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Final Fantasy VII Remake (A nova versão do clássico)

Após tanto tempo de promessas, a espera acabou! Um dos jogos mais bem reconhecidos da franquia foi refeito, atualizado à tecnologia e jogabilidade, sem esquecer da reelaboração da narrativa, esta responsável por multiplicar as primeiras dez horas do jogo original em três ou até cinco vezes. A dedicação aos detalhes vai além da fisiologia dos personagens e da arquitetura da cidade, a história ganha mais espaço ao explorar as nuances de Midgard por mais tempo. Está na hora de conferir a nova versão de Final Fantasy VII, Remake feito pela Square Enix com a primeira parte lançada agora em 2020.

“O planeta sangra verde, como você e eu sangramos vermelho”

Midgard é a metrópole de recursos tecnológicos avançados graças às reservas de energia chamadas de mako. Construída em forma de círculo, possui dois pavimentos: o superior construído por plataformas conectadas e estendidas por toda a cidade, onde abriga os recursos avançados e as pessoas com melhores poder aquisitivo; já o nível inferior fica no solo da cidade, moradia de pessoas carentes cujo sol bloqueado pela plataforma superior é substituído por geradores de energia mako. Ambos os pavimentos são divididos em oito setores, cada um contendo usina de mako.

O grupo Avalanche repudia o uso de mako por razões ambientais, afinal a fonte desta energia é a própria vitalidade do planeta. A equipe deste grupo liderada por Barret decide invadir e destruir a usina do Setor 1, contando com a ajuda do mercenário Cloud Strife, ex-membro da SOLDIER, equipe de soldados aprimorados com mako treinados e desenvolvidos pela Shinra, a empresa que produz a energia, controla a cidade de Midgard, e possui ambições ameaçadoras a ponto de sacrificar a própria cidade ao satisfazê-las, e ainda assim perde a disputa do antagonismo principal — sim, aquele mesmo.

Grupo Avalanche - Final Fantasy VII Remake

Avalanche deixando sua marca em Midgard

“Eles querem fazer disso um espetáculo? Então bora dar um pra eles!”

Sem estender esta resenha nas repaginações visuais ― estas nostálgicas a recriar mesmo detalhes dos principais lugares do jogo original ―, vamos ao foco do blog e prosseguir na análise de enredo. A apresentação dos personagens de Avalanche e Cloud é feita em cenas consecutivas de ação, todas as falas são espontâneas e revelam comportamentos dos personagens. Batalhas travadas em posições e em turnos acabaram, o ambiente faz parte da jogabilidade, servindo de proteção contra ataques, levado em consideração na estratégia. Pode explorar pontos fracos ao mirar em determinadas partes dos adversários, algo nada sofisticado igual Horizon Zero Dawn, é apenas outro recurso a planejar ao longo da luta.

A comunidade do piso inferior

A comunidade do piso inferior

Após a apresentação, o Remake começa a mostrar a proposta de fazer o jogo inteiro focado em Midgard. De fato elaborar este lugar tão complexo em detalhes apenas a passar poucas horas na versão original foi um desperdício necessário ao suprir todo o conteúdo com a tecnologia vigente. Hoje há a possibilidade de os jogos estenderem o conteúdo por meio de expansões, dedicando maiores esforços na mesma ambientação, trabalho abusado pelos desenvolvedores desta primeira parte do jogo, para a alegria dos fãs. Entre os diálogos agora de fato falados, há muitas características acrescentadas em Midgard, novos personagens e conflitos a resolver. Wedge, Biggs e Jessie agora possuem os próprios arcos dentro da narrativa principal, tornando-os mais memoráveis por ter motivos ao jogador importar com eles.

“Pode crer. A gente já podia ter morrido umas mil vezes”

Ainda estamos falando em adaptar um trabalho antigo aos moldes atuais, e isso gera dilemas no tanto os produtores podem modificar e ainda manter a essência de Final Fantasy VII. Por exemplo: as caricaturas dos personagens foram o recurso usado a princípio a resumir comportamentos dos personagens em pequenos gestos, o que gerou a identidade deles, e portanto manteve na nova versão. Apesar de ser extravagante ver em projetos atuais, tem o apelo nostálgico capaz de prejudicar caso estivesse ausente. As cenas de ação beiram ao exagero, Cloud realiza acrobacias impossíveis enquanto empunha a espada do tamanho dele, e seus rivais fazem o mesmo e sequer suam. Esses exageros tornam as situações do jogo contraditórias, pois ao precisar disparar centenas de balas de Barret até enfim exterminar mesmo os adversários fracos, o mesmo não deveria temer quando alguém apenas aponta o revólver contra ele; isso sendo somente um exemplo dentre muitos.

Midgard - Final Fantasy VII Remake

Midgard: a cidade que nunca dorme

O jogo aproveitou a exploração de Midgard ao máximo durante a campanha principal, já as tarefas secundárias deixam a desejar pelo excesso de simplicidade. Nada além de ir a certo lugar e derrotar monstros, procurar determinada pessoa ou objeto, tem ainda alguns minigames capazes de variar um pouco. Já o que frustra mesmo na jogabilidade é o problema comum nas produções da Square Enix, bastante criticado na resenha de Kingdom Hearts 3, e apesar de ocorrer em situações pontuais nesta versão de Final Fantasy VII, deixa muito a desejar. Com lutas voltadas à ação, nem sempre deixa claro os movimentos dos inimigos, seja pela câmera mal enquadrada incapaz de mostrar o golpe sendo executado, ou pelo tempo de execução tornar inviável do personagem controlado pelo jogador conseguir reagir, por vezes mesmo tomando distância pelo comando de esquivar, ainda é atingido. Os golpes dos inimigos são capazes de interromper a ação dos personagens e prejudica, pune o jogador por algo sequer visto. É mais frequente na luta contra chefes, por elaborar combates mais criativos, porém prejudicados nesses problemas frustrantes nem sempre sob a culpa do jogador.

Final Fantasy VII Remake não substitui a versão original, e sim elabora uma nova criação a partir da ambientação já existida  — deixa tal proposta nítida em determinada etapa do jogo. Com elementos em comum, a jogabilidade é inovada, bem como o aprofundamento dos personagens melhor explorado por dedicar muitas horas em mostrar os respectivos dilemas de cada membro da Avalanche e dos protagonistas. Sem informar quantas partes serão lançadas, a Square Enix pode avaliar o retorno desta introdução da história, então moldar e aperfeiçoar a continuação, portanto seria bom melhorar o combate enquanto cria animações de brilhar os olhos.

“Todos conhecem a verdadeira natureza do mako, mas o povo ignora voluntariamente esse preço”

Final Fantasy VII Remake - capaProdutora: Square Enix
Lançamento: 2020
Série: Final Fantasy #7
Gêneros: aventura / fantasia / cyberpunk / RPG
Plataforma: PlayStation 4
Idioma: legenda em português

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Final Fantasy VI (O Uso Consciente do Poder)

A humanidade é herdeira dos sobreviventes da guerra do passado através do uso de artefatos poderosos obtidos de entidades em outro plano. Tal devastação fez essas entidades isolarem os humanos, restringindo sua capacidade sobrenatural e os abandonando ao avanço tecnológico. Assim criaram máquinas militares e plantaram a ambição, o de reivindicar o poder das entidades de volta, mesmo sendo à força. Pelo menos há pessoas motivadas a impedir esta iniciativa, usando o poder das entidades também, pois elas os concedem poderes na intenção de evitar o mal maior.

Final Fantasy VI trata desta obsessão dos antagonistas pelo poder. Lançado pela primeira vez em 1994 pela então Square Soft na plataforma SNES ― Super Nintendo―, mais de uma dúzia de guerreiros jogáveis estão dispostos a interromper a ganância sob qualquer custo.

“Nós, que somos poucos, podemos salvar muitos. A Guerra de Magi não pode se repetir”*

Os soldados do imperador Gesthal controlam a consciência de Terra, moça de capacidades mágicas inexistentes desde o fim da Guerra de Magi. Eles invadem a cidade de Narshe com objetivo de obter o poder da entidade congelada. Imprevistos acontecem e Terra recupera o controle de si, embora fique com a memória embaralhada. É resgatada pela equipe Returners, a força de resistência contra o império de Gesthal.

Enquanto os Returners visam pela oportunidade de resistência, o império busca o poder através da força. De força militar robusta, ainda ousa usar meios ardilosos, tudo em prol da ambição. O autor desses meios é Kefka, cuja aparência semelhante a bobo da corte destoa dos atos capazes de realizar, eliminando todo obstáculo pelo caminho.

“Não podemos deixar o mundo pacífico! As pessoas dão o seu melhor quando estão em guerra”

Começando por Terra, a jornada trará diversos personagens à disposição do jogador, todos únicos em personalidade, habilidade e atributos; e com o tempo é possível personalizar certas capacidades e atributos por meio dos Espers, as entidades relacionadas à Guerra de Magi. A aventura é infestada de monstros e outros inimigos poderosos que põem a capacidade do grupo à prova, sem falar nos recursos do império, o principal adversário.

Mesmo com vários personagens, o enredo motiva a conhecer mais de cada um na segunda parte do jogo, cujo evento culminante será oculto nesta resenha por evitar spoiler. Esta parte dá liberdade em explorar a aventura em qualquer ordem, expondo o jogador a desafios acima do nível caso extrapole. Por outro lado ao vencê-los é recompensado com novas informações de determinado personagem e itens úteis ao combate. Considerando as limitações da época e a quantidade de personagens, seria inviável esperar maior aprofundamentos de todos eles; os desafios darão respostas concisas.

“Nós humanos tendemos a deixar o passado destruir nossas vidas”

Ao contrário do apontado na resenha de Final Fantasy VIII, este jogo elabora justificativas aos personagens utilizarem o poder dos Espers sem deixar furos. Mesmo do poder deles serem a causa da destruição durante a Guerra de Magi no passado, os personagens do jogador o utilizam ao receber reconhecimento dessas entidades ou em circunstâncias favoráveis a ambos. O desdobramento após usar deste poder tem coerência e marca o fim do ciclo desta aventura.

Final Fantasy VI foi o último lançamento da série principal disponível no Super Nintendo. Hoje as limitações do jogo são nítidas, as quais nem cito ao evitar de serem confundidas com defeito, apenas ressaltei a consequência sobre o enredo de usar muitos personagens, esses que deram diversidade na jogabilidade na hora de compor a equipe e personalizar as capacidades.

* todas citações foram traduzidas pelo resenhista

Produtora: Square Soft / Square Enix
Plataformas: SNES, Playstation, PC, Game Boy Advanced, Celular (Todas são remasterizações da versão do SNES, com conteúdo secundário adicionado)
Gênero: fantasia / aventura / JRPG / steam fantasy
Série: Final Fantasy #6
Idioma: disponibilidade em português apenas nas versões recentes (PC e celular)

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Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos (folclore nacional)

Buscar mérito literário no mercado de ficção nacional é uma peleja sem fim. O desafio agrava quando os guerreiros empunham o lápis a batalhar na criação de cenários brasileiros, usando do nosso folclore a arma principal. Esta batalha vale a pena ser combatida, por nos trazer exemplos de aproveitar as tradições ou criaturas tão distantes de nós, apesar de compartilharmos o mesmo espaço. De riqueza quase exótica, tais livros podem ajudar-nos a descobrir sobre a terra onde pisamos. Dentre essas ficções há Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos, escrito por Gabriel Billy e publicado pela Avec Editora em 2018. O enredo passa no país homônimo ao livro, retratando o Brasil no período vitoriano de características fantásticas misturadas ao steampunk, onde curupiras, sacis, mapinguaris e outras criaturas folclóricas coexistem com aparatos criados pelos inventores brasileiros.

“― Vera Cruz tem muitos gênios, inclusive padres, como eu”

Vera Cruz tem dois reinos principais os quais guerreiam entre si. Lisarb é o maior em extensão cujo governo imperial foi substituído pela ditadura militar sob o comando de Kaput. A princesa Isabel ― filha do ex-imperador Dom Pedro II ― é foragida do novo governo de Lisarb, e durante sua busca em encontrar meios de retomar o poder tirado à força, é convidada a ir ao portal para Ivi Marã Ei e tomar o artefato do deus Jurupari antes de pessoas mal intencionadas.

O outro reino é Ouro Preto, lar do povo escravizado pela Lisarb. Preferem a magia em vez da tecnologia. A princesa Zaila guarda rancor do ladrão Pedro Malazarte, reconhecido por toda a Vera Cruz, este mesmo que seu pai, Chico-Rei III, pede à filha ajudá-lo a pegar a borduna de Jurupari. Encontram Urutau no caminho, o indígena sobrevivente da tribo dizimada pelo bandeirante de Lisarb chamado Domingos. Urutau possui o arco lunar, arma da deusa Jaraci, funcional apenas sob a presença da lua.

Além das terras humanas, Vera Cruz tem lares reservados a outras criaturas, entre elas a árvore Brasil e a Vitória Régia Sagrada, onde vivem os curupiras e mutucus, respectivamente. Ambos os povos são protetores da natureza, os primeiros fazem por meio da persuasão, já os mutucus optam pela violência. Por esta discordância, os dois povos travam conflitos. Mesmo sob trégua, os curupiras acusam os mutucus de envenenar a árvore Brasil. O príncipe Oiti deseja averiguar tal acusação, e para isso conta com a ajuda de Yataí, princesa dos mutucus e sua amante.

“― Não quero fugir. Quero unir nossas raças e um dia ser respeitado como um grande rei. E domar um porco selvagem!”

No momento de o leitor conferir este livro pela primeira vez, admirar a capa colorida com dirigíveis a indicar a ambientação steampunk, do título remeter ao antigo nome do Brasil, folhear e descobrir o livro dividido em dois conteúdos: a história em si e os apêndices cheios de criaturas e figuras históricas inspiradoras a ponto de fazer parte do romance; a primeira impressão é de ousadia a pegar ótimas referências e delas entregar esta história de fantasia nacional. As primeiras páginas do livro são compostas de prefácio, prelúdio e agradecimentos, depois ao começar cada capítulo há citação de autores ou pessoas importantes na história brasileira; tudo a elevar o trabalho presente no romance. Com tanta propagação do trabalho de pesquisa, resta pouco da obra em si, esta aquém do prometido no resto da edição.

O narrador onisciente alterna a perspectiva entre os personagens, realizando a transição por meio de cenas. Essa perspectiva não é respeitada, pois o narrador cita o nome de personagem recém-chegado na cena e desconhecido de quem acompanha a perspectiva no momento. Tantos pontos de vistas engrandecem a história de maneira positiva, caso aproveitasse a oportunidade de explorar as várias características do universo elaborado pelo autor. No caso deste livro, tudo ocorre rápido demais, mal deixa o leitor vislumbrar o cenário vigente e segue direto à trama central do livro. A ambientação do cenário por vezes é resumida em um ou dois adjetivos, e por usar tão poucas palavras, atropela ainda mais o ritmo. Caso fizesse os personagens explorar mais Lisarb e as consequências sofridas pela família da princesa Isabel, cenas capazes de exaltar a riqueza cultural existente em Ouro Preto, abordasse mais do povo indígena e mostrasse as façanhas de Pedro Malazarte em vez do narrador somente citar em várias passagens de ele ser o maior ladrão daquela história; cativaria o interesse do leitor ao longo da hitória. O universo do autor tem potencial, só faltou aproveitá-lo.

Tudo é esclarecido ao leitor, tão informativo a ponto de subestimá-lo. Diálogos são usados para apresentar os personagens entre si, trazendo conversas inverossímeis, pois em vez de falarem entre si, informam as características dos personagens. Certas explicações são feitas em três frases redundantes, inseguras da capacidade de compreender logo na primeira. A escrita deste livro é elucidativa, portanto deixa de ser literária.

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos é o debut de uma história com características impressionantes, possíveis graças à nossa história brasileira e folclore. Porém o desenvolvimento deixa a desejar, aproveita pouco da ambientação ― gigante pela própria natureza ― e exagera na explicação. Longe de desanimar, essas críticas têm o intuito de incentivar o autor a aprimorar na escrita, pois a história em si possui potencial.

“Era uma vez um mundo forjado com raios fúlgidos por um povo heroico de brado retumbante”

Vera Cruz - capaAutor: Gabriel Billy
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Saga: Vera Cruz #1
Gêneros: fantasia steampunk / aventura
Quantidade de Páginas: 184

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A Canção dos Shenlongs (Diogo Andrade)

Alojado em casa, sob horário de almoço, em parques ou na condução de trabalho ou estudo ― nada disso por causa do coronavírus, a resenha foi escrita antes da crise, então permaneça em casa o máximo possível, por favor ―, e entre outras várias situações possíveis de ler livros, todas elas são realizadas em ambiente normal, natural da região correspondente, seja Brasil, Portugal, na região metropolitana de São Paulo ou no pantanal. O leitor permanece acomodado neste tipo de lugar enquanto viaja na leitura por onde as palavras o levam, às vezes a outro país, ou traz a perspectiva do protagonista de situação social diferente, ou ainda convida a conhecer culturas peculiares as do leitor. Esta resenha trata de história sobre esse último caso, e mesmo assim ainda escrito por brasileiro.

A Canção dos Shenlongs é um dos livros publicados no meio independente mais bem reconhecidos, conforme as diversas avaliações positivas disponíveis na internet. Publicado em 2016 por Diogo Andrade, conta a história de Mu, monge guerreiro com muito a aprender a partir do conflito enfrentado nesta história.

“Como shenlong, acredito que todos somos irmãos em jornada”

Mu testemunha a expulsão de monge no templo pela primeira vez, e foi logo com Ruk, o seu irmão. Irmão de criação, cruzaram o mesmo caminho, desentenderam-se e depois ficaram amigos, tiveram a mesma oportunidade de seguir o caminho dos shenlongs no templo Shanjin. A vida segue sem Ruk, Mu continua nas tarefas do templo, no constante desenvolvimento shenlong sob ensinamentos de Sarujin, Shizu, Velha Gilga e Abade Kame, e na companhia dos amigos Nili e Aga, quando possível.

Shanjin é restrito aos monges, únicos cientes de sua localização dentro da floresta de Linshan, também devido a aura capaz de permitir apenas os monges de atravessarem. Ou assim deveria ser, pois os monges ficam apreensivos quando um espadachim desconhecido da maioria dos monges chega no templo, exige conversar com abade e compartilha a notícia surreal: o Império Housai pretende atacar os quatro templos shenlongs, no intuito de conquistar os Tomos das Formas protegidos pelos monges.

“Sejamos firmes como as raízes da montanha”

Narrado em primeira pessoa, Mu divide a narrativa entre contar a história e as impressões dele no momento narrado do passado. Compartilha a rotina de Shanjin, esta que o leitor assimila sem precisar de infodumping, pois Mu conta sobre a vida conhecida por ele, de conhecimento ainda limitado de onde convive conforme ele encara as novidades vindas pelo conflito relacionado a ameaça do Império. Assim o protagonista transmite a sabedoria compartilhada entre os shenlongs, da canção e demais aspectos da cultura, como o próprio meio de defesa.

Falando em defesa, o conflito acontece de forma direta, através de combate, cuja ameaça surge previsível em relação ao protagonista e determinado personagem, apesar de não mencioná-lo ao evitar spoiler por aqui, o conflito entre eles é óbvio e falha em impressionar. A narrativa abordada em primeira pessoa neste livro deixa a desejar nas cenas de reviravoltas ou ações, pois a narração de Mu cede espaço às impressões pessoais dele no meio do acontecimento, onde seria melhor vê-lo ativo em vez de reflexivo, afinal é protagonista além de narrador. Fora quem conta a história, há contradição também no comportamento de outro personagem, ora ele assume a falta de segredos entre os shenlongs, e momentos depois fica todo receoso, recluso aos monges a ponto de recusar a dizer o que sabe do problema eminente. É normal testemunhar alguém ocultando segredos por insegurança, beneficiar de tal segredo ou outro motivo, nenhum desses esclarecidos no enredo deste primeiro volume.

“Preparados para tudo, mas sem nos esquecermos de cultivar a harmonia”

Abordar cultura diferente da acostumada do leitor com eficiência traz conhecimento sobre a mesma, e fazê-la de forma literária fornece a vantagem  de acomodar o leitor a vislumbrar toda esta novidade. A Canção dos Shenlongs distribui partes da sabedoria dos monges em algumas passagens de textos onde a forma de interpretar deles mescla com a linguagem portuguesa escrita pelo autor conterrâneo, formando parágrafos belos de palavras decorrentes desta fusão. Ao entregar primeiro as passagens de sabedoria ordinária do templo onde acontece toda a história, a revelação posterior de capacidades extraordinárias, mesmo já vistas em outras histórias de temática oriental, surpreende no contraste de aparecimento sutil à possibilidade espetacular, incentivada pelo conflito a incitar os personagens e entregarem o melhor de si ao defender os princípios ensinados durante toda a experiência de vida.

A Canção dos Shenlongs aproveita a cultura oriental ao entregar algo peculiar na literatura brasileira. O autor soube aproveitar os conceitos conhecidos dos monges, e através da estruturação do enredo entregou revelações surpreendentes mesmo sobre aspectos comuns a este tema. Faltou aproveitar melhor a escolha narrativa quanto a escrita em primeira pessoa, equilibrar as descrições de ação e reflexão em momentos correspondentes.

“O verdadeiro adversário de um shenlong surge no reflexo da água”

A Canção dos Shenlongs - capaAutor: Diogo Andrade
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2016
Gênero: Fantasia
Série: Guerras Épicas do Império de Housai #1
Quantidade de Páginas: 97

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

A Guardiã — A Caverna de Cristal

A humanidade jamais será capaz de compreender tudo em nossa volta, e assim temos a eterna oportunidade de aprender. E se existisse algo além da nossa concepção? Um universo inteiro de onde fazemos parte, e ainda assim inalcançável. Os habitantes de lá nos protegem do perigo o qual desconhecemos, desconhecemos até os nossos salvadores! E eles estão lá, protegendo e criando novos guardiões de forma acadêmica, e de repente recebem uma humana tal como nós, exceto dela também possuir capacidades a fazer diferença nos conflitos a vir.

A Guardiã ― A Caverna de Cristal é sobre esta garota com oportunidade de proteger quem estiver próximo a ela. Escrito por Gabriel Gouvêa e publicado na Amazon em 2019, é o primeiro volume da saga A Guardiã.

“― Não importa a dimensão, eu continuo chegando atrasada nas aulas”

Ishtar seria outra garota comum. Mora em casa com a mãe, tem a obrigação de estudar ― embora perca a hora nas aulas ― e interage com os colegas de classe. Ela sofre alguns pesadelos e tem acontecimentos estranhos durante o dia. Algo surge na mão dela sem sequer lembrar de tê-lo pego, e mais tarde esbarra num senhor chamado Asim quando jamais poderia ter contato com ele, caso ela fosse alguém comum. Vultos sombrios de aparência humana e outros de animais perseguem Ishtar, querem o poder ainda desconhecido por ela, pois o senhor quem ela esbarrou é de dimensão oculta ao mundo dela, o “mundo original”, e ele a leva até a Cidade de Médita, onde pode aprender mais sobre suas capacidades e treinar para tornar uma guardiã feito ele.

“― Confie em sua intuição, é a única defesa que você terá”

O livro segue a jornada clássica do herói. Uma personagem descobre a oportunidade de poder fazer mais pelo bem das próximas, e parte a um mundo desconhecido onde precisa aprender os novos costumes daquele lugar enquanto enxerga novas possibilidades através das magias possíveis de realizar. Alheia a toda a realidade de Médita, o leitor descobre o novo mundo junto de Ishtar, desde as refeições e obrigações no treinamento dos guardiões, até as novas raças de características próprias.

De idade juvenil, o enredo comporta de modo adequado a leitores da mesma faixa etária da protagonista ― cerca de catorze anos ―, mostrando as obrigações pertinentes à idade, a formação de amizades e possibilidades de encontros, além de descobrir o caráter de pessoas difíceis de agradar. A descrição das dificuldades também respeitam a percepção da protagonista adolescente, não a antecipando de traumas viscerais ou perdas abruptas. Alguns jovens acabam vivenciando tais problemas mais cedo, por outro lado o autor tem a responsabilidade de achar o tom correspondente à forma pretendida em contar a história, e Gabriel conseguiu adequar a narrativa direcionada a quem deseja ler esta aventura de pessoas jovens num mundo original.

“Todo passado, já foi um presente que faria um novo futuro”*

Com o enredo bem estruturado, faltou aperfeiçoar a escrita, pois esta possui vários pontos a atentar. Começando pela incerteza do narrador ao descrever aspectos do cenário, usando palavras como “algo”. É preciso deixar claro o ambiente naquele momento da cena ao leitor, mesmo quando a protagonista desconhece onde interage, deve empregar palavras assertivas,  designar pelo menos a textura, temperatura ou outra característica do elemento citado, uma informação correspondente que deixe a prosa mais elaborada em vez de descrições vagas.

Também dá a impressão de narrativa insegura quando os verbos de pensamento aparecem com frequência. Seria melhor passar essa informação ao leitor a partir da maneira da protagonista se comportar frente as novidades e das situações já comuns a ela. Toda vez quando há o verbo “saber” é uma oportunidade perdida de mostrar a interação da personagem com o mundo. Descrever assim fica fácil ao leitor entender a história, além de outros recursos também usados no livro: repetir a explicação de determinado personagem sempre ao fazer a mesma ação, ter o diálogo que alguém diz a mesma coisa narrada no parágrafo anterior ou vice-versa e explica toda vez quando Ishta pensa em voz alta ao falar sozinha. São todos recursos que informam o leitor da situação vigente do personagem no romance, e todos deveriam ser descartados, no máximo usado vez ou outra. O perigo está em deixar a informação tão óbvia ao leitor a ponto de sentir subestimado pela narrativa.

Certos diálogos servem apenas de conteúdo informativo ao leitor sobre o mundo. Já foi dito: a protagonista sendo estrangeira daquele mundo ajuda a mostrar as novidades do romance ao longo da leitura, e poderia ser feito sem limitar as conversas entre perguntas e respostas, compromete a prosa a ponto de deixá-la desinteressante, ainda mais com o tanto de informação difundida, maior parte dela pouco aproveitada ― nem pela própria personagem, quando falha em uma atitude básica já explicada em aula do capítulo anterior. O livro poderia ter glossário para quem interessar mais sobre os aspectos daquele mundo, já no romance é preciso narrar o essencial, o que provoca diferença ao personagem naquele momento.

Precisa aprimorar a revisão. Há problemas de acentuação. A pontuação da vírgula até segue padronizada, porém diferente das regras gramaticais, e assim quebra o ritmo de leitura acostumada com a norma, como colocar vírgula após o nome do personagem quando jamais poderia separar o sujeito do predicado da frase. Há palavras em gerúndio quando deveria estar em particípio ― terminado em “ado” ao invés de “terminando”. Os advérbios cujas palavras terminam em “mente” são corretos, e ainda assim descartáveis em favor de melhorar o ritmo da leitura, pois ao dizer “imediatamente girou a chave”, o tempo gasto pelo leitor em ler o advérbio já o prejudica de perceber o efeito imediato descrito através do advérbio.

A Guardiã ― A Caverna de Cristal é uma leitura fácil sobre a aventura fantástica da jovem de potencial ainda a ser descoberto. Condizente com o público-alvo, a narrativa exagera no cuidado em transmitir cada aspecto do romance ao leitor, e assim prejudica o ritmo das cenas de escrita com revisões pendentes seja na correção gramatical, seja em aprimorar a fluidez na leitura.

* citação copiada conforme disposta no livro, com vírgula separando o sujeito e predicado da frase

“Nós somos os guardiões e trabalhamos para manter a paz nesse mundo”

A Guardiã — A Caverna de Crital - capaAutor: Gabriel Gouvêa
Ano de publicação: 2019
Editora: publicação independente (Amazon)
Gênero: fantasia / juvenil
Série: A Guardiã #1
Quantidade de Páginas: 333

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Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

Kingdom Hearts 3 (análise da ambientação e enredo)

A batalha decisiva entre a luz e escuridão acontecerá. Arquitetada pelo maior antagonista, os heróis se preparam até o último momento do conflito, ainda cheio de incertezas sobre a capacidade ser suficiente a combater os portadores da escuridão. Enquanto tudo isso, o protagonista traça a jornada do começo, precisa recuperar o potencial  perdido antes de ter o essencial, adquirir o poder equivalente a um Mestre da Keyblade, poder capaz de salvar os amigos, sob certo custo.

Kingdom Hearts 3 finaliza o ciclo dos conflitos existentes desde o primeiro lançamento desta saga, gerados a partir da ambição do Mestre Xenahort. Publicado em 2019 pela Square Enix, os jogadores voltam a explorar os mundos de obras da Disney antes da batalha a encerrar o grande conflito da saga.

“Que o seu coração seja a chave que guia”*

A apresentação do enredo a seguir já vai considerar os aspectos abordados na análise anterior de outros jogos. Leia esta análise caso ainda tenha dúvida ou esqueceu da trama de Kingdom Hearts, senão pule esta parte caso queira evitar spoilers dos jogos anteriores.

Kingdom Hearts 3 - cena do jogo

Após os acontecimentos em Dream Drop Distance, Sora fracassa no exame de tornar um Mestre da Keyblade por sucumbir à escuridão. O amigo Riku conquista o título de Mestre no lugar, e Sora perde as capacidades adquiridas desde então, precisando recuperá-las antes de despertar o poder necessário para salvar Aqua, a Mestre Keyblade condenada no Domínio da Escuridão. Desta forma Riku e o Rei Mickey tentam resgatar Aqua conforme Sora busca recuperar seu potencial com a ajuda de Donadl e Pateta.

A busca acontece enquanto viaja pelos mundos correspondentes a cada obra da Disney. Sora encontra os protagonistas daqueles respectivos mundos e ajuda nos problemas pessoais deles, todos tendo algo em comum: as ameaças decorrem dos inimigos já enfrentados por Sora antes, os antigos e novos membros da Organização 13. Sem batalha direta com a Organização, é preciso vencer os monstros trazidos por esta ou pelos personagens antagonistas daquele mundo, esses também influenciados pelos arqui-inimigos de Sora e demais Guerreiros da Luz.

[Fim dos Spoilers dos jogos anteriores]

“Toda vez que há necessidade, a magia acontece. Este é o seu maior poder, Sora”

A progressão da história acontece igual aos jogos anteriores. O enredo focará no conflito de cada mundo explorado pelo jogador antes de dar atenção à trama decisiva, esta destravada praticamente no momento final da jornada, salvo certas informações soltas no meio da discussão do protagonista com um dos arqui-inimigos. Acontece várias interrupções ao longo da exploração do cenário apenas a dar espaços a cenas cheias de diálogos, quando o conflito vigente é explicado e oferece dicas de pontos cruciais no enredo. Por ser o jogo com a proposta de encerrar todo o ciclo e resolver o conflito já claro desde o começo, toda esta exploração paralela desanima acompanhar a aventura que poderia receber o foco ao longo de todo o jogo, enfrentar os membros do grupo adversário em vez de deixar as batalhas decisivas somente ao final. Em vez disso, acrescenta elementos à saga poucos aproveitados neste episódio, prováveis de serem retomados no lançamento do novo jogo da franquia com ameaças diferentes da atual.

hub do gameplay

A jogabilidade de combate oferece incontáveis possibilidades de golpes. Desde os ataques em sequência com a Keyblade, uso de itens, magias e invocações presentes desde o primeiro jogo, tem ainda recursos de Kingdom Hearts 2 e Birth By Sleep, além de habilidades novas. Sora pode invocar brinquedos de parque de diversão e usá-lo contra os adversários, também há a novidade de cada Keyblade despertar uma forma exclusiva à Sora, com novas combinações de ataques, habilidades distintas e golpe final devastador.

Pode aproveitar e abusar de tudo nesta jogabilidade de combate insistente em falhar com a câmera. Os inimigos ficam espalhados por todo o cenário, percorrem de longe até atingir Sora sem ser exibido na tela do jogo pelo jeito focalizado, ou ainda difícil de ver no meio de tantas luzes e acrobacias feitas pelos golpes tanto dos aliados tanto dos inimigos. Ao escolher uma ação de ataque, Sora atingirá o inimigo mais próximo ou de mira travada. Difícil dizer qual das duas opções é a pior. A primeira falha em corresponder o alvo mais próximo de Sora com o visível na tela do jogador, que tenta mirar no oponente à frente e se frustra pelo protagonista acertar em outra direção; caso decida travar a mira, também será travada no oponente mais próximo com o mesmo problema da opção anterior, precisando alternar o alvo várias vezes até marcar o desejado, e o problema ainda persiste em outros aspectos: alguns inimigos podem escapar da trava ao teletransportar, e ainda deixa armadilha no lugar, que obriga o jogador a desfazer a mira sob a penalidade de ser atingido caso a mantenha; também acontece de a câmera distorcer a tela ao exibir o inimigo marcado, e assim dificulta a visualização da movimentação de Sora, pelo menos isso acontece em momentos específicos também, sob alguns cenários de batalha mal planejados. E mesmo com todas essas frustrações, o jogo permanece fácil mesmo na dificuldade superior a da normal. Talvez ofereça desafio de verdade no modo de dificuldade máxima acrescentada em atualização, porém o desafio pode ser angustiante sob os problemas citados neste parágrafo por interferirem no desempenho do jogador.

“Então vá. As trevas nunca estão fora do alcance”

Quem gosta dos minigames presentes nos jogos anteriores vai apreciar ainda mais os existentes nesse. De grande quantidade e nos mais diversos estilos, muitos podendo ser aproveitados a qualquer momento, no ponto onde salva o jogo e ainda outros em determinados locais. Também há o modo foto bastante interativo, pois há tarefas específicas de tirar determinadas fotos em troca de poder fabricar novos itens, ou encontrar Símbolos da Sorte, desenhos com o contorno do Mickey espalhados pelo cenário em diversas formas, esses também dão recompensas conforme a quantidade de Símbolos encontrados, e ainda libera uma cena pós-créditos.

Kingdom Hearts 3 - foto

Caso persista nas diversas tramas paralelas, algumas com pontas soltas jamais amarradas nesta versão do jogo ― talvez a ser esclarecida via DLC, e isso continua sendo ponto negativo por deixar de entregar no produto principal ―, poderá desfrutar do conflito prometido desde o começo da jornada deste episódio. Evitarei detalhes, mas caso queira descobrir por si, pule este parágrafo. Ainda haverá novos acontecimentos antes do desfecho, outros elementos desperdiçados ao longo das aventuras nos mundos da Disney que adiam o embate final por acontecer tudo na última parte. As batalhas anteriores a do chefe final continuam fáceis, combatendo inimigos poderosos ao longo da saga, e agora desapontam pela fraqueza. Ao menos com Xenahort é diferente, toda a trama principal direciona a ele, dono de uma personalidade ímpar e condizente com o desfecho reservado a ele . O antagonista surpreende mesmo ao corresponder as ambições e atitudes mostradas desde o começo.

Kingdom Hearts 3 permanece preso em mecânicas ultrapassadas tanto em construção de enredo, tanto na proposta de jogabilidade que apenas acrescenta elementos sem aprimorar o posicionamento defasado da câmera nos jogos anteriores. Traz muitos mundos inéditos da Disney na saga, foca no conflito principal apenas no final, e traz tantos elementos novos de uma só vez a ponto de ficarem perdidos ou — o mais provável— pendentes a aproveitar nos próximos lançamentos.

“A vitória é saboreada apenas ao vencer de forma justa”

* todas as citações foram traduzidas pelo resenhista

Kingdom Hearts 3 - capaProdutora: Square Enix
Ano de Lançamento: 2019
Idioma: inglês (nenhuma opção em português)
Gênero: RPG de ação / aventura / fantasia
Série: Kingdom Hearts #3

Site oficial do jogo

Melhores XPs Literários de 2019

O momento chegou! Deixamos o ano atrás, agora um tempo apenas de lembranças e muitas leituras, as quais algumas destacam entre os melhores XPs Literários de 2019. Oitenta ― sim, oitenta ― livros finalizados recebem a oportunidade de entrar em destaque nesse ano recém acabado, na verdade parte desta quantia já foi considerada e entrou no pódio do blog Ficções Humanas, e aqui os livros competidores devem ter passado por resenha neste blog ao longo de 2019,  e isto ainda deixa a disputa acirrada, com mais de cinquenta competidores!

A lista funciona igual o ano passado, primeiro vem a lista das melhores leituras do segundo semestre de 2019 com breve comentário do motivo de ser o melhor, então ao fim da postagem tem a lista definitiva dos melhores do ano, levando em consideração os livros eleitos no primeiro semestre. Sem mais delongas, vamos aos finalistas do segundo semestre:

10 – Lovestar

LoveStar - resenha

Esta ficção científica tem argumentos tão inteligentes a ponto de virar insanos! A sanidade foge da descrição do autor ao elaborar conflitos absurdos a partir da tecnologia imaginada pelo autor. Deve aproveitar a leitura com a mente aberta, assim desfrutará dessa escrita maluca e ainda assim entendível ― quer dizer, certo ponto da história fica inviável compreender dado o nível da maluquice, mas faz parte da experiência.

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9 – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Só mesmo um autor brasileiro muito criativo poderia escrever esta história steampunk tomando personagens de obras clássicas da ficção nacional. A escrita reflete na época onde a história acontece, desde a ortografia até o modo de falar dos personagens, e o autor ainda ousa alternar a narrativa em primeira pessoa de um a outro, moldando as frases conforme a personalidade do narrador e do meio onde é gravado esta narrativa epistolar. É uma viagem literária por meio das obras homenageadas.

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8 – A Balada de Black Tom

A Balada de Black Tom

“Se tanto critica, por que não faz melhor?”, um argumento tosco por ignorar a capacidade de crítico que desenvolve qualidades distintas as do autor cujo livro foi analisado. Pelo menos serve quando compara outro autor, e Victor Lavalle de fato entregou uma adaptação capaz de superar a inspiração original. A Balada de Black Tom reconta a história de O Horror em Red Hook, usando dos personagens originais além do protagonista elaborado pelo Lavalle ao apresentar a perspectiva da pessoa negra na história do universo de Lovecraft, tece críticas ao racismo do autor e reaproveita os elementos deste ao criar a sua versão da história.

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7 – O Gato Preto

O Gato Preto - resenha

Igual o anterior, reaproveita a história clássica de terror, desta vez a adaptando aos quadrinhos. Imagens e textos se complementam ao pintar a história do narrador condenado à morte, atormentado pelos simbolismos trazidos pelo seu animal de estimação tão amado. A história oferece informações ao leitor e deixa outras em aberto de propósito a permitir cada um tirar suas conclusões enquanto vê as ilustrações criativas, nascidas da inspiração do conto original.

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6 – Um Banquete Para Deuses Mortos

Um Banquete Para Deuses Mortos - resenha

E Gleyzer Wendrew aparece em outra lista entre os melhores do semestre com esta história sobre  o vampiro Drácula, um ser considerado deus nesta história. Uma história curta de enredo composto de forma criativa pelo autor, sem deixar de lado as qualidades descritivas quando trata de contar como o sangue flui sob o ataque das vítimas dilaceradas.

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5 – Desafiadores do Destino

Desafiadores do Destino

Outra HQ conquista esta lista, e ao lê-la é fácil perceber os motivos. Esta aventura steam fantasy é rica em mitologia ao criar a trama onde o grupo de guerreiros deve cumprir sua missão enquanto divide os quadros para apresentar o contexto deles, e ainda assim consegue entregar do melhor e na medida certa.

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4 – Sons da Fala

Sons da Fala - Resenha

Foi o conto de estreia do Projeto Cápsulas da editora Morro Branco, jamais poderia começar com escolha melhor. Responsável por trazer as histórias de Octavia E. Butler no Brasil, vemos em Sons de Fala as qualidades narrativas da autora nesta história sucinta, de descrição objetiva e ainda capaz de chocar. Ainda leu nenhuma história da Octavia? Aproveita este conto disponibilizado de graça pela Morro Branco e conheça as qualidades da autora.

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3 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas - resenha

Um personagem contando a própria história depois de morto, é esta a premissa do livro de Machado de Assis que soube aproveitar da situação criada e elabora a narrativa distinta por conta da perspectiva excepcional do narrador. Mesmo sendo publicada gerações atrás, ainda é capaz de divertir ao acompanhar os relatos ditos pelo protagonista no ponto de vista enviesado dele, possibilitando interpretações conforme o assimilado pelo leitor, e o próprio Brás Cubas brinca com isso em certos capítulos, supondo reações dos leitores ao longo do livro.

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2 – O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa - resenha

Aqui destaca duas qualidades dos autores brasileiros: a criatividade e o regionalismo nacional. A história acontece em alguns lugares do nordeste brasileiro, com situações cheias de fantasia, capaz de proporcionar ótimos momentos de humor sem deixar de denunciar as dificuldades vividas pelas pessoas locais.

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1 – S. Bernardo

S. Bernardo

Falando do nordeste, um autor alagoano conquista o primeiro lugar das melhores leituras do semestre. A história de S. Bernardo acontece no interior de Alagoas, narrada pelo próprio protagonista em busca de refletir atitudes passadas. Graciliano Ramos nos entrega o protagonista não para concordar ou inspirar, a proposta é refletir as questões envolvidas ao homem de campo, este influenciado a agir feito tal, e capaz de agir além quando tem mais oportunidades, apesar de ainda possuir pouco discernimento.

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Menções Honrosas:

Ninho de Cobras: entrega narrativa singular, desafiante e moldada com a intenção da prosa do autor
Favela Gótica: mistura os monstros mitológicos com as camadas sociais brasileiras de modo claro e excepcional
Adágio: pelo ótimo uso da ficção científica ao tratar de assuntos vigentes

Uma lista diversa, com certeza! De sci-fi a terror; quadrinhos, romances, e até conto. O mais impressionante: os três primeiros colocados do semestre são livros nacionais! Sem parcialidade, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Paola Siviero demonstraram qualidade na escrita a ponto de serem bem elogiados nas resenhas e tiverem pontuação máxima no Skoob e Amazon por mim. É um orgulho ver livros de conterrâneos conquistando as primeiras posições, sendo um deles ainda de autora contemporânea. Quem sabe em 2020 o pódio seja de autores brasileiros atuais? Será difícil, pois ainda pegarei livros de brasileiros clássicos e valiosos, bem como excelentes romancistas estrangeiros; o melhor a fazer é torcer.

Os melhores de 2019

Antes de dar a lista definitiva, lembremos dos finalistas do primeiro semestre, os quais competem com os dez destacados acima:

10 – A Arte de Escrever
9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1
8 – Mago e Vidro
7 – Ordem Vermelha – Filhos da Degradação
6 – A Pirâmide Vermelha
5 – Para Ler Como um Escritor
4 – A Revolução dos Bichos
3 – Fahreinheit 451
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

Sem quadrinhos e nenhum clássico brasileiro, e os concorrentes continuam sendo de peso. A hora é agora, as melhores experiências de leitura do ano 2019 são:

Melhores XPs Literários de 2019

5 – Fahreinheit 451
4 – O Auto da Maga Josefa
3 – S. Bernardo
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

E os melhores do primeiro semestre conquistaram os dois primeiros lugares de todo ano. Parabéns ao Ian Fraser por ser o autor brasileiro que mais chegou longe na classificação. E uma congratulação excepcional à editora Morro Branco por enfim trazer essa duologia da Octavia E. Butler ao Brasil, vinte anos após a publicação original nos Estados Unidos ― antes tarde do que nunca ―, e só agora tivemos a oportunidade de conhecer sua escrita, destrinchando críticas sociais, ambientais e políticas por meio desta distopia em dois volumes.

Por hoje é só. No fim deste semestre veremos quais leituras se destacarão ao longo de 2020. As expectativas são altas, pois a literatura é igual o universo, infinito em obras com qualidade excepcional.

Um Banquete Para Deuses Mortos (Gleyzer Wendrew)

O poder traz o respeito gerado por medo. Raça submissa ao mais forte, a humanidade aceita as condições impostas ao atingir um objetivo maior, a sobrevivência, resiliente na miséria sob a constante e vã esperança. Já livre da mortalidade, os deuses ficam imunes ao medo, gananciosos quanto aos prazeres e ousados por desconhecer limites. Toda história literária impõe conflito, este capaz de transtornar a realidade dos personagens retratados e transformar a ponto provocar medo aos deuses.

Um Banquete Para Deuses Mortos explora o medo dos vampiros, autoproclamados deuses desta história, tendo Drácula como a divindade máxima e protagonista da tragédia. Publicado em 2019 por Gleyzer Wendrew através da editora Constelação, as cento e poucas páginas deste livro exploram a decadência de um dos seres místicos mais reconhecidos da ficção gótica.

“Um cheiro podre, nojento, quase humano”

A história parte do Drácula já abatido nos tempos atuais, sobrevivendo sob o sangue de animais. Evita contato humano, é motivo de piada a esse ser vivo antes inferior, submisso a ter a honra de conceder o próprio sangue aos deuses feito Drácula ao passado. Incapaz de reagir ou mesmo interagir com o mundo moderno, ele remói o passado, relembra o fim do seu Império de cinco mil anos sob a tragédia a qual ninguém da espécie/divindade conseguiu superar senão ele, condenado por sofrer pela eternidade.

“Mas não havia justiça no mundo dos homens”

Em seguida a história conta o passado, quando os demais personagens são apresentados. Os pontos de vistas alternam entre Enákia, o humano que virou vampiro entre os outros cem fracassados no ritual de Ascensão; a líder das Damas Negras Natara, amante da Vanda ― filha do Drácula; e de Nosferatu, o filho do deus supremo banido pelo próprio. Mesmo tendo diversas perspectivas, Drácula conquista o protagonismo não só por imposição do enredo, as qualidades do personagem repercutem em cada acontecimento: é o deus mais poderoso e também o mais velho, ele relembra cada ponto de seu passado eterno, consciente do vínculo ao acontecimento vigente, seja das leis criadas junto aos Alto Conselheiros ou qualquer outra decisão em vida.

Sem focar na ação, explora os dilemas e as preocupações dos deuses. Com Enákia o leitor pode conhecer os passos iniciais na vida de um vampiro, desde a transformação até o ápice das capacidades evoluídas no fim da transmutação. O gore escoa pelas palavras ao destacar a apreciação dos vampiros pelo sangue, e a descrição traz muitas maneiras de explorar a degustação escarlate entre as demais situações envolvidas, pelo sangue trazer tanto a vitalidade quanto a morte aos personagens. O texto dedica poucas frases à ambientação do Império de Drácula, a narrativa é concisa nesse sentido e nem deixa a desejar ao enredo; soaria negativo apenas aos leitores de fantasia com preferência aos detalhes de onde acontece a cena, já neste livro a ausência compensa ao oferecer a experiência de leitura direta, assertiva quanto ao objetivo da narração.

“Nosferatu preferiria arrancar o próprio coração a manchar sua honra com um ardil tão humano”

Vampiros são denominados deuses, seja proclamado pelos próprios ou reconhecidos pelos humanos. A história destaca as capacidades extraordinárias presentes em todo o legado vampiresco, só que este livro trata da situação oposta. Depois de tanto exaltar as capacidades, a história revela a situação de fraqueza, expõe os deuses diante da incompreensão, denuncia a vulnerabilidade, por fim amedronta os deuses.

Só há ressalva quanto a transmissão da informação ao longo do livro. Sendo de leitura curta, algumas informações foram postas com frequência sem necessidade, pois o leitor seria capaz de compreender sem o narrador relembrar. Não acontece de fato a repetição, nisso o autor teve o cuidado de evitar, na verdade a informação repercute de outras maneiras, isso seria útil ao leitor em narrativas longas ou complexas, já aqui incomoda.

Um Banquete Para Deuses Mortos é um terror inusitado. Em vez de explorar o medo dos humanos, tão recorrente nas histórias do gênero, este livro apela ao aterrorizar deuses. Comprova a superioridade das divindades, mostram a presunção delas desta invicção, e então explora a decadência sob argumentos críveis à realidade elaborada por esta história.

“Sim, deuses não bebiam água, igual aos humanos. Bebiam sangue.”

Um Banquete Para Deuses Mortos - capaAutor: Gleyzer Wendrew
Editora: Constelação
Ano de Publicação: 2019
Gênero: Fantasia Sombria / Terror
Quantidade de Páginas: 164

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