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A Sociedade Cansada da Covid-19

Byung-Chul Han publicou Sociedade do Cansaço, uma coleção de ensaios a analisar a sociedade do século XXI e na predominância de mal-estar psicológico graças a ânsia pela produtividade e, digamos, obsessão pelo bem-estar. O curioso do livro é logo no começo citar a possibilidade de uma pandemia gripal como o medo eminente. Já no caso atual, uma década após a publicação original deste livro, estamos no meio da pandemia causada pelo novo coronavírus. Segundo o autor, deixamos de viver na era viral, por outro lado uma infecção mundial poderia comprometer toda a sociedade, dado a mudança de comportamento a ponto de inviabilizar a organização de uma defesa imunológica. E não poderia ser mais verdadeiro.

Enfrentamos a crise do coronavírus por mais de um ano e vemos o quanto falhamos em impedir o avanço da doença. Sem o plano de gerenciamento federal e o improviso defasado de cada governo estadual, perdemos mais de duzentas mil vidas enquanto os políticos perdem tempo em culpar o outro e promover a si, enquanto brigamos entre familiares e amigos sobre a importância de usar a máscara. Isso falando apenas do Brasil, muitos outros países falharam em lidar à sua maneira. E é possível analisar porque a sociedade permitiu esses fracassos na prevenção da covid-19 por meio do próprio livro Sociedade do Cansaço, por meio das críticas pontuais presentes nos ensaios a relacionar as situações vividas ao longo deste último ano.

A falta da necessidade do outro

O que faz o representante de toda a população declarar a imprensa que pouco importa ― “e daí?” ― o número de mortes em crescimento, e isso desde o começo da pandemia? O sujeito atingiu a conquista de poucos, foi eleito o presidente da república, por isso já se sente realizado. Ao cumprir o objetivo pessoal, falta estímulos para olhar a necessidade do outro, de cada família a perder um ente durante a pandemia.

Desde antes da crise sanitária, já repudiava parcelas minoritárias da sociedade, essas irrelevantes a ele, pelo contrário, o ato de as rejeitar o favorecia em manter a posição privilegiada. Fica exausto sob o foco de manter o privilégio, e com isso se isola até do partido que o elegeu. Todos os ataques e indiretas a adversários políticos é o sinal de cansaço, mas não cansado deles; ele é o pivô do desgaste. Byung-Chul comenta sobre o excesso de positividade, há tanto em si que o deixa saturado, esquece do problema alheio ― apesar deste “alheio” ser a população, portanto seria o dever dele de atender ― por estar ocupado demais consigo.

Partindo do presidente, há toda a cadeia eleitoral dele e até a de outros segmentos partidários agirem por conta própria em detrimento do bem comum. Em suma, a sociedade deixou de ser disciplinar. No lugar de obedecer ao responsável, seja o patrão ou o estado, os indivíduos desta sociedade seguem os objetivos impostos por si, em busca de alcançar o que acredita ser ideal na sua vida. Assim estimula o contraste da necessidade da saúde pública em conter a infecção do novo coronavírus, o que de fato a pessoa acredita saber da doença e no quanto subestima as medidas de controle no intuito de manter os objetivos pessoais em prioridade.

Isolado em seu desempenho

Agora é a vez de falar de as pessoas insistentes em trabalhar nas áreas não essenciais mesmo durante a quarentena. Um assunto delicado, impossível julgar a todos a trabalharem de qualquer jeito, mesmo burlando a fiscalização por haver muitos brasileiros carentes de renda. Precisam garantir o sustento da família quando nem têm condições de implantar meios seguros de trabalhar, como vender apenas por delivery ou trabalhar de home office. Por isso as críticas a seguir servem a quem tinha condições de trabalhar de forma segura ou garantir isso aos seus funcionários, já esses tiveram de adaptar conforme a demanda.

Na verdade, nem é preciso de o superior cobrar do funcionário, ele já o faz por questão de desempenho, do esforço em atingir as próprias ambições. O funcionário quer garantir a melhoria de vida a si e sua família, tem motivos pessoais o suficiente a entregar o melhor no trabalho em troca de ascender na carreira, às vezes a insegurança de perder o emprego no mercado de trabalho concorrido já é motivo o suficiente. Portanto tem de trabalhar independente da condição, assim ele arrisca no meio da pandemia, sem necessidade de ouvir uma reprimenda do patrão. Já quanto as recomendações dos profissionais de saúde, cientistas ou mídia especializada, na prática afastam os objetivos do indivíduo já insubordinado, portanto nem quando o governo impõe restrições a conter a disseminação do vírus motiva participar dessas medidas de controle, pois ele está centrado no desempenho pessoal a garantir o sustento da família.

Esta insubordinação do funcionário oferece a compensação de entregar resultados melhores e ágeis no trabalho, por isso os superiores até incentivam tal prática, tira a responsabilidade deles de cobrar o funcionário, pois ele mesmo se encarrega da pressão. A consequência é um fator já presente antes da pandemia, a ponto de Sociedade do Cansaço já citar, e agora os noticiários mostram cada vez mais trabalhadores afetados: as crises de burnout, o sobrecarregamento capaz de esgotar todo indivíduo. É questão de tempo de tornar os indivíduos de desempenho em fracassados, e a pandemia diminui esse tempo.

Virtualização = descaracterização

O modelo de negócio das redes sociais garantiu a alta de lucros na pandemia, afinal os usuários acessaram por mais vezes durante o isolamento social. No ano passado também teve o lançamento do documentário O Dilema das Redes Sociais ― comentado neste outro post ―, que escancara a manipulação dos usuários por meio dos dados e as consequências geradas pelo conteúdo extremista fácil de disseminar pelo sistema.

A questão do desempenho pessoal penetra até o mundo virtual, ainda mais pelo sentido quantitativo. O número de amigos/seguidores alimenta o ego individual, além de proporcionar a demanda de atender a esses usuários conectados, obrigando ao indivíduo abrir mão do próprio caráter. Adapta o comportamento no objetivo de manter tal número em crescimento, flexibiliza a si em prol da eficiência comunicativa. Jaron Lanier comentou uma experiência dele ao tentar atender a demanda do público ― isso já bem antes de todo o alvoroço das redes sociais ―, começou a elaborar textos que ele discordava ou proporcionava discórdia entre os leitores, assim atraía comentários e visitas ao site, índices quantitativos de bom desempenho, sob o custo de o prejudicar como pessoa.

Além dos problemas decorridos da interação virtual, há o do sistema de processamento computacional. A atividade humana está moldada em desempenho, já os computadores são criados sob esse pretexto exclusivo. O sistema engole dados incessantemente, então processa essas informações massivas em tarefas difíceis de um humano acompanhar. Sob certo aspecto, o computador chega a ser burro, incapaz de hesitar e refletir sobre as consequências desse processamento.

O modo de vida humano é incompatível com a rotina de processamento do computador, mesmo assim acompanhamos nossas tarefas a partir do desempenho dele. Domina as pessoas pelo excesso de informações estimuladas pelo acesso instantâneo ― gera recompensa em tão pouco esforço ― que impulsionam reações, seja de admiração ou repúdio, este último mais presente. As informações geradas através da virtualização criam uma camada entre o indivíduo e a realidade, molda noções individualizadas do mesmo fato, pois sistema da rede social personaliza a transmissão de conteúdo de cada usuário. As pessoas comunicam a partir dessas experiências personalizadas e muitas vezes se desentendem sem perceber, por isso muitos ambientes virtuais estão infectados pela polarização a refletir ações intolerantes no mundo real.

Desempenho molda a vida

Byung-Chul criticou a falta de transcendência na Sociedade do Cansaço, pois o estimulo do desempenho reduz a vivência pela vida em si, prolongada a qualquer custo, sem necessariamente proporcionar equilíbrio a ela. Ele diz de a sociedade endeusar a saúde, e por consequência, tornar esta necessidade a uma entidade de crença na verdade nos distancia. Em vez de tornar as pessoas condizentes à situação da população nesta crise de saúde pública, elas buscam maneiras de se provar saudáveis diante de todos para assim conquistar novas oportunidades.

Na prática virtualizada, parte da sociedade empenha a maneira de viver em conforto no meio da pandemia ao invés de sobreviver a ela. Já a realidade está comprometida com o número de infecções e mortes em constante crescimento e pelo negacionismo perante a vacina dada pela insubordinação a órgãos repletos de profissionais competentes, pois entregam resultados incompatíveis ao empenho esperado por esta parcela da população. A Sociedade do Cansaço não apresenta soluções, nem eu tenho a qualificação de a fornecer, só posso colaborar através de um palpite passível de discussão. A sociedade é composta por indivíduos, portanto cada um precisa fazer sua parte, buscar discernimento alheio ao desempenho e colaborar pela vida ao próximo indivíduo, pois de um em um, chega a todos.

Livros comentados

Capa do livro Sociedade do CansaçoAutor: Byung-Chul Han
Tradutor: Enio Paulo Giachini
Publicação original em: 2010
Edição: 2019
Editora: Vozes
Gêneros: ensaio / não ficção
Quantidade de Páginas: 128

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Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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Como Sobreviver ao Dilema das Redes Sociais (e da Google)

Netflix lançou O Dilema das Redes Sociais em setembro, no mês anterior ao desta postagem, e desde então várias matérias e, é claro, postagens nas próprias redes enaltecem os argumentos apresentados pelos entrevistados, afinal muitas das situações já eram conhecidas, visíveis a quem estuda ou interage neste meio de maneira profissional. O documentário é eficiente por dar voz aos profissionais responsáveis pelas ferramentas viciantes, arrependidos de participar delas, além de demonstrar uma família prejudicada do dilema por meio de encenações dramáticas.
Eu já conhecia boa parte das características mostradas no documentário, confesso de ter falhado em reconhecer algumas delas serem parte do problema a gerar polarização e distração, de entender o quanto eu também fui afetado. Depois de assistir, comprei o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, cujo autor Jaron Lanier também aparece no documentário, e ao ler aprofundei mais do quanto somos manipuláveis e baratos ao fornecer nossos dados e com eles as nossas competências às plataformas digitais. Contribuímos a tornar pessoas obsoletas, mesmo as de formação acadêmica.
Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais

Deletar ou não deletar, eis a questão!

Somos testemunhas do quanto a polarização incentivada nas redes sociais por meio do mecanismo de engajamento favoreceu inúmeros incompetentes a assumir cargos no governo público e até mesmo no meio privado, enquanto a população fica mais acomodada, sem iniciativa de buscar informação. Depois de tudo isso, a vontade imediata foi de largar as redes sociais, criar uma nova conta de e-mail e abandonar o Gmail. Percebi a ansiedade, então permiti tempo para refletir quanto a alternativas depois de lidar com tudo isso. Apesar de ainda não ter todas as respostas, apresento neste texto os primeiros passos a tornar o uso da rede mais saudável na minha concepção, tanto na perspectiva do usuário, quanto na produção de conteúdo.

O mal do Engajamento

Conforme vimos no documentário e Jaron faz questão de mostrar em seu livro, os programadores das plataformas digitais são gente feito nós, há nenhum vilão cartunesco por trás dos servidores do Facebook ou Google planejando manipular pessoas a brigarem entre si, por vezes levando a discussão virtual a agressões reais. Mesmo sem esta má intenção, na prática ocorre graças ao modelo de negócio que sustenta financeiramente essas empresas.
O Suposto hacker - O Dilema das Redes Sociais

A máscara está caindo, e por trás há só mais outro rosto humano

Vamos chamar toda campanha publicitária ou partidária existente nas redes sociais e páginas indexadas na SEO ― Search Engine Optimization, o mecanismo de classificação dos resultados mais atraentes em sites como da Google ― de produto. Este produto torna rentável ao proprietário quando atrai muitos usuários ativos nele, e serem ativos significam ir além de seguir e curtir a publicação deste produto. É comentar, compartilhar na própria timeline e dali gerar mais interações. Respostas de comentários também são ótimos índices de sucesso neste meio, isso segundo as métricas da postagem, pois ao conferir o que de fato escrevem, é bem provável encontrarmos discussões ofensivas.
Um lançamento de game exclusivo de certa plataforma gera críticas dos fãs da plataforma concorrente. A estreia de filme ou série ter protagonista homossexual ― às vezes basta ser feminina e hétero ― atrai críticas de gente alheia ao público-alvo. Nem preciso comentar quando a postagem é sobre política. Todos os participantes das discussões favorecem essas publicações, e ainda puxam consigo alguns extremistas que se destacam, atraem seguidores e viram outro “produtor de conteúdo”, abusam desta estratégia ao promover nessa interação online enquanto as empresas tentam promover o produto real.
Entre o dono do produto e os produtores de conteúdo competentes ou desses citados no parágrafo anterior a conseguirem atenção apenas por xingamentos, há inúmeros usuários sustentando o engajamento deles sem terem consciência disso por acreditarem contribuir com a sua opinião ou militar pela causa. Eles desesperam e caem na armadilha de tumultuar a rede, alguns tornam mais desses produtores de conteúdo vazio, outros apenas repetem informações prováveis de serem equivocadas. Ninguém tem de provar nada a ninguém, no entanto todos deveriam se informar melhor. Promova qualidade a si em vez de contribuir no engajamento alheio sem ganhar por isso.
Polarização - O Dilema das Redes Sociais

Polarização boa, é polarização inexistente

Aos produtores de conteúdo, é bom considerar remover a seção de comentários do seu site e dar menos atenção a opiniões desperdiçadas na timeline do perfil social. Vocês podem argumentar que assim perderão feedbacks construtivos. Têm razão, ainda há pessoas online dotadas da melhor das intenções, e por elas seria bom informar um endereço de e-mail para o qual podem te comunicar sobre o conteúdo. Dará mais trabalho transmitir o feedback, e isto favorece os interessados a fazerem o esforço de conversar em vez de tocar na barra de comentário, escrever palavras feias e enviar. Ainda haverá usuários a mandarem e-mail ofensivo, assim basta classificar como spam e focar nos interessados em contribuir. Aliás, caso tenha gostado deste texto ou queira contribuir com complementos ou críticas, mande mensagem no e-mail araujo.die93@gmail.com — caso eu saia do Gmail, mudarei o endereço aqui.

Esqueça a quantidade

Algoritmos das plataformas digitais agem conforme os dados recebidos, e antes de classificar esses dados e formular informações, os dados são números. Precisou averiguar diversos usuários com publicações de fotos em tons azuis, escuros ou escalas de cinza, para o sistema supor desses serem suscetíveis a depressão. Antes de identificar os jovens capazes de agredir a si mesmos, foi preciso analisar o padrão de comportamento online dos muitos que já o fizeram, assim experimentaram adequações de, segundo os desenvolvedores, prevenirem novos casos. É uma afirmação enganosa, deixa de ser prevenção quando o estrago está evidente, a iniciativa é na verdade a tentativa de solução a parar novos incidentes.
Os algoritmos de SEO também consideram os números, a quantidade de visitas de determinada página classifica a eficiência dela, depois cruza outros índices, os que classificam usuários nos diferentes tipos de perfis, por fim indica as páginas bem sucedidas a quem é interessado no conteúdo delas. Personaliza o uso online onde o usuário navega, mergulha e afunda em uma bolha sem saber. Depois de conhecermos inúmeros adeptos a teoria da Terra Plana graças a essa personalização de pesquisa online, pouco adianta responder que deixará os conteúdos do tipo sejam menos visíveis, o estrago já foi feito, os perfis transmitem as teorias defasadas entre si.
SEO - O Dilema das Redes Sociais

Há tantas características de SEO, que perde espaço das características de bom conteúdo

O mesmo pode acontecer no seu projeto ao considerar os objetivos na quantidade de acessos ou de público. Jaron desabafou de quando trabalhou como redator no site HuffPost e tentou atingir o público cada vez maior. Acabou por publicar conteúdo em que nem acreditava, só porque os visitantes online gostariam de ler e assim o aproximava da meta. Também começou a escrever sobre assuntos revoltantes, pois provocava os leitores a alimentarem o engajamento.
Outra estratégia bem comum, inclusive visível a muitos portais conhecidos da internet, é de exagerar na quantidade de matérias diárias, assim o usuário pode navegar entre elas e prolongar o tempo de interação no site. Isto prejudica o bem-estar das pessoas por sobrecarregar o tempo gasto online, e afeta também a qualidade do conteúdo, pois deixou de focar nisso em prol da quantidade tanto de produtividade quanto de acessos. Uma hora o público perceberá a superficialidade da matéria, e no fim você perderá os números inconsciente do motivo.
Muitos canais da plataforma YouTube tentaram seguir as diretrizes do site em publicar vídeos com frequência semanal, muitos desses sobrecarregaram e desanimaram de trabalhar por lá, ficaram em hiato, migrou a outras plataformas ou desistiram da periodicidade de vídeos. Certos canais conseguiram manter essa rotina de publicação, já eu parei de os seguir, deixaram de ser atraentes, e hoje perdi o costume de frequentar o YouTube, só vejo o que de fato me interessa ou atenda uma curiosidade particular.
YouTube

Rosto todo desfigurado, mas desde que atenda aos algoritmos de recomendação…

Atingir a quantidade corresponde ao sucesso momentâneo, sob prazo de validade. Caso produza trabalho online, foque a longo prazo e na progressão pessoal. Esqueça a meta do milhão de seguidores, talvez no futuro você consiga mil capazes de sustentar a sua produção porque acreditam valer a pena dedicar o tempo contigo em vez de desperdiçar inúmeras matérias lidas equiparáveis a metade de uma útil.
Atualizo este blog toda segunda-feira, às vezes consigo dois conteúdos na semana e publico na quinta também, então você precisa visitar o meu site somente uma vez por semana ao acessar conteúdo novo. Acabei de sugerir para sabotar o ranking do meu site, abrir mão das minhas visualizações, mas a minha utilidade na internet é garantir no máximo dois conteúdos novos toda semana. Só acessaria o XP Literário além disso para pesquisar algum conteúdo antigo. Recuso a encher o blog com postagens ínfimas até capazes de tomar o tempo de navegação e favorecer os meus índices no Google Analytics. Eu uso este espaço virtual a compartilhar o pouco que aprendo, longe de conquistar um sucesso superficial.

A timeline é infinita, nosso tempo não

Continuando no raciocínio dos sites prenderem a atenção, lembremos dos feeds das redes sociais. Deslizamos a tela dos smartphones e sempre encontramos postagens novas, com propagandas no meio. O nosso esforço é pequeno, em troca recebemos atualizações sobre a situação de nossos amigos online, as novidades dos noticiários, as conquistas daquele influenciador contente em compartilhar contigo um produto da marca obtido de graça ― ou foi pago para promover ― graças a você, seguidor fiel. Tanta gente tendo sucesso virtual, e você apenas deslizando o dedo no celular ou girando a roda do mouse. Começa a sentir apreensão, lembra apenas os fracassos na própria vida. O pior é a probabilidade dos supostos vencedores que você vê na tela também fazerem o mesmo é grande. As postagens infinitas consomem o tempo e diminuem a autoestima, a única vantagem dela é tornar viciante, e isso beneficia apenas a plataforma.
Tristeza na timeline - O Dilema das Redes Sociais

Tristeza na timeline

A solução é dada por Jaron no título do próprio livro: saia das redes agora. Já eu proponho uma alternativa, evite o feed infinito e assuma o controle. Escolha quais canais e pessoas acompanhar naquele momento e vá direto no perfil deles, assim olhará publicações antigas, já vistas da respectiva timeline, e pode se dar por satisfeito. Evite os perfis viciados na quantidade de postagens e lhe tomam tempo. Enquanto trafegar assim, lembre de evitar as seções de comentários, algumas podem estar contaminadas de polarização; em vez de contribuir no engajamento, favoreça o contato com a pessoa ou produtor e mande uma mensagem privada.

Seja mais ativo, e dê mais valor aos seus dados

Já reparou em quanto há novas funcionalidades que entregam resultados em vez de garantir a você ir atrás? A barra de pesquisa do Google é a mesma, apesar de ter um quadro no lado direito com as informações mais prováveis de os usuários quererem, portanto podem parar ali mesmo. O Google Tradutor converte a expressão no outro idioma conforme você digita, mas isso te ajuda a entender mais sobre esse idioma? No máximo tem a sugestão de outras palavras correspondentes a um resultado melhor as quais você irá selecionar e ensinar o sistema qual é a melhor opção de tradução, e você ainda nem entende o porquê.

Google

Nem todo estudo precisa começar dali

Os donos das plataformas digitais querem influenciar o consumo. Às vezes acertam e contribuem em entregar algo marcante, seja o curso ideal a desenvolver novas habilidades, seja música ou livro novo capaz de te distrair. Só evite de dar toda a confiança a esses algoritmos e descubra outras possibilidades por si ou pelas indicações dos amigos, então vá atrás você mesmo, depois nem precisa publicar a respeito. Faça caminhada, tomando cuidado a evitar infecção por coronavírus, ou caso faça parte do grupo de risco, planeje esta atividade quando a pandemia acabar. Veja a paisagem sem ter de postar foto no Instagram. Anote ideias valiosas para a vida, não um tweet. Quer empreender, então veja como pode ser feito no mundo real antes de promover no virtual.
Jaron fala em largar a rede social para forçar as empresas mudarem o plano de negócio. Minha sugestão ― talvez ineficiente pela minha inocência ou falta de referências, qualquer coisa manda um e-mail ― é tornar cada usuário mais valioso. Depende de cada um de nós. Precisamos ser mais exigentes e oferecer menos do nosso tempo online, valorizar o conteúdo em vez do sucesso da pessoa revertido em angústia a nós por não atingirmos o mesmo patamar. Parando de encarar os números, podemos obter mais resultados com menos seguidores, sendo esses os exigentes a valorizarem o nosso trabalho.

Referências

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais
Autor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190
O Dilema das Redes Sociais
Diretor: Jeff Orlowski
Estreia: 2020
Plataforma: Netflix
Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Como o Facebook manipula os seus sentimentos
Como o YouTube impulsiona teorias conspiratórias sobre Terra plana
Does quitting social media make you happier?  Yes,  say young people doing it (reportagem em inglês)
Center for Humane Techonology — organização mantida por Tristan Harris, o principal entrevistado no documentário da Netflix, o site está cheio de conteúdo (também em inglês)

Para Onde Vão os Suicidas? (Setembro Amarelo)

Suicídio é questão de saúde pública, apesar de sua fatalidade impactar as pessoas de maneiras individuais. Também gera comoção em pessoas inspiradas a apoiar a prevenção, pesquisar sobre o assunto tabu e escrever quanto a isso em vários formatos, seja em matérias, contos, estudos ou histórias específicas. Esta resenha tratará da história Para Onde Vão os Suicidas?, escrito por Felipe Saraiça e publicado pela PenDragon em 2017.

“É o seu corpo quem está preso. Você está livre”*

Angelina nasceu sem mãe, falecida no momento do parto. Permanece na família do pai a prosseguir na vida na companhia da nova esposa, e dela teve outra filha. Angelina encerra a própria vida, e em vez de repousar no além, encontra com a deusa Ixtab a lhe propor um desafio. Antes revela a situação de Angelina, em coma diante da família, e avisa: o corpo permanecerá assim enquanto ela aparecerá apenas a algumas pessoa para tentar impedi-las de cometerem suicídio.

“Na aglomeração de emoções, cada um vivia seus problemas”

Angelina aborda os casos em sequência, focando na pessoa vigente e só depois conhece a próxima de intenções suicidas. O narrador intervém no início de cada caso e apresenta o novo personagem, sendo onisciente, sabe de tudo sobre os envolvidos e mostra a situação dele ao leitor conforme a necessidade. A escolha da narrativa é certeira em dar oportunidade de explorar a intimidade de cada personagem o qual necessita de atenção, e então corresponder à missão de Angelina.

A boa intenção do autor é nítida em relação ao assunto principal do romance, repercutindo em todo o livro ao elaborar frases motivadoras entre os conflitos das pessoas a serem salvas pela Angelina. Porém abordar o tema do suicídio também exige responsabilidade, senão a boa intenção pode acabar causando o efeito reverso. Angelina resolve todos os casos de forma simples, indo direto ao assunto, falando do suicídio; enquanto os personagens reagiram bem ao confessar da intenção a outras pessoas, na realidade há risco de perturbar o indivíduo já conturbado pela intenção. Primeiro deveria estabelecer uma relação de confiança, conversar em busca de compreender os sentimentos do personagem, e só ao ter afinidade, poderia falar do ato pretendido, se planeja ou já possui os meios do qual deseja executar.

Falando dos meios, Angelina vê os itens escondidos pelos quais determinada pessoa pretendia usar, tendo a oportunidade de removê-los ― tirar os meios de suicídio do alcance da pessoa está entre as melhores maneiras de prevenir. Faltou cuidado ao apresentar justificativa ao desejo de cometer o suicídio, pois mesmo que a pessoa acredite ser determinado motivo, a causa tem múltiplos fatores, uns recentes, outros manifestados há mais tempo em períodos intermitentes, portanto afirmar qual problema culmina na intenção de interromper a própria vida oferece uma mensagem equivocada. O autor fez bem em evitar de dar detalhes nas formas as quais os personagens iriam executar na maior parte dos casos, pena haver exceção, esta ainda descrita de maneira violenta, de agressão direta ao corpo.

“Ser diferente pode ser perigoso”

A boa intenção do romance também precisaria de atenção à escrita, sem o devido polimento esperado a de livro publicado. Há frases em parágrafos longos a jazerem dispersas, incapazes de conectar às demais e por isso acabam prejudicando o foco na leitura. Por exemplo: o parágrafo foca na interação de dois personagens, quando uma frase interrompe esta interação e descreve o clima no cenário. Os diálogos falham na veracidade pela intenção de ressoarem mensagens morais, sempre levando ao assunto em vez de mostrar a história acontecer. Verbos de pensamento desencadeiam descrições rasas, contando os sentimentos do personagem em vez de mostrá-lo viver, interagir na cena. Existe falha na revisão inclusive no título, pois “onde” corresponde a localização de um lugar, então ao apontar o destino de alguém a ir até lá, deveria ser Para Aonde Vão os Suicidas?

Mantendo o título na forma publicada: Para Onde Vão os Suicidas? careceu da responsabilidade em tratar do assunto, o qual esbanjou de boa intenção. Todo o contexto e a exploração fantástica entorno do romance possuem excelentes elementos capazes de motivar leitores a desejarem melhorar as atitudes quanto a prevenção do suicídio. Caso tivesse o empenho de pesquisar as melhores maneiras de abordar o assunto, seria uma obra exemplar a conscientizar jovens ― possível público-alvo do livro ― a ter o cuidado de abordar diferentes casos de intenção suicida.

“Deixe que elas vivam suas próprias ilusões”

* citações copiadas conforme apresentadas no livro

Capa de Para Onde Vão os Suicidas?Autor: Felipe Saraiça
Editora: PenDragon
Publicado em: 2017
Gêneros: fantasia / YA
Quantidade de Páginas: 192

Confira o livro

O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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Vidas Secas (e a triste história da cachorra Baleia)

Chegamos em outra história onde o espaço vivido pelos personagens os molda. Difícil importar por algo a vir na frente enquanto agoniza no momento presente. Ciente do lugar e da pobreza, faltam escolhas disponíveis a agir, sobreviver neste tipo de vida. Isto na possibilidade de ao menos existir tal escolha, na verdade, tão raras ao ponto de exaltar, divagar nas possibilidades antes da vida lhe forçar no único caminho. Reconhece o papel na sociedade, papel de bicho, sem jamais perder as esperanças.

Vidas Secas moldam a família de Fabiano, sinha Vitória e ― claro ― a cachorra Baleia. Publicado pela primeira vez em 1938 por Graciliano Ramos, o Grupo Editorial Record lançou a edição comemorativa de 80 anos em 2018, dispondo trechos do manuscrito original de cada capítulo rabiscado à mão pelo autor, exceto no conto Baleia, onde a versão final divide cada par de páginas com o rascunho do texto sob edição.

“Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça”

Fabiano perambula pelo sertão junto à família, composta da esposa sinha Vitória, os dois filhos identificados por todo o romance em menino mais velho e menino mais novo, e a cachorra de nome curioso, Baleia. Tinha papagaio também, este já comido pela família, devido a falta de alimento na perambulação. Os pés eram moldados pelos seixos no solo, aliás todo o corpo era moldado na seca. Um dos filhos cede ao cansaço, logo recuperado pela bronca de Fabiano, único meio de encorajar o filho. Eles chegam enfim a algum lugar, em terreno abandonado onde eles ocupam, conseguem trabalhar e manter um teto sobre as cabeças. Conquistam alívio, pena encontrar novas dificuldades em breve.

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo”

O romance veio a partir de Baleia, de início era o conto isolado, até depois inspirar Graciliano a rabiscar mais capítulos sobre a família de Fabiano. A cachorra humanizada pela narrativa sofre os últimos momentos de vida, confusa de tanto sofrimento sob o punho de quem sempre lhe cuidou e tratou feito família. A escrita esboça o medo sentido pela personagem, a reação dela com toda a dor, e finaliza revelando o desejo dela, deixa o fim implícito para o leitor sentir o desfecho da coitada. Igual a raposa de Ninho de Cobras, a cachorra sofre a descoberta da tragédia, e a história desta repercute na criação dos demais capítulos, de certo modo sendo contos entrelaçados na mesma narrativa, sobre os acontecimentos anteriores e posteriores deste episódio da Baleia.

Quanto ao resto da narrativa, é sobre a história de toda a família. Dedica capítulos/contos dedicados a cada personagem, bem como alterna o ponto de vista de um a outro entre os parágrafos. Fabiano toma a maior parte da narrativa pela proporção da responsabilidade. Seus defeitos são explorados na história, sempre lembra da família a cuidar diante das oportunidades perdidas por causa dela. Sinha Vitória tem as devidas responsabilidades, além de sobreviver por meio de desejos e da sabedoria a qual Fabiano aprende admirar. E sobre os filhos, é melhor ler o final do livro e descobrir por conta própria, admirar a esperança resiliente mesmo nas dificuldades impostas.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha”

Capítulos breves e de pouca quantidade provocam o defeito do livro em ser curto demais. Por nascer do conto, o autor acrescentou mais narrativas breves até formar a história estreita, restrita à família. Vê pouco além dos personagens principais, apesar do ambiente bem explorado. Ao ler as passagens de cada membro da família, já tem a consciência de a história logo acabar, e disso vem o desejo negligenciado de ler mais sobre Fabiano e companhia pelas poucas páginas restantes.

Vidas Secas demonstra domínio em impor peso dramático sobre os ombros dos protagonistas. A escrita reflete no comportamento dos personagens, os deixam próximos ao leitor e faz este imaginar toda dificuldade passada por eles, com oportunidades humanas tão escassas, que por vezes passam a viver feito animais. Ao mesmo tempo atribui humanidade à cadela quiçá mais importante da literatura brasileira.

“A catinga ficaria verde”

Vidas Secas - capaAutor: Graciliano Ramos
Publicado pela primeira vez em: 1938
Edição: 2018 (especial de 80 anos)
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: ficção regional / clássico
Quantidade de Páginas: 320

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Bloodchild (Outro incrível conto da Octavia E. Bulter)

Humanos são animais sencientes. Classificamo-nos ainda seres racionais, cujo raciocínio garantiu nossa sobrevivência acima dos demais animais, dentre eles os alheios do nosso convívio, distantes da tecnologia exclusiva da nossa espécie. E dominamos os animais submissos, com acomodações condizentes a sua utilidade, deixando-os proliferar e os engordando até o abate, ou adotamos outra espécie na busca de trocar mimos e ter mais estima. E se existisse uma espécie racional e superior a da humana? Nada impediria fazer o mesmo conosco.

Bloodchild* mostra a relação entre humanos e esta raça superior. Lançado em 1984 por Octavia E. Butler, este conto de ficção científica traz o terror da submissão em servir de hospedeiro a novos indivíduos alienígenas.

“Você não é dela. Você é apenas propriedade dela**”

Os Tlics dominam o mundo habitado por Gan, um dos humanos Terrans. Gan vive com a mãe e irmãos em ambiente controlado chamado Preserve, onde os Tlics cuidam das famílias humanas, alimentam e acariciam. Em troca, toda família deve ceder um filho ― de preferência masculino ― ao Tlic, conforme regulamenta o governo, para servir de hospedeiro aos ovos da raça superior. T’Gatoi é a Tlic responsável por cuidar da família de Gan, e ela mesma plantará ovos nele, o hospedeiro escolhido daquela família. Um vizinho está prestes a dar a luz às larvas da Tlic ausente no momento, e T’Gatoi realiza o parto em seu lugar, com a ajuda de Gan, que testemunha o nascimento da raça alienígena, de como acontecerá a ele em breve.

“É melhor permanecer assim e saber que ela me amou mesmo sob toda essa obrigação, orgulho e dor”

Contado na perspectiva do garoto, ele fala da rotina inerente a dele, trazendo pouco significado ao leitor a princípio, pois ainda aprenderá a situação do personagem conforme a história acontece. Esta forma de narrar é típica da autora, presente também em Parábola do Semeador, primeiro demonstrando a humanidade dos protagonistas, então deixa o elemento extraordinário da história mais visível aos poucos, e quando a realidade da história vem a tona, o leitor já está fisgado, pronto a acompanhar o protagonista até a resolução. Novas informações vêm sem pressa e terminam de amarrar as questões pendentes.

Outra característica de Octavia é chocar, sendo direta na situação descrita, confiante de a cena em si provocar receios quanto aos personagens e reflexões sobre nós mesmos. Neste conto a humanidade é submissa de outra espécie, usada como meio de proliferação, cuidada apenas por ser útil a raça superior, de forma semelhante de tratarmos os animais de gado, essencial na alimentação de muitos de nós. Tem ainda a questão dos homens serem a preferência dos alienígenas na procriação, algo inédito a este gênero sexual, e imposto por quem domina e governa esse mundo com leis nada favoráveis a seres de minoria.

Mesmo assim vai além da submissão à força. Os humanos são seres racionais, apesar de estarem numa camada inferior da outra espécie, e o conto aproveita essa característica ao demonstrar a relação com os Tlics. A espécie submissa ainda pode argumentar, pois são ouvidos pelos alienígenas interessados em buscar o consentimento. Ainda pode haver diálogo, e assim a autora mostra caminhos a melhorar de vida, mesmo sob as piores e extraordinárias situações.

Bloodchild exercita a humanidade mesmo sob dominação de seres superiores. Traz temas desconfortáveis na reflexão gerada durante a leitura de ritmo consistente tanto de escrita, quanto de construção do enredo neste conto.

“Eu sabia que o nascimento era doloroso e sangrento, não importa a maneira”

* Conto lido e analisado no idioma original (inglês)

** Citações traduzidas pelo resenhista

Bloodchild - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1984
Edição: 2014
Publicado por: Headline Publishing Group
Gênero: ficção científica / conto
Quantidade de páginas: 31

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O Paraíso São os Outros (Valter Hugo Mãe)

O amor é democrático. Manifesta de várias maneiras, essas podem discordar da outra e permanece tudo bem desde que o casal consinta na respectiva forma ideal. Seja entre pessoas ou animais, beijos a tirar ar ou abraço a jamais soltar. Toda pessoa ama o pai e a mãe, ama a cara metade desconhecida, distraída até o momento de se encontrarem e apoiar no ombro do outro.

O Paraíso São os Outros é o livro de Valter Hugo Mãe sobre o amor. Lançado pela primeira vez em 2014 com edição em 2018 pela Biblioteca Azul da editora Globo, o pequeno livro compartilha o conteúdo com ilustrações traçadas à mão pelo autor enquanto breves parágrafos falam sobre o amor.

“Os casais formam-se para serem o paraíso”

A narradora deste livro é uma menina. Observadora e atenciosa, ela discute sobre o amor, na verdade diz mais sobre que vislumbra no relacionamento dos demais, busca compreender a relação até entre animais, embora admite faltar muito a aprender sobre eles, declarando a maior parte através da intuição. Os olhos juvenis viram muitos detalhes românticos, conforme a narradora conta em cada parágrafo. Diz como deve acontecer sem impor obrigação, apenas discerne entre o ideal e de quando é preciso tentar outra vez, igual sua tia fez. Também confessa os receios de quando for a vez dela de apaixonar, tudo no devido tempo, só tem problema em relação a impaciência da narradora, e mesmo assim ela aguarda o momento certo.

“Ser tudo igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture”

Há muitos livros românticos nas prateleiras, tema pouco explorado por este resenhista, e mesmo assim escolhi este livro. Confesso de na realidade escolher outro livro de Valter Hugo Mãe, autor capaz de me entregar a melhor leitura no ano passado, e ao conferir, achei nada ruim o livro ser sobre o amor. Quem me acompanha nas resenhas sabe da minha preferência de escrevê-las na terceira pessoa, destacar as qualidades do texto em vez de dizer qual a sensação ao ler o livro analisado. Tomei a liberdade de mudar este parágrafo na primeira pessoa porque o livro desperta sentimentos ao leitor, e por isso me manifesto como um. Sem enredo, conflito ou aventura, aqui é a manifestação espontânea da garota sobre o amor, um convite ao ver a perspectiva dela e refletir sobre a própria. Sorri ao longo da leitura, concordei em muitas partes com a narradora e compartilhei um trecho com a minha namorada por dizer muito sobre nós.

Vale destacar também a perspectiva infantil sobre o amor. Quem ler e achar os comentários da narradora ingênuos, eu terei de discordar. Ela não falou dos detalhes feitos pelos casais além dos beijos, abraços e carinhos; ela fala sobre o amor e acerta em quais situações falar, essas que farão muitos leitores reconhecer em si mesmos, apesar de comportarem de maneiras diferentes caso compararem os relacionamentos alheios. Este livro é sobre exercitar compaixão e adquirir força através da companhia, pois O Paraíso São os Outros.

“Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa”

O Paraíso São os Outros - capaAutor: Valter Hugo Mãe
Editora: Globo (Biblioteca Azul)
Ano de Publicação Original: 2014
Edição: 2018
Quantidade de Páginas: 64

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Deus Esqueceu de Pagar a Conta de Luz

Dois minutos de desatenção e o baque seco avisa da nova arte provocada pelo meu sobrinho. O pequeno pilar de gesso divide em si em dois, mais quatro cacos e seis gramas de poeira — medidos pela ferramenta chamada achômetro. O sobrinho prende o ar na garganta só por eu dar bronca ao quebrar algo feito há anos e presenteado pela sua mamãe, também segura as lágrimas no olhar inocente de sapeca.

Fica no cantinho, acorrentado pelos elos compostos por minutos, faltam-lhe três até ficar livre das amarras. Aproveito o silêncio imposto e tiro o atraso da leitura. Ela sempre atrasa porque jamais conseguirei ler todos livros pretendidos na vida, o importante é aproveitar o que puder aproveitar. Olhos aceleram nas palavras rumo ao término do capítulo. Dois minutos e o menino volta à ativa, a elaborar traquinagens durante o mínimo de descuido.

Claro, o menino não é autômato preso a algoritmos e regras intransponíveis. Levanta do chão, olhos vidrados na janela e boca aberta.

— Tio!

Tudo bem, posso respeitar essa pequena transgressão. Ainda sou humano.

— Sim?

— Olha lá fora.

Obedeço o garoto. Céu azul há tão pouco, agora tudo tomado por nuvens escuras. Nenhuma fenda sequer por onde a luz do Sol possa vir enquanto em casa as lâmpadas continuam acesas a 110 volts.

— Deus esqueceu de pagar a luz, tio!

Desculpe, rio do garoto, faço-o tremer o lábio e o assusto com gargalhadas. Este tipo de discussão ainda chegará, sobre eu ser ateu. Respeito quem acredita n’Ele e incentivo a persistir nela, contanto respeite também a crença do outro. A criatividade do menino é que causa essas risadas.

— Puxa a toca da blusa, garoto. Vamos ver como está lá fora.

Com a toca dele na cabeça e meu livro fechado sobre o sofá — falta apenas duas páginas do capítulo —, tomo a mão do sobrinho e vamos porta afora. As paredes laterais do quintal cobrem o vento a levar sacolas e embalagens de salgadinho dos vizinhos sobre a calçada, nenhuma brisa beija o rosto do sobrinho ou o meu.

Ficamos no lado de fora. Deixo o garoto ver as novidades da vida, fora das telas de celular ou tevê. Ele aponta o dedinho ao céu, sorri contra a folha voando pela liberdade conquistada pelo vento, escapada da árvore a sete casas a esquerda, ao fim do quarteirão. Dois gatos saltam no muro de casa e correm, pegam atalhos até os lares deles, pois namoros felinos desmancham sob água. Araras dão o ar da graça, cada vez mais raras, elas pintam o céu cinza com as asas azuis, buscam abrigos e encontram o toldo do bar.

Sigo a sensatez das aves e trago o sobrinho para dentro de casa, ao fechar a porta a chuva cai. Aproveito a atenção do garoto e compartilho uma lição, trocando a palavra “natureza” por “Deus”.

— Viu como Deus esqueceu de nada? Apenas decidiu ser a hora da chuva, das criaturas estarem prontas a receber a benção dos céus e saciar a sede do mundo.

Chega outro baque, este de fios estalados no poste da rua. Apaga a luz de toda a casa, o celular do garoto estava na tomada e carregou apenas doze porcento da bateria, o meu ainda fica na metade, e o deixo desligado na estante.

— Deus não esqueceu, mas você não pagou a conta de casa. Né, tio?

Desta vez ele gargalha comigo, sem sustos. Trocamos outras risadas e inventamos brincadeiras, disputamos duelos de brinquedos e nos abraçamos antes de comer paçocas como café de tarde. A casa continua escura, já lá fora o Sol volta a atravessar nuvens brancas. Carrego o guarda-chuva numa mão e o sobrinho na outra, podemos atravessar as ruas, ensopar a sola dos nossos tênis com o chão molhado e levar meu sobrinho a novas descobertas pelo mundo afora, dos prazeres disponíveis ao ar livre tão poucos metros longe dos celulares.

Ponto de Impacto (Dan Brown)

Já falei neste blog sobre a importância de qualquer pessoa ter mais interesse pelo meio acadêmico e conferir os estudos feitos por indivíduos comprometidos a pesquisar as inúmeras questões do nosso mundo. Enquanto tal interesse permanecer escasso, outros pequenos grupos ou indivíduos formam ambições sobre o ambiente científico e tramam conspirações na garantia do benefício próprio e exclusivo. Tudo faz parte do jogo, e os envolvidos ditam as regras; quando quem precisa dos benefícios das pesquisas deixa de participar, o mesmo é o maior prejudicado da conspiração. Também há a ironia de até o conspirador tomar prejuízo na história, porém nunca ser capaz de perceber tal perda que atinge a todos. 

Ponto de Impacto conta a história da conspiração estadunidense na qual pode comprometer a NASA. Publicado em 2001 por Dan Brown e lançado em 2005 pela editora Arqueiro com tradução de Carlos Irineu da Costa, a conspiração desta vez envolve a política na ciência. 

 “Política, afinal, não se limitava a ganhar uma eleição” 

Rachel Sexton vive um momento delicado. Trabalha como agente de uma instituição governamental fazendo relatórios sobre as mais recentes informações adquiridas e as envia ao escritório da Casa Branca; ela também é a filha de Sedgewick Sexton, senador e candidato da eleição vigente como o principal opositor ao atual presidente dos Estados Unidos. Rachael jamais encontrou o líder do país em pessoa, mesmo assim seu emprego proporciona dilemas na campanha do senador, por vezes contornadas pela estratégia de Sedgewick de manter a própria boa imagem ao público. 

Ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos encomenda a tarefa extra-oficial a Rachel. A requisição traz poucos detalhes além da requisição da agente ir até o local onde realizará a tarefa misteriosa. Rachel tinha certeza em encontrar o presidente pela primeira vez quando na verdade é levada ao Polo Norte, dentro das instalações da NASA. Conhece pessoas envolvidas com a descoberta científica capaz de mudar a história da ciência atual, recebe o pedido do presidente, e se vê no meio da crise política e científica onde as ambições motivam os piores atos contra a vida e a verdade. 

 “Coisas altamente improváveis acontece na ciência” 

Dan Brown é reconhecido pelos romances focados em conspirações. Costuma manter a estrutura semelhante em cada livro escrito, tornando-o previsível ao ler mais de uma história de sua autoria. A trama é trabalhada sobre determinada área, os conhecimentos técnicos da mesma e as conspirações envolvidas e inventadas na originalidade do autor. Muito da parte técnica é transcrita nos romances com linguagem acessível, por vezes satirizando a relação dos acadêmicos com os personagens alheios ao assunto estudado. Mesmo acessível, a absorção dessas informações é comprometida pelo excesso. Parágrafos interrompem a história para explicar a tecnologia apresentada em determinada cena ou explica algo específico do conhecimento de determinado personagem, tiram o protagonismo da trama em troca de demonstrações presunçosas da pesquisa feita pelo autor. 

As descrições banais também pecam pelo uso de verbos nada elaborados. Os personagens tentam, sentem e pensam — com muitos verbos de pensamento — mais do que agem ao longo dos inúmeros capítulos curtos, quer dizer, mostra essa impressão pela carência do autor em desenvolver as cenas do livro com descrições capazes de demonstrar movimentos quando eles ocorrem. Até quando alguém está no ápice do desespero, com grandes feridas no corpo e prestes a morrer, o texto conta como o personagem pensa em como cometer qualquer erro poder ser fatal, ao invés de focar nos atos desesperados dele conforme aquela situação. 

Outro problema nas descrições simples está na repetição dessas. Além do narrador interferir na história e dar as explicações, ele as repete quando algum personagem as recebe, e ainda conta outra vez quando o ponto de vista alterna a outro personagem ao testemunhar a mesma situação. Até as pistas elaboradas nos vários mistérios construídos aparecem mais de uma vez, dão a resposta ao leitor muito antes do desfecho daquele mistério. Quase tudo é previsível, ainda mais quem já leu outro livro do autor e reconheceu o padrão de escrita. 

Ponto de Impacto me impressiona apenas pela questão levantada sobre a importância da ciência posta em cheque devido a pessoas capazes de interferir no trabalho dela sem reconhecer os problemas caso o fizer, além de outras pequenas situações paralelas à realidade — e atualidade. A escrita deixa muito a desejar. O autor é reconhecido pela elaboração do enredo, este também prejudicado pelo despejo constante de informações. 

 “Os cientistas das NASA até poderiam ter grandes cérebros, mas suas bocas eram ainda maiores” 

 Ponto de Impacto - capaAutor: Dan Brown
Tradutor: Carlos Irineu da Costa
Ano de Publicação Original: 2001
Edição: 2005
Editora: Arqueiro
Quantidade de Páginas: 398 

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