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Nostalgia — dos Equívocos ao Benefícios

Nostalgia: eu demorei a entender o significado desta palavra, achava-a esquisita mesmo depois de compreendê-la e meu subconsciente ansiava por conhecer mais. Termo singular como este deve ser visto de forma distinta, procurar e descobrir o motivo de suas qualidades, de abusarem deste sentimento no marketing ou de produções remetentes ao passado, como a adaptação dos heróis de gibi no cinema, o reboot dos filmes infantis clássicos do século que terminou há menos de vinte anos ou qualquer narrativa sobre lembranças dos tempos mais simples. Nostalgia é um sentimento, bem como uma ferramenta ardilosa. Teve a origem conturbada por equívocos, então vê apenas benefícios com ela — além de convencer pessoas a ver novas adaptações do velho. Enfim eu atendi meu desejo inconsciente e estudei esse fenômeno, cujo aprendizado resumo a seguir.

No princípio, Nostalgia era o Caos

O termo nostalgia foi criado para definir algo ruim, um sintoma patológico de inadequação ao presente, pois o indivíduo suspirava pelos bons tempos do passado. A origem corresponde aos mercenários suíços do século XVII, eles enfrentavam conflitos cada vez mais distantes dos lares e por isso ansiavam pelo retorno, sentiam saudade de casa e com isso rememorava os bons tempos de lá; consideravam esse comportamento ruim por acharem a ostentação do passado o sinal de estar descontente com o presente, e portanto desmotivados a cumprir suas tarefas.

Lar - nostalgia

Nada melhor — e humilde — do que o lar

Nostalgia vem das palavras gregas nostos (retorno) e algos (dor), ou seja, o sofrimento pelo desejo de retorno. A inspiração original também veio de uma história grega, sobre as aventuras de Odysseus. Por mais longe ele alcançasse as conquistas, ele sempre ansiava por voltar ao lar e aos braços da amada Penélope; algo romântico traduzido como trágico na situação dos mercenários suíços.

A perspectiva só começa a mudar ao longo do século XX, com propostas da nostalgia trazer consigo outros sentimentos prazerosos. Houve muita discussão quanto a isso, estudiosos elencaram sentimentos ruins e positivos atrelados ao sentir nostalgia, e notaram a maior incidência dos positivos. Desde então observa benefícios através da nostalgia, assim como eu percebi nos materiais consultados — lembre de ver as referência no final!

Nostalgia como elixir

O sentimento traz uma cadeia de benefícios: elevar a autoestima como se a recuperasse do passado, melhorar o otimismo quanto ao futuro e viver bem em sociedade; todo benefício é interligado a outro! Pessoas do mesmo grupo podem corresponder à boa lembrança, seja a mesma ou semelhante, como a brincadeira de tazos de quem teve infância nos anos 1990, reouvir a música de sucesso de determinada época ou lembrar de alguma situação em comum; até mesmo os feriados festivos alimentam a nostalgia ao reunir pessoas distantes depois de tanto tempo sem ver. Em outras palavras, nostalgia serve de gatilho a boas relações sociais, sejam de pessoas próximas ou aquelas com gostos parecidos. E esta boa convivência estimula os outros benefícios citados, pessoas sentirão melhor com a autoestima dos bons tempos e ficarão mais empolgados com os planos do futuro.

Infância - nostalgia

A nostalgia une quem teve infância semelhante

Quem vive rotinas mais solitárias também consegue esse benefício, pois a nostalgia é capaz de ampliar a intensidade do pouco convívio social desta pessoa. Apenas fica mais complicado quando há pessoas com dificuldade em reaver o passado, nesse caso elas têm problemas ao imaginar novas experiências, pois perdem a visão otimista atribuída com a nostalgia. Por outro lado,  mesmo ao ter o passado conturbado consegue bom proveito, pois pode projetar planos futuros de modo a evitar situações semelhantes do passado ruim.

E por que as narrativas nostálgicas causam impacto ímpar contra as boas histórias sem esse apelo? Simples, os elementos do primeiro entregam algo abstrato, e ainda assim correspondente a autenticidade de quem reconhece o aspecto memorável. É útil inclusive quando há transtornos pessoais quanto ao significado da vida ao recordar das crenças fundamentais e particulares da pessoa, reavidas por meio dos bons sentimentos do passado.

Alegações sob a ótica do copo meio vazio atestam apenas de a reapresentação de obras nostálgicas ser campanha com garantia de ganhar dinheiro fácil pela geração que viu o original. Já os argumentos trazidos neste artigo trazem, na maioria, visões otimistas — até fico impressionado pelo tanto de benefícios! — que merecem mais visibilidade. Eu, como muitos, pensa na rotina vivida por nós hoje como complicada, para não dizer sofrível ou adjetivos piores. Descobrir mais sobre a nostalgia estimula minha esperança e incentiva a aprender mais, pela possibilidade de conhecer outras coisas legais através dessas pesquisas.

Referências

Back to the Future: Nostalgia Increases Optimism

Nostalgia: Past, Present and Future

Why Nostalgia Makes Us Happy… And Healthy

A História do Pescador (Conto sobre mudanças e vida)

Faço companhia às margens do rio. Três horas de caminhada iniciadas ao final da madrugada, tenho que chegar ao trabalho no começo da manhã, sem horário de voltar, tampouco hora extra. Ando até minha carreira, pretendo alcançar os sonhos, procriar e oferecer vida melhor aos meus filhos, assim como papai fez enquanto esteve vivo. Filhos… Nem namorada tenho, sequer sobra tempo de arranjar uma, dormir antes da meia-noite é questão de sorte, e as horas a mais de trabalho, bem, esquece.

Passo por um senhor sentado rente ao rio, boné de pano puído e vara de bambu na mão. Linha na água parada, barrosa. Meus avôs diziam daquele rio já ter sido limpo, no tempo dos bisavôs deles. A situação faz o pobre senhor pescar aqui, em água sem vida. Tenho as moedas da coxinha do horário de almoço, ele precisa mais delas. Pego todo o dinheiro e levo a ele, de sorriso aberto antes de eu chegar, balança a cabeça de um lado a outro quando deixo sobre a sacola.

— Agradeço a caridade, garoto, mas tome o dinheiro de volta.

— Fique com o senhor. Estou a caminho do trabalho, onde arranjo mais dinheiro.

— Você é pago apenas no fim do mês, e este mal começou. Passará fome sem a coxinha do almoço.

— Como o senhor sabe que iria comprar coxinha?

— Só consegue comprar coxinha com este valor. Ainda consegue. Além do mais, você precisa movimentar a economia, garoto. Eu contribuo nada nessa idade.

Ele apanha as moedas e segura na minha frente, chacoalha e aponta o olhar nas minhas mãos fechadas. Eu fecho os olhos e estendo a palma, as peças redondas de metal batem entre si e caem de volta a mim.

— Como a pesca está indo?

— Indo a lugar algum. — O senhor ri. — Tudo parado, a linha só move com o vento. Tenho a impressão de chegar aqui cedo demais.

— Com todo o respeito, se chegasse tarde demais teria o mesmo resultado. Nenhum peixe vive aqui desde antes de eu nascer.

— Ah, eu já fisguei algo muito bom.

Minhas sobrancelhas crescem, formo mais rugas que o velho pescador possui. Tenho meu horário a cumprir, e terei de acelerar o passo por perder tempo com ele.

— Não preocupe tanto com o horário — ele lê meus pensamentos? —, ainda mais hoje. Você estará demitido.

— Como? Por que eu estaria?

— Você terá mudanças na vida. Essas que você tanto teme, prolonga e nega; precisará tomar outro rumo, seja melhor ou pior.

— Eu me dediquei tanto a este trabalho! Perdi oportunidades, desisti de outras. Este emprego é a minha melhor chance. É injusto perdê-lo!

Os lábios dele ficam fechados, assim me responde tudo. Eu já respondi. Fiz as escolhas, agora tenho as consequências. Pouco adianta lamentar pelos imprevistos — previsíveis ao pescador, ao que parece —, a vida continua e eu pretendo acompanhá-la.

— Compreendeu agora, garoto?

— Entendi. O senhor não está aqui pela pescaria.

— Claro que eu estou! — Ri de novo. — Vá. Não deixe eu tomar mais do seu tempo.

A aurora risca os primeiros traços do sol, um peixe morde o anzol do pescador e parte a linha ao meio, bate a cauda fora d’água e vai embora.

— Hoje o dia será difícil, garoto. Arranje coragem e insista nos sonhos. Viva a vida, pois ela fica muito boa quando muda de perspectiva.

***

E o garoto foi. Lábios fechados e bolhas nas mãos, nos pés dentro dos sapatos também. É muito divertido, sabe. Vê-lo aqui de cabeça abaixada, antes de todas as conquistas a partir deste dia. As mudanças são de dar medo, com certeza, as variáveis trazem valores bons e ruins, pode colocar o parâmetro que for, o resultado sairá imprevisível nesta época do tempo dele.

Está na hora de eu voltar ao meu tempo. Adoro a nostalgia de encarar o eu do passado e sorrir para ele, relembrar de tudo o que eu passei, cada dificuldade e tragédia. Tudo valeu a pena.

Impostor

Olho ao redor e o redor olha de volta. Senti a queda tarde demais, devaneios atormentam meus veraneios, afligem a carne de meus pensamentos. Permito-me sangrar, outro dia a sacrificar o cordeiro em mim; nego-me a ter Senhor Pastor, e tudo faltará.  

Desperto. 

Outra vez na sala escura, luzes alcançam meus olhos, estão de dentro das molduras. Alturas diferentes, largos ou estreitos, profundos, transparentes, nítidos. Todos refletem a mim, todos com perspectivas. 

Encaro o reflexo da direita. 

A cara na tela do computador. Códigos correm na janela preta às batidas do teclado. Era apenas a programação do formulário de animal para associar ao dono, um sistema veterinário. Trabalho de faculdade, ilusão de empreender na área de poucas opções ao mercado, vamos revolucionar esta merda! Empreender no Brasil já é piada… Agora um moleque sonhando alto sem saber administrar a própria carteira, incapaz de fazer funcionar a associação do animal ao dono no cadastro. Trabalho em trio, e olha lá, solitário, ganhando nota, garantiu a todos terem o papel impresso daqui um ano dizendo vocês conseguiram! Se for pego n’alguma fraude, terá direito a celas distintas na cadeia, ou acha mesmo que diploma é entrada no mercado de trabalho?  

Ah, já desistiu do empreendimento, né? Jogou a saúde no lixo, engolia massas recheadas e enterrava as frustrações. O antigo chefe te vê e diz o quão gordo está. Sabe o quanto comeu com raiva contra as porcarias dos códigos. A prisão em espiral, sempre volta ao começo, cinco anos de aprendizado e continua na estaca zero. Exception ocorre quando o programa recebe parâmetro fora do esperado, é preciso prever esses eventos e tratá-los, caso seja competente. Exceção era deixar de ver exceptions no próprio código. Programa direito, porra! 

E hoje? Vamos refletir hoje? Diploma arquivado na pasta. Recebe propostas de trabalho, os caras te veem trabalhando das oito às dezessete. Que tal fazer algo a noite? No fim de semana? O que tu faz entre meia-noite e seis da manhã? Faz é nada, única coisa capaz de realizar na vida. N. A. D. A. 

Fecho os olhos. Não, não fecho. Rosto vira a esquerda. 

Olha aqui, as mulheres. Reconhece elas, foge delas. Trocou risadas, disfarçou alegrias. Eram as mulheres de sua vida, especial por estar entre elas. Finalmente! Pertenceu a algum lugar, ganhou admiração, todas dizendo sobre o futuro brilhante, a inteligência acima da média. As merece, claro que merece. Ondas delas desabarão a seus pés, e sem problema com a cor de pele, verdade? Se cair na rede, é sua. 

Errado. Outra vez é idiota. Nada de admiradoras, elas são políticas. Vampiras sugam essência, te descartam e seguem a vida. Fica inconformado, deu tudo a elas. Esgotado, enfurece na solidão e berra. Por que está gritando? Todas perguntam com o rosto de quem é você? Um esquisito, torcem para encontrar alguém, te empurra as outras e se livram de ti. 

Demora mas vê, pelo menos. A posição delas, das políticas. Têm nada a ver com a vida desprezível que possui, insiste em ficar na minoria, curvado ao comodismo. Elas ascendem. Alemanha, filhos, dinheiro, aposentadoria, sexo. E só vê os saltos delas tomando distância, ajoelhado à inutilidade. 

Olhos molham meu corpo, as pernas negam a se levantar. Joelhos permanecem no chão e o rosto encara a frente. 

Está aí, de novo com a cara na tela. A janela é branca, desta vez. Todo mundo usa isso aí, mas o que faz com isso? Ah, claro! Outra babaquice. Pior, se superou desta vez. Escrever. Criar historinhas inúteis. Aqueles ingratos da faculdade elogiavam sua escrita, também era o único a escrever a monografia, deu o diploma de mão beijada a eles, tinham de elogiar mesmo. Ao menos já descobriu, agora reconhece o quanto escreve errado. Conjugações misturadas, discordância verbal, crase onde mal entende, e anotações ridículas de revisão. Confirmar grafia, confirmar informação, conferir significado da palavra, buscar sinônimo. 

E qual o problema? Essas anotações melhoram meu texto. Estou saindo da espiral da programação. Posso enfim criar uma carreira agradável. 

Já negaram seu romance. Escreve tudo do zero, achando que sairá melhor. O caralho! Perderá meses de oportunidades no novo manuscrito, mandará às betas, apenas uma te devolve. Faz a revisão, acha tudo lindo, submete a análise crítica, fica submisso às anotações educadas dizendo o quão merda é o texto. Ainda acha merecer prêmio de concursos com esses continhos. Sabe a verdade, só se ilude. 

Já fui finalista em concursos do Wattpad. Os contos ainda servirão no futuro, posso publicar… 

Até quando? Quando vai desistir? Sabe, é só questão de tempo, sempre desiste. Está fazendo curso, é de praxe abandonar os sonhos depois de terminar de estudar. Bem que o pai adoraria ver o filho eletricista, vê nem pegar mais no computador. Esconde esta nova carreira, paga de incompreendido, tem medo de eles falarem a verdade. Desperdício de tempo, de dinheiro com cursos, análises, blog, livros. Mercado em crise, as duas maiores livrarias na falência. O floquinho de neve a sobreviver no deserto literário… Sequer estará aí, só se projeta no lugar onde jamais pertencerá. 

Chega! Cala essa boca. E meus joelhos escapam do chão, as molduras tombam. Ouço vidros estilhaçarem, risadas ecoarem sobre os choros, gritos de lágrimas jogadas no canto do quarto, lembro de todas elas. Ele se aproxima, o Eu olha para mim com sobrancelhas apertadas, rosto vira de um lado a outro. Pés batem no piso e ofega com rajadas picantes de dragão. 

Já perdeu de novo. Sabe, eu não sou o Senhor Hyde a ser liberto com poções. Os lobisomens tomam posse na lua cheia, eu te domino nas noites fracas, de cansaço e desprezo, todas as fases da lua. Sou diferente da ficção, desses livros aí que perde tanto tempo. Eu sou a realidade. 

Abraço o Eu. Eu arregala os olhos, perde a força e cala a boca. Envolve os braços sobre meus ombros e se desfaz. 

Alarme toca e o desligo antes de colocar os pés no chão. Sinto o piso frio, ciente de encarar o calor em breve, prestes a trabalhar. Toco o Eu em repouso no meu coração e digo. Vai dar tudo certo.

O Pequeno Príncipe

Vivemos em tempos polarizados, tudo se leva a sério e é importante, exceto a opinião do outro. Ninguém é o dono da razão, e só conheceremos algo novo quando dermos atenção a alguém diferente. 

Ao lermos livros, temos acessos às pessoas estranhas a nós, sejam pelos desejos, origens ou aparência. Também vemos personagens aprenderem a lidar com outra visão, esta mostrada por alguém desconhecido, bastante peculiar, como por exemplo uma criança.  Criança feito O Pequeno Príncipe.

Publicado em 1943, o livro infantil é sobre um aviador perdido no deserto do Saara que conhece um menino fora do comum, apesar de ainda perguntar de tudo e responder nada. 

O Pequeno Príncipe - capa

Antoine de Saint-Exupéry é aviador francês que também publicou diversos romances com elementos relacionados à sua carreira. O Pequeno Príncipe é o livro mais conhecido do autor pelos motivos apresentados na resenha a seguir.

Quando o mistério é impressionante demais, não ousamos desobedecer  

O aviador se dedica a arrumar seu avião quebrado logo no Saara. Teme pela pouca água restante consigo, da possibilidade de não conseguir escapar do deserto, do pequeno príncipe lhe tomar muito tempo com perguntas enquanto ele faz a tarefa séria. 

Já o pequeno príncipe discute com ele. Tudo é sério às pessoas grandes, ocupadas demais, com visões restritas sobre o mundo quando outros também têm suas preocupações, até as crianças, por exemplo. 

Conhece-se o passado do pequeno príncipe através das conversas com o aviador. Seu lar é um planeta minúsculo a ponto de poder vislumbrar o pôr do sol várias vezes ao dia, basta dar alguns passos e alcançar o outro ponto no astro onde a estrela está se pondo. Fala também dos planetas visitados antes de chegar à Terra, mundos pequenos como o do príncipe, onde vivia um adulto isolado com as próprias obrigações. 

As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas  

O livro possui linguagem bastante simples e repetições propositais. Capítulos sucintos sempre levam a algum lugar, provoca a visão do menino com alguém que ele encontra. Tudo passa muito rápido, tal como o olhar de criança. Vê algo novo, busca entender aquilo, segue em frente e logo para diante de outra coisa nova. 

Apesar da história ser do pequeno príncipe, tudo é contado pelo aviador. Decide contar essa história apenas seis anos depois de conhecer o garoto, ainda encantado com o que aprendeu através do príncipe. 

Quando nos tornarmos pessoas grandes — adultos — precisamos nos ocupar com tarefas específicas, viver em prol do que acreditamos ser importante, persistir sem questionar. Dizemos ter experiência de vida, conhecemos o bastante para seguir nosso caminho, sem tempo de analisar novos pontos de vista.

Então surge o pequeno príncipe diante do aviador e lhe prova o contrário. Não podemos ignorar algo desinteressante só porque o definimos desta forma, nada impede da mesma questão ser relevante quando visto por outros olhos. O livro é famoso, e por isso me impressiono notar a falta dele diante de pessoas com visões tão estreitas e extremas, incapazes de assimilar uma ideia contrária à sua.

Problematização do Erro

Quem nunca errou durante a sua vida, atire uma pedra. Somos indivíduos capazes de aprimorar nossas habilidades e mudar nossos conceitos constantemente; qualquer um pode fazer algo melhor amanhã, bem como esta mesma pessoa fazer algo aquém do esperado ontem.

Nós conhecemos, estudamos, treinamos, praticamos aquilo em que trabalhamos; esforçamos tanto para garantir a eficiência e eficácia da execução das tarefas, sem dar chance às falhas. No fundo nós sabemos, uma hora vamos errar.

Ninguém deseja o erro. Traz tantas coisas negativas quando ocorre, consequências de diversas intensidades sob um contexto a ponto de desejar negar a verdade. Alguns negam sem pudor, e gostaria de falar sobre eles.

Somam-se provas e mais provas, apontam brechas em seus argumentos e os defeitos de seus atos. Humildade faz companhia à bota perdida de Judas, pois eles jamais erraram, nunca! São exemplos a seguir, competentes a serem admirados.

Talvez pense em pular o meu texto, ir na parte de comentários e tecer xingamentos por eu falar mal de seu ídolo, elaborar argumentos do quanto o outro é errado, dizer que sou bajulador daquele incompetente. Não estou apontando a esquerda ou a direita, nem falo dele ou dela, leia o parágrafo anterior. Refiro-me à ELES.

Sim, eles. Sem uma pessoa em específico, pois muitos possuem um comportamento semelhante quando cometem erros, eles deixam de assumir. A falha é um ponto gravitacional que atrai todas as adversidades à tona, e ninguém quer ser reconhecido como o responsável por esse ponto.

Mesmo sem se responsabilizar, os problemas persistem. Ao invés de solucionar, eles apontam a falha dos outros, pouco importa quais sejam ou a sua gravidade, destacam os defeitos alheios para ocultar o próprio.

Os seguidores compram a ideia, exaltam o erro do adversário em comum e faz pouco caso com os do próprio ou apontam como calúnia, ou que está certo mesmo.

Esta atitude impede algo muito importante a ser feito frente ao erro. Dar a devida punição pelos prejuízos do erro é um exemplo, mas ainda há outro fator mais essencial, e deixa de realizar porque prefere se manter na posição de infalível: o de se aprimorar.

O erro é a melhor fonte de aprendizado. Quando aceitamos a sua existência e refletimos, damos a chance de compreender como nos levou à falha e evita-la. É uma pena abrir mão de uma das melhores oportunidades de se aprimorar só porque não quer assumir a falha.

Permite-se errar, e faça o mesmo com quem admira. Se o erro for grave a ponto de punir seu herói, deixe de alimentar o problema mascarando seus defeitos. Fico triste quando percebo mais consequências dos atos nas histórias de ficção do que nas reais. Livros de terror não me dão medo, mas sim o motorista que me ultrapassa pela direita, quase causa acidente na rodovia, e sai impune até o dia quando prejudicar a si e aos próximos com esta atitude.

Por isso aconselho: seja honesto com o seu desejo. Se quer um mundo melhor assim como eu, avalie em quem confiar, aceite suas falhas e verifique se aprendeu com as mesmas. Caso decida atribuir responsabilidade a quem só coloca a culpa nos outros, eu só lamento.

Minha Estrada de Trevas

Fiz uma promessa, tracei os detalhes do objetivo. Expandirei meus limites ao ponto além do atual, superarei medos sem sentido, e como recompensa ganharei uma hora a mais em cada dia útil. 

Sim. Tudo preparado. Daqui três semanas eu iria começar. Praticaria nesse tempo, aos poucos perderia o medo. Quando chegasse a hora, estaria pronto. 

Só que não. 

Na primeira semana eu cometi a besteira de me preocupar. Olhava a estrada repleta de trevas, me encolhi perante àqueles demônios. Suei frio dentro desse casulo seguro. Tal seguro me trará riscos no futuro, perigo de ser incapaz de enfrentar o imprevisto. Algum dia o casulo não me servirá mais, mas eu não serei útil também. 

As trevas criaram uma bola de neve na minha cabeça. Novos problemas chegaram e grudaram feito chiclete em mim. Eu respirava, deixava o tempo passar, pois só ele era capaz de resolver alguns dos problemas. Só que o tempo era lento demais. 

Está bem. Eu falhei com a minha pressa. Só tenho dificuldade em assumir a culpa, eu cresci ciente que precisamos ser pessoas perfeitas, tá? Erros não são permitidos. Pessoas de sucesso não erram, pessoas de bem sabem como fazer, pessoas da minha família são felizes com seus acertos. Pois eu errei, e por isso a bola de neve cresceu. 

Olhei a estrada no outro dia.

Ainda estava infestada de demônios. Eu disse a mim “não olhe”, mas teimosia é outra de minhas falhas. Os demônios aumentaram em tamanho e quantidade. Eu encolhi. 

No dia seguinte não precisava apenas do tempo, mas também de pessoas. Pessoas são complicadas, elas vivem suas vidas enquanto a minha depende delas. Quando é o contrário eu faço tudo por elas, mas eu preciso permitir que o tempo faça elas conseguirem me ajudar. Fico de mal com o tempo. 

A estrada ferve. Eu suo. Nada disso é fato, não na cabeça dos outros. Escuridão quer me acolher, e consegue. Ansiedade é a sua colega, e as trevas permitem entrar em mim, eu permito. 

Sofro calado. É errado compartilhar seus problemas com os outros. Isso se chama problematização, é um palavrão muito feio. Pessoas de sucesso não reclamam, relatam como venceram seus desafios com força e fé, ou outras palavras bonitas. 

Então prossegui nesse casulo ambulante. Enquanto a estrada adquiria mais forças negras, eu perdia o ímpeto de quando tracei o objetivo. 

Não permiti. 

Modifiquei o prazo. Cumpriria a promessa na próxima semana! Aguentei por mais um dia, fechei meus olhos contra os demônios, apesar de senti-los. 

Me preparei no sábado. Percorri a estrada das trevas, menos agressiva nesse dia. Na volta eu comprei o necessário nessa aventura. 

Não foi fácil. Os demônios pregaram muitas peças, bloquearam meu caminho no último instante. Persisti, dei voltas nessa escuridão, consegui uma oportunidade e aproveitei. Não só obtive os itens necessários, como comprei também um cacho de bananas para a minha guardiã. 

Tudo certo. Segunda-feira eu acabaria com essas trevas de uma vez. Libertaria de meu casulo finalmente. 

Mas… 

Os demônios tentaram me enfraquecer, e conseguiram. Na noite de sábado meus guardiões me mandaram ir além no domingo. O percurso não só era mais longo, mas os demônios eram mais fortes, bem mais tenebrosos; exceto aos olhares dos guardiões. Eles não viram problema algum. 

Só viram quando eu surtei. Eu falhei novamente. Uma pessoa de sucesso não reclamaria, mas eu reclamei. 

Ao menos os guardiões eram pessoas sensatas, me conheciam muito bem. 

Eles me acompanharam nessa longa estrada. Os demônios ficaram fracos, frágeis. O guardião do meu lado dormiu, mas eu prossegui, sabia o que fazer. 

O retorno foi tão tranquilo quanto a ida. Repousei no resto do dia. Na hora de dormir os demônios voltaram a atacar. Tentaram impedir meu sono. Os enfrentei por algumas horas e venci, adormeci. 

Acordei animado.

Tomei café, o combustível da minha concentração. Troquei de roupa e enfim fui ao combate à Minha Estrada de Trevas! 

Tirei o carro da garagem. Coloquei o cinto, acendi os faróis, dei play nas músicas de Deco Sampaio, e dirigi na Fernão Dias sozinho. As trevas da rodovia desapareceram da minha cabeça. Os demônios sumiram, não passavam de outros carros que percorriam o seu caminho, assim como eu. 

Percorri a Fernão Dias com tranquilidade, e segui ao meu trabalho trinta minutos antes de quando vinha de ônibus. Tive um pequeno desafio na hora de estacionar, mas eu superei. Estou pronto para aproveitar mais do meu carro de forma independente, e eliminei a escuridão criada por mim. Tenho menos falhas comigo desde então, talvez até menos do que as pessoas de sucesso tanto esforçam em esconder. 

As Primeiras Horas de 2018

Primeiro de janeiro de 2018. 

Levantei às 6h50.

Precisava tomar remédio às sete por causa da alergia da gatinha (de quatro patas, infelizmente) da casa de minha irmã dias atrás. 

Pelo menos eu estava melhor, meus cachorros também. Fiquei até uma da madrugada acordado só para acalmar os meus dois bichinhos. Fogos não têm graça, perdi o prazer da virada do ano há tempos. 

Tenho o hábito de fazer compras no mercado todo domingo. Com espirros constantes e olhos avermelhados igual vampiro, resolvi adiar até o ano seguinte. Meu pai disse que estaria quase tudo fechado, e ele estava certo. 

Saí de casa com o horizonte plenamente cinza. As nuvens escondiam a luz do sol, ventos frios massageavam meu rosto. Adoraria receber o calor de um abraço da minha companheira de toda a vida, mas ela ainda não se revelou para mim. No momento aceito a companhia deste clima gelado; odeio o verão. 

Segui com o meu carro. Mal tinham passado oito horas do primeiro dia do ano. Com certeza a rua estaria deserta, encontraria somente os bêbados. Todo feriado eles brotam no chão, principalmente no ano novo. 

Porém o primeiro sujeito visto na rua estava com uniforme de trabalho. Sua bolsa grande e cheia puxava seus ombros, quase o derrubava. O zíper nem fechava com o pacote de arroz com a metade para fora da mala. 

Ele viu o meu carro e acenou. Primeiro eu desviei o olhar, concentrei na curva fechada que teria de fazer com o veículo. Acenou mais uma vez e eu pus o pé no freio. Olhei na janela do meu lado, ele já tinha ido ao outro e abriu a porta do passageiro. Quando perguntei se precisava de carona ele já estava dentro. 

Como não cheguei a pedir autorização dele em expô-lo neste texto, vou nomear aqui como Alexandor Romasnoffv.

Talvez Josué, o Hulk, seja melhor.

Hulk é o apelido dele de verdade. Ele me disse quando observou a minha camiseta. De primeira perguntou se eu era roqueiro pela cor da roupa, e acertou. Só enxergou o monstro verde quando observou outra vez. 

Conheci muito sobre Josué no curto caminho de sua carona. Digo, curto com o carro. A pé ele iria gastar meia hora e arrebentar a coluna com aquela mala pesada (não estava sob os efeitos dos raios gama). 

A nossa conversa durou mais do que muitas a vir em janeiro. Sou introvertido, ainda assim não sou difícil de se conversar. Difícil é alguém falar comigo de coisas simples, sem segundas intenções ou julgamentos. 

Mal saí do percurso durante a carona, e deixei Josué há poucos passos de seu apartamento. Ele me recompensou com algo de valor inestimável: gratidão. Não poderia receber prêmio melhor nas primeiras horas de 2018. 

Duvido encontrar Josué outra vez em breve. Desejo toda a felicidade possível a sua família com aquele saco de arroz pesado da bolsa. Até mesmo a sogra — que ele detesta — seja feliz e o incomode menos. 

Comecei este ano com o pé direito, cheio de satisfação e esperança de seguir em frente (e olhar para o lado). 

Claro, as primeiras horas do ano não foram perfeitas. Apenas um mercado estava aberto. Comprei menos da metade do que costumo levar, e o preço ainda ficou a 50%. 

Mas tudo bem. Houve um breve momento de felicidade, e isso tem de ser lembrado. Não é muito, mas a perspectiva positiva é o mais importante.

O ano novo não trará mudanças se eu deixar de mudar minha atitude, do contrário chegará dezembro e serei mais um a dizer que 2018 foi o pior ano da minha vida, assim como muitos falaram nos anos anteriores.

i am possible - 2018

Rasguei o impossível e disse: “Eu sou possível!”

Unravel – Uma experiência sem palavras

Tão habituado pelos diálogos e enredo apresentado por palavras, descobri em Unravel um jogo que se apega ao visual e a trilha sonora, únicos recursos usados e suficientes para conectar o jogador com as ideias dos criadores.

Lançado no começo de 2016, Unravel é um jogo side-scrolling com muitos enigmas que desafiam o jogador a percorrer o cenário. Desenvolvido pela empresa sueca Coldwood Studio.

Unravel - título

A história antes da história

A ideia surgiu quando o diretor Martin Sahlin estava acampando com a família ao norte da Escandinávia. O local era isolado, de poucos moradores e cheio de paisagens naturais.

Uma das atividades descontraídas de Sahlin foi construir um boneco bastante simples. Fez sua estrutura com arames, pegou emprestado uma lã vermelha e enlaçou até preencher o corpo. Assim nasceu o protagonista Yarny.

Protagonista Yarny construído de verdade

Com o boneco em mãos, Sahlin imaginou como Yarny percorreria o cenário ao seu redor. Pensou em como arremessar o próprio fio de lã para alcançar lugares mais altos como se fosse um arpéu, ou fazer nó entre dois lugares altos e assim criar uma ponte de lã. Essas ideias foram levadas ao estúdio e implementadas no jogo.

Yarn é como o amor: quanto mais nos distanciamos, menor ele fica

O jogo é dividido em fases, todas com um objetivo simples: restaurar as memórias da família na casa da idosa onde Yarny existe. Controlamos o boneco que sempre segue em frente (olha para o lado…) e deixa um rastro de lã do próprio corpo que é dissolvido conforme anda. Parte do desafio é coletar fios de lã no cenário para restaurar seu corpo e assim prosseguir pelo cenário.

Conforme se avança na fase, imagens das lembranças da família surgem no fundo, até alcançar um broche feito de lã no final.

Fim de fase

Cada fase concluída restaura as fotos do álbum da senhora dona da casa, com uma breve descrição daquelas lembranças – único momento em que há palavras no jogo. Ou seja, Yarny se torna o laço que reúne o vínculo familiar da humilde senhorinha.

Todo o ambiente é deslumbrante. É feito para ser admirado enquanto tentamos avançar no jogo. Os objetos disponíveis servem tanto para nos ajudar como atrapalhar. Todo animal é uma ameaça fatal ao boneco de lã, sendo preciso fugir dessas criaturas que destroem o brinquedo assim que o toca.

Ponte de maçãs

A música é uma peça que encaixa perfeitamente na bela obra que é este jogo. É o que nos imerge a este ambiente humilde e selvagem. Se ficar frustrado quando não conseguir passar de algum enigma, feche os olhos e permite a música entrar na cabeça. Valerá a pena.

As movimentações simples de Yarny surpreendem pela sua capacidade de se expressar. Muito do que ele vê pelo cenário é novidade, ele procura interagir com uma inocência de criança. O jogador fica assustado junto com o protagonista quando algo surge do nada na fase, sofre quando vê o bonequinho sofrendo pela péssima jogada ou pelo frio extremo da fase. Os produtores deviam ter avisado que o final do game vinha acompanhado pelos ninjas cortadores de cebolas; meus olhos suaram bastante.

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“Desenvolver este jogo foi uma jornada sem igual” – equipe da Coldwood

Um jogo curto. Provoca uma experiência singular ao jogador. E que vai contra a maré de títulos com enredo cada vez mais complexo.

Recomendo Unravel àqueles interessados em relaxar com um jogo de mecânicas simples. Só tenham em mente que vão acabar emocionados pela beleza dos cenários e simplicidade do protagonista.

 

*imagens retiradas durante o gameplay ou no site oficial


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