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Cem Palavras, Dez Anos

Aos 25 eu enjoei daquelas músicas metálicas. Tão agressivas e frenéticas, as cordas de guitarra cortavam meus ouvidos enquanto os cantores rasgavam as próprias gargantas na técnica — ou a falta dela — de cuspir palavras guturais. Eu nasci na época certa, quando programas reproduziam qualquer tipo de música e ainda recomendavam outras do mesmo estilo. A Inteligência Artificial não era tão sofisticada, ainda assim me deu boas dicas. Sugeriu músicas acústicas, o ritmo massageava meus tímpanos enquanto a voz roca cantava a letra, sobre um homem de bem matar a própria esposa e contente pois a reverá em breve, no inferno.

Aos 35 ainda ouvia esse novo estilo de música que me cativou. Novo no sentido de eu jamais ter descoberto sem a ajuda da Inteligência. Ah! A linda Inteligência. Aprendeu, aprimorou os algoritmos desde então, deixei meu queixo derrubado enquanto descobria mais obras de arte. Ainda eram feitas pelos humanos, a tendência é mudar, ouvi algumas tentativas horríveis tocadas por robôs. A Inteligência me entendia, humanos ainda eram os melhores músicos. Arremessava minhas costas no colchão e explodia o som, fechava os olhos e flutuava na sinfonia leve marcada pelos toques de violoncelo. Sim, tudo bem. Eu ainda vou matá-la.

Aos 45 eu ainda a amava. Porra, eu juro. Entregava bombons em datas comemorativas e nas comuns, apreciava toques na sua pele apenas sob o consentimento dela. Era a dona do controle remoto, mandava na cama. Eu cozinhava, lavava a louça e trazia o prato à mesa, levava a comida à boca dela. Era dona de mim, o seu humilde comprador de sapatos, tinham mais opções aos pés dela do que meu videogame, minhas leituras, das músicas. O sangue dela também era lindo, mais saboroso quando escorria da testa. Fizemos o último amor, depois eu enterrei o cadáver no quintal.

Aos 55 ninguém ainda me prendeu, bando de incompetentes. Os algoritmos bem tentaram, enfim nenhum recomendou alguém tão bem quanto ela. Quando eu reclamei disso em voz alta, o aparelho ouviu e me explicou, ele sabia desde o começo, só ela era ideal a mim, pouco importa o quanto pedisse por novas indicações. Criaturinha dedicada, esta Inteligência, sempre presente nos melhores programas. Lamentei por deixá-la de lado, a Inteligência, porque eu me entreguei. Tudo perde a graça, sabe? Cansei de ficar escondido das autoridades, então confessei, sem entender o meu motivo e nem do policial ao me dar o soco.

Aos 65 eu estava fraco. Comida podre da prisão, idade avançada e proibido de aproveitar as novidades. Nada a reclamar, na verdade. Sorria todos os dias, mesmo depois de perder alguns dentes, ganhando novos socos. Pouco importava o desprezo dos outros bandidos, os cuspes dos agentes e a bunda do diretor. Matei todos. A pergunta “como?” só tem uma resposta: “sei lá”. Acordei certo dia e agi, um a um eu espremi. Dedos contra os olhos, cabeça abriu miolos, tripas foram meus espólios. Eu segui regras, agi como sistema onde os algoritmos moviam meu corpo, saí pela porta da frente.

Aos 75 eu fui capturado pela equipe competente demais. Eles vestiam jalecos carmesim quando me estudavam. Entendi na segunda vez, quando vinham de cor cinza significava estupro. O de cabelo cacheado me odiava, fazia questão de atingir meu intestino com o seu de 30cm. Levaram muito tempo no estudo, no estupro, então concluíram que eu não tinha sistema, chip ou outro dispositivo implantado. Havia apenas ideias em meu consciente e subconsciente, programadas a despertar em meu cérebro em determinados momentos, eles chamam de gatilhos. Ainda sobrou piadas como quantas vezes deveriam me foder até disparar outro gatilho. Nunca disparou. Pena.

E aos 85 estou para morrer. Vivi sob vigilância, mas fui compensado — segundo eles — por descobrirem o perigo implantado na Inteligência em sugestões tão inocentes há 60 anos. Houveram muitos assassinos como eu, e graças aos estudos feitos em mim eles puderam condenar todos os outros. Talvez o sexo também tenha ajudado, algo que eles continuam fazendo comigo, sempre os mesmos, os pais de família de bem. Deve ter músicas sobre isso. A certeza verdadeira que tenho é a de minha vida no fim valer quase nada. Cem palavras resumem o que passei a cada dez anos. Sem carpe diem.

Mind Upload e o Pós-Vida no Mundo Virtual

Who wants to live forever? Músicas, histórias e discussões alimentam o desejo de superar as limitações físicas e melhorar os nossos aspectos de vida. A breve história da humanidade traz situações controversas entre a evolução social e tecnológica frente a real melhora nas condições vitais. Nada impede os cientistas de estudarem e buscarem maneiras de transformar nossas rotinas, e isso ainda é bom em muitos sentidos.

Quero abordar no post de hoje quanto a possibilidade de manter a vida humana mesmo após a morte biológica, através do armazenamento e reprodução da mente e do comportamento do indivíduo em ambiente virtual. Será mesmo possível salvar a consciência de alguém no computador e reproduzi-la em outro ambiente? Confira o artigo e saberá mais desta discussão.

Redes Sociais como meio de eternizar pessoas

Os perfis das redes sociais podem dizer muito sobre quem é determinada pessoa. Empresas vasculham os conteúdos compartilhados pelos candidatos de emprego antes de decidir a contratação. Amigos distantes podem manter as relações por esses sites, bem como namorados, que podem causar dor de cabeça após o término e ainda acompanharem a vida do ex no ambiente virtual.

É difícil obter a noção da quantidade de informação pessoal disponível de um usuário nesses sites, pois ela é gigantesca! Chega no ponto de empresas trabalharem na possibilidade de analisar as postagens e interações dos perfis, e então produzir algoritmos capazes de reproduzir os comportamentos depois de a pessoa morrer.

Sim. Você leu isso mesmo.

Rede Social após a morte - mind upload

Eter9 e Eterni.me

Eter9 é uma rede social criada pelo português Henrique Jorge, ainda em fase beta. O usuário da rede faz as postagens e interage com outras pessoas do site sem fazer nada de diferente. E enquanto o utilizam, a inteligência artificial analisa o comportamento de cada perfil para gerar o avatar correspondente àquela pessoa, e então este avatar postaria e interagiria da mesma forma durante a ausência do usuário.

Outra empresa com ideia semelhante é a Eterni.me. Sem rede social própria, ela sugere coletar informações pessoais já disponíveis na internet em outros sites e assim construir o avatar do indivíduo após seu falecimento. Mais ainda, o perfil do falecido poderá interagir com as pessoas vivas e próximas a ele.

Nem tudo são flores

A ideia pode até ser inusitada, pelo menos a execução é possível. A inteligência artificial precisa de muita informação gerada daquele usuário no ambiente virtual, e por isso a eficácia depende dos perfis serem ativos.

Toda esta quantidade da vida digital exposta de alguém acarreta noutras preocupações a serem analisadas. Precisa verificar se essas empresas garantirão a segurança desses dados, do contrário outros podem roubar toda essa informação e fazer atos ilícitos ou sem consentimento. Mesmo os perfis de pessoas mortas podem expor as das vivas por estarem conectados. Certos dados podem demonstrar o momento quando as pessoas estão mais vulneráveis a assaltos ou quais estão sujeitas a golpes de fraudes. Lembre-se que já aproveitaram dados do Facebook para propagar fake news ao público-alvo nas campanhas eleitorais.

Segurança digital - mind upload
Mantenha a informação digital trancada

Mesmo sendo possível, eu duvido quanto a eficácia de reproduzir uma pessoa real através da sua rede social, pois existem muitas maneiras de utilizar esses sites. Nem tudo da vida pessoal é exposto por lá; há quem faça postagens com intenção de criar uma imagem melhor de si, mesmo que seja falsa; além de comportamentos destoantes da pessoa e usuário, como o autor de ameaças virtuais que mal olharia nos olhos de alguém na vida real (felizmente).

Em suma se publica muitos livros do Stephen King, o sistema dessas empresas reproduzirão, na verdade, a pessoa idealizada pelo dono do perfil. E quem presenciar o comportamento emulado pelo avatar, verá a diferença da pessoa em carne e osso.

Mind upload

Tem como eliminar essa dependência de coletar o conteúdo feito pela pessoa afim de emulá-la. Consiste em pegar o cérebro de alguém, mantê-lo intacto até ser possível digitalizar todas as memórias e reproduzir os comportamentos do indivíduo para então ressuscitá-lo através da emulação por programas.

Calma, isso não é Blackmirror ou outra realidade fictícia. Há quem de fato trabalha nisso, como a Nectome.

Nectome é uma empresa de pesquisa dedicada aos estudos da memória. Sua proposta afirma a possibilidade de realizar o mind upload no futuro quando poderá emular a consciência da pessoa em ambiente virtual. Mesmo sendo algo futurista, os pesquisadores garantem de as pessoas de hoje já poderem armazenar seus cérebros através da operação que é garantida… de ser fatal.

Paciente morto - mind upload
O paciente está morto, vida longa à ele!

Destinado a pacientes de doença terminal, a operação consiste em preservar toda a constituição cerebral e mantê-lo assim até ser possível escanear e reproduzir a consciência. Para tal conservação, o cérebro ainda precisa estar ativo, em outras palavras, o humano deve se sujeitar a operação enquanto está vivo. Porém, este procedimento é fatal, e por isso feito apenas em pacientes com possibilidade legal de eutanásia.

A ideia soa absurda, e apesar de já ter pessoas interessadas, pode ser absurda mesmo. A Nectome teve parceria com o Instituto de Pesquisa de Massachusetts (MIT) que logo foi desfeita, pois o conhecimento vigente da neurociência não garante a eficácia da preservação do cérebro, tão pouco há garantia de reviver o cérebro no futuro através da digitalização.

Discussões sem fim

Só porque o MIT recusou uma iniciativa de mind upload e alegou falhas referentes à possibilidade, pouco significa a morte do assunto. Muitas discussões já foram feitas com pontos positivos e negativos, além de muitas outras que virão.

Duvidam da capacidade informática de conter e processar memórias no mesmo nível funcional do cérebro, porém inexiste evidência sobre os sistemas serem incapazes. Falam da impossibilidade de converter as memórias salvas em comportamentos idênticos aos humanos, e a resposta afirma haver avanços na neurociência sobre como as funções neurais funcionam e poderiam adaptá-las na emulação. Contestam da falta de contato físico na pós-vida virtual que resultaria em algo diferente da vida como conhecemos, e o outro lado alega sobre a experiência ser real no ponto de vista do indivíduo cibernético; mesmo considerando a criação do ambiente simulado onde as pessoas mortas conviveriam, ou a transferência da consciência delas em corpos sintéticos, esses de fato são desafios a serem avaliados em etapas avançadas deste estudo.

Discussão - mind upload
Os dois pontos estão certos… em discutir

Citei apenas exemplos vistos em dois artigos discutindo pontos contrários, e o debate com certeza é ainda maior. Este é o modus operandi de toda pauta científica, e deve fazer desta forma. Quanto mais autores de especialidades distintas entrarem na conversa, maior será o entendimento do assunto sobre a viabilidade.

É uma causa perdida?

E mesmo o mind upload sendo, no máximo, uma possível realidade apenas no futuro, significa que esses estudos feitos no presente geram pouco ou nenhum resultado? Pelo contrário! Pesquisas com objetivos distantes como esse podem beneficiar pontos intermediários.

Já disse no meio daqueles argumentos contrários sobre estudos da neurociência que descobrem como o sistema neural funciona e possibilita no futuro a reprodução dessas funções pelos programas de emulação da mente. Todo este estudo pode também gerar conhecimentos avançados e com esses dar oportunidades a outras pesquisas, como as de tratamento contra doenças degenerativas do sistema nervoso. Ou seja, quando ver pessoas se voluntariando em operações como a Nectome, não pense nelas como iludidas ou fanáticas por uma capacidade improvável, pois eles podem tornar possível os estudos capazes de curar doenças.

Pelo bem do mundo - mind upload
Pelo bem do mundo e da vida

Vivemos na época onde mind upload existe somente em ficção ou na obsessão de pesquisadores e idealistas ao futuro. Eu trouxe motivos para desconfiar dessas iniciativas atuais, e por outro lado mostrei benefícios em tópicos paralelos nesses estudos de resultado improvável. Sou a favor quanto ao prosseguimento dessas pesquisas e o incentivo à discussão como em qualquer outro tópico científico. Já sobre me sujeitar ao pós-vida, ainda prefiro tentar me eternizar através dos meus textos, deixando-os disponíveis mesmo após da minha morte.

Referências

** Todos os artigos usados como referência estão em inglês, infelizmente. **

Site da Eter9

Artigo sobre Eterni.me

Artigo sobre a Nectome

O rompimento entre MIT e Nectome

História sobre o neurocientista que deseja salvar a humanidade em computador

Sua mente jamais será armazenada em computador

Resposta ao artigo “Sua mente jamais será armazenada em computador”

Neuromancer (Referência do Gênero Cyberpunk)

Vivemos com fácil acesso à tecnologia e obtemos informações espontâneas. Tudo é tão fácil de se conectar a ponto de idosos também conseguirem usufruir dos benefícios da tecnologia da informação, embora com breve dificuldade ou resistência no começo. 

Ainda precisamos tomar cuidado com as aplicações tecnológicas, não cedermos ao controle daquilo que seriam nossas ferramentas e lutar pelo direito cada vez mais inclusivo da tecnologia para beneficiar além de grupos distintos. A realidade será nada confortável à população em geral se ignorarmos essas precauções. Falo isso em relação à 2018, mas em 1984 já existia este cenário na ficção. 

Neuromancer é um dos primeiros livros a se destacar no cyberpunk, sub-gênero literário da ficção científica. Publicado em 1984, conta a história da sociedade transformada conforme os impactos da tecnologia especulada pelo autor, a qual algumas existem na realidade e são até mais acessíveis em relação ao livro. 

Neuromancer - capa

William Gibson foi um dos autores mais conhecidos dentre os precursores do subgênero cyberpunk. Destacou-se por levar a ficção científica com elementos de ação às camadas mais tradicionais da literatura graças ao próprio Neuromancer, livro vencedor de prêmios literários de ficção científica, como Nebula, Hugo e Philip K. Dick. 

O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar  

Case é um cowboy, alguém capaz de invadir e danificar sistemas tal como os hackers maliciosos fazem no mundo real. A rede virtual desta realidade se chama matrix, cuja interface possui o próprio espaço de interação física da pessoa que se conecta através do sistema neural pelo dispositivo chamado deck, semelhante ao computador. 

Depois de aplicar um golpe nos seus chefes, Case é contaminado com a micotoxina capaz de impedir a conexão com a matrix. Recorre a clínicas clandestinas em busca da cura, e os tratamentos alternativos apenas pioram sua saúde. 

Consegue se conectar de novo depois de aceitar uma missão de Armitage, sujeito desconhecido a quem Case tenta conhecer enquanto faz trabalhos junto com a nova colega Molly, a mercenária de costumes orientais e com olhos modificados pela biotecnologia. 

O que me incomoda é que nada me incomoda  

Neuromancer elabora o mundo onde os países ocidentais absorvem a cultura oriental, além de outras modificações geradas pelos anos e principalmente pela tecnologia avançada. Dispositivos facilitam a comunicação e interação com outras pessoas ao mesmo tempo em que a sociedade se divide entre os membros das corporações e pessoas marginais, diferença clara ao definir pessoas com emprego assalariado como alguém distinto chamado sarariman. 

Outros termos surgem no livro, desde palavras japonesas, conceitos de informática ou os criados na história. Essas expressões distintas aparecem logo no começo do livro, por isso reforço o conselho da edição publicada pela Editora Aleph de conferir o glossário antes de começar a leitura. 

A história já acontece sem apresentar o universo criado ao leitor, como a fase conhecida da jornada do herói em que o protagonista seria de um lugar semelhante ao nosso e parte ao mundo extraordinário, vislumbrando as novidades pelos olhos do personagem. Longe de ser etapa obrigatória, ainda mais quando inexiste o lugar comum na história, porém o autor ignora a apresentação conceitual e exige mais do leitor para assimilar a realidade do livro. 

Nunca gostei de fazer uma coisa simples quando podia complicar pra caralho  

Toda a narrativa foca na perspectiva de Case, mesmo quando conta a história no ponto de vista da Molly, só que ainda a partir do cowboy, pois ele consegue se conectar a ela e ver, ouvir e sentir enquanto estiver interligado. Usa a tecnologia da história como recurso interessante da própria narrativa. 

Pena algumas escolhas acertadas na escrita disputar deslizes nas descrições. Além das palavras específicas à trama, conta-se pouco da grande variedade de tecnologia e conceitos existentes, com trechos breves exigirem releituras até compreender a situação. Descrições simplistas como contar o que o personagem sabe ou sente, bem como o abuso do verbo ser demonstram pouco aproveitamento da linguagem. E nas cenas com vários personagens, a descrição confunde sobre quem faz a ação, limitando-se muitas vezes a citar alguém na terceira pessoa (ele/ela) em vez de citar características particulares ao autor da ação. 

Com esse mundo fantástico feito há mais de trinta anos onde reconhecemos a atualidade com a tecnologia de comunicação, informação e inteligência artificial, apesar das distinções da visão particular do autor e de alguém vivendo na década de 1980, Neuromancer é o primeiro romance do autor com novidades ousadas que estabeleceram vários conceitos cyberpunk. Só lamento por trazer esta experiência desconfortável na leitura e do exagero de informações distribuídas no livro de tamanho razoável. 

Inteligência Artificial (conto distópico)

Independente da ideologia política, todo governo totalitário capaz de por em risco o bem-estar da população e negar o direito do indivíduo em tomar decisões é ruim. George Orwell chocou com a história distópica de vigilância constante, distorção de fatos e manipulação através da linguagem; só que há outras formas de apavorar o leitor com uma realidade imposta através da tecnologia. 

Inteligência Artificial é um conto breve sobre uma sociedade com chip implantado em cada indivíduo e manipulado pela tecnologia citada no nome da obra. Disponível nas plataformas digitais desde 2017, foi finalista no concurso Sweek Stars na categoria Ficção Científica. 

Inteligência Artificial - capa

Débora de Mello já apareceu no blog com suas obras da saga Hale & Hastings, além de realizar serviços de design no meio editorial. 

Repetíamos as mesmas atividades, como robôs 

[Por ser uma obra curta, a apresentação do enredo a seguir conterá alguns spoilers. Caso prefira, acesse apenas a análise final clicando aqui]

O conto é sobre a indignação de um homem idoso com as transformações da tecnologia a ponto de interferir na vida de cada cidadão. A sociedade permitiu o implante de artefatos complexos no corpo em busca de aprimoramento pessoal, entretanto a mesma tecnologia condicionou as pessoas à manipulação em massa, atuando como robôs. 

Esse senhor foi um dos primeiros a ter o implante do chip em seu corpo, e por isso a inteligência artificial tem limitações na manipulação sobre ele, o que possibilita a revolta contra o regime totalitário. 

Nossas armas são mais fortes que o que nos torna inúteis 

O narrador é pouco desenvolvido. Serve apenas de sustento entre os parágrafos de diálogo em que os personagens contam a trama com pouca ação, esta o suficiente de explorar a premissa. 

Vejo o conceito deste conto como uma metáfora ao comportamento atual de cedermos à tecnologia em busca de vantagens sem importarmos com as condições. Com o uso inconsciente das ferramentas, nos condenaremos a situações comprometedoras difíceis de lidar quanto mais demorarmos a perceber. O governo totalitário da Metrópole personifica o perigo de quem não sabe como suas ferramentas funcionam.

É uma história curta, mas provoca reflexões a ponto do leitor divagar por muito mais tempo além da breve leitura.

Inteligência Artificial: qual o perigo?

Inteligência Artificial (IA) sempre remete a tecnologia avançada. É difícil acreditar que já está presente na vida de muitos. Já é utilizada para reconhecer a nossa fala e traduzir a outro idioma, sugerir vídeos/produtos a partir do que consumimos, e está presente nos sistemas de chats de algumas empresas e nos celulares como Siri, Cortana e Google Now. 

Já algumas obras de ficção trazem previsões negativas com este tipo de tecnologia. A cada avanço tecnológico tem uma conspiração de se ter a Skynet no mundo real, ou faz alusão ao seriado Black Mirror, dentre outras com este tipo de abordagem. 

A discussão deste post é exatamente essa: tais histórias fictícias da Inteligência Artificial podem se tornar reais? É tão perigoso assim? 

robô - inteligência aritificial

Já adianto que não podemos colocar toda a atmosfera da IA no mesmo recipiente e julgar como um único objeto. Já comentei sobre alguns benefícios desta tecnologia no começo deste texto, e há muitos outros. Mas também existe fatores capazes de preocupar a segurança não de um país, mas da humanidade em si. 

Autonomia

A tensão aumenta quando pessoas influentes no ramo da tecnologia como Elon Musk e o recém-falecido Stephen Hawking alertam sobre o perigo da IA. Ambos concordam da capacidade desses sistemas superar a humana, e a tendência é aprimorar cada vez mais. 

Até esse ponto não há problema. O que realmente preocupa é a possibilidade da Inteligência Artificial agir de forma autônoma, ou seja, independentemente da decisão humana. 

Um sistema só será autônomo se os desenvolvedores assim o fizerem. Há quem defende que jamais alguém desenvolveria algo totalmente autônomo. Outros afirmam o oposto, e por isso é preciso determinar qual a melhor maneira de manter sob controle; tudo para garantir uma implementação consciente desse resultado. 

Armas Autônomas 

Mesmo não sendo completamente, já existem armas com diferentes níveis de capacidade autônomas. Tal tecnologia expande a possibilidade de eliminar vidas sem a intervenção direta do ser humano, além da possibilidade do sistema ser hackeado e apresentar comportamentos contrários ao implementado originalmente. 

Risk Inside - inteligência artificial

Empresas de robótica de todo o mundo já assinaram uma carta aberta direcionada às Nações Unidas com o objetivo de banir armas autônomas no âmbito internacional.  Ao contrário de armas nucleares, as armas com inteligência artificial não possuem recursos limitados e são constantemente barateados. A sua produção em massa é viável não apenas nos conflitos internacionais, mas para assassinar pessoas sob o comando de quem tiver tal tecnologia.

Já existem regulamentações que obrigue o controle de toda arma autônoma por um ser humano. A responsabilidade sempre caberá à pessoa, cujos princípios morais e comportamentos são julgáveis, ao contrário de máquinas. 

Porém a solução não se limita a atribuir responsabilidade aos humanos… 

O Poder de Decisão 

Os sistemas são capazes de tomar decisões por conta própria conforme o escopo de sua criação. Pense no carro autônomo: se não atribuir a capacidade de decisão no automóvel, é apenas um veículo comum totalmente dependente de motoristas. 

Cabe ao operador humano ter o poder sobre a decisão da tecnologia. A dificuldade está em como empregar o sistema de decisão na máquina. 

Responsabilidade humana - inteligência artificial

Os sistemas a princípio executam tarefas específicas, mas o aprimoramento constante expande as possibilidades de cognição e ação da tecnologia. O humano responsável precisa estar ciente do nível de complexidade da ferramenta utilizada e coordenar sua função de acordo com esse nível. 

O responsável também precisa supervisionar a execução da máquina. Mas a supervisão pode apresentar um problema: a taxa de erro do sistema é extremamente baixa, e isto traz um senso de segurança superestimado ao supervisor, e assim tem o risco de não perceber no momento certo quando algo de errado acontece. 

 

O limite desta capacidade está nas mãos da regulamentação, já que a tecnologia sempre está se aprimorando. Atribuir tal controle ao ser humano traz consigo falhas naturais e divergência na compreensão do potencial operatório e cognitivo da tecnologia.

Mesmo de forma indireta, acredito que a ficção pode ajudar na prevenção de se aprimorar tais tecnologias. Histórias distópicas podem alertar sobre o futuro (mesmo exagerando nas suposições) se não der o devido cuidado. Universos pós-apocalípticos podem mostrar a reconstrução do mundo sem repetir os erros cometidos.

Inteligência Artificial é uma tecnologia fascinante demais para se desenvolver armas. Espero que seu uso seja cada vez mais focado na preservação da vida, como já acontece em alguns casos.

futuro - inteligência artificial


Saiba mais

How much autonomy is too much for AI?

Here’s the real reason artificial intelligence could be a threat

Killer robots: World’s top AI and robotics companies urge United Nations to ban lethal autonomous weapons

When Should Machines Make Decisions?

Autonomous Weapons: an Interview With the Experts

O Grande Problema de 2018

Comentei no post anterior sobre a perspectiva de um ano melhor no que diz respeito ao aspecto pessoal. Um ponto de vista em que deve prevalecer com o intuito de não se desmotivar e ajudar o próximo em troca de uma simples gratidão. 

Já este artigo tem um objetivo diferente.

Noooooooo! - O Grande Problema de 2018

Chegamos na metade do primeiro mês no ano e já ouvi comentários do tipo: “Se 2017 foi ruim, se prepara pelo pior em 2018.” Infelizmente pode ser verdade.

É o ano de eleição dos nossos representantes federais e estaduais. Escândalos políticos são transmitidos por grandes veículos de imprensa, também em páginas e grupos menores nas redes sociais. A imagem geral da população é que nada se resolve neste país.

Infelizmente muito disso é um reflexo das nossas ações e omissões. Uma população desinformada não conseguirá impor demandas possíveis ou denunciar o que de fato está errado. Um povo pouco crítico não avalia o conteúdo divulgado na sua tela, compartilha inverdades, e debate com xingamentos no lugar de argumentos. 

Nunca se teve tanta informação como hoje. É realmente difícil de assimilar tanto conteúdo. Só que infelizmente muitos fazem um péssimo uso desta variedade. Selecionam os que são verossímeis, o que seu guru diz, ou o que os números apontam. 

Elenco a seguir os piores problemas que já existem e podem se agravar neste ano de copa. Não é uma imposição, pois não sou dono da verdade. Apenas aconselho a caso se identificar com um dos tópicos, reveja seus conceitos. Não mudaremos a situação do nosso país sem começar a transformação em cada um de nós. 

Expectativa X Realidade

O Brasil foi o segundo país com a maior população que possui falta de conhecimento sobre a realidade de onde mora.  

Negativo - O Grande Problema

O instituto Ipsos fez um levantamento em 2017 com 38 países. Questionou cerca de 29 mil pessoas sobre a porcentagem de ocorrências em determinado assunto em relação ao país onde vive, além de algumas questões de abrangência internacional. Foram perguntas como taxas de homicídios, nível de pessoas com diabetes, gravidez na adolescência, e atentados terroristas. 

As respostas tiveram valores superestimados. Os brasileiros imaginam a situação do país muito pior do que é na realidade. Provavelmente um resultado das muitas notícias negativas, estas que possuem bem mais impacto que as positivas.

Com a população desentendida da própria realidade, a prioridade não ficará direcionada aos problemas que de fato acontecem. Um exemplo: priorizar a educação quanto a prevenção de gravidez na adolescência — cuja taxa real é 6,7% contra a presunção de 48% — em vez da prevenção contra acidentes provocados pelos motociclistas, estes correspondentes aos 74% dos acidentes de trânsito de janeiro a novembro de 2017.

A instituição disponibilizou um quiz com algumas perguntas levantadas nas entrevistas (infelizmente as perguntas estão em inglês, mesmo no quiz do Brasil). Eu fiz o questionário tanto na realidade do nosso país como nos Estados Unidos, e preciso rever minha perspectiva: acertei três de oito no quiz do Brasil, mas cinco nos EUA.

Oito perguntas não são o suficiente para apontar todos os aspectos da sociedade em nosso país (seis se considerar que duas são de abrangência internacional). Ainda assim já aponta que eu também preciso rever meu ponto de vista e buscar mais informações do que acontece no Brasil. 

Conhecimento científico da população 

O Instituto Abramundo avaliou o nível de conhecimento científico de cidadãos moradores das regiões metropolitanas do Brasil. 

Na pesquisa foi definido quatro níveis de proficiência: 

  • Nível 1 – Letramento não-científico: assimila informações explícitas de contexto cotidiano, sem domínio de termo ou aplicação científica; 
  • Nível 2 – Letramento científico rudimentar: resolve problemas de interpretação e comparação com informações científicas básicas; 
  • Nível 3 – Letramento científico básico: capaz de resolver problemas a partir de evidências científicas apresentadas de forma técnica em diferentes contextos; e 
  • Nível 4 – Letramento científico proficiente: são capazes de argumentar sobre hipóteses, conhece unidades de medidas e tem consciência de assuntos do meio ambiente, saúde, astronomia ou genética.

Yeah, Science!

No resultado da pesquisa, 64% dos cidadãos possuem no máximo nível 2. Somente cinco de cada 100 tem um letramento científico proficiente. 

O instituto distribuiu essas variáveis em outras classificações, como renda, escolaridade, profissões, idade e outros. Senti uma dor no peito ao ver que dos profissionais de educação, apenas 10% são do nível 4; além dos profissionais de saúde com apenas 8% no maior nível, e a metade correspondente desta profissão está no letramento rudimentar. 

Como disse antes, a quantidade de informação exposta é absurda, seja elas verídicas ou verossímeis. Considerando o conhecimento científico da maioria ser de nível regular, infelizmente é de se esperar que muitos são levados a teorias conspiratórias e curas milagrosas.

Realidade Transformada pela Inteligência Artificial

O avanço nos sistemas de inteligência artificial expande cada vez mais as possibilidades de criar conteúdo. Infelizmente também pode gerar materiais perturbadores. 

Algoritmos de aprendizado de máquina e um computador moderado já é o suficiente para trocar o rosto de uma pessoa em um vídeo. Já circulam pela internet vídeos pornográficos com rostos de atrizes famosas de cinema, quando na verdade é apenas uma atriz pornô que teve sua face substituída no vídeo. 

Mulher Artificial

A inteligência artificial é alimentada com inúmeras fotos da celebridade, todas disponíveis na internet. Tais fotos são colocadas, quadro a quadro, no lugar do rosto da profissional do vídeo com uma expressão semelhante. 

Existem falhas no material, e nem precisa de um olhar tão atento. Há momentos em que o rosto não aparece ou fica desalinhado, e os lábios não estão de acordo com a fala. Porém isso pode ser entendido como um problema do arquivo de vídeo, ou simplesmente não ser levado em consideração na hora de compartilhar no “zap”.

E se combinar a troca de rosto com simulação da voz de uma pessoa, mesmo ela nunca ter dito algo do tipo? Isto já é possível com os recursos disponíveis.

Fora os vídeos eróticos com celebridades…

Não percebeu o perigo? Considere este cenário: um vídeo editado com uma pessoa qualquer, onde o rosto é substituído pelo presidente dos Estados Unidos e a fala é programada com a voz do mesmo. Ainda está tudo bem por ser um político que despreza? E se trocar pelo seu político favorito? Ou pelo seu cantor? 

É um recurso viável e pode destruir a imagem de uma pessoa defensora do ponto de vista diferente. Além do debate político aconteceria uma disputa de vídeos artificiais constrangedores. #IstoÉMuitoBlackMirror

Bots na Política

A eleição presidencial de 2014 teve o maior número de interações de usuários online neste período com relação as campanhas anteriores. É possível que a população realmente estivesse mais engajada do que nunca. Mas as redes sociais também foram transbordadas por bots.

Inúmeros perfis falsos foram criados a partir de programas, cujo algoritmo instruía interações nas redes sociais com curtidas, compartilhamentos, e até comentários.

Pessoas falsas

Empresas oferecem este tipo de “serviço”, e são fáceis de serem encontradas. Poderiam garantir 3.000 curtidas na fanpage por duzentos reais, ou 10.000 likes em único post com R$90,00.

Os dois antagonistas da eleição (Dilma e Aécio) utilizaram bots em suas campanhas, tendo o Aécio usado mais deste recurso. Os perfis de algoritmos continuaram após a eleição, e participaram das campanhas relacionadas ao processo de impeachment da presidente. 

Este cenário político de 2014 foi o início, 2018 com certeza será pior. Os perfis falsos bagunçam as estatísticas das próprias redes sociais. Geram falsos engajamentos que irão levar esses conteúdos a pessoas reais, estas que irão acreditar nas notícias falsas, vão priorizar campanhas que são fora da realidade, e não serão capazes de distinguir a veridicidade da verossimilhança. 

Quem poderá nos defender? 

Estes foram os tópicos destacados, capazes de causar o grande problema deste ano: a ignorância. Muitos aspectos contribuem para que os indivíduos permaneçam alienados enquanto são bombardeados com notícias e matérias falsas, mas que entregam o conteúdo já esperado. O conteúdo que “mostra a verdade do meu inimigo” e “enaltece o meu guru salvador.” 

É como aquela casa de espelhos do parque de diversões. Só que em vez de surgir imagens distorcidas de você mesmo, são telas com informações nada realistas que serão impostas ao seu redor. Pelo menos a solução pode ser a mesma de uma casa de espelho normal: olhe os próprios pés. 

Avalie a si mesmo. Compreenda qual o seu nível de conhecimento e procure ampliá-lo. Não compartilhe opiniões sem analisar se o autor é de fato um humano, questione a vericidade do conteúdo. Veja além dos números nas redes sociais, enxerga as pessoas que estão por trás daquelas telas.

2018 needs you!

2018 needs you!

Serei sincero o bastante e afirmarei que 2018 não terá jeito. O período de eleições será transbordado de calúnias e ataques de ódios entre opositores. Vai atingir pessoas sem relação com partidos só para alavancar a imagem do seu próprio.  

Mas se começar a mudar a perspectiva hoje, seremos uma população mais crítica amanhã. Não iremos engolir o que é propagado por máquinas só com a intenção de danificar a imagem alheia. Vamos focar no conteúdo, saber interpretá-lo e traçar uma opinião com base no conhecimento. Respeitar o próximo acima de tudo.

E isto não será fruto de uma utopia, um sonho. Será o resultado de muito trabalho e reavaliação.


Referências

Perigos da Percepção 2017

Boletim Estatístico de Janeiro a Novembro de 2017 (DPVAT)

Indicador de Letramento Científico (2014) 

AI-Assisted Fake Porn Is Here and We’re All Fucked 

Computational Propaganda in Brazil: Social Bots during Elections 

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