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Romancista Como Vocação (Haruki Murakami)

Quando o autor idoso possui mais da metade do tempo de vida de carreira na escrita, ele deve possuir algum conhecimento literário. Sarcasmo à parte, toda a trajetória de vida vira fonte de aprendizado quando o escritor decide contar a própria vida, das maneiras e dificuldades encontradas ao insistir em contar histórias. Conhecer as variadas técnicas de escrita criativa é importante, apesar da literatura também ser produzida a partir da experiência, e vale a pena ao menos conferir o trabalho do autor disposto a compartilhá-la.

Romancista Como Vocação é a autobiografia de Haruki Murakami, o autor disposto a compartilhar o pouco que aprendeu na vida. Publicado em 2015 e trazido em 2017 no Brasil através da editora Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras ― sob a tradução de Eunice Suenaga, a escrita fluida de Murakami persiste nas breves passagens de aprendizado.

“Mas por que um escritor tem que ser um artista? Quando isso foi decidido, e por quem? Ninguém decidiu isso”

Cada capítulo consiste em perguntas feitas a ele ao longo da vida, algumas o autor revela sentir intimidado pela incapacidade de respondê-las em poucas palavras. Por mais simples seja a pergunta, ele considera toda a experiência ao responder, precisando de palavras o suficiente a escrever este livro. Combina as respostas práticas com aspectos de sua vida, fala desde o trabalho como dono de clube de jazz à premiação a garantir o primeiro livro publicado, até a carreira internacional a partir das publicações feitas nos Estados Unidos. No meio de toda essa jornada, tem lições a novos escritores sobre as possibilidades de criar histórias e desenvolver a carreira literária.

“Essa é minha opinião, mas isso não muda muita coisa”

Toda declaração presente em Romancista Como Vocação é de cunho pessoal, e Murakami faz questão de afirmar e relembrar disso. O leitor tem a oportunidade de conhecer detalhes pessoais do autor, um resumo da trajetória após garantir várias publicações de sucessos comerciais. Garantiu poucos prêmios, e ele comenta sobre o assunto em determinado capítulo, dá opiniões sinceras sobre as premiações, tudo condizente com as declarações dos demais capítulos, ou seja, passam longe de serem desculpas por deixar de vencer os concursos ― inclusive o prêmio Nobel de Literatura.

Apesar dos fãs de Murakami ainda poderem aproveitar este livro, o conteúdo é dedicado a autores e aspirantes, afinal o foco é óbvio. Só deixa de ser tão claro a utilidade das dicas passadas pelo autor japonês. Os escritores precisam estar dispostos a acompanhar as maneiras encontradas pelo autor de seguir na carreira e avaliar quais delas seriam viáveis na própria rotina. Murakami é restrito quanto as dicas, compartilhando as bem sucedidas para ele, e é honesto ao confessar a inviabilidade de servir a quem ler, inclusive faz comparações a comportamentos dos demais autores japoneses e revela a diferença dele com a maioria. Lembrando da nacionalidade dele, Murakami fez carreira nos aspectos do mercado editorial no Japão ou até em fatores sociais — entre eles o sistema educacional da época —, inclusive lembra o leitor da situação política do país durante sua vida, do Japão em crise após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando começou a publicar nos Estados Unidos teve de adaptar a forma de trabalhar por ser japonês, então cabe ao leitor fazer o mesmo, conferir as dicas e verificar a possibilidade de ajustar a própria realidade, isso caso a dica funcione.

Romancista Como Vocação é um resumo da vida do autor. O conteúdo também convida aos escritores encontrarem os meios de produzir literatura a partir da reflexão das dicas oferecidas por Murakami. São ensinamentos prático e rasos, há livros sobre escrita de melhor conteúdo, escrito por profissionais com experiência em formar escritores, entre eles o trabalho da Francine Prose, enquanto este é limitado a dicas pontuais e ainda incertos da utilidade; ao menos o autor é honesto em afirmar isso.

“Eu já havia me tornado romancista; e a vida é uma só”

Romancista Como Vocação - capaAutor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Ano da Publicação Original: 2015
Editora: Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras
Edição: 2017
Gênero: Não ficção / autobiografia / escrita
Quantidade de Páginas: 168

Compre o livro

O João Valério em Escritores Atuais

Ao ler livros fora da minha área de conforto (ficção fantástica), por vezes encontro descobertas ricas em reflexão. Assim o desafio de encarar algo diferente a mim recompensa com ideias as quais seria difícil de eu ter seguindo nos mesmos gêneros de história de sempre. O livro Caetés trouxe uma surpresa digna de reflexão a nível de compartilhar por aqui, pois o protagonista é alguém aspirante a escritor, submetido a dificuldades frustrantes e dilemas autoimpostos. Reconheceu-se? Pois essa é a proposta desta postagem, falar das semelhanças deste protagonista da obra publicada na década de 1930 e nós, aspirantes a autores do século seguinte.

Escrita X Rotina X “Trabalho de Verdade”

A atividade da escrita é solitária, seja nas teclas do computador ou na pena de João Valério. É preciso organizar a rotina, alocar determinada parte do dia a dedicar na elaboração da história, abrir mão da companhia de amigos e demais compromissos enquanto dedica a esta tarefa. O problema, tanto ao João quanto a nós, é conseguir empregar este tempo exclusivo.

Sobrecarregado - Escritores Atuais

Depois de um dia longo de trabalho: trabalhando na escrita

Ao sonhar em exercer a literatura, também é preciso exercer outra profissão capaz de sustentar nossa vida e pagar as dívidas. Havia menos variedade de despesas na época de João Valério, mas ele próprio guardava as cobranças pendentes de clientes do armazém onde trabalha, assim como ele possuía as próprias. Tem compromisso com a revista gerenciada pelo pároco de Palmeira dos Índios. Troca prosa com amigos próximos, assim descobria dos acontecimentos importantes da cidade no meio das fofocas, sem falar de estar presente em alguns deles; não bastasse o contato próximo na rua ou durante o trabalho, ainda nos relacionamos pela internet, o que facilita muito a interação de pessoas distantes, pena ocupar muito do nosso tempo quando falhamos em controlá-lo.

Falando em internet, temos dificuldades inatingíveis a João Valério. Na época dele só podia publicar histórias por meio de instituição, seja editora ou algum tipo de periódico. Caso alguém da época dele conseguisse os recursos escassos de imprimir a própria obra, ainda atingiria pouco público, repercutindo apenas onde pudesse alcançar fisicamente com os seus livros. O século XXI nos brindou com as publicações independentes, podemos alcançar leitores em lugares onde jamais pisamos ou pisaremos, sequer precisamos conhecer! Basta o lugar ter acesso a internet, e o leitor de lá consegue acessar nosso livro digital ou mesmo a versão impressa à venda em sites.

Comprando livros - escritores atuais

Uma leitora comprando meu livro – uhul!!!

A publicação de livros está mais democrática comparada ao tempo de João Valério, quando poucos poderiam publicar. Hoje somos muitos, de milhares a milhões! Com níveis de qualidades variados, todos nós temos o direito de arriscar, e nesta quantidade vem a dificuldade dos leitores encontrarem nossos livros entre tantos outros. Alguns de nós optamos atrair público por meio de outras atividades, seja com perfil de rede social engajado, produção de conteúdo via podcast, canal de vídeo, ou mesmo blog… E acumulamos tarefas ao manter esses canais, mais tempo reservado além da escrita, ou até dividi-lo entre escrever e produzir conteúdo.

São problemas exclusivos nossos, e isso pouco significam serem piores que na época de João Valério. Afinal no tempo dele tudo ocorria mais devagar, ou em outras palavras, a nossa rotina é acelerada. Mesmo dispondo de veículos mais rápidos que carros de boi, interação pessoal sem precisar deslocar até o sujeito, e jamais pisar na biblioteca ao estudar. Cada vantagem tem consequência: local de trabalho costuma ser mais distante, acabamos extrapolando o tempo online e demoramos mais em filtrar boas fontes bibliográficas antes de estudá-las ou deixamos de conferir e assumimos o risco de prejudicar o estudo. Nossas rotinas são diferentes a de João, ainda assim fazem parte do nosso tempo, o qual é preciso administrar.

Pouco adianta culpar os compromissos quando fracassamos em escrever, por falharmos em reservar o tempo de escrita. A literatura não vai nos livrar dos compromissos com o emprego e devemos persistir nessas dificuldades, algumas maiores para uns quanto a outros. As oportunidades estão mais democráticas, só falha ainda em ser democraticamente ideal.

O desânimo

Eu preciso citar #spoilers de Caetés neste tópico, então leia o seguinte caso queira evitá-los ― só lembre de voltar aqui depois de ler o livro. No início de Caetés, João Valério possui apenas dois capítulos do livro feito, e no fim ficou igual o começo com uma diferença: ele desistiu da literatura. Já estava há cinco anos com este trabalho engavetado quando tenta prosseguir ao longo do romance, e é interessante observar de ele só continuar a escrita quando algo o desanima na vida pessoal. Ele usa a produção da literatura no intuito de obter prestígio, possuir qualidade distinta das pessoas próximas a ele, esconde a inveja do sucesso alheio por se reafirmar de estar no caminho certo ao escrever o romance. Já no final do livro, quando ele consegue subir na posição de sócio do armazém, perde o interesse pela literatura.

Burguês safado - escritores atuais

Parou de escrever porque virou burguês, safado!?

Podemos criticar a postura de João quanto a literatura, mas estaríamos fadados a sofrer a mesma consequência? Como já dito, literatura ainda rende pouco dinheiro aos brasileiros, mesmo assim alguns de nós buscam prestígio a partir da escrita, de ser reconhecido entre os leitores, apesar das outras profissões terem melhor remuneração. Há quem nem considere profissão pelo fraco retorno financeiro, igual as outras atividades artísticas.

Prosseguir no desejo de produzir literatura requer resiliência, esta recompensada por valores os quais devemos estar dispostos a receber, digo valor no sentido de reconhecimento. Então é comum haver desistências, já testemunhei amigos que perderam as esperanças de produzir histórias. Uma situação triste, real e obrigatória a conformar.

Pesquisa

Por último tem a situação mais hilária mostrada por João Valério, e mesmo assim importante e recorrente entre escritores atuais. Antes de comentar, segue a transcrição do trecho disponível na contracapa:

“[…] Também aventurar-me a fabricar um romance histórico sem conhecer história! Os meus caetés realmente não tem verossimilhança, porque deles apenas sei que existiram, andavam nus e comiam gente.”

Sim, João Valério é desleixado. Já bastou escrever apenas quando queria alimentar o ego, ainda faz pouco esforço em tornar a prosa verossímil! Às vezes tenta compreender mais da civilização tratada no romance, elabora perguntas absurdas aos conhecidos, pois evita de contar a eles sobre a tentativa de escrever romance; ao falhar em obter resposta, fica por isso mesmo.

Hoje podemos entrar em contato com conhecedores do assunto pendente em nossas histórias, sem falar do Dr. Google e inúmeros artigos online acessíveis. E mesmo assim há escritores desleixados quanto a pesquisa, ou mesmo de boa intenção acaba falhando na contextualização. Pode acontecer do escritor receber tal informação de algum site de credibilidade duvidosa e acreditá-la sem a devida averiguação, ou também por tomar inspiração em outra obra que tenha adaptado algo no mundo criado pelo autor com a devida licença poética, e acaba repetindo esta adaptação como verossímil. Tal problema surge em maior frequência quando retratam períodos ou regiões diferentes a do autor, embora ainda aconteça ao representar determinado tipo de trabalho. Por exemplo: personificar alguém da minha área ― informática ― sendo um hacker capaz de invadir o sistema de segurança militar… composto do algoritmo real que calcula fórmulas de astronomia. A série Arrow cometeu essa gafe, mesmo sendo produção de grande orçamento:

"Criptografia avançada" em Arrow

Flagra feito pelo blog Vida de Programador (link do post original na imagem)

Enfim, erros acontecem. Mesmo com os recursos atuais é difícil acertar na verossimilhança através de pesquisa, sob o risco de provocar a ira do leitor ambientado no contexto mal adaptado em seu romance. O melhor a fazer é esforçar a cometer menos erros. Procure ler obras de autores sob o contexto disposto a representar, igual optei a ler livros de Graciliano Ramos para aprender mais sobre os alagoanos numa época próxima a qual retrato na minha nova tentativa de romance ― e ainda tive a coincidência de ler este livro dele que inspirou toda esta postagem! ― E até isso pode ser difícil dependendo de qual região queira abordar, tendo o azar de encontrar pouca ou nenhuma obra de autor local; ou mesmo existindo, é inviável adquirir ou falha em repercutir no resto do país, mesmo através da internet. Ainda pode ir além da literatura e consumir o que tiver disponível sobre aquele povo. Seja música, notícia, vlog. Ou encontre alguém disposto a conversar sobre a cultura local. Caso tenha condições financeiras, lembre de contratar a análise crítica do profissional mais próximo de conviver ou entender do contexto de sua história.

Neste tópico eu posso afirmar sim a facilidade de trabalhar em relação à realidade de João Valério. No entanto aumenta também a exigência dos leitores quanto a representatividade, pois incluir diversidade apenas para “cumprir cota” deixou de ser suficiente. O autor tem o direito de ignorar tamanha exigência, pois considera uma “problematização desnecessária” ― vulgo mimimi ― e assim ele deixa de atrair grande parcela do seu público, o qual tem a possibilidade de crescer nos próximos anos e passará a te ignorar por isso.


Gostou das reflexões? Caetés traz questões contemporâneas mesmo em tempos posteriores da primeira publicação ao possibilitar esta discussão sobre os costumes de autor fictício semelhantes aos escritores atuais e reais. Também demonstra como ler obras diferentes da área de conforto exercita novas ideias.

Post do blog Vida de Programador que reconheceu a gafe em Arrow

Código-fonte de onde o seriado retirou o “sistema de segurança militar”

Terminei o NaNoWriMo, e Agora? (A jornada da revisão)

Começo saudando aos escritores valentes, dispostos a encarar o NaNoWriMo, desafio de escrever um romance no mês de novembro. Parabéns! Independente de terem concluído o romance ou não, já foi ótimo participar. O desafio permite repensar a rotina de escrita e avaliar o quanto esta atividade é importante ao escritor. De meta ousada, cobra além da realidade disposta à maioria, nem sempre por desleixo, comodidade ou falta de vontade; todo indivíduo tem responsabilidades que precisam priorizar ao garantir a renda particular ou até da família, algo garantido pela carreira literária apenas a mínima parcela de escritores consagrados.

Eu terminei a nova tentativa de romance. Com total de 40 mil palavras, cheguei próximo à meta de 50 mil do NaNo, e mesmo assim encerrei a jornada antes do mês acabar. Eu planejei o romance nos meses anteriores e já o considerava a história curta desde o começo, inclusive previ esta quantidade de palavras. Minha justificativa foi pelo elemento sobrenatural demorar a aparecer na história, e se esta fosse maior ainda, poderia desanimar os leitores a encarar longas páginas até ver o elemento central do gênero. Afinal não sou nenhum Stephen King nem qualquer outro autor que tenha feito algo do tipo depois de comprovar qualidade na escrita mesmo prolixa. Quando for retomar este romance, avaliarei a necessidade de incluir novas cenas após a aparição sobrenatural.

E falando em retomar, o objetivo deste texto é este mesmo: o que fazer depois de terminar o romance iniciado no NaNoWriMo? Listo as etapas as quais pretendo cumprir, talvez alguma seja interessante a você, colega participante do NaNo ou colega escritor, sobre como lidar com o livro depois de concluído o rascunho do manuscrito. Longe de te impor a imitar os meus passos, a intenção é incentivar a ter ideias, maneiras de lapidar a partir do que ver aqui. Também esteja a vontade a compartilhar na seção de comentários caso pretenda fazer algo diferente.

Qual trilho seguir? - NaNoWrimo

Há mais de um caminho depois do NaNo

Após NaNoWriMo: Edição, Leitura, Revisão, Revisão e Revisão

Sim, o processo seguirá próximo desta ordem. Digo próximo pois a primeira revisão e leitura podem acontecer no mesmo período, enquanto as demais etapas acontecem entre intervalos de tempo. Trabalhar no romance de forma constante poderia desgastar o autor e até viciá-lo no texto, deixando passar erros crassos na hora de submeter a futuros avaliadores, por vezes sobrar até mesmo aos leitores, dependendo do preparo antes da publicação.

Apesar disso, já estou realizando a primeira etapa, a edição. Na verdade são edições específicas, pois determinadas partes do texto foram escritas sem ater aos detalhes de cenário. Demarco os pedaços a averiguar com citações entre colchetes — [desta forma]. Já vi autores destacando de outras formas, como colocando uma palavra particular quando precisa editar e colocar mais detalhes depois, seja “melancia” ou “elefante” no meio do texto, por exemplo. Prefiro do meu jeito, não por eu ter receio de colocar de fato um elefante no meio da ambientação agreste do meu romance e acabar confundindo na hora de editar, o faço por ter a liberdade de esclarecer ao eu do futuro o que preciso arrumar em determinada parte do texto. Na verdade eu coloquei colchetes inclusive neste texto, esses vistos e editados antes de agendar a publicação da versão final no blog.

Elefante ou colchete - NaNoWriMo

Elefante ou colchete: escolha sua caçada

Foi inevitável plantar colchetes no romance. Por mais pesquisas prévias feitas, sempre tem algo na hora da escrita mais específico, exige mais estudo. Ainda mais neste caso por eu escrever este romance de contexto histórico, diferente no quesito tecnologia, costume, vestimenta, político e outros capazes de interferir no romance. Considero desnecessário guardar o texto na gaveta neste momento por eu cuidar apenas de pedaços pontuais da história, na verdade aparando as pontas deixadas na escrita contínua para de fato terminá-la, depois deixo intocado por pelo menos um mês antes de realizar a revisão.

Pausa, preparo, ação!

O manuscrito descansa na gaveta, já eu prossigo na labuta sobre a escrivaninha. Jamais pararei de escrever, continuarei elaborando resenhas, escreverei novos textos ao blog conforme necessidade, e tentarei elaborar contos capazes de participar em alguma seleção de antologia no próximo ano. O mais importante é continuar escrevendo, manter a atividade e evitar a hibernação, senão sofreria ao começar outro projeto de escrita ― já aconteceu comigo, quem nunca?

Também vou aproveitar este intervalo para começar as leituras de livros capazes de me ajudar a avaliar certos pontos executados no romance. Já comentei haver elementos sobrenaturais e do romance contar a história no ambiente agreste. Também disse de ter contexto histórico, sendo mais específico, referente a primeira metade do século XX. Então por ser obra de ambientação brasileira e com aspectos de fantasia, tenho em mente os seguintes livros de referência futura: A Fúria dos Reis, livros de Graciliano Ramos no geral, e Madame Bovary.

Ler e Aprender - NaNoWrimo

Ler e Aprender

É fácil reconhecer o motivo de ler Graciliano Ramos, por conta da abordagem regionalista de seus trabalhos; também o lerei por ele ser escritor alagoano, mesmo estado por onde acontece a maior parte de minha história. Já li S. Bernardo antes do NaNo e aprendi aspectos da ambientação já incluídos nesta jornada da primeira versão do manuscrito, inclusive usei termos locais aprendidos na leitura, e pretendo aprender mais elementos alagoanos direto da pessoa que viveu em período próximo ao do romance e do lugar correspondente.

E o que essa fantasia medieval e o clássico da literatura francesa poderiam ajudar na revisão do meu livro? Na verdade é por eu usar certos recursos narrativos e pretendo revisá-los a partir de obras reconhecidas por esses. A Fúria dos Reis será útil para eu ver como George R. R. Martin focou na perspectiva de cada personagem. Executei a narrativa em terceira pessoa focada apenas no personagem principal, e por George Martin alternar todo o calhamaço em diversas perspectivas, terei vários exemplos de abordagem por meio de um mesmo livro. Já li este segundo volume das Crônicas de Gelo e Fogo e até o elegi entre minhas melhores leituras de 2018, mas como retomei a leitura da saga desde o começo, aproveito e atendo duas metas na mesma leitura.
P.S: Não garanto eleger A Fúria dos Reis entre as melhores leituras de novo, pode ter outros livros espetaculares na concorrência.

Agora sobre Madame Bovary, foi por ter ousado ― confesso eu ser meio teimosos quanto a isso ― usar o discurso indireto livre enquanto escrevia. Já tentei fazer isso no meio do NaNoWriMo passado, gostei da ideia apesar de reconhecer a necessidade de aperfeiçoar. Por isso preciso recorrer a ótimos exemplos desta abordagem. E qual seria melhor senão o provável pioneiro do discurso indireto livre? Claro, posso pegar outros bons exemplos a usar deste recurso, caso conheça algum, indique nos comentários!

Revisar, revisar, revisar…

Ainda estarei lendo esses livros de referência ― e outros pela demanda por escrever resenhas para dois blogs ― quando começar a realizar a primeira revisão, quando farei leitura atenta do meu texto. Pretendo caçar os erros mais absurdos de ortografia, apesar do foco estar em avaliar o ritmo da história, segmento e prováveis furos de enredo, bem como analisar onde posso acrescentar novas cenas e onde devo tirar. Muitas ideias “extraordinárias” na hora da concepção do manuscrito podem ser desnecessárias na verdade. Mesmo adorando determinado elemento, preciso atentar à importância no todo, e descartá-lo caso falhe; em suma, devo matar meus queridinhos.

A segunda revisão é a mais trabalhosa, pelo menos o retorno vale a pena por transformar o texto de rascunho em obra literária ― ou pelo menos tentar. Tenho uma lista de palavras as quais caçarei capítulo por capítulo e diminuir a reincidência delas ao máximo possível. A intenção vai além de prevenir a repetição de palavras na versão final, pois também podem comprometer o ritmo da leitura ou entregar experiências rasas ao leitor.

Parte da lista corresponde aos verbos de pensamento, item já criticado neste blog. Pela narrativa focar na perspectiva do protagonista, é melhor deixá-lo ativo, participar da história em vez de ele ser o espectador daquele mundo. Por isso ele sempre deve agir, demonstrar sentimentos em vez de citá-los ao leitor. Aqui também entra o uso do discurso indireto livre, pois há perspectivas do protagonista interessantes de expor, e nem por isso devo ficar dizendo ao leitor que Nicolas pensou isso, imaginou aquilo; posso tornar essas passagens mais agradáveis, misturá-las ao texto em vez de alternar entre parágrafos de ação e de reflexão.

Expor ideia - NaNoWriMo

O romance não é um arquivo de slides que informam as ideias dos personagens

Ainda a evitar de tornar Nicolas o espectador da própria história, outra parte da lista refere a verbos correspondentes aos sentidos humanos. Nicolas não vai apenas olhar, ouvir, sentir e cheirar o mundo ao redor, precisa interagir com o ambiente. Caçarei essas palavras para garantir a maior interação possível e garantir um mundo vivo. Passamos da época quando os textos literários deviam desenvolver parágrafos rebuscados de descrição estática, quer dizer, o escritor contemporâneo pode fazer isso também, só lembre de considerar o risco de atrair menos leitores com esta abordagem.

Já a terceira revisão seguirá no ritmo da primeira. Depois de editar tantas vezes o livro, é melhor prevenir de possíveis desleixos de escrita que passaram despercebidos durante as alterações. Ainda pode haver pontas soltas, algumas criadas com essas edições ou ainda despercebidas desde o começo, então irei à caça delas!

Com tanta revisão assim, preciso ter cuidado. Posso comprometer a história caso eu mude muitas cenas, muitas vezes. Pode ser sinal de falha no planejamento de enredo, ou exagero de minha parte devido a insegurança em trabalhar no romance. Por isso defini essas três revisões e o respectivo objetivo delas, assim tenho ideia de onde pretendo mexer e fico ciente de quando parar. Também pretendo submeter o texto a uma análise profissional, com alguém capaz de ler meu romance sem os meus vícios e conseguir apontar onde de fato continua ruim. Ao passar desta etapa, é possível correr atrás da publicação do livro nascido no NaNoWriMo.

Epílogo

A jornada do NaNo é ínfima ao que ainda está por vir. Acredito da maioria dos autores amarem o romance escrito por eles, e esse amor deve refletir ao cuidado semelhante ao próprio filho, dá muito trabalho criá-lo, de vê-lo engatinhar até viver independente, longe do papai para as livrarias físicas ou onlines. Aproveitando minha citação a Madame Bovary, o autor Gustave Flaubert demorou seis anos até concluir este romance, cujo tempo foi previsto por ele; e essas etapas citadas podem nem durar um ano inteiro, então todo esforço ainda resulta da prática humilde comparada a um dos trabalhos canonizados pela literatura clássica. Se ainda assim acha ser demais ter tanto trabalho a frente ― ou do quanto empenhará no seu romance através de outros meios ― lembre: o mais importante já fez através do NaNoWriMo: começou a escrever sua história.

Como Estudar a Escrita Criativa

Quando comecei o XP Literário, tinha apenas publicações no Wattpad cujo resultado já comentei em outro artigo, fora isso tentei um concurso e ganhei somente experiência — longe de ver fracasso, já valeu por participar e ter esta iniciativa —, além de submeter um romance a análise crítica a qual descreveu os pontos necessários onde eu precisava melhorar. Em suma tive respostas negativas enquanto persistia e continuava a estudar escrita criativa.

Já neste ano a resiliência passou a valer a pena. Consegui minha primeira publicação comercial na segunda edição da Revista A Taverna e logo terei outro conto publicado também na antologia Creepypastas 2, esta em versão física pela editora Lendari! Submeti outro conto a mais um concurso e ainda aguardo o resultado.

Essas conquistas recentes não foram exclusivas de sorte, e sim fruto da minha dedicação em melhorar a escrita e construção de histórias. Nenhum romance escrito por mim foi publicado, e tenho o otimismo de colocar um “ainda” no final dessa frase. Aprendi e continuo aprendendo de diversas formas, aplicando esse conhecimento em cada tentativa de escrita. E agora compartilho quais são essas maneiras de saber mais sobre a escrita.

Pelas críticas

Como já disse, submeti meu primeiro romance a análise crítica e tive vários apontamentos e sugestões de melhorias. O foco desta análise é de fato identificar as falhas no texto apresentado, feito com a intenção de aprimorar a escrita. Este tipo de serviço serve apenas a autores com condições de abrir mão do ego, e sendo bem honesto, quem tem ego sofrerá muito pela dificuldade de lidar com as críticas. Quando o livro for publicado, estará disponível a todo tipo de leitor, com direito a dar todo tipo de crítica, é preciso respeitar todas elas — e também ignorar as feitas sob nenhum argumento senão o de menosprezar o trabalho alheio.

Voltando ao meu caso, eu tive dificuldade ao aproveitar melhor essa crítica. Aceitei e agradeci por todos os apontamentos, tirei algumas dúvidas com a avaliadora e ela respondeu de boa vontade. O problema foi a minha falta de preparo conceitual ao recebê-la. Pensei ter entendido na hora, mas se fosse hoje eu passaria vergonha de receber um feedback feito aquele. Cometi muitos erros de quem sabia pouco da escrita criativa, e só tive a verdadeira noção desses deslizes depois de estudar mais. Agradeço muito pela paciência e carinho da avaliadora ao analisar meu texto, e apesar de ser pouco eficiente devido a minha limitação, fez parte dessa trajetória de erro e aprendizado.

Aconselho a procurar este tipo de serviço caso tenha condições de pagá-lo, por outro lado também sugiro saber muito bem os conceitos da estruturação do romance e da escrita criativa, assim poderá aproveitar melhor os apontamentos. Também é ótimo exercício de lidar com as críticas, pois a análise fica restrita ao autor e avaliador, podendo se preparar quando receber algo negativo em público. Não importa o quão bom seja o autor, alguém com certeza achará algum ponto ruim e terá razão nele, pois nenhum escritor é perfeito. Caso falte dinheiro e queira estudar escrita criativa sem gastar dinheiro, aproveite o próximo tópico!

Sites gratuitos

Alguns autores exercem certos tipos de trabalho com intenção de conquistar reconhecimento ao público a ponto de convencê-lo a adquirir seu livro ou serviços, dentre esses trabalhos existe o de disponibilizar conteúdo gratuito em sites! Seja uma amostra da matéria presente no curso dele, discussão de ideias defendidas entre autores diferentes ou listas sobre lições compartilhadas pelo autor ou de quem ele admira; há muitas formas de compartilhar informação. Podemos estudar escrita criativa nessas breves postagens com o custo apenas de nosso acesso a internet, também teremos noção do que cada responsável pelo conteúdo pode nos ensinar quando tivermos condições de pagar pelo curso ou livro vendido por ele.

O problema deste recurso é o conteúdo estar muito fragmentado em diversas postagens. Os criadores de conteúdo o fazem desta forma para manter o site deles atrativo nas redes sociais e no ranking dos buscadores de sites — tipo o Google —, inclusive eu mantenho este blog com novas postagens em cada semana pelo mesmo motivo. Mesmo ao tentar reunir esses fragmentos com intuito de “montar” o conteúdo completo, perceberá furos entre os artigos, pois cada um é escrito voltado ao tópico ou sub-tema específico, nenhum deles têm obrigação de interligar tudo, fazer assim gera muito trabalho e planejamento, algo que os produtores desempenham na criação do curso ou livro a vender através dos artigos gratuitos e das outras estratégias de marketing. Evite culpar o produtor do conteúdo por isso, pois eles apenas seguem as condições do mercado atual, e ainda assim pode aproveitar esses textos concisos, então os consuma!

Eu também tenho alguns artigos do tipo, no qual este mesmo faz parte! É só acessar a categoria XP de Escrita — tenho nenhum curso ou livro de escrita à venda no momento, então pode me seguir apenas pelo conteúdo gratuito 🙂

Livros técnicos

Aqui teremos a abordagem completa do que o autor pretende ensinar, mesmo quando dividida em temas pelos capítulos. Possuem o preço mínimo de livro comum ou muitas vezes até mais caro por valorizarem o conteúdo disposto nele, e ao ter condições de pagá-lo e conferir por si mesmo, é bem provável valer a pena.

Esses livros podem ser baseados em pesquisa, sobre discussão técnica ou ainda do autor compartilhando da própria experiência. Apresentam os pontos defendidos por eles e alguns até discutem os possíveis argumentos contrários. Ao ler diferentes livros do tipo, é fácil perceber as divergências de ideias entre os autores, cabendo ao leitor refletir e seguir qual ideia lhe convence mais, ou ainda formular sua própria concepção a partir da leitura e aplicar na prática.

O ponto negativo? Sempre tem… Você consumirá o conteúdo compartilhado pelo autor sem interagir com ele. Terá nenhum acompanhamento enquanto lê o conteúdo por si, caso arranje um colega ou grupo e discuta as lições interpretadas no livro, ainda faltará a figura do profissional capaz de conduzir esse aprendizado da melhor maneira possível, isto sendo exclusivo apenas a certas opções do tópico a seguir.

Cursos onlines de escrita

Aqui o investimento é pesado, mesmo os mais baratos superam o preço dos livros técnicos. Alguns cursos disponibilizam apenas o conteúdo em vídeo, recortado em várias aulas com intenção de abordar os detalhes necessários conforme a proposta do instrutor. Muitos outros vão além dos vídeos, oferecendo material escrito complementar, pequenos testes — questões — sobre o conteúdo, acompanhamento do próprio instrutor caso tenha dúvidas, por vezes tem até um retorno sincero do professor quanto ao material escrito enquanto aprende no curso! Este último não chega a ser análise crítica completa, pelo menos dentre os vistos por mim, apenas garantem a análise de um fragmento da escrita, seja capítulo ou determinada quantidade de palavras.

A vantagem está na diversidade em atender o aluno e pelo próprio acompanhamento do instrutor. Lembra da análise crítica que eu submeti? Apesar de avaliar apenas parte do romance, o instrutor apontará a falha através do conteúdo apresentado em aula, então já terá a base a refletir nessa crítica profissional. Também possuirá o conhecimento necessário ao encomendar esta crítica completa depois de realizar o curso.

É preciso avaliar bem em qual curso investir. Considerando o valor bem acima das demais opções de aprendizado, ninguém deseja correr o risco de desperdiçar dinheiro. Busque conhecer bem o instrutor a ponto de identificar se os pontos fortes vão te atender. Pouco importa quando o professor for a melhor referência em romance de época caso pretenda escrever ficção científica futurista. Às vezes a forma abordada também não é a mais confortável a você, criando empecilho ao ponto principal: o aprendizado.

Qual das opções é a melhor para estudar escrita criativa?

A resposta é muito simples: confira todas! Aproveite tudo o que tiver condições de pagar e esforce rumo a obter o melhor do conteúdo disponível. Enquanto estudar, jamais deixe de manter a rotina de escrita. A melhor maneira de fixar o aprendizado é pela prática, além de o estudo já servir para aplicar o conhecimento em seu trabalho, conforme deveria acontecer em qualquer outra profissão. Aprenda em cada oportunidade ao alcance, espero que lhe ajude.

A Utilidade das Críticas Negativas

O objetivo das resenhas é de me motivar a compreender mais sobre os livros lidos. Entender porque eu gosto de determinadas passagens, as razões de eu achar determinada leitura maçante, aprender lições com os acertos e erros dos demais escritores e assim usar o conhecimento adquirido na minha escrita.

Ao longo das resenhas eu também fiquei mais exigente, relatando problemas encontrados até nos livros que gostei — a ponto de eu dar três estrelas na avaliação do Skoob e Amazon —, apesar de ter o cuidado de evitar esta crítica comprometer quando as qualidades do livro compensam o deslize. Então por que eu insisto em apontar essas pequenas falhas? Ou também: qual o sentido de dedicar tempo com leitura desagradável e ainda fazer questão de escrever as críticas negativas a ela? Respondo essas duas perguntas neste post, porém já adianto o motivo: incentivar a melhora da escrita.

Apenas elogios só atrapalham

Conheço canais de resenhas literárias dedicados a esbanjar elogios nos livros lidos. De qualidades diferentes, todos recebem a nota máxima e são idolatrados pela capacidade extraordinária do ficcionista. Respeito o espaço deles, possuem o direito de elogiar quem eles quiserem, e até ajuda a atrair leitores preconceituosos com livros brasileiros a conferirem esses trabalhos tão bem avaliados, por certo tempo. O problema desta abordagem acontece quando o leitor percebe que determinado canal só sabe falar bem e se decepciona com algum dos livros indicados, a reputação daquele trabalho entra em cheque junto com o de todo livro resenhado por ele depois da desilusão, prejudicando mesmo os bons autores.

Só tenho duas ressalvas: já encontrei resenhas positivas sobre livros que detestei, e nesses casos só houveram divergências entre a minha impressão e a do outro resenhista, algo comum de acontecer na análise de trabalho artístico; também há canais que deixam de postar quando a leitura for ruim, pois preferem apontar as falhas ao escritor em privado e poupá-lo de denegrir sua imagem evitando de publicar a crítica. Também discordo deste último caso, sou defensor de manter a transparência em muitos sentidos, entre eles o de demonstrar a verdadeira qualidade dos livros escritos pelos brasileiros. Ter a ciência de estar sujeito a apontamentos públicos quanto a qualidade da escrita exerce aquela “pressão saudável”, aumenta a disposição de melhorar o texto com intenção de garantir a melhor impressão dos leitores.

Ao discordar das atitudes desses colegas resenhistas, estou longe de afirmar ser contra eles. A opinião divergente faz eu agir de modo distinto, e como ainda vivemos num ambiente democrático, é possível coexistir essas diferenças de trabalho, atraindo perfis de público correspondentes à proposta do canal.

Críticas negativas feitas só por criticar também atrapalham

No outro extremo temos gente disposta a apenas falar mal. Não trabalham com resenhas, apenas são espontâneos quando detestam determinado livro e ignoram qualquer qualidade ainda disponível, insistem tanto a ponto de acusar quem gosta ter péssimo gosto. E a pessoa consegue se favorecer com este tipo de atitude? Infelizmente sim! Tal comportamento atrai a atenção de várias pessoas, podendo gerar discussão desnecessária, o que ainda assim corresponde ao bom engajamento nas redes sociais, por isso promove quem fala mal. Quando ganha atenção, esta pessoa transborda postagens e memes apenas com intuito de tirar sarro, gerar mais engajamento; é uma estratégia desonesta e fácil de executar, basta focar na quantidade e ignorar a qualidade da critica elaborada, depois é só promover o seu próprio material, pois conseguiu formar público.

Mesmo quando detesto alguma leitura, faço questão de procurar pelas qualidades do livro e mostrar os pontos fortes e fracos. Quando o livro é de brasileiro independente ou editora pequena, tem maior probabilidade do próprio autor conferir minha resenha, por isso aponto as falhas sem comprometê-lo, ou seja, as críticas negativas estão lá, só que dispostas como conselhos a melhorar, bem ao contrário de desprezar determinado trabalho só por eu encontrar falhas.

Avaliar os pontos fracos faz parte do resenhista. Reforço o dito no começo deste artigo, faço resenhas para aprender mais da escrita a partir do esforço alheio, e aprendo muito quando identifico erro nos grandes escritores, conforme até James Wood disse. A perfeição é um estado inalcançável, então todo livro está sujeito a ter pontos a melhorar. Caso o resenhista não encontre tais pontos, é porque este falha na análise, por outro lado o autor foi bom o bastante em superar a visão crítica do leitor, e levando em consideração ser mais fácil criticar do que escrever livros, esse autor possui um mérito e tanto. Confesso já cometer essa falha, nem é tão difícil encontrar resenhas minhas onde só existem elogios, basta ver os livros eleitos na lista dos melhores XPs Literários — minha meta é isso acontecer cada vez menos.

Quando a resenha é honesta, o leitor compreende as críticas negativas apontadas e as pondera com as qualidades citadas nesta e nas outras análises. Quando conhece o crítico, os livros elogiados por ele terão maior credibilidade ao leitor, pois foi mérito do autor dedicar tanto a ponto de superar os demais trabalhos analisados por aquele canal. Defendo esta abordagem sendo a mais justa aos leitores e escritores, além do cuidado de respeitar o esforço mesmo daqueles carentes de aprimorar a escrita, com intenção que de fato melhore!

Para Ler Como Um Escritor

Esqueça a ideia de nem todo bom escritor não precisa ler livros. Desconheço casos assim, apesar de quase ter a certeza de existir esta raridade. Cansa ver membros de grupos online se agarrarem a essas exceções e torná-las regras. A dádiva da criatividade reservada a escritores inexiste, eles a obtém através das referências lidas e experiências vividas, tudo combinado com muita técnica e inúmeros erros antes do acerto. Ler também é participar do meio onde pretende trabalhar, possibilita a descoberta de autores com quem possa aprender e até ter amizade. A leitura proporciona prazer e jamais deveria ser ignorada.

Para Ler Como Um Escritor oferece dicas aos amantes da leitura a aprender e observar detalhes ocultos a quem apenas lê, e essenciais a aspirantes a escritor ou qualquer profissional literário. Publicado em 2006 por Francine Prose e lançado no Brasil em 2008 pela editora Zahar com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, os onze capítulos demonstram como apreciar os elementos da escrita a partir de trechos transcritos no livro e comentários dos mesmos pela autora.

“Se querermos escrever, faz sentido ler — e ler como um escritor”

Francine Prose leciona o que nos Estados Unidos é chamado de Master of Fine Arts, cuja área abrange cursos artísticos e literários. O livro reflete as aulas delas em como reconhecer as qualidade da escrita a partir da leitura, e para isso seleciona inúmeros trechos de livros como exemplos do assunto principal de cada capítulo. A escolha dos livros é pessoal, por isso nem todos são tão conhecidos, apesar da maioria ser de literatura clássica e escrita há mais de um século. Além da escolha íntima dos livros, Prose reflete a experiência pessoal dela em todo o texto, o livro é baseado no aprendizado prático da leitura e lições apreendidas enquanto lecionava, tudo transparente ao leitor.

O começo apresenta a exposição desleixada da autora, dá a oportunidade de a conhecermos um pouco antes de acompanharmos suas observações competentes no restante do livro. Cada capítulo aborda certo elemento da escrita, seja a escolha de palavras, construção de frases e parágrafos; na concepção dos personagens, detalhes, narrativa, e mais alguns outros. Esses capítulos são compostos de comentários da autora e transcrição de trechos em que ela sugere a leitura atenta, e então ela explica onde ficam os detalhes do elemento correspondente ao capítulo.

“O que não está sendo dito é tão importante quanto o que está”

Todos os exemplos têm a mesma premissa: de reconhecer as qualidades do texto através da leitura atenta — chamado de close reading em inglês. Esqueça a ideia de terminar o livro o quanto antes e pegar o próximo da infinita lista de leituras de todo leitor, o importante é captar a qualidade. Prose nos ajuda a encontrá-la nos trechos selecionados por ela, e seus comentários dão dicas úteis a técnicas de escrita mesmo o foco do livro sendo a leitura. Certos capítulos são engessados, com muitos trechos a ler e muitos comentários a contemplar, exigem além da leitura atenta, também a releitura de absorver melhor os detalhes. Mesmo assim na primeira leitura já possibilita o aprendizado de muitos conselhos na escrita.

Os livros são, na maioria, de literatura estadunidense, inglesa e russa, com capítulo exclusivo das lições tiradas com leituras de Tchekov. Com todas as indicações voltadas ao exterior — incluído a lista de livros sugeridos pela Francine Prose —, esta edição tem o complemento de Italo Moriconi focado nas obras brasileiras. A literatura estrangeira tem a qualidade incontestável, mas é preciso destacar as particularidades da nossa linguagem pelos autores clássicos do Brasil, o que esse posfácio demonstrou muito bem.

Para Ler Como Um Escritor ensina muito enquanto recomenda o uso da leitura atenta. É um baú cheio de textos excelentes de vários livros com indicações de como absorver toda a qualidade desses. Desconstruiu algumas de minhas visões de determinados elementos enquanto abriu meus olhos a outros detalhes. Com certeza meu aprendizado com este livro fará com que eu avalie as próximas leituras com mais detalhes!

“Parte da obrigação do leitor é descobrir por que certos escritores permanecem”

Para Ler Como Um Escritor - capaAutora: Francine Prose
Tradutor: Maria Luiza X. de A. Borges
Autor do Posfácio: Italo Moriconi
Editora: Zahar
Ano da publicação Original: 2006
Ano da Edição: 2008
Quantidade de Páginas: 320

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Problemas Comuns dos Livros Brasileiros

Aqui vai outro XP de Escrita com puxões de orelha! Um terço das minhas leituras do ano até o momento foram de livros nacionais. Eu tenho o maior carinho por eles e torço para eu eleger algum desses como a minha melhor Experiência Literária do Ano, só que não premiarei tal obra apenas pela autoria conterrânea, o livro deve provar seu valor a alcançar o topo entre as dezenas de histórias conferidas. Por carregar essa ansiedade, por vezes me entristece conferir um livro nacional e avaliar o quanto ele poderia melhorar, o pior mesmo é eu ficar cansado de criticar os mesmos problemas em cada livro. Acontece com livros internacionais também — inclusive com best-sellers vencedores de prêmios —, porém vejo certo desleixo nas obras escritas por aqui pela recorrência da situação.

Listo neste post três dos problemas mais comuns nas minhas últimas leituras de livros nacionais. Longe de desprezar tais obras por esses erros, minha intenção aqui é incentivar os escritores a melhorar sua escrita e assim evoluir a qualidade dos nossos livros.

Advérbios terminados em “mente”

Stephen King critica os advérbios por serem redundantes na cena. O contexto de todo o parágrafo já determina a intensidade da ação citada no verbo sem precisar do advérbio. O autor caça os advérbios na revisão feito inimigos mortais da escrita literária, e isso deixa os longos livros prazerosos de ler, com frases dinâmicas graças a limpeza empenhada por King.

A regra vale na língua portuguesa também, e a nossa tem outro agravante sério: os advérbios terminados em “mente”. Exatamente, milagrosamente, paralelamente, irritantemente. É extremamente angustiante ver essas palavras no texto literário, elas quebram todo o ritmo de leitura devido a extensão da palavra, maiores do que qualquer outra disposta no mesmo parágrafo. O custo é alto e traz pouco significado, quando eu reviso meus textos e identifico essas palavras, eu consigo substituí-las por — pasmem — nada, apenas retiro a palavra e mal perco o significado da frase. Haverá casos quando fará falta ao tirá-los, então veja a possibilidade de trocar a palavra por um sinônimo mais curto, e se aquele advérbio é o termo apropriado naquela situação, então deixe-o. Faça isso e verá como terá poucos advérbios em “mente” no texto, depois leia em voz alta e perceba a mudança no ritmo da leitura. Lembre de me agradecer depois.

Verbos de Pensamento

Este problema vem da dica do escritor Chuck Palahniuk, que emplacou o segundo lugar nas minhas melhores leituras de 2018 com o livro Clube da Luta. Vários sites traduzem o conselho de Chuck na íntegra, acessível a qualquer escritor brasileiro conferir, e mesmo assim enlouqueço de ler esses verbos tantas vezes.

Verbos de pensamento resumem as ideias e sentimentos do personagem, e o problema está na palavra resumir. Ninguém abre um livro de ficção esperando a síntese de uma história, e sim acompanha cada triunfo e problema do personagem, sofre com ele e fica a mercê da catarse da vitória ou chora no fim trágico. Como o livro vai provocar essa explosão de sentimentos no leitor quando a descrição limita a dizer como o herói acha o vilão feio e gosta da garotinha indefesa, esta que se preocupa pelo bem-estar do herói enquanto ele quer apenas um mundo melhor? Não funciona!

Esses verbos são atalhos de descrições e atrasos da qualidade literária. Evitá-los o levará ao caminho da metodologia de mostrar a situação ao leitor ao invés de contá-la — o famoso show, don’t tell. Longe dessa abordagem ser obrigatória, eu elogiei A Parábola dos Talentos com a narrativa descritiva, e mesmo neste livro há poucos verbos de pensamento, sem falar na capacidade da autora em impactar o leitor por contar as piores situações vividas pelos personagens, causa desconforto quando esta é a intenção da cena. Francine Prose — autora de Para Ler Como Um Escritor — também defende a ideia de narrativa descritiva nos momentos que é melhor citar as situações pouco importantes naquela cena e focar no objetivo daquela parte do texto. Em suma, demonstre domínio e direcione sua intenção na escrita, e fará isso moderando os verbos de pensamento.

Siga o conselho de Chuck reforçado aqui. Odeie-o, odeie-me. Tire esses verbos e desenvolva os parágrafos a expressar o pensamento ao invés de condensá-lo na única palavra, depois leia, compare com a versão anterior, e entenderá o porquê de eu criticar tanto nas resenhas quando vejo abuso nos verbos de pensamento.

Impor mais peso no enredo do que nos personagens

Essa crítica é importante, pois aconteceu também na última temporada de Game of Thrones — até grandes produções cometem erros. As grandes reviravoltas no enredo têm o poder de surpreender o leitor. O problema ocorre quando vem a pergunta “o personagem faria tal coisa mesmo?” e não encontra a resposta. O enredo apelou a reviravolta sem dar a devida motivação ao personagem.

Toda história deve desenvolver os elementos essenciais da narrativa em conjunto, ficará nítido ao empenhar em um e fraquejar nos demais. Nem preciso dizer o quão horrível é o leitor descobrir a falha narrativa do autor, compromete a expectativa envolta da obra e a credibilidade de quem a construiu. Quando vi a transformação da Daenerys no término do seriado eu refleti: “isso seria legal, se tivesse me convencido”, mas os poucos episódios falharam em desenvolver essa nova característica dela.

Livros são mais flexíveis ao tamanho da história, então o escritor precisa desenvolver a motivação de cada personagem, mostrar os conflitos deles e alimentar justificativas da mudança radical. Quando acontece a reviravolta, é preciso sustentar os argumentos dela, seja pelas explicações posteriores ou remeter a eventos anteriores e demonstrar como existia o prenúncio da mudança. Deixe-me falar de Clube da Luta de novo, o livro faz a revelação que vira a história do avesso, e conforme lê os parágrafos seguintes, percebe como todos os indícios estavam lá e respondem as inquietações provocadas na revelação.


Esses são os problemas encontrados nas minhas leituras de livros nacionais. As histórias ainda tiveram a sua qualidade, pois demonstrei também quais foram os acertos delas nas respectivas resenhas. Evitei de listar quais livros eu vi os erros pois quero evitar de denegrir tais livros com o foco negativo deste post, ainda acredito no potencial dos escritores brasileiros e espero este texto ajudar alguém a melhorar a escrita.

Eu Fracassei no Wattpad

O Wattpad é uma plataforma com publicação de livros digitais e gratuitos. Qualquer usuário pode publicar sua história e ter a oportunidade de ganhar reconhecimento pela escrita. Com funções semelhantes a de redes sociais, as pessoas interagem entre si votando nas publicações do colega e comentando no livro dele.

Alguns autores começaram a compartilhar suas histórias através do site. Trocaram experiências de escrita, aprenderam e melhoraram a ponto de realizar a publicação profissional, seja independente ou até com editora. Wattpad é o ponto de partida a muitos nesta trilha com inúmeros desdobramentos, alguns autores ainda aproveitam a plataforma, outros a abandonam. Eu larguei o site antes de publicar qualquer livro como escritor profissional, e reconheço meu fracasso na plataforma, cujos motivos apresento agora.

A benção e a maldição da interação

Com as funções semelhantes a redes sociais, a interação entre escritores e leitores é a maior vantagem do Wattpad. Opinar sobre parágrafos específicos com opção de responder ao comentário possibilita boas conversas a partir de determinado ponto da história. Quem souber aproveitar a ferramenta consegue também proporcionar uma experiência diferente de quando publicado impresso ou em eBook. Fica ainda melhor com a quantidade massiva de leitores e escritores na plataforma, pois conhece todo tipo de pessoa e troca novas ideias com ela.

Um aspirante a escritor pode encontrar outro colega com objetivos e gostos em comum e acompanharem o trabalho um do outro. A troca de leituras favorece conversas sobre como melhorar determinado trecho do capítulo ou apontar determinados furos no enredo, tudo para ajudar o amigo. Possibilidade interessante, pena o problema começar daqui. Dependendo da companhia arranjada na plataforma, você obterá apenas elogios e críticas vazias, longe de a outra pessoa ser falsa, apenas tem pouca experiência, e o mesmo acontece contigo; ambos terão a falsa impressão de crescerem juntos.

Aconteceu isso comigo, entrei numa bolha onde parecia me levar ao ótimo caminho junto a meus amigos, e aos poucos nós quebramos a cara, um a um desistia da plataforma, até mesmo da escrita. Testei publicar alguns de meus textos tão elogiados no Wattpad em editais de outros sites, e eles foram recusados — com razão. Hoje eu sinto repulsa pelos textos escritos no passado, reconheci meus problemas de escrita depois de ficar fora da bolha, e isso é ótimo por saber o quanto preciso melhorar. É bom aos leitores também, pois pouparei de darem o azar de ler Crônicas de Cafeína, foi meu primeiro livro do Wattpad e tenho orgulho de começar por alguma história, daquele tempo quando confundia a conjugação dos verbos entre passado e presente, do meu pedantismo, sem apresentar conflitos na maior parte do enredo… Pelo menos as piadas eram legais.

Dedicação

Como a interação é o ponto principal da plataforma, o próximo motivo ainda será em torno dela. É muito difícil alguém postar no Wattpad e do nada conseguir inúmeros leitores, na maioria dos casos é preciso interagir no site. Quanto mais participa, mais é visto pelos outros usuários. Há quem tome atalhos e combina troca de seguidores e leituras apenas para conquistar números maiores, mas o sucesso no Wattpad exige além disso, é preciso demonstrar a dedicação com a sua história, atender os seus leitores e ajudar os colegas escritores — com aquelas ressalvas já citadas —, senão você ainda terá boa quantidade de leitura, só não atrairá as pessoas capazes de te ajudar a crescer tanto na escrita como na publicação profissional.

Tal dedicação necessita de muito tempo numa frequência constante, o que optei por aproveitá-lo em outra situação. Percebi a necessidade de melhorar a minha escrita antes de atrair novos leitores, usar o tempo que gastaria na plataforma para aprender, praticar e conhecer trabalhos de autores já publicados. Por esses motivos optei me dedicar a este blog no lugar do Wattpad. Aproveito o espaço livre no meu site a compartilhar o pouco do que aprendo como este e outros textos do XP de Escrita.

Fazer resenhas também me ajuda muito. Ao me dedicar com leitura mais crítica, esforcei a encontrar problemas nas escritas de escritores já experientes. Posso identificar tais erros e evitar de cometê-los nos meus próximos textos; mesmo em casos corretos, posso discordar da abordagem em certo livro e aproveitá-la de outra forma nos meus textos. Outra vantagem de usar o blog é de acompanhar o mercado editorial mais de perto através dos lançamentos resenhados e de conhecer os autores nacionais mais acessíveis, podendo trocar ideias com eles, de maior bagagem literária e olhar mais crítico.

O meu fracasso no Wattpad não é de fato um fracasso na vida de escritor. Encarei minha realidade e optei trilhar outro caminho, este muito útil a mim por enquanto. O site tem sua importância, possibilidades de favorecer boas carreiras e seduzir novos autores a compartilharem os primeiros rascunhos. Agora que soube da minha experiência, reflita se no seu caso ainda valerá a pena, talvez também precise tentar outras alternativas até reconhecer a melhor. Caso tenha o sonho de seguir na carreira de escritor, siga adiante e jamais desista nesta trilha árdua!

Primeiro Escreva (Conceitos, técnicas e dicas de escrita)

Sempre quando falamos de conteúdo sobre técnicas e aprendizado de escrita, refletimos sobre a escassez deste conteúdo em nosso país. Existem livros internacionais muito úteis, e poucos são traduzidos no Brasil. Temos o crescimento de portais com ótimas dicas e assuntos levados com seriedade, como podcasts e canais no YouTube. Cursos de construção de enredo e escrita criativa também crescem em números, fomentando concorrência e incentivando a melhora do ensinamento. Os autores de hoje têm mais acesso ao conhecimento da escrita, isto levando em conta apenas o conteúdo em nosso idioma, pois a fonte de quem bebe do aprendizado em outros idiomas é ainda mais abundante. Acredito no futuro quando teremos tamanha fonte em nosso quintal, graças as iniciativas já citadas neste parágrafo e por quem dedica a dividir o próprio aprendizado por meio clássico: publicando um livro sobre a escrita.

É o caso de Primeiro Escreva, com dicas compartilhadas pela Mari Moura na plataforma Wattpad e disponibilizadas em eBook através da publicação na Amazon desde 2018.

Você não tem uma história até que alguma coisa dê errado para o seu personagem

As sessenta páginas dividem tópicos e sub-tópicos de elementos essenciais na ficção. Construção de enredo, como criar e desenvolver personagens, como planejar a voz narrativa e as descrições; tudo é abordado de forma sucinta, os poucos parágrafos demonstram argumentos da necessidade do escritor conhecer o assunto tratado e como aproveitá-lo na história.

Quem é Emily para o leitor senão uma série de palavras para descrevê-la?

Inegável alegar o quanto todos os tópicos abordados são úteis na construção de histórias, tanto a seleção dos assuntos como a explanação deles, cuja abordagem já incita a como colocar em prática. É possível motivar os escritores com essas dicas, fazê-los estudar mais determinado tópico após ver a abordagem sucinta neste livro. As dicas compartilhadas são comuns, boa parte vinda de outros materiais; é ótimo quando os novos trabalhos reúnem o conhecimento de outros já publicados, pois possibilita visualizar a base estudada pela autora e aprender com as conclusões desta, porém este livro não cita quais foram as referências, ajudaria muito o escritor a ter orientações de como saber mais sobre determinado assunto.

Existem muitos problemas consequentes da falta de revisão no livro. Tem a ineficiência na escrita com vários erros de digitação, ausência de acentos, palavras coladas com a pontuação e as vírgulas mal posicionadas ou ausentes. A estrutura do livro peca em espaçamentos sem padrão entre parágrafos, cita imagens inexistentes na versão analisada (ao menos até o momento da escrita desta resenha), e a sugestão de interagir com o conteúdo em determinadas partes atesta a falta de adequação do texto disposto no Wattpad para a edição da Amazon, pois apenas a primeira plataforma proporciona tal interação.

Primeiro Escreva oferece conteúdo interessante, este ainda escasso pela quantidade de livros do gênero feito por brasileiros, e parabenizo a autora pela iniciativa em contribuir com esta publicação. Entretanto me entristece notar a falta de empenho na adequação dos textos de uma plataforma a outra e a falta de revisão na escrita, ainda mais neste livro cujo exemplo deveria ser imprescindível.

Para criar um personagem é muito simples (ou não)

 

 

Autora: Mari Moura
Publicação independente na Amazon
Edição: 2018
Páginas: 60

Confira o livro

A Caverna de Platão Entre os Escritores Brasileiros

Deixe-me desenvolver a metáfora e justificar o título. Escritores restritos ao território brasileiro estão na caverna que representa o nosso país; eles leem inúmeros livros com o intuito de aumentar o próprio repertório, esses livros são as sombras na parede da caverna, essas disponíveis através da fogueira de fogo fraco, prestes a apagar, pois a fogueira representa as editoras que trazem os livros ao público, prejudicadas com a crise do mercado editorial. Devido a esta dificuldade, os escritores falham em acompanhar as tendências mercado afora, poucas novidades literárias chegam ao Brasil, sem falar dos livros escritos décadas atrás e só agora chegam aqui, como a da Octavia Butler.

Autores conterrâneos pegam as obras disponíveis, inspiram-se nelas e sonham em criar histórias com o mesmo nível de qualidade. Digo até haver muitos capazes disso, e teremos pouca oportunidade de conhecê-los por pecarem na diversidade. Muitas fantasias nacionais sobre mundos medievais focam em aspectos dos reinos ingleses ou na cultura nórdica, consequência dos autores consumirem esses livros internacionais disponíveis aqui. Já os leitores terão de decidir entre conferir o trabalho de autor já consagrado no mundo todo ou do brasileiro a dar seus primeiros passos na produção literária que também se inspira na primeira opção.

A realidade é tenebrosa, entretanto quero sugerir a outra perspectiva, deixar de ver esta situação como dificuldade e vislumbrar as oportunidades na cara de todos. Sim! Há mais de uma alternativa, e explicarei quais são a seguir.

Saia da caverna

Uma boa opção é sair da caverna, livrar da comodidade e dependência de ler apenas histórias traduzidas ao nosso idioma e encarar os lançamentos internacionais na língua de origem. Reconheço a dificuldade ao aprender outro idioma além do português, eu mesmo só consigo ler em inglês se for texto mais técnico ou conteúdo áudio-visual — com legenda em inglês —; preciso praticar com mais livros, na verdade até já comecei com Hamlet. Superando esta condição, o acervo de histórias a explorar é bem mais do disponível no Brasil, e possibilita até de prever quais tipos de livros poderão chegar no país ou se não chegarem, fazer a história deste tipo e publicar aqui.

Outra saída me cativa mais, pois além do meu nível de poliglota ser ínfimo, também vi ótimos exemplos deste estilo. podemos desenvolver mais histórias no ambiente brasileiro ou valorizar a nossa linguagem/cultura. Assim os livros brasileiros terão algo diferente dos livros internacionais, melhor ainda, apresenta algo único aos leitores. Deuses Caídos de Gabriel Tennyson mostra as ruas do Rio de Janeiro com as criaturas nefastas do nosso folclore ou adaptadas à nossa realidade; Ian Fraser mostra a cultura indígena em Araruama e ainda proporciona uma linguagem poética mesclando palavras e significados das tribos com a narrada em português; e ainda temos criaturas sanguinárias em contextos históricos, como o Lobisomem de Clecius na Revolução Farroupilha e o Dom Pedro transformado em vampiro de Nazarethe. Todas as obras citadas estão resenhadas e reforço a qualidade, mesmo assim ainda há outros inúmeros aspectos da cultura brasileira inexplorados pelos escritores.

Nem tudo são flores

Temos alternativas interessantes e ótimas oportunidades, mas existe o contraponto que nos joga o balde de água fria. Os leitores estão na caverna junto com os escritores, e quando estes verem o que existe fora dela, com obras originais e diferentes da sombra reproduzida pela fogueira/editoras, eles ficarão incomodados. Por precisar sair da zona de conforto, acharão esses livros diferentes demais, ligarão o botão do preconceito e repetirão asneiras sobre a nossa cultura ou do escritor querer inventar demais quando na verdade só bebeu da fonte ainda indisponível no Brasil. É triste evidenciar tal realidade, e desta vez fica difícil mudar a perspectiva, sem alternativas senão confrontá-la.

O Mito da Caverna de Platão conta de os confinados terem os olhos agredidos pela luz potente do sol, esta cheia de conteúdo diferente do habitual. Apenas os confinados capazes de perseverar e acostumar com a luz solar poderão ver quão maravilhoso é vislumbrar os livros feitos pelos brasileiros sem ter o limite dos que chegam cada vez menos pelas sombras da fogueira.

Precisamos incentivar a saída dos leitores a esta caverna imposta. Já temos escritores com escrita de qualidade no mesmo nível que certos lançamentos internacionais, basta convencer mais pessoas a darem chance a eles. Sabe a fogueira de chamas fracas das editoras? Com a popularidade de autores nacionais, editores terão menos receio de publicar livros escritos por brasileiros, cujos valores em direitos autorais são bem mais em conta comparado aos conhecidos pelo mundo todo; conseguindo boas vendas desta forma, tirará as editoras da crise e até com dinheiro o suficiente para investir nos lançamentos internacionais, além de concluir as sagas pendentes e já disponíveis lá fora.

Talvez eu abuse do otimismo — alguns já me disseram isso. Mesmo se as ideias compartilhadas neste post derem certo, tomará muito tempo até engrenar e trazer melhores resultados a quem deseja viver de escrita no Brasil. As crises sempre acontecem, e nessas há uma parcela dos envolvidos capazes de tirar vantagem e transformam todo o meio. Só torço que a transformação seja para melhor.

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