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Ciência: Interesse, Desinformação e Importância

Mesmo com o foco do blog na literatura, assuntos relacionados à ciência são muito bem-vindos nos posts bem como por este que vos escreve. Já abri discussão quanto a importância de todo indivíduo precisar ler artigos acadêmicos além dos problemas decorrentes na ignorância ao conhecimento. Trago assuntos tanto com conclusões animadoras como a reflexões críticas, todas com a devida importância. Vi uma matéria na semana passada com título chamativo e proposta questionável, esta a qual discutirei neste artigo quanto ao interesse, desinformação e importância relacionados à ciência.

A matéria é da TAB Uol, sobre os brasileiros serem mais interessados na ciência em comparação ao resto do mundo, baseado no estudo mais recente feito pela empresa 3M chamado State of Science Index.  A notícia seria animadora, pena os detalhes ignorados pela matéria forem trágicos. Segundo os dados da pesquisa, o interesse do brasileiro em destaque é a importância na ciência no dia a dia, onde o índice é maior no Brasil comparado aos outros 13 países avaliados. Só que este é apenas um dos índices levantados pela pesquisa, há outras questões analisadas as quais outros países se destacam, como a maior curiosidade na ciência por parte dos mexicanos, a importância de todo cidadão entender como a ciência funciona independente da profissão como os habitantes de Singapura, e o maior interesse em motivar as crianças a seguirem carreira científicas entre os sul-africanos.

Outro problema na matéria é falar dos brasileiros terem a maior percepção sobre vários aspectos da ciência do que o resto no mundo. Isto é meia verdade. O Brasil supera certos índices da média global, o erro ao dizer em superar o resto do mundo é por ter países com determinados índices superior ao Brasil, como por exemplo: 79% dos brasileiros são curiosos quanto à ciência, proporção maior a da média global de 72%, mas perde em relação à Alemanha com 82%.

Estatística - Ciência

A estatística desmente o argumento

Os interesseiros da ciência

Tanto o estudo como o destaque da matéria desperta questões quanto a importância do interesse pela ciência frente a outros fatores. A maioria dos entrevistados na pesquisa — sejam brasileiros ou da média global — assumem conhecer nada ou apenas pouco sobre a ciência. O conhecimento falha em acompanhar o interesse, e é possível testemunhar as consequências deste gargalo, dentre elas a pessoa confiar em determinado apontamento só pela menção de algum estudo sem dizer onde este foi feito ou sequer conferir a fonte original. O estudo da 3M afirma dos entrevistados terem mais confiança quando a fonte de informação vir de cientista comparado a pessoas próximas ou publicações de sites e redes sociais, entretanto não deixa claro se a credibilidade da pessoa ou publicação permanece igual ou aumenta ao dizer que tirou a informação de pesquisa científica.

O jargão “a ciência só está certa quando concorda comigo” reflete no viés do indivíduo superar a confiança no trabalho dedicado dos acadêmicos responsáveis por analisas e discutir determinado assunto. Todo o trabalho perde o valor pelo indivíduo apenas por entregar o resultado diferente do esperado por ela; tal comportamento corresponde a 50% dos brasileiros, superior a média global de 45%.

Discordar - Ciência

Os suricates discordam quanto ao formato da Terra

Em suma: o brasileiro — no geral — tem interesse pela ciência, apesar de possuir pouco conhecimento e da metade concordar com a ciência apenas quando os estudos dela for de acordo com a sua crença. Tal situação gera cenários favoráveis a matérias que atribuam descobertas a partir de “estudos científicos” e no fim nem cita quais estudos são esses. A pessoa lê apenas a matéria e aceita aquela informação sem procurar saber mais do estudo — por falta de conhecimento — ou apenas o ignora quando for contra a ideia preconcebida da pessoa.

O perigo do ceticismo

O estudo traz o alerta sobre as pessoas céticas quanto a ciência. Elas representam um terço dos entrevistados e seu número cresceu em 3% comparado à pesquisa feita no ano anterior. O ceticismo seria importante para desenvolver o pensamento crítico e incentivar o indivíduo a buscar as respostas por si, pena os motivos de os tornarem céticos quanto a ciência segundo a pesquisa da 3M demonstrar o caminho reverso.

A maioria critica a alta incidência de conflitos de opinião entre os cientistas, sinal de ignorância da parte dos céticos em como a ciência funciona, pois os estudos progridem justamente a partir da discussão de ideias, analisa as falhas de cada estudo e propõe melhorias a partir dos novos. O segundo maior motivo é por fazer parte da natureza deles questionarem sobre a maioria dos assuntos, e esta é uma ótima postura, desde que tome esse questionamento e procure as informações por si mesmo.

Também há forte incidência de argumentos sobre a ciência sofrer influência de empresas, governos ou até dos vieses dos próprios cientistas. Tal conspiração existe, impossível negar a parcela de pessoas com interesses egoístas a ponto de forjar estudos condizentes com a crença do autor — ou de quem financia o projeto. Por isso é importante haver discussão dos estudos na maior diversidade de fontes possível, assim terá a oportunidade de desmascarar estudos enviesados e intenções nada acadêmicas.

Conspiração - Ciência

Tudo feito por computação gráfica!

O ceticismo seria capaz de estimular melhores discussões quanto a ciência, pena os argumentos apresentados por eles no estudo da 3M terem o efeito contrário. Boa parte dos céticos analisados perde a confiança na ciência, e talvez isso justifique tal índice diminuir na maioria dos países analisados.


A desinformação está presente desde antes da recorrência de Fake News nas eleições do ano passado. O conhecimento científico por parte da população é prejudicado graças a ela, e ver esta alta incidência de interesse me leva ao pensamento de piorar a situação, pois o interesse sem conhecimento leva as pessoas a crerem na ciência ao invés de estudarem-na. Por isso muitos são fisgados por teorias da conspiração que soam com argumentos científicos, porém o conhecimento pertinente é ignorado pelos conspiradores e desconhecidos por quem acredita nessas mentiras. Enquanto o interesse não estiver na própria pessoa em ir atrás do conhecimento, a ciência continuará menos acessível.

Referências

Brasileiros são mais interessado em ciência que o resto do mundo (matéria do TAB Uol)

Página onde destaca o que cada país acha mais importante na ciência segundo o estudo da 3M (Em inglês)

Apresentação dos índices levantados pela 3M com opções de filtragem (Em inglês)

Arquivo do estudo realizado pela 3M (Em inglês)

Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

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