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Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

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Final Fantasy VII Remake (A nova versão do clássico)

Após tanto tempo de promessas, a espera acabou! Um dos jogos mais bem reconhecidos da franquia foi refeito, atualizado à tecnologia e jogabilidade, sem esquecer da reelaboração da narrativa, esta responsável por multiplicar as primeiras dez horas do jogo original em três ou até cinco vezes. A dedicação aos detalhes vai além da fisiologia dos personagens e da arquitetura da cidade, a história ganha mais espaço ao explorar as nuances de Midgard por mais tempo. Está na hora de conferir a nova versão de Final Fantasy VII, Remake feito pela Square Enix com a primeira parte lançada agora em 2020.

“O planeta sangra verde, como você e eu sangramos vermelho”

Midgard é a metrópole de recursos tecnológicos avançados graças às reservas de energia chamadas de mako. Construída em forma de círculo, possui dois pavimentos: o superior construído por plataformas conectadas e estendidas por toda a cidade, onde abriga os recursos avançados e as pessoas com melhores poder aquisitivo; já o nível inferior fica no solo da cidade, moradia de pessoas carentes cujo sol bloqueado pela plataforma superior é substituído por geradores de energia mako. Ambos os pavimentos são divididos em oito setores, cada um contendo usina de mako.

O grupo Avalanche repudia o uso de mako por razões ambientais, afinal a fonte desta energia é a própria vitalidade do planeta. A equipe deste grupo liderada por Barret decide invadir e destruir a usina do Setor 1, contando com a ajuda do mercenário Cloud Strife, ex-membro da SOLDIER, equipe de soldados aprimorados com mako treinados e desenvolvidos pela Shinra, a empresa que produz a energia, controla a cidade de Midgard, e possui ambições ameaçadoras a ponto de sacrificar a própria cidade ao satisfazê-las, e ainda assim perde a disputa do antagonismo principal — sim, aquele mesmo.

Grupo Avalanche - Final Fantasy VII Remake

Avalanche deixando sua marca em Midgard

“Eles querem fazer disso um espetáculo? Então bora dar um pra eles!”

Sem estender esta resenha nas repaginações visuais ― estas nostálgicas a recriar mesmo detalhes dos principais lugares do jogo original ―, vamos ao foco do blog e prosseguir na análise de enredo. A apresentação dos personagens de Avalanche e Cloud é feita em cenas consecutivas de ação, todas as falas são espontâneas e revelam comportamentos dos personagens. Batalhas travadas em posições e em turnos acabaram, o ambiente faz parte da jogabilidade, servindo de proteção contra ataques, levado em consideração na estratégia. Pode explorar pontos fracos ao mirar em determinadas partes dos adversários, algo nada sofisticado igual Horizon Zero Dawn, é apenas outro recurso a planejar ao longo da luta.

A comunidade do piso inferior

A comunidade do piso inferior

Após a apresentação, o Remake começa a mostrar a proposta de fazer o jogo inteiro focado em Midgard. De fato elaborar este lugar tão complexo em detalhes apenas a passar poucas horas na versão original foi um desperdício necessário ao suprir todo o conteúdo com a tecnologia vigente. Hoje há a possibilidade de os jogos estenderem o conteúdo por meio de expansões, dedicando maiores esforços na mesma ambientação, trabalho abusado pelos desenvolvedores desta primeira parte do jogo, para a alegria dos fãs. Entre os diálogos agora de fato falados, há muitas características acrescentadas em Midgard, novos personagens e conflitos a resolver. Wedge, Biggs e Jessie agora possuem os próprios arcos dentro da narrativa principal, tornando-os mais memoráveis por ter motivos ao jogador importar com eles.

“Pode crer. A gente já podia ter morrido umas mil vezes”

Ainda estamos falando em adaptar um trabalho antigo aos moldes atuais, e isso gera dilemas no tanto os produtores podem modificar e ainda manter a essência de Final Fantasy VII. Por exemplo: as caricaturas dos personagens foram o recurso usado a princípio a resumir comportamentos dos personagens em pequenos gestos, o que gerou a identidade deles, e portanto manteve na nova versão. Apesar de ser extravagante ver em projetos atuais, tem o apelo nostálgico capaz de prejudicar caso estivesse ausente. As cenas de ação beiram ao exagero, Cloud realiza acrobacias impossíveis enquanto empunha a espada do tamanho dele, e seus rivais fazem o mesmo e sequer suam. Esses exageros tornam as situações do jogo contraditórias, pois ao precisar disparar centenas de balas de Barret até enfim exterminar mesmo os adversários fracos, o mesmo não deveria temer quando alguém apenas aponta o revólver contra ele; isso sendo somente um exemplo dentre muitos.

Midgard - Final Fantasy VII Remake

Midgard: a cidade que nunca dorme

O jogo aproveitou a exploração de Midgard ao máximo durante a campanha principal, já as tarefas secundárias deixam a desejar pelo excesso de simplicidade. Nada além de ir a certo lugar e derrotar monstros, procurar determinada pessoa ou objeto, tem ainda alguns minigames capazes de variar um pouco. Já o que frustra mesmo na jogabilidade é o problema comum nas produções da Square Enix, bastante criticado na resenha de Kingdom Hearts 3, e apesar de ocorrer em situações pontuais nesta versão de Final Fantasy VII, deixa muito a desejar. Com lutas voltadas à ação, nem sempre deixa claro os movimentos dos inimigos, seja pela câmera mal enquadrada incapaz de mostrar o golpe sendo executado, ou pelo tempo de execução tornar inviável do personagem controlado pelo jogador conseguir reagir, por vezes mesmo tomando distância pelo comando de esquivar, ainda é atingido. Os golpes dos inimigos são capazes de interromper a ação dos personagens e prejudica, pune o jogador por algo sequer visto. É mais frequente na luta contra chefes, por elaborar combates mais criativos, porém prejudicados nesses problemas frustrantes nem sempre sob a culpa do jogador.

Final Fantasy VII Remake não substitui a versão original, e sim elabora uma nova criação a partir da ambientação já existida  — deixa tal proposta nítida em determinada etapa do jogo. Com elementos em comum, a jogabilidade é inovada, bem como o aprofundamento dos personagens melhor explorado por dedicar muitas horas em mostrar os respectivos dilemas de cada membro da Avalanche e dos protagonistas. Sem informar quantas partes serão lançadas, a Square Enix pode avaliar o retorno desta introdução da história, então moldar e aperfeiçoar a continuação, portanto seria bom melhorar o combate enquanto cria animações de brilhar os olhos.

“Todos conhecem a verdadeira natureza do mako, mas o povo ignora voluntariamente esse preço”

Final Fantasy VII Remake - capaProdutora: Square Enix
Lançamento: 2020
Série: Final Fantasy #7
Gêneros: aventura / fantasia / cyberpunk / RPG
Plataforma: PlayStation 4
Idioma: legenda em português

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Sangue Ancestral (Crônicas da Terra de Ashar #1)

A ilha Kalós abriga diferentes espécies humanoides, onde convivem em constante desarmonia. As capacidades próprias são tão distintas quanto aos comportamentos estereotipados e persistidos pelos representantes políticos ou militares. Possuem as normas a manter ordem dentro do reinado ou império, essas mesmas aproveitadas para causar desordem e discordância pelo bem maior. Bem maior de si, daquele em busca de poder, ignorante a qualquer necessidade de quem estiver alheio a ambição. O ambiente está montado a possibilitar traições, disputas pessoais, enfim, uma aventura ao herdeiro a ter capacidades extraordinárias e conflitos de vitória improvável.

Sangue Ancestral nos apresenta esta ilha e as adversidades políticas enquanto conta a jornada de Hiten. Publicado em 2019 pela Fabi Drago Gimenes através da Constelação Editorial, é o primeiro volume da saga Crônicas da Terra de Ashar.

“Não se saca uma espada se não estiver disposto a morrer”

Hiten é herdeiro real de Kanaair, um dos reinos das Terras de Ashar, região dominada pelos ellemënts. O pai Hyshura é rei deste reino e imperador de toda a região, cujo domínio tem respaldo pelo Conselho composto por doze anciãos. Hiten é híbrido, filho de ellemënt e humana, algo fora da tradição e capaz de prejudicá-lo no decorrer da jornada. Ele viveu até a juventude no reino dos humanos, alheio das complicações políticas na terra do pai, até receber o convite indireto do próprio imperador.

O reino dos humanos fica restrito ao reino Krajiny. De capacidades limitadas perante as demais espécies, são reconhecidos pelo trabalho em lavoura e do comércio, apesar de possuir também força militar própria. O relacionamento de Hyshura com uma humana deu certa diplomacia entre Krajiny e Hyshura, nada a ponto de garantir a confiança entre as diversas personalidades.

E Lokimar é o reino dos salandris, seres guerreiros e de atitudes brutais. Escravizam humanos e os usam nos rituais de sacrifício. Os membros da realeza podem possuir a marca de uma lua na testa e a habilidade de manipular o ferro. Vivem se opondo aos ellemënts, Hyshura até tenta estabelecer a paz entre os reinos os unindo através do casamento entre seu herdeiro Hiten e a princesa Helin, o evento do início deste livro que culmina em sucessivas tragédias.

“— Leve seus homens para casa, comandante. Aqui só há morte e arrependimento”

Os três reinos principais — mais os de dohma, aliados dos ellemënts — compartilham mais além da ilha onde vivem. Aceitam a existência dos mesmos deuses, apesar de cada lugar favorecer determinada entidade. Fora essas distinções, as espécies têm algo em comum: ambições perseguidas sob meios ardilosos na tentativa de  conquistá-las. Os personagens principais são apresentados desde as características físicas, realçando assim as diferenças entre as espécies, mas incomoda ver a recorrência de elogios sobre a beleza deles, com tantas pessoas descritas dessa mesma maneira, compromete a variedade e o interesse do leitor em vislumbrar determinado personagem. Seria melhor fazer a descrição de forma imparcial e deixar a beleza subjetiva aos personagens e ao próprio leitor.

A caracterização das qualidades sofre da mesma questão. Muitos personagens são banhados em elogios a ponto de enfraquecer a veridicidade dos conflitos, esses movidos a traições e conspirações de outros personagens. Assim perde a oportunidade de explorar as fraquezas particulares desses personagens ou até fazê-los se aprimorar a partir delas — ou descobrirem a falha tarde demais e sofrer a consequência. Mesmo tendo a quantidade de páginas regular para uma obra de fantasia, existem muitos conflitos desencadeados ao longo dos capítulos, poderiam ter maior impacto caso acontecessem a partir de quem sofre, pena a maioria vir de fatores externos porque os personagens carecem de defeitos a serem explorados. O protagonista até tem um defeito citado, porém por vezes foi contraditório quando outro personagem demonstrou esta mesma característica de forma mais intensa diante dele.

“— Meu dever é dar-lhes alegria e paz e, em vez disso, dou-lhes guerra e destruição”

Outra perda de força no conflito — sem dar spoilers — foi a acusação levada em consideração a partir de certa prova limitada à afirmação de uma testemunha. A aceitação da denúncia foi espontânea, nada convincente. Faltou elaborar melhor este conflito, trabalhar em segundas intenções dos avaliadores, alguma aliança obscura ou outra situação capaz de mostrar o motivo daquele julgamento da testemunha ser aceito em tão poucos parágrafos e culminar na crise presente no capítulo seguinte. Já outros momentos de tensão foram bem trabalhados, dentre eles o do protagonista perder uma disputa pela aparente desconfiança de outro personagem, quando o mesmo apresenta atitudes contraditórias frente ao que o leitor acompanha e os demais personagens não tiveram como perceber.

Sangue Ancestral traz o mundo original elaborado pela autora com caracterizações interessantes e úteis a construção das intrigas e viradas interessantes já neste primeiro volume. Poderia aproveitar muito mais do potencial da história se explorasse defeitos de personagens ao provocar os conflitos, e estes também precisam de maior desenvolvimento, serem menos abruptos e constituídos de mais argumentos favoráveis à sua existência.

“A ira apenas nos torna vulneráveis e propensos ao erro”

Sangue Ancestral - capaAutora: Fabi Drago Gimenes
Ano de Publicação/Edição: 2019
Editora: Constelação Editorial
Série: Crônicas da Terra de Ashar #1
Quantidade de Páginas: 230

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Thronebreaker: The Witcher Tales

A nação próxima vê os reinos ao norte expostos a fraquezas e consideram a oportunidade de tomá-los como garantia certa. Os reis adversários combatem e sucumbem aos exércitos melhores equipados, de maior quantidade e excelência estratégica. A opção de desistir e ceder as cidades ao império de Nilfgaard soa como a única saída, exceto a Meve. Rainha dos reinos de Lyria e Rívia, ela desconhece o significado de desistir e motiva os seguidores a lutar pela liberdade do povo.

Thronebreaker: The Witcher Tales conta a história de Meve enquanto sobrevive na dominação certa do exército de Nilfgaard sobre os reinos do norte. Lançado em 2018 pela CD Projekt Red, o jogo de estratégia baseado em cartas simula as batalhas do exército da protagonista contra os mais diversos grupos de inimigos da saga The Witcher.

Documentos foram assinados. Papéis… O tempo dirá seu valor.”

Meve retorna a Lyria após uma expedição e encontra adversidades no reino sob o governo de Villem, seu único filho, durante a ausência. A ameaça de Nilfgaard encobre os reinos do norte com a sombra feita pelas armaduras de sol negro — o símbolo do império —, bem como delitos causados por infratores liderados pelo ser conhecido por muitos nomes, entre eles o Duque dos Cães.

Rívia - Thronebreaker: The Witcher

O caminho reserva oportunidades a Meve interagir com o próprio povo, livrá-los de perigos de tropas inimigas ou mesmo de monstros — tarefa mais adequada a Bruxos, mas a Rainha os enfrenta em favor de proteger interesses ao longo da jornada. Enfrenta decisões de como intervir nas demais necessidades do povo, acende velas aos santuários de Melitele e com isso inspira a fé e eleva o moral da tropa. Ao enfim chegar na capital de Lyria, Meve é surpreendida por golpes baixos de quem menos esperava, tudo por conta pelo medo da ameaça Nilfgaardiana, a qual ela jamais aceitará entregar seu reino, independente do custo.

OH, eu tenho coração… Mas eu prefiro usar minha cabeça”

O jogador controla Meve pelo mapa e pode interagir com diversos pontos de interesse, seja coleta de recursos — ouro, materiais ou novos integrantes da tropa — atender pedidos locais em troca de recompensas ou encarar batalhas além das previstas nos pontos principais do mapa. O combate é feito a partir de cartas, essas representantes dos membros disponíveis da tropa de Meve contra os seres adversários. Cada membro tem a sua especialidade e são escolhidos conforme a estratégia do jogador, ganha quem no fim da rodada tiver o maior poder somado por todas as cartas de tropa dispostas no campo. Certas condições apresentadas no contexto de determinada batalha interferem no duelo de cartas, surgem novas forças militares no meio do combate ou mudam a habilidade de determinado personagem em campo por estar focado a cumprir o objetivo específico daquele combate.

O "Campo de Batalha" - Thronebreaker: The Witcher Tales

Outro fator muito importante neste jogo é a tomada de decisões. Meve sofre testes constantes de sua liderança, enxerga as opções a qual o jogador deve escolher e então descobrir as consequências. A ambientação do jogo é realista, a guerra ameaça a todos em várias nuances, e a Rainha só conseguirá favorecer certa parte do reino enquanto todos julgam as decisões. O exército pode perder o moral e chegar ao próximo conflito com menos afinco — portanto menos força —, pode atrair novos aliados ou espantar certos seguidores, as mãos de Meve ficarão sujas pela culpa de certas mortes causadas pelas escolhas; inexiste a alternativa perfeita, muitas vezes existem somente as consequências ruins, e cabe decidir qual parte do exército de Meve sairá prejudicada.

Prefiro atos em vez de palavras”

A história de Thronebreaker acontece antes da trilogia de jogos The Witcher, e é baseada na saga de livros. Meve encontra outros personagens disponíveis nos livros ao longo da jornada, reconhecidos apenas por quem leu, apesar de o jogo apresentar o contexto de cada um através dos diálogos disponíveis. Ótima forma de homenagear a obra original e ainda somá-la aos recursos de jogo.

Mahakam - Thronebreaker: The Witcher Tales

Ainda quanto a história, toda ela é contada por certo personagem apresentado na cena de abertura do jogo, nominado apenas de Contador de Histórias. O contador narra todas as cenas do jogo conforme a transcrição surge na tela e cede espaço à fala dos demais personagens presentes no jogo quando ocorre diálogos. Esta mecânica faz uso de recursos literários, embora adaptados à mecânica do jogo. A narrativa é breve, por vezes resumida em adjetivos, pois apenas mostra a situação perante o combate vindouro ou o contexto do qual é preciso decidir dentre as alternativas. Por mais elaborados que os adjetivos e as situações sejam, as limitações de narrativa — como meio de anteceder a fase do jogo — forçam a repetição na forma de contar a história.

Thronebreaker: The Witcher Tales preenche o espaço vazio deixado pela ressaca após jogar The Witcher: Wild Hunt graças a inúmeras homenagens do universo ficcional e a oportunidade de continuar neste ambiente com novos sistemas de jogabilidade.

Como não desejam falar, ficarão em silêncio para sempre. Preparem uma corda!”

For Honor (Literalmente em Games)

Batalhas e guerras eram eventos comuns na Idade Média, proteger o lar através da morte ao oponente fazia parte da cultura, almejada por quem tivesse condições de servir sob armadura e lâmina empunhada. Acontecia a mais de um lugar, no continente europeu e nas ilhas nórdicas, a Ásia também fez história com sangue derramado. Por mais violenta seja a atualidade, chega longe da brutalidade de nossos antepassados, cujos costumes mortais são deleites a nós, representados nas mais variadas formas de entretenimento, tal como neste que traz três povos distintos ao mesmo ambiente, o de guerra constante

For Honor traz cavaleiros, samurais e vikings num mundo onde a paz soa absurda. Lançado em 2018 pela Ubisoft, o jogo é focado em jogabilidades multiplayer, mas com campanha principal onde conta a história desses conflitos, esta analisada na resenha.

“Espadas que se cruzam revela o caminho do coração”

Ninguém soube explicar o motivo das terras se transformarem e levar os guerreiros a outro local, coexistente com outros povos, vítimas da mesma situação. Disputas pelos recursos do novo mundo atiçam os guerreiros a lutar, e lutar, e lutar… Ambiente muda ao redor, e os guerreiros continuam a eterna batalha. Eles ficam esgotados e desejam a paz, mas Apollyon lembra a natureza de todos, sempre haverá guerra entre eles.

For Honor - Apollyon

A campanha é composta de três capítulos, cada um conta a história das facções: começa pelos cavaleiros, continua nos vikings e conclui na saga dos samurai. Os capítulos focam na classe guerreira mais básica da equipe, com gênero determinado pelo jogador e nome inexistente, algumas missões oferecem a oportunidade de conhecer as outras classes do reino, estas com personagens com nome, personalidade e objetivos definidos no enredo existente entre as dezoito batalhas da campanha.

“Os símbolos deles são o troféu de quem matei”

Os conflitos dos três tipos de guerreiros remetem a personagem principal, a antagonista Apollyon, líder da Legião Pedra Negra, grupo dos cavaleiros. Marcada como a responsável de a guerra persistir por todos, ela de fato provoca conflitos até entre as pessoas do mesmo reino, desenvolve seus argumentos ao longo da trama, o de expor a real natureza de todos. Dentre os personagens feitos para a campanha, Apollyon se destaca de qualquer outro por apresentar a visão condizente ao enredo presente no jogo. A vilã é realista.

As batalhas da campanha tentam traçar objetivos alinhados ao problema naquele momento do enredo enquanto coordena o jogador ao próximo ponto de destino. Nada de extraordinário nem verdadeiro. O jogador pode perder tempo explorando o cenário na maior parte do tempo sem ter consequências aos aliados, a exploração é até incentivada por ter pontos de observação em que garantem uma descrição do mundo a partir do objeto vislumbrado.

For Honor - cenário

Estratégias de guerra ficam confusas pelo comportamento dos personagens não jogáveis, sejam aliados ou inimigos. Por vezes muitos companheiros ficam parados quando prestes a morrer. Os inimigos param de perseguir o jogador em fuga mesmo quando há apenas ele no território, sequer lançam projéteis, e morrem quando o personagem volta todo recuperado. Sem falar nas várias ocasiões quando os aliados miram nos inimigos e acertam o próprio jogador.

“Mas seria uma história e tanto”

Duelos sucedem no campo de batalha, o verdadeiro foco da jogabilidade de For Honor, e este sim caprichado. Com sistema original, os guerreiros ficam de guarda em busca de brechas dos oponentes. Há peso nos movimentos, pelos aços que carregam no braço e nas armaduras, e os deixam vulneráveis a ataques na tentativa de acertar o adversário. As classes possuem formas distintas de atacar e defender, conhecer cada diferença melhora a jogar com a classe favorita, bem como ajuda a formar estratégias de como lidar contra determinado inimigo.

Os guerreiros vivem pela guerra em For Honor. A campanha principal introduz o jogo focado em multiplayer, ensinar a jogar contra bots de diferentes níveis, e apresenta o mundo criado pela Ubisoft através da visão de Apollyon.


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O Senhor do Vento (Gabriel Réquiem — Tennyson)

Quanto mais histórias brasileiras eu descubro, mais vejo o quanto os trabalhos feitos por brasileiros são injustiçados. É muito legal descobrir os mitos e culturas internacionais, aproximar-se de pessoas estrangeiras por meio dos laços feitos entre leitor e personagens e acompanhar dilemas éticos distintos dos nossos. Só que também temos as nossas histórias, conhecemos a linguagem e comportamento do nosso país e nos identificamos, talvez não ao todo pela vastidão da cultura brasileira, ainda assim reconhecemos o modo de falar, local, período histórico, ou lenda retratada. O conto de hoje traz a identificação de todos esses pontos.

Gabriel Tennyson adaptou as criaturas nacionais e de fora vivendo nas ruas de Rio de Janeiro em Deuses Caídos. Em 2014 ele era Gabriel Réquiem e publicou o conto O Senhor do Vento na antologia Contos do Dragão pela editora Draco, disponível também em compra avulsa.

“Tão intimamente ligado à natureza quanto um bebê ao cordão umbilical”

É fim do século XIX. Zezinho está na casa da avó com sua prima e passa o dia como o outro qualquer: enche a barriga das guloseimas feitas com carinho pela avó Benta e implica com a prima sobre problemas irrelevantes. Era proibido vasculhar os objetos antigos da avó, pois tinha artefatos tenebrosos de toda a família de Zezinho. Garoto teimoso como ele era, entrou no “quartinho proibido” e ali descobriu um cachimbo esquisito e um documento antigo: o diário do tio Sinésio Monteiro contando sobre o tempo quando serviu como capitão na guerra contra o Paraguai.

Deste ponto em diante o conto narra como aconteceu a aventura de Sinésio correspondente ao diário. O capitão liderava seu grupo contra o embate dos paraguaios, sempre alertas quanto a surpresas do inimigo. Só não conseguiram imaginar o encontro deles com os Senhores do Vento, criaturas sobrenaturais mais aterrorizantes do que qualquer inimigo estrangeiro. O conto termina voltando ao garoto depois de ler o relato do tio, e então resume a vida de Zezinho depois de conhecer tal história.

“— Num vali nem a pena matá um covarde que nem tu”

O conto respira a brasilidade desde a introdução feita na aventura de Zezinho. A birra entre ele e a irmã são recheadas de frases bem humoradas e características da nossa linguagem, bem como o comportamento da avó com os netos, tudo reconhecível aos leitores com infância simples ou que ouviram falar de como era na infância dos pais, pois apesar do conto retratar algo de mais de um século atrás, ainda retrata muitos aspectos comuns à família no Brasil. A história de Sinésio mantém a correspondência brasileira, toma o período histórico como o fundo da aparição da criatura clássica em nosso folclore. Também reforça a cultura através dos diálogos, representando a fala distinta de cada soldado do grupo de Sinésio conforme a origem deles, seja indígena ou com aparência alemã, todos a serviço da nação brasileira.

Sinésio fica a mercê do medo ao encontrar os Senhores do Vento. Os soldados estavam preparados e treinados no combate contra humanos com portes e recursos semelhantes, como poderiam imaginar as capacidades sobrenaturais daqueles seres? O terror toma conta quando a consequência é real na batalha extraordinária. Por outro lado faltou desenvolver a tensão na cena de Zezinho enquanto mexe nos objetos antigos da família, pois o suspense nesta parte foi trabalhado por dizer o quão medroso fica o garoto a cada evento estranho enquanto ele anda no lugar proibido. A cena ficaria melhor se demonstrasse o rosto ou os gestos desesperados de Zezinho frente ao medo citado.

O Senhor do Vento foi publicado antes de Gabriel Tennyson estrear como romancista na Suma de Letras. Já podemos conhecer uma das criaturas presente em Deuses Caídos neste conto e descobrir a competência do autor em entregar boas histórias e caracterizadas com elementos bem conhecidos no Brasil.

“Esperando que a careta tivesse a habilidade sobrenatural de extinguir o barulho”

O Senhor do Vento - capa

Ficha Técnica de O Senhor do Vento

Autor: Gabriel Réquiem (hoje Gabriel Tennyson)
Editora: Draco
Ano da Publicação: 2014
Número de Páginas: 22
Disponível também em: Antologia Contos do Dragão

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A Dança dos Mortos (Crônicas da Aurora, vol 2)

Continuo a falar sobre morte, afinal a amostra anterior foi pequena.

A história progride por meio das tragédias. Reis caem, reinos entram em perigo, o mundo pode colapsar e dar espaço a outro. O destino é incerto, Deuses manifestam suas apostas sem garantir o vencedor. A guerra traz perda a todos, os vencedores apenas ganham a oportunidade de testemunhar mais tragédias que os perdedores. Quando acabará? Nunca! No máximo conquista momentos de paz, até a história decidir a progredir outra vez…

A Dança dos Mortos continua a história dos três países de Dünya apresentada em A Face dos Deuses. Publicado em 2018, demonstra as tentativas dos líderes de cada país a favorecer o seu lar e a ambição nem sempre transparente. 

A Dança dos Mortos - capa

Gleyzer Wendrew traz a continuação desta saga sombria com elementos fantásticos. Violência, política e podridão lapidam a imagem de seus textos. Trabalha na Hydra Produções Editoriais e atua como co-host no podcast LeituraCast de Autores para Autores.

Traiu nosso povo, nossa cultura, nossa história… Traiu nosso Deus!  

Personagens têm poucas oportunidades de lamentar da Grande Guerra acontecida no passado entre os três países de Dünya, pois o conflito a seguir promete ser ainda maior. Os reinos sofrerão mudanças das conspirações iniciadas no primeiro volume de As Crônicas da Aurora: uma seita demonstrará certo potencial contra Vatria, guerra interna promete colocar Maäen nos eixos, e Venn enfrentará ameaças externas.

O menor dos três países enfrentará outro povo, os tribais estrangeiros reunidos sob comando de Azrael, um vatriano renegado e convicto em ser capaz de subjugar Venn e coletar os recursos do país. Mais que isso, os tribais contribuem na revelação do passado de Dünya, esse desconhecido pelos registros disponíveis nos três países. 

Limpou o rosto com a mão suja de alívio  

A Dança dos Mortos compensa o vazio sentido ao acabar de ler A Face dos Deuses. Com quinhentas páginas, tem espaço o suficiente em conhecer as diversas faces dos locais e dos vários personagens, alguns inéditos neste segundo volume. Facilita inclusive a entender os diversos aspectos deste mundo, pois já tem informações prévias do livro anterior, além da mão sutil do escritor levando o leitor aos diversos pontos com mais calma, as centenas de páginas dão tempo o suficiente para apresentar as características de Dünya enquanto a história progride com as mortes.

Nada deixa a desejar. Os capítulos continuam com a mudança de foco entre personagens, todos com oportunidades de apresentar seu ponto de vista e ambição. Difícil torcer para alguém, as revelações de caráter são constantes e ainda escondem surpresas posteriores, algumas levantadas lá n’A Face dos Deuses.

Toda esta complexidade beneficia outra característica incrível do livro: é imprevisível. Difícil prever quem a morte alcançará nos vários conflitos ou nas péssimas condições oferecidas por este mundo. O leitor pode fazer apostas, bem como os Deuses; mas o resultado real só é visto na hora. 

Os desfechos em A Dança dos Mortos são aceitáveis e prometem mais surpresas no terceiro volume. Guerras, violências e reviravoltas estão garantidas caso mantenha a mesma qualidade desta obra.

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Resenha do primeiro volume d’As Crônicas da Aurora (A Face dos Deuses)

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A Amiga Genial (Vol. 1 da Série Napolitana)

Eu não devo explicações sobre os livros escolhidos por mim, no entanto acredito valer a pena explicar este caso. Por que eu, um homem e aspirante a escritor de aventura fantástica, decidiria ler este romance feminino sobre a amizade de duas amigas? 

Quanto mais se consome literatura, mais estarei preparado a desenvolver minha escrita. Além dos livros do gênero que pretendo trabalhar, outras obras ímpares ajudam com desenvolvimentos específicos, técnicas de escrita, ou ter uma visão mais ampla na hora de compor seu próprio personagem. Um livro feminino me ajuda a entender e usar como referência quando eu elaborar minhas personagens mulheres. E o livro deste post me ajudou além disso. 

A Amiga Genial trata da amizade de Elena Greco e Raffaella Cerullo. Publicado em 2011, é o primeiro romance de uma série de quatro livros. 

A Amiga Genial - capa

Elena Ferrante é o pseudônimo da autora. Ela prefere não ser identificada, pois acredita haver interferência na recepção de seus livros se correspondessem à pessoa quem escreveu. 

Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam 

Após algumas discussões com o filho de Lila (Rafaella) sobre o desaparecimento de sua mãe, Elena decide escrever a sua história com esta amiga, narrando desde a sua infância, quando a conheceu na década de 1950. 

A família de Raffaella se muda para o bairro onde Elena mora, em Nápoles. A nova garota chama a atenção de todos pela teimosia, mas também demonstra outros talentos na escola. Sua performance supera a de Elena (conforme a narradora sempre afirma), que era a melhor aluna da turma. 

O livro conta até a adolescência das amigas. Acompanhamos o crescimento dos demais personagens, a maioria de idade próxima, além de conhecermos um pouco de cada família. A rotina dos personagens sofre influência da época da história, da Itália após a segunda guerra mundial. Além da intolerância aos comunistas, o comércio se modifica com o avanço das fábricas e o trabalho artesanal deixa de suprir a demanda vigente. 

Os sonhos da cabeça foram parar debaixo dos pés  

A princípio presumi Lila como a protagonista da história, e Elena faria o papel de narradora, tal como o Dr. Watson em Sherlock Holmes. Esta impressão se dá por Elena sempre se comparar a amiga, e toma decisões a partir do que pensa dela. Esta preocupação leva a atitudes preocupantes a Lila, pois deixa de reconhecer Elena. 

De leitura fácil e agradável, o livro contém capítulos nada longos. Difícil se perder nos acontecimentos retomados com frequência, embora não diga o mesmo aos personagens. A quantidade desses dificulta lembrar de todos, exceto os constantes na história. 

Sem se incomodar com a intimidade, Elena conta das ações e pensamentos ousados nas cenas presentes. Revela o ponto de vista sincero e sujo sobre as relações íntimas, normalmente vistas de forma positiva. 

A Amiga Genial é um exercício de empatia aos leitores masculinos com sua história focada nas duas amigas próximas que Greco tanto revela em detalhes pessoais e íntimos. 

A Fúria dos Reis

Um reino está instável, repleto de conspirações entre pessoas que mesclam sua servidão aos interesses próprios, além de disputas externas para tomar o trono real. A população sofre, indiferente aos fidalgos com interesses nada altruístas. Cada ação, pensamento ou erro traz as suas consequências, mas mesmo quem joga as regras do jogo — sem regras, na prática — paga a derrota com a própria vida. 

Surge uma oportunidade de se tornar o novo rei, ou governar apenas a região pertencente à sua família. Além da competência, a conquista dependerá de muitos fatores históricos e políticos. Exigem mais do que uma pessoa consegue assimilar. 

A Fúria do Reis é o segundo volume d’As Crônicas de Gelo e Fogo, saga de livros famosa também pelo seriado Game of Thrones. Publicado pela primeira vez em 1998, este volume prossegue a saga iniciada na Guerra dos Tronos, quando os lordes de vários reinos se proclamam reis e disputam uma guerra a Westeros, cada um com suas ambições. 

A Fúria dos Reis - capa

George R. R. Martin é o escritor famoso reconhecido graças a esta mesma saga. Jornalista, fã de quadrinhos e responsável por criar um mundo imenso com muita história para contar. 

Nos dias que correm todo tipo de gente se intitula rei 

A história começa com o cometa vermelho atravessando o céu sobre os reinos de Westeros até as cidades livres. Cada reino faz sua interpretação do evento, assumindo como um presságio favorável às suas ambições. Esta presunção alimenta o desejo já incitado com o domínio de Westeros instável, graças aos acontecimentos do volume anterior e pelas conspirações constantes de quem deseja tomar o poder ou se beneficiar. 

Entre tentativas impossíveis e resultados improváveis, a situação foge da concepção, e os diversos personagens precisam se adaptar rápido, cientes da falta de garantia de sobrevivência frente às mortes súbitas. 

Aço das espadas não matam ninguém, e sim as pessoas que empunham, essas embriagadas pelas obsessões nem sempre correspondentes à sua realidade. Longe de ser um mundo justo, as ações de cada personagem ainda trazem consequências. 

Eis uma história boa para fazer os homens chorar 

Acompanhamos a história através dos pontos de vistas de alguns personagens, cada capítulo focando em um. Nem sempre tal personagem é o protagonista do episódio, ele apenas colabora com o andamento da história como testemunha dos acontecimentos dos demais. 

Mesmo se reagir aos problemas, a situação nunca estará sob seu controle.  Leva a medidas desesperadas, e pouco importam seus motivos, não há recompensa aos bons atos, mas reveses que prejudicam quem menos espera. 

Sem personagens bons ou maus, todos retratam a busca de suas ambições reforçadas pelo ego. Beira ao inacreditável a quantidade de personagens, e mesmo assim todos eles parecerem reais. Ninguém é coadjuvante, todos têm a própria história dentro da saga de Westeros e nas Cidades Livres, é evidente mesmo quando lemos apenas no ponto de vista de alguém em específico. 

As descrições mostram o mundo de Westeros conforme contam a história e dita seu ritmo, porém há parágrafos que poderiam ser polidos. Algumas breves explicações e definições poderiam ser descartadas e colaborar com uma leitura mais dinâmica, pois já estavam implícitas. Refiro só a essas frases breves, e ao considerar o calhamaço deste volume, já seria o suficiente para suavizar a longa leitura. 

Aprecie centenas de páginas com uma fantasia repleta de conflitos políticos e individuais, cujo protagonismo inexiste e favorece a ninguém. Descubra uma das batalhas mais memoráveis entre exércitos ou reveja em palavras as cenas mais marcantes da série de TV, sem falar das outras exclusivas do livro livre de limites de orçamento ou elenco. A Fúria dos Reis alinhou diversas histórias à trama complexa, esta que continua em A Tormenta de Espadas. 

A Ascensão do Alfa (Crônicas de Lua Cheia, vol. 2)

O mito do lobisomem é conhecido por todos os continentes do nosso planeta. Há diversas versões sobre a aparência física, comportamento e origens, como a partir de pecados, ausência de batismo, ou através de doenças como porfiria. 

Não faltam referências sobre a fera cujo aspecto causa uma dualidade entre o comportamento humano e racional com a contraparte bestial e impulsiva. O que realmente necessita é de livros capazes de trazer essas referências para a ficção com pano de fundo histórico e realista, melhor ainda quando o faz em terras brasileiras. 

A Ascensão do Alfa cumpre a necessidade citada no parágrafo anterior. Publicado em 2016, trata a história do jovem Sétimo de Carvalho quando passa a enfrentar uma pequena alcateia de lobisomens durante a Guerra dos Farrapos. 

Ascensão do Alfa - capa

Clecius Alexandre Duran é procurador do estado do Paraná e descobriu a vocação na escrita enquanto pesquisava sobre lobisomens. Sua esposa o incentiva com a arte da escrita, e é responsável pela publicação deste livro e da provável continuação desta antologia conhecida como As Crônicas de Lua Cheia, hoje com dois livros lançados. 

Clecius também trabalha — neste momento da postagem — como editor da edição física do livro O Brakki de André Regal. Se ainda não conhece este trabalho, clique aqui e veja a análise do livro digital de André.

Os guerreiros acreditam estar do lado certo da disputa

Sétimo de Carvalho tem mais seis irmãos, todos perdidos na Revolução Farroupilha. Não querendo se acovardar, segue com seu pai numa expedição de tropeiros. Sua determinação supera a falta de experiência, mas o coloca no caminho de vagantes cujos eventos superiores travam o conflito da tropa com a pequena alcateia de lobisomens. 

A alcateia é composta apenas por quatro criaturas. Tchevolku é o alfa vigente, mas a idade o exige escolher o novo líder do bando, tarefa que gera conflitos internos entre os lobisomens. 

A trama ainda aproveita o momento histórico da região com a Guerra dos Farrapos, onde farroupilhas e caramurus têm a infelicidade de encontrar as criaturas. 

Como se não bastasse, há a Ordem dos Cavaleiros de Judas, organização antiga de caçadores de lobisomens. Tanto a organização como as criaturas não desejam tornar a público a existência das bestas, pois quando os humanos se encontram com lobisomens, o perigo para ambos os lados é eminente, além da carnificina garantida.

Acho que vosmecê confunde carência de escrúpulos com coragem

Acompanhamos principalmente a trajetória de Sétimo e o conflito sobre a ascensão do alfa na alcateia de Tchevolku. As duas linhas narrativas se cruzam e formam uma consequência das escolhas envolvidas por esses personagens. 

Livre de escrúpulos nas cenas de batalha, o autor não poupa nas descrições viscerais dos ataques lupinos, reduzindo os humanos a mais uma fonte de alimentação das criaturas. As referências coletadas por Clecius abrange também as limitações das feras, elemento aproveitado pelo alfa em suas estratégias de sobrevivência com o grupo, mas nem sempre respeitadas na alcateia. 

Adorei vislumbrar o regionalismo do lugar e época da história. A escrita das falas reflete no sotaque de forma realista, e as palavras espanholas mesclam as frases dos personagens próximos dos países latinos vizinhos. Diversas notas de rodapé complementam a história com explicações dos acontecimentos reais durante o trecho daquela narrativa. Ascensão do Alfa não conta apenas uma história, mas divulga nas entrelinhas traços do passado nacional nem sempre acessível nas aulas de história no colégio. 

Houve uma falha do regionalismo quanto ao próprio lobisomem. A fraqueza mortal abordada no romance não é característica dos lobisomens do folclore brasileiro. Nos mitos conterrâneos também se diz sobre essas criaturas terem aspectos de cachorro, porco, touro ou cavalo. Não é “errado” inspirar-se nas mais diversas mitologias do lobisomem, só considero o quanto contribuiria com as lendas nacionais nem sempre valorizadas. 

Não tenha medo de se maravilhar com esta obra nacional muito bem escrita e trabalhada. Fiquei com vontade de vislumbrar o primeiro livro desta antologia a qual Clecius dedica e se diverte. Vale a pena conferir!

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