. Depois eu faço vídeo pagando mico, assim ganho mais curtidas e consigo me redimir. Mas agora eu quero continuar a falar contigo, está bem? Prometo parar de falar besteira. Obrigada, meu anjo! 

Eu trabalho muito, quero realizar meu sonho. Posto todo dia em qualquer rede social. Não fico só no site azul, não! Azul é coisa de homem velho. Dois, três, cinco. Certa vez fiz dez posts no mesmo dia. Fico orgulhosa por eu ser esta menina produtiva, incrível como arranjo tempo para ir ao banheiro. 

Eu trabalho, trabalho e trabalho. É fácil de eu provar. Além das minhas postagens diárias, não existe vídeo meu com mais cinco garotas de programas por aí. Se tiver é fake, porque não tem. 

Posso falar mais um pouquinho? Ótimo! Te amo. Merece até beijinho. 

Falando em beijinho, sempre mando esse emoji pros meus fãs. Eles adoram, esses safados. Nada demais, pois beijo é muito bom. E rende até like. Eu já comprei likes com beijos, talvez. E até com outras coisas. Eu podia roubar, matar, difamar político. Mas estou apenas investindo em meu canal, benzinho.

Sim, já estou falando já faz um tempinho. Falta eu falar sobre o que é meu conteúdo? Como? Não estava me escutando este tempo todo? Ai, essas pessoas… Por isso é tão difícil trabalhar na internet. Ninguém presta atenção em… Pare de olhar o celular! Ainda estou aqui. Medíocre é você!

Argh, está bom. Vou deixar claro qual é o meu conteúdo. Compartilho texto, foto, vídeo, frase motivacional, tags, distribuo correntes e propagandas.  

Você ainda duvida de mim. Dá-me paciência, Odin. Diz então, momô. Qual parte não entendeu? 

O que tem nesses textos e imagens e clipes? Olha, tem de tudo, ué. É focado neste meu sonho, óbvio. Você nem sabe qual é meu projeto e vem julgar meu conteúdo? Aliás, veja aí meus posts, se está tão difícil de entender. Aproveita e curte todos.

Sim, eu tenho centenas de seguidores e apenas três curtidas em cada mensagem. Uma da mamãe, do papai, e outra de algum fã. Sabe como é difícil curtirem seu trabalho mesmo ganhando seguidores? Na verdade, este é o motivo de te fazer companhia. Quero te convencer a me seguir e aumentar minhas curtidas. 

Não vi outro jeito, desculpe. Ninguém queria saber do meu trabalho na internet. Só consegui seguidores fantasmas, tenho mais bloqueios de pessoas do que amigos online. Pensei ser diferente falando assim cara a cara, pelo visto errei de novo. Estou ficando sem opções… 

Ah, é? Como se eu fosse ganhar mais seguidores fazendo conteúdo “útil”. A longo prazo o cacete, preciso de likes agora! 

Não, não, bem. Eu é que estou com o saco cheio de você. Fiquei contigo na boa, pedi licença e tudo; eu sou a vítima aqui. Vai embora? Vai me abandonar? Dúvido! Já está indo? Olha meu beicinho, ninguém resiste a ele. Fique comigo. Fale de você, então… Está bem. Tchau.

Outro fracasso, Paulinha. Esta ideia nunca daria certo, sou estúpida mesmo. E se eu criar um canal para falar mal dos outros? Criar tretas e atrair os haters deles a me adorar? Outra ideia idiota.

Esquece. Cansei desta vida. Voltarei a trabalhar em fast food mesmo.

© 2020 XP Literário

Theme by Anders NorenUp ↑