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Final Fantasy VII Remake (A nova versão do clássico)

Após tanto tempo de promessas, a espera acabou! Um dos jogos mais bem reconhecidos da franquia foi refeito, atualizado à tecnologia e jogabilidade, sem esquecer da reelaboração da narrativa, esta responsável por multiplicar as primeiras dez horas do jogo original em três ou até cinco vezes. A dedicação aos detalhes vai além da fisiologia dos personagens e da arquitetura da cidade, a história ganha mais espaço ao explorar as nuances de Midgard por mais tempo. Está na hora de conferir a nova versão de Final Fantasy VII, Remake feito pela Square Enix com a primeira parte lançada agora em 2020.

“O planeta sangra verde, como você e eu sangramos vermelho”

Midgard é a metrópole de recursos tecnológicos avançados graças às reservas de energia chamadas de mako. Construída em forma de círculo, possui dois pavimentos: o superior construído por plataformas conectadas e estendidas por toda a cidade, onde abriga os recursos avançados e as pessoas com melhores poder aquisitivo; já o nível inferior fica no solo da cidade, moradia de pessoas carentes cujo sol bloqueado pela plataforma superior é substituído por geradores de energia mako. Ambos os pavimentos são divididos em oito setores, cada um contendo usina de mako.

O grupo Avalanche repudia o uso de mako por razões ambientais, afinal a fonte desta energia é a própria vitalidade do planeta. A equipe deste grupo liderada por Barret decide invadir e destruir a usina do Setor 1, contando com a ajuda do mercenário Cloud Strife, ex-membro da SOLDIER, equipe de soldados aprimorados com mako treinados e desenvolvidos pela Shinra, a empresa que produz a energia, controla a cidade de Midgard, e possui ambições ameaçadoras a ponto de sacrificar a própria cidade ao satisfazê-las, e ainda assim perde a disputa do antagonismo principal — sim, aquele mesmo.

Grupo Avalanche - Final Fantasy VII Remake

Avalanche deixando sua marca em Midgard

“Eles querem fazer disso um espetáculo? Então bora dar um pra eles!”

Sem estender esta resenha nas repaginações visuais ― estas nostálgicas a recriar mesmo detalhes dos principais lugares do jogo original ―, vamos ao foco do blog e prosseguir na análise de enredo. A apresentação dos personagens de Avalanche e Cloud é feita em cenas consecutivas de ação, todas as falas são espontâneas e revelam comportamentos dos personagens. Batalhas travadas em posições e em turnos acabaram, o ambiente faz parte da jogabilidade, servindo de proteção contra ataques, levado em consideração na estratégia. Pode explorar pontos fracos ao mirar em determinadas partes dos adversários, algo nada sofisticado igual Horizon Zero Dawn, é apenas outro recurso a planejar ao longo da luta.

A comunidade do piso inferior

A comunidade do piso inferior

Após a apresentação, o Remake começa a mostrar a proposta de fazer o jogo inteiro focado em Midgard. De fato elaborar este lugar tão complexo em detalhes apenas a passar poucas horas na versão original foi um desperdício necessário ao suprir todo o conteúdo com a tecnologia vigente. Hoje há a possibilidade de os jogos estenderem o conteúdo por meio de expansões, dedicando maiores esforços na mesma ambientação, trabalho abusado pelos desenvolvedores desta primeira parte do jogo, para a alegria dos fãs. Entre os diálogos agora de fato falados, há muitas características acrescentadas em Midgard, novos personagens e conflitos a resolver. Wedge, Biggs e Jessie agora possuem os próprios arcos dentro da narrativa principal, tornando-os mais memoráveis por ter motivos ao jogador importar com eles.

“Pode crer. A gente já podia ter morrido umas mil vezes”

Ainda estamos falando em adaptar um trabalho antigo aos moldes atuais, e isso gera dilemas no tanto os produtores podem modificar e ainda manter a essência de Final Fantasy VII. Por exemplo: as caricaturas dos personagens foram o recurso usado a princípio a resumir comportamentos dos personagens em pequenos gestos, o que gerou a identidade deles, e portanto manteve na nova versão. Apesar de ser extravagante ver em projetos atuais, tem o apelo nostálgico capaz de prejudicar caso estivesse ausente. As cenas de ação beiram ao exagero, Cloud realiza acrobacias impossíveis enquanto empunha a espada do tamanho dele, e seus rivais fazem o mesmo e sequer suam. Esses exageros tornam as situações do jogo contraditórias, pois ao precisar disparar centenas de balas de Barret até enfim exterminar mesmo os adversários fracos, o mesmo não deveria temer quando alguém apenas aponta o revólver contra ele; isso sendo somente um exemplo dentre muitos.

Midgard - Final Fantasy VII Remake

Midgard: a cidade que nunca dorme

O jogo aproveitou a exploração de Midgard ao máximo durante a campanha principal, já as tarefas secundárias deixam a desejar pelo excesso de simplicidade. Nada além de ir a certo lugar e derrotar monstros, procurar determinada pessoa ou objeto, tem ainda alguns minigames capazes de variar um pouco. Já o que frustra mesmo na jogabilidade é o problema comum nas produções da Square Enix, bastante criticado na resenha de Kingdom Hearts 3, e apesar de ocorrer em situações pontuais nesta versão de Final Fantasy VII, deixa muito a desejar. Com lutas voltadas à ação, nem sempre deixa claro os movimentos dos inimigos, seja pela câmera mal enquadrada incapaz de mostrar o golpe sendo executado, ou pelo tempo de execução tornar inviável do personagem controlado pelo jogador conseguir reagir, por vezes mesmo tomando distância pelo comando de esquivar, ainda é atingido. Os golpes dos inimigos são capazes de interromper a ação dos personagens e prejudica, pune o jogador por algo sequer visto. É mais frequente na luta contra chefes, por elaborar combates mais criativos, porém prejudicados nesses problemas frustrantes nem sempre sob a culpa do jogador.

Final Fantasy VII Remake não substitui a versão original, e sim elabora uma nova criação a partir da ambientação já existida  — deixa tal proposta nítida em determinada etapa do jogo. Com elementos em comum, a jogabilidade é inovada, bem como o aprofundamento dos personagens melhor explorado por dedicar muitas horas em mostrar os respectivos dilemas de cada membro da Avalanche e dos protagonistas. Sem informar quantas partes serão lançadas, a Square Enix pode avaliar o retorno desta introdução da história, então moldar e aperfeiçoar a continuação, portanto seria bom melhorar o combate enquanto cria animações de brilhar os olhos.

“Todos conhecem a verdadeira natureza do mako, mas o povo ignora voluntariamente esse preço”

Final Fantasy VII Remake - capaProdutora: Square Enix
Lançamento: 2020
Série: Final Fantasy #7
Gêneros: aventura / fantasia / cyberpunk / RPG
Plataforma: PlayStation 4
Idioma: legenda em português

Compre o jogo

Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

Meu XP com a trilogia Sprawl

Ano passado eu me dei a oportunidade de conferir a obra Neuromancer, primeiro volume da trilogia Sprawl escrito por William Gibson. O livro é referência quando trata do gênero cyberpunk, sendo um dos primeiros lançamentos deste estilo, e por este motivo tem a devida importância. No entanto nada evitou do livro dividir a opinião dos leitores, como a dificuldade em compreender os aspectos do romance por causa da escrita. Eu adquiri o exemplar digital mesmo ciente de tais críticas, afinal eu quis formar a minha opinião sobre a obra de Gibson, além de conhecer mais do universo cyberpunk através da obra pioneira neste gênero.

Neuromancer - Sprawl

E eu gostei de Neuromancer, apesar de reconhecer os problemas tão criticados. Acompanhei Case ao longo das páginas, conferi os detalhes do ambiente cyberpunk e aprovei a criatividade do autor ao propor tecnologias com funcionalidades semelhantes às existentes hoje, depois do lançamento do livro. Comecei pelo glossário do livro e conheci os termos próprios do romance em geral, e isso ajudou na compreensão até certo ponto. O problema nunca foi esses conceitos usados no livro, e sim nos desleixos da escrita do autor. Progride a história sem oferecer informações suficientes ao leitor e deixa de citar qual pessoa disse determinado diálogo ou quem realizou tal ação.

Mesmo o resultado da leitura saindo como mediano, foi suficiente para eu conferir o resto da trilogia. Demorei ao adquirir a continuação, como demoro com qualquer saga, pois evito de sobrecarregar o blog com resenhas da mesma série, mas confesso estender demais na leitura entre um volume e outro. Ao decidir comprar Count Zero, já peguei Mona Lisa Overdrive junto, assim o intervalo de leitura entre o segundo e o terceiro livro ficou menos da metade de entre o primeiro e o segundo.

Count Zero - Sprawl

Alguns leitores preferem Count Zero entre os livros da trilogia, já para mim este foi o pior. O ambiente de Sprawl deixou de ser novidade após Neuromancer, apesar de Count introduzir conceitos interessantes como as entidades de religião africana existindo dentro do ambiente da Matrix. Habituado com o universo criado por Gibson no primeiro volume, eu desejei aspectos melhores na continuação, e por isso me decepcionei. Em vez de apenas Case, aqui acompanhamos a história de três protagonistas cujos focos alternavam entre capítulos, porém a coordenação deles falhou em levá-los a algum lugar até que de repente os arcos dos três intercalam rumo a conclusão. Soma esta falha do enredo com os problemas de escrita ainda pertinentes, e o resultado é a minha insatisfação com o livro.

Mona Lisa Overdrive - Sprawl

Como já comprei o terceiro volume, dei uma chance ao Mona Lisa Overdrive, até porque faltava apenas este da trilogia. Coloquei as expectativas lá embaixo, e com isso Overdrive as superou. Ainda comecei o terceiro volume pelo glossário, relembrei dos termos já usados antes e já notei mais destaque ao ambiente japonês só pelas definições das palavras ali. Então comecei os capítulos com um, dois, três, quatro arcos diferentes! Fiquei contente por Gibson melhorar a coordenação desses arcos comparados ao volume anterior, pude reconhecer onde cada personagem foi no capítulo correspondente. As descrições estavam mais claras — finalmente! —, ainda com ressalvas quanto a qualidade, pelo menos a leitura superou a expectativa de ser tortuosa.

A maior decepção ficou por conta do final, sem entrar em detalhes nem dar spoiler: a coordenação tão bem feita com a progressão das protagonistas foi deixada de lado, deu conclusão a apenas um arco delas — este pelo menos aceitável, por contribuir na criação do universo mesmo nas páginas finais — e as demais tiveram o último capítulo genérico, apenas dispensando-as da história. Pondo os pontos positivos e negativos na balança e com a baixa expectativa somada na equação, Mona Lisa Overdrive saiu como mediano igual Neuromancer.

Após me dedicar a ler toda a trilogia do Sprawl, considerei escrever este post analisando toda a trilogia e de forma pessoal, expondo minhas expectativas e pensamentos quanto a leitura, em suma, compartilhei a experiência completa de leitura desta série. Pretendo fazer posts como esse quando completar outras sagas — lembrando que só faltam dois volumes até eu concluir A Torre Negra e um das Crônicas dos Kane, qual dessas sagas será a próxima?


Confira a trilogia

Mona Lisa Overdrive (Sprawl Vol. 3)

Alta tecnologia, baixa qualidade de vida. Voltamos ao universo cyberpunk rumo a conclusão da trilogia de forte influência nos primórdios do gênero. Histórias intercaladas envolvem delinquentes de diversos meios, bem como garotas que já vivem nas condições vigentes sem poder de escolha. A tecnologia evolui por trás do mistério envolto nos personagens principais, ocupados pelos perigos de pessoas ambiciosas no meio de tanta gente com faltas de oportunidade.

Mona Lisa Overdrive conclui a história envolta de Sprawl. Publicado em 1988 por William Gibsom com edição de 2017 pela Alpeh e traduzido por Carlos Irineu, o terceiro livro da trilogia seleciona personagens dos volumes anteriores e entrega a última história deste universo cyberpunk.

“Como se as linhas de neon da matrix esperassem por elas atrás de suas pálpebras”

O livro alterna capítulos com quatro pontos de vista diferentes, entre eles o de Kumiko Yanaka, filha do chefe da Yakuza. A garota vai até Londres, afastada das ameaças direcionadas ao pai. Carrega consigo um dispositivo avançado capaz de formular o holograma com traços humanos e visível apenas a ela, tudo simulado a partir da inteligência artificial, além de possuir inúmeras informações armazenadas no próprio sistema.

Slick dedica os dias a construir autômatos na fábrica de Gentry, um indivíduo curioso e alucinado pelas próprias suposições. Precisa pagar pelo favor devido no passado, por isso deve acomodar duas pessoas, um homem inconsciente conectado a eletrodos, e a técnica em medicina Cherry, responsável por cuidar do rapaz inconsciente, conhecido apenas pelo apelido de Conde.

Angie Mitchel está anos mais velha de quando a conhecemos em Count Zero. É a celebridade do momento por conta das transmissões amorosas entre ela e Robin por meio dos stims. Continua a ouvir as vozes dos loas — entidades da mitologia vodu presente no ciberespaço — e sofre uma tentativa de envenenamento. Se recompõe e pretende voltar ao trabalho, inconsciente de toda conspiração tramada contra ela.

E Mona é a jovem prostituta que recebe a oportunidade de trabalhar em algo diferente, porém com detalhes nem tão diferentes assim. Tem grande admiração pela Angie e é usada pelos conspiradores desta celebridade enquanto lembra dos ensinamentos da colega de serviço mais experiente, já falecida.

“Não podia entender por que alguém assistiria a um vídeo se havia um stim por perto”

Gibson traz mais além dos elementos e personagens dos volumes anteriores nesta última história de Sprawl. O desenvolvimento narrativo progride de forma semelhante, desta vem enfim com melhoras na escrita. As ações ficam mais claras, bem como quem as fez. Cada capítulo coordena os personagens relacionados a algum ponto da trama, ao contrário da confusão narrativa de Count Zero. E as descrições completam as cenas antes de continuar a história. Por manter as expectativas baixas após as decepções dos livros anteriores, este provou melhorias e amadurecimento de Gibson na escrita.

Longe de tal amadurecimento mantê-lo livre de falhas. O ritmo dos capítulos perde força com o uso de verbos fracos, abusados na hora de passar a informação ao leitor. Descreve como o personagem pensa e vê em vez de fazê-lo interagir com o mundo rico elaborado pelo autor. Cada transição de capítulo começa descrevendo os acontecimentos do personagem sem mencionar qual é, propondo ao leitor descobrir com menções pertinentes aos capítulos anteriores respectivos a pessoa; chega a ser fácil de reconhecer, pena a proposta acrescentar nada senão um leve desafio ao leitor cujo único prêmio é saber o quanto antes de qual personagem o texto foca.

Como já dito, o enredo pelo menos coordena os personagens e entrega pequenos desfechos em cada capítulo, por vezes terminam em suspense a desvendar apenas quando o capítulo posterior retornar ao ponto de vista daquele personagem. Mesmo distantes, a situação dos personagens alinha com as demais, tornando improvável de se perder na progressão de cada um quando os pontos de principais estão interligados. Já a conclusão da história descarta todo esse empenho em prol de favorecer o final a apenas parte do elenco, o restante teve seus arcos progredidos até levar a trama principal ao fim e então receberam capítulos finais que nada acrescentam ou concluem as respectivas histórias.

Mona Lisa Overdrive até impressiona na leitura com expectativas baixas. Wiliiam Gibson sempre será lembrado por conta desta trilogia, cujo mérito está em construir o universo sci-fi original e inspirador a ponto de virar a base do gênero cyberpunk. Os pontos positivos das três obras jamais camuflarão os problemas de escrita, dificultando a leitura por desleixo do autor.

“Tinham um cheiro triste, os livros velhos”

Mona Lisa Overdrive - capaAutor: William Gibson
Tradutor: Carlos Irineu
Ano da publicação original: 1988
Edição: 2017
Editora: Aleph
Quantidade de páginas: 320
Série: Trilogia Sprawl #3

Confira o livro

Entre Algoritmos e Princípios

Eu respiro fundo o ar ao redor, busco coragem e alívio puro, só encontro gases e desespero. Sujeira impregna debaixo das unhas e suja meu novo esmalte, demorei vinte minutos da cidade até aqui, imagina se ele morasse mais longe… Larguei as luvas antes de sair da casa, é preciso mostrar isso a ele, isso e todo o resto. Será difícil, ele sempre foi difícil, assim como eu. Tusso, coço o nariz, ajeito o cachecol sobre o pescoço e ergo a mão à porta, bato dois toques. Sem resposta, claro. Preciso erguer a outra mão, a que carrega o pote com o bolo de cenoura, mostro para a câmera da casa e um clique aciona a porta automática.
Coloco o pé direito dentro de casa, a lâmpada do cômodo não acende. Janelas bloqueiam a entrada de luz, até as artificiais. Arrasto meus passos, evito outro tropeço, outra fratura de perna. Empurro objetos com a ponta do pé, pedaços e mais pedaços de metal; chacoalho as pernas e expulso os fios e cabos, enrolam nos tornozelos feito cobras. Nada de venenos, nem moscas vivem neste lugar, a casa libera fumaças dedetizadoras ao menor sinal de vida inumana neste lugar.
— Venha até mim. Estou no cômodo três.
Esta era acasa de papai e mamãe, com cozinha, quartos, sala e banheiro; agora são cômodos um, dois, três, quatro… Controle-se, Joana. A visita de hoje é diferente, nada disso importa mais. Eu desisti, desisti de brigar, de esmurrar a ponta de faca através das palavras contra meu irmão. O bolo, começo pelo bolo e então digo a ele. Qual é o cômodo três mesmo? Ai! Seguro o braço e sinto o sangue manchar o dedo. Uma daquelas pinças dele estava jogada na mesa da sala, mesa invisível nessa escuridão. Meu pé encontra a cadeira e a puxo, sento e aguardo a dor passar.
Como isso pôde acontecer? Éramos dispostos aos abraços, todos os dias. Sorríamos na presença de coelhos, brincávamos em árvores, acariciávamos um ao outro quando alguém saía ferido do futebol. E hoje estou aqui sozinha nesta ferida causada por ele. Não, eu fui desatenta. Devo parar de fingir inocência. Tenho minhas culpas, vim aqui por elas. Deixe doer, preciso falar com ele.
E assim enxergo luz. Enxergo-o com os braços sobre o balcão, na parede dos fundos onde ficava a pia, onde era a cozinha. De costas a mim, concentra a atenção nos circuitos do corpo, ao tutorial transmitido no implante da orelha esquerda, mantém a postura com o exoesqueleto de modelo Ita7, os tendões do braço substituídos por cordas metálicas ligadas ao músculo, acionadas por dezenas dos milésimos algoritmos codificados junto ao sistema neural dele; os tendões dos tornozelos são iguais, e seus pés descalços sequer tem pele, substituída por circuitos e implantes.
Deixo o bolo na mesa ao lado. Ainda é a mesa de cozinha, a favorita da mamãe. Apaga a luz, Miguel para de operar o próprio braço. Aciona a luz das lâmpadas, até a da sala — o cômodo um. A pinça onde bati o braço brilha com a ponta em vermelho. Espero que ele limpe meu sangue antes de usá-la.
— Obrigado pelo bolo, irmã.
Permanece ali, de costas, esperando eu sair. Nunca deu certo, e desta vez é diferente. Pouco importa a falta de vontade dele, eu preciso avisá-lo. Olha para mim, Miguel! Garganta fica entalada de medo, as palavras ficam presas ali, abro a boca e fico em silêncio. Ele vira e enfim mostra o rosto, ainda livre de implantes.
— Veio discutir de novo?
— Não, irmãozinho. — As palavras saem. — Chega de discussão.
— Já tentou isso antes. “Chega de discussão”, em seguida trocamos insultos. Impossível, Joana. Ficamos muitos diferentes.
Sim, ficamos. Embora eu note pelas partes da pele substituídas por implantes; e ele me vê sempre igual, por isso sou diferente. Pernas tremem, rendo meu corpo a cadeira da cozinha. Suspiro a fumaça da rua ainda presente.
— Prometo não ser a mesma coisa.
— E o que são promessas a você, irmã? Eu tenho meus códigos, eles me ajudam na execução de minhas tarefas, no seguimento de meus princípios. Você é naturalista, submissa aos defeitos da nossa espécie, teimosa em aceitar a evolução.
— Você está errado no conceito de evolução, no significado acadêmico em relação à espécie. E os princípios são diferentes dos algoritmos, Miguel. Por Deus, quem é o teimoso aqui?
E pronto, começamos a discussão. Falhou de novo, Joana. Como sou burra. Deixei Miguel me provocar de novo. Burra, burra, burra.
— Continua sendo hipócrita, irmã. Pouco adianta ter nojo por todo este metal no meu corpo, isso é o nosso futuro, o da humanidade. Quinze dos meus protótipos já foram adiante, sete estão em produção e três já estão me dando lucro. Paguei todas as dívidas da família e fiz as reformas necessárias da casa enquanto você fica nesta facção das plantinhas e atrapalha trabalhos como o meu.
— Chega! Deixe-me falar. Por favor, Miguel.
Ele balança os ombros, cruza os braços e me permite falar…
— Eu mudei.
… e me interrompe:
— Há circuito nenhum no seu corpo, ainda acredita nas ideias dos naturalistas.
Percebe a ausência de circuitos, menos a ausência de outra coisa. Tanto implante no corpo, e só nos mantém distantes.
— Ainda acredito. Deixe-me dizer até o fim desta vez. O que eu mudei, Miguel, foi um princípio, e o deixei como principal. Você entende isso, certo? De mudar a prioridade de um princípio como a mais importante. É possível programar seus algoritmos assim também?
— É sim, irmã. Então me conte esse princípio de alta prioridade.
A garganta fica entalada de novo. Por que é tão difícil? Eu me redimi, rendi os meus pecados na igreja e desejei forças neste momento. Preciso delas agora, Deus! Tremo os lábios, boca expele apenas silêncio, meu olhar fugiu de Miguel há tempos, olho o piso cinza de poeira. Difícil falar, mais difícil ainda fazê-lo entender com as palavras. O relógio da parede ainda funciona, e pela hora… Está quase na hora!
— Venha comigo, é melhor te mostrar.
Pelo menos o convenci, ou minhas lágrimas o fizeram me seguir. Com a luz da sala acesa, tiro os pés do chão ao andar, ciente de cada dispositivo largado no chão. Miguel nunca sequer tentou organizar o quarto, só piorou com a idade. Eu também piorei nos meus defeitos. O nó na garganta afrouxa e engulo o silêncio em seco. Porta abre ao chegar perto e encontro a cidade diante de nós no lado de fora. Pouco do céu é visto, coberto pelas fileiras de arranha-céus e tráfego de aeromóveis. A enorme tela do edifício central é tão visível quanto a instalada no shopping da rua seguinte a da casa de Miguel; cada uma mostra determinado assunto, todos considerados úteis à população. Uma tela avisa da possibilidade de chuva esta noite, outra enumera o total de impostos colhidos pelo governo, vejo o mapa colorido dos distritos principais e denuncia com tom vermelho onde aconteceu algum delito ao longo do dia. Tantas informações sobre nossas cabeças, que deixamos de olhar para baixo, às ruas esburacadas e animais feridos, quando há animais; se procurar algo de tom verde só encontrará nos neons dos aeromóveis, ninguém cultiva planta neste lugar.
Meu choro molha a garganta, solta as amarras e libera a voz.
— Consegue enxergar o sol, Miguel?
— Todo este choro por isso? Ver o sol? Enxergamos o mesmo mundo de forma diferente, irmã. Pare de forçar a sua ideologia comigo, pois eu aceito todas essas luzes, as luzes do progresso.
— Desculpa. — Só tenho esta resposta. De certa forma sou culpada. Desisti a tempo, apesar de ainda ter culpa com o que vai acontecer. E acontece agora.
Todas as telas dispostas nos prédios desligam. Os prédios desativam, aeromóveis estacionam no céu e tem os aceleradores inutilizados. A casa de Miguel apaga, como a de todas as casas desta cidade, de todas as cidades do estado, talvez do mundo, algum dia. Ruídos param de atravessar meus ouvidos e escuto o bater de vento nas minhas orelhas, tão comum de onde resolvi morar, resolvi lutar, e então abandonei depois de saber que iriam fazer isso, iriam eliminar o mundo visto por Miguel.
Ele perde o apoio do corpo. O peso dos metais o fazem cair no chão, de joelhos. Ouvidos captam sons sem o filtro do aparelho, mãos ficam imóveis com tendões desativados. Deus o ajude, nem as pernas encontram meios de mexer.
— Desculpa, Miguel. Os naturalistas foram longe demais.
— Como eles puderam? — disse cada palavra aos soluços.
— O planeta está morrendo graças a toda essa tecnologia, devido ao progresso desenfreado e inconsequente. — Espero ele me interromper por dizer algo contrário ao pensamento dele, e ele fica quieto. — Sempre acolhi as ideias da preservação ambiental, do aproveitamento de recursos recicláveis, a manter nossos corpos sempre naturais; mas nunca aceitei impor tais desejos à força, mesmo com você. Jamais aceitaria te deixar assim, nem a sua cidade.
A boca de Miguel resseca, sem palavras no momento. Agora ele vê, sem a ajuda dos implantes, ele vê meus braços sem a pulseira de roseira, o laço dos naturalistas.
— Acredito em você, irmã. Eu detesto a forma com que me trata, apesar de sempre querer o meu bem. — Ele tenta levantar, incapaz de impor força no corpo entregue aos aparatos tecnológicos, inúteis agora. — Não tem volta, tem? Mesmo se reativar esses implantes os seus colegas, ex-colegas, impedirão de funcionar de novo.
Confirmo com a cabeça. Confirmo e dobro os joelhos ao meu irmão, o abraço e deságuo os restos das lágrimas sobre ele, de corpo pesado e frio.
— Vou seguir o princípio principal, Miguel, o de proteger tudo o que resta de nossa família: você, irmãozinho. Cuidarei de você. Seja quais forem as condições, garantirei a melhor vida possível a nós.
Lágrimas também escorrem de Miguel, desliza pela minha bochecha colada na dele.
— Eu consigo, Joana. — Esfrega o queixo sobre meu ombro e levanta a cabeça. — Eu consigo enxergar o sol. Obrigado.

Count Zero (Volume 2 da Trilogia Sprawl)

A tecnologia evoluiu muito e ainda evoluirá, transformará o cotidiano de toda a sociedade enquanto poucos se preocupam com as consequências. Fazer previsões é refletir a situação atual e prevenir quanto aos problemas da sofisticação abrupta das ferramentas e sistemas de modo a preservar as nossas vidas. As camadas ignoradas da sociedade tomarão prejuízo, e elas tentarão sobreviver, nem que seja com ações nada amigáveis. Enquanto os favorecidos com os recursos de última linha abusam de toda a sociedade, os marginais sobrevivem alheios à autoridade e intrometidos com os donos dos melhores recursos.

Count Zero é o segundo volume da trilogia Sprawl, iniciada com o livro Neuromancer. Publicado em 1986 por William Gibson e relançado pela Aleph em 2017 com tradução de Carlos Angelo, o livro conta a história de três personagens com conflitos pessoais de certa forma relacionados à conspiração envolvida na mega cidade de Sprawl.

“Os extremamente ricos não eram mais nem de longe humanos”

O livro começa com Turner, um mercenário em descanso após a recuperação do último trabalho quando recebe a nova missão: garantir a fuga do Mitchell, envolvido na nova invenção tecnológica chamada de biochip. A Marly consegue um trabalho com Virek, o senhor bastante rico com a vitalidade perto do fim que a manda procurar pelo artista Wigan, com o princípio de aumentar o acervo das obras de arte; no fim nada é o que parece. E o Bobby Newmark pretende melhorar a vida saindo de seu lar nada agradável com o intuito de tornar cowboy — o equivalente a hacker nesta trilogia —, e para isso recorre ao grupo de pessoas com as próprias intenções, algumas delas sendo guiadas pelos loa da religião vodu, cujos espíritos existem no ciberespaço onde os cowboys acessam, chamado de matrix. Os três partem de lugares diferentes rumo ao mesmo destino, a grande cidade de Sprawl, cujo território abrange as áreas de Boston a Atlanta (incluindo Nova York e Washingtown) onde conclui a conspiração envolvendo o biochip.

“Não era ilegal ter dinheiro, só que ninguém nunca fazia nada de honesto com ele”

Neuromancer introduziu muitos conceitos do cyberpunk aproveitados em obras posteriores, a Matrix e Ghost In The Shell são grandes exemplos inspirados no trabalho de William Gibson. Já citei na resenha do primeiro volume sobre os termos particulares da história aparecem espontâneos no texto, exigindo mais capacidade de interpretação ou ler o glossário antes da história em si. Por ser o segundo volume, a menção desses termos não criam obstáculos nesta leitura por quem já superou os do primeiro. Ainda assim Gibson manteve muitos problemas de escrita neste segundo volume, e desanima constatar a falta de evolução no texto com uma obra posterior.

As cenas com muitos personagens ficam confusas por citar o autor da ação apenas como ele/ela, onde há mais de uma pessoa presente com o mesmo gênero, sem indicar outras definições do personagem. Outro problema é o texto começar a apresentar uma cena e já avançar a próxima, não no sentido de narrar os eventos rápidos demais, e sim incompletos; o leitor deve atentar nos poucos detalhes citados no livro para compreender o contexto do enredo e dos personagens, pois se perder alguns — algo fácil de acontecer — também ficará perdido em todo o livro.

“Nações tão incivilizadas que o conceito de nação ainda era levado a sério”

Ao apresentar o arco de três personagens distintos e inéditos da trilogia, o conflito da trama também demora a aparecer. Conta a aventura de cada, demonstra as particularidades da ambientação, estas interessantes por serem originais e inspiradoras de outras obras, e apenas após muitos capítulos a história interliga os conflitos do personagem com a trama central, pelo menos quando isso acontece muitos conceitos se encaixam e revelam respostas interessantes a mistérios deixados por pontas soltas nos três arcos — e pelos problemas já criticados quanto a escrita.

Vale destacar a representatividade com muitos pontos positivos. Algo já feito no Neuromancer, em Count Zero o autor expandiu a diversidade cultural com novas maneiras de mostrar culturas distintas, como entidades da religião africana sendo reais na matrix, os conceitos japoneses também presentes neste segundo volume e gangues punks; todos convivem com as ambições particulares de seu grupo e manifestam sua presença na história.

Count Zero é excelente como expansão do universo já criado em Neuromancer. Digo isso no sentido de ver mais do mundo cyberpunk, pois o resto proverá apenas obstáculos na compreensão da história, esta que desenrola da metade ao final do livro por persistir nos conflitos dos protagonistas em grande parte do enredo.

“Com as mesmas palavras, estamos falando outras coisas, e essas você não entende”

Count Zero - capaAutor: William Gibson
Publicação Original: 1986
Edição: 2017
Editora: Aleph
Tradutor: Carlos Angelo
Quantidade de Páginas: 312
Série: Trilogia Sprawl
Volume: 2

Confira o livro

Periferia Cyberpunk (Quadrinhos nacionais)

Cyberpunk critica a obsessão do aprimoramento tecnológico em contraste com a degradação da qualidade social. As histórias em geral são futuristas, só que longe de preverem o futuro. Trazem realidades a partir da constatação dos problemas atuais e os extrapola na simulação de anos futuros.

Vivemos num país diverso, com problemas discrepantes e inspiradores em explorar especulações distópicas em ambiente cyberpunk. Esta chance foi aproveitada por alguns escritores e desenhistas, e eles demonstram o quão rico podemos ser no universo de tecnologia avançada e qualidade de vida péssima.

Periferia Cyberpunk reúne pequenas histórias em quadrinhos, todas voltadas a este nicho da ficção científica no contexto brasileiro. Publicado em 2018 pela editora Draco.

Periferia Cyberpunk - capa

Sou eu quem não consegue ver a beleza da vida?

Cada história tem o espaço democrático de vinte páginas para criticar a democracia, desigualdade social, jeitinho brasileiro e tudo o mais. Sem compartilhar do mesmo universo, os autores das HQs criam realidades independentes e aproveitam da vasta região e versatilidade do Brasil.

Nem sempre há maniqueísmo, como demonstra o título da primeira história, Só os Vilão tentam sobreviver nas ruas sujas marcadas pela tecnologia e as pichações persistentes. Conflitos entre opressores e oprimidos são marcados com personagens cinzas, possíveis de reconhecer estereótipos de alguém que convive conosco ou esbraveja repúdios nas redes sociais. Há ainda os culpados passivos em jornadas de redenção após serem forçados a causarem males à sociedade.

A vida é um tédio repetitivo

Periferia Cyberpunk oferece tapas na cara e representatividade nas diferentes realidades sociais, étnicas e éticas. Tem seu viés político bem ressaltado, mas os argumentos ilustrados são além de mimimi.

O único privilégio deste livro consiste em reconhecer a nossa identidade urbana sob as camadas tecnológicas do cyberpunk. Enxergue a sujeira responsável pelas desigualdades, a corrupção coagulada no sangue de corpos desmembrados e rostos deformados. Essas ilustrações têm apelo visual útil em lembrar a ficarmos chocados com o que vemos nas notícias pelas mídias, hoje tão comuns por assistirmos a história se repetir.

Neuromancer (Referência do Gênero Cyberpunk)

Vivemos com fácil acesso à tecnologia e obtemos informações espontâneas. Tudo é tão fácil de se conectar a ponto de idosos também conseguirem usufruir dos benefícios da tecnologia da informação, embora com breve dificuldade ou resistência no começo. 

Ainda precisamos tomar cuidado com as aplicações tecnológicas, não cedermos ao controle daquilo que seriam nossas ferramentas e lutar pelo direito cada vez mais inclusivo da tecnologia para beneficiar além de grupos distintos. A realidade será nada confortável à população em geral se ignorarmos essas precauções. Falo isso em relação à 2018, mas em 1984 já existia este cenário na ficção. 

Neuromancer é um dos primeiros livros a se destacar no cyberpunk, sub-gênero literário da ficção científica. Publicado em 1984, conta a história da sociedade transformada conforme os impactos da tecnologia especulada pelo autor, a qual algumas existem na realidade e são até mais acessíveis em relação ao livro. 

Neuromancer - capa

William Gibson foi um dos autores mais conhecidos dentre os precursores do subgênero cyberpunk. Destacou-se por levar a ficção científica com elementos de ação às camadas mais tradicionais da literatura graças ao próprio Neuromancer, livro vencedor de prêmios literários de ficção científica, como Nebula, Hugo e Philip K. Dick. 

O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar  

Case é um cowboy, alguém capaz de invadir e danificar sistemas tal como os hackers maliciosos fazem no mundo real. A rede virtual desta realidade se chama matrix, cuja interface possui o próprio espaço de interação física da pessoa que se conecta através do sistema neural pelo dispositivo chamado deck, semelhante ao computador. 

Depois de aplicar um golpe nos seus chefes, Case é contaminado com a micotoxina capaz de impedir a conexão com a matrix. Recorre a clínicas clandestinas em busca da cura, e os tratamentos alternativos apenas pioram sua saúde. 

Consegue se conectar de novo depois de aceitar uma missão de Armitage, sujeito desconhecido a quem Case tenta conhecer enquanto faz trabalhos junto com a nova colega Molly, a mercenária de costumes orientais e com olhos modificados pela biotecnologia. 

O que me incomoda é que nada me incomoda  

Neuromancer elabora o mundo onde os países ocidentais absorvem a cultura oriental, além de outras modificações geradas pelos anos e principalmente pela tecnologia avançada. Dispositivos facilitam a comunicação e interação com outras pessoas ao mesmo tempo em que a sociedade se divide entre os membros das corporações e pessoas marginais, diferença clara ao definir pessoas com emprego assalariado como alguém distinto chamado sarariman. 

Outros termos surgem no livro, desde palavras japonesas, conceitos de informática ou os criados na história. Essas expressões distintas aparecem logo no começo do livro, por isso reforço o conselho da edição publicada pela Editora Aleph de conferir o glossário antes de começar a leitura. 

A história já acontece sem apresentar o universo criado ao leitor, como a fase conhecida da jornada do herói em que o protagonista seria de um lugar semelhante ao nosso e parte ao mundo extraordinário, vislumbrando as novidades pelos olhos do personagem. Longe de ser etapa obrigatória, ainda mais quando inexiste o lugar comum na história, porém o autor ignora a apresentação conceitual e exige mais do leitor para assimilar a realidade do livro. 

Nunca gostei de fazer uma coisa simples quando podia complicar pra caralho  

Toda a narrativa foca na perspectiva de Case, mesmo quando conta a história no ponto de vista da Molly, só que ainda a partir do cowboy, pois ele consegue se conectar a ela e ver, ouvir e sentir enquanto estiver interligado. Usa a tecnologia da história como recurso interessante da própria narrativa. 

Pena algumas escolhas acertadas na escrita disputar deslizes nas descrições. Além das palavras específicas à trama, conta-se pouco da grande variedade de tecnologia e conceitos existentes, com trechos breves exigirem releituras até compreender a situação. Descrições simplistas como contar o que o personagem sabe ou sente, bem como o abuso do verbo ser demonstram pouco aproveitamento da linguagem. E nas cenas com vários personagens, a descrição confunde sobre quem faz a ação, limitando-se muitas vezes a citar alguém na terceira pessoa (ele/ela) em vez de citar características particulares ao autor da ação. 

Com esse mundo fantástico feito há mais de trinta anos onde reconhecemos a atualidade com a tecnologia de comunicação, informação e inteligência artificial, apesar das distinções da visão particular do autor e de alguém vivendo na década de 1980, Neuromancer é o primeiro romance do autor com novidades ousadas que estabeleceram vários conceitos cyberpunk. Só lamento por trazer esta experiência desconfortável na leitura e do exagero de informações distribuídas no livro de tamanho razoável. 

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