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1499: O Brasil Antes de Cabral (Reinaldo J. Lopes)

Este blog já realizou várias abordagens sobre aspectos nacionais ocultos ou negligenciados por nós mesmos, ou ainda graças da carência de informação. Fora da abordagem literária, desta vez temos uma obra técnica a comunicar sobre os empenhos acumulados a entender mais sobre o chão onde pisamos, focando no tempo antes da colonização. 1499: O Brasil Antes de Cabral conta sobre a diversidade dos povos indígenas conhecidos através de trabalhos arqueológicos. Publicado em 2017 por Reinaldo José Lopes através da editora Harper Collins.

“Dizem por aí que o passado é outro país, não é?”

Quem esperar um livro dedicado sobre a vida dos tupi-guarani, xingu ou mundurucu, pode acabar surpreso do livro abordar muito além disso. Na verdade o foco está na vida indígena por aqui, retratada em ordem cronológica desde as possibilidades desses povos conseguirem imigrar no continente americano, da vida cotidiana de grupo caçadores-coletores, da formação de várias sociedades distintas e da maneira em estender o domínio pelo continente, até os motivos de sucumbirem após a chegada do povo europeu.

Conforme pontua os eventos cronológicos, Reinaldo fala da vida da tribo correspondente àquele período, deixando claro de onde retira esta informação e confessa quando há divergências entre os acadêmicos, ou mesmo dúvidas. Os acadêmicos encontram várias limitações quanto ao conhecimento dos povos antigos, ainda precisam encontrar muitas respostas pontuais para enfim montar um cenário completo da vida antepassada, por enquanto há discussões especulativas até as futuras evidências as confirmarem ou negarem. Talvez torne o livro menos atraente aos leitores por abordar esses furos e divergências ao longo dos capítulos, porém o autor fez bem em tornar esta situação das pesquisas transparente, pois assim mantém o aviso das informações contidas neste livro estarem sujeitas a mudanças em pesquisas futuras. Outro motivo positivo é o de demonstrar a partir desta abordagem de como a pesquisa acadêmica está suscetível a mudanças nos conceitos e contextualizações conforme ela avança, mostra o quanto a discussão entre pesquisas divergentes só favorecem ao melhor entendimento do todo.

A abordagem do conteúdo é excelente, por outro lado o livro deixa a desejar no desenvolvimento da escrita. O autor tenta amenizar a parte técnica usando de tons informais ou mesmo faz brincadeiras com os termos, e isso foi insuficiente. Faltou concentrar a narrativa nos pontos interessantes das pesquisas, por vezes concentrou mais em mostrar os contrapontos do tópico abordado ― algo importante de fazer, conforme dito no parágrafo anterior ― sem ao menos atiçar o leitor a este tema, deixando assim o interesse subjetivo, ou seja, depende mais do interesse particular de quem lê por causa da falta de motivação. A sinopse promete a abordagem de metrópoles “perdidas”, redes de comércio, grandes monumentos e tradições artísticas espetaculares; porém tudo isso demora a aparecer. O próprio autor confessa de quase toda a metade do livro ser o prólogo sobre a vida dos indígenas, e então narra a maioria dos pontos interessantes adiante. Poderia focar a escrita nos tópicos em vez da ordem cronológica, esta deixando em segundo plano ao desenvolver a evolução da construção dessas metrópoles e comércio; desta forma teria êxito em instigar a curiosidade do leitor, e então presenteá-lo às discussões técnicas.

“Os Tapajós teriam o costume de ‘temperar’ a comida de indesejáveis […] eliminá-las no melhor estilo ‘Game of Thrones’”

1499: O Brasil Antes de Cabral é excelente quanto ao conteúdo e a transparência sobre as abordagens divergentes das pesquisas e das limitações do conhecimento ainda em desenvolvimento sobre os povos habitantes desde antes dos europeus. Poderia ser ainda melhor caso dedicasse esforço em montar os tópicos de modo mais interessante, tarefa nada fácil que pelo menos tornaria este livro excepcional a todos os curiosos pelo conteúdo. Já na edição vigente, ainda pode ser excepcional a leitores já acostumados com abordagens arqueológicas ou a quem esforçar mais em compreender as discussões elencadas pelo Reinaldo.

“O maior rio do mundo não ganhou seu nome atual por acaso”

1499 - capaAutor: Reinaldo José Lopes
Editora: Harper Collins
Ano de Publicação: 2017
Gênero: texto acadêmico / arqueologia / história
Quantidade de Páginas: 248

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Curupira: A Árvore da Vida

Triste ver criaturas folclóricas do Brasil serem subestimadas em relação as já conhecidas de outros países. Nenhuma cultura tem mais valor que a outra, e é possível reconhecer todas sem deixar de lado essa tão próxima de nós. Assim como as características de povos antigos desconhecidos pela maioria dos brasileiros, o folclore também sofre preconceito.

Se está lendo este post, é porque o Curupira atrai seu interesse. Isso me permite enxergar aquela luz no fim do túnel, onde há quem valorize a cultura brasileira ou ao menos demonstra o mínimo de interesse. Por isso agradeço a visita, e fico feliz de tomar o breve momento para conferir a análise de hoje.

Curupira: A Árvore da Vida faz a releitura da origem deste mito. Publicado em 2018, conta a história do garoto de pele branca e cabelo ruivo, adotado pela tribo Arapuã com o nome de Curupira por ser pequeno.

Curupira: A Árvore da Vida - capa

Junior Salvador é formado em letras e direito. Publicou alguns livros de poesias e contos, sendo a história de Curupira o primeiro romance publicado pelo autor.

Homens e mulheres, vocês são os esteios de vossas casas

Órfão de pais biológicos desde cedo, Curupira é adotado pelos indígenas que o encontraram, crentes do garoto trazer sinais de esperança à tribo carente de proteção espiritual e de alimento. O garoto ruivo tem dificuldades de fazer as tarefas indígenas. Apesar de criado por eles na maior parte da vida, a constituição de seu corpo o atrapalha em realizar atividades comuns da tribo.

Tem amizade com Taiguara, futuro cacique da tribo que provoca Curupira a agir como eles, mas pelo bem do garoto ruivo. Os dois ultrapassam as fronteiras da tribo e tentam trazer caças cada vez mais raras. Curupira ajuda pouco nesta caçada, e escapa com ferimentos de com riscos fatais.

Taiguara quer salvar o amigo, escuta o pajé dizer que só a Árvore da Vida é capaz de curá-lo, e então vai atrás de sua seiva. Essa busca chamará a atenção de criaturas sombrias e as libertará, ameaçando a vida da tribo.

Tinha a língua tão ferina quanto os punhos

O livro traz a ambientação característica do povo indígena brasileiro e apresenta alguns costumes tribais. Simples de entender, o livro é interessante a quem tem pouco conhecimento sobre os índios e busca uma introdução acessível ao assunto. Demonstra a hierarquia da tribo, a cultura do pajé e o respeito à existência espiritual, bem como a afeição pela vida selvagem mesmo nas caçadas. Vale ressaltar que a história traz exemplos de uma tribo, outros povos indígenas podem ter características e até crenças diferentes das representadas neste livro.

Além do Curupira, o livro envolve outras criaturas nesta adaptação das lendas folclóricas. Aproveita as capacidades extraordinárias desses seres nas cenas de ação sem entregar resultados previsíveis.

Enquanto o enredo é bem desenvolvido, a escrita carece de refinamento. Há abusos de advérbios em todo o texto, muitos terminados em “mente” (ex: lentamente) que quebram ritmo da leitura por tornar esse tipo de palavra longa. Palavras repetidas três vezes na mesma linha também prejudica caso o leitor perceba esse vício. Além dos problemas de escrita, tem a menção de uma criatura com três metros de altura, e em outro capítulo cita o mesmo monstro tendo três vezes a altura de Taiguara, quase dobrando de tamanho com esse equívoco na descrição.

Curupira: A Árvore da Vida é uma história breve sobre o personagem conhecido no folclore nacional, embora nem sempre valorizado pelos brasileiros. Traz enredo interessante, porém a qualidade do texto deixa a desejar, e entregaria o resultado melhor caso aprimorasse a escrita.

Araruama: O Livro das Sementes

O quanto sabe das culturas indígenas? Vivemos no mesmo território e ainda assim desconhecemos as características desses povos. Vemos até equívocos sobre suas mitologias. Por isso exemplos que homenageiam e apresentam informações corretas sobre os povos indígenas são bem-vindos, como é o caso deste livro.

Araruama: O Livro das Sementes é o primeiro volume da saga indígena onde sete tribos convivem sobre o corpo de Ibi. Publicado em 2017 graças ao sucesso na campanha de financiamento coletivo.

Araruama: O Livro das Sementes - capa

Ian Fraser é de etnia caucasiana, mas admirador dos povos cujos pés andam por nossas terras há mais tempo. Além deste livro, conseguiu arrecadar dinheiro e também publicou o segundo volume de Araruama por financiamento coletivo.

As palavras são as sementes das histórias, e as histórias são frutos do homem  

Sete tribos compartilham o espaço de Ibi, filha da deusa do tempo Monâ que é disputada por outros dois irmãos, o Aram da luz quente (sol) e Airequecê da luz fria (lua). Cansada da briga entre os filhos, Monâ concebe o filho em Ibi chamado Votu, o ar responsável por separar os irmãos e criar os ambientes de dia e noite. Entretanto a rixa entre Aram e Airequecê permanece através dos humanos, pois certas tribos correspondem a um dos filhos do sol, e outras aos da lua.

As pessoas de Ibi são concebidas com a ajuda da Majé, que possui irmãs de mesmo nome. Cada irmã realiza o ritual do parto na tribo correspondente. A Majé recebe visões compartilhadas da própria Monâ, dentre elas a presunção de quanto tempo o recém-nascido viverá, e então conta aos pais a quantidade de aman paba da criança.

O aman paba também determina a hierarquia da pessoa. Quanto maior o valor, maior a hierarquia na tribo. As castas intermediárias realizam trabalhos braçais, seja construção, colheita ou pesca. Já os que sequer chegam a vinte aman paba são chamados de capanema, condenados à vida breve e restritos a servir com funções simples até chegar a hora da morte, jamais considerados adultos e desprovidos de qualquer aprendizado.

Com tanta riqueza desta cultura singular aos nossos olhos, há ameaças de uma nova era. O futuro condenará muitas pessoas, além de reparar os erros que os costumes tradicionais causam. 

A única forma de se preparar para o amanhã é fazendo o hoje  

A escrita encanta logo nos primeiros capítulos. Ian Fraser aproveitou a abordagem da história de povos diferentes do nosso e adaptou a linguagem deles na escrita, tornando-a distinta como a cultura apresentada. Tem o vocabulário específico das tribos exposto ao longo do texto como alguns já citados na seção anterior, e ainda tem palavras em português contando os eventos no ponto de vista deles, demonstrando conceitos novos sobre algumas palavras, como os significados de ontem e amanhã.

Acompanhamos a vida de vários moradores das diversas tribos, todos protagonistas apenas de seus momentos. É possível conhecer mais deste território estrangeiro que é a cultura conterrânea através das aventuras de cada morador. Abordar a vida desses personagens toma tempo, e por isso demora a revelar qual o conflito capaz de tirar os habitantes de Ibi do lugar comum.

Isso torna a progressão do enredo indireta. Em vez de traçar a reta, desenha a trama na forma de espiral, onde leva tempo até dar a volta e avançar a história de todos os personagens. Pode parecer algo negativo, e para quem prefere narrativas objetivas é de fato, mas compensa pela apresentação dos comportamentos e pontos de vistas da cultura singular.

Araruama: O Livro das Sementes nos mostra as características ancestrais de povos com perspectivas diferentes da nossa. Ainda por cima entrega uma trama que embora devagar, incentiva a conhecer os personagens e da vida dessas tribos em geral. 

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Conversa de Animal

— Ei, Zé! Preciso falar contigo. 

O Chimpanzé abaixa o caqui frente a sua boca e vê quem o chama lá de baixo. Nenhuma surpresa, o tipo dele sempre vem. Tórax cheio de ar vazio, a cauda felpuda bateria na nuca dele se não estivesse dobrada para trás. E, meu Guaraci, olhas os dentes dele! Maiores de qualquer outro Quilo. Além do tipo, é ele daquele tipo. Justo quando o dia já estava longo, ficará eterno.

— Então diga, esgote logo minha paciência e vá embora! 

— Ô, Zé nervoso. Preciso falar com você de perto.

— Eu já te ouço daqui. 

— Só converso desta maneira, já sabe disso. Desce logo, Zé!

E o Chimpanzé revira os olhos e desce do galho da bracatinga. Fiapos fazem novos furos nos vinte dedos e três mosquitos sugam seu sangue até alcançar o chão. O Esquilo aguarda, de olhos e boca aberta, os lábios do bichinho nunca fecham por causa dos dentes.

Zé dobra as pernas e solta o peso do corpo. Permite a força da natureza bater sua bunda contra o chão e as costas no tronco da árvore. Dói feito a espetada de um guarani, tanto faz com a ponta da estaca de madeira ou do… daquilo, entende?

Quilo corre até Zé, agarra o braço peludo e fala no ouvido:

— Sei o que fazer da vida. 

— Não me diga. 

— Desta vez é para valer. — Dentes de Quilo raspam no pé da orelha do Chimpanzé. 

— Prefiria quando você sonhava em contar histórias. Gastava tempo pensando nelas e parava de encher minhas bolas.

— Esta sua boca sai mais besteira que o outro buraco, Zé! Ao menos já acertou meio caminho, eu quero voltar a contar a história.

— Maravilha! Então deixarei de tomar do seu tempo. Trabalhe nessas histórias, com certeza uma ficará famosa.

— Não farei várias histórias do tipo estória, primata. Criarei nenhuma, apenas contarei A história. 

— Qual é A história? 

Dentes do Quilo saem de perto da orelha de Zé. Chimpanzé observa o pequeno bicho parado, braços levantados mal alcançam as bochechas, essas duas bolas da cara maiores das que Zé carrega na cintura.

— A verdadeira. 

Agora o Chimpanzé lembra o que deve fazer. Está na hora de bufar, tapear a testa e continuar mais essa conversa sem sentido. Ele diz:

— Pois bem. Qual é a história verdadeira? 

— Eu me inspirei em dois exemplos de humanos. O primeiro era como eu, inventava histórias que nem todos tinham interesse; então ele revelou ao mundo uma religião, atraiu seguidores milionários para financiar a esta história mítica, mas real.

— Eu já ouvi a deste humano por outras pessoas. O chamam de lunático por criar essa religião sem pé nem cabeça sobre extraterrestres. Piores ainda são quem seguem ele!

— Ai, Zé. Sempre ouvindo de pessoas erradas. — Quilo estala a língua e balança a cabeça. — Talvez o segundo exemplo te convença. É do sujeito com bigode horroroso, no começo ele queria ser pintor. O fizeram desistir desse sonho, ele era péssimo. Então investiu como soldado e virou o líder de uma nação soberana, derrubada só porque tinha muitos invejosos.

— Por Anhangá, Quilo! Ele foi a pessoa mais cruel da história da humanidade. Ele exterminava quem era diferente! É como se eu resolvesse matar primatas de pele castanha por achar a minha negra superior.

— Diga a verdade, amigo. Você ouve essas besteiras daquele humano que te enraba de noite, né? 

Chimpanzé joga o caqui no Esquilo, a fruta desmancha contra os dentes do animal e molha os pelos castanhos. Quilo apenas pisca. Sem escapatória, apoia o queixo no punho fechado e relaxa a cabeça caída de lado, gesticula com a mão livre e volta a falar:

— Está bem, conte logo como quer fazer. 

— Eu transmitirei a verdadeira história, e com ela promoverei o novo rei, cuja espécie é a melhor e a mais linda, apesar de não ter dentes como os meus. 

— Tenho medo de perguntar, Quilo. Mas me diz, quem é o rei? 

— O Aguar. 

Sangue ferve em Chimpanzé. Músculos da face esticam o rosto e arregalam os olhos avermelhados. Enterra as mãos, pois os braços estão afim de apertar o pescoço de Quilo até os olhos saltarem das órbitas e os dentes despencarem da boca. Só que precisa dar o exemplo, por isso suspira e retoma a conversa:

— O Jaguar é nosso predador, amigo. Essa espécie assassinou a mãe dos irmãos Jaci e Guaraci. É a pior ideia de todas, Quilo, e me corta o coração te ver insistindo nela.

O primata segura o peito e despeja lágrimas na terra, demonstra o sentimento correspondente a sua fala. 

— Coitado de você, Zé. — Esquilo abraça o pulso do amigo e esfrega o rosto nos dedos da mão. — O nosso mundo está cheio de mentiras. Jaguares condenando a mãe dos deuses Sol e Lua? Eles tomaram conta deles quando eram pequenos! Você acredita nas mentiras do Gaio, aquele propagador de fake news. Aguar é a nossa salvação, Zé, precisa acreditar em mim.

— Cale a boca! — Zé puxa o braço e desfaz o abraço de Quilo, vira o corpo para a bracatinga, fecha os olhos pelo cúmulo da resistência. — Passou dos limites. Desta vez teremos de nos separar, Quilo. Andaremos por caminhos diferentes.

Esquilo dá um passo adiante, estende o pequeno braço na perna do amigo. Encharca os olhos e recua, dá as costas a Zé e vai embora. 

Aguar virou rei, no fim. Os Zés choram pelos cantos, os Quilos dançam felizes, e os Gaios berram sobre os passos dos súditos felinos do novo governo. Cada espécie têm a certeza sobre o futuro, poucos indivíduos de fato sabem, só que todos descobrirão com o tempo.

Quilo e Zé - conversa de animal

* Nas minhas pesquisas durante a escrita não achei indícios sobre chimpanzés viverem no Brasil (fora dos zoológicos). Ainda decidi manter o personagem porque Zé é bem brasileiro :p 

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