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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

Um Banquete Para Deuses Mortos (Gleyzer Wendrew)

O poder traz o respeito gerado por medo. Raça submissa ao mais forte, a humanidade aceita as condições impostas ao atingir um objetivo maior, a sobrevivência, resiliente na miséria sob a constante e vã esperança. Já livre da mortalidade, os deuses ficam imunes ao medo, gananciosos quanto aos prazeres e ousados por desconhecer limites. Toda história literária impõe conflito, este capaz de transtornar a realidade dos personagens retratados e transformar a ponto provocar medo aos deuses.

Um Banquete Para Deuses Mortos explora o medo dos vampiros, autoproclamados deuses desta história, tendo Drácula como a divindade máxima e protagonista da tragédia. Publicado em 2019 por Gleyzer Wendrew através da editora Constelação, as cento e poucas páginas deste livro exploram a decadência de um dos seres místicos mais reconhecidos da ficção gótica.

“Um cheiro podre, nojento, quase humano”

A história parte do Drácula já abatido nos tempos atuais, sobrevivendo sob o sangue de animais. Evita contato humano, é motivo de piada a esse ser vivo antes inferior, submisso a ter a honra de conceder o próprio sangue aos deuses feito Drácula ao passado. Incapaz de reagir ou mesmo interagir com o mundo moderno, ele remói o passado, relembra o fim do seu Império de cinco mil anos sob a tragédia a qual ninguém da espécie/divindade conseguiu superar senão ele, condenado por sofrer pela eternidade.

“Mas não havia justiça no mundo dos homens”

Em seguida a história conta o passado, quando os demais personagens são apresentados. Os pontos de vistas alternam entre Enákia, o humano que virou vampiro entre os outros cem fracassados no ritual de Ascensão; a líder das Damas Negras Natara, amante da Vanda ― filha do Drácula; e de Nosferatu, o filho do deus supremo banido pelo próprio. Mesmo tendo diversas perspectivas, Drácula conquista o protagonismo não só por imposição do enredo, as qualidades do personagem repercutem em cada acontecimento: é o deus mais poderoso e também o mais velho, ele relembra cada ponto de seu passado eterno, consciente do vínculo ao acontecimento vigente, seja das leis criadas junto aos Alto Conselheiros ou qualquer outra decisão em vida.

Sem focar na ação, explora os dilemas e as preocupações dos deuses. Com Enákia o leitor pode conhecer os passos iniciais na vida de um vampiro, desde a transformação até o ápice das capacidades evoluídas no fim da transmutação. O gore escoa pelas palavras ao destacar a apreciação dos vampiros pelo sangue, e a descrição traz muitas maneiras de explorar a degustação escarlate entre as demais situações envolvidas, pelo sangue trazer tanto a vitalidade quanto a morte aos personagens. O texto dedica poucas frases à ambientação do Império de Drácula, a narrativa é concisa nesse sentido e nem deixa a desejar ao enredo; soaria negativo apenas aos leitores de fantasia com preferência aos detalhes de onde acontece a cena, já neste livro a ausência compensa ao oferecer a experiência de leitura direta, assertiva quanto ao objetivo da narração.

“Nosferatu preferiria arrancar o próprio coração a manchar sua honra com um ardil tão humano”

Vampiros são denominados deuses, seja proclamado pelos próprios ou reconhecidos pelos humanos. A história destaca as capacidades extraordinárias presentes em todo o legado vampiresco, só que este livro trata da situação oposta. Depois de tanto exaltar as capacidades, a história revela a situação de fraqueza, expõe os deuses diante da incompreensão, denuncia a vulnerabilidade, por fim amedronta os deuses.

Só há ressalva quanto a transmissão da informação ao longo do livro. Sendo de leitura curta, algumas informações foram postas com frequência sem necessidade, pois o leitor seria capaz de compreender sem o narrador relembrar. Não acontece de fato a repetição, nisso o autor teve o cuidado de evitar, na verdade a informação repercute de outras maneiras, isso seria útil ao leitor em narrativas longas ou complexas, já aqui incomoda.

Um Banquete Para Deuses Mortos é um terror inusitado. Em vez de explorar o medo dos humanos, tão recorrente nas histórias do gênero, este livro apela ao aterrorizar deuses. Comprova a superioridade das divindades, mostram a presunção delas desta invicção, e então explora a decadência sob argumentos críveis à realidade elaborada por esta história.

“Sim, deuses não bebiam água, igual aos humanos. Bebiam sangue.”

Um Banquete Para Deuses Mortos - capaAutor: Gleyzer Wendrew
Editora: Constelação
Ano de Publicação: 2019
Gênero: Fantasia Sombria / Terror
Quantidade de Páginas: 164

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A Parábola do Semeador (Semente da Terra, vol. 1)

Ficções científicas também trabalham sobre realidades catastróficas, exploram o limite da sobrevivência humana, denuncia comportamentos desesperados frente ao medo e alerta sobre como o mundo pode ficar no futuro. Longe de prever a situação, o objetivo principal é trazer a discussão aos problemas vigentes através da especulação feita no romance. Octavia Butler não explicita a origem das crises nesta distopia; e caso o leitor fique em dúvida, basta olhar ao redor, na realidade e tempo presente.

A Parábola do Semeador é o primeiro volume da duologia Semente da Terra, narrado por meio da autobiografia de Lauren Oya Olamina, aspirante a trazer uma nova religião e esperança no meio do caos presente nos Estados Unidos do futuro. Escrito em 1993 e trazido ao Brasil apenas em 2018 pela editora Morro Branco, Octavia Butler demonstra como a ficção científica feita por mulheres não é brincadeira.

A Parábola do Semeador - capa

Um pouco mais de hipocrisia para manter a paz

Lauren é a irmã mais velha dos quatro meninos jovens, filha do líder do bairro e também ministro da religião batista local, embora a protagonista tenha outra ideia sobre Deus. Vive no aglomerado de Robledo com onze famílias, protegidas por muralhas como em qualquer outro bairro ainda de pé nos Estados Unidos, proteção ainda vulnerável a saqueadores e drogados sob a substância piro, que os deixam suscetíveis a provocar incêndios.

Acompanhamos a história contada no diário de Lauren entre os anos 2024 e 2027. Os três primeiros anos é sobre ela precaver pelo pior enquanto inspira reinterpretações de Deus e elabora uma nova religião: A Semente da Terra, cujo Deus possui outro nome e conceito. O último ano narrado trata da jornada rumo ao norte dos Estados Unidos com o que ela consegue preparar e tenta superar dificuldades como a hiperempatia — a condição dela em sentir a mesma dor da pessoa que ela testemunha, seja amiga ou inimiga. Deve seguir adiante com os companheiros a encontrar no caminho mesmo sem saber se são de confiança, tudo levada pela fé criada por ela mesma.

Essa é a regra. Saia em grupos e saia armado

Bairros murados, ameaças de invasores, incêndios, escassez de água e precarização do trabalho. Esses sãos alguns dos problemas enfrentados desde antes do nascimento de Lauren, a única realidade que ela conhece. Tal situação reflete na forma de narrar a história, o diário conta a vida dela sem dar informações claras ao leitor no começo porque ela desconhece a nossa realidade para fazer comparações. Mesmo assim é possível compreender devagar, as peças do enredo juntam aos poucos entre fatos ocorridos perto dela e das divagações. Se no começo demora a assimilar a situação enfrentada, pouco antes da metade do livro em diante demonstra os vários problemas enfrentados, onde as semelhanças à realidade presente nas moradias de classes desfavorecidas ficam nítidas, só que neste romance da Octavia sãos ainda mais comuns com a crise econômica, ambiental e social levada ao extremo.

Sem intervenção de alienígenas ou especulação de tecnologia avançada, A Parábola do Semeador é ficção científica voltada a precarização de recursos. Vemos a luta de Lauren com a invenção da religião Semente da Terra contra a desesperança da humanidade que precisa encarar o semelhante como ameaça fatal, único meio de precaver a própria sobrevivência.

A Pirâmide Vermelha (Vol. 1 de As Crônicas dos Kane)

Meu blog já concedeu espaço para culturas e mitologias dos indígenas habitantes do Brasil e da América do Sul em geral, seja artigo de pesquisa ou resenha de livro. Esses são exemplos de cultura rica, mas injustiçados pelo pouco destaque recebido, e não são os únicos. Procurei exemplos de mitologia egípcia e me surpreendi por encontrar poucas obras recentes sobre ela. Tem uma ou outra homenagem em games e filmes, e poucos exemplos na literatura, pelo menos dentre os títulos disponíveis no Brasil.

A mitologia egípcia é rica e vem da civilização com maior tempo de existência. Ouve-se falar de personagens como Anúbis, Cleópatra, Osíris, Rá e Ramsés; mas é difícil saber quem eles são de fato. Se deseja conhecer todos eles, comece pelo livro resenhado neste post.

A Pirâmide Vermelha é o primeiro volume da saga As Crônicas de Kane. Publicado em 2010, os irmãos Carter e Sadie são envolvidos na trama onde os deuses egípcios voltam à Terra, e começam a jornada onde conhecerá muito desta mitologia e história ancestral.

A Pirâmide Vermelha - capa

Rick Riordan ficou conhecido por escrever os livros da saga Percy Jackson e os Olimpianos, focada na mitologia grega. Hoje ele possui sagas dedicadas a mitologia nórdica, romana, e a egípcia que começa neste livro. 

Não se podia rejeitar a oferta de uma deusa  

Carter vive com pai enquanto a irmã Sadie mora com os avós em Londres. Separaram-se desde a morte da mãe há seis anos. Julius, o pai dos irmãos, trabalha como arqueólogo especialista em Egito, e leva Carter nas viagens constantes do trabalho.

Os irmãos se encontram apenas duas vezes por ano, como na véspera de Natal. O pai dos dois decide passar o dia da reunião no museu enquanto examina a Pedra de Roseta. A princípio seria outro trabalho como arqueólogo, porém ele pretendia realizar o ritual de invocação. Carter e Sadie pouco entendem da situação, e testemunham o inimaginável: cinco deuses egípcios são libertos da Pedra de Roseta, e um deles rapta Lucius.

O choque de perder o pai de vista é apenas o começo da grande aventura que levarão os garotos a descobrir o passado da família, a relação deles com o Egito Antigo e com os deuses dessa mitologia.

Pelo menos nisso eu podia acreditar  

A Pirâmide Vermelha não é apenas um dos poucos livros com mitologia egípcia disponíveis no Brasil, ainda traz a abordagem completa deste tema. Proporciona várias informações de estudos feitos sobre a cultura egípcia antiga, distribuídas no meio da história cheia de ação. As explicações são didáticas, voltadas ao público da idade dos protagonistas (pré-adolescentes) e acessíveis a qualquer leitor, sem deixar de lado algumas tacadas de humor nessas informações.

Com narrativa em primeira pessoa, cada irmão conta dois capítulos antes de passar a vez ao outro. E eles contam literalmente, pois o livro na verdade é a transcrição das gravações feitas por eles em áudio. Há interrupções na história porque o narrador vigente desabafa algo no meio da gravação ou discute com o irmão atrapalhando.

Traz a forma diferente de narrar, só que nada convincente ao levá-la a sério. Pouco provável de eles falarem por dezenas de minutos no mesmo capítulo sem pausar a gravação, ou até simular o diálogo de cada personagem desta aventura. Difícil tornar crível mesmo se editasse todo o áudio registrado, e os irmãos nem tiveram tal recurso (teriam dito em meio a tantas informações compartilhadas por eles caso tivessem).

Os deuses têm grande poder, mas só os humanos têm criatividade  

Mesmo sendo apenas o primeiro volume, já apresenta boa parte do repertório de deuses egípcios.
Riordan trouxe muitos personagens no mesmo livro, esses com camadas complexas de personalidade. Há deuses antagonistas que não são malvados, só possuem opinião adversa sobre eventos ocorridos no passado que os levaram a tomar esta decisão. 

A Pirâmide Vermelha tem tudo a oferecer sobre a mitologia egípcia. Útil até para leitores de idade bem acima da faixa etária indicada nos livros de Rick Riordan, pois entrega de tudo um pouco. Caso desanime com um ou outro aspecto do livro infanto-juvenil, tenha a certeza de os vários pontos positivos ainda compensarem a leitura. 

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O Espadachim de Carvão (Affonso Solano)

As diversas jornadas de nossas vidas trazem mistérios a desvendar conforme avançamos na aventura. Outras vezes o mistério em si é o estopim da trilha cheia de obstáculos até obter respostas. 

Seja a espécie, lugar ou origem da personagem, as ficções sempre apresentam características reconhecíveis em nós, leitores humanos. Livros aproximam pensamentos e feições das personagens ao espectador, apesar das diferenças exaltadas pelo autor, ou assim deveria…

O Espadachim de Carvão começa a história de Adapak, o filho de um dos quatro deuses que busca respostas sobre virar alvo de mercenários. Publicado em 2013, é uma fantasia nacional de mundo próprio onde humanos coexistem com outras espécies originais do romance, além de servirem como coadjuvantes do protagonista de espécie inédita.

O Espadachim de Carvão - capa

Affonso (com dois efes de faca) Solano publica a série sobre Adapak na editora Leya, onde também atua como curador. É conhecido na internet por participar de canais como MRG, Jovem Nerd e das dublagens feitas em parceria com Anderson Gaveta. 

O carvão tomou vida!  

Adapak é alguém de origem especial, apesar de ele mesmo se descobrir durante a trama deste livro. Criado a princípio pelo sacerdote Barutir, descobre ser filho de um dos quatro deuses responsáveis por trazer vida às espécies existentes no mundo de Kurgala. Os deuses eram conhecidos como “os quatro que são um” por eles pensarem e agirem quase da mesma forma, até discordarem entre si e abandonarem Kurgala.

Adapak é então criado pelo deus até alcançar os dezenove ciclos de vida, quando é perseguido por quem lhe deseja matar. Desconhecendo o motivo, ouve os mercenários pronunciarem a palavra Ikibu enquanto se defende deles através de espada com lâminas feitas de osso.

Recorre a conhecidos da infância em busca de respostas, seres agora irreconhecíveis ao espadachim, com atitudes e opiniões adversas de quando Adapak os viu pela última vez.

Amadores ‘lutam’ e profissionais ‘resolvem’  

Solano cria o próprio mundo fantástico onde outras criaturas racionais compartilhando o espaço com humanos, de características e conceitos distintos, uns mais exploradas do que outros conforme a necessidade do enredo. Conta os detalhes da espécie aos poucos, inclusive dos personagens, e atrapalha em formar a imagem de alguns durante a leitura ao descobrir determinada característica só mais tarde.

Conceitos também foram adaptados a este mundo, como a contagem de dias ser simbolizada por luas, os ciclos de vida no lugar de anos, e sistema métrico baseado em cascos. A tentativa de adequar esses conceitos soa falha, ler a altura em cascos no fim só revela como alguém com dez cascos é maior de quem mede oito, e sua definição (explicada também no momento posterior) tem referência pouco explorada no resto do livro. 

O romance consiste em Adapak buscar respostas enquanto os capítulos alternam com passagens do passado para mostrar mais sobre o protagonista e o mundo ao leitor. Mesmo com poucas páginas, O Espadachim de Carvão consegue amarrar os eventos já ocorridos com a situação presente; os flashbacks estão longe de preencherem somente páginas vazias. Muitas das questões levantadas ao leitor são respondidas sem precisar recorrer à continuação da série, embora a história tenha apenas começado.

Adapak não discordou  

Conta muito bem da história, porém peca na apresentação do protagonista. Adapak é referenciado muitas vezes como um rapaz ou garoto pelo autor. Veja bem, o filho de um deus e protagonista do mundo com espécies diversas, e o narrador associa ele na maioria das vezes como “garoto”. Habilidoso no combate e inocente no relacionamento, suas características e feitos despertam pouco interesse, dá mais curiosidade em conhecer o seu passado relacionado aos deuses. Testemunhar alguma tragédia acontecer a Adapak traz pouco impacto, ainda mais quando o protagonismo resolve os problemas ao desvendar as capacidades do “garoto” ainda desconhecidas pelo mesmo. 

O Espadachim de Carvão foi um dos livros selecionados no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), o que possibilita a sua distribuição nas escolas públicas. O mundo inédito demonstra boas capacidades de como incentivar a criatividade enquanto conta a aventura do protagonista que embora poderoso, precisa lidar com situações fora do seu lugar comum igual aos jovens partindo de casa para ir à escola ou outro ambiente longe dos pais. Pena falhar com descrições tardias e destacar o protagonismo ao invés do protagonista em si.

Há discussões sobre se é melhor oferecer livros mais acessíveis aos estudantes jovens em vez de clássicos como Dom Casmurro, mas gostaria de levantar outra discussão: seria este livro a melhor opção para apresentar fantasia nacional aos jovens nas escolas públicas? Eu pelo menos não acredito.

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Sobre os livros selecionados para o PNLD, incluso este da resenha

A Dança dos Mortos (Crônicas da Aurora, vol 2)

Continuo a falar sobre morte, afinal a amostra anterior foi pequena.

A história progride por meio das tragédias. Reis caem, reinos entram em perigo, o mundo pode colapsar e dar espaço a outro. O destino é incerto, Deuses manifestam suas apostas sem garantir o vencedor. A guerra traz perda a todos, os vencedores apenas ganham a oportunidade de testemunhar mais tragédias que os perdedores. Quando acabará? Nunca! No máximo conquista momentos de paz, até a história decidir a progredir outra vez…

A Dança dos Mortos continua a história dos três países de Dünya apresentada em A Face dos Deuses. Publicado em 2018, demonstra as tentativas dos líderes de cada país a favorecer o seu lar e a ambição nem sempre transparente. 

A Dança dos Mortos - capa

Gleyzer Wendrew traz a continuação desta saga sombria com elementos fantásticos. Violência, política e podridão lapidam a imagem de seus textos. Trabalha na Hydra Produções Editoriais e atua como co-host no podcast LeituraCast de Autores para Autores.

Traiu nosso povo, nossa cultura, nossa história… Traiu nosso Deus!  

Personagens têm poucas oportunidades de lamentar da Grande Guerra acontecida no passado entre os três países de Dünya, pois o conflito a seguir promete ser ainda maior. Os reinos sofrerão mudanças das conspirações iniciadas no primeiro volume de As Crônicas da Aurora: uma seita demonstrará certo potencial contra Vatria, guerra interna promete colocar Maäen nos eixos, e Venn enfrentará ameaças externas.

O menor dos três países enfrentará outro povo, os tribais estrangeiros reunidos sob comando de Azrael, um vatriano renegado e convicto em ser capaz de subjugar Venn e coletar os recursos do país. Mais que isso, os tribais contribuem na revelação do passado de Dünya, esse desconhecido pelos registros disponíveis nos três países. 

Limpou o rosto com a mão suja de alívio  

A Dança dos Mortos compensa o vazio sentido ao acabar de ler A Face dos Deuses. Com quinhentas páginas, tem espaço o suficiente em conhecer as diversas faces dos locais e dos vários personagens, alguns inéditos neste segundo volume. Facilita inclusive a entender os diversos aspectos deste mundo, pois já tem informações prévias do livro anterior, além da mão sutil do escritor levando o leitor aos diversos pontos com mais calma, as centenas de páginas dão tempo o suficiente para apresentar as características de Dünya enquanto a história progride com as mortes.

Nada deixa a desejar. Os capítulos continuam com a mudança de foco entre personagens, todos com oportunidades de apresentar seu ponto de vista e ambição. Difícil torcer para alguém, as revelações de caráter são constantes e ainda escondem surpresas posteriores, algumas levantadas lá n’A Face dos Deuses.

Toda esta complexidade beneficia outra característica incrível do livro: é imprevisível. Difícil prever quem a morte alcançará nos vários conflitos ou nas péssimas condições oferecidas por este mundo. O leitor pode fazer apostas, bem como os Deuses; mas o resultado real só é visto na hora. 

Os desfechos em A Dança dos Mortos são aceitáveis e prometem mais surpresas no terceiro volume. Guerras, violências e reviravoltas estão garantidas caso mantenha a mesma qualidade desta obra.

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Resenha do primeiro volume d’As Crônicas da Aurora (A Face dos Deuses)

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Confira o podcast LeituraCast de Autores para Autores

A Face dos Deuses (Crônicas da Aurora vol. 1)

A morte fede, traumatiza e pode transformar pessoas. Atitudes imprevisíveis desencadeiam desastres, além de outras ações ousadas. Na violência constante, a vida escapa do corpo com poucos movimentos. A morte salva os responsáveis por causá-la.

Algo cruel de dizer, porém a realidade é esta. Heróis perdem lugar a assassinos, os personagens cinzentos estão de tons mais escuros. Mate se quiser sobreviver, os civis do reino querem o mesmo caminho, cientes de garantir o futuro longo e próspero através do presente breve e mortal.

A Face dos Deuses apresenta os conflitos existentes entre os três países do continente Dünya. Publicado em 2017, é o primeiro volume d’As Crônicas da Aurora, saga de muita violência e eventos sangrentos.

A Face dos Deuses - capa

Gleyzer Wendrew é autor independente. Além de escrever, trabalha na agência Hydra Produções Editoriais, com serviços a autores com revisão e copidesque, capa, diagramação e assessoria editorial. Também atua como co-host no podcast Leituracast de Autores para Autores, onde um autor convidado fala do tema sugerido no episódio correspondente.

Fez tudo que podia para impedir que sua vida escoasse pelas pedras

Dünya é dividida em três países. Vatra fica ao norte do continente e tem treinamento rígido com novos soldados, é o responsável por desencadear a Longa Guerra que deixa marcas até o momento vigente na trama. Maäen tem o maior território do continente e venceu a Longa Guerra. Venn é o menor dos países, conhecido pela barreira natural das montanhas.

Os povos deste continente acreditam em deuses originais do universo criado. Cada país é mais atento a certos deuses conforme as crenças e eventos vistos.

Apesar da vitória, a Longa Guerra deixa várias perdas; e apesar da derrota, não houve rendição absoluta. O livro conta os acontecimentos e decisões dos principais líderes de cada país (reis, príncipes, generais e comandantes), todos amargurados pelas consequências sofridas no passado. Sem distinção de oprimidos ou opressores, eles garantem a sobrevivência do reino associado através de atitudes extremas, dando ótimas oportunidades para chocar o leitor.

Estava sujo e fedia a raiva e suor

Minha apresentação do enredo citou sequer um personagem da trama por motivo bem simples: são vários, muitos personagens presentes nas cento e poucas páginas do livro. Conhecemos eles a partir das descrições, principalmente pelas atitudes, e as mais chocantes facilitam de lembrar quem é tal pessoa na história.

Gleyzer sabe como aproveitar as figuras de linguagem. Mistura metáforas nas descrições e confunde os sentidos do leitor com combinações ilógicas, mas que provocam a imaginação. É preciso preparar o estômago para as outras descrições, não basta ler o lado visceral dos países em guerra, certos ambientes respiram gore no dia a dia.

A Face dos Deuses é uma introdução aos conflitos a vir em Dünya enquanto oferece detalhes da Longa Guerra no passado. Eu adoraria que o livro entregasse mais, teve muito pouco conteúdo para a proposta deste universo e dos muitos personagens. A história fica com lacunas pendentes ao próximo volume, onde espero ficar satisfeito com o preenchimento dessas.

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Darkson (Fantasia nacional sobre piratas!)

Entre saques, mutilações, bebidas e mulheres, uma maldição não é o bastante para o pirata deixar de fazer o seu melhor. Ser amaldiçoado duas vezes também não o impede. 

Sem saber a própria história, ele não passa de um humano entre o conflito de deuses e diabo. Mas este humano foi agraciado com presentes de seu pai. Tais presentes fizeram o próprio deus dos oceanos o temer e agir a favor de seu domínio e proteger os de seus irmãos. 

Darkson* conta a história deste pirata amaldiçoado, homônimo ao título do livro. Publicado em 2016, com narrativa em terceira pessoa e treze capítulos breves. 

Darkson - capa

Marcos Perillo é formado em administração e relembrou sua vida na década de 80 ao escrever Darkson. Deixou-se levar pela juventude rebelde e roqueira influenciada pela leitura de quadrinhos e criou a história de seu anti-herói. 

O sexto filho do sexto neto! 

O ser sinistro recebe a visita de um marinheiro com o filho nos braços. O pai não tem condições de sobreviver, e viu no sonho com este ser uma oportunidade de ter a boa vida de riquezas e prazeres. Entregou o filho à maldição e permitiu sua adoção ao sujeito misterioso. Este devolveu o filho para o pai e cumpriu a sua parte do tratado, mas somente o combinado. 

Darkson foi criado por prostitutas até descobrir sua vocação. Sem saber da maldição, se tornou o pirata mais temível dos mares. Adquiriu as heranças do ser misterioso, comandou uma tropa leal através da demonstração de poder e rigor, e tratou as prostitutas com respeito como se fossem figuras maternas. 

Seus feitos extraordinários causaram preocupação ao próprio deus dos oceanos. Ciente de toda a história do pirata, não aguardou o desfecho de suas consequências e intercedeu, amaldiçoando Darkson pela segunda vez. 

O mais fantástico de todos os navios piratas até então construídos 

A descrição física dos personagens, navios e criatura é incrível. As palavras desenham as figuras dos personagens enquanto detalham sua aparência, mostrando rapidamente o resultado da pintura desses em um simples parágrafo. 

A linguagem empregada é simples e favorece uma leitura fluída e até rápida, capaz de deixar o leitor concluir as cem páginas em um par de horas. Não há descrições exageradas, mas algumas frases se repetem de modo dramático. 

O livro conta a história de Darkson, mas peca por se limitar a isso. Não há uma narrativa elaborada da aventura do pirata, e mesmo sendo bem escritos (raros erros de escrita) soam como resumo de sua vida. 

Um personagem já feito desde o início, ele pouco se desenvolve e alcança suas conquistas de forma espontânea. Darkson consegue o que quer sem dificuldade, até fácil demais. 

Houve uma adaptação na concepção dos deuses ao incluir o ser demoníaco dentro da mitologia. Tal adaptação mesclou muito bem com a história do livro, embora eu estranhe a mistura do nome dos deuses, por ter nomeado o deus dos mares com o nome romano de Netuno, mas os demais com nomes gregos (Afrodite, Zeus e Hades). 

Darkson é uma obra simples e objetiva. Capaz de trazer uma experiência rápida, porém pouco exploradora do mundo e protagonista desenvolvidos na trama.

 

* Um exemplar do livro foi cedido pelo autor para realizar a análise

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Mitologia Indígena (que não é brasileira)

Pouco se fala das mitologias existentes no nosso país. Leitores e consumidores de modo geral estão acostumados a ver histórias sobre os deuses gregos, os egípcios, e ultimamente os nórdicos por causa do Kratos. Os artistas brasileiros também aproveitam de fontes internacionais para criar o seu trabalho, mas quando desenvolve obras com mitologias existentes onde moramos, ou eles são valorizados por trazer algo incomum, ou sofrem deboche por trazer algo inferior em vez das mitologias bastante conhecidas. 

Se o preconceito não é o bastante como limite ao acesso a cultura de povos presentes antes da intervenção europeia, a própria disseminação dessa cultura pode prejudicar o entendimento da mitologia indígena. Textos sem fontes definidas ou adaptações dos jesuítas que aproximavam as crenças indígenas com a cristã. 

Há também a dificuldade natural de haver uma visão distinta em cada tribo. Certos povoados tinham deuses distintos, ou sendo os mesmo com outros nomes e características distintas. Posso citar como exemplo os deuses Guaraci e Jaci, dependendo da tribo podem ser irmãos homens, um casal de gêmeos (sendo Jaci mulher) ou até terem relação incestuosa. 

Muitas dúvidas! - mitologia indígena

O objetivo deste breve artigo é apresentar os equívocos de alguns textos e apresentar o básico da mitologia que não é brasileira, mas de um povo indígena em específico: dos guaranis. Se abordasse as diversas mitologias indígenas no mesmo artigo iria complicar ao invés de elucidar sobre essa cultura. Considere este texto um ponto de partida capaz de ajudar um pouco na compreensão e desmistificar algumas afirmações. 

Tupã Cristão 

Tem-se a impressão do Tupã ser o deus principal da mitologia brasileira, assim como é Zeus e Odin com poder sobre o trovão. Isso se dá justamente pelos jesuítas quando tentavam aproximar a religião dos indígenas da cristã monoteísta. 

Mas como é história dos deuses contada pelos guaranis? A seguir um resumo: 

Guaraci* e Jaci são filhos gêmeos de Ñandecý com Ñanderuvuçú. Este último foi o criador do universo, criou um ser que virou seu auxiliar e a própria Ñandecý, o primeiro ser feminino. 

Ñanderuvuçú e seu auxiliar alternava seus trabalhos de criação do mundo com o acasalamento de Ñandecý, quando enfim engravidou dos meninos gêmeos. A mãe não reconheceu Ñanderuvuçú como o pai de seus filhos, e por isso ele se irritou a ponto de abandonar toda a sua criação e foi ao reino das trevas onde permanece até hoje. Ñanderuvuçú  impede o avanço das trevas, mas ele pode deixar essas irem ao mundo caso tenha vontade. 

Ñandecý precisou seguir em frente. Ainda grávida dos gêmeos ela se encontrou com os jaguares que querem devorar a ela e os bebês. A mãe morreu, mas os jaguares não conseguiram fazer mal aos dois bebês. 

Deuses criados por jaguar! - mitologia indígena

Guaraci e Jaci foram criados pelos jaguares até saberem por um papagaio sobre a morte de sua mãe, e assim os gêmeos se vingaram. Somente um jaguar fêmea sobreviveu, ela estava prenha e deu continuidade aos jaguares existentes até hoje (com ameaças de serem extintas). 

Os irmãos tentaram ressuscitar a mãe várias vezes, mas a falha persistiu. O processo corria bem, e Jaci se exaltava com a possibilidade de ter sua mãe, mas essa mesma alegria o desconcentrava a ponto de falhar na ressurreição, deixando a mãe morta. 

E onde entra Tupã nessa história?

Bem depois quando Ñandecý enfim é ressuscitada pelo Ñanderuvuçú e deu a luz ao deus. A presença de Tupã na mitologia guarani justifica a manifestação dos trovões e tempestades, mas passa longe da concepção do principal deus indígena. Eu não sou capaz de afirmar se ele é superestimado em relação a todas as culturas indígenas com a pesquisa feita. Só confirmo que na guarani não é o principal, e a versão mais difundida está sob influência cristã. 

O “Satanás” indígena 

Obviamente os jesuítas precisaram conturbar o conceito de algum ser indígena e torná-lo satanás. Atribuíram a Anhangá o papel de adversário do Tupã e relacioná-lo como alguém malvado. 

Todavia Anhangá é apenas um espírito protetor da floresta responsável pelo equilíbrio da vida. Ele até mesmo ajuda os caçadores que o presenteiam com oferenda e se a caça for para a subsistência dos humanos. 

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco)

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco e de olhos vermelhos)

Se os caçadores matam em demasia, assassinam filhotes ou animais que amamentam suas crias, o espírito se vinga de forma bastante perversa: Anhangá manipula a mente dos caçadores, cria ilusões e os confunde a caça com os próprios colegas, acabam se matando. 

A punição é severa e causa temor aos índios, por isso Anhangá foi eleito como o satanás pelos jesuítas. Porém esse espírito representa apenas o equilíbrio na vida, e ensina a respeitar os limites da caçada. 

Ficção não é mitologia 

Outra história difundida como parte da mitologia guarani é sobre Kerana e seus sete filhos. Algumas obras criativas usam a narrativa de Kerana como referência à mitologia, só que essa também não passa de uma ficção. 

Faz parte do livro Nossos Antepassados, do escritor paraguaio Narciso Ramón Colman. Escrita em espanhol e tupi, conta uma história com referências à mitologia guarani, mas não narra a mitologia em si. 

Não é necessariamente um motivo para diminuir a obra de alguém. Tal observação serve de esclarecimento que quando se refere a Kerana e seus filhos, está relacionando com outra obra literária ao invés de um mito do povo indígena, nada mais. 

Livro ≠ Mitologia

 


Não poderia afirmar e contestar os argumentos citados nesse texto sem citar de onde eu tirei as informações. A fonte principal foi o programa de podcast do canal Papo na Encruza em que Andriolli Costa esclarece sobre os equívocos transmitidos pelas redes (algumas até famosas). Não deixe de conferir esta e outras referências abaixo e saber mais das mitologias, pois ainda é pouco perto do conteúdo riquíssimo desses povos.

*Embora tratando sobre os povos guaranis, resolvi usar os nomes dos gêmeos em tupi, por serem mais conhecidos e fáceis de pronunciar

Referências

Papo na Encruza 17 (podcast)

Texto sobre Anhangá

As Lendas da Criação e Destruição do Mundo com Fundamentos da Religião dos Apopócuva-Guarani (pág. 47 a 67)

Classificação do risco de extinção aos jaguares (em inglês)

 

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