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O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura

Se não acompanha por si, pelo menos conhece alguém a estampar frases motivacionais de supostos vencedores na carreira profissional por meio de esforço integral. Trabalhe enquanto eles sonham, brincam, reclamam ou algo do tipo. Na prática trabalhe também mesmo quando a família precisa de você, ignore as recomendações médicas, somam as dores musculares e de cabeça sendo parte do empenho, fracasse pela exaustão minar toda a criatividade e foco, ou porque “deixou de se esforçar o suficiente”. Buscar outro ponto de vista é diferente de fugir do trabalho ou seguir pelo caminho mais fácil e sem resultado, pelo contrário, é aliar a eficiência com o bem-estar familiar e empresarial de modo a manter a rotina produtiva.

O Trabalho Não Precisa ser uma Loucura elenca exemplos do quanto a cultura empreendedora de trabalho árduo prejudica o ambiente corporativo e quais medidas funcionam na empresa administrada pelos autores Jason Fried e David Heinemeier Hansson. Livro foi publicado em 2020 e trazido ao Brasil no mesmo ano pela editora Harper Collins sob a tradução de Daniel Austie.

“Para muitos, a loucura do trabalho acabou se tornando algo normal”

Sempre direto ao assunto tratado no capítulo correspondente, o livro proporciona leitura rápida e fácil de compreender. Segue a dinâmica de criticar a postura empreendedora contrariada pelos autores, em seguida contrastam por meio de exemplos tirados na experiência da própria empresa. Também lavam a roupa suja e cita os erros do passado, de atingir objetivos sem receber o resultado esperado, ou perceberam da necessidade ser na verdade outra, assim sobreviveram no mercado há mais de quinze anos, mesmo seguindo paradigma próprios e divergentes dos aceitáveis por outras empresas.

O conteúdo é limitado a experiências dos autores na empresa deles, salvo citações de outros profissionais de diferentes ramos com exemplos de rotina equilibrada no fim de certos capítulos e a menção de experiências pontuais de outras pessoas ― de fontes listadas na seção Bibliografia. Isso prejudica por deixar de abranger as discussões por meio de outras fontes, sejam essas favoráveis ou contrárias aos ideais dos autores, enquanto contribuiriam numa discussão justa. Na prática pode servir para reafirmar a quem já reflete da rotina de trabalho estar desgastante. Esta sugestão comprometeria a fluidez da assimilação em troca de estimular o leitor a refletir mais quanto as considerações elencadas. As dicas funcionam para os autores, e eles mesmos afirmam em determinado momento quanto a soluções de certa empresa nem sempre corresponderem a de outras, caberia o leitor a buscar a maneira por si, e nisso o livro pouco contribui.

Tratando de os autores citarem soluções e depois contradizerem de essas falharem em corresponder à realidade do leitor, há descuidos em outras menções. Não chega a contradizer, mas certas escolhas de palavras provocam desentendimentos. Um exemplo é a afirmação do quanto as metas sobrecarregam os funcionários e a direção da empresa sem necessidade, já nos capítulos posteriores continuam a falar de metas, embora com outro significado, atrapalha a compreensão por usar a mesma palavra.

“Não dá para fixar um prazo e depois adicionar mais trabalho. Isso não é justo”

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura atrairá os leitores pelo título entregar a esperança de a sobrecarga na rotina profissional não corresponder ao resultado de crescimento. Os exemplos favorecem até mesmo a produtividade e a rentabilidade da empresa junto ao bem-estar dos funcionários, longe de serem desculpas ditas por preguiçosos, interessados em conseguir mais ao fazer menos. Por outro lado, as dicas são específicas das experiências dos autores, podendo ser inviáveis a demais empresas. Colaboraria mais se baseasse o conteúdo através de discussões de argumentos defendidos pela cultura do empreendedorismo através de exemplos além dos aplicados pelos autores.

“A única maneira de trabalhar mais é ter menos trabalho”

Capa de O Trabalho Não Precisa Ser uma LoucuraAutores: David Heinemeier Hansson e Jason Fried
Tradutor: Daniel Austie
Ano de Publicação: 2020
Editora: Harper Collins
Gênero: Não Ficção / desenvolvimento pessoal / empreendedorismo
Quantidade de Páginas: 240

Confira o livro

Como Sobreviver ao Dilema das Redes Sociais (e da Google)

Netflix lançou O Dilema das Redes Sociais em setembro, no mês anterior ao desta postagem, e desde então várias matérias e, é claro, postagens nas próprias redes enaltecem os argumentos apresentados pelos entrevistados, afinal muitas das situações já eram conhecidas, visíveis a quem estuda ou interage neste meio de maneira profissional. O documentário é eficiente por dar voz aos profissionais responsáveis pelas ferramentas viciantes, arrependidos de participar delas, além de demonstrar uma família prejudicada do dilema por meio de encenações dramáticas.
Eu já conhecia boa parte das características mostradas no documentário, confesso de ter falhado em reconhecer algumas delas serem parte do problema a gerar polarização e distração, de entender o quanto eu também fui afetado. Depois de assistir, comprei o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, cujo autor Jaron Lanier também aparece no documentário, e ao ler aprofundei mais do quanto somos manipuláveis e baratos ao fornecer nossos dados e com eles as nossas competências às plataformas digitais. Contribuímos a tornar pessoas obsoletas, mesmo as de formação acadêmica.
Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais

Deletar ou não deletar, eis a questão!

Somos testemunhas do quanto a polarização incentivada nas redes sociais por meio do mecanismo de engajamento favoreceu inúmeros incompetentes a assumir cargos no governo público e até mesmo no meio privado, enquanto a população fica mais acomodada, sem iniciativa de buscar informação. Depois de tudo isso, a vontade imediata foi de largar as redes sociais, criar uma nova conta de e-mail e abandonar o Gmail. Percebi a ansiedade, então permiti tempo para refletir quanto a alternativas depois de lidar com tudo isso. Apesar de ainda não ter todas as respostas, apresento neste texto os primeiros passos a tornar o uso da rede mais saudável na minha concepção, tanto na perspectiva do usuário, quanto na produção de conteúdo.

O mal do Engajamento

Conforme vimos no documentário e Jaron faz questão de mostrar em seu livro, os programadores das plataformas digitais são gente feito nós, há nenhum vilão cartunesco por trás dos servidores do Facebook ou Google planejando manipular pessoas a brigarem entre si, por vezes levando a discussão virtual a agressões reais. Mesmo sem esta má intenção, na prática ocorre graças ao modelo de negócio que sustenta financeiramente essas empresas.
O Suposto hacker - O Dilema das Redes Sociais

A máscara está caindo, e por trás há só mais outro rosto humano

Vamos chamar toda campanha publicitária ou partidária existente nas redes sociais e páginas indexadas na SEO ― Search Engine Optimization, o mecanismo de classificação dos resultados mais atraentes em sites como da Google ― de produto. Este produto torna rentável ao proprietário quando atrai muitos usuários ativos nele, e serem ativos significam ir além de seguir e curtir a publicação deste produto. É comentar, compartilhar na própria timeline e dali gerar mais interações. Respostas de comentários também são ótimos índices de sucesso neste meio, isso segundo as métricas da postagem, pois ao conferir o que de fato escrevem, é bem provável encontrarmos discussões ofensivas.
Um lançamento de game exclusivo de certa plataforma gera críticas dos fãs da plataforma concorrente. A estreia de filme ou série ter protagonista homossexual ― às vezes basta ser feminina e hétero ― atrai críticas de gente alheia ao público-alvo. Nem preciso comentar quando a postagem é sobre política. Todos os participantes das discussões favorecem essas publicações, e ainda puxam consigo alguns extremistas que se destacam, atraem seguidores e viram outro “produtor de conteúdo”, abusam desta estratégia ao promover nessa interação online enquanto as empresas tentam promover o produto real.
Entre o dono do produto e os produtores de conteúdo competentes ou desses citados no parágrafo anterior a conseguirem atenção apenas por xingamentos, há inúmeros usuários sustentando o engajamento deles sem terem consciência disso por acreditarem contribuir com a sua opinião ou militar pela causa. Eles desesperam e caem na armadilha de tumultuar a rede, alguns tornam mais desses produtores de conteúdo vazio, outros apenas repetem informações prováveis de serem equivocadas. Ninguém tem de provar nada a ninguém, no entanto todos deveriam se informar melhor. Promova qualidade a si em vez de contribuir no engajamento alheio sem ganhar por isso.
Polarização - O Dilema das Redes Sociais

Polarização boa, é polarização inexistente

Aos produtores de conteúdo, é bom considerar remover a seção de comentários do seu site e dar menos atenção a opiniões desperdiçadas na timeline do perfil social. Vocês podem argumentar que assim perderão feedbacks construtivos. Têm razão, ainda há pessoas online dotadas da melhor das intenções, e por elas seria bom informar um endereço de e-mail para o qual podem te comunicar sobre o conteúdo. Dará mais trabalho transmitir o feedback, e isto favorece os interessados a fazerem o esforço de conversar em vez de tocar na barra de comentário, escrever palavras feias e enviar. Ainda haverá usuários a mandarem e-mail ofensivo, assim basta classificar como spam e focar nos interessados em contribuir. Aliás, caso tenha gostado deste texto ou queira contribuir com complementos ou críticas, mande mensagem no e-mail araujo.die93@gmail.com — caso eu saia do Gmail, mudarei o endereço aqui.

Esqueça a quantidade

Algoritmos das plataformas digitais agem conforme os dados recebidos, e antes de classificar esses dados e formular informações, os dados são números. Precisou averiguar diversos usuários com publicações de fotos em tons azuis, escuros ou escalas de cinza, para o sistema supor desses serem suscetíveis a depressão. Antes de identificar os jovens capazes de agredir a si mesmos, foi preciso analisar o padrão de comportamento online dos muitos que já o fizeram, assim experimentaram adequações de, segundo os desenvolvedores, prevenirem novos casos. É uma afirmação enganosa, deixa de ser prevenção quando o estrago está evidente, a iniciativa é na verdade a tentativa de solução a parar novos incidentes.
Os algoritmos de SEO também consideram os números, a quantidade de visitas de determinada página classifica a eficiência dela, depois cruza outros índices, os que classificam usuários nos diferentes tipos de perfis, por fim indica as páginas bem sucedidas a quem é interessado no conteúdo delas. Personaliza o uso online onde o usuário navega, mergulha e afunda em uma bolha sem saber. Depois de conhecermos inúmeros adeptos a teoria da Terra Plana graças a essa personalização de pesquisa online, pouco adianta responder que deixará os conteúdos do tipo sejam menos visíveis, o estrago já foi feito, os perfis transmitem as teorias defasadas entre si.
SEO - O Dilema das Redes Sociais

Há tantas características de SEO, que perde espaço das características de bom conteúdo

O mesmo pode acontecer no seu projeto ao considerar os objetivos na quantidade de acessos ou de público. Jaron desabafou de quando trabalhou como redator no site HuffPost e tentou atingir o público cada vez maior. Acabou por publicar conteúdo em que nem acreditava, só porque os visitantes online gostariam de ler e assim o aproximava da meta. Também começou a escrever sobre assuntos revoltantes, pois provocava os leitores a alimentarem o engajamento.
Outra estratégia bem comum, inclusive visível a muitos portais conhecidos da internet, é de exagerar na quantidade de matérias diárias, assim o usuário pode navegar entre elas e prolongar o tempo de interação no site. Isto prejudica o bem-estar das pessoas por sobrecarregar o tempo gasto online, e afeta também a qualidade do conteúdo, pois deixou de focar nisso em prol da quantidade tanto de produtividade quanto de acessos. Uma hora o público perceberá a superficialidade da matéria, e no fim você perderá os números inconsciente do motivo.
Muitos canais da plataforma YouTube tentaram seguir as diretrizes do site em publicar vídeos com frequência semanal, muitos desses sobrecarregaram e desanimaram de trabalhar por lá, ficaram em hiato, migrou a outras plataformas ou desistiram da periodicidade de vídeos. Certos canais conseguiram manter essa rotina de publicação, já eu parei de os seguir, deixaram de ser atraentes, e hoje perdi o costume de frequentar o YouTube, só vejo o que de fato me interessa ou atenda uma curiosidade particular.
YouTube

Rosto todo desfigurado, mas desde que atenda aos algoritmos de recomendação…

Atingir a quantidade corresponde ao sucesso momentâneo, sob prazo de validade. Caso produza trabalho online, foque a longo prazo e na progressão pessoal. Esqueça a meta do milhão de seguidores, talvez no futuro você consiga mil capazes de sustentar a sua produção porque acreditam valer a pena dedicar o tempo contigo em vez de desperdiçar inúmeras matérias lidas equiparáveis a metade de uma útil.
Atualizo este blog toda segunda-feira, às vezes consigo dois conteúdos na semana e publico na quinta também, então você precisa visitar o meu site somente uma vez por semana ao acessar conteúdo novo. Acabei de sugerir para sabotar o ranking do meu site, abrir mão das minhas visualizações, mas a minha utilidade na internet é garantir no máximo dois conteúdos novos toda semana. Só acessaria o XP Literário além disso para pesquisar algum conteúdo antigo. Recuso a encher o blog com postagens ínfimas até capazes de tomar o tempo de navegação e favorecer os meus índices no Google Analytics. Eu uso este espaço virtual a compartilhar o pouco que aprendo, longe de conquistar um sucesso superficial.

A timeline é infinita, nosso tempo não

Continuando no raciocínio dos sites prenderem a atenção, lembremos dos feeds das redes sociais. Deslizamos a tela dos smartphones e sempre encontramos postagens novas, com propagandas no meio. O nosso esforço é pequeno, em troca recebemos atualizações sobre a situação de nossos amigos online, as novidades dos noticiários, as conquistas daquele influenciador contente em compartilhar contigo um produto da marca obtido de graça ― ou foi pago para promover ― graças a você, seguidor fiel. Tanta gente tendo sucesso virtual, e você apenas deslizando o dedo no celular ou girando a roda do mouse. Começa a sentir apreensão, lembra apenas os fracassos na própria vida. O pior é a probabilidade dos supostos vencedores que você vê na tela também fazerem o mesmo é grande. As postagens infinitas consomem o tempo e diminuem a autoestima, a única vantagem dela é tornar viciante, e isso beneficia apenas a plataforma.
Tristeza na timeline - O Dilema das Redes Sociais

Tristeza na timeline

A solução é dada por Jaron no título do próprio livro: saia das redes agora. Já eu proponho uma alternativa, evite o feed infinito e assuma o controle. Escolha quais canais e pessoas acompanhar naquele momento e vá direto no perfil deles, assim olhará publicações antigas, já vistas da respectiva timeline, e pode se dar por satisfeito. Evite os perfis viciados na quantidade de postagens e lhe tomam tempo. Enquanto trafegar assim, lembre de evitar as seções de comentários, algumas podem estar contaminadas de polarização; em vez de contribuir no engajamento, favoreça o contato com a pessoa ou produtor e mande uma mensagem privada.

Seja mais ativo, e dê mais valor aos seus dados

Já reparou em quanto há novas funcionalidades que entregam resultados em vez de garantir a você ir atrás? A barra de pesquisa do Google é a mesma, apesar de ter um quadro no lado direito com as informações mais prováveis de os usuários quererem, portanto podem parar ali mesmo. O Google Tradutor converte a expressão no outro idioma conforme você digita, mas isso te ajuda a entender mais sobre esse idioma? No máximo tem a sugestão de outras palavras correspondentes a um resultado melhor as quais você irá selecionar e ensinar o sistema qual é a melhor opção de tradução, e você ainda nem entende o porquê.

Google

Nem todo estudo precisa começar dali

Os donos das plataformas digitais querem influenciar o consumo. Às vezes acertam e contribuem em entregar algo marcante, seja o curso ideal a desenvolver novas habilidades, seja música ou livro novo capaz de te distrair. Só evite de dar toda a confiança a esses algoritmos e descubra outras possibilidades por si ou pelas indicações dos amigos, então vá atrás você mesmo, depois nem precisa publicar a respeito. Faça caminhada, tomando cuidado a evitar infecção por coronavírus, ou caso faça parte do grupo de risco, planeje esta atividade quando a pandemia acabar. Veja a paisagem sem ter de postar foto no Instagram. Anote ideias valiosas para a vida, não um tweet. Quer empreender, então veja como pode ser feito no mundo real antes de promover no virtual.
Jaron fala em largar a rede social para forçar as empresas mudarem o plano de negócio. Minha sugestão ― talvez ineficiente pela minha inocência ou falta de referências, qualquer coisa manda um e-mail ― é tornar cada usuário mais valioso. Depende de cada um de nós. Precisamos ser mais exigentes e oferecer menos do nosso tempo online, valorizar o conteúdo em vez do sucesso da pessoa revertido em angústia a nós por não atingirmos o mesmo patamar. Parando de encarar os números, podemos obter mais resultados com menos seguidores, sendo esses os exigentes a valorizarem o nosso trabalho.

Referências

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais
Autor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190
O Dilema das Redes Sociais
Diretor: Jeff Orlowski
Estreia: 2020
Plataforma: Netflix
Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Como o Facebook manipula os seus sentimentos
Como o YouTube impulsiona teorias conspiratórias sobre Terra plana
Does quitting social media make you happier?  Yes,  say young people doing it (reportagem em inglês)
Center for Humane Techonology — organização mantida por Tristan Harris, o principal entrevistado no documentário da Netflix, o site está cheio de conteúdo (também em inglês)

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

O título diz “agora”, mas pelo menos leia o livro antes de tirar as conclusões. Será melhor assim, a seguir as recomendações do autor, ou pelo menos recusar parte delas ― talvez até todas ― conscientes dos argumentos e da realidade apreendida após conferir a perspectiva de alguém atuante na área, além de embasar o raciocínio em reportagens citadas nos rodapés ao longo do livro. Jaron Lanier é o responsável por elaborar Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais e publicar num livro em 2018, trazido no mesmo ano pela editora Intrínseca, que curiosamente divulgou o livro através das redes sociais.

“Se você não fizer parte da solução, não haverá solução”

Os dez argumentos correspondem a capítulos sobre os tópicos elencados de forma progressiva, pois os capítulos anteriores servem de base aos próximos. Atuante na área de computação, Jaron Lanier aponta muitos exemplos pessoais no decorrer do livro, inclusive assume vender uma das próprias Startups a empresas as quais critica. O problema de Jaron está na metodologia de negócio implantada por essas empresas, pois sustentam a si ao custo de reduzir ou desvalorizar as qualidades dos usuários que a acessam de forma gratuita. Sem limitar apenas ao ponto de vista formado ao longo da carreira dele, o autor cita mais de uma centena de fontes, reportagens exemplares de mostrar os problemas vistos nos últimos anos por meio das redes sociais, não só elas na verdade, e sim por toda empresa capaz de assimilar a interação dos usuários nos seus serviços gratuitos e a partir disso personalizar novos conteúdos a ponto de manipular o comportamento deles.

“Não existe nenhum gênio maligno sentado em um cubículo de uma empresa de mídia social”

Conforme dito no parágrafo anterior, a melhor maneira de compreender o conteúdo do livro é o aproveitando de forma linear, evite pular a determinado argumento por achar o título dele interessante. Falando no título dos argumentos, a primeira vista eles soam sensacionalistas, e permanecem assim mesmo depois de conferir o conteúdo, afinal este discorre ao construir informações, mostrar as realidades provocadas pelo problema em foco e então desenvolve o argumento. Portanto se difere do apelo emocional enunciado no título, para um apelo racional direcionado ao leitor.

Ciente da perspectiva pertencente a ele, Jaron conhece o próprio limite de conhecimento e assume quando toca assuntos diferentes à experiência de vida dele, portanto o leitor deveria coletar outros materiais caso deseja entender melhor certos assuntos, enquanto Jaron foca nos problemas constatados pelas empresas manipuladoras. Tem a humildade de admitir desses serem os argumentos os quais domina, por fim incentiva os leitores pesquisarem os demais assuntos.

“A mídia social é tendenciosa, não para a esquerda nem para a direita, mas para baixo”

Ao elaborar motivos contrários às redes sociais, por vezes o autor cutuca tópicos passíveis de desencadear armadilhas de negar seu conteúdo a certas pessoas. Ao citar determinada figura pública, criticando diversas nuances de caráter mesmo quando consegue amarrar as características consequentes da rede social, tem o risco de revoltar leitores que admiram essa pessoa, invalidando os argumentos levantados só pela menção dela, independente da qualidade ou da realidade escancarada nas fontes ― conforme o próprio livro critica acontecer dentro das redes sociais. Na verdade isso pode acontecer por leitores influenciados pelo perfil virtual desta pessoa, então o livro não teria culpa, só poderia elencar argumentos sem citar o nome, estimular a todos tirarem as próprias conclusões, e assim poderia convencer até parte desses admiradores reconhecerem o problema causado.

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais tem muito a oferecer e renderá uma matéria sobre como interagir no meio virtual sem ficar a mercê ― ou pelo menos diminuir ― da influência inconsciente proporcionada por empresas nada malignas, apenas dotadas de estratégias inconsequentes. Ao conferir todo o livro, poderá se dar a oportunidade de largar a interação passiva da rede social em troca de ir atrás do conteúdo útil.

“De início pode não parecer, mas sou uma pessoa otimista”

Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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As Intermitências da Morte (José Saramago)

Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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O Suicídio e Sua Prevenção (Setembro Amarelo)

Desinformação traz o perigo de piorar a situação da qual deseja prevenir, mesmo sob boa intenção. Desvirtuar logo do assunto relacionado a manter vidas pode, infelizmente, acontecer o contrário. Sem atribuir culpa total ao desinformado, pois parte do problema corresponde ao assunto ser tabu, portanto menos acessível, ainda assim há quem estude, segue rigores científicos e assim impede dos sentimentos incitarem julgamentos equivocados. Assim funciona o estudo sobre O Suicídio e Sua Prevenção, escrito por José Manoel Bertolote e publicado pela editora Unesp em 2012, o texto aborda desde a definição do suicídio até as maneiras eficazes de o evitar, comprovadas no momento da publicação.

“Deveríamos começar pela criação de condições para vidas mais significativas e sociedades melhoradas”

Partindo das definições, o autor desenvolve os argumentos ricos em explicação didática. Todo leitor terá facilidade de compreender o conteúdo sem precisar de conhecimento prévio, pois tudo está explicado no próprio texto. Tabelas e gráficos ajudam a mostrar informações condensadas sobre o tópico correspondente, acompanhados de parágrafos elucidativos sobre os dados organizados ali, ou seja, nada dificulta o entendimento do leitor. Talvez seja aconselhável apenas conhecer a importância da metodologia científica para assimilar o porquê das iniciativas de objetivos mais rigorosos serem as mais confiantes quanto a prevenir o suicídio ― breve explicação: tendo metas definidas, é possível avaliar a eficácia da iniciativa, bem como replicá-la caso outro grupo julgue algum erro na metodologia, este têm a possibilidade de testar e assim discutir a melhor abordagem. Por outro lado, explicar a metodologia científica implicaria em desviar do assunto, cuja extensão é sucinta, mas ideal de abordar a quem deseja aprender sobre a prevenção do suicídio, podendo aprofundar depois em materiais complementares.

“Deuses e religiões não eliminam o absurdo, apenas o ocultam”

Embora a abordagem na escrita impede de surgir dúvidas ao leitor, tem uma afirmação contraditória por deixar de informar por completo. O autor reconhece a possibilidade dos registros das tentativas de suicídio serem subestimados, e quando trata sobre as tentativas, afirma das mulheres realizarem com mais frequência por causa do método empregado entre as pessoas deste sexo ocasionar em menos mortes. Apesar da observação resultar dos dados disponíveis, o autor poderia levantar a questão da subnotificação como contraponto capaz de tornar esta afirmação falseável, ou talvez ter explorado melhor esta situação que comprove de as mulheres tentarem mais vezes por esse motivo.

O Suicídio e Sua Prevenção tem conteúdo fiel ao título, começa a abordar da definição e fatos sobre o suicídio, em seguida discute sobre os meios de prevenção. O livro é excelente a qualquer pessoa ler sem dificuldade de assimilar, incentiva a consciência ao abordar este assunto, podendo assim impedir das pessoas limitadas a terem apenas boas intenções acabarem prejudicando a prevenção.

“E o futuro não existe, vivemos aqui e agora”

Capa de O Suicídio e Sua PrevençãoAutor: José Manoel Bertolote
Editora: Unesp
Ano de Publicação: 2012
Gênero: acadêmico / técnico / não ficção / suicídio
Quantidade de Páginas: 138
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O Alienista (Machado de Assis pela Antofágica)

Tenha as melhores intenções, mas caso extravase, as consequências serão as piores. Obcecar-se no objetivo a ponto de abrir mão do resto ― relacionamento, reputação, humildade ― leva a confrontos de pessoas altruístas, inclusive também aos prejudicados pela obsessão, buscando justificativas a interromper suas atividades. Caso essas pessoas falhem em impedir, e portanto garantem mais liberdade na ambição desenfreada, testemunharão o ápice da busca desta pessoa já sem perspectiva há tempos.

Assim acontece a decadência d’O Alienista. Publicado em 1882 na coletânea Papéis Avulsos e com nova edição pela editora Antofágica em 2019, esta novela é outra história clássica de Machado de Assis, também homenageada com ilustrações de Cândido Portinari, presentes nesta edição.

“― A ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”

Simão Bacamarte é um homem da ciência. Vive na companhia da esposa D. Evarista enquanto põe o objetivo da vida em prática: estudar a psicologia. Assim ele inaugura a Casa Verde, instituição onde ele abrigará os cidadãos da vila de Itaguaí com sintomas de problemas mentais. Com o apoio dos vereadores e sob o respeito do padre local, Simão recolhe esses enfermos e procura curá-los enquanto estuda sobre as particularidades da loucura e formula teorias.

Ele vai além e recolhe mais pessoas, essas de comportamentos nada condenáveis à sociedade, quem contesta a decisão do alienista também é trazido à Casa Verde e submetido a tratamento. Assim inicia o confronto entre a sociedade e o estudo de Simão, também poderia dizer discussão entre as duas partes sobre o conceito de loucura e quais limites devem considerar ao tratá-la.

“Era uma via láctea de algarismos”

A narrativa começa focalizando no Simão Bacamarte e demonstra o interesse dele em contribuir com a ciência, desde a escolha da área a atuar até a implantação da Casa Verde. Os capítulos seguintes focam nos demais personagens, concentrando sempre na pessoa afetada pela insistência do alienista de seguir além com o propósito. Assim culmina em discussões de pessoas de conhecimento popular contra o sujeito imbuído de capacidade científica, e por apenas este ter tal visão, todas as outras pessoas carecem de argumentos contrários, tendo assim recorrer a manifestações reativas quando contrariadas pelos objetivos do cientista.

Machado de Assis manipula a questão sobre a loucura e impõe dúvidas sobre a sociedade desde o conceito às consequências. Como identificar alguém louco? Seria a pessoa com comportamento diferente da sociedade? Deveríamos aceitar a palavra de alguém só pelo nível de formação? Ao discordarmos deste suposto profissional, seríamos loucos? O autor aproveita das indagações e alfineta a sociedade com sarcasmos. Sem demarcar os antagonistas entre honestos e loucos, elabora uma confusão proposital nos personagens para desmascarar a ignorância dos personagens que permitem certa pessoa atuar sem escrúpulos. Toda decisão equivocada ou isenção de atitude é devolvida com consequências, ainda mais ao insistir ficar na mercê do poder concentrado, este cujo dono também enfrenta dilemas ao obtê-lo.

O Alienista é uma novela e portanto traz a narrativa concisa quanto ao objetivo. A histórias traz ótimos questionamentos sobre a sociedade e a classificação da loucura, demonstra as consequências quando o controle fica concentrado em uma só pessoa, e também adverte dos problemas quando a sabedoria científica fica limitada a esta pessoa e os demais carecem de conhecimento ao debater com esta, tendo de recorrer a medidas reacionárias ou apelo popular, prejudicando assim a sociedade e a evolução do conhecimento.

“A ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimento de rua”

O Alienista - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Primeira publicação: 1882
Edição resenhada: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: clássico brasileiro / novela / ficção
Quantidade de Páginas: 304

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O João Valério em Escritores Atuais

Ao ler livros fora da minha área de conforto (ficção fantástica), por vezes encontro descobertas ricas em reflexão. Assim o desafio de encarar algo diferente a mim recompensa com ideias as quais seria difícil de eu ter seguindo nos mesmos gêneros de história de sempre. O livro Caetés trouxe uma surpresa digna de reflexão a nível de compartilhar por aqui, pois o protagonista é alguém aspirante a escritor, submetido a dificuldades frustrantes e dilemas autoimpostos. Reconheceu-se? Pois essa é a proposta desta postagem, falar das semelhanças deste protagonista da obra publicada na década de 1930 e nós, aspirantes a autores do século seguinte.

Escrita X Rotina X “Trabalho de Verdade”

A atividade da escrita é solitária, seja nas teclas do computador ou na pena de João Valério. É preciso organizar a rotina, alocar determinada parte do dia a dedicar na elaboração da história, abrir mão da companhia de amigos e demais compromissos enquanto dedica a esta tarefa. O problema, tanto ao João quanto a nós, é conseguir empregar este tempo exclusivo.

Sobrecarregado - Escritores Atuais

Depois de um dia longo de trabalho: trabalhando na escrita

Ao sonhar em exercer a literatura, também é preciso exercer outra profissão capaz de sustentar nossa vida e pagar as dívidas. Havia menos variedade de despesas na época de João Valério, mas ele próprio guardava as cobranças pendentes de clientes do armazém onde trabalha, assim como ele possuía as próprias. Tem compromisso com a revista gerenciada pelo pároco de Palmeira dos Índios. Troca prosa com amigos próximos, assim descobria dos acontecimentos importantes da cidade no meio das fofocas, sem falar de estar presente em alguns deles; não bastasse o contato próximo na rua ou durante o trabalho, ainda nos relacionamos pela internet, o que facilita muito a interação de pessoas distantes, pena ocupar muito do nosso tempo quando falhamos em controlá-lo.

Falando em internet, temos dificuldades inatingíveis a João Valério. Na época dele só podia publicar histórias por meio de instituição, seja editora ou algum tipo de periódico. Caso alguém da época dele conseguisse os recursos escassos de imprimir a própria obra, ainda atingiria pouco público, repercutindo apenas onde pudesse alcançar fisicamente com os seus livros. O século XXI nos brindou com as publicações independentes, podemos alcançar leitores em lugares onde jamais pisamos ou pisaremos, sequer precisamos conhecer! Basta o lugar ter acesso a internet, e o leitor de lá consegue acessar nosso livro digital ou mesmo a versão impressa à venda em sites.

Comprando livros - escritores atuais

Uma leitora comprando meu livro – uhul!!!

A publicação de livros está mais democrática comparada ao tempo de João Valério, quando poucos poderiam publicar. Hoje somos muitos, de milhares a milhões! Com níveis de qualidades variados, todos nós temos o direito de arriscar, e nesta quantidade vem a dificuldade dos leitores encontrarem nossos livros entre tantos outros. Alguns de nós optamos atrair público por meio de outras atividades, seja com perfil de rede social engajado, produção de conteúdo via podcast, canal de vídeo, ou mesmo blog… E acumulamos tarefas ao manter esses canais, mais tempo reservado além da escrita, ou até dividi-lo entre escrever e produzir conteúdo.

São problemas exclusivos nossos, e isso pouco significam serem piores que na época de João Valério. Afinal no tempo dele tudo ocorria mais devagar, ou em outras palavras, a nossa rotina é acelerada. Mesmo dispondo de veículos mais rápidos que carros de boi, interação pessoal sem precisar deslocar até o sujeito, e jamais pisar na biblioteca ao estudar. Cada vantagem tem consequência: local de trabalho costuma ser mais distante, acabamos extrapolando o tempo online e demoramos mais em filtrar boas fontes bibliográficas antes de estudá-las ou deixamos de conferir e assumimos o risco de prejudicar o estudo. Nossas rotinas são diferentes a de João, ainda assim fazem parte do nosso tempo, o qual é preciso administrar.

Pouco adianta culpar os compromissos quando fracassamos em escrever, por falharmos em reservar o tempo de escrita. A literatura não vai nos livrar dos compromissos com o emprego e devemos persistir nessas dificuldades, algumas maiores para uns quanto a outros. As oportunidades estão mais democráticas, só falha ainda em ser democraticamente ideal.

O desânimo

Eu preciso citar #spoilers de Caetés neste tópico, então leia o seguinte caso queira evitá-los ― só lembre de voltar aqui depois de ler o livro. No início de Caetés, João Valério possui apenas dois capítulos do livro feito, e no fim ficou igual o começo com uma diferença: ele desistiu da literatura. Já estava há cinco anos com este trabalho engavetado quando tenta prosseguir ao longo do romance, e é interessante observar de ele só continuar a escrita quando algo o desanima na vida pessoal. Ele usa a produção da literatura no intuito de obter prestígio, possuir qualidade distinta das pessoas próximas a ele, esconde a inveja do sucesso alheio por se reafirmar de estar no caminho certo ao escrever o romance. Já no final do livro, quando ele consegue subir na posição de sócio do armazém, perde o interesse pela literatura.

Burguês safado - escritores atuais

Parou de escrever porque virou burguês, safado!?

Podemos criticar a postura de João quanto a literatura, mas estaríamos fadados a sofrer a mesma consequência? Como já dito, literatura ainda rende pouco dinheiro aos brasileiros, mesmo assim alguns de nós buscam prestígio a partir da escrita, de ser reconhecido entre os leitores, apesar das outras profissões terem melhor remuneração. Há quem nem considere profissão pelo fraco retorno financeiro, igual as outras atividades artísticas.

Prosseguir no desejo de produzir literatura requer resiliência, esta recompensada por valores os quais devemos estar dispostos a receber, digo valor no sentido de reconhecimento. Então é comum haver desistências, já testemunhei amigos que perderam as esperanças de produzir histórias. Uma situação triste, real e obrigatória a conformar.

Pesquisa

Por último tem a situação mais hilária mostrada por João Valério, e mesmo assim importante e recorrente entre escritores atuais. Antes de comentar, segue a transcrição do trecho disponível na contracapa:

“[…] Também aventurar-me a fabricar um romance histórico sem conhecer história! Os meus caetés realmente não tem verossimilhança, porque deles apenas sei que existiram, andavam nus e comiam gente.”

Sim, João Valério é desleixado. Já bastou escrever apenas quando queria alimentar o ego, ainda faz pouco esforço em tornar a prosa verossímil! Às vezes tenta compreender mais da civilização tratada no romance, elabora perguntas absurdas aos conhecidos, pois evita de contar a eles sobre a tentativa de escrever romance; ao falhar em obter resposta, fica por isso mesmo.

Hoje podemos entrar em contato com conhecedores do assunto pendente em nossas histórias, sem falar do Dr. Google e inúmeros artigos online acessíveis. E mesmo assim há escritores desleixados quanto a pesquisa, ou mesmo de boa intenção acaba falhando na contextualização. Pode acontecer do escritor receber tal informação de algum site de credibilidade duvidosa e acreditá-la sem a devida averiguação, ou também por tomar inspiração em outra obra que tenha adaptado algo no mundo criado pelo autor com a devida licença poética, e acaba repetindo esta adaptação como verossímil. Tal problema surge em maior frequência quando retratam períodos ou regiões diferentes a do autor, embora ainda aconteça ao representar determinado tipo de trabalho. Por exemplo: personificar alguém da minha área ― informática ― sendo um hacker capaz de invadir o sistema de segurança militar… composto do algoritmo real que calcula fórmulas de astronomia. A série Arrow cometeu essa gafe, mesmo sendo produção de grande orçamento:

"Criptografia avançada" em Arrow

Flagra feito pelo blog Vida de Programador (link do post original na imagem)

Enfim, erros acontecem. Mesmo com os recursos atuais é difícil acertar na verossimilhança através de pesquisa, sob o risco de provocar a ira do leitor ambientado no contexto mal adaptado em seu romance. O melhor a fazer é esforçar a cometer menos erros. Procure ler obras de autores sob o contexto disposto a representar, igual optei a ler livros de Graciliano Ramos para aprender mais sobre os alagoanos numa época próxima a qual retrato na minha nova tentativa de romance ― e ainda tive a coincidência de ler este livro dele que inspirou toda esta postagem! ― E até isso pode ser difícil dependendo de qual região queira abordar, tendo o azar de encontrar pouca ou nenhuma obra de autor local; ou mesmo existindo, é inviável adquirir ou falha em repercutir no resto do país, mesmo através da internet. Ainda pode ir além da literatura e consumir o que tiver disponível sobre aquele povo. Seja música, notícia, vlog. Ou encontre alguém disposto a conversar sobre a cultura local. Caso tenha condições financeiras, lembre de contratar a análise crítica do profissional mais próximo de conviver ou entender do contexto de sua história.

Neste tópico eu posso afirmar sim a facilidade de trabalhar em relação à realidade de João Valério. No entanto aumenta também a exigência dos leitores quanto a representatividade, pois incluir diversidade apenas para “cumprir cota” deixou de ser suficiente. O autor tem o direito de ignorar tamanha exigência, pois considera uma “problematização desnecessária” ― vulgo mimimi ― e assim ele deixa de atrair grande parcela do seu público, o qual tem a possibilidade de crescer nos próximos anos e passará a te ignorar por isso.


Gostou das reflexões? Caetés traz questões contemporâneas mesmo em tempos posteriores da primeira publicação ao possibilitar esta discussão sobre os costumes de autor fictício semelhantes aos escritores atuais e reais. Também demonstra como ler obras diferentes da área de conforto exercita novas ideias.

Post do blog Vida de Programador que reconheceu a gafe em Arrow

Código-fonte de onde o seriado retirou o “sistema de segurança militar”

Sons da Fala (Estreia do Projeto Cápsula da Morro Branco)

Nunca tivemos tantos recursos de comunicação iguais os de hoje, e isso acarreta numa ideia ingênua de tirarmos grandes benefícios desta situação. Na verdade até podemos elencar elogios a esses avanços, só é preciso destacar também os problemas. Todos podem ter voz, e isso nada garante de a voz mais ouvida for transmitida por ter conhecimento ou propostas de melhoria. É aquela provinda do desgaste, da injustiça ou ingratidão reconhecida por muita gente, e por isso é mais difundida. E se perdermos essa capacidade de ampliarmos nossa voz, ou pior, perder a própria comunicação verbal ou escrita? O desgaste, injustiça e ingratidão ainda prevalecerão, e ganharão força na violência.

Sons de Fala aborda este mundo onde a comunicação foi perdida. Publicado pela primeira vez em 1983 por Octavia E. Butler, a editora Morro Branco disponibiliza este conto de graça através do Projeto Cápsulas. Com tradução de Heci Regina Candiani, o conto narra a história de Rye e sua tentativa de sobrevivência neste mundo sem comunicação verbal.

“Observou-o gritar com uma raiva sem palavras”

Rye está no ônibus, a caminho onde ainda poderia encontrar algum parente vivo, quando a confusão acontece. Dois passageiros começam a brigar, deixam os demais apavorados, apesar de terem consciência de algo do tipo acontecer. O motorista força manobras, balança o ônibus e tenta desequilibrar os lutadores a ponto de os derrubarem e impedir a agressão, e ao conseguir, dois outros passageiros também brigam.

O motorista pausa a viagem depois dessas confusões, Rye mantém distância até tranquilizar a situação e poder continuar a viagem, quando observa outro carro se aproximar — os veículos são raros tanto quanto os combustíveis —, é de um sujeito com o uniforme do Departamento de Polícia de Los Angeles, instituição que deixou de existir. Ele tenta comunicar com Rye através dos gestos, custa compreender a situação entre os passageiros do ônibus, tudo por causa da doença capaz de inibir a capacidade de comunicação entre eles, alguns desaprenderam a ler e escrever e/ou perderam a capacidade de formar palavras ao falar.

“A despeito do uniforme, lei e ordem não eram nada — já não eram sequer palavras”

O tema deste conto vem aos poucos, dilui pelos primeiros parágrafos e permite o leitor digerir a situação extraordinária. Só depois confirma: as pessoas perderam a capacidade de comunicar. Oferece um tempo confortável a interpretar o problema apresentado e as consequências dele, como o motivo de deixar as pessoas mais violentas — com maior incidência em homens — e denunciar muitos comportamentos presentes mesmo trinta e cinco anos depois do conto ter sido escrito.

Octavia usa da prosa descritiva, incisiva quanto ao que acontece aos personagens ou sobre sentimentos e ideias deles. O narrador diz sobre as pessoas desta ficção e das situações desconhecidas pelos personagens, cita o nome dos lugares mesmo quando Rye é incapaz de ler, servindo de intermediário entre o leitor e a protagonista com esta dificuldade. A autora prova outra vez de como contar a história em vez de mostrá-la pode funcionar, quando bem executado; o leitor pode deixar de sentir empatia através dos gestos e intertextualidade comum à narrativa exibicionista, por outro lado o percebe quando as questões do enredo surgem na hora certa e conseguem gerar impacto ao personagem afetado.

Também é nítida a exploração de temas sociais. A diferença entre os gêneros das pessoas e os possíveis conflitos dessa, a violência eminente no encontro de pessoas desconhecidas, pois apesar de compartilharem da mesma miséria, reagem de formas diferentes, e ainda por cima a esperança com a devida precaução de poder seguir mesmo nessas dificuldades. Octavia usa o gênero da ficção científica ao apontar e denunciar os aspectos de nossa humanidade.

O Projeto Cápsula da Morro Branco fez bem em estrear pelo conto Sons de Fala. O motivo vai além de Octavia trazer ótimos retornos à editora através dos outros romances já publicados pela primeira vez no Brasil — como a duologia Semente da Terra. Este conto persiste as qualidades da autora mesmo nessa história breve, trazendo aquele desconforto impactante capaz de nos provocar e refletir os problemas resilientes que parecem nunca desaparecer.

“E nesse mundo em que a única linguagem comum provável era a corporal, estar armada quase sempre bastava”

Sons da Fala - capaAutora: Octavia E. Bulter
Tradutora: Heci Regina Candiani
Ano de Publicação Original: 1983
Edição: 2019
Editora: Morro Branco (Projeto Cápsulas)
Quantidade de Páginas: 35

Acesse o conto

A Utilidade das Críticas Negativas

O objetivo das resenhas é de me motivar a compreender mais sobre os livros lidos. Entender porque eu gosto de determinadas passagens, as razões de eu achar determinada leitura maçante, aprender lições com os acertos e erros dos demais escritores e assim usar o conhecimento adquirido na minha escrita.

Ao longo das resenhas eu também fiquei mais exigente, relatando problemas encontrados até nos livros que gostei — a ponto de eu dar três estrelas na avaliação do Skoob e Amazon —, apesar de ter o cuidado de evitar esta crítica comprometer quando as qualidades do livro compensam o deslize. Então por que eu insisto em apontar essas pequenas falhas? Ou também: qual o sentido de dedicar tempo com leitura desagradável e ainda fazer questão de escrever as críticas negativas a ela? Respondo essas duas perguntas neste post, porém já adianto o motivo: incentivar a melhora da escrita.

Apenas elogios só atrapalham

Conheço canais de resenhas literárias dedicados a esbanjar elogios nos livros lidos. De qualidades diferentes, todos recebem a nota máxima e são idolatrados pela capacidade extraordinária do ficcionista. Respeito o espaço deles, possuem o direito de elogiar quem eles quiserem, e até ajuda a atrair leitores preconceituosos com livros brasileiros a conferirem esses trabalhos tão bem avaliados, por certo tempo. O problema desta abordagem acontece quando o leitor percebe que determinado canal só sabe falar bem e se decepciona com algum dos livros indicados, a reputação daquele trabalho entra em cheque junto com o de todo livro resenhado por ele depois da desilusão, prejudicando mesmo os bons autores.

Só tenho duas ressalvas: já encontrei resenhas positivas sobre livros que detestei, e nesses casos só houveram divergências entre a minha impressão e a do outro resenhista, algo comum de acontecer na análise de trabalho artístico; também há canais que deixam de postar quando a leitura for ruim, pois preferem apontar as falhas ao escritor em privado e poupá-lo de denegrir sua imagem evitando de publicar a crítica. Também discordo deste último caso, sou defensor de manter a transparência em muitos sentidos, entre eles o de demonstrar a verdadeira qualidade dos livros escritos pelos brasileiros. Ter a ciência de estar sujeito a apontamentos públicos quanto a qualidade da escrita exerce aquela “pressão saudável”, aumenta a disposição de melhorar o texto com intenção de garantir a melhor impressão dos leitores.

Ao discordar das atitudes desses colegas resenhistas, estou longe de afirmar ser contra eles. A opinião divergente faz eu agir de modo distinto, e como ainda vivemos num ambiente democrático, é possível coexistir essas diferenças de trabalho, atraindo perfis de público correspondentes à proposta do canal.

Críticas negativas feitas só por criticar também atrapalham

No outro extremo temos gente disposta a apenas falar mal. Não trabalham com resenhas, apenas são espontâneos quando detestam determinado livro e ignoram qualquer qualidade ainda disponível, insistem tanto a ponto de acusar quem gosta ter péssimo gosto. E a pessoa consegue se favorecer com este tipo de atitude? Infelizmente sim! Tal comportamento atrai a atenção de várias pessoas, podendo gerar discussão desnecessária, o que ainda assim corresponde ao bom engajamento nas redes sociais, por isso promove quem fala mal. Quando ganha atenção, esta pessoa transborda postagens e memes apenas com intuito de tirar sarro, gerar mais engajamento; é uma estratégia desonesta e fácil de executar, basta focar na quantidade e ignorar a qualidade da critica elaborada, depois é só promover o seu próprio material, pois conseguiu formar público.

Mesmo quando detesto alguma leitura, faço questão de procurar pelas qualidades do livro e mostrar os pontos fortes e fracos. Quando o livro é de brasileiro independente ou editora pequena, tem maior probabilidade do próprio autor conferir minha resenha, por isso aponto as falhas sem comprometê-lo, ou seja, as críticas negativas estão lá, só que dispostas como conselhos a melhorar, bem ao contrário de desprezar determinado trabalho só por eu encontrar falhas.

Avaliar os pontos fracos faz parte do resenhista. Reforço o dito no começo deste artigo, faço resenhas para aprender mais da escrita a partir do esforço alheio, e aprendo muito quando identifico erro nos grandes escritores, conforme até James Wood disse. A perfeição é um estado inalcançável, então todo livro está sujeito a ter pontos a melhorar. Caso o resenhista não encontre tais pontos, é porque este falha na análise, por outro lado o autor foi bom o bastante em superar a visão crítica do leitor, e levando em consideração ser mais fácil criticar do que escrever livros, esse autor possui um mérito e tanto. Confesso já cometer essa falha, nem é tão difícil encontrar resenhas minhas onde só existem elogios, basta ver os livros eleitos na lista dos melhores XPs Literários — minha meta é isso acontecer cada vez menos.

Quando a resenha é honesta, o leitor compreende as críticas negativas apontadas e as pondera com as qualidades citadas nesta e nas outras análises. Quando conhece o crítico, os livros elogiados por ele terão maior credibilidade ao leitor, pois foi mérito do autor dedicar tanto a ponto de superar os demais trabalhos analisados por aquele canal. Defendo esta abordagem sendo a mais justa aos leitores e escritores, além do cuidado de respeitar o esforço mesmo daqueles carentes de aprimorar a escrita, com intenção que de fato melhore!

LoveStar (Sci-Fi de Andri Snar Magnason)

Já discuti sobre o livro com foco em analisar a tecnologia vigente e discutir as prováveis consequências da humanidade com a evolução tecnológica. A história a seguir faz o mesmo a partir das próprias especulações, elabora discussões a partir de acontecimentos chocantes advindos do novo meio de produzir tecnologia, a possibilidade de criar novas funcionalidades alteram o modo de viver da população, atiça os obsessivos a ignorar os problemas decorrentes das novidades e proporciona o absurdo na realidade. Inacreditável mesmo é ler toda esta alucinação do autor transcrita em palavras, e mesmo assim traçar paralelos com a nossa realidade.

LoveStar extrapola a ficção científica a fim de fazer críticas ácidas sobre o desenvolvimento tecnológico e o comportamento da humanidade causado pela existência dessas funcionalidades imaginadas. Publicado em 2002 por Andri Snar Magnason com edição da Morro Branco em 2018 e traduzido por Fábio Fernandes, o livro traz duas histórias paralelas e apresenta nelas as nuances do ponto principal da obra.

“Em seus olhos brilhava a própria felicidade, reluzentes como a palavra LOVESTAR”

Tudo começa a partir de comportamentos estranhos de certos animais, como os pássaros que sempre iriam ao sul na véspera do inverno no hemisfério norte, e de repente elas seguem ainda mais ao norte. As pesquisas apontam a alguma interferência nas frequências emitidas e recebidas pelos animais como a causa, e isso leva a pessoas comuns atribuírem qualquer problema posterior como decorrente desta anomalia. Tais suposições absurdas levam a crer apenas a elementos sobrenaturais, aspectos ignorados pela ciência pelo simples motivos de serem inconcebíveis… Até o momento de determinados cientistas averiguarem essas especulações e comprovarem do sobrenatural na verdade ser real, é possível utilizar a frequência dos pássaros e revolucionar os meios de comunicação. A nova descoberta substitui todos os fios e cabos e possibilita a invenção de novas tecnologias com incríveis funcionalidades e absurdas transformações na vida de todas as pessoas.

O homem por trás de toda essa evolução assume o nome de LoveStar, cuja empresa é homônima e a mais potente do mundo graças às invenções bem como das estratégias de marketing da filial iStar. As invenções possibilitaram novas formas de trabalho, transformou a forma de lidar com a morte e possibilitou o cálculo certeiro do amor. Depois de tanto fazer pelo mundo, LoveStar faz a última viagem com uma semente em mãos, ciente de possuir menos de quatro horas de vida, tempo usado a refletir os acontecimentos importantes de sua vida.

Capítulos de LoveStar alternam com os da história de Indridi, um homem com a vida transtornada por conta das tecnologias produzidas pela empresa LoveStar. Vive a rotina apaixonada e louca com a namorada Sigrid até o momento de descobrirem que o cálculo do amor definiu Sigrid como a cara metade de outra pessoa. O cálculo infalível contradiz cada momento feliz do casal ainda crente de eles serem feitos um para o outro, porém a empresa encarregada pelo cálculo do amor — a LoveIN — insiste na Sigrid conhecer o verdadeiro amor da vida dela em prol do objetivo maior, o de estabelecer a paz na Terra através do amor.

“Pelo amor de Deus, comporte-se cientificamente!”

Os personagens e o enredo do livro são elementos secundários, responsáveis por sustentar o objetivo da história: o de mostrar as consequências na rotina e vida da humanidade a partir das invenções tecnológicas. O meio de desenvolvimento criado dessas tecnologias pouco tem a ver com a realidade, funcionam dentro das regras lógicas elaboradas pelo autor, essas quebradas na intenção de demonstrar um novo argumento da crítica ao progresso tecnológico. Toda especulação remete a reflexões propostas ao leitor, pois nos meios dos absurdos há a crítica quanto como grupos de pessoas desinformadas podem ser manipuladas, da obsessão de progredir na carreira comprometer a vida de gente próxima como a família, em como a apresentação de algo revolucionário pode mascarar o quanto este algo é na verdade perigoso.

Mesmo a intenção do enredo ter o foco menor, este perde a linha no meio do livro. Capítulos levam os personagens a nenhum ponto relevante, apenas oferece mais oportunidades de mostrar novas tecnologias criadas na mente criativa do autor, mas repete as críticas já ditas e assimiladas capítulos atrás. Pelo menos o enredo alinha à proposta original do livro ao final, oferece climas tensos acompanhadas ao ápice da criatividade maluca do autor nas extrapolações tecnológicas. O desfecho é bizarro de tão espetacular.

LoveStar consegue prender a atenção ao leitor às críticas sinceras por meio dos argumentos extraordinários a partir do mundo maluco criado ao longo dos capítulos. Exagera nas extrapolações e deixa o enredo de lado em prol da escrita  agradavelmente perturbadora.

“Não pensamos pelas pessoas. Só fazemos o que elas querem.”

LoveStar - capaAutor: Andri Snar Magnason
Ano de Publicação Original: 2002
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Fábio Fernandes
Quantidade de Páginas: 336

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