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Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

O Auto da Maga Josefa (Fantasia no Nordeste)

O Nordeste do Brasil carrega uma cultura singular. Mesmo nas dificuldades locais, o povo de lá enfeita a vida com danças e músicas, alcança a felicidade enquanto o povo de outras regiões só encontra lamentos, apesar dos privilégios. O ambiente serve de palco ideal à manifestação dos aspectos mais fantásticos do país, onde a luta não tira o sorriso do povo; onde vampiros, lobisomens e chupa-cabras aterrorizam pessoas simples, mas também amedrontam diante do caçador e a filha do próprio Diabo.

O Auto da Maga Josefa conta as caçadas de monstros em estados nordestinos feitas pela protagonista do título e o caçador Toninho. Publicado em 2018 por Paola Siviero através da editora Dame Blanche, os mais diversos aspectos da cultura nordestina manifestam nesta aventura fantástica.

“O peso da peixeira nas mãos nem se compara ao que um caçador carrega nos ombros”

Toninho é filho de caçadores. Seguindo a tradição familiar, ele aprendeu as características das mais diversas criaturas que ameaçam a região com o objetivo de caçá-las, tarefa incumbida logo após provar estar preparado aos pais. Enfrentou e venceu várias criaturas nas caçadas, até sentir dificuldade em capturar e exorcizar certo demônio. Procurando por quem pudesse lhe ajudar, encontra uma mulher de capacidades mágicas, a Josefa.

Josefa é maga, filha do próprio Diabo e já condenada ao inferno quando morrer. Seria mais outra criatura alvo de Toninho, se ela não o convencesse a ajudá-lo naquela caçada, a primeira de muitas em que eles farão juntos ao longo desta novela.

“Além de vampira, é alcoólatra. Desastre em dobro pro sertão”

Cada capítulo corresponde a uma caçada feita pelos dois protagonistas, enquanto dedica a resolver os problemas correspondentes ao episódio, desenvolve a relação entre Toninho e Josefa, personagens tão diferentes entre si que só poderia dar certo. As divergências deles provocam momentos de humor, realizam atitudes quando a princípio jamais um deles faria, e o decorrer dos capítulos os dois caçadores revelam novas intenções.

Bastaria a caracterização excelente dos protagonistas, O Auto da Maga Josefa ainda enche as páginas com referências nordestinas por todo lugar onde a história acontece. Seja na luta de obter os recursos escassos da região, na representação da felicidade humilde perante as criaturas fantásticas, ou até em noites de forró; a autora mescla a aventura de fantasia com elementos únicos, misturados por apenas quem convive com a cultura brasileira.

A edição deixou a desejar na revisão do texto, com diversos erros de digitação presentes, uma ou outra palavra sobrando, e problemas na concordância verbal ou nominal — nesses casos na linguagem do narrador, há problema nenhum quando faz isso com intenção de representar a fala coloquial dos personagens.

O Auto da Maga Josefa surpreende pela representação da cultura nordestina numa aventura de fantasia. A leitura é divertida tanto pelo clima festivo refletido na ambientação, como pelas situações cômicas causadas pelos protagonistas.

“Todo caçador do nordeste que se preze gosta de tapioca!”

O Auto da Maga Josefa - capaAutora: Paola Siviero
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 250

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Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe

Dentre as criaturas horripilantes das histórias de terror, zumbis estão entre os mais lembrados. Presentes em série, num dos mais recentes lançamentos da plataforma Playstation e do clássico da ficção científica Eu Sou a Lenda a muitos, inúmeros outros exemplos de trabalhos autorais. Este livro propõe um contexto original e bem humorado, o de permanecer vivo no meio da hordas de zumbis… Com a sua mãe.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi Com a Sua Mãe é o título de livro mais longo trazido neste blog até o momento. Publicado em 2019 por John Miller, é a história de sobrevivência do adolescente Edmílson em meio ao apocalipse zumbi junto com a mãe Ana e o tio Déco.

“Minha mãe nunca foi boa dando notícias ruins”

Ninguém sabe como a epidemia de zumbis aconteceu, Edmílson até tenta inventar uma introdução entre os clichês das histórias vistos na tevê, e logo desiste. Com o conhecimento adquirido em horas de seriados e filmes — sem garantia das situações apresentadas na tela condizer com a realidade desta história — Ed compartilha seu aprendizado com a mãe Ana que mal consegue pronunciar a palavra zumbi e ao tio Déco, irmão mais novo de Ana.

Dona Ana mantém o pulso firme na educação de Ed, além de exagerar nas preocupações de mãe coruja; comportamento retratado com sarcasmo pelo filho. Buzinas chamam a atenção da casa de Ed, vindas do pálio vermelho rodeado pelos zumbis na rua. O garoto coloca os conhecimentos das séries em cheque na hora do resgate, desencadeia outros eventos e trazem ameaças mais complicadas do que as hordas de mortos-vivos.

“Parece um plano promissor, mas eu aprendi a não confiar em planos infalíveis”

Narrado pelo próprio Ed, capítulos pequenos contam dos perigos enfrentado pela família enquanto tenta conviver com a própria. Crises de relacionamentos revelam ótimos momentos de humor pelas provocações de Ed nas situações comuns entre mãe e filho em meio ao perigo nada ordinário. O gosto por séries e filmes pelo protagonista reflete na citação de referências aos últimos lançamentos populares e das obras mais comuns focadas nessas criaturas.

Como já disse, os capítulos são pequenos, bem como os parágrafos, e o livro… A narrativa consiste em contar os acontecimentos em sequência, e tudo acontece rápido demais. Oferece poucos detalhes da situação atual e já avança ao próximo evento, ao próximo capítulo. Alguns eventos e falas clichês também aceleram a narrativa, pois é algo comum e portanto rápido de assimilar. Isso garante uma leitura dinâmica, simples e rápida; bem como apressada. Poderia ter dado mais espaço a interação entre os personagens, explorar mais da visão de cada pessoa envolvida na trama antes de dar o desfecho. Alguns diálogos têm explicações com verbos de dizer que repetem a informação já dada na fala, era possível tirar a maioria e evitar a redundância.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe traz o terror dos comedores de cérebro numa trama YA bem humorada e ágil. Muitos perigos ameaçam Ed e família, mas a pressa em mostrá-los restringe a qualidade da história apenas devido ao bom humor da relação materna, pois os momentos de tensão ocorrem e logo se resolvem, enquanto o clássico amor de mãe permanece e pelo menos é bem representado neste livro.

“Que cena linda. Pena estarmos cercados de monstros e sujos de entranhas podres”

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe - capaAutor: John Miller
Ano de Publicação: 2019
Publicação Independente
Quantidade de Páginas: 139

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O Alquimista e O Pistoleiro (Uma sátira)

Ele enfim chega ao deserto. Após quase duzentas páginas de aventura, a jornada rumo ao tesouro está prestes a acabar, pois assim determina a Mão. Largou esposa, emprego, mãe, as mensalidades de pilates e o rim direito. Tudo vale a pena por estar perto do grande sonho. Mesmo se fracassar, a experiência da aventura é o mais importante, a experiência de perder tudo em troca de, sabe, de ver como vai acabar isso aqui.

O outro permanece há três horas no bar cuja cidade seguiu adiante, parada enquanto tudo desmoronava. Está bem, o ka tem as respostas do trajeto de cada pessoa, basta apenas segui-lo, por mais que perca alguns dedos, a namorada, anos de vida, saúde e amigos; é a história acontecendo sobre o já demarcado pelo ka. Capaz de empunhar a arma, mirar, disparar e recarregar ao tempo de um piscar de olhos, apenas o cansaço e delírio o enfraquecem.

Ele, o recém chegado do deserto, entra no bar a procura de orientação. O universo conspira a favor dele, só esqueceu de dar as coordenadas corretas. Tudo bem, na verdade o universo favorecerá o Alquimista com alguém dando as respostas necessárias. Talvez um deles ofereça tentações a desistir do sonho, e o alquimista sabe ser apenas outro teste da determinação na busca do tesouro. Pessoas mais sensatas chamariam o “teste” de bom senso, pessoas reais vivem independentes da Mão a seu favor, e frases bonitas e inspiradoras são úteis apenas em livros, ouvi-las não põe o pão na mesa.

O outro, o sentado no bar, levanta as sobrancelhas ao novo cliente. Cliente uma ova, bochecha engomada e lisa, jamais chegará à pele chupada, enrugada e rasgada do Pistoleiro, aquele ali morre antes. Poderia matá-lo? O ka o mandará puxar o gatilho? Por via das dúvidas, já deixa a mão esquerda — ainda há dedos nesta — no coldre. O novato do bar se aproxima, sorriso ingênuo da boca sempre aberta, Pistoleiro dispara a primeira fala primeiro.

— Você tem dois segundos para dizer três motivos porque não devo te matar.

— Estou na busca do meu tesouro!

— Isso é apenas um motivo — ele recolhe a pistola —, mas é o bastante.

Alquimista mantém os dentes exibidos, a mente suspira pelo universo conspirar a favor da vida. Senta na segunda cadeira da mesa, todas as outras mesas têm três lugares, e esta tem apenas o número suficiente dos personagens desta história. Quem diria, a Mão garante ao Alquimista ter a companhia do Pistoleiro.

— Eu encontrarei o tesouro neste deserto e alcançar meu objetivo de vida.

— O que tem de tão importante no tesouro?

— Ainda descobrirei, quando obtê-lo.

— Então me conte qual o objetivo.

— Meu objetivo é encontrar o tesouro.

— Pelo visto faz a menor ideia do que trata o tesouro nem o objetivo.

— Tem razão. Isso faz parte da aventura.

Pistoleiro repensa em mirar no Alquimista e livrá-lo da perdição. O ka jamais deixaria alguém feito ele vivo, é predestinado a morrer, talvez o faça numa etapa importante à jornada do Pistoleiro. Bobagem, o ka-tet jamais seria formado com alguém tão estúpido. Ao menos o Pistoleiro sabe onde deve chegar: na Torre. O que tem na Torre? Bem…

— Também tenho a minha aventura. Como pode ver, tive alguns ferimentos por causa dela.

— Você diz alguns, eu digo que tem muitos, senhor.

— Faz parte da aventura perder um dedo ou outro. Se isso lhe der medo, sugiro voltar.

— Eu perdi muito antes de chegar aqui. Família, dinheiro e conforto.

— Sua esposa morreu?

— Não.

— Como consegue encher o cantil de água neste deserto?

— Tenho algumas moedas.

— Também calça tênis esportivo. Então tem conforto, dinheiro e pode voltar a abraçar a esposa viva e depois pedir desculpas por ser idiota.

— Não sou idiota.

— Todos somos. A diferença é que meu amor morreu antes de eu admitir.

Alquimista perde o sorriso do rosto. O companheiro de bar tem motivos de sentir amargura, pelo menos ainda persiste na aventura. Faria o mesmo se a esposa morresse? O universo jamais deixaria acontecer, ele está na busca do tesouro, deve favorecer sua vida e a dela. Bem, ninguém disse sobre conspirar em prol dos outros, somente por ele. O Alquimista pode tê-la abandonado ao azar! Como pôde ser tão egoísta? Teve bons motivos para partir. O tesouro, a aventura. Valerá a pena, a Mão garantirá isso!

— Sinto pela perda, senhor. Eu preciso ir, encontrarei meu tesouro.

— Tem certeza que o tesouro está neste deserto?

— Como assim? — O Alquimista denuncia a falta de planejamento da aventura pelas feições do rosto.

— Esqueça, continue a busca. Caso falhe em encontrar, há outros desertos além deste.

Pistoleiro saca a arma e deixa na coxa, decide avaliar o ka do Alquimista. O resultado vem no tempo de um gole da bebida, e o cano do revólver lança a morte na cabeça de bochechas lisas, disparado por um saqueador. O Pistoleiro dispara a bala na barriga do Alquimista, atravessa as costas e acerta o peito do saqueador. A Mão abandona por quem buscou o tesouro, e o Pistoleiro termina a bebida, levanta da cadeira e cambaleia seus passos, é preciso chegar à Torre.

Livros homenageados

Compre O Pistoleiro (Stephen King)

Confira O Alquimista (Paulo Coelho)

A Spoiladeira (Conto juvenil — serve para adultos também)

Hora do jantar, hora chata do jantar. Miguel senta no outro lado da mesa, distante da tevê, do suco e de si. Nada de olhar a companhia, abaixa o rosto e encara as cores no prato. Verde, laranja, marrom, marrom, branco. Ervilha, cenoura, carne, feijão e arroz. Michele deve ter pego sorvete em casca, certeza, antes dos refris e pipoca. Refrigerante, não, suquinho natural; ela está de regime. A vida saudável é interessante a Miguel, menos quando come ervilhas. Bolinhas verdes saltam da colher antes de chegar à boca. Nem elas querem ser comidas.

O talher raspa no prato, colhe a comida e perde a metade antes de dar outra mordida. Isso irrita, ele tem certeza. Ele fecha a cara e provoca as rugas no rosto da mãe.

— Vamos comer direito, Miguel?

— Estou comendo, estou comendo.

O prato dela vazio. O dele, cheio.

— De que adianta fazer essa cara? Era só pedir desculpas.

— Só peço quando faço coisa errada.

— E não fez? Você pintou os cachos do Matheus de rosa.

— É que ele…

Pôs a colher cheia na boca, inclusive as ervilhas. Tira a mãe da visão e mastiga o sabor amargo, morde a língua. Teria bombons por lá também, preços baixos após a Páscoa. E ele comendo ervilhas.

— O gato comeu a língua, Miguel? Fale o motivo.

— Ele chamou o Super Mago de bobo.

A mãe suspira, engole castigos e reprimendas e as digere no intestino da responsabilidade.

— Bobo. Bobo é brigar por isso.

— Você não entende, mãe.

— Não mesmo! Como é difícil botar bom senso nesta cabeça. Esse Super Mago é imaginário, moleque! Em vez de se divertir, fica brigando por causa de heroizinho. Já deveria procurar emprego.

— Mas eu só tenho dezessete anos.

— Eu trabalhei com treze, sem perder tempo com gibi, nem tinha essas porcarias de sunga em cima das calças no cinema.

— Também não tinha tempo para estudar. Por isso você acredita em astrologia até hoje.

— O quê?

É hora de Miguel ficar quieto, continuar a comer. Engolir verde, marrom e laranja e colocar mais branco na boca; pode até engasgar, tudo bem, melhor do que dar razão ao tabefe. Bater em filhos é proibido por lei, como se evitasse… Ele termina o prato e coloca a louça na pia, vira e olha a mãe apontando de volta. Encara a torneira e depois o dedo dela, ameaça um passo longe da pia e treme com o chinelo na mão da mãe.

Engole o choro.

Range os dentes na água fria sobre as mãos. Primeiro os copos, devagar depois de quebrar um ontem. Nada de olhar o resto de caldo do feijão nos pratos, tem nojinho. Coloca os talheres no escorredor. Como é chato limpar panela! Ele enxuga a pia e a mãe coloca a jarra de suco. Diz nada, prende a reclamação na garganta e lava também.

Pronto. Agora termina.

— Poderia me deixar agora, te ajudei em casa.

— Esqueceu o castigo? Ficará em casa até segunda. Nada de internet também.

— Eu vou perder o filme!

— Ainda estará em cartaz na próxima semana, caso comporte.

— Semana que vem é tarde. Hoje já é muito tarde. A Spoiladeira vai atacar com tudo.

— Espoi-quê? Pare de falar essas palavras feias.

— Você sabe, mãe. Ela vai me…

— Olha, Miguel, cansei desta conversa. Vai para o quarto, tranco você lá. Quando sua irmã voltar, ela destranca a porta para dormir. Entendeu?

Ele olha o chão.

— Entendeu, Miguel?

Balança o rosto.

Tropeça a cada bronca. Mais rápido! Não tenho o dia todo! Ele perde o dia desde o castigo, por tirá-lo da chance de ver Os Poderosos: Fim de Jogo, filme que encerra o ciclo dos heróis Super Mago, Morciga e Minúscula. Fechou todas as redes sociais, fone de ouvido durante a escola, perdeu aula, o preço de evitar spoiler. História já contada nas HQs, cinco livros já adaptaram os quinze anos de quadrinhos em romances. Miguel só vê os heróis no cinema, sem querer ler a história já sabida, o importante é descobrir na grande tela com som imersivo e pipoca recheada de leite ninho.

Porta trancada. Miguel entrega o corpo aos tormentos da cama ortopédica, vinte e quatro parcelas desde que Michele quebrou a antiga. O castigo dela foi de lascar! Perdeu o campeonato de Lulo, afogada nas próprias lágrimas. Miguel não chorará. É injusto. A irmã, todos os amigos, até alguns professores e o próprio diretor. Todos na cadeira enumerada, de óculos 3D e sorriso de caroços de pipoca nos dentes, risadas contagiam a alegria de ver o espetáculo da Terra: a estreia do grande filme. Não chorará. Fecha os olhos. Engole o soluço, a tristeza. Engole! Saberá quem morreu, como o vilão foi derrotado e como trouxeram os heróis mortos à vida.

Miguel chora.

Ninguém o vê no conforto das lágrimas. Tão molhadas e quente, permite deslizar pelo rosto e umedecer o colchão, falta apenas doze prestações. Soluços atacam e prendem o ar nos pulmões. Deixe assim! Ninguém precisa ser forte o tempo todo. Deixa extravasar, desabafa a angústia, tampa o rosto e chore. A escuridão o conforta, bicho papão só aparece caso pense nele. Ai, ele pensa, perde o sono. De olhos abertos, toma o escuro como terror, o pior ainda chegará.

Fecha os olhos. Funga o nariz. Escuta. Tampa os ouvidos e escuta, a chave raspando no buraco, a maçaneta desce, a porta range, e ela entra.

— O melhor filme de todos!

Pula no Miguel. Sem os tênis, as meias pisoteando o peito do irmão já basta. Doze anos de pisadeira, de provocação. Bagunça o cobertor, descobre o rosto de Miguel e aperta o chulé no nariz. O “sai daqui” de Miguel sai abafado, quase mudo. Os pezinhos dela estão mais molhados, além do suor, a meia recebe o choro do rapaz. Michele ri de tudo. O dia não podia ficar mais saboroso. Pipoca, nachos, trufas, suco de limão e a humilhação neste menino chato. Só precisa de uma coisa para finalizar:

— Super Mago morre!

E a Spoiladeira ataca novamente.

Masterclass (Ensinando como “obter” sucesso)

— Iniciando a gravação em 3… 2… 1…

Seja muito bem-vindo à aula gratuita da minha Masterclass. Sou Zeno Gabs Arma de Peixe, o professor a te guiar ao caminho do sucesso e satisfação pelo árduo caminho da life. Estive com os melhores instrutores de meu network enquanto tirava lições dos jogos mais difíceis de videogame, sem nunca largar os livros-chave motivadores no meu achievement ao empreender em… Ajudá-lo a ter sucesso como eu.

(Estou indo bem, Alessandra? Beleza. Lembre-se de cortar nossas conversas no vídeo final, falô?)

Nos meus dezessete anos eu já atingi a meta financeira e quebrei o recorde em speedrun no novo God of War. Até consigo ouvir a pergunta quando você assistir esta gravação: “como isso é possível?” Saberá a resposta para esta e muito mais perguntas na minha Masterclass!

Deixe-me contar mais detalhes do meu aprendizado. Começo todos os meus dias com uma xícara de café com leite, tiro a amargura da bebida com pitadas de chocolate granulado. Saboreio esta delícia da manhã e penso: vou proporcionar a todos os meus clientes a mesma satisfação que é o sabor deste café. Clientes têm gostos diferentes há quem goste do café puro, com adoçante ou nem tolera cafeína, e é nossa obrigação oferecer algo capaz de agradar todos eles.

(Pare de rir, Alessandra. Sim, eu gosto do meu café assim. Está rindo da minha lição? Vai à mer…)

Anote minhas próximas dicas, compartilhe este conteúdo aos amigos e convida a todos fazerem a Masterclass com você. Fica mais divertido quando todos aprendem como alcançar o sucesso.

Preciso fazer uma pergunta antes da próxima dica: qual o seu work enviroment? Aposto ter pelo menos Ar condicionado, computador avançado e cadeira confortável. Largue tudo isso, mantenha apenas o computador avançado. Desligue o ar condicionado, melhor ainda, aumente a temperatura. Rasgue a cadeira e coloque objetos desconfortáveis, eu coloco bolinhas de gude na minha. (Não, Alessandra. Nenhuma bolinha entra na bunda quando eu sento). Ninguém obtém sucesso ficando acomodado, trabalhe sob pressão e busque resultados antes de sofrer hipertermia, antes de sofrer o fracasso.

Falhou? Mude o mindset e tente de novo, e acrescente um grau no ar condicionado, trabalhe de pé também, fique sem café a cada erro cometido. Empreendedorismo é isso, sofrimento. O desafio é ainda maior por vivermos no Brasil. Ainda assim eu consegui e fiquei milionário. Depois de superar todas as dificuldades, estou no topo e vejo como a vista é maravilhosa. Cada gota de suor em meu trabalho valeu a pena.

Pouco adianta repetir os fracassos. Precisa ter o conhecimento adequado e saber investir nas novas tentativas. Desenvolvi minha metodologia no que há de mais avançado na física quântica, esta ciência sensacional. Se foi aplicada até no gato de Schrödinger e em colchões, também é possível transformar o seu mindset em quântico. Ensino os princípios científicos desta novidade já na segunda aula da Masterclass. Newton viu a maçã cair na própria cabeça e então formulou as regras da gravidade. Eu farei com que enxergue todas as oportunidades da vida como esta maçã e aplique a relatividade de Einstein ao novo empreendimento de sucesso.

— Interrompi a gravação. Já chega, Roberto!

— O que foi, Alessandra?

— Nunca ouvi alguém falar tanta besteira. Me nego a editar isso.

— Olha, querida, é o seu primeiro dia aqui. As aulas são estranhas mesmo, mas todas planejadas como diferencial do nosso trabalho. A senhorita faz a menor ideia do quanto lucramos com esses cursos masters sem precisar ensinar algo de verdade.

— Este é o problema, senhorito. É desonesto. Recuso a trabalhar desta forma.

— E vai trabalhar como? Falta vaga até para caixa de supermercado.

— Falta nada. Encontrei duas vagas na mercearia perto de casa quando achei a sua proposta de emprego também. Vou lá agora mesmo, onde deveria desde o começo. Tchau.

— Espere, Lê! Está proibida de sair. Volte aqui. Vai mesmo quebrar o contrato? Droga, eu esqueci de fazê-la assinar.

“Tarde demais, ela foi embora. Quer saber? Farei a edição eu mesmo, aprendo com tutorial no YouTube. Só preciso ligar e concluir este vídeo. Vamos lá.”

A luz vermelha quer dizer que está gravando? Tomara.

Incrível como qualquer empreendimento faz sucesso quando bem sucedido. Mostro já na quarta aula o exemplo no qual poderá aplicar na prática e já começar a highway to the top life! Ensino como ganhar dinheiro passando pano para as figuras públicas mais importantes do país. Sucesso garantido, basta fazer a matrícula. Invista mil reais mensais e ganhe o e-book de brinde, o link está na descrição deste vídeo. Fico por aqui, ciente de te ver outra vez no meu curso. Até breve!

Dom Quixote (Clássico do Romance Moderno)

Cada pessoa desbrava jornadas na vida, sejam de escolha própria ou pelas condições necessárias a superar. Esta afirmativa destoa com a obsessão sobre tipos de aventuras propostas a certas pessoas, pois diferem da realidade.

A insistência de viver numa ficção traz inquietação a pessoas queridas e repulsa a desconhecidos. O sujeito força a situação, acredita nas mentiras declaradas por ele mesmo e repete esse ciclo de adversidades quando ele é o único culpado da própria alucinação. Algo triste de se ver a alguém próximo, já na ficção cheia de sátiras fica hilário.

Dom Quixote é sobre o autoproclamado cavaleiro andante que busca as aventuras lidas em livros de cavalaria com os próprios pés. Publicado em duas partes nos anos de 1605 e 1615, é considerado um dos mais importantes e antigos romances modernos.

Dom Quixote - capa

Miguel de Cervantes estudou filosofia, história e literatura, apesar de se dedicar a cavalaria em maior tempo de sua vida. Escreveu algumas das histórias enquanto era cativo de forças inimigas ou prisioneiro pelo serviço irregular.

Eu sou o valoroso Dom Quixote de La Mancha, o desfazedor de injustiças!

O fidalgo de La Mancha já alcança cinquenta anos de vida quando decide transformar a sua vida e preocupar a sobrinha e governanta de casa. Apaixonado pelos livros de cavalaria, sonha em vagar pelo reino como cavaleiro andante e realizar conquistas tal como os personagens lidos por ele fizeram. Personagens, não! Cavaleiros reais a quem ele acredita ser capaz de superar a todos. Segue a própria jornada com outro nome: Dom Quixote de La Mancha.

Sem a prática, Dom Quixote planeja a jornada a partir dos livros lidos por ele. Toma o lavrador Sancho Pança como escudeiro, que fica empolgado pelas promessas do cavaleiro de possuir riquezas e uma ilha própria a governar, pois os escudeiros das histórias também receberam.

Dom Quixote projeta as aventuras conforme encontra pessoas com aparência semelhante aos inimigos citados nos livros, ou argumenta sofrer encantos capazes de iludi-lo da verdadeira visão. Cada feito extraordinário (ou não) é exaltado em homenagem a senhora Dulcineia d’El Toboso, mulher que ele jamais tocou, mas os livros contam de todo cavaleiro possuir uma donzela a quem deve demonstrar as conquistas.

O que minhas nádegas têm a ver com encantamento?

Ninguém compreende as afirmações do iludido cavaleiro. Ele vive as alucinações e acusa ser vítima de encantos quando a situação contraria a sua fantasia. Muitos quem o encontram percebem os delírios do fidalgo e tiram proveito apenas para zombar do suposto cavaleiro andante, porém muitas vezes o Dom Quixote sequer precisa deste tipo de reforço, é capaz de se atrapalhar sozinho e garantir muitas risadas durante a leitura.

Embora esta versão seja adaptada com linguagem mais acessível pelo grupo Pé da Letra, ainda me impressiono por ler esta história feita há 400 anos e gostar dela. Já li romance do cavaleiro andante de Westeros e ficção histórica de personagens reais, ambas escritas no século XXI. Conferir a trama escrita em período mais próximo dos tempos de cavaleiros com sátiras inteligentes e divertida, demonstra o quanto esta obra sobreviveu aos séculos com aspectos interessantes ainda hoje.

E Se (Randall Munroe)

Se pudesse escolher?  

Entre o bem e o mal 

Ser ou não ser? 

Após esta referência mais catastrófica que uva passa no arroz, segue o post… 

 

Muitos possuem o privilégio de desfrutar a educação até o ensino médio.[falta referência] As matérias ficam mais complexas a cada ano, as questões se tornam difíceis e, acima de tudo, a metodologia de ensino maçante contribui em nada no incentivo e interesse do aluno ao estudo. 

Longe de ser uma solução, o livro deste post pode servir de incentivo ao leitor querer saber mais sobre assuntos tão complexos. Se não consegue visualizar uma aplicação prática do que aprende na escola, redescubra os conceitos ao se divertir com as explicações das respostas mais absurdas, feitas por alguém com disposição em respondê-las.

“E Se?” é um livro de não-ficção lançado em 2014. Composto por um compilado de perguntas respondidas no blog What If, essas revisadas e atualizadas na publicação deste livro, além de questões inéditas e malucas demais de se responder. 

E Se? - Capa

Randall Munroe é o criador dos blogs What If e xkcd. Um prodígio pesquisador que já trabalhou na NASA, mas atualmente se dedica a fazer tirinhas com bonecos de palito sobre ciência, computação e demais conteúdos nerds. Mais tarde resolveu criar um blog com o intuito de responder as perguntas extravagantes feitas pelos visitantes da webcomic xkcd. 

Polícia?! Eu tenho um site e as pessoas mandam perguntas 

É preciso se acostumar com um fator durante a leitura do livro: a maioria das respostas resulta em catástrofes. Pode ser a pergunta mais inocente, quando analisada a níveis extrapolados, os cálculos e as regras da física não mentem sobre a tragédia. 

Habituado a escrever quadrinhos, Munroe costuma ser sarcástico em suas explicações e notas de rodapé. Não é difícil encontrar trechos engraçados no desenvolvimento da resposta ou nas figuras explicativas com seus desenhos de palito.

Mesmo entre piadas, o conteúdo é baseado em referências de diversas áreas de estudo. No final do livro há a fonte de pesquisa de cada pergunta respondida. Munroe citou todo indivíduo que o ajudou a responder certas perguntas quando o próprio assumiu a necessidade de uma opinião mais especializada.

Por outro lado, não podemos atribuir um valor superestimado ao livro. O livro serve para atiçar curiosidades científicas, incentivar alguém a pesquisar mais sobre suas curiosidades. Nunca use este livro como um exemplo de autoridade em qualquer assunto. O conhecimento poderá partir deste livro, sendo complementado com mais pesquisas em outros canais confiáveis. 

Trabalhos como este tornam o conteúdo complexo mais agradável de se assimilar a indivíduos leigos. Não formará doutores, e sim estimulará a descoberta de canais cujo conteúdo sério é abordado de forma descontraída sem perder a base em estudos.

Em tempos com inúmeras fontes de desinformação compartilhadas, talvez esta obra incentive um pensamento mais crítico, e ainda diverte durante a leitura.

Canais Científicos 

Sendo de mesma autoria da obra apresentada, destaco aqui o blog What If. É um site simples, disponível somente em inglês, cujo trabalho deste livro é continuado com novas perguntas respondidas ao mesmo estilo. 

No Brasil também existe canais excelentes de divulgação científica. Muitos compartilham o conhecimento de modo descontraído, com fácil compreensão ao público. Aproveito e listo alguns dos canais neste perfil que eu acompanho: 

  • Dragões de Garagem: podcast de programação quinzenal. Cada episódio trata de um assunto específico com convidados formados e com experiência do tema; 
  • Canal do Slow: um carioca bastante carismático. Fala desde história a ciências naturais. Não possui uma agenda de publicação dos seus vídeos no YouTube, mas recomendo assistir sempre que tiver algo novo; 
  • Nerdologia: talvez o canal científico do YouTube mais conhecido no Brasil. Há duas publicações por semana com conteúdo de ciência e história. O maior diferencial é relacionar assuntos com temáticas nerds (animes, games e filmes). 

Canais de Ciência - Podcast e YouTube

Opções são o que não faltam para se manter informado. Devemos valorizar esses meios de divulgação, incentivar o acompanhamento desses trabalhos, e assim talvez evitar problemas de desinformação no futuro.

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