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Creepypastas: Lendas da Internet 2 (Divulgação)

Vivi o começo da infância na década de 1990, tempo de acesso limitado a internet. Eu mesmo só comecei a acessar depois de 2006, antes até existia conexão em casa, mas achava muito difícil de usar, deixava aquilo para minha irmã. Chega a ser inacreditável lembrar deste passado! Eu uso da internet a manter este portal online, é de onde tiro a maior parte do material de leitura, escrita, de muitos outros recursos desta rotina, assim como qualquer leitor a visitar este site.

Todo acesso comum hoje era novidade nos anos ‘90, isso quando existia, pois esqueça vídeos ou toda a família presente nas redes sociais. Sendo novidade no passado, os primeiros programadores de internet ainda descobririam as possibilidades, muitas dessas desconhecidas aos usuários. E o desconhecido é a palavra-chave provocadora do medo, segundo H. P. Lovecraft. Nesta época ainda tinha outra particularidade, a facilidade de acesso à internet durante a madrugada, bem oportuno a proporcionar o fenômeno das Creepypastas, histórias macabras dúbias de serem reais ou ficção, com imagens perturbadoras e relatos de conspirações, assassinatos, aparição sobrenatural; um mundo virtual repleto de terror.

A editora Lendari resolveu homenagear este fenômeno lançando uma coletânea de contos nesta temática, e o sucesso da coletânea gerou a possibilidade de uma nova chamada para publicar o segundo volume. O mais incrível foi o sucesso em número de participantes e colaboradores no financiamento coletivo a ponto de garantir a publicação simultânea da terceira coletânea! Entretanto focarei em falar de Creepypastas 2, e quem acompanha este blog sabe: quando eu falo de algum livro por aqui na primeira pessoa, é por motivos especiais. Desta vez é por eu ser autor de um dos contos publicado no livro!

É a segunda oportunidade de mostrar um texto de minha autoria a partir da seleção e edição profissional. Esta postagem seguirá na mesma intenção da Revista A Taverna a qual participei, apresentando os contos presentes no livro, destacando as qualidades. Creepypastas 2 tem uma diversidade de contos, tanto em quantidade quanto em tópicos abordados dentro do contexto das lendas da internet, então preferi falar só de alguns afim de demonstrar o que o leitor pode esperar do livro no geral. Saiba mais sobre eles apresentados a seguir:

A Sombra do Disco ― Mauro Plastina

Júlia tem nove anos, órfã de pai e briga a todo momento com o irmão. Ela ganha um LP de presente da mãe, entre as músicas presentes há aquela especial, pois ouvia junto do pai antes de ele falecer, e por isso toca o disco logo quando recebe. Ela posiciona a agulha da vitrola a tocar direto na faixa preferida, assim a nostalgia começa a trazer alegria e angústia, até que o aparelho para de funcionar. Inconformada, pede ajuda à pessoa mais próxima capaz de entender como uma vitrola funciona, o irmão. Ele vai a contragosto e ensina a maneira de ela tocar o LP, e assim Júlia acaba tocando o disco ao contrário.

De narrativa focada na criança protagonista, o conto desenvolve a história a partir da ingenuidade infantil além das intrigas casuais entre irmãos, apesar de no fundo sabermos o quanto se amam. Mauro é pontual em demonstrar os sentimentos da menina em cada situação, exercendo a empatia ao mesmo tempo de coordenar a tragédia na garota, abusa da boa vontade dela ao provocar a desgraça reservada a este conto.

“É como diz o ditado: ‘se matarmos todos os assassinos, os assassinos seríamos nós.’”

ERISinninthcirclexxxiv ― João Marciano Neto

O conto começa com um aviso. Pare de ler, apague esta mensagem, de preferência descarte o computador usado no acesso deste relato. Continuando a leitura, avisa sobre manter o domínio mortis.com intacto, em seguida há a narrativa sobre a programação da inteligência artificial chamada ERIS. O protagonista é o narrador, um dos programadores e, de certo modo, “segurança” deste sistema. Enclausurado pelo causador do temor, também o motiva a fazer de tudo pela sobrevivência, a dele e da humanidade, e o conto comprova o quanto este “fazer de tudo” significa.

“ERIS nos chamava em sua dimensão eterna, querendo nossos segredos […]”

O Horror no Bairro da Pedreira ― Igor Moraes

Rafael é colecionador de artefatos dos mais diversos países e culturas, de armas a amuletos de tempos remotos, ou de épocas recentes, o importante é o valor apavorante atribuído ao material colecionado. Por isso investiu o dinheiro restante numa coleção nazista, cuja simbologia faltava em seu estoque de atrocidades. Vieram informações anexas aos itens, sobre o misticismo envolto do nazismo, sobre a mensagem de alguém envolvido ter vindo no Brasil, e sobre o projeto Werwolf, este de surpresas interessantes no conto.

A descrição de Igor mistura referências de povos tradicionais a elementos recentes, e dentre as tradições escolheu a certeira de causar desconforto quando citado: o nazismo. A História exerce o papel acadêmico de relatar as consequências internacionais deste partido eleito na Alemanha, já as tantas outras histórias ficcionais ou conspiratórias possuem impacto garantido pelo respectivo contexto. Assim a história ocorre na perspectiva de Rafael, tudo fica crível, e complementa com a história em torno da relíquia nazista prosseguindo no Brasil décadas depois.

“[…] uma figura em decomposição, extraída de de alguma história em quadrinhos de Alan Moore”

Onde está a Duda? ― Alane Brito

Bia enfim recebe de presente da mãe a famosa boneca Duda, em homenagem ao aniversário de quinze anos. A temporada da boneca já tinha passado, nem se produzia mais, então óbvio da mãe ter comprado uma usada, embora bem conservada. Já o irmão de treze anos detestou o presente, na verdade a palavra correta é temer, pois ouviu histórias desta boneca ser amaldiçoada.

O conto usa o tropo clássico de terror, usando de artefato infantil ao aterrorizar jovens do jeito que nem mesmo adultos poderiam superar, caso esses fossem as vítimas. Sobrevivendo ou não, é um episódio a ficar marcado por toda a vida, e só poderia ser assim. Conhecendo tantas histórias macabras, ninguém imaginaria ser alvo delas. E quando acontece, bom, é preciso fazer de tudo ao sobreviver, ainda que tudo pareça loucura.

“O que eu deveria dizer sobre aquela noite era que um homem invadiu nossa casa e tentou nos matar”

Dias Sombrios, Noites Claras ― Diego de Araujo Silva

Fernando sofre de insônia e tenta seguir a rotina de trabalho enquanto tenta descobrir a causa das noites em claro. A narrativa segue em fluxo de consciência, ou seja, descreve conforme o protagonista pensa durante as cenas, de mente atordoada por permanecer desperto. O protagonista é alguém comum, vive sem ambições, manter o emprego de contábil seria o suficiente, pois o extraordinário da vida dele está em Mirela, a esposa que saiu a negócios bem na crise de insônia dele. Pois mesmo uma coletânea de Creepypastas fala sobre o amor, apesar deste tipo de conto ainda provocar o autor a revelar os espinhos desta rosa. E o que mais teria neste conto? Uma referência a Machado de Assis, claro.

“Não durmo, não concluo o dia, relógio desperta às cento e vinte e seis horas e contando.”


Creepypastas 2 - capaOrganizadores: Glau Kemp e Mário Bentes
Editora: Lendari
Ano de Publicação: 2020
Gêneros: terror / creepypasta / horror
Quantidade de Páginas: 230

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

Confira o livro

* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

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Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

O Gato Preto (adaptação em HQ do clássico de Poe)

Superstição inspira simbolismos, e estes inspiram interpretações a levar ações. Publicada há quase dois séculos, mesmo assim a história é atual, a violência sendo relatada na visão do agressor. Poderia ser o sobrenatural a condená-lo? Ou apenas ele o considera assim ao livrar a própria responsabilidade? Em ambas as situações temos o mesmo resultado, a catástrofe vinda de uma mão, repercutida até o ápice da culpa denunciada pelo meio interpretado correspondentemente.

O Gato Preto é um dos contos icônicos de Edgar Allan Poe, adaptado em quadrinho pela editora Martin Claret em 2017. Com tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg e ilustrado por Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi, a adaptação ilustra os parágrafos originais de Edgar sem deixar de enaltecer a prosa escrita no século XIX.

“Todavia, como amanhã eu morrerei, hoje gostaria de aliviar minha alma”

Narrado na perspectiva do protagonista sem nome, ele começa declarando a morte vindoura depois dos atos os quais é incapaz de explicar, contando apenas a maneira como aconteceu. Ele relembrou da infância sempre gentil aos animais e da própria inocência a ponto de acarretar em ingenuidade, sendo alvo de zombaria das crianças de mesma idade. Manteve a índole na vida adulta, cuidando dos animais junto a esposa, que arranjava novos bichos de estimação para a alegria do marido. Tinha amor por todos, apesar de enaltecer o Plutão, um gato grande e de pelagem negra; um gato o qual despertou atitudes inesperadas.

“Mas era, no mínimo, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada”

Esta edição traz a adaptação em quadrinhos e o conto original traduzido, ambos precedidos por um artigo sobre Edgar Allan Poe e o respectivo trabalho. As ilustrações mesclam com o texto disposto nos quadros, todos sendo da narrativa do protagonista, quase sem diálogo igual o original, inclusive esses textos são recortes do conto, editados conforme a ilustração correspondente, harmonizando imagens com as palavras.

Sendo a perspectiva do protagonista, ele relata com franqueza os sentimentos contraditórios em si ao realizar os atos de terror, porém deixa margens a interpretação, dignas do narrador não confiável. A visão dele sugere vir do gato preto, animal reconhecido pelo simbolismo da bruxaria. O personagem sempre o vê, ou o gato sempre o acompanha; as coincidências mesclam ambiguidades as quais o leitor pode assumir determinada interpretação. Este recurso narrativo é eficaz no objetivo, o de provocar o leitor ao não dar a devida resposta, causá-lo desconforto e submetê-lo ao terror.

O Gato Preto recebe a homenagem correspondente às qualidades do original nesta edição da Martin Claret. De coloração eficiente em ilustrar os variados níveis de tensão na breve história, os traços no rosto do protagonista mostram a respectiva reação dele no momento conforme é relatado no texto antes da condenação à morte, e finaliza ilustrando com exatidão o que já no texto provocava surpresa e pavor.

“Mais uma vez, eu respirei como um homem livre”

O Gato Preto - capaIlustradores: Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi
Tradutoras: Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg
Editora: Martin Claret
Ano de Publicação: 2017
Gênero: quadrinhos/terror
Quantidade de Páginas: 73

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Um Banquete Para Deuses Mortos (Gleyzer Wendrew)

O poder traz o respeito gerado por medo. Raça submissa ao mais forte, a humanidade aceita as condições impostas ao atingir um objetivo maior, a sobrevivência, resiliente na miséria sob a constante e vã esperança. Já livre da mortalidade, os deuses ficam imunes ao medo, gananciosos quanto aos prazeres e ousados por desconhecer limites. Toda história literária impõe conflito, este capaz de transtornar a realidade dos personagens retratados e transformar a ponto provocar medo aos deuses.

Um Banquete Para Deuses Mortos explora o medo dos vampiros, autoproclamados deuses desta história, tendo Drácula como a divindade máxima e protagonista da tragédia. Publicado em 2019 por Gleyzer Wendrew através da editora Constelação, as cento e poucas páginas deste livro exploram a decadência de um dos seres místicos mais reconhecidos da ficção gótica.

“Um cheiro podre, nojento, quase humano”

A história parte do Drácula já abatido nos tempos atuais, sobrevivendo sob o sangue de animais. Evita contato humano, é motivo de piada a esse ser vivo antes inferior, submisso a ter a honra de conceder o próprio sangue aos deuses feito Drácula ao passado. Incapaz de reagir ou mesmo interagir com o mundo moderno, ele remói o passado, relembra o fim do seu Império de cinco mil anos sob a tragédia a qual ninguém da espécie/divindade conseguiu superar senão ele, condenado por sofrer pela eternidade.

“Mas não havia justiça no mundo dos homens”

Em seguida a história conta o passado, quando os demais personagens são apresentados. Os pontos de vistas alternam entre Enákia, o humano que virou vampiro entre os outros cem fracassados no ritual de Ascensão; a líder das Damas Negras Natara, amante da Vanda ― filha do Drácula; e de Nosferatu, o filho do deus supremo banido pelo próprio. Mesmo tendo diversas perspectivas, Drácula conquista o protagonismo não só por imposição do enredo, as qualidades do personagem repercutem em cada acontecimento: é o deus mais poderoso e também o mais velho, ele relembra cada ponto de seu passado eterno, consciente do vínculo ao acontecimento vigente, seja das leis criadas junto aos Alto Conselheiros ou qualquer outra decisão em vida.

Sem focar na ação, explora os dilemas e as preocupações dos deuses. Com Enákia o leitor pode conhecer os passos iniciais na vida de um vampiro, desde a transformação até o ápice das capacidades evoluídas no fim da transmutação. O gore escoa pelas palavras ao destacar a apreciação dos vampiros pelo sangue, e a descrição traz muitas maneiras de explorar a degustação escarlate entre as demais situações envolvidas, pelo sangue trazer tanto a vitalidade quanto a morte aos personagens. O texto dedica poucas frases à ambientação do Império de Drácula, a narrativa é concisa nesse sentido e nem deixa a desejar ao enredo; soaria negativo apenas aos leitores de fantasia com preferência aos detalhes de onde acontece a cena, já neste livro a ausência compensa ao oferecer a experiência de leitura direta, assertiva quanto ao objetivo da narração.

“Nosferatu preferiria arrancar o próprio coração a manchar sua honra com um ardil tão humano”

Vampiros são denominados deuses, seja proclamado pelos próprios ou reconhecidos pelos humanos. A história destaca as capacidades extraordinárias presentes em todo o legado vampiresco, só que este livro trata da situação oposta. Depois de tanto exaltar as capacidades, a história revela a situação de fraqueza, expõe os deuses diante da incompreensão, denuncia a vulnerabilidade, por fim amedronta os deuses.

Só há ressalva quanto a transmissão da informação ao longo do livro. Sendo de leitura curta, algumas informações foram postas com frequência sem necessidade, pois o leitor seria capaz de compreender sem o narrador relembrar. Não acontece de fato a repetição, nisso o autor teve o cuidado de evitar, na verdade a informação repercute de outras maneiras, isso seria útil ao leitor em narrativas longas ou complexas, já aqui incomoda.

Um Banquete Para Deuses Mortos é um terror inusitado. Em vez de explorar o medo dos humanos, tão recorrente nas histórias do gênero, este livro apela ao aterrorizar deuses. Comprova a superioridade das divindades, mostram a presunção delas desta invicção, e então explora a decadência sob argumentos críveis à realidade elaborada por esta história.

“Sim, deuses não bebiam água, igual aos humanos. Bebiam sangue.”

Um Banquete Para Deuses Mortos - capaAutor: Gleyzer Wendrew
Editora: Constelação
Ano de Publicação: 2019
Gênero: Fantasia Sombria / Terror
Quantidade de Páginas: 164

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Dark Souls 3 (Análise de Enredo e Ambiente)

O ciclo cumpre seu papel, e a Chama enfraquece perante a humanidade. Seres Vazios perambulam nos castelos destruídos e estradas condenadas, guerreiros memoráveis perdem a sanidade por conta da maldição. E se desta vez houver outra alternativa? Seria possível concluir o ciclo? Todo rei que alimentou a Chama  no passado vira o Lorde das Cinzas, cinco desses Lordes reerguem na missão de conceder acesso à Primeira Chama, dando a oportunidade de encerrar o ciclo. Os mortos-vivos fracassados em peregrinações anteriores também renascem. Chamados de Inacesos, eles buscarão os Lordes das Cinzas — mesmo à força — e tentarão trazer suas ambições à realidade. Esta é a premissa de Dark Souls 3, lançado pela From Software em 2016. A aventura é recheada de desafios com resquícios de esperança e descrições sutis deste novo capítulo tenebroso.

“Um leito em doce putrefação para deitar”

Após a cinemática introdutória do jogo e a criação do personagem, a aventura começa onde o Inaceso começa. Aqui começa o tutorial do jogo, não apenas com orientações dos botões, e sim demonstrando o desafio da jornada. Inimigos ordinários tentam te vencer em grupo caso o jogador falhe em estratégia, um monstro perigoso no caminho alternativo mostra a falta de misericórdia aos despreparados, sem falar do chefe logo de início. Incapaz de evoluir o personagem, precisa superar Iudex Gundyr, o campeão deixado no lado de fora dos portões do Santuário do Elo de Fogo e consumido pelo abismo; só sairá do caminho depois de derrotá-lo, do contrário o Inaceso apenas voltará da morte na fogueira anterior.

Desesperança - Dark Souls 3

Jornada exaustiva

A jornada acontece no reino de Lothric, cujo príncipe homônimo recusa o chamado para a Primeira Chama igual a outros três Lordes das Cinzas. Longe dos Lordes serem o único problema de todo Inaceso, outros chefes ficarão no caminho, cada um com a pequena oportunidade de demonstrar quem ele é — ou já foi — nos itens deixados após a vitória. Ainda haverão pessoas a compartilhar interesses em comum com o Inaceso, tornando agressivos se o comportamento do jogador provar ser contrário ao posicionamento deles ou por outras razões, tudo em volta da incógnita proposta à interpretação sobre o contexto de cada personagem.

“Erga-se, por favor… Pois essa é nossa maldição”

O fogo desvanece e a adrenalina aumenta. Este último capítulo de Dark Souls traz movimentos mais fluídos, embora ainda respeite as restrições da armadura pesada e o peso de cada arma ao manuseá-la. Todo tipo de equipamento traz vantagens e desvantagens, essas dependentes também ao inimigo enfrentado. O sistema de progressão dificulta a moldagem do personagem em obter vantagem em toda a situação, então caberá o jogador a aceitar quando tiver os pontos fracos expostos e vencer o desafio na perseverança.

Brinde - Dark Souls 3

Um brinde (solitário) à vitória

Interações entre NPCs são vagas de propósito, feitas para o jogador errar, receber a punição por falhar no convívio com ele, e assim conhecê-lo melhor e acertar a interação na próxima. Certos NPCs têm ordens de interação estranhas à campanha principal, disponibilizando diálogo sobre a morte do primeiro Lorde quando na verdade o Inaceso já venceu todos, sem adequar o diálogo ao momento vigente ou penalizar o jogador pela conversa tardia.

Figuras presentes no primeiro jogo da saga marcam presença aqui também, seja por concluir a história deles ou prestar uma homenagem com o jogo atual. Pena o terceiro episódio ainda marcar os problemas de câmeras e inadequação aos comandos de rolagem. A tela embaraça em corredores estreitos ou quando o personagem encosta na parede, favorece o desespero na luta contra chefes ao estar perto demais deles, desespero causado pela injustiça e erro de desenvolvimento. É admissível o personagem demorar no rolamento ao esquivar do ataque — faz parte da proposta realista ao peso do personagem —, mas faz sentido nenhum o jogador apertar o comando tarde demais, sofrer punição com o golpe e depois ele rolar; a ação deveria ser cancelada em vez de adiada.

Dark Souls 3 realça todos os pontos positivos da saga, inclusive os que poderiam melhorar. A fluidez dos movimentos deixa o jogo acessível de um lado, bem como balanceia com os inimigos também ágeis. Há poucas alternativas de diminuir a dificuldade da jornada, e essas são a partir da experiência: aprender com os erros, respirar fundo na derrota e focar na vitória a cada derrota. Jogar Dark Souls é exercitar a perseverança, enxergar as dificuldades e nelas encontrar a solução das lutas difíceis. O fogo desvanece, e as oportunidades afloram ao superar os desafios.

Lorde das Cinzas - Dark Souls 3

“Fui um bom Lorde da Cinza?” / “Não, foi o melhor”


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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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A Balada do Black Tom (E O Horror em Red HooK)

O medo vem do desconhecido. Escapa da lógica, vislumbra algo distinto e teme ameaças infundadas. Autores aproveitaram esse conceito e despertaram sentimentos no leitor através das palavras, descrições sensíveis de coisas inacreditáveis a existir. Lovecraft foi um desses autores, tomou o desconhecido por ele como fonte das escritas do horror cósmico. Não compreendia imigrantes, nem religiões diferentes da cristã. Quanto aos negros, eles eram sinônimos de horror a Lovecraft, reflexo da visão equivocada do autor, em outras palavras: evidência do preconceito.

Victor LaValle denuncia o racismo de H.P. Lovecraft em A Balada do Black Tom. Publicada em 2016 e trazido ao Brasil pela editora Morro Branco em 2018 com tradução de Petê Rissatti e Giovana Bomentre, a história traz uma reinterpretação do conto Horror em Red Hook. Esta edição inclui tanto o trabalho de LaValle quanto o conto original.

“Ninguém jamais se vê como vilão, não é?”

Charles Thomas Tester é um rapaz negro. Vagueia pelas ruas com a mochila de violão, possui nenhum talento musical e precisa garantir sustento próprio e ao pai debilitado. Charles compreende a realidade onde vive e toma proveito dela, realiza serviços de idoneidade dúbia enquanto disfarça conforme a sociedade o vê, como negro. Robert Suydam enxerga algo distinto em Charles, o convida a trabalhar como músico na festa dele onde virá imigrantes de diversas origens. A oferta de pagamento é tentadora, e algo além do trabalho atrai Charles a Robert, como a capacidade arcana do anfitrião e o Rei Adormecido venerado por ele. Thomas Tester segue adiante com intenção de responder a todo sofrimento vivido.

A segunda parte do romance foca no ponto de vista de Malone, detetive policial a investigar o caso de Robert Suydam. Malone aborda Thomas no meio das atividades suspeitas e fica surpreso nas próximas aparições do rapaz negro durante o confronto contra as consequências dos atos feitos por Robert.

“Precisamos saber, mesmo que isso nos condene”

LaValle tem narrativa concisa. Descreve ações e conta como Charles sente nas situações enfrentadas pela sua condição, isso sem exagerar nos verbos de pensamento nem abusar de adjetivos, apenas entrega a história com ritmo dinâmico.

Focada em Charles, a primeira parte mistura a fantasia do horror cósmico à realidade vivida por pessoas semelhantes ao protagonista, cuja falta de oportunidades leva a seguir outras opções de vida, essas ainda com consequências graves. No decorrer da segunda parte revemos Charles Thomas transformado, no entanto ciente da vivência dele antes desta nova situação. A conclusão da história alinha a parte de Malone conforme o conto original enquanto aproveita em demonstrar mais da realidade vivida por pessoas como Thomas.

“É uma babel de som e sujeira”

O Horror em Red Hook conta a história de Malone, mostra o detetive atingido pelo horror e só depois contextualiza a aventura responsável por deixá-lo assim. De narrativa investigativa, explica a situação presente em Red Hook e apresenta o caso de Robert Suydam a ser desbravado por Malone.

A escrita de H.P. Lovecraft marca o horror em longas descrições e usos de adjetivos, sendo os negativos sempre presentes junto ao termo imigrante e negro. De leitura compreensível durante boa parte do conto, as descrições ficam confusas quando começam a contar o horror vivido por Malone, pois o ritmo do texto muda conforme distorce a realidade graças as ações de Robert Suydam. Pouco fica claro, e esta situação até fica de acordo com a proposta do horror cósmico, da humanidade enfrentar algo além da compreensão. Das poucas noções assertivas, está o medo de Lovecraft inspirado pelo preconceito contra os negros, usados nas descrições nesses momentos como algo maléfico, presentes ao lado de Robert, todos contra Malone, e sempre interligado com adjetivos pejorativos.

“Com todos os meus sentimentos conflitantes”

A Balada do Black Tom conta a história de Thomas, inexistente no conto original e cerne da discussão levantada pelo autor ao recontar uma história de Lovecraft. LaValle segue o desfecho de Malone conforme o original, mas aproveita a descrição rasa nas questões do horror e recria a cena fantástica. O pejorativo dá lugar a dificuldades enfrentadas por pessoas como Charles Thomas, essas ignoradas a ponto de especular realidades horrendas por causa de preconceito.

A Balada do Balck Tom - capaAutor: Vicor Lavalle
Ano da Publicação Original: 2016
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Petê Rissatti
Tradutora de Horror em Red Hook: Giovana Bomentre
Quantidade de Páginas: 190

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Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

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