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Convergência, pt. 5

Continua a receber murros no coração, a dor controla o corpo, mãos apertam Priscila Mariana. Engasgada, sangue escorre do nariz dela, olhos esbugalhados choram, palavras são diluídas na garganta e perdem sílabas, sobram apenas suspiros e gemidos fora da boca, e suas finas e frágeis mãos empurram o peito de Thiago.

Empurrões o incomodam, perturbam a ele e a força presente no peito. Só combate a dor com dor. Alivia a garganta da moça e fecha os dedos no próprio punho, aperta as unhas nas palmas. Prima adquire fôlego e reage com socos na face de Thiago, e isso o ajuda. Retrai os braços, aperta o corpo, soca seus próprios ombros, a barriga, o peito, a face; a força do coração perde controle, aumenta a intensidade, e Thiago usa o impulso contra si, martela a nuca com o punho direito, machuca e deixa o cabelo ensopado em vermelho, a força enfraquece.

— Di, Thiago. — Ela cospe o restante do sangue, a luz da Convergência brilha sobre o suor da pele. — Você não é o mesmo.

— Eu te disse, Pri. E agora estou pior.

— Eu causei isso? Coloquei um demônio dentro de ti?

— Duvido ser demônio. Existe uma energia sobrenatural dentro de mim, ela me transforma e domina o corpo. Estou me transformando naquelas criaturas a cada vez que alguém queima meu coração com chamas negras, isso me condena a uma nova maldição.

Prima se levanta, dá dois passos na direção de Thiago, ele recua.

— Não quero te causar mal com minhas maldições, Priscila. Pegue o meu carro e busque abrigo.

— E o que você fará?

— Buscarei respostas, e redenção.

Pés de Thiago deslizam no chão molhado, param somente quando apoia as mãos na parede da cozinha, mancha o azulejo com o toque recheado de sangue, sua mãe não reclamará desta vez. Escurece a caminho do quarto, sempre foi escuro. Procura pela chave e documento estapeando a cômoda, a mão bate na miniatura de Darth Vader feita de gesso, pouco depois o som da peça partindo em pedaços arranca lágrimas, seu pai sempre avisou que isso aconteceria. Bate no objeto de metal e no plástico ao lado, pega a chave e o documento, retorna e vê Prima na sala.

— Pode ir. Não recue por mim. — Ele ergue as chaves.

— Ótimo, bom ter lembrado do documento. Vai que tenha blitz com policiais verificando a habilitação de duendes.

— Força do hábito, engraçadinha. — Thiago teve de rir.

— Di. — Ela o abraça e beija no rosto. — Desculpe ter sido agressiva, apesar de ainda achar ter merecido. Eu espero ver você de novo, se cuida!

Ele acena e observa a vizinha ir embora. É péssimo com despedidas. Aguarda a abertura dos portões, o som de ignição do motor, o deslizar da roda do carro comprado mês passado, mal passeou com ele ainda. Sai de casa quando Prima já está longe. Agora é sua vez.

No meio da rua, ele deixa a dor no coração o dominar de novo. Postura curvada frente as criaturas no caminho. Agarra o goblin pelo pescoço, permite as mãos torcerem o corpo do pequeno monstro e paralisar esses olhos para sempre. O cabeça de cuia perdido longe do lago tem a nuca inflada demolida após vários murros. O Jack da Lanterna recua, Thiago o alcança, torce seus dedos, agarra o punho, o cotovelo, e quebra o antebraço; Jack grita e expele fogo dos olhos e boca abertos na cabeça de abóbora.

Jack da Lanterna - Convergência

— Eu já estou acostumado com as chamas! — A frase gutural de Thiago tira o fôlego de Jack. Sem ar, o fogo sobre a cabeça é apagado. Um murro atravessa a face de abóbora, escancara o buraco do rosto em um único grande e redondo, e faz outro quando o braço perfura atrás. Sem o membro acima dos ombros, o corpo morre. E Thiago continua vivo.

Enxerga a mula sem cabeça na rua João Bento, paralela de onde está, só que abaixo. Difícil dizer se é a mesma mula, desconfia da vampira lutar contra o mito brasileiro até a morte enquanto protegia todos, proteção que falhou. Pouco importa os detalhes, Thiago terá a revanche.

Desce o escadão onde interliga as duas ruas. Os vizinhos drogados fumavam entre os degraus, porém jamais teriam visão parecida com a de hoje. Thiago nunca fumou ou bebeu, e agora alucina com a realidade da Convergência.

A mula profanadora relincha e dá meia-volta, bate os cacos no chão e inclina o corpo, derrama fagulhas no asfalto. Thiago bate no peito, inclina a coluna cervical, e escorre saliva da boca até o chão. A mula impulsiona as patas traseiras, os primeiros passos são de saltos das quatro patas, e são os últimos. Botas do tamanho de van escolar esmaga o animal de fogo no instante que surgem. O resto do corpo começa a se formar, pele turquesa repleta de rugas do tamanho da cabeça humana. Joelho se forma acima das árvores do terreno ao lado. É preciso inclinar muito a cabeça para enxergar a bermuda do gigante.

Correntes de ar atingem as costas de Thiago e formam o redemoinho entre ele e o monstrão. O vulto de vermelho e moreno desacelera junto com a ventania e dá forma ao saci já conhecido.

— Qualé a desse bixo? E qualé a sua parada, mané?

— Eu já sou igual a vocês, quero partir pra briga e entender o que acontece.

— Vixe, o maluco toma uns whey protein e já se acha monstro. — Saré expele a fumaça do cachimbo, ela paira no ar, toma densidade, se dissipa e despeja armas de fogo. AK-47, M4A1, HK MP7, uma Taurus de calibre .36 e duas de .38, Peacemaker de calibre .45, Glock 18C, e Colt 1911.

— Que porra é essa? — Thiago estremece.

— Num qué brigá? Amarelô só de ver as arma de fogo? Boiola da peste. — Saré traga o cachimbo de novo, assopra e forma um tacape com ferro atravessado na ponta, cai aos pés de Thiago. — Te vira com isso então.

Agacha e toma a arma, só consegue tirá-la do chão com o impulso da energia sobrenatural dentro do humano.

Chama verde acende diante de Thiago, dois seres saem das brasas. Um de baixa estatura com pés virados para trás, e a mulher com escamas misturadas a pele dos braços, cabelo ensebado com as pontas no quadril, ela dá a volta e mostra seu rosto de crocodilo e olhos amarelos, exibe os dentes afiados.

— O bando chegou! Ó Raoni e Angélica, esse moleque tá do nosso lado, o marica tem medo de pegá em pistola. Tamo bem garantido, viu?

Thiago vira o rosto e resmunga pela garganta.

— Relaxa, ô esquentadinho. Esses dois nem senso de humor têm.

Rua escurece com a enorme sombra sobre os quatro guerreiros sobrenaturais, em seguida um grito gutural vem na altura do céu. O gigante enfim completa o corpo, estapeia as casas da rua Maria do Valle e destrói as paredes, despencam junto com o teto e a mobília até a João Bento e arrasta consigo mais casas.

O Gigante - Convergência

— Achou que eu não conseguiria atravessar, Odin? — O eco do gigante mergulha nos tímpanos de Thiago, atordoa e aciona um zumbido estridente, escorre filetes de sangue das orelhas. — Esta Convergência servirá de nada! Destruirei Midgard, nenhum Aesir tomará poder daqui, e apenas Jotunheim prevalecerá no Ragnarök.

— Entendeu a parada da Convergência agora, mané?

— Ahn? — Thiago responde o movimento dos lábios de Saré, ouve apenas zumbidos. Batida do peito explode em energia, equilibra o senso de direção, recupera a audição. — Agora a noite começa — diz e sorri para Saré.

Chamas saem da ponta da flecha de Raoni e das garras da Angélica. Combinam combustões, brasas crescem e aumentam antes de disparar.

O humano também dispara, só que a si mesmo. O corpo repleto de fogo negro por dentro se joga à bota do monstro, crava os dentes na clava de madeira, deixa as mãos livres, e salta na perna do gigante. Pelos prateados tomam proporções de cipós por serem do gigante, Thiago consegue se sustentar neles sem arrebentar, e começa a escalar.

Vê as chamas verdes voarem acima dele e atingir o abdômen e quadril, acompanhadas dos disparos de bala. Saré tem um fuzil em cada mão, sem deixar de soltar fumaça pelo cachimbo e construir algo grande, uma catapulta.

Agarra nos pelos quando o gigante corre, indiferente a Thiago ou até dos projéteis. O tacape só machucaria o olho do monstro, é preciso escalar mais, tipo bastante. Toma um pequeno impulso e sobe três pelos, está quase no joelho. Segura-se, deixa o inimigo completar o passo, e sobe mais quatro.

Toma fôlego e sente o calor do fogo, não param de atacar, nem vão interromper e esperar Thiago escalar. Fecha o punho direito sobre os pelos, solta a mão esquerda e pega o tacape segurado pelos dentes, a madeira toda babada. Leva a arma para cima, e solta o peso do braço no joelho. Se ele pudesse procurar nesse momento, não encontraria algum arranhão desse golpe. Tenta outro, marreta o terceiro, quarto, berra no quinto, o sexto muda o tom em turquesa mais escuro, no vigésimo poderia deixar a pele roxa.

A catapulta de Saré está completa. O saci a aciona e lança uma bola gigante de metal na altura do quadril do gigante. O globo bate no cóccix do inimigo e explode. É uma bomba!

Explosão dispara fragmentos de metais que perfuram a bermuda e a bunda turquesa. Chamas escalam o corpo, queimam os pelos da barriga e a pele do gigante, não mais indiferente ao dano, e começa a sacudir. Estapeia onde foi atingido, depois a barriga. Sacode o corpo de um lado a outro, balança o Thiago junto, que rompe os pelos onde se segurava e entra em queda livre.

Grita por Saré, em vão. Sequer ele ouve o próprio desespero por socorro, de pedir só mais uns minutos de vida, de desejar tudo isso ser sonho e acordar. Seus pesadelos sempre acabam em queda, talvez a vida também.

Segura firme no tacape, única coisa capaz de segurar. Perna do gigante se distancia cada vez mais, o tempo desacelera com flashbacks de despedida. A graduação do ensino médio, a viagem a Belo Horizonte há dois anos, as discussões com o pai sobre problemas do carro, a noite com Joana.

— Me perdoa, Jô. — E fecha os olhos, prestes a repousar por definitivo.

Abre os olhos quando dois braços o agarram e flutuam com ele a sete palmos acima do chão. Vê asas transparentes sustentando o corpo da salvadora com armadura de metal pesado, as tranças de cabelo loiras na altura do peito balançando, algumas batem na testa de Thiago, sob o par de seios dela. Os seios dela. Ele já entendeu.

Desce até o chão com ele e solta. Incapaz de segurar o riso, escancara uma gargalhada conforme retoma o fôlego. E Thiago continua vivo.

— Obrigado!

— Não chegou a hora de sua morte — diz a loira de asas.

— Seja quem for que decide, não vai muito com a minha cara. Só me deixa sofrer mais.

— Errado. — Ela pega o tacape do chão e ergue para Thiago. — Eu decido e gostei de você.

— E quem é você para julgar quem vive ou morre? — Retoma o tacape, braço volta a tremer.

— Helga, uma das valquírias responsáveis por levar os mortais à Valhalla.

Valquíria - Convergência

Ele volta a rir.

— Aquele gigante disse que isso tudo é culpa do seu deus.

— Odin destrancou o canal antigo entre Midgard e todos os demais mundos onde abrigam os seres sobrenaturais e divindades, sejam os sustentados pela nossa árvore dos nove mundos ou a de outros panteões.

— Puta merda. — Thiago mantém a boca aberta. — Os deuses existem mesmo! Tá na hora de eu deixar de ser ateu.

Helga pisca os olhos azuis uma vez, inexpressiva.

— E por que o papai do Thor fez isso?

— A Convergência atraiu os seres desses mundos até aqui, foi inevitável, mas há o objetivo mais importante: o de restaurar a conexão dos humanos com os Deuses, a única maneira que Odin encontrou de superar o Ragnarök.

Thiago suspira. Isso é muito maior do que imaginava.

— Ainda pretende lutar, humano?

— Como você disse, minha vida está em suas mãos. — Ergue os braços e olha o gigante, pouco longe, com três partes do corpo em chamas.

A valquíria bate as asas e tira os pés do chão. Flutua até Thiago, segura pelas axilas e o levanta no ar. Atravessam a altura das árvores em segundos, está acima do nível da Rua Maria do Valle, alcança a altura da barriga do gigante. Mal consegue ver Saré e os outros dois aliados, na verdade cinco; Helga não é a única a chegar no meio do combate.

Corpo enfraquece conforme voam mais alto, nariz começa a sangrar. Thiago pisca os olhos, sente a luz sobre o céu noturno perder a intensidade, ou ele a visão, juízo é certeza que perdeu. Coração bate mais forte, adapta os sentidos dele na baixa pressão atmosférica, foca a força no braço em segura o tacape, ele torce para a energia não mandar o braço acertar a cara da valquíria, e a visão fica mais nítida, mas a luz ainda enfraquece.

— Alcançamos o ombro dele — grita Helga. — Vou me aproximar e te deixar na cabeça, os gigantes sentem a presença das valquírias, ele tentará me acertar, então aproveite a distração e acerte o olho dele.

— Pode deixar!

Ela arremessa Thiago a dois metros de distância. Ele flutua sobre o ar gelado, vê o gigante expelir fumaça fria das narinas, enquanto abdômen e peito exalam fumaça das chamas. Os guerreiros terrestres não passam de pontos lá embaixo, meros vagalumes piscando com o fogo verde. Olha a frente, vê fios grossos de prata sobre a nuca turquesa, a orelha do tamanho do humano, os braços tentando acertar Helga feito inseto.

Enfim alcança o gigante, agarra a orelha com a mão direita, tacape firme na esquerda, mas coloca na boca de novo. Segura o cabelo da parte lateral e começa a escalar na horizontal. Movimentos vagarosos, a cabeça do gigante se mexe mais que as pernas por acompanhar o zigue-zague da valquíria, o vento bate mais forte, e a queda muito mais aterradora.

Chega no final do cabelo. Helga flutua de frente ao gigante, e ele fecha o punho turquesa nela. Traz a mão mais perto e vê o rosto feminino, o resto do corpo e asas apertados entre seus dedos, e sorri por capturá-la.

Thiago admira a coragem e confiança da valquíria, deixa o inimigo distraído. Salta do cabelo à sobrancelha, corpo balança pelo ar, apoiado somente pelas mãos. O olho enorme do gigante pisca para Thiago, a mão livre se aproxima. Ele solta da sobrancelha e agarra a pálpebra do olho, tem de ser agora! Abre a boca, pressiona a mão esquerda, empunha a clava com a direita, e golpeia o olho do infeliz.

O gigante fecha os olhos e berra contra a dor. A mão escorrega da pálpebra e Thiago aperta firme na pele abaixo do olho, apesar de enrugada, o suor da face turquesa faz os dedos da mão esquerda escorregarem, é preciso agir rápido. Levanta a arma acima da cabeça, ainda alcança o olho. Golpeia de novo, e de novo, vê o globo se diluir junto com o sangue escorrendo. O gigante curva a cabeça, Thiago escorrega da face e cai distante dela, vislumbra a bocarra gemendo de dor, a valquíria voando livre da mão, mas não irá salvá-lo. Ela terminará o serviço, se aproxima do outro olho.

Está à mercê da gravidade, passa pelas camadas de fumaça e as chamas esverdeadas, imagina ser fuzilado, mas Saré descartou as armas de fogo há tempos, até a catapulta, um grande redemoinho dispara correntes de ar para cima e golpeia Thiago. Coração bombeia, acelera, está frenético, braços e pernas rígidos nem tentam buscar apoio em meio ao ar. A luz do céu desaparece, dá lugar à lua cheia e as estrelas. Ele retoma os flashbacks, permanece no último. E pede perdão à Joana antes de colidir no chão.

*

Abre os olhos, incapaz de sentir o corpo. Continua na rua João Bento, no meio do asfalto, corpo ensanguentado e lambuzado com algo gosmento. Olfato retorna e presenteia com cheiro azedo e forte, vira a cabeça ao outro lado, na direção do odor, e se assusta com o gigante ao lado, melhor dizer, a cabeça do gigante, duas órbitas sombrias e cheias de sangue no lugar dos olhos, uma fenda escancarada, cheia de dentes. Ergue a cabeça e vê o resto do corpo, tudo queimado abaixo do pescoço, as pernas atravessam todo o terreno de área preservada. Tudo imóvel, morto.

Helga pousa entre Thiago e o gigante, única que permanece entre os aliados. Ela agacha e segura seu ombro, e neste instante o tato volta a funcionar.

— Argh! Isso dói, caralho!

— Você é um excelente guerreiro para recrutar em Valhalla. Mas fique tranquilo, não o levarei hoje. — Sorri antes de bater as asas e sumir pelo céu.

E Thiago continua vivo.

Convergência, pt. 4

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Esta parte em particular contém cena inadequada a leitores menores de idade, pule a cena e leia o desfecho clicando aqui.


Abre os olhos, enxerga nada. Corpo deitado, a palma da mão toca no chão de textura macia, as costas sentem frio como as pernas, as coxas, e as nádegas. Encosta nas pernas, barriga e quadril, só sente a pele, sem tecido sobre o corpo, sem roupa.

Pés descalços firmam no chão e Thiago se levanta. Deixa de sentir dor, a musculatura livre da fadiga, feridas desaparecidas. Desliza as mãos no peito, do queixo e bochecha à testa, tudo está tão rígido, inclusive a barriga com menos volume. Olha ao redor, apenas escuridão se manifesta. Anda em círculos, ergue os braços, encosta em nada. Caminha em frente, aumenta o passo, corre, salta, escorrega; toca apenas o chão macio.

Brilho azul atinge as costas. Luz fraca e distante reflete na superfície negra, Thiago se vira e vê um par de faróis azuis e duas formas verticais crescendo com o brilho da mesma cor. As formas verticais encurvam na parte de baixo e se estreita na ponta afiada, lembra os chifres vistos nos onis, apesar de menores.

O conjunto de luzes se aproxima, Thiago assimila o vulto aos poucos. De estatura baixa, pernas fortes, quadril largo, e peitos volumosos. Ouve a sacudida nas costas da silhueta, o bater de asas faz o corpo flutuar.

Súcubo - convergência

Ele a observa, pés escorregam para trás enquanto vê os dela pintados de negro, de pele morena. Ela paira acima dele, o brilho azul vem dos olhos igual os de fada, e fios de cabelo se  enrolam no par de chifres brilhantes. Diminui o ritmo das asas de morcego, desce devagar, balança o quadril, provoca o olhar de Thiago que atinge as coxas, o quadril nu sem pelos e úmido, a barriga magra, tudo sem estrias, e os peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago.

A moça de olhos brilhantes toca os pés no chão, sorri para ele, estica apenas um lado dos lábios, depois revela os dentes e morde de leve o dedo, fecha a boca, tira o dedo babado e desliza sobre os seios, deixa a saliva escorrer. Thiago treme diante do olhar feminino, ela não pisca. Desliza passos contra ela, encabulado. Olha tudo nela, tudo bonito, sonho sensual se torna realidade, e nada acontece, sobe ou endurece.

— Então você é tímido? — diz sem tirar o sorriso. — Sei como você quer, gosta desse jeito, sem pelos, baixinha, atributos nada modestos.

Avança em Thiago e encosta seu peito sobre o dele, apenas com as pontas dos dedos no chão.

— Não é assim que sempre quis?

Flexiona mais as pontas dos dedos, aproxima os lábios dos dele, escorre a baba no queixo barbudo, beija na boca, e Thiago recua, tira o sorriso dela.

— Mas o quê? Você é gay ou… Eu nem estaria aqui se fosse. Então qual o problema? Por que seu treco está murcho?

— Eu… Eu não…

Bate as asas e se lança sobre ele. Agarra o pescoço, segura o cabelo com a outra mão, e rouba outro beijo na boca de Thiago, penetra sua língua e suga dentro dele, chupa a saliva e absorve a energia de dentro, energia sobrenatural. Morde os lábios dele antes de desprender a boca e deixá-lo cair. Thiago toca a ferida, sangue escorre por onde foi mordido e suja a mão. Ela o esgana de novo.

— A minha primeira vítima deste lugar é alguém contaminado com a energia sobrenatural que inibe a libido?

— Sei lá! — Empurra a mão dela e retira do pescoço. — Espera. A Joana, aquela mão em chamas. Foi aquilo?

— Garoto inútil. Fez eu perder meu tempo.

Volta a flutuar e apaga o brilho dos chifres, fecha seus olhos e voa até desaparecer. Tudo volta à escuridão, esta se comprime, aperta Thiago e o sufoca, expulsa-o desse lugar.

 

*

 

Desperta no chão encharcado da cozinha. Levanta assustado, movimento brusco, por pouco acerta a testa da mulher ajoelhada perto dele e faz a fada saltar do peito e acordar em queda livre. m’Ylleihon resmunga e voa para fora de casa.

— Calma, Thiago! Sou eu, a Prima. Você estava tendo um pesadelo.

— Oi, Priscila. — Segura a nuca, resmunga da pontada de dor, todos os sentidos voltam ao mesmo tempo. O corpo frio sobre a água, o cheiro feminino encharcado de suor, a cachoeira da pia e corrente de água ecoam na cabeça, o cômodo escuro iluminado pela luz de fora, o grande brilho da Convergência, essa putaria não tem fim. — Não foi pesadelo, nada disso é.

— Como vamos conseguir sobreviver, Di?

Thiago fica de pé e ajusta a calça molhada. Fecha a torneira da pia e pisca os olhos. Cabeça exausta, dor retorna no corpo. Ele range os dentes e se segura no granito, pernas querem se dobrar, Thiago prefere sobreviver.

— Eles atacaram a UPA, todos nós corremos, muitos morreram. — Ela abraça o seu braço, repousa a cabeça no ombro e olha o chão. — Perdi Joana de vista. Deus, ela pode estar morta!

— Joana tem de sobreviver, Pri. Ela merece.

— Todos nós devemos. Vi o recado da Dona Cristina na mesa, ela está bem e nós também podemos! Vamos com o seu carro, Di. Vamos fugir e resgatar quem tiver no caminho.

— Eu te dou a chave, pode fugir.

— Como?

Arrasta a cadeira e desaba o corpo nela. Pés de madeira escorregam, assento reclama do quadril pesado, racha por baixo, mas aguenta o corpo de Thiago.

— Eu já sou uma aberração, Prima.

— Joana me contou sobre vocês, e foi mesmo repugnante.

— Esquece aquilo. É algo bem mais sério.

Priscila arregala os olhos. Luz do céu noturno brilha no suor frio da pele negra e das lágrimas a se formar outra vez, e dos dentes fechando.

Algo mais sério? Ainda faz a menor ideia do que fez com ela, Di?! A deixou com medo, assustou antes de qualquer bicho estranho desta noite. — Empurra o peito dele. — Tem razão, você é uma aberração, sempre foi um monstro entre nós.

Ela se segura nos ombros dele. Thiago começa a sentir calor, aquele calor, e vislumbra a mão direita de Priscila Marina consumida pela chama negra.

—  Pri, por favor! Tenha calma.

— Não me peça calma! Homenzinho nojento, machista, escroto!

Empurra Thiago contra o encosto da cadeira, pressiona o peso do corpo dele contra o assento e quebra de vez. Ele desaba ao chão com o objeto partido em dois, raspa as pernas na madeira, recebe alguns furos com fiapos, e traz Priscila consigo na queda, bate a testa no rosto dele, provoca sangramento na boca. Prima tenta se recuperar, estica as pernas, mas os pés escorregam no chão molhado. Ela volta a cair, tenta se apoiar com as mãos, e a da direita atinge o peito de Thiago, onde atravessa a pele, afunda até alcançar o coração. E começa a queimar.

Fumaça escapa da boca de Thiago, e ele começa a gritar. Rasteja o corpo sem sair do lugar, a mão de Priscila permanece grudada ao coração, permanece ali até acabar de arder, transmitir a energia sobrenatural, conceder-lhe uma nova maldição.

O fogo desaparece da mão de Prima, e ela cai de costas. Olha os dois braços, a palma direita com o sangue de Thiago, ele levantando, queimando em negro.

E o rapaz sente o peso da energia no coração. Uma força dolorosa feito punho de ferro apertando seu órgão. Dor espalha pelo corpo, toma controle das pernas que levantam Thiago, os braços acumulam massa muscular, a cabeça embaraça os sentidos, a coluna se curva e aproxima da moça sentada, as mãos apertam a garganta dela e interrompe a passagem de ar.

— Por que você fez isso comigo?! — A voz dele ecoa na cozinha com som gutural sobre-humano.

Convergência, pt. 3

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Pernas queimam, musculatura endurecida e tornozelos fracos. Thiago se esgueira entre centauros e trolls, salta e foge de projéteis mágicos dos elfos, corre de outra mula sem cabeça e de diabretes. A ponta do calçado raspada de tanto tropeçar no grande morro da entrada do Jardim Pereira. Pedras minúsculas grudam na pele, arranham nas feridas feitas nas quedas e pelas garras das harpias.

Não é o protagonista do confronto, as criaturas brigam entre si. Entre xingamentos e fogo cruzado, Thiago ouve gritos de acusações entre eles: bruxas contra harpias, lobisomens contra oni, outros yokais contra ninfas. Só os elfos não acusam, se defendem de todos, alegam da Convergência acontecer para combater um perigo maior, impedir o crepúsculo definitivo. O humano quer apenas evitar o próprio fim e o da sua família.

Alcança o topo, infla o peito e tosse o carbono do corpo, fôlego exige retomar a respiração depois do trabalho intenso nas pernas.

Casas à esquerda destruídas, sangue tinge os quintais de várias, uma com braço humano largado na  batente da porta, sem o resto do corpo e dois dedos a menos. À direita a área florestal protegida pela Secretaria do Meio Ambiente, mas não da Convergência. Corpos de cachorros e gatos saem da terra, enterrados pelos vizinhos. Peles rasgadas, olhos comidos por bactérias, ossos expostos e dentes podres, línguas comidas pela metade; assim voltam à vida. Dois homens e uma mulher também se levantam abaixo da terra, Mairiporã sempre teve bons locais para desovar corpos.

Cinco árvores despencam junto com a caçamba na rua. Os cascos da criatura explodem o som agudo ao cair no metal da caçamba. Pelos longos e afiados por todo o corpo, cabeça estreita em contraste com o corpo largo, gordo, e alto. Thiago tampa os ouvidos contra o grito gutural do monstro, um som que sai na altura do estômago. Confuso, descobre o porquê quando a criatura vira o corpo e olha ao redor: seu único olho ocupa quase toda a parte da cabeça, e a gigante boca fica na barriga. É o mapinguari.

Mapinguari - Convergência

Hora de correr pela mata. Thiago tropeça entre galhos caídos na terra, interrompe a queda porque bate no tronco do coqueiro de pé a frente. Respira, retoma o fôlego. Observa o mapinguari andando na rua, a baba escorre pela boca na barriga e encharca coxas, pernas, cascos e chão, o odor da saliva parece rasgar o nariz de tão azedo. Os mortos-vivos correm floresta adentro, um dos cachorros tropeça em outro galho, a pata direita desgruda do corpo com o impacto, ainda sobram três, e ele foge junto com os gatos e humanos. Fica somente Thiago, que perde o fôlego.

Confia nas pernas dormentes e anda entre os troncos. Evita pisar em galhos, sem tropeçar nas madeiras nem chutar a cobra-coral. Como esse bicho ainda está lá, parado, em meio a todo esse caos? Contorna o réptil enquanto encara o monstro brasileiro.

Luzes verdes pairam sobre a cabeça de Thiago, depois vem outras de cor violeta, rosa, amarela; não são vaga-lumes. Abana os braços, assopra, sussurra “sai daqui”, e elas desobedecem, batem as asas na frente dele, encara com os olhos iluminados, e começam a se segurar em Thiago. Camisa, calça, antebraços, puxam seu cabelo, outras entram nas botas, uma de brilho violeta segura na orelha e sussurra:

— Ajude-nos!

Fadas - Convergência

As outras fadas repetem o pedido e piscam, brilham com mais força, e fazem piscar o olho do mapinguari, que olha Thiago todo colorido.

— Agora ele nos viu, suas filhas da puta! — berra quando começa a correr.

O monstro persegue Thiago. Passos nada ágeis, mas as pernas compridas encurtam a distância entre o humano. Um dos dois cascos encontra a coral e esmaga o corpo quando pisa, a serpente reage, ergue a cabeça acima dos cascos e morde a perna do monstro. Mapinguari continua a andar, indiferente ao réptil que rasteja na direção contrária com a parte do meio do corpo amassada.

Ambos saem da mata, prestes a descer a rua da casa de Thiago. O monstro começa a sugar o ar com a sua boca, aspira com força e arranca algumas fadas do corpo de Thiago. Incapazes de se segurarem, elas caem no abismo daquela abertura do estômago. Desacelera o passo e fecha os lábios, mastiga as pequenas criaturas que explodem gritos de dor e horror abafados dentro da boca. Engole todas de uma vez.

Entre choros agudos, as fadas sobreviventes desprendem de Thiago e flutuam na altura do único olho monstruoso. Acendem o brilho intenso a ponto de ofuscar a visão do humano contra a luz do céu noturno e fazer o olho do mapinguari lacrimejar. Desequilibrado, o par de cascos batem entre si e fazem o joelho dobrar, a coluna do monstro se curvar, e a cabeça atingir o portão da casa ainda inteira da rua, de grade de barras enferrujadas e pontas com setas afiadas que furam o olho do monstro. O sangue escorre pelos ferros dentro do globo ocular, desce pela rua, e mapinguari não levanta.

— Conseguimos, conseguimos! — grita a fada ainda na orelha de Thiago.

— Obrigado. — Leva a mão à orelha e acaricia as costas da fada com o dedo indicador. Provoca risadas na menininha voadora, mas ela se segura mais forte nele.

— Estou cansada, quero descansar.

— Está bem, fada, descanse. Você merece.

— Meu nome é m’Ylleihon.

— Vou te chamar de fada mesmo.

As colegas de m’Ylleihon se dispersam de volta a área florestal, e Thiago alcança a rua Maria do Valle. Atravessa a casa da Priscila Mariana, telhado derrubado dentro de casa, vê o sofá partido em dois na janela trincada.

— Estou cansada — repete m’Ylleihon.

Thiago alcança o lar. A janela do quarto dos pais aberta, o portão do quintal fechado. Portões escancarados na casa da frente, o Uno do vizinho não está lá, tampouco o Gol de 96. Volta a encarar o portão da própria casa, sem cadeado, abre a trinca e corre pelo quintal com o Palio estacionado e intacto. Abre a porta da sala, a lanterna ligada sobre o sofá. Pega e confere o cômodo, a luz brilha na tela da televisão, nos quadros de fotos ao chão molhado, entra na cozinha de cadeiras espalhadas, torneira aberta e água encharcando o piso, porta do fundo aberta. Volta a iluminar a mesa e enxerga o pedaço de papel toalha no centro com rabiscos feitos a caneta.

“Thiago,

“Fugimos com o Moacyr e seu irmão até a Igreja de Terra Preta. Nós tentamos te ligar, mas ficamos sem internet e você sabe como o sinal daqui de casa é horrível. Fique com Deus, que Ele te dê força e proteja a Joana, e faça a gente se reencontrar depois deste pesadelo. Te cuida.”

— Péssimo momento ao falar de deus, mãe. — Thiago aperta o bilhete. — Fomos abandonados.

— Estou cansada.

— Eu já entendi, fada!

— Eu…

m’Ylleihon espirra. Em vez de catarro, espalha pó violeta que flutua, alcança o rosto de Thiago e invade o nariz. O cheiro doce de uva toma conta de sua atenção, o pó entra no organismo e relaxa a musculatura, inibe a dor de todo o corpo, tira a força e a consciência de Thiago. Ele cai no meio da cozinha, bate a nuca na quina da mesa sem resmungar, sem dor. Costas despencam contra o chão e ali permanece, de olhos fechados. A fada deita sobre o seu peito e dorme.

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