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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos (folclore nacional)

Buscar mérito literário no mercado de ficção nacional é uma peleja sem fim. O desafio agrava quando os guerreiros empunham o lápis a batalhar na criação de cenários brasileiros, usando do nosso folclore a arma principal. Esta batalha vale a pena ser combatida, por nos trazer exemplos de aproveitar as tradições ou criaturas tão distantes de nós, apesar de compartilharmos o mesmo espaço. De riqueza quase exótica, tais livros podem ajudar-nos a descobrir sobre a terra onde pisamos. Dentre essas ficções há Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos, escrito por Gabriel Billy e publicado pela Avec Editora em 2018. O enredo passa no país homônimo ao livro, retratando o Brasil no período vitoriano de características fantásticas misturadas ao steampunk, onde curupiras, sacis, mapinguaris e outras criaturas folclóricas coexistem com aparatos criados pelos inventores brasileiros.

“― Vera Cruz tem muitos gênios, inclusive padres, como eu”

Vera Cruz tem dois reinos principais os quais guerreiam entre si. Lisarb é o maior em extensão cujo governo imperial foi substituído pela ditadura militar sob o comando de Kaput. A princesa Isabel ― filha do ex-imperador Dom Pedro II ― é foragida do novo governo de Lisarb, e durante sua busca em encontrar meios de retomar o poder tirado à força, é convidada a ir ao portal para Ivi Marã Ei e tomar o artefato do deus Jurupari antes de pessoas mal intencionadas.

O outro reino é Ouro Preto, lar do povo escravizado pela Lisarb. Preferem a magia em vez da tecnologia. A princesa Zaila guarda rancor do ladrão Pedro Malazarte, reconhecido por toda a Vera Cruz, este mesmo que seu pai, Chico-Rei III, pede à filha ajudá-lo a pegar a borduna de Jurupari. Encontram Urutau no caminho, o indígena sobrevivente da tribo dizimada pelo bandeirante de Lisarb chamado Domingos. Urutau possui o arco lunar, arma da deusa Jaraci, funcional apenas sob a presença da lua.

Além das terras humanas, Vera Cruz tem lares reservados a outras criaturas, entre elas a árvore Brasil e a Vitória Régia Sagrada, onde vivem os curupiras e mutucus, respectivamente. Ambos os povos são protetores da natureza, os primeiros fazem por meio da persuasão, já os mutucus optam pela violência. Por esta discordância, os dois povos travam conflitos. Mesmo sob trégua, os curupiras acusam os mutucus de envenenar a árvore Brasil. O príncipe Oiti deseja averiguar tal acusação, e para isso conta com a ajuda de Yataí, princesa dos mutucus e sua amante.

“― Não quero fugir. Quero unir nossas raças e um dia ser respeitado como um grande rei. E domar um porco selvagem!”

No momento de o leitor conferir este livro pela primeira vez, admirar a capa colorida com dirigíveis a indicar a ambientação steampunk, do título remeter ao antigo nome do Brasil, folhear e descobrir o livro dividido em dois conteúdos: a história em si e os apêndices cheios de criaturas e figuras históricas inspiradoras a ponto de fazer parte do romance; a primeira impressão é de ousadia a pegar ótimas referências e delas entregar esta história de fantasia nacional. As primeiras páginas do livro são compostas de prefácio, prelúdio e agradecimentos, depois ao começar cada capítulo há citação de autores ou pessoas importantes na história brasileira; tudo a elevar o trabalho presente no romance. Com tanta propagação do trabalho de pesquisa, resta pouco da obra em si, esta aquém do prometido no resto da edição.

O narrador onisciente alterna a perspectiva entre os personagens, realizando a transição por meio de cenas. Essa perspectiva não é respeitada, pois o narrador cita o nome de personagem recém-chegado na cena e desconhecido de quem acompanha a perspectiva no momento. Tantos pontos de vistas engrandecem a história de maneira positiva, caso aproveitasse a oportunidade de explorar as várias características do universo elaborado pelo autor. No caso deste livro, tudo ocorre rápido demais, mal deixa o leitor vislumbrar o cenário vigente e segue direto à trama central do livro. A ambientação do cenário por vezes é resumida em um ou dois adjetivos, e por usar tão poucas palavras, atropela ainda mais o ritmo. Caso fizesse os personagens explorar mais Lisarb e as consequências sofridas pela família da princesa Isabel, cenas capazes de exaltar a riqueza cultural existente em Ouro Preto, abordasse mais do povo indígena e mostrasse as façanhas de Pedro Malazarte em vez do narrador somente citar em várias passagens de ele ser o maior ladrão daquela história; cativaria o interesse do leitor ao longo da hitória. O universo do autor tem potencial, só faltou aproveitá-lo.

Tudo é esclarecido ao leitor, tão informativo a ponto de subestimá-lo. Diálogos são usados para apresentar os personagens entre si, trazendo conversas inverossímeis, pois em vez de falarem entre si, informam as características dos personagens. Certas explicações são feitas em três frases redundantes, inseguras da capacidade de compreender logo na primeira. A escrita deste livro é elucidativa, portanto deixa de ser literária.

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos é o debut de uma história com características impressionantes, possíveis graças à nossa história brasileira e folclore. Porém o desenvolvimento deixa a desejar, aproveita pouco da ambientação ― gigante pela própria natureza ― e exagera na explicação. Longe de desanimar, essas críticas têm o intuito de incentivar o autor a aprimorar na escrita, pois a história em si possui potencial.

“Era uma vez um mundo forjado com raios fúlgidos por um povo heroico de brado retumbante”

Vera Cruz - capaAutor: Gabriel Billy
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Saga: Vera Cruz #1
Gêneros: fantasia steampunk / aventura
Quantidade de Páginas: 184

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Curupira: A Árvore da Vida

Triste ver criaturas folclóricas do Brasil serem subestimadas em relação as já conhecidas de outros países. Nenhuma cultura tem mais valor que a outra, e é possível reconhecer todas sem deixar de lado essa tão próxima de nós. Assim como as características de povos antigos desconhecidos pela maioria dos brasileiros, o folclore também sofre preconceito.

Se está lendo este post, é porque o Curupira atrai seu interesse. Isso me permite enxergar aquela luz no fim do túnel, onde há quem valorize a cultura brasileira ou ao menos demonstra o mínimo de interesse. Por isso agradeço a visita, e fico feliz de tomar o breve momento para conferir a análise de hoje.

Curupira: A Árvore da Vida faz a releitura da origem deste mito. Publicado em 2018, conta a história do garoto de pele branca e cabelo ruivo, adotado pela tribo Arapuã com o nome de Curupira por ser pequeno.

Curupira: A Árvore da Vida - capa

Junior Salvador é formado em letras e direito. Publicou alguns livros de poesias e contos, sendo a história de Curupira o primeiro romance publicado pelo autor.

Homens e mulheres, vocês são os esteios de vossas casas

Órfão de pais biológicos desde cedo, Curupira é adotado pelos indígenas que o encontraram, crentes do garoto trazer sinais de esperança à tribo carente de proteção espiritual e de alimento. O garoto ruivo tem dificuldades de fazer as tarefas indígenas. Apesar de criado por eles na maior parte da vida, a constituição de seu corpo o atrapalha em realizar atividades comuns da tribo.

Tem amizade com Taiguara, futuro cacique da tribo que provoca Curupira a agir como eles, mas pelo bem do garoto ruivo. Os dois ultrapassam as fronteiras da tribo e tentam trazer caças cada vez mais raras. Curupira ajuda pouco nesta caçada, e escapa com ferimentos de com riscos fatais.

Taiguara quer salvar o amigo, escuta o pajé dizer que só a Árvore da Vida é capaz de curá-lo, e então vai atrás de sua seiva. Essa busca chamará a atenção de criaturas sombrias e as libertará, ameaçando a vida da tribo.

Tinha a língua tão ferina quanto os punhos

O livro traz a ambientação característica do povo indígena brasileiro e apresenta alguns costumes tribais. Simples de entender, o livro é interessante a quem tem pouco conhecimento sobre os índios e busca uma introdução acessível ao assunto. Demonstra a hierarquia da tribo, a cultura do pajé e o respeito à existência espiritual, bem como a afeição pela vida selvagem mesmo nas caçadas. Vale ressaltar que a história traz exemplos de uma tribo, outros povos indígenas podem ter características e até crenças diferentes das representadas neste livro.

Além do Curupira, o livro envolve outras criaturas nesta adaptação das lendas folclóricas. Aproveita as capacidades extraordinárias desses seres nas cenas de ação sem entregar resultados previsíveis.

Enquanto o enredo é bem desenvolvido, a escrita carece de refinamento. Há abusos de advérbios em todo o texto, muitos terminados em “mente” (ex: lentamente) que quebram ritmo da leitura por tornar esse tipo de palavra longa. Palavras repetidas três vezes na mesma linha também prejudica caso o leitor perceba esse vício. Além dos problemas de escrita, tem a menção de uma criatura com três metros de altura, e em outro capítulo cita o mesmo monstro tendo três vezes a altura de Taiguara, quase dobrando de tamanho com esse equívoco na descrição.

Curupira: A Árvore da Vida é uma história breve sobre o personagem conhecido no folclore nacional, embora nem sempre valorizado pelos brasileiros. Traz enredo interessante, porém a qualidade do texto deixa a desejar, e entregaria o resultado melhor caso aprimorasse a escrita.

Convergência, pt. 3

Capítulos Anteriores:

Parte 1

Parte2


Pernas queimam, musculatura endurecida e tornozelos fracos. Thiago se esgueira entre centauros e trolls, salta e foge de projéteis mágicos dos elfos, corre de outra mula sem cabeça e de diabretes. A ponta do calçado raspada de tanto tropeçar no grande morro da entrada do Jardim Pereira. Pedras minúsculas grudam na pele, arranham nas feridas feitas nas quedas e pelas garras das harpias.

Não é o protagonista do confronto, as criaturas brigam entre si. Entre xingamentos e fogo cruzado, Thiago ouve gritos de acusações entre eles: bruxas contra harpias, lobisomens contra oni, outros yokais contra ninfas. Só os elfos não acusam, se defendem de todos, alegam da Convergência acontecer para combater um perigo maior, impedir o crepúsculo definitivo. O humano quer apenas evitar o próprio fim e o da sua família.

Alcança o topo, infla o peito e tosse o carbono do corpo, fôlego exige retomar a respiração depois do trabalho intenso nas pernas.

Casas à esquerda destruídas, sangue tinge os quintais de várias, uma com braço humano largado na  batente da porta, sem o resto do corpo e dois dedos a menos. À direita a área florestal protegida pela Secretaria do Meio Ambiente, mas não da Convergência. Corpos de cachorros e gatos saem da terra, enterrados pelos vizinhos. Peles rasgadas, olhos comidos por bactérias, ossos expostos e dentes podres, línguas comidas pela metade; assim voltam à vida. Dois homens e uma mulher também se levantam abaixo da terra, Mairiporã sempre teve bons locais para desovar corpos.

Cinco árvores despencam junto com a caçamba na rua. Os cascos da criatura explodem o som agudo ao cair no metal da caçamba. Pelos longos e afiados por todo o corpo, cabeça estreita em contraste com o corpo largo, gordo, e alto. Thiago tampa os ouvidos contra o grito gutural do monstro, um som que sai na altura do estômago. Confuso, descobre o porquê quando a criatura vira o corpo e olha ao redor: seu único olho ocupa quase toda a parte da cabeça, e a gigante boca fica na barriga. É o mapinguari.

Mapinguari - Convergência

Hora de correr pela mata. Thiago tropeça entre galhos caídos na terra, interrompe a queda porque bate no tronco do coqueiro de pé a frente. Respira, retoma o fôlego. Observa o mapinguari andando na rua, a baba escorre pela boca na barriga e encharca coxas, pernas, cascos e chão, o odor da saliva parece rasgar o nariz de tão azedo. Os mortos-vivos correm floresta adentro, um dos cachorros tropeça em outro galho, a pata direita desgruda do corpo com o impacto, ainda sobram três, e ele foge junto com os gatos e humanos. Fica somente Thiago, que perde o fôlego.

Confia nas pernas dormentes e anda entre os troncos. Evita pisar em galhos, sem tropeçar nas madeiras nem chutar a cobra-coral. Como esse bicho ainda está lá, parado, em meio a todo esse caos? Contorna o réptil enquanto encara o monstro brasileiro.

Luzes verdes pairam sobre a cabeça de Thiago, depois vem outras de cor violeta, rosa, amarela; não são vaga-lumes. Abana os braços, assopra, sussurra “sai daqui”, e elas desobedecem, batem as asas na frente dele, encara com os olhos iluminados, e começam a se segurar em Thiago. Camisa, calça, antebraços, puxam seu cabelo, outras entram nas botas, uma de brilho violeta segura na orelha e sussurra:

— Ajude-nos!

Fadas - Convergência

As outras fadas repetem o pedido e piscam, brilham com mais força, e fazem piscar o olho do mapinguari, que olha Thiago todo colorido.

— Agora ele nos viu, suas filhas da puta! — berra quando começa a correr.

O monstro persegue Thiago. Passos nada ágeis, mas as pernas compridas encurtam a distância entre o humano. Um dos dois cascos encontra a coral e esmaga o corpo quando pisa, a serpente reage, ergue a cabeça acima dos cascos e morde a perna do monstro. Mapinguari continua a andar, indiferente ao réptil que rasteja na direção contrária com a parte do meio do corpo amassada.

Ambos saem da mata, prestes a descer a rua da casa de Thiago. O monstro começa a sugar o ar com a sua boca, aspira com força e arranca algumas fadas do corpo de Thiago. Incapazes de se segurarem, elas caem no abismo daquela abertura do estômago. Desacelera o passo e fecha os lábios, mastiga as pequenas criaturas que explodem gritos de dor e horror abafados dentro da boca. Engole todas de uma vez.

Entre choros agudos, as fadas sobreviventes desprendem de Thiago e flutuam na altura do único olho monstruoso. Acendem o brilho intenso a ponto de ofuscar a visão do humano contra a luz do céu noturno e fazer o olho do mapinguari lacrimejar. Desequilibrado, o par de cascos batem entre si e fazem o joelho dobrar, a coluna do monstro se curvar, e a cabeça atingir o portão da casa ainda inteira da rua, de grade de barras enferrujadas e pontas com setas afiadas que furam o olho do monstro. O sangue escorre pelos ferros dentro do globo ocular, desce pela rua, e mapinguari não levanta.

— Conseguimos, conseguimos! — grita a fada ainda na orelha de Thiago.

— Obrigado. — Leva a mão à orelha e acaricia as costas da fada com o dedo indicador. Provoca risadas na menininha voadora, mas ela se segura mais forte nele.

— Estou cansada, quero descansar.

— Está bem, fada, descanse. Você merece.

— Meu nome é m’Ylleihon.

— Vou te chamar de fada mesmo.

As colegas de m’Ylleihon se dispersam de volta a área florestal, e Thiago alcança a rua Maria do Valle. Atravessa a casa da Priscila Mariana, telhado derrubado dentro de casa, vê o sofá partido em dois na janela trincada.

— Estou cansada — repete m’Ylleihon.

Thiago alcança o lar. A janela do quarto dos pais aberta, o portão do quintal fechado. Portões escancarados na casa da frente, o Uno do vizinho não está lá, tampouco o Gol de 96. Volta a encarar o portão da própria casa, sem cadeado, abre a trinca e corre pelo quintal com o Palio estacionado e intacto. Abre a porta da sala, a lanterna ligada sobre o sofá. Pega e confere o cômodo, a luz brilha na tela da televisão, nos quadros de fotos ao chão molhado, entra na cozinha de cadeiras espalhadas, torneira aberta e água encharcando o piso, porta do fundo aberta. Volta a iluminar a mesa e enxerga o pedaço de papel toalha no centro com rabiscos feitos a caneta.

“Thiago,

“Fugimos com o Moacyr e seu irmão até a Igreja de Terra Preta. Nós tentamos te ligar, mas ficamos sem internet e você sabe como o sinal daqui de casa é horrível. Fique com Deus, que Ele te dê força e proteja a Joana, e faça a gente se reencontrar depois deste pesadelo. Te cuida.”

— Péssimo momento ao falar de deus, mãe. — Thiago aperta o bilhete. — Fomos abandonados.

— Estou cansada.

— Eu já entendi, fada!

— Eu…

m’Ylleihon espirra. Em vez de catarro, espalha pó violeta que flutua, alcança o rosto de Thiago e invade o nariz. O cheiro doce de uva toma conta de sua atenção, o pó entra no organismo e relaxa a musculatura, inibe a dor de todo o corpo, tira a força e a consciência de Thiago. Ele cai no meio da cozinha, bate a nuca na quina da mesa sem resmungar, sem dor. Costas despencam contra o chão e ali permanece, de olhos fechados. A fada deita sobre o seu peito e dorme.

Convergência, parte 2

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Thiago começa a tossir. Cheiros desconhecidos invadem as narinas, expelidos dos catarros do goblim, dos cabelos encharcados da bruxa gargalhando ao lado, das fezes de sirenas flutuando nos céus, do chulé do pé grande adolescente de apenas dois metros de altura, e da fumaça.

A névoa de ervas queimadas se concentra entre ele e a aberração anã. Aromas misturados ao fumo ardido arranha os pulmões do humano, inofensivo ao olfato do goblim, apesar de ele levantar a cabeça e procurar quem causa a fumaça.

Ele descobre, ou melhor, o responsável se entrega ao esmurrar o rosto do monstro. Braço largo e negro colide com a bochecha, trinca a mandíbula, entorta mais os dentes e arranca dois com o impacto. O corpo voa no outro lado da rua, bate contra o muro da casa vizinha a de Felipe, e deixa marcas de sangue da boca enquanto desliza até o chão. Sem mais sons temíveis, o goblim grita lamentos agudos, chora feito bebê.

Thiago vira o corpo, fica de joelhos, prestes a se levantar. Observa quem o salvou, a única perna negra, de bermuda vermelha, abdômen e peitoral de fisiculturista, músculos do ombro escondem parte do pescoço. De pé, Thiago ergue a cabeça e vê a dele, com um barrete vermelho acima e cachimbo nos lábios.

Saci - convergência parte 2

— O saci!

— Ora, ora! Temos um mó Sherlock Holmes por aqui.

— O que está acontecendo? Vocês vieram de onde?

— Eu, cumpadi, vim do Rio de Janeiro. Tava aqui de boa jejuando no monte do Olho d’Água quando essas paradas de gringo arruinaram minhas férias e nosso disfarce.

— Não entendo.

— A única parada que cê tem de entender é ralar o peito daqui. Vá buscar algum abrigo com os bichos do nosso lado e fique seguro, sem caô.

— Mas…

— Vaza! A sua mina já meteu o pé faz tempo.

Obedece o saci. Está perto de casa, bastaria subir o morro e depois descer a direita no Jardim Pereira. Fácil, se o percurso não estivesse lotado de monstros.

Desce a rua da Unidade de Pronto Atendimento, vê pessoas correndo até o prédio público, enxerga Joana atravessando ao lado de um ser gigante na entrada, com chifres na cabeça. Corre como os outros, pés pesados batem o asfalto, as costuras do sapatênis começa a afrouxar, suor impregna na camisa, tecido se levanta e expõe o umbigo e os pelos da barriga.

É atingido por trás. Coça a cabeça antes de atingir as costas no chão, pontas do cabelo queimam, arde quando passa a mão. Está em chamas!

Bate na nuca e consegue apagar o fogo, poucas brasas comparadas a quem o atingiu, e ela encara Thiago se recuperando da queda, bate os cacos no chão e grita com voz de mulher. O corpo de mula, a cabeça coberta de chamas.

Mula Sem Cabeça - Convergência parte 2

O corpo de Thiago entra em choque, disputa a vontade de fugir com o pavor que vibra suas pernas sem sair do lugar. Encara a besta do folclore brasileiro, ela estica o fogaréu da cabeça, bate os cascos da frente duas vezes e corre contra Thiago. Ruído de trote ricocheteia pelos ouvidos. Ele fecha os olhos, aceita o fim sem obter respostas desta noite macabra, e ouve o relinchar sobre o grunhido que interrompe o som do galope.

Abre os olhos e perde o fôlego. Uma mulher está sobre a mula sem cabeça, unhas encravadas na barriga, a outra mão no pescoço, as presas da boca sugando sangue do dorso. Tira os dentes da carne do animal e vira para o Thiago, boca suja até os queixos, olhos cor de brasa brilhando na noite clara.

— Entra logo no posto! — E a vampira morde a mula outra vez.

Corre pela calçada distante das duas lutadoras e só atravessa na frente do prédio. Tropeça entre as colunas da entrada, mas a mão do minotauro segura pelo pulso, melhor dizer, por todo o braço de Thiago. Agradece sem voz, apenas assente na altura do abdômen do ser mitológico e vá ao abrigo com os demais.

Minotauro - Convergência parte 2

Rostos conhecidos na sala de espera, poucos de nome, o resto é de ver todos os dias pelas ruas. Reencontra Joana, ajoelhada e aos abraços de uma amiga em comum.

— Horrível, Prima! A pior noite da minha vida. — Priscila Mariana apenas escuta o lamento de Joana. Encara Thiago com os lábios fechados, sobrancelhas apertadas, os braços morenos colocam mais força na amiga, segura a nuca dela contra o próprio ombro.

Ele anda até o outro lado da sala. Vasculha os outros rostos consigo, alguns moradores do Pereira. O vizinho da casa ao lado está com sua esposa, os filhos abraçados neles, o mais novo disputa o som das sirenes da ambulância com o choro. Todos distraídos demais, sem notar Thiago. Se estão aqui, onde seus pais…?

Vai até o balcão e pede o telefone emprestado ao recepcionista. Tecla os números, cancela por discar errado. Dedos trêmulos apertam a tecla do lado de novo, esmurra o telefone na base e tira, tenta outra vez, disca os quatro números comuns daquela região, mais dois, quase erra o sétimo número, aperta o último, aguarda a chamada, e uma explosão da rua antecede a queda de um poste, cai consigo os fios de energia, internet e telefonia; todos arrebentados. O telefone fica mudo, as lâmpadas apagadas, a sala ainda iluminada pela luz do céu.

Coloca o aparelho no lugar com lágrimas nos olhos. Tenta pelo celular, é em vão, nunca há sinal neste prédio.

Ventania rompe os vidros dos portões de entrada e resfria a sala, folhas dos arbustos voam da praça ao lado da Unidade até ali, no meio dos abrigados, entre o saci que trouxe os ventos fortes e duas crianças no colo. Agacha e deixa elas largarem cada um dos braços e voltarem ao chão.

— Preciso de ajuda, saci! — Thiago corre até o carioca.

— Meu nome é Saré, mané! Ou cê acha que só há um saci, uma vampira e um minotauro no mundo?

— Tudo bem, Saré. Preciso de ajuda.

— E eu tenho cara de gênio? Minha parada é proteger ocês, não ser seu empregado.

— Meus pais ainda estão por aí! Você deve proteger a eles.

— Se liga, tô fazendo isso mermo, protegendo. Só não garanto nada, somos poucos contra aqueles sinistros.

— Vocês são poucos contra um monte de sinistros, mas aí, quem são vocês? Porra, nós precisamos saber como vocês apareceram.

— Ah, tá! O mauricinho quer parar meu trampo pr’eu explicar a Convergência. Não rola, mermão. Já perdi tempo demais c’ocê.

Thiago olha ao redor, só ele resmunga. O resto de caras fechadas e corpos encolhidos contra as paredes, ou sentados nas cadeiras. Banheiro logo a frente, apesar da urina impregnada em várias calças, de crianças a adultos e adultas; também esvazia a bexiga.

Prende a respiração, fecha os olhos, aperta os punhos contra a palma. Dá o primeiro passo. Abre-se contra o perigo. Precisa de respostas, sobre essa Convergência, principalmente sobre os pais.

Avança. Tomba o ombro no de Saré, que meneia a cabeça e deixa ele passar. Alcança a entrada e ver o braço erguido da vampira em seu caminho, então o minotauro toca nela e faz ela abaixar.

Thiago está livre em suas escolhas, e decide ir às ruas iluminadas pela energia sobrenatural e passar pelos monstros a encontrar no caminho.

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