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A Substância (Suspense YA de Marcelo Medeiros)

O terceiro ano do ensino médio traz muita importância na vida do adolescente. É o fim da saga com mais de dez anos de estudos, e o prenúncio da vida adulta. Preocupações sobre o futuro pesam mais pela experiência escassa, pois ainda há muito a aprender. O planejamento trará responsabilidades antes dos últimos momentos de amparo dos pais. Tem o vestibular e com ela a demanda absurda de estudos, capaz de transgredir o limite dos jovens. Agora imagina toda essa situação com o agravante do mistério em que os envolvidos ameaçam a vida de quem estiver no caminho?

A Substância* traz esse mistério na vida complicada dos alunos do ensino médio. Publicado em 2019 por Marcelo Medeiros pela Editora Tribo, este suspense jovem-adulto — YA — constrói o enredo inspirado em autores de investigação policial consagrados, como Agatha Christie.

* Livro cedido pelo autor para realizar a resenha

“Nenhum pai quer ver o filho em confusão”

Carlos Eduardo — o Cadu — começa o último ano letivo do ensino médio. A preocupação primordial do fim do ano já o acomete desde o primeiro dia: o Exame Nacional do Ensino Médio. Preocupação comum a dos amigos também, uns com planos definidos, outros nem tanto. Todos ansiosos pelas novas aulas, recebem a surpresa na aula de matemática, pois a grade indicava um professor e na hora chega outro sem dar nenhuma satisfação, o professor Fred. Pouco tempo depois o diretor interrompe a aula de Fred e apresenta o novo aluno da turma, chamado Victor. As interações entre o novo aluno e o misterioso professor provoca questões na cabeça de Cadu. Essas duas pessoas têm segredos relacionados à escola, e o jovem estudante pretende descobri-los.

“Quanto mais envolvido na história ficava, mais vontade me dava de solucionar esse mistério”

Este livro de suspense não só tem personagens adolescentes, como também é voltado a este tipo de público; com certeza muitos leitores se identificarão com a ansiedade pré-vestibular e a escolha da carreira a seguir pela vida. Planos sobre planos com nenhuma garantia de dar certo no final, faz parte da vida e é interessante retratar tal realidade na ficção. O suspense traz a estrutura clássica de investigação, com pistas e suposições dos personagens envolvidos durante a construção do mistério até chegar a conclusão com as respostas de todas as indagações; a abordagem é conhecida e atrai leitores interessados nesse gênero. É o primeiro romance do Marcelo Medeiros, e deixa nítido a maturidade de escrita ao autor iniciante por tomar decisões desconfortáveis que demonstra pouca confiança na escrita, cujos elementos apontarei com intenção de ajudar a amadurecer nos próximos trabalhos como autor.

Cadu é o protagonista/narrador — salvo alguns capítulos em terceira pessoa sobre o passado — e conta todos os detalhes da sua vida na passagem deste romance. Interrompe a trama a todo momento para contar da rotina dele, apresenta as justificativas sobre cada compromisso rejeitado, resume como foi o dia e só depois conta algo relevante ao enredo. Todos os fatos banais tiram o interesse do leitor, nós conhecemos as necessidades básicas pois nós também a fazemos, abrimos o livro na intenção de nos surpreender com a criatividade da trama, pouco importa ver o personagem desmarcar um almoço ou estudo em conjunto exceto quando interfere na trama construída. Este livro contém muitos detalhes incapazes de agregar ao enredo.

“Desisti de continuar com as perguntas bobas e fui direto ao ponto”

Cito a narrativa de pouca confiança por causa dos diálogos. Quase toda fala termina citando o autor da fala, é comum também descrevê-la com o verbo de dizer — ex: concordar, reclamar — que só repete a informação já dada pela fala do personagem. E as conversas passam longe do verossímil, apenas entregam as informações da história ao leitor, inclusive os personagens fazem as perguntas que deveriam ser feitas pelo leitor enquanto vê o desenrolar, e assim acontece rodadas de entrevistas criticadas pelo protagonista em um dos primeiros capítulos, mas que o próprio autor comete o erro na construção dos diálogos.

Por fim falo do desenvolvimento do enredo. O primeiro problema é Cadu mergulhar na investigação só por testemunhar uma conversa estranha entre o novo aluno e o professor. O livro não dá pistas do protagonista ter essa curiosidade desde o começo nem elabora algum conflito que justifique o tamanho interesse no rapaz. Os outros personagens tentam convencê-lo a deixar o mistério de lado ou pedir ajuda policial, e Cadu apenas nega por teimosia, sem elaborar argumentos. Os obstáculos têm solução rápida, como tal personagem de repente dizer possuir a ferramenta adequada, determinados personagens simplesmente chegam no momento certo para resolver o conflito, e até mesmo habilidades hackers surgem do nada quando é preciso obter resposta; o Deus Ex-Machina está à vontade.

A Substância é um trabalho vindo de alguém inspirado por boas referências literárias, é fácil de notá-las. Falta apenas o aprimoramento da narrativa, esta obtida pela prática e estudos sobre a escrita criativa, bem como na reflexão nos problemas apontados nesta resenha, caso concorde com elas.

“Era a oportunidade perfeita de conversar com ele. O único problema foi que acabei cochilando”

A Substância - capaAutor: Marcelo Medeiros
Editora: Tribo
Ano de publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 192

Confira o livro

Contato do autor:

Instagram: @marcelomedeirosm_
Telefone: (84) 9 9626-4127
E-mail: marcelo_medeiros_5@yahoo.com.br

Clube dos Fanáticos (conto)

Hoje é tudo ou nada! 

Preciso convencer aqueles dois sobre a verdade absoluta. Eu tenho a razão e esclarecerei tudo a eles, refutarei cada argumento, convencerei que seus ideais são fracos, e enfim todos seguirão o meu ídolo. 

Eu já fiz tudo isso no Facebook, claro. Floodei o Whatsapp com esses argumentos. Reclamei no Twitter e printei e mostrei a eles. Só me respondiam com memes, mas no cara a cara será uma disputa honesta, sem imagem engraçada a não ser o rosto da derrota deles.  

Vejo os dois no outro lado da rua. Sorrindo, por enquanto. Hoje o filho chorará e a mãe não verá. A verdade chegará à tona. Nesta manhã serão eles, amanhã o mundo! 

“Cuidado, Marcos!” 

Pulo para trás no último instante que o carro passa. Ninguém respeita as faixas de pedestres na rua da escola? 

Agradeço ao Vinicius por me avisar. Cara esperto demais, não sei como ainda não foi convencido pela verdade… Ele logo verá. 

“Ainda bem que tem a gente, Marcão. Não sobreviveria sem nós.” 

Pedro sempre sorri quando fala, quando debocha enquanto escuta, quando respira. Tirar seu sorriso será o meu maior troféu. 

“Vamos começar?” 

“Começar?” Ainda sorri. “Já quer discutir de novo? Acabamos de voltar de férias, cara! É o primeiro dia de aula. Não deixe isso mais entediante.” 

Vinicius balança a cabeça. 

“Eu deixaria, se vocês não fossem cabeças-duras. Eu quero ajudar vocês.” 

“E você tem cabeça avoada. Não presta atenção ao atravessar uma rua.” 

“Não piore as coisas, Pedro”, diz Vinicius, e logo aponta para mim. “E vamos deixar esta discussão de lado, Marcos.” 

“E por que não quer discutir, Vinicius? Certeza é pela sua favorita não passar de uma mulherzinha.” 

“A Super Minúscula é incrível! Como não consegue ver o quanto ela é maravilhosa? E ainda cuida da própria vida, ao contrário do seu herói mimado que tem um agente limpador até de cocô.” 

“Nem eu consigo ver, Vinicius, porque ela é Minúscula.” Só o Pedro ri do próprio trocadilho. “Esta heroína de nada não está à altura nem do fracote do Morciga, o queridinho do Marcos.” Agora gargalha, finge perder o fôlego. 

“O seu Super Mongo é pior ainda.” Falo. “É um herói tão carente a ponto de precisar se reafirmar sempre, mas de Super não tem nada.” 

“É Super Mago. Não consegue discutir com argumentos e fica aí diminuindo o melhor Super Herói com baixarias.” 

“Nada disso! Baixaria é com a heroína de Vinicius.” Pedro ri da minha piada, Vinicius fecha a cara. 

“O seu é overpower, a história fica sem graça quando o herói pode fazer de tudo.” Vinicius aponta do Pedro a mim. “E o seu só vence por causa do roteirista.” 

“O quê?” Cara, eu me canso de refutar esta falácia. “Morciga sabe usar a cabeça, explora as fraquezas dos vilões, e rouba fácil o cajado do Mongo e o deixa sem magias.” 

“Super Mago também faz magia com as mãos. O roteirista daquela edição subestimou a capacidade e inteligência do meu herói. Ou não, só fez assim para esse Morciga ganhar com uma história podre.” 

“O seu ganha um poder a cada edição, Pedro! Depois vem me dizer que o roteirista apela com o Morciga. Nada. Até a Super Minúscula ganha do Mongo numa luta justa.” 

“Ganha, mesmo. E ganha dos dois.” 

Argh! Eles não entendem. 

Continuamos discutindo. Elevo minha voz conforme a força de meus argumentos, ainda assim não escutam. Eles não vão me convencer só por falar mais alto. Estou refutando tudo, só não percebe quem não ouve. 

Os outros alunos nos rodeiam. Gritam “Briga! Briga!”, quando a gente só está discutindo. Discussão inútil, pois meu personagem é o melhor. Não entendem isso mesmo em 2018, a informação está toda lá na internet, cacete! A verdade está lá, basta olhar na direção certa. 

Mas, não. Ninguém quer ver a verdade. Estou quase perdendo a voz, porém ganharei a guerra. Eu… 

“Chega!” Professora Ordete berra contra todos. “Silêncio, seus papagaios! Parem de repetir essa discussão e vão estudar, Deus.” Gesticula suas mãos, e a roda de alunos é desfeita como se fosse magia.

Quando fica apenas nós três ela continua: 

“Não se ganha discussão fazendo barulho com a mesma ladainha. Vocês estão no segundo ano, são praticamente adultos! Parem de fazer birra e aprendam a conversar.” 

Ela… Ela tem razão. Eu levantei minha voz, gritei, e não convenci ninguém. Meus amigos também berraram, e não me provaram nada. Como iriam me convencer se sei quase nada sobre os heróis deles? 

Nos calamos. 

“Fazem esse favor por mim, por nós.” Ela deixa de berrar. “Cansei de ver adultos, gente da minha família, até outros professores com o mesmo comportamento de vocês neste ano. Prometem serem melhores que esses adultos?” 

Vejo nos olhos de cada um. Parecia telepatia, nós nos entendemos em silêncio. Somos amigos, e devemos aproveitar a nossa amizade para saber mais do mundo. 

“Nós prometemos”, respondemos ao mesmo tempo. 

“Vocês ainda têm jeito, crianças.” 

Ela sorriu, e retribuímos o sorriso. 

Estudamos sem discussões. Quando chegou na aula da Ordete nenhum de nós olhou feio para ela, eu até estudei com mais vontade. 

O sinal do término da última aula bateu, o tempo passou muito rápido. 

Agora vou na casa do Pedro junto com Vinicius, e combinamos de cada um ler a história do herói do colega. 

Convenci meus colegas que admiro o Morciga não pelas suas vitórias, mas por superar suas limitações perante inimigos bem mais poderosos que ele ou o próprio Super Mago. 

Eu não ganhei a discussão. Quer dizer, nem discutimos sobre nada, conhecemos mais de cada herói. 

Devo dizer: nunca existiu um Super Mongo, ele tem ótimas motivações. 

E a Super Minúscula é linda, muito poderosa e enfrenta problemas acima de sua altura! Sem piadas: a história dela é legal, sim. 

Reconheço as capacidades de cada personagem. Morciga continua sendo meu favorito, ainda torço de ele ser o preferido de todos. Ao menos agora sei como argumentar o meu ponto de vista, e não refutar a ideia contrária somente por refutar. 

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