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Adágio (HQ Brasileira de Ficção Científica)

A tecnologia traz consigo novos meios de entretenimento, inspira outras maneiras de as pessoas interagiram entre si. Isso acontece desde os avanços da internet, com avatares representando a pessoa nos perfis sociais. Começou por meio de textos, logo evoluiu a postagens mais elaboradas e com imagens, vídeos e transmissões ao vivo de palestras ou jogatinas, e na realidade proposta da vez transmite até o sonho da pessoa! Sem mais custos de produção ou efeitos especiais, os usuários apenas assistem as imagens criadas durante o sono de alguém. Curte, comenta e compartilha as melhores transmissões, e assim torna o sonho público, vira entretenimento, causa obsessão em ter mais seguidores, ser mais famoso, alcançar o topo do ranking; pouco importa as consequências, as amizades e saúde perdidas. Ainda bem que estou falando de ficção, não é verdade?

Adágio é uma HQ futurista onde existe essa rede social baseada no streaming de sonhos. Publicado em 2018 pela editora Avec sob o roteiro de Felipe Cagno, ilustrado por Sara Prado e Brão e colorido pela Natália Marques, a história extrapola os males já conhecidos pela interação cibernética na vida real nesta história onde transmitem os sonhos pela internet.

“Você sonha, a gente compartilha”

Kaya é amiga de Penelope, as duas estudam na mesma faculdade. Pen trabalha como estagiária na divulgação de patches — pacotes — de sonhos os quais os usuários podem baixar e vivenciar o ambiente produzido naquele sonho e então compartilhá-los na rede social Adágio. Kaya inveja a amiga por viver tais sonhos e com isso ter popularidade, enquanto ela nunca consegue ter sonhos lúcidos, apenas pesadelos.

Ao frequentar uma festa com os demais colegas, Kaya é apresentada ao pó-de-fada, droga que potencializa o sono ao manter o cérebro do usuário ativo. Ela experimenta e vivencia os pesadelos como nunca antes. Resultado: a transmissão deste sonho atrai grande público da internet e torna Kaya famosa da noite para o dia. Feliz com a conquista, tentará permanecer em destaque na rede Adágio, e com isso trará consequências.

“Contar o sonho não é a mesma coisa que mostrá-lo”

A HQ apresenta a situação dos relacionamentos de Kaya e as mudanças nesses conforme a popularidade de seus pesadelos. Vemos alguns aspectos futuristas à parte, como as roupas distintas dos jovens, bem como conceitos de carros e moradias próprias daquela realidade; tudo sendo pano de fundo ao contexto principal: a interação na rede social. Conflitos pessoais acontecem pela falta de privacidade, considera o contato bloqueado na rede social uma ofensa, enxerga o anonimato como fracasso e ficam cegos quanto as consequências de permanecer em destaque nas condições impostas, pois tudo é espontâneo.

A arte produzida em aquarela realça os traços futuristas e aproveita os sonhos e pesadelos dispostos na HQ para representar elementos próprios da fantasia e terror. As combinações diferentes de cores ilustram as diversas sensações da protagonista no decorrer da HQ. Falha um pouco no quesito terror, pois enquanto os quadros demonstram o medo no olhar da protagonista, provoca nenhum sentimento semelhante ao leitor, apenas passa a informação do transtorno de Kaya.

Adágio discute problemas atuais através da interação digital nesta realidade onde nem os sonhos escapam da privacidade. Esta novidade atrai os jovens obcecados por diversão e sensações inéditas, enquanto levam outros a fazer de tudo para proporcionar tal experiência aos seguidores e assim conquistar a fama quando há questões relevantes próximas a eles, no mundo real.

“Sonhos são tão íntimos, pessoais, reveladores. Você postaria o seu sonho online? Teria coragem?”

Adágio - capaRoteiro: Felipe Cagno
Desenho: Sara Prado e Bräo
Cores: Natália Marques
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 112

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Mona Lisa Overdrive (Sprawl Vol. 3)

Alta tecnologia, baixa qualidade de vida. Voltamos ao universo cyberpunk rumo a conclusão da trilogia de forte influência nos primórdios do gênero. Histórias intercaladas envolvem delinquentes de diversos meios, bem como garotas que já vivem nas condições vigentes sem poder de escolha. A tecnologia evolui por trás do mistério envolto nos personagens principais, ocupados pelos perigos de pessoas ambiciosas no meio de tanta gente com faltas de oportunidade.

Mona Lisa Overdrive conclui a história envolta de Sprawl. Publicado em 1988 por William Gibsom com edição de 2017 pela Alpeh e traduzido por Carlos Irineu, o terceiro livro da trilogia seleciona personagens dos volumes anteriores e entrega a última história deste universo cyberpunk.

“Como se as linhas de neon da matrix esperassem por elas atrás de suas pálpebras”

O livro alterna capítulos com quatro pontos de vista diferentes, entre eles o de Kumiko Yanaka, filha do chefe da Yakuza. A garota vai até Londres, afastada das ameaças direcionadas ao pai. Carrega consigo um dispositivo avançado capaz de formular o holograma com traços humanos e visível apenas a ela, tudo simulado a partir da inteligência artificial, além de possuir inúmeras informações armazenadas no próprio sistema.

Slick dedica os dias a construir autômatos na fábrica de Gentry, um indivíduo curioso e alucinado pelas próprias suposições. Precisa pagar pelo favor devido no passado, por isso deve acomodar duas pessoas, um homem inconsciente conectado a eletrodos, e a técnica em medicina Cherry, responsável por cuidar do rapaz inconsciente, conhecido apenas pelo apelido de Conde.

Angie Mitchel está anos mais velha de quando a conhecemos em Count Zero. É a celebridade do momento por conta das transmissões amorosas entre ela e Robin por meio dos stims. Continua a ouvir as vozes dos loas — entidades da mitologia vodu presente no ciberespaço — e sofre uma tentativa de envenenamento. Se recompõe e pretende voltar ao trabalho, inconsciente de toda conspiração tramada contra ela.

E Mona é a jovem prostituta que recebe a oportunidade de trabalhar em algo diferente, porém com detalhes nem tão diferentes assim. Tem grande admiração pela Angie e é usada pelos conspiradores desta celebridade enquanto lembra dos ensinamentos da colega de serviço mais experiente, já falecida.

“Não podia entender por que alguém assistiria a um vídeo se havia um stim por perto”

Gibson traz mais além dos elementos e personagens dos volumes anteriores nesta última história de Sprawl. O desenvolvimento narrativo progride de forma semelhante, desta vem enfim com melhoras na escrita. As ações ficam mais claras, bem como quem as fez. Cada capítulo coordena os personagens relacionados a algum ponto da trama, ao contrário da confusão narrativa de Count Zero. E as descrições completam as cenas antes de continuar a história. Por manter as expectativas baixas após as decepções dos livros anteriores, este provou melhorias e amadurecimento de Gibson na escrita.

Longe de tal amadurecimento mantê-lo livre de falhas. O ritmo dos capítulos perde força com o uso de verbos fracos, abusados na hora de passar a informação ao leitor. Descreve como o personagem pensa e vê em vez de fazê-lo interagir com o mundo rico elaborado pelo autor. Cada transição de capítulo começa descrevendo os acontecimentos do personagem sem mencionar qual é, propondo ao leitor descobrir com menções pertinentes aos capítulos anteriores respectivos a pessoa; chega a ser fácil de reconhecer, pena a proposta acrescentar nada senão um leve desafio ao leitor cujo único prêmio é saber o quanto antes de qual personagem o texto foca.

Como já dito, o enredo pelo menos coordena os personagens e entrega pequenos desfechos em cada capítulo, por vezes terminam em suspense a desvendar apenas quando o capítulo posterior retornar ao ponto de vista daquele personagem. Mesmo distantes, a situação dos personagens alinha com as demais, tornando improvável de se perder na progressão de cada um quando os pontos de principais estão interligados. Já a conclusão da história descarta todo esse empenho em prol de favorecer o final a apenas parte do elenco, o restante teve seus arcos progredidos até levar a trama principal ao fim e então receberam capítulos finais que nada acrescentam ou concluem as respectivas histórias.

Mona Lisa Overdrive até impressiona na leitura com expectativas baixas. Wiliiam Gibson sempre será lembrado por conta desta trilogia, cujo mérito está em construir o universo sci-fi original e inspirador a ponto de virar a base do gênero cyberpunk. Os pontos positivos das três obras jamais camuflarão os problemas de escrita, dificultando a leitura por desleixo do autor.

“Tinham um cheiro triste, os livros velhos”

Mona Lisa Overdrive - capaAutor: William Gibson
Tradutor: Carlos Irineu
Ano da publicação original: 1988
Edição: 2017
Editora: Aleph
Quantidade de páginas: 320
Série: Trilogia Sprawl #3

Confira o livro

Entre Algoritmos e Princípios

Eu respiro fundo o ar ao redor, busco coragem e alívio puro, só encontro gases e desespero. Sujeira impregna debaixo das unhas e suja meu novo esmalte, demorei vinte minutos da cidade até aqui, imagina se ele morasse mais longe… Larguei as luvas antes de sair da casa, é preciso mostrar isso a ele, isso e todo o resto. Será difícil, ele sempre foi difícil, assim como eu. Tusso, coço o nariz, ajeito o cachecol sobre o pescoço e ergo a mão à porta, bato dois toques. Sem resposta, claro. Preciso erguer a outra mão, a que carrega o pote com o bolo de cenoura, mostro para a câmera da casa e um clique aciona a porta automática.
Coloco o pé direito dentro de casa, a lâmpada do cômodo não acende. Janelas bloqueiam a entrada de luz, até as artificiais. Arrasto meus passos, evito outro tropeço, outra fratura de perna. Empurro objetos com a ponta do pé, pedaços e mais pedaços de metal; chacoalho as pernas e expulso os fios e cabos, enrolam nos tornozelos feito cobras. Nada de venenos, nem moscas vivem neste lugar, a casa libera fumaças dedetizadoras ao menor sinal de vida inumana neste lugar.
— Venha até mim. Estou no cômodo três.
Esta era acasa de papai e mamãe, com cozinha, quartos, sala e banheiro; agora são cômodos um, dois, três, quatro… Controle-se, Joana. A visita de hoje é diferente, nada disso importa mais. Eu desisti, desisti de brigar, de esmurrar a ponta de faca através das palavras contra meu irmão. O bolo, começo pelo bolo e então digo a ele. Qual é o cômodo três mesmo? Ai! Seguro o braço e sinto o sangue manchar o dedo. Uma daquelas pinças dele estava jogada na mesa da sala, mesa invisível nessa escuridão. Meu pé encontra a cadeira e a puxo, sento e aguardo a dor passar.
Como isso pôde acontecer? Éramos dispostos aos abraços, todos os dias. Sorríamos na presença de coelhos, brincávamos em árvores, acariciávamos um ao outro quando alguém saía ferido do futebol. E hoje estou aqui sozinha nesta ferida causada por ele. Não, eu fui desatenta. Devo parar de fingir inocência. Tenho minhas culpas, vim aqui por elas. Deixe doer, preciso falar com ele.
E assim enxergo luz. Enxergo-o com os braços sobre o balcão, na parede dos fundos onde ficava a pia, onde era a cozinha. De costas a mim, concentra a atenção nos circuitos do corpo, ao tutorial transmitido no implante da orelha esquerda, mantém a postura com o exoesqueleto de modelo Ita7, os tendões do braço substituídos por cordas metálicas ligadas ao músculo, acionadas por dezenas dos milésimos algoritmos codificados junto ao sistema neural dele; os tendões dos tornozelos são iguais, e seus pés descalços sequer tem pele, substituída por circuitos e implantes.
Deixo o bolo na mesa ao lado. Ainda é a mesa de cozinha, a favorita da mamãe. Apaga a luz, Miguel para de operar o próprio braço. Aciona a luz das lâmpadas, até a da sala — o cômodo um. A pinça onde bati o braço brilha com a ponta em vermelho. Espero que ele limpe meu sangue antes de usá-la.
— Obrigado pelo bolo, irmã.
Permanece ali, de costas, esperando eu sair. Nunca deu certo, e desta vez é diferente. Pouco importa a falta de vontade dele, eu preciso avisá-lo. Olha para mim, Miguel! Garganta fica entalada de medo, as palavras ficam presas ali, abro a boca e fico em silêncio. Ele vira e enfim mostra o rosto, ainda livre de implantes.
— Veio discutir de novo?
— Não, irmãozinho. — As palavras saem. — Chega de discussão.
— Já tentou isso antes. “Chega de discussão”, em seguida trocamos insultos. Impossível, Joana. Ficamos muitos diferentes.
Sim, ficamos. Embora eu note pelas partes da pele substituídas por implantes; e ele me vê sempre igual, por isso sou diferente. Pernas tremem, rendo meu corpo a cadeira da cozinha. Suspiro a fumaça da rua ainda presente.
— Prometo não ser a mesma coisa.
— E o que são promessas a você, irmã? Eu tenho meus códigos, eles me ajudam na execução de minhas tarefas, no seguimento de meus princípios. Você é naturalista, submissa aos defeitos da nossa espécie, teimosa em aceitar a evolução.
— Você está errado no conceito de evolução, no significado acadêmico em relação à espécie. E os princípios são diferentes dos algoritmos, Miguel. Por Deus, quem é o teimoso aqui?
E pronto, começamos a discussão. Falhou de novo, Joana. Como sou burra. Deixei Miguel me provocar de novo. Burra, burra, burra.
— Continua sendo hipócrita, irmã. Pouco adianta ter nojo por todo este metal no meu corpo, isso é o nosso futuro, o da humanidade. Quinze dos meus protótipos já foram adiante, sete estão em produção e três já estão me dando lucro. Paguei todas as dívidas da família e fiz as reformas necessárias da casa enquanto você fica nesta facção das plantinhas e atrapalha trabalhos como o meu.
— Chega! Deixe-me falar. Por favor, Miguel.
Ele balança os ombros, cruza os braços e me permite falar…
— Eu mudei.
… e me interrompe:
— Há circuito nenhum no seu corpo, ainda acredita nas ideias dos naturalistas.
Percebe a ausência de circuitos, menos a ausência de outra coisa. Tanto implante no corpo, e só nos mantém distantes.
— Ainda acredito. Deixe-me dizer até o fim desta vez. O que eu mudei, Miguel, foi um princípio, e o deixei como principal. Você entende isso, certo? De mudar a prioridade de um princípio como a mais importante. É possível programar seus algoritmos assim também?
— É sim, irmã. Então me conte esse princípio de alta prioridade.
A garganta fica entalada de novo. Por que é tão difícil? Eu me redimi, rendi os meus pecados na igreja e desejei forças neste momento. Preciso delas agora, Deus! Tremo os lábios, boca expele apenas silêncio, meu olhar fugiu de Miguel há tempos, olho o piso cinza de poeira. Difícil falar, mais difícil ainda fazê-lo entender com as palavras. O relógio da parede ainda funciona, e pela hora… Está quase na hora!
— Venha comigo, é melhor te mostrar.
Pelo menos o convenci, ou minhas lágrimas o fizeram me seguir. Com a luz da sala acesa, tiro os pés do chão ao andar, ciente de cada dispositivo largado no chão. Miguel nunca sequer tentou organizar o quarto, só piorou com a idade. Eu também piorei nos meus defeitos. O nó na garganta afrouxa e engulo o silêncio em seco. Porta abre ao chegar perto e encontro a cidade diante de nós no lado de fora. Pouco do céu é visto, coberto pelas fileiras de arranha-céus e tráfego de aeromóveis. A enorme tela do edifício central é tão visível quanto a instalada no shopping da rua seguinte a da casa de Miguel; cada uma mostra determinado assunto, todos considerados úteis à população. Uma tela avisa da possibilidade de chuva esta noite, outra enumera o total de impostos colhidos pelo governo, vejo o mapa colorido dos distritos principais e denuncia com tom vermelho onde aconteceu algum delito ao longo do dia. Tantas informações sobre nossas cabeças, que deixamos de olhar para baixo, às ruas esburacadas e animais feridos, quando há animais; se procurar algo de tom verde só encontrará nos neons dos aeromóveis, ninguém cultiva planta neste lugar.
Meu choro molha a garganta, solta as amarras e libera a voz.
— Consegue enxergar o sol, Miguel?
— Todo este choro por isso? Ver o sol? Enxergamos o mesmo mundo de forma diferente, irmã. Pare de forçar a sua ideologia comigo, pois eu aceito todas essas luzes, as luzes do progresso.
— Desculpa. — Só tenho esta resposta. De certa forma sou culpada. Desisti a tempo, apesar de ainda ter culpa com o que vai acontecer. E acontece agora.
Todas as telas dispostas nos prédios desligam. Os prédios desativam, aeromóveis estacionam no céu e tem os aceleradores inutilizados. A casa de Miguel apaga, como a de todas as casas desta cidade, de todas as cidades do estado, talvez do mundo, algum dia. Ruídos param de atravessar meus ouvidos e escuto o bater de vento nas minhas orelhas, tão comum de onde resolvi morar, resolvi lutar, e então abandonei depois de saber que iriam fazer isso, iriam eliminar o mundo visto por Miguel.
Ele perde o apoio do corpo. O peso dos metais o fazem cair no chão, de joelhos. Ouvidos captam sons sem o filtro do aparelho, mãos ficam imóveis com tendões desativados. Deus o ajude, nem as pernas encontram meios de mexer.
— Desculpa, Miguel. Os naturalistas foram longe demais.
— Como eles puderam? — disse cada palavra aos soluços.
— O planeta está morrendo graças a toda essa tecnologia, devido ao progresso desenfreado e inconsequente. — Espero ele me interromper por dizer algo contrário ao pensamento dele, e ele fica quieto. — Sempre acolhi as ideias da preservação ambiental, do aproveitamento de recursos recicláveis, a manter nossos corpos sempre naturais; mas nunca aceitei impor tais desejos à força, mesmo com você. Jamais aceitaria te deixar assim, nem a sua cidade.
A boca de Miguel resseca, sem palavras no momento. Agora ele vê, sem a ajuda dos implantes, ele vê meus braços sem a pulseira de roseira, o laço dos naturalistas.
— Acredito em você, irmã. Eu detesto a forma com que me trata, apesar de sempre querer o meu bem. — Ele tenta levantar, incapaz de impor força no corpo entregue aos aparatos tecnológicos, inúteis agora. — Não tem volta, tem? Mesmo se reativar esses implantes os seus colegas, ex-colegas, impedirão de funcionar de novo.
Confirmo com a cabeça. Confirmo e dobro os joelhos ao meu irmão, o abraço e deságuo os restos das lágrimas sobre ele, de corpo pesado e frio.
— Vou seguir o princípio principal, Miguel, o de proteger tudo o que resta de nossa família: você, irmãozinho. Cuidarei de você. Seja quais forem as condições, garantirei a melhor vida possível a nós.
Lágrimas também escorrem de Miguel, desliza pela minha bochecha colada na dele.
— Eu consigo, Joana. — Esfrega o queixo sobre meu ombro e levanta a cabeça. — Eu consigo enxergar o sol. Obrigado.

A Parábola dos Talentos (Semente da Terra, vol. 2)

A ideologia pode ser essencial na vida das pessoas. Regras sistematizadas formam objetivos de vida, definem o caráter de alguém. Nenhuma é adequada a todos, e só descobrirá ao ter a oportunidade de conhecer ideologias até encontrar a ideal — ou criar a própria. Lamentável ver certos grupos ideológicos capazes de atrapalhar as crenças alheias, diminuí-las seja menosprezando ou destruindo. Falha com os princípios originais da própria crença afim de eliminar a outra.

A Parábola dos Talentos traz o conflito ideológico na continuação da história de Lauren Oya Olamina. Escrito em 1998 por Octavia E. Butler e trazido pela editora Morro Branco em 2019 com tradução de Carolina Caires Coelho, a nova eleição dos Estados Unidos pode colocar em risco tudo o que a protagonista conseguiu criar desde A Parábola do Semeador.

“Eram disputas idiotas — desperdícios de vida e riqueza”

Anos após os acontecimentos do livro anterior, Lauren tem o próprio espaço a pregar A Semente da Terra, crença organizada por ela a partir das verdades testemunhadas. A comunidade onde vive e coordena tem poucas pessoas, todas de confiança, nem todas seguidoras da religião dela, com direito de permanecer no local ao ajudar em algum trabalho. Garantem a segurança do local através da vigia constante e dos equipamentos adquiridos com o tempo, mesmo assim seu marido Bankole tem receios quanto à segurança de Lauren, ainda mais quando ela fica grávida. A nova eleição dos Estados Unidos tem como principal candidato Jarret, que pretende implantar a América Cristã pelo país e eliminar qualquer culto diferente do cristão.

Além da história contada de forma autobiográfica por Olamina, este livro tem pequenos trechos contados por outros personagens, em especial a filha de Lauren. Todo começo de capítulo começa pela filha, ela faz comentários sobre o que lê dos diários da mãe e expõe desde o começo a sua opinião, discorda de tudo afirmado pela Semente da Terra, uma seita aproveitadora da boa vontade alheia, segundo a garota.

“Morrer vítima da violência era ainda mais fácil do que é hoje. Viver, por outro lado, era quase impossível”

Após acompanhar as crises presentes na Parábola do Semeador, o começo deste livro traz esperança de quem vive próximo de Olamina conseguir vida mais digna. Independente de acreditar na Semente da Terra, Lauren acolhe e ensina todo interessado a exercer tarefas úteis. Há planos no futuro, vida amorosa com o marido, até a esperança de ter filho! E então tudo desmorona.

A narração é toda descritiva, sem citar ações correspondentes aos sentimentos e gestos dos personagens, tudo é contado com palavras objetivas. Demonstra como o modo de escrita show, don’t tell — mostre, não conte — não é o único meio válido de contar a história. A escrita de Octavia impacta o leitor mesmo usando verbos e definições descritivas, ela sabe como construir a estima do leitor e então destruí-la com os acontecimentos do romance. Passagens longas de diário e parágrafos grandes conseguem prender na leitura da história de Olamina e sua busca em expandir a Semente da Terra de modo a criar raízes entre as estrelas.

Os personagens são inúmeros, alguns mais presentes em certos pontos, mas mesmo quando muitos estão reunidos é fácil acompanhar quem diz, nem entedia o leitor por dar espaço desnecessário de interação, todos os presentes na cena são úteis. Pessoas contestam as ideias da Semente da Terra a todo o momento com Lauren ou nos trechos narrados por outra pessoa, e nem sempre são adversárias da protagonista, na verdade o contato próximo estimula o debate das ideias criadas nesses dois romances sem riscos, apenas com oportunidades de avaliar o valor da seita formada por Lauren, que resiste ao pior enquanto mantém a crença dela em si.

A Parábola dos Talentos encerra a autobiografia de Lauren Oya Olamina com alarmes quanto a consequências na crise ambiental e econômica nacional, bem como na capacidade humana ao agir contra a ideia diferente. Traz debates capazes de lembrar ao leitor que as ideias de Olamina devem ser debatidas, longe de aceitá-las no romance apenas pelo protagonismo da idealizadora da religião, a leitura propõe a reflexão pela divergência ao concluí-la.

“Uma das coisas mais valiosas que eles trocavam uns com os outros era conhecimento”

A Parábola dos Talentos - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1998
Editora: Morro Branco
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Quantidade de Páginas: 560
Série: Semente da Terra #2

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Cem Palavras, Dez Anos

Aos 25 eu enjoei daquelas músicas metálicas. Tão agressivas e frenéticas, as cordas de guitarra cortavam meus ouvidos enquanto os cantores rasgavam as próprias gargantas na técnica — ou a falta dela — de cuspir palavras guturais. Eu nasci na época certa, quando programas reproduziam qualquer tipo de música e ainda recomendavam outras do mesmo estilo. A Inteligência Artificial não era tão sofisticada, ainda assim me deu boas dicas. Sugeriu músicas acústicas, o ritmo massageava meus tímpanos enquanto a voz roca cantava a letra, sobre um homem de bem matar a própria esposa e contente pois a reverá em breve, no inferno.

Aos 35 ainda ouvia esse novo estilo de música que me cativou. Novo no sentido de eu jamais ter descoberto sem a ajuda da Inteligência. Ah! A linda Inteligência. Aprendeu, aprimorou os algoritmos desde então, deixei meu queixo derrubado enquanto descobria mais obras de arte. Ainda eram feitas pelos humanos, a tendência é mudar, ouvi algumas tentativas horríveis tocadas por robôs. A Inteligência me entendia, humanos ainda eram os melhores músicos. Arremessava minhas costas no colchão e explodia o som, fechava os olhos e flutuava na sinfonia leve marcada pelos toques de violoncelo. Sim, tudo bem. Eu ainda vou matá-la.

Aos 45 eu ainda a amava. Porra, eu juro. Entregava bombons em datas comemorativas e nas comuns, apreciava toques na sua pele apenas sob o consentimento dela. Era a dona do controle remoto, mandava na cama. Eu cozinhava, lavava a louça e trazia o prato à mesa, levava a comida à boca dela. Era dona de mim, o seu humilde comprador de sapatos, tinham mais opções aos pés dela do que meu videogame, minhas leituras, das músicas. O sangue dela também era lindo, mais saboroso quando escorria da testa. Fizemos o último amor, depois eu enterrei o cadáver no quintal.

Aos 55 ninguém ainda me prendeu, bando de incompetentes. Os algoritmos bem tentaram, enfim nenhum recomendou alguém tão bem quanto ela. Quando eu reclamei disso em voz alta, o aparelho ouviu e me explicou, ele sabia desde o começo, só ela era ideal a mim, pouco importa o quanto pedisse por novas indicações. Criaturinha dedicada, esta Inteligência, sempre presente nos melhores programas. Lamentei por deixá-la de lado, a Inteligência, porque eu me entreguei. Tudo perde a graça, sabe? Cansei de ficar escondido das autoridades, então confessei, sem entender o meu motivo e nem do policial ao me dar o soco.

Aos 65 eu estava fraco. Comida podre da prisão, idade avançada e proibido de aproveitar as novidades. Nada a reclamar, na verdade. Sorria todos os dias, mesmo depois de perder alguns dentes, ganhando novos socos. Pouco importava o desprezo dos outros bandidos, os cuspes dos agentes e a bunda do diretor. Matei todos. A pergunta “como?” só tem uma resposta: “sei lá”. Acordei certo dia e agi, um a um eu espremi. Dedos contra os olhos, cabeça abriu miolos, tripas foram meus espólios. Eu segui regras, agi como sistema onde os algoritmos moviam meu corpo, saí pela porta da frente.

Aos 75 eu fui capturado pela equipe competente demais. Eles vestiam jalecos carmesim quando me estudavam. Entendi na segunda vez, quando vinham de cor cinza significava estupro. O de cabelo cacheado me odiava, fazia questão de atingir meu intestino com o seu de 30cm. Levaram muito tempo no estudo, no estupro, então concluíram que eu não tinha sistema, chip ou outro dispositivo implantado. Havia apenas ideias em meu consciente e subconsciente, programadas a despertar em meu cérebro em determinados momentos, eles chamam de gatilhos. Ainda sobrou piadas como quantas vezes deveriam me foder até disparar outro gatilho. Nunca disparou. Pena.

E aos 85 estou para morrer. Vivi sob vigilância, mas fui compensado — segundo eles — por descobrirem o perigo implantado na Inteligência em sugestões tão inocentes há 60 anos. Houveram muitos assassinos como eu, e graças aos estudos feitos em mim eles puderam condenar todos os outros. Talvez o sexo também tenha ajudado, algo que eles continuam fazendo comigo, sempre os mesmos, os pais de família de bem. Deve ter músicas sobre isso. A certeza verdadeira que tenho é a de minha vida no fim valer quase nada. Cem palavras resumem o que passei a cada dez anos. Sem carpe diem.

A História do Pescador (Conto sobre mudanças e vida)

Faço companhia às margens do rio. Três horas de caminhada iniciadas ao final da madrugada, tenho que chegar ao trabalho no começo da manhã, sem horário de voltar, tampouco hora extra. Ando até minha carreira, pretendo alcançar os sonhos, procriar e oferecer vida melhor aos meus filhos, assim como papai fez enquanto esteve vivo. Filhos… Nem namorada tenho, sequer sobra tempo de arranjar uma, dormir antes da meia-noite é questão de sorte, e as horas a mais de trabalho, bem, esquece.

Passo por um senhor sentado rente ao rio, boné de pano puído e vara de bambu na mão. Linha na água parada, barrosa. Meus avôs diziam daquele rio já ter sido limpo, no tempo dos bisavôs deles. A situação faz o pobre senhor pescar aqui, em água sem vida. Tenho as moedas da coxinha do horário de almoço, ele precisa mais delas. Pego todo o dinheiro e levo a ele, de sorriso aberto antes de eu chegar, balança a cabeça de um lado a outro quando deixo sobre a sacola.

— Agradeço a caridade, garoto, mas tome o dinheiro de volta.

— Fique com o senhor. Estou a caminho do trabalho, onde arranjo mais dinheiro.

— Você é pago apenas no fim do mês, e este mal começou. Passará fome sem a coxinha do almoço.

— Como o senhor sabe que iria comprar coxinha?

— Só consegue comprar coxinha com este valor. Ainda consegue. Além do mais, você precisa movimentar a economia, garoto. Eu contribuo nada nessa idade.

Ele apanha as moedas e segura na minha frente, chacoalha e aponta o olhar nas minhas mãos fechadas. Eu fecho os olhos e estendo a palma, as peças redondas de metal batem entre si e caem de volta a mim.

— Como a pesca está indo?

— Indo a lugar algum. — O senhor ri. — Tudo parado, a linha só move com o vento. Tenho a impressão de chegar aqui cedo demais.

— Com todo o respeito, se chegasse tarde demais teria o mesmo resultado. Nenhum peixe vive aqui desde antes de eu nascer.

— Ah, eu já fisguei algo muito bom.

Minhas sobrancelhas crescem, formo mais rugas que o velho pescador possui. Tenho meu horário a cumprir, e terei de acelerar o passo por perder tempo com ele.

— Não preocupe tanto com o horário — ele lê meus pensamentos? —, ainda mais hoje. Você estará demitido.

— Como? Por que eu estaria?

— Você terá mudanças na vida. Essas que você tanto teme, prolonga e nega; precisará tomar outro rumo, seja melhor ou pior.

— Eu me dediquei tanto a este trabalho! Perdi oportunidades, desisti de outras. Este emprego é a minha melhor chance. É injusto perdê-lo!

Os lábios dele ficam fechados, assim me responde tudo. Eu já respondi. Fiz as escolhas, agora tenho as consequências. Pouco adianta lamentar pelos imprevistos — previsíveis ao pescador, ao que parece —, a vida continua e eu pretendo acompanhá-la.

— Compreendeu agora, garoto?

— Entendi. O senhor não está aqui pela pescaria.

— Claro que eu estou! — Ri de novo. — Vá. Não deixe eu tomar mais do seu tempo.

A aurora risca os primeiros traços do sol, um peixe morde o anzol do pescador e parte a linha ao meio, bate a cauda fora d’água e vai embora.

— Hoje o dia será difícil, garoto. Arranje coragem e insista nos sonhos. Viva a vida, pois ela fica muito boa quando muda de perspectiva.

***

E o garoto foi. Lábios fechados e bolhas nas mãos, nos pés dentro dos sapatos também. É muito divertido, sabe. Vê-lo aqui de cabeça abaixada, antes de todas as conquistas a partir deste dia. As mudanças são de dar medo, com certeza, as variáveis trazem valores bons e ruins, pode colocar o parâmetro que for, o resultado sairá imprevisível nesta época do tempo dele.

Está na hora de eu voltar ao meu tempo. Adoro a nostalgia de encarar o eu do passado e sorrir para ele, relembrar de tudo o que eu passei, cada dificuldade e tragédia. Tudo valeu a pena.

A Parábola do Semeador (Semente da Terra, vol. 1)

Ficções científicas também trabalham sobre realidades catastróficas, exploram o limite da sobrevivência humana, denuncia comportamentos desesperados frente ao medo e alerta sobre como o mundo pode ficar no futuro. Longe de prever a situação, o objetivo principal é trazer a discussão aos problemas vigentes através da especulação feita no romance. Octavia Butler não explicita a origem das crises nesta distopia; e caso o leitor fique em dúvida, basta olhar ao redor, na realidade e tempo presente.

A Parábola do Semeador é o primeiro volume da duologia Semente da Terra, narrado por meio da autobiografia de Lauren Oya Olamina, aspirante a trazer uma nova religião e esperança no meio do caos presente nos Estados Unidos do futuro. Escrito em 1993 e trazido ao Brasil apenas em 2018 pela editora Morro Branco, Octavia Butler demonstra como a ficção científica feita por mulheres não é brincadeira.

A Parábola do Semeador - capa

Um pouco mais de hipocrisia para manter a paz

Lauren é a irmã mais velha dos quatro meninos jovens, filha do líder do bairro e também ministro da religião batista local, embora a protagonista tenha outra ideia sobre Deus. Vive no aglomerado de Robledo com onze famílias, protegidas por muralhas como em qualquer outro bairro ainda de pé nos Estados Unidos, proteção ainda vulnerável a saqueadores e drogados sob a substância piro, que os deixam suscetíveis a provocar incêndios.

Acompanhamos a história contada no diário de Lauren entre os anos 2024 e 2027. Os três primeiros anos é sobre ela precaver pelo pior enquanto inspira reinterpretações de Deus e elabora uma nova religião: A Semente da Terra, cujo Deus possui outro nome e conceito. O último ano narrado trata da jornada rumo ao norte dos Estados Unidos com o que ela consegue preparar e tenta superar dificuldades como a hiperempatia — a condição dela em sentir a mesma dor da pessoa que ela testemunha, seja amiga ou inimiga. Deve seguir adiante com os companheiros a encontrar no caminho mesmo sem saber se são de confiança, tudo levada pela fé criada por ela mesma.

Essa é a regra. Saia em grupos e saia armado

Bairros murados, ameaças de invasores, incêndios, escassez de água e precarização do trabalho. Esses sãos alguns dos problemas enfrentados desde antes do nascimento de Lauren, a única realidade que ela conhece. Tal situação reflete na forma de narrar a história, o diário conta a vida dela sem dar informações claras ao leitor no começo porque ela desconhece a nossa realidade para fazer comparações. Mesmo assim é possível compreender devagar, as peças do enredo juntam aos poucos entre fatos ocorridos perto dela e das divagações. Se no começo demora a assimilar a situação enfrentada, pouco antes da metade do livro em diante demonstra os vários problemas enfrentados, onde as semelhanças à realidade presente nas moradias de classes desfavorecidas ficam nítidas, só que neste romance da Octavia sãos ainda mais comuns com a crise econômica, ambiental e social levada ao extremo.

Sem intervenção de alienígenas ou especulação de tecnologia avançada, A Parábola do Semeador é ficção científica voltada a precarização de recursos. Vemos a luta de Lauren com a invenção da religião Semente da Terra contra a desesperança da humanidade que precisa encarar o semelhante como ameaça fatal, único meio de precaver a própria sobrevivência.

Homo Deus: Uma breve história do amanhã

Eu disse no final da resenha de Sapiens como o livro me instigou a procurar sua continuação de maneira injusta, entretanto eficaz.

Uma Breve História da Humanidade levanta aspectos e paradigmas da nossa espécie ao longo de toda a existência e discute pontos sobre os motivos de sermos assim hoje. Este post traz a análise de Uma Breve História do Amanhã, que levanta características vigentes como base na discussão de como será o futuro da espécie humana, além de propor o surgimento de uma nova, a Homo deus.

Hora de revelar se Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã supera as expectativas motivadas pelo epílogo do livro anterior de Yuval Noah Harari. Publicado em 2016, trata do futuro da humanidade com base no conhecimento vigente do autor e outras inúmeras referências utilizadas e citadas neste livro.

Homo Deus - capa

Ouça os algoritmos! Eles sabem como você se sente

Além da introdução, o livro compõe três partes com progressão a partir de tópicos. Os primeiros capítulos apresenta as bases da discussão ao restante do livro. Yuval também retoma assuntos discutidos no livro Sapiens como complementos das ideias levantadas em Homo Deus, sendo leitura necessária para melhor entendimento deste livro.

Em Sapiens, Yuval sugere abranger religiões além do aspecto místico/divino, e leva a crença no sentido literal. Desta forma o capitalismo, liberalismo e democracia também são religiões, pois elas funcionam apenas quando os humanos acreditam, bem como a que Yuval determina ser a maior de todas na atualidade: o humanismo, a religião voltada ao humano. Crença esta já em risco, pois a ciência possibilita novas mudanças no futuro, e apesar do autor precaver o leitor de suas presunções não serem profecias, levanta a ideia das pessoas desistirem da própria importância em razão de aprimorá-las.

A ficção se tornará a força mais poderosa na Terra

O livro levanta assuntos a todo o momento com argumentos e discussões das informações retiradas em fontes bibliográficas. Pouco importa se precisa citar trabalhos acadêmicos, referências literárias, casos de celebridades, biologia, bioquímica, inteligência artificial, ciências exatas e humanas. Fala de tudo isso, muitas vezes de uma vez. Os parágrafos pulam de uma área a outra e exige atenção ao leitor, além de pelo menos conhecer o básico de cada. A leitura é desafiadora caso confronte alguma área desconhecida pelo leitor, mas a edição do livro poderia facilitar com mais divisões estruturais, ainda assim o conteúdo compensa o desafio.

Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã oferece a oportunidade de enriquecer o conhecimento e refletir nas discussões incentivadas por Yuval sobre a possibilidade do futuro sugerido no livro, de como a humanidade comportaria diante desta realidade e o questionamento da mesma de aceitar as condições impostas pelo avanço tecnológico.

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Horizon Zero Dawn

Já contei no blog como a Inteligência Artificial pode ficar perigosa. Imagine se a tecnologia autônoma for também autossustentável e modifique os algoritmos do próprio comportamento?

Cria-se então outra espécie no planeta Terra, as máquinas conscientes, e elas superam a humanidade. Pessoas precisam sobreviver sem estar mais no topo da cadeia alimentar, menos ainda, todo o conhecimento vigente fica perdido nesse futuro distópico, e eles regressam na tecnologia e costume.

Horizon Zero Dawn traz essa realidade futurística. Lançado em 2017, conta a história de Aloy, uma moça exilada da própria tribo devido a sua origem desconhecida.

Guerrila Games é a produtora da franquia Killzone. Saiu da área de conforto de jogos FPS (tiro em primeira pessoa) ao desenvolver este RPG de mundo aberto e história complexa. 

Nós até vivemos, mas parados no tempo  

A humanidade reside em pequenas civilizações com costumes e crenças distintas. Com população escassa, a caçada é atividade comum a qualquer pessoa, e a sobrevivência é acirrada pelo perigo representado pelos seres tecnológicos.

As máquinas tem corpos semelhantes a animais, inclusive agem como tal, porém possui módulos tecnológicos fatais a humanos, portadores das armas rudimentares como arcos, lanças e armadilheiras, todas adaptadas com os recursos das máquinas destruídas.

Horizon Zero Dawn

Aloy foi condenada desde o nascimento pela tribo dos Nora, grupo comandado pelas matriarcas, três mulheres anciãs que prezam pela tradição da crença sob o domínio da Mãe-de-Todos. Rost é responsável por cuidar de Aloy, outro exilado da tribo, e ele a ajudará a ser aceita pelos conterrâneos e descobrir a sua origem. A jornada da descoberta da própria história levará Aloy além do território Nora, com muitas máquinas perigosas e bastante conhecimento da civilização antiga sobre a origem dos seres de metal.

Seria fascinante, se não fosse eu quem estão procurando 

A sociedade resume-se a grupos distintos e de orientações simples a partir da tradição seguida por todos. Violar os costumes é inaceitável, indiferente às conquistas feitas pelo indivíduo. É uma jornada árdua a Aloy para conseguir o respeito das pessoas.

Horizon Zero Dawn

Enquanto lamenta da dificuldade em ser aceita, ela aprende a sobreviver contra as máquinas. É capaz também de compreender a tecnologia ao seu alcance, como o Foco encontrado ainda na infância. Aprendizado é o melhor recurso da Aloy e do jogador, que pode aproveitar a vantagem de atingir pontos fracos das máquinas e derrota-las com quantidade menor de munições, ou desarmar determinado recurso do inimigo metálico e deixa-lo menos mortal. 

Os recursos são escassos e os seres de metal cruéis, até certo ponto. A progressão da personagem principal pode deixá-la com poder destrutivo superior a das máquinas. Perde o desafio caso explore todo o mapa do jogo, Aloy fica no topo da cadeia de sobrevivência, e então falha na premissa das máquinas serem tão perigosas assim, ao menos na dificuldade regular.

Sobrevivemos e prevalecemos, até falharmos em ambos 

O objetivo principal do jogo perde o foco com o mapa aberto, pois as missões secundárias, úteis para descobrir mais da civilização a partir dos NPCs, são mal distribuídas. O jogo tenta transmitir a personalidade de Aloy como alguém curiosa e altruísta ― esta última incentivada pelo Rost ―, porém a liberdade do jogador pode priorizar as tarefas secundárias, como se Aloy perdesse o interesse na própria história enquanto resolve o problema dos outros ou explora artefatos e informações antigas.

Horizon Zero Dawn

O altruísmo faz Aloy ajudar indivíduos com conflitos além da sobrevivência, como por exemplo pessoas com transtornos mentais, depressivos e suicidas. Por outro lado ocorre um suicídio no jogo que é martirizado quando deveria ser lamentado, pois passa a mensagem errada ao tornar tal alto heroico.

Já na progressão da campanha principal, Aloy desvenda a história do passado e encontra justificativas dos vários aspectos existentes no jogo. Quando parece haver um furo na construção do mundo, o jogo avança e traz outra informação que satisfaz a dúvida com revelações bem planejadas, alinham a realidade do passado com a situação vigente no jogo. Dados em áudio ou texto complementam as informações referentes à civilização antiga, essas defasadas com o objetivo da jornada, mas muito úteis de compreender a sociedade anterior.

Horizon Zero Dawn é o início de um universo a ser aproveitado em jogos posteriores, ou ao menos na sequência pendente. Distribui informações ao longo da campanha principal que apresenta ao jogador uma realidade interessante, com falhas na exploração mal distribuída do mapa para amarrar as diversas possibilidades do jogo ao tema proposto na ambição da protagonista. Torço na sequência melhorar neste aspecto, pois Horizon tem muito a oferecer. 

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