Tag: historia

Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

Compre a Graphic Novel

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos (folclore nacional)

Buscar mérito literário no mercado de ficção nacional é uma peleja sem fim. O desafio agrava quando os guerreiros empunham o lápis a batalhar na criação de cenários brasileiros, usando do nosso folclore a arma principal. Esta batalha vale a pena ser combatida, por nos trazer exemplos de aproveitar as tradições ou criaturas tão distantes de nós, apesar de compartilharmos o mesmo espaço. De riqueza quase exótica, tais livros podem ajudar-nos a descobrir sobre a terra onde pisamos. Dentre essas ficções há Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos, escrito por Gabriel Billy e publicado pela Avec Editora em 2018. O enredo passa no país homônimo ao livro, retratando o Brasil no período vitoriano de características fantásticas misturadas ao steampunk, onde curupiras, sacis, mapinguaris e outras criaturas folclóricas coexistem com aparatos criados pelos inventores brasileiros.

“― Vera Cruz tem muitos gênios, inclusive padres, como eu”

Vera Cruz tem dois reinos principais os quais guerreiam entre si. Lisarb é o maior em extensão cujo governo imperial foi substituído pela ditadura militar sob o comando de Kaput. A princesa Isabel ― filha do ex-imperador Dom Pedro II ― é foragida do novo governo de Lisarb, e durante sua busca em encontrar meios de retomar o poder tirado à força, é convidada a ir ao portal para Ivi Marã Ei e tomar o artefato do deus Jurupari antes de pessoas mal intencionadas.

O outro reino é Ouro Preto, lar do povo escravizado pela Lisarb. Preferem a magia em vez da tecnologia. A princesa Zaila guarda rancor do ladrão Pedro Malazarte, reconhecido por toda a Vera Cruz, este mesmo que seu pai, Chico-Rei III, pede à filha ajudá-lo a pegar a borduna de Jurupari. Encontram Urutau no caminho, o indígena sobrevivente da tribo dizimada pelo bandeirante de Lisarb chamado Domingos. Urutau possui o arco lunar, arma da deusa Jaraci, funcional apenas sob a presença da lua.

Além das terras humanas, Vera Cruz tem lares reservados a outras criaturas, entre elas a árvore Brasil e a Vitória Régia Sagrada, onde vivem os curupiras e mutucus, respectivamente. Ambos os povos são protetores da natureza, os primeiros fazem por meio da persuasão, já os mutucus optam pela violência. Por esta discordância, os dois povos travam conflitos. Mesmo sob trégua, os curupiras acusam os mutucus de envenenar a árvore Brasil. O príncipe Oiti deseja averiguar tal acusação, e para isso conta com a ajuda de Yataí, princesa dos mutucus e sua amante.

“― Não quero fugir. Quero unir nossas raças e um dia ser respeitado como um grande rei. E domar um porco selvagem!”

No momento de o leitor conferir este livro pela primeira vez, admirar a capa colorida com dirigíveis a indicar a ambientação steampunk, do título remeter ao antigo nome do Brasil, folhear e descobrir o livro dividido em dois conteúdos: a história em si e os apêndices cheios de criaturas e figuras históricas inspiradoras a ponto de fazer parte do romance; a primeira impressão é de ousadia a pegar ótimas referências e delas entregar esta história de fantasia nacional. As primeiras páginas do livro são compostas de prefácio, prelúdio e agradecimentos, depois ao começar cada capítulo há citação de autores ou pessoas importantes na história brasileira; tudo a elevar o trabalho presente no romance. Com tanta propagação do trabalho de pesquisa, resta pouco da obra em si, esta aquém do prometido no resto da edição.

O narrador onisciente alterna a perspectiva entre os personagens, realizando a transição por meio de cenas. Essa perspectiva não é respeitada, pois o narrador cita o nome de personagem recém-chegado na cena e desconhecido de quem acompanha a perspectiva no momento. Tantos pontos de vistas engrandecem a história de maneira positiva, caso aproveitasse a oportunidade de explorar as várias características do universo elaborado pelo autor. No caso deste livro, tudo ocorre rápido demais, mal deixa o leitor vislumbrar o cenário vigente e segue direto à trama central do livro. A ambientação do cenário por vezes é resumida em um ou dois adjetivos, e por usar tão poucas palavras, atropela ainda mais o ritmo. Caso fizesse os personagens explorar mais Lisarb e as consequências sofridas pela família da princesa Isabel, cenas capazes de exaltar a riqueza cultural existente em Ouro Preto, abordasse mais do povo indígena e mostrasse as façanhas de Pedro Malazarte em vez do narrador somente citar em várias passagens de ele ser o maior ladrão daquela história; cativaria o interesse do leitor ao longo da hitória. O universo do autor tem potencial, só faltou aproveitá-lo.

Tudo é esclarecido ao leitor, tão informativo a ponto de subestimá-lo. Diálogos são usados para apresentar os personagens entre si, trazendo conversas inverossímeis, pois em vez de falarem entre si, informam as características dos personagens. Certas explicações são feitas em três frases redundantes, inseguras da capacidade de compreender logo na primeira. A escrita deste livro é elucidativa, portanto deixa de ser literária.

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos é o debut de uma história com características impressionantes, possíveis graças à nossa história brasileira e folclore. Porém o desenvolvimento deixa a desejar, aproveita pouco da ambientação ― gigante pela própria natureza ― e exagera na explicação. Longe de desanimar, essas críticas têm o intuito de incentivar o autor a aprimorar na escrita, pois a história em si possui potencial.

“Era uma vez um mundo forjado com raios fúlgidos por um povo heroico de brado retumbante”

Vera Cruz - capaAutor: Gabriel Billy
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Saga: Vera Cruz #1
Gêneros: fantasia steampunk / aventura
Quantidade de Páginas: 184

Confira o livro

O Cavaleiro da Morte (Vol 2. de As Crônicas Saxônicas)

Existe certo fascínio nas ficções voltadas aos aspectos da idade média. Modo de vida mais simples, natureza presente, orgulho de ser leal a uma causa contrastam com os perigos de morte, saneamento básico inexistente comparada a de hoje, e as oportunidades nulas de ascender na sociedade e permanecer na posição social onde nasceu. 

Cada grupo tem a própria ambição e crença. Cavaleiros lutam em busca de mérito, principalmente pela sobrevivência e a garantia do reino onde sua família possa perseverar. Já os guerreiros dinamarqueses lutam para conquistar o lugar junto aos deuses no salão de Valhalla após a morte, enquanto em vida querem conquistar as terras saxônicas por serem mais férteis, e assim garantir a qualidade de vida ao seu povo. 

O contraste destas populações distintas é retratada em O Cavaleiro da Morte. Publicado em 2005, é a continuação do romance O Último Reino. Este segundo volume da saga Crônicas Saxônicas obriga Uhtred a se decidir em qual lado da batalha combater. 

O Cavaleiro da Morte - Capa

Bernard Cornwell é autor de dezenas de romances sobre ficção histórica, em especial os relacionados à Inglaterra, e conhecido pelos romances inspirados em fatos históricos e pelas cenas de batalhas viscerais. 

Sejam bons cristãos! Machuquem um pagão!  

Uhtred venceu o temível Ubba, porém deu pouca importância de tomar o mérito no momento certo. Já Odda, o Jovem, aproveita e se diz o responsável pela derrota do dinamarquês e consegue se promover com o rei Alfredo. Após descobrir a ascensão de Odda, Uhtred exige o reconhecimento na maneira pouco usual aos saxões e nada cristã, e recebe apenas penitência e repúdio do rei como recompensa. 

O protagonista é herdeiro de um castelo inglês (após a morte do irmão primogênito) e viveu entre os dinamarqueses da infância a juventude. Por viver entre os dois povos, ele vê a oportunidade de escolher a quem se aliar, apesar de ponderar os riscos em cada lado. Conhece Svein durante o período de indecisão, líder das tropas irlandesas e galesas que pretende derrotar o restante da Inglaterra junto com o líder dinamarquês Guthrum. Vários fatores surgem nos acontecimentos conturbados enquanto Uhtred se decide na escolha entre a impossibilidade da vitória ou da sobrevivência. 

Os dinamarqueses faziam seu trovão de batalha e nós rezávamos  

Narrado em primeira pessoa, Uhtred conta a história de quando era mais jovem sem se incomodar de ressaltar as próprias qualidades e os defeitos na época. As palavras de Bernard refletem a partir do protagonista na preocupação de deixar a história acessível aos leitores atuais, além de reforçar esta facilidade de compreensão também na tradução brasileira, com notas sobre escolha de quais termos se empregam. Há ainda explicações repetitivas dos acontecimentos anteriores da saga, pequenos lembretes entre tantas informações de personagens ao leitor, isso porque ainda se trata do segundo volume da saga de dez livros publicados. 

Esqueça o charme da idade média exaltado em outras ficções. Bernard Cornwell reflete a realidade crua e nojenta do período medieval. Revela os podres da justiça, nobreza e religião sem pudor daquela época, muitos gerando conflitos políticos, desafios a superar por Uhtred enquanto mantém a posição instável. Tudo fica ainda pior com o reino saxão quase destruído, muitos nobres ingleses se aliam aos dinamarqueses e abandonam o rei Alfredo.

As crises políticas e de sobrevivência dão espaços aos conflitos brutais no romance, os melhores aspectos na escrita de Bernard. As descrições imergem o leitor para dentro da batalha, acompanhamos a perspectiva de Uhtred e vemos como se participássemos dela. Sem dispensar detalhes, retrata a crueza e crueldade das colisões das paredes de escudos e duelos consecutivos na batalha não só entre povos, mas entre os deuses (nórdicos e O cristão). 

Cometo a injustiça pela minha demora em ler os livros de Bernard Cornwell. Eu não gosto de ler livros do mesmo autor em sequência, nem mesmo os volumes da mesma saga, só que eu demoro demais entre um livro e outro deste autor. Surpreendo-me com a ótima qualidade da escrita sobre a história medieval e das batalhas viscerais muito bem retratadas em palavras.

Assassin’s Creed: Origins

Egito tem uma história espetacular. O culto aos deuses era diversificado, cada local com costumes distintos conforme o deus em destaque. Habitantes vivem na terra áspera cheia de riquezas, em contraste com o povo humilde perante suas entidades. 

Gregos dominaram as terras e conviveram com os egípcios em Alexandria. Depois os romanos também se interessaram pelos encantos do país. A divergência não foi apenas nas suas crenças, e a crise política entre os irmãos Ptolomeu e Cleópatra fez o elo mais fraco da população egipciana sofrer: a população. 

Assassins Creed Origins toma o contexto desta época do Egito como pano de fundo, enquanto mostra a história de origem do Credo dos Assassinos. Lançado em 2017 pela Ubisoft, o jogo quebra alguns paradigmas dos títulos anteriores da saga, não só pelas mudanças no gameplay, mas por regressar o período histórico. 

 

Apep devorará seu coração fétido 

Bayek é um Medjai, classe de guerreiros servidores ao faraó, protetores de toda a população do Egito. Tal classe está em extinção devido às mudanças promovidas pelo faraó Ptolomeu. Sua vida se transforma quando conspiradores cruzam seu caminho em busca de um artefato lendário e matam seu filho nesse evento. Ele jura vingança contra essa irmandade secreta com a ajuda de sua esposa Aya, que recorre ajuda à Cleópatra, com interesses em comum contra a irmandade. 

A aventura o levará a diversos lugares do Egito, cujo mapa do jogo é enorme e livre para o jogador explorar. Bayek também exerce suas funções como Medjai pelas cidades e vilarejos quando vê alguém em dificuldade. Muitas dessas quests secundárias ocorrem por consequência da crise política, pela opressão dos guardas e os guerreiros phylakitai, e também por causa dos rituais religiosos que Bayek realiza ou protege. 

Eu nunca durmo. Eu aguardo, nas sombras 

O protagonista é o mais agressivo da série Assassin’s, e prova isso logo nos primeiros minutos de jogo. Caso o ataque surpresa falhe, Bayek não hesita em empunhar sua arma e escudo frente a um ou vários adversários, e as finalizações não demonstram misericórdia. Mesmo assim, a mudança de jogabilidade nas lutas feita neste jogo se adapta ao contexto dos guerreiros na época. 

NPCs tomam pouco tempo do Medjai (e do jogador) ao expor suas necessidades na quest. A demonstração de expressões são sutis se comparadas ao The Witcher, mas os personagens não jogáveis ainda têm identidades próprias. Não tiverem tanto cuidado com os comerciantes, praticamente sem distinções de acordo com o lugar e uma economia capaz de comprar todo o arsenal de Bayek. 

Assassin’s Creed penaliza o jogador desde os primeiros jogos caso agrida pessoas inocentes (exceto no Rogue, cujo protagonista é templário). Infelizmente a penalidade está muito branda, só prejudica o jogador se matar três pessoas num curto espaço de tempo. O “guerreiro protetor” do Egito pode esfaquear as pessoas na rua e causar o terror pior do que os guardas sem ter prejuízo, pois ainda não matou os três civis. Pior ainda foi numa determinada quest em que fui recompensado por violar pessoas comuns, já que o objetivo era amedrontar um NPC. 

As mecânicas furtivas nem sempre estão eficientes. Guardas tiram sarro do protagonista “babuíno” subindo nas paredes do lado de fora enquanto eles estão no lado de dentro da fortaleza, e ainda os assassina em modo furtivo. Se um guarda te ver, basta rodear um pilar, ele baixa sua defesa e fica suscetível ao “ataque surpresa”. As falhas também favorecem os adversários, caso chame a atenção de uma fortaleza e foge para a outra, os guardas desta também já estão na postura de combate; sem aviso dos guardas da primeira fortaleza nem sinal do braseiro de alerta.  

Eu conheço os meus Deuses, agora encare os Seus 

[spoiler] 

Na conclusão da campanha principal do jogo, Bayek e Aya formam a irmandade dos Ocultos, os precursores dos Assassinos. Segundo eles, o problema está além de uma saga pessoal, os membros devem lutar pela perseverança do Credo ao mesmo tempo que permanecem escondidos pela história. Só que não. 

A fama de Bayek o persegue e expõe o líder Oculto. É controverso com o próprio Credo nas suas abordagens nada discretas, fala alto a ponto dos NPCs o lembrarem de não chamar a atenção. Ninguém lembrou os desenvolvedores do jogo quanto a discrição do Bayek nos eventos posteriores da criação do Credo. 

[fim do spoiler] 

Expus falhas sutis nas mecânicas de Assassin’s Creed que deixam a ambientação do jogo controversa. Pelo menos a construção desse mundo imenso foi muito bem representada na sua arquitetura e natureza, com oportunidade de explorar as diversas mecânicas novas na série. Já eu senti falta de aprimoramento desses detalhes. Espero vislumbrar algo na altura de minhas expectativas em Assassin’s Creed Odyssey. 

Carta para Alan Turing

Mairiporã, 5 de março de 2018

 Para o cientista da computação e matemático Alan Turing

Esta carta é singular.

Eu deveria escrevê-la em inglês por ser o seu idioma nativo. Mas pouco importa, você nunca lerá. Morreu há mais de sessenta anos.

É estranho escrever uma carta a um morto? Ora, é estranho escrever uma carta hoje em dia! Esquisito ser julgado pelo que simplesmente é, mesmo sem ameaçar a segurança de ninguém. Você sabe do que eu estou falando, Turing.

Deveria ser uma mensagem a um suicida cujo trabalho eu admiro. Felizmente eu descobri através de minhas pesquisas esta mudança de perspectiva. Executaram a investigação de forma superficial, e a reavaliação do caso afirmou o acidente com cianeto, ao contrário da exposição voluntária. Nunca saberemos a verdade, apesar desta última declaração ser mais aceita.

Sim, estou aliviado em saber que escreverei um texto a menos sobre o suicídio. Pena ainda ter motivos em lamentar de certos episódios da sua vida.

Por desenvolver a máquina capaz de decodificar mensagens alemãs, a Segunda Guerra Mundial terminou alguns anos antes do esperado. Talvez outros eventos também fossem capazes de antecipar o fim, mas não se nega a sua contribuição quanto a isso. Só que o governo o recompensa anos mais tarde com julgamento só pela condição sexual!

Aviso que a situação está melhor esses dias, embora ainda haja preconceitos. Alguns precisam reafirmar o quanto são machos toda hora. Têm medo de a mídia converter crianças ao “homossexualismo”, como se fosse possível.

Quando dizem de peito cheio que jamais tocaria em coisa de viado, quero tomar o celular de suas mãos e lembrar como esta tecnologia é possível hoje somente pelos seus esforços, de um matemático gay que contribuiu muito na área da tecnologia da informação.

Esses infelizes podem afirmar: sem você, seria outra pessoa mais cedo ou mais tarde. Eles até têm razão, mas foi você o responsável. Devemos lidar com os fatos ao invés da probabilidade de ter sido de outra maneira.

Porém não adianta. É impossível convencê-los através de argumentos. Desconheço como fazer isso, na verdade. Ainda assim acredito, com trabalho de formiguinha, que isso ficará no passado. Não quero provar estar certo, só quero um lugar livre de preconceitos.

Pelo menos eles pediram perdão, está bem? O governo inglês assumiu o erro sessenta anos depois. Até criaram um jargão em seu nome para os demais que receberam pedidos de perdão após décadas por serem penalizados pela mesma legislação.

Se a condição sexual ainda é marginalizada, o mesmo não acontece com a história. Continua sendo homenageado com obras de ficção. Seus feitos também são estudados por calouros das faculdades de computação.

O Teste de Turing é utilizado até hoje. Na verdade é até uma referência bastante conhecida. Já apareceu num romance do Homem de Ferro. Tony Stark fez graça dizendo: “Todo mundo sabe o que é um teste de Turing, não?”

Você nunca lerá este texto. Esta carta chegará a qualquer pessoa capaz de acessar conteúdo online que demonstre o mínimo de interesse pelo meu trabalho ou o seu. Quem sabe alguém não caia de paraquedas e descubra quem o senhor é? Talvez eu consiga compartilhar meu aprendizado ao pesquisar de sua biografia e transcrever nesta carta.

Sem mais, desejo um futuro melhor à nossa humanidade.

 

Att.

DiRock S.


Saiba mais

Página da Wikipedia

Sobre Turing Law

Alan Salvou Milhões de Vidas

Morte Através de Acidente em vez de Suicídio

Estação das Almas (conto)

Compartilho com vocês um breve conto inspirado na música homônima (que está disponível ao final do post) e na convivência do meu sobrinho, este apresentado um pouco mais velho na história a seguir:

Estação das Almas

“Eu quero sentar!”

Mantenho-me firme de pé. A terceira lombada seguida quase me levou ao chão imundo deste maravilhoso transporte municipal — de merda.

“Eu quero sentar!”

Minhas mãos estão encardidas, e mais partículas de sujeira se reúnem para uma assembleia em meus dedos, não importa onde eu me apoie. Seguro a respiração para que meu nariz coçando não contribua com a imundice. Tampar minhas narinas com o meu braço só traria mais pó em minha cara.

“Eu quero sentar!”

A sinfonia do motor roncando, o balanço do ônibus e dos grandes sofistas de busão que opinam sobre tudo e sabem nada, atrapalharia até os solos de guitarra do Korzus no volume máximo em meu fone de ouvido.

Mas jamais abafaria o choro do pirralho à minha frente.

“Eu quero sentar!”

Tenho ele apoiado na perna esquerda, forçando para que esta parte do meu corpo não pule junto com o ônibus e arremesse o meu sobrinho para longe.

Somos os únicos de pé neste momento. Um dos sofistas ao fundo já berrou sobre a geração mimada que chora por tudo. O restante apenas olhava a janela ou compartilhava memes em seus celulares.

Pergunto-me se aquele sofista levou pancadas na cabeça só por sua mãe não gostar de sua própria cria após inúmeras aventuras na cama. Ou se ficou meses sem família no orfanato para depois ser adotado por pessoas totalmente estranhas a ele.

“Eu quero sentar!”

Cinco anos hoje, mas já sofreu demais no primeiro mês de vida.

“Eu quero sentar!”

“Não vai sentar, Fábio. Hoje não.” Afago sua cabeça da maneira que posso. Pena não poder berrar contra os folgados para ceder o lugar a uma criança.

Sinto algo molhado no meio das pernas, mas são apenas suas lágrimas. Seu choro nunca funcionou comigo, por mais que este fosse verdadeiro.

“Eu quero SENTAR!” O agudo cortou meus ouvidos feito faca, outro sofista ordenou-me calar o garoto. Se dependesse dos outros, cada um de nós teria o nome “Viado” ou “Vagabundo”.

“Não está gostando da brincadeira?” Sorrio para o Fábio, e seus olhos encharcados encaram a minha indagação.

“Isso ne-tem graça.” O garoto fala melhor do que eu quando era criança.

“Mas ainda assim é uma brincadeira, e vamos comer um baita bolo se ganharmos!” Tomara que tenha bolo mesmo.

“Não quero bolo, quero sentar.” Criança é um ser muito complicado em sua simplicidade.

“Nem sempre podemos ter tudo o que queremos, ninguém aqui tem.”

“Fale por você, Vagabundo Viado! É só trabalhar que cê consegue tudo na vida.”

Ignoro.

“Essas pessoas estão cansadas, Fábio. Trabalharam muito para comprar o pão do café da manhã. Muitos vão estudar, outros ainda têm serviços domésticos, e o resto está exausto demais para ouvir o problema dos outros.”

Sem respostas alheias. O bom senso agradece.

Ele vira seu rosto para cada uma das pessoas sentadas. Não recebe o olhar de volta.

Seus braços escapam de minha perna. Agacho de imediato para pegá-lo antes de cair. Se eu encontrar um concurso de quedas de crianças, farei questão de inscrever este meu sobrinho.

A senhora do banco à minha frente oferece o seu assento. Seu cabelo branco, pele esticada e as rugas fizeram-me negar a ajuda.

“Isso naé justo”, resmunga mais uma vez.

“A vida é injusta, rapaz. Nossas vidas são cheias de problemas. Mesmo trabalhando duro, somos incapazes de resolver nossas vidas.”

Ergo meu dedo do meio sobre a nuca dele para não ver a minha resposta a mais um discurso do sofista julgador de vagabundos.

Ainda com o meu joelho dobrado, seguro firme seus ombros e aguardo sua atenção.

“A vida é injusta, e ficará ainda pior se você deixar de sorrir.

“Nunca corresponderemos às expectativas de todos.

“Cometeremos o erro de tornar o semelhante ao lado um inimigo por pensar diferente.

“Falharemos em deixar o coração na palma da pessoa errada.”

O menino me olha confuso. Acho que exagerei.

Era para ser um dia divertido, e eu acabo de jogar na cara dele a dura realidade do que ele terá de enfrentar.

Mas não temos controle sobre o que acontece ao nosso redor. Filhotes fofos de cachorros podem sangrar, sua mãe pode jamais retornar para casa num acidente fatal, ou seu melhor amigo pode se tornar uma peste após a separação dos pais.

Fico triste só de pensar pelo o que ele vai sofrer no futuro por causa de seu tom de pele, e desejo que ele não possua outras caraterísticas capazes de gerar mais ódio contra ele.

Eu quero do fundo do coração a melhor infância para o Fábio, mas sua linda inocência se perderá mais cedo do que nossa família espera.

“Então não é uma bincadera.” Olha para o chão.

“Claro que é!” Chacoalho seus bracinhos para erguer seu rosto. “É uma brincadeira ótima para fortalecer esta armadura que protege nossos corações.”

Uma brincadeira que nos abrigará da tempestade da vida, digo para mim mesmo. Nos deixará firmes em frente a enxurrada de lama que insistem em derrubar qualquer um. Uma brincadeira que nos ensina a viver, c@ralho! 

Amadura? Somos guerreiros?”

“Com certeza! Alguns são para tornarem-se livres, outros querem ser fortes. Só que todos devemos lutar.

“Você não é exceção, Fabinho. Então levante seu rosto, mostre seu melhor sorriso, e aprende a andar diante dos problemas da vida.”

Solto o garotinho e ele se apoia firme no banco.

Levanto para acionar o sinal de parada, e ele corre alegre na saída do ônibus ao parar no ponto.

Os demais passageiros seguirão seu destino. Compartilhamos essa breve viagem, e poderemos estar no mesmo lugar nos próximos dias, sem conhecer um ao outro ou sequer reconhecer que já partilhamos do mesmo transporte municipal de merda.

Os sofistas ainda irão reclamar, as maiores ideias continuarão sendo contestadas por memes, e as correntes de notícias falsas que eles compartilharam ainda vão chegar à minha timeline de poucos contatos.

Mas no fim todos embarcaremos no mesmo destino. Não importa o veículo nem quando. Todos iremos nos reencontrar ao chegarmos na Estação das Almas, e quem sabe lá seja possível perdoarmos uns aos outros.

Enquanto este momento não chega — e espero demorar muito —, eu comemoro por ver novamente o sorriso deste pequeno moleque que ri a cada tropeço seu.

Assim que a porta do apartamento se abre, Fábio salta ao abraço de sua mãe.

Eu não me atrevo a dizer o quanto seus cabelos perderam a cor desde que ela o adotou, principalmente quando ela recebeu em troca uma grande alegria graças ao menino.

“Brincou bastante com o tio?”

“Sim! Tio me ensinou como deixar a minha amadura mais forte!”

“Armadura?” Ela olha para mim. Apenas dou de ombros. “O seu tio está te enchendo com bobagens de video games de novo, é?”

“Isso aí, irmãzinha.” O que mais eu poderia dizer? “Bobagens de video games.”


A música inspirada é a última faixa do álbum Rock Brasil, da banda Motorocker. Com certeza é uma música que garante boas inspirações:

 

© 2020 XP Literário

Theme by Anders NorenUp ↑