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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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Bloodchild (Outro incrível conto da Octavia E. Bulter)

Humanos são animais sencientes. Classificamo-nos ainda seres racionais, cujo raciocínio garantiu nossa sobrevivência acima dos demais animais, dentre eles os alheios do nosso convívio, distantes da tecnologia exclusiva da nossa espécie. E dominamos os animais submissos, com acomodações condizentes a sua utilidade, deixando-os proliferar e os engordando até o abate, ou adotamos outra espécie na busca de trocar mimos e ter mais estima. E se existisse uma espécie racional e superior a da humana? Nada impediria fazer o mesmo conosco.

Bloodchild* mostra a relação entre humanos e esta raça superior. Lançado em 1984 por Octavia E. Butler, este conto de ficção científica traz o terror da submissão em servir de hospedeiro a novos indivíduos alienígenas.

“Você não é dela. Você é apenas propriedade dela**”

Os Tlics dominam o mundo habitado por Gan, um dos humanos Terrans. Gan vive com a mãe e irmãos em ambiente controlado chamado Preserve, onde os Tlics cuidam das famílias humanas, alimentam e acariciam. Em troca, toda família deve ceder um filho ― de preferência masculino ― ao Tlic, conforme regulamenta o governo, para servir de hospedeiro aos ovos da raça superior. T’Gatoi é a Tlic responsável por cuidar da família de Gan, e ela mesma plantará ovos nele, o hospedeiro escolhido daquela família. Um vizinho está prestes a dar a luz às larvas da Tlic ausente no momento, e T’Gatoi realiza o parto em seu lugar, com a ajuda de Gan, que testemunha o nascimento da raça alienígena, de como acontecerá a ele em breve.

“É melhor permanecer assim e saber que ela me amou mesmo sob toda essa obrigação, orgulho e dor”

Contado na perspectiva do garoto, ele fala da rotina inerente a dele, trazendo pouco significado ao leitor a princípio, pois ainda aprenderá a situação do personagem conforme a história acontece. Esta forma de narrar é típica da autora, presente também em Parábola do Semeador, primeiro demonstrando a humanidade dos protagonistas, então deixa o elemento extraordinário da história mais visível aos poucos, e quando a realidade da história vem a tona, o leitor já está fisgado, pronto a acompanhar o protagonista até a resolução. Novas informações vêm sem pressa e terminam de amarrar as questões pendentes.

Outra característica de Octavia é chocar, sendo direta na situação descrita, confiante de a cena em si provocar receios quanto aos personagens e reflexões sobre nós mesmos. Neste conto a humanidade é submissa de outra espécie, usada como meio de proliferação, cuidada apenas por ser útil a raça superior, de forma semelhante de tratarmos os animais de gado, essencial na alimentação de muitos de nós. Tem ainda a questão dos homens serem a preferência dos alienígenas na procriação, algo inédito a este gênero sexual, e imposto por quem domina e governa esse mundo com leis nada favoráveis a seres de minoria.

Mesmo assim vai além da submissão à força. Os humanos são seres racionais, apesar de estarem numa camada inferior da outra espécie, e o conto aproveita essa característica ao demonstrar a relação com os Tlics. A espécie submissa ainda pode argumentar, pois são ouvidos pelos alienígenas interessados em buscar o consentimento. Ainda pode haver diálogo, e assim a autora mostra caminhos a melhorar de vida, mesmo sob as piores e extraordinárias situações.

Bloodchild exercita a humanidade mesmo sob dominação de seres superiores. Traz temas desconfortáveis na reflexão gerada durante a leitura de ritmo consistente tanto de escrita, quanto de construção do enredo neste conto.

“Eu sabia que o nascimento era doloroso e sangrento, não importa a maneira”

* Conto lido e analisado no idioma original (inglês)

** Citações traduzidas pelo resenhista

Bloodchild - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1984
Edição: 2014
Publicado por: Headline Publishing Group
Gênero: ficção científica / conto
Quantidade de páginas: 31

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