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O Seminarista (Regionalismo e Religião)

Quando a obrigação é imposta acima do bem-estar e de todos os aspectos da vida, a infelicidade vem à tona. Somos educados a superar nossos desejos contraditórios ao bem maior, subestimando-os a ínfimos por compará-los aos grandes frutos do futuro, esses inalcançáveis por abrirmos mão do presente. O Seminarista é sobre o sacrifício do amor ao celibato sagrado de um jovem destinado a virar padre sob o desejo alheio. Publicado pela primeira vez em 1872 por Bernardo Guimarães, um achado na estante publicado em 1995 pela Editora Ática preserva essa narrativa avaliada nesta resenha.

“Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos”

Eugênio Antunes ainda é garoto quando os pais enxergaram a vocação do menino em tornar padre. Acompanhava os ensinamentos católicos em casa, portanto seria fácil encaminhar o filho ao seminário de Congonhas do Campo por alguns anos e cumprimentá-lo de volta imbuído nas vestes de sacerdote. Fora o bom comportamento dentro de casa, Eugênio alternava a vida compartilhando brincadeiras com Margarida, filha de Umbelina, agregada da família Antunes. Viviam feito irmãos, e quando Eugênio começa os preparativos a sair de casa e estudar para ser padre, a saudade acomete nas duas crianças, ainda mais com a ação do tempo revelar sentimentos do casal nada admissíveis ao celibato católico.

“― Esquece-me se puderes, não peças auxílios ao céu para caíres ao inferno!”

De narrador onisciente, o mesmo de certo modo também participa da história, pois é ciente da própria existência enquanto conta a história, remetendo ao leitor e o lembrando da narrativa em capítulos passados ao prosseguir no vigente. Participa da história inclusive ao opinar na condição de Eugênio quando este começa o seminário, anuncia a tragédia antes de contar os dilemas enfrentados pelo protagonista, e assim interfere no enredo ao antecipar a dramatização pretendida. Nada adequado caso fosse uma narrativa moderna, passível de crítica mesmo quando o narrador tece argumento panfletário corresponda ao do leitor. Por outro lado, ao anunciar sua existência de forma indireta e tematizar a problematização pretendida, o narrador segue na função normal de contar a história até o fim.

O romance dedica maior parte dos parágrafos na consciência do protagonista. Revela as emoções do garoto ordenado a padre e narra o fluxo de pensamentos provocados aos problemas impostos a ele, prisioneiro dos desejos alheios, manipulados através dos caminhos cristãos, conforme exaltado pelo narrador. Exigirá mais do leitor acostumado a acompanhar cenas visuais, no sentido de contar o personagem interagir com a ambientação e demais personagens, pois isso ocorre pouco nesta prosa. Por outro lado ainda é um ponto positivo, graças a capacidade do autor em conduzir os pensamentos do protagonista de várias maneiras criativas: discussões internas, mudanças de ritmo, abordagens metafóricas e outras.

Em passagens visuais, o autor demonstra aspectos regionalistas ao interior mineiro. Transcreve as falas na forma coloquial condizente aos personagens, as características da vila onde mora Eugênio fazem parte dos conflitos, até o folclore é lembrado através de Margarida e o temor sobrenatural de amar padre.

O Seminarista teve a importância na época, publicado na década anterior à Proclamação da República o qual diminuiu a interferência da religião no governo. O narrador interfere na história opinando das práticas católicas a atormentar o protagonista, cuja consciência íntima é revelada ao longo dos parágrafos.

“― […] puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo”

O Seminarista - capaAutor: Bernardo Guimarães
Publicado pela primeira vez em: 1872
Edição: 1995
Editora: Ática
Gênero: ficção
Quantidade de Páginas: 104

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Terminei o NaNoWriMo, e Agora? (A jornada da revisão)

Começo saudando aos escritores valentes, dispostos a encarar o NaNoWriMo, desafio de escrever um romance no mês de novembro. Parabéns! Independente de terem concluído o romance ou não, já foi ótimo participar. O desafio permite repensar a rotina de escrita e avaliar o quanto esta atividade é importante ao escritor. De meta ousada, cobra além da realidade disposta à maioria, nem sempre por desleixo, comodidade ou falta de vontade; todo indivíduo tem responsabilidades que precisam priorizar ao garantir a renda particular ou até da família, algo garantido pela carreira literária apenas a mínima parcela de escritores consagrados.

Eu terminei a nova tentativa de romance. Com total de 40 mil palavras, cheguei próximo à meta de 50 mil do NaNo, e mesmo assim encerrei a jornada antes do mês acabar. Eu planejei o romance nos meses anteriores e já o considerava a história curta desde o começo, inclusive previ esta quantidade de palavras. Minha justificativa foi pelo elemento sobrenatural demorar a aparecer na história, e se esta fosse maior ainda, poderia desanimar os leitores a encarar longas páginas até ver o elemento central do gênero. Afinal não sou nenhum Stephen King nem qualquer outro autor que tenha feito algo do tipo depois de comprovar qualidade na escrita mesmo prolixa. Quando for retomar este romance, avaliarei a necessidade de incluir novas cenas após a aparição sobrenatural.

E falando em retomar, o objetivo deste texto é este mesmo: o que fazer depois de terminar o romance iniciado no NaNoWriMo? Listo as etapas as quais pretendo cumprir, talvez alguma seja interessante a você, colega participante do NaNo ou colega escritor, sobre como lidar com o livro depois de concluído o rascunho do manuscrito. Longe de te impor a imitar os meus passos, a intenção é incentivar a ter ideias, maneiras de lapidar a partir do que ver aqui. Também esteja a vontade a compartilhar na seção de comentários caso pretenda fazer algo diferente.

Qual trilho seguir? - NaNoWrimo

Há mais de um caminho depois do NaNo

Após NaNoWriMo: Edição, Leitura, Revisão, Revisão e Revisão

Sim, o processo seguirá próximo desta ordem. Digo próximo pois a primeira revisão e leitura podem acontecer no mesmo período, enquanto as demais etapas acontecem entre intervalos de tempo. Trabalhar no romance de forma constante poderia desgastar o autor e até viciá-lo no texto, deixando passar erros crassos na hora de submeter a futuros avaliadores, por vezes sobrar até mesmo aos leitores, dependendo do preparo antes da publicação.

Apesar disso, já estou realizando a primeira etapa, a edição. Na verdade são edições específicas, pois determinadas partes do texto foram escritas sem ater aos detalhes de cenário. Demarco os pedaços a averiguar com citações entre colchetes — [desta forma]. Já vi autores destacando de outras formas, como colocando uma palavra particular quando precisa editar e colocar mais detalhes depois, seja “melancia” ou “elefante” no meio do texto, por exemplo. Prefiro do meu jeito, não por eu ter receio de colocar de fato um elefante no meio da ambientação agreste do meu romance e acabar confundindo na hora de editar, o faço por ter a liberdade de esclarecer ao eu do futuro o que preciso arrumar em determinada parte do texto. Na verdade eu coloquei colchetes inclusive neste texto, esses vistos e editados antes de agendar a publicação da versão final no blog.

Elefante ou colchete - NaNoWriMo

Elefante ou colchete: escolha sua caçada

Foi inevitável plantar colchetes no romance. Por mais pesquisas prévias feitas, sempre tem algo na hora da escrita mais específico, exige mais estudo. Ainda mais neste caso por eu escrever este romance de contexto histórico, diferente no quesito tecnologia, costume, vestimenta, político e outros capazes de interferir no romance. Considero desnecessário guardar o texto na gaveta neste momento por eu cuidar apenas de pedaços pontuais da história, na verdade aparando as pontas deixadas na escrita contínua para de fato terminá-la, depois deixo intocado por pelo menos um mês antes de realizar a revisão.

Pausa, preparo, ação!

O manuscrito descansa na gaveta, já eu prossigo na labuta sobre a escrivaninha. Jamais pararei de escrever, continuarei elaborando resenhas, escreverei novos textos ao blog conforme necessidade, e tentarei elaborar contos capazes de participar em alguma seleção de antologia no próximo ano. O mais importante é continuar escrevendo, manter a atividade e evitar a hibernação, senão sofreria ao começar outro projeto de escrita ― já aconteceu comigo, quem nunca?

Também vou aproveitar este intervalo para começar as leituras de livros capazes de me ajudar a avaliar certos pontos executados no romance. Já comentei haver elementos sobrenaturais e do romance contar a história no ambiente agreste. Também disse de ter contexto histórico, sendo mais específico, referente a primeira metade do século XX. Então por ser obra de ambientação brasileira e com aspectos de fantasia, tenho em mente os seguintes livros de referência futura: A Fúria dos Reis, livros de Graciliano Ramos no geral, e Madame Bovary.

Ler e Aprender - NaNoWrimo

Ler e Aprender

É fácil reconhecer o motivo de ler Graciliano Ramos, por conta da abordagem regionalista de seus trabalhos; também o lerei por ele ser escritor alagoano, mesmo estado por onde acontece a maior parte de minha história. Já li S. Bernardo antes do NaNo e aprendi aspectos da ambientação já incluídos nesta jornada da primeira versão do manuscrito, inclusive usei termos locais aprendidos na leitura, e pretendo aprender mais elementos alagoanos direto da pessoa que viveu em período próximo ao do romance e do lugar correspondente.

E o que essa fantasia medieval e o clássico da literatura francesa poderiam ajudar na revisão do meu livro? Na verdade é por eu usar certos recursos narrativos e pretendo revisá-los a partir de obras reconhecidas por esses. A Fúria dos Reis será útil para eu ver como George R. R. Martin focou na perspectiva de cada personagem. Executei a narrativa em terceira pessoa focada apenas no personagem principal, e por George Martin alternar todo o calhamaço em diversas perspectivas, terei vários exemplos de abordagem por meio de um mesmo livro. Já li este segundo volume das Crônicas de Gelo e Fogo e até o elegi entre minhas melhores leituras de 2018, mas como retomei a leitura da saga desde o começo, aproveito e atendo duas metas na mesma leitura.
P.S: Não garanto eleger A Fúria dos Reis entre as melhores leituras de novo, pode ter outros livros espetaculares na concorrência.

Agora sobre Madame Bovary, foi por ter ousado ― confesso eu ser meio teimosos quanto a isso ― usar o discurso indireto livre enquanto escrevia. Já tentei fazer isso no meio do NaNoWriMo passado, gostei da ideia apesar de reconhecer a necessidade de aperfeiçoar. Por isso preciso recorrer a ótimos exemplos desta abordagem. E qual seria melhor senão o provável pioneiro do discurso indireto livre? Claro, posso pegar outros bons exemplos a usar deste recurso, caso conheça algum, indique nos comentários!

Revisar, revisar, revisar…

Ainda estarei lendo esses livros de referência ― e outros pela demanda por escrever resenhas para dois blogs ― quando começar a realizar a primeira revisão, quando farei leitura atenta do meu texto. Pretendo caçar os erros mais absurdos de ortografia, apesar do foco estar em avaliar o ritmo da história, segmento e prováveis furos de enredo, bem como analisar onde posso acrescentar novas cenas e onde devo tirar. Muitas ideias “extraordinárias” na hora da concepção do manuscrito podem ser desnecessárias na verdade. Mesmo adorando determinado elemento, preciso atentar à importância no todo, e descartá-lo caso falhe; em suma, devo matar meus queridinhos.

A segunda revisão é a mais trabalhosa, pelo menos o retorno vale a pena por transformar o texto de rascunho em obra literária ― ou pelo menos tentar. Tenho uma lista de palavras as quais caçarei capítulo por capítulo e diminuir a reincidência delas ao máximo possível. A intenção vai além de prevenir a repetição de palavras na versão final, pois também podem comprometer o ritmo da leitura ou entregar experiências rasas ao leitor.

Parte da lista corresponde aos verbos de pensamento, item já criticado neste blog. Pela narrativa focar na perspectiva do protagonista, é melhor deixá-lo ativo, participar da história em vez de ele ser o espectador daquele mundo. Por isso ele sempre deve agir, demonstrar sentimentos em vez de citá-los ao leitor. Aqui também entra o uso do discurso indireto livre, pois há perspectivas do protagonista interessantes de expor, e nem por isso devo ficar dizendo ao leitor que Nicolas pensou isso, imaginou aquilo; posso tornar essas passagens mais agradáveis, misturá-las ao texto em vez de alternar entre parágrafos de ação e de reflexão.

Expor ideia - NaNoWriMo

O romance não é um arquivo de slides que informam as ideias dos personagens

Ainda a evitar de tornar Nicolas o espectador da própria história, outra parte da lista refere a verbos correspondentes aos sentidos humanos. Nicolas não vai apenas olhar, ouvir, sentir e cheirar o mundo ao redor, precisa interagir com o ambiente. Caçarei essas palavras para garantir a maior interação possível e garantir um mundo vivo. Passamos da época quando os textos literários deviam desenvolver parágrafos rebuscados de descrição estática, quer dizer, o escritor contemporâneo pode fazer isso também, só lembre de considerar o risco de atrair menos leitores com esta abordagem.

Já a terceira revisão seguirá no ritmo da primeira. Depois de editar tantas vezes o livro, é melhor prevenir de possíveis desleixos de escrita que passaram despercebidos durante as alterações. Ainda pode haver pontas soltas, algumas criadas com essas edições ou ainda despercebidas desde o começo, então irei à caça delas!

Com tanta revisão assim, preciso ter cuidado. Posso comprometer a história caso eu mude muitas cenas, muitas vezes. Pode ser sinal de falha no planejamento de enredo, ou exagero de minha parte devido a insegurança em trabalhar no romance. Por isso defini essas três revisões e o respectivo objetivo delas, assim tenho ideia de onde pretendo mexer e fico ciente de quando parar. Também pretendo submeter o texto a uma análise profissional, com alguém capaz de ler meu romance sem os meus vícios e conseguir apontar onde de fato continua ruim. Ao passar desta etapa, é possível correr atrás da publicação do livro nascido no NaNoWriMo.

Epílogo

A jornada do NaNo é ínfima ao que ainda está por vir. Acredito da maioria dos autores amarem o romance escrito por eles, e esse amor deve refletir ao cuidado semelhante ao próprio filho, dá muito trabalho criá-lo, de vê-lo engatinhar até viver independente, longe do papai para as livrarias físicas ou onlines. Aproveitando minha citação a Madame Bovary, o autor Gustave Flaubert demorou seis anos até concluir este romance, cujo tempo foi previsto por ele; e essas etapas citadas podem nem durar um ano inteiro, então todo esforço ainda resulta da prática humilde comparada a um dos trabalhos canonizados pela literatura clássica. Se ainda assim acha ser demais ter tanto trabalho a frente ― ou do quanto empenhará no seu romance através de outros meios ― lembre: o mais importante já fez através do NaNoWriMo: começou a escrever sua história.

Como Estudar a Escrita Criativa

Quando comecei o XP Literário, tinha apenas publicações no Wattpad cujo resultado já comentei em outro artigo, fora isso tentei um concurso e ganhei somente experiência — longe de ver fracasso, já valeu por participar e ter esta iniciativa —, além de submeter um romance a análise crítica a qual descreveu os pontos necessários onde eu precisava melhorar. Em suma tive respostas negativas enquanto persistia e continuava a estudar escrita criativa.

Já neste ano a resiliência passou a valer a pena. Consegui minha primeira publicação comercial na segunda edição da Revista A Taverna e logo terei outro conto publicado também na antologia Creepypastas 2, esta em versão física pela editora Lendari! Submeti outro conto a mais um concurso e ainda aguardo o resultado.

Essas conquistas recentes não foram exclusivas de sorte, e sim fruto da minha dedicação em melhorar a escrita e construção de histórias. Nenhum romance escrito por mim foi publicado, e tenho o otimismo de colocar um “ainda” no final dessa frase. Aprendi e continuo aprendendo de diversas formas, aplicando esse conhecimento em cada tentativa de escrita. E agora compartilho quais são essas maneiras de saber mais sobre a escrita.

Pelas críticas

Como já disse, submeti meu primeiro romance a análise crítica e tive vários apontamentos e sugestões de melhorias. O foco desta análise é de fato identificar as falhas no texto apresentado, feito com a intenção de aprimorar a escrita. Este tipo de serviço serve apenas a autores com condições de abrir mão do ego, e sendo bem honesto, quem tem ego sofrerá muito pela dificuldade de lidar com as críticas. Quando o livro for publicado, estará disponível a todo tipo de leitor, com direito a dar todo tipo de crítica, é preciso respeitar todas elas — e também ignorar as feitas sob nenhum argumento senão o de menosprezar o trabalho alheio.

Voltando ao meu caso, eu tive dificuldade ao aproveitar melhor essa crítica. Aceitei e agradeci por todos os apontamentos, tirei algumas dúvidas com a avaliadora e ela respondeu de boa vontade. O problema foi a minha falta de preparo conceitual ao recebê-la. Pensei ter entendido na hora, mas se fosse hoje eu passaria vergonha de receber um feedback feito aquele. Cometi muitos erros de quem sabia pouco da escrita criativa, e só tive a verdadeira noção desses deslizes depois de estudar mais. Agradeço muito pela paciência e carinho da avaliadora ao analisar meu texto, e apesar de ser pouco eficiente devido a minha limitação, fez parte dessa trajetória de erro e aprendizado.

Aconselho a procurar este tipo de serviço caso tenha condições de pagá-lo, por outro lado também sugiro saber muito bem os conceitos da estruturação do romance e da escrita criativa, assim poderá aproveitar melhor os apontamentos. Também é ótimo exercício de lidar com as críticas, pois a análise fica restrita ao autor e avaliador, podendo se preparar quando receber algo negativo em público. Não importa o quão bom seja o autor, alguém com certeza achará algum ponto ruim e terá razão nele, pois nenhum escritor é perfeito. Caso falte dinheiro e queira estudar escrita criativa sem gastar dinheiro, aproveite o próximo tópico!

Sites gratuitos

Alguns autores exercem certos tipos de trabalho com intenção de conquistar reconhecimento ao público a ponto de convencê-lo a adquirir seu livro ou serviços, dentre esses trabalhos existe o de disponibilizar conteúdo gratuito em sites! Seja uma amostra da matéria presente no curso dele, discussão de ideias defendidas entre autores diferentes ou listas sobre lições compartilhadas pelo autor ou de quem ele admira; há muitas formas de compartilhar informação. Podemos estudar escrita criativa nessas breves postagens com o custo apenas de nosso acesso a internet, também teremos noção do que cada responsável pelo conteúdo pode nos ensinar quando tivermos condições de pagar pelo curso ou livro vendido por ele.

O problema deste recurso é o conteúdo estar muito fragmentado em diversas postagens. Os criadores de conteúdo o fazem desta forma para manter o site deles atrativo nas redes sociais e no ranking dos buscadores de sites — tipo o Google —, inclusive eu mantenho este blog com novas postagens em cada semana pelo mesmo motivo. Mesmo ao tentar reunir esses fragmentos com intuito de “montar” o conteúdo completo, perceberá furos entre os artigos, pois cada um é escrito voltado ao tópico ou sub-tema específico, nenhum deles têm obrigação de interligar tudo, fazer assim gera muito trabalho e planejamento, algo que os produtores desempenham na criação do curso ou livro a vender através dos artigos gratuitos e das outras estratégias de marketing. Evite culpar o produtor do conteúdo por isso, pois eles apenas seguem as condições do mercado atual, e ainda assim pode aproveitar esses textos concisos, então os consuma!

Eu também tenho alguns artigos do tipo, no qual este mesmo faz parte! É só acessar a categoria XP de Escrita — tenho nenhum curso ou livro de escrita à venda no momento, então pode me seguir apenas pelo conteúdo gratuito 🙂

Livros técnicos

Aqui teremos a abordagem completa do que o autor pretende ensinar, mesmo quando dividida em temas pelos capítulos. Possuem o preço mínimo de livro comum ou muitas vezes até mais caro por valorizarem o conteúdo disposto nele, e ao ter condições de pagá-lo e conferir por si mesmo, é bem provável valer a pena.

Esses livros podem ser baseados em pesquisa, sobre discussão técnica ou ainda do autor compartilhando da própria experiência. Apresentam os pontos defendidos por eles e alguns até discutem os possíveis argumentos contrários. Ao ler diferentes livros do tipo, é fácil perceber as divergências de ideias entre os autores, cabendo ao leitor refletir e seguir qual ideia lhe convence mais, ou ainda formular sua própria concepção a partir da leitura e aplicar na prática.

O ponto negativo? Sempre tem… Você consumirá o conteúdo compartilhado pelo autor sem interagir com ele. Terá nenhum acompanhamento enquanto lê o conteúdo por si, caso arranje um colega ou grupo e discuta as lições interpretadas no livro, ainda faltará a figura do profissional capaz de conduzir esse aprendizado da melhor maneira possível, isto sendo exclusivo apenas a certas opções do tópico a seguir.

Cursos onlines de escrita

Aqui o investimento é pesado, mesmo os mais baratos superam o preço dos livros técnicos. Alguns cursos disponibilizam apenas o conteúdo em vídeo, recortado em várias aulas com intenção de abordar os detalhes necessários conforme a proposta do instrutor. Muitos outros vão além dos vídeos, oferecendo material escrito complementar, pequenos testes — questões — sobre o conteúdo, acompanhamento do próprio instrutor caso tenha dúvidas, por vezes tem até um retorno sincero do professor quanto ao material escrito enquanto aprende no curso! Este último não chega a ser análise crítica completa, pelo menos dentre os vistos por mim, apenas garantem a análise de um fragmento da escrita, seja capítulo ou determinada quantidade de palavras.

A vantagem está na diversidade em atender o aluno e pelo próprio acompanhamento do instrutor. Lembra da análise crítica que eu submeti? Apesar de avaliar apenas parte do romance, o instrutor apontará a falha através do conteúdo apresentado em aula, então já terá a base a refletir nessa crítica profissional. Também possuirá o conhecimento necessário ao encomendar esta crítica completa depois de realizar o curso.

É preciso avaliar bem em qual curso investir. Considerando o valor bem acima das demais opções de aprendizado, ninguém deseja correr o risco de desperdiçar dinheiro. Busque conhecer bem o instrutor a ponto de identificar se os pontos fortes vão te atender. Pouco importa quando o professor for a melhor referência em romance de época caso pretenda escrever ficção científica futurista. Às vezes a forma abordada também não é a mais confortável a você, criando empecilho ao ponto principal: o aprendizado.

Qual das opções é a melhor para estudar escrita criativa?

A resposta é muito simples: confira todas! Aproveite tudo o que tiver condições de pagar e esforce rumo a obter o melhor do conteúdo disponível. Enquanto estudar, jamais deixe de manter a rotina de escrita. A melhor maneira de fixar o aprendizado é pela prática, além de o estudo já servir para aplicar o conhecimento em seu trabalho, conforme deveria acontecer em qualquer outra profissão. Aprenda em cada oportunidade ao alcance, espero que lhe ajude.

A Utilidade das Críticas Negativas

O objetivo das resenhas é de me motivar a compreender mais sobre os livros lidos. Entender porque eu gosto de determinadas passagens, as razões de eu achar determinada leitura maçante, aprender lições com os acertos e erros dos demais escritores e assim usar o conhecimento adquirido na minha escrita.

Ao longo das resenhas eu também fiquei mais exigente, relatando problemas encontrados até nos livros que gostei — a ponto de eu dar três estrelas na avaliação do Skoob e Amazon —, apesar de ter o cuidado de evitar esta crítica comprometer quando as qualidades do livro compensam o deslize. Então por que eu insisto em apontar essas pequenas falhas? Ou também: qual o sentido de dedicar tempo com leitura desagradável e ainda fazer questão de escrever as críticas negativas a ela? Respondo essas duas perguntas neste post, porém já adianto o motivo: incentivar a melhora da escrita.

Apenas elogios só atrapalham

Conheço canais de resenhas literárias dedicados a esbanjar elogios nos livros lidos. De qualidades diferentes, todos recebem a nota máxima e são idolatrados pela capacidade extraordinária do ficcionista. Respeito o espaço deles, possuem o direito de elogiar quem eles quiserem, e até ajuda a atrair leitores preconceituosos com livros brasileiros a conferirem esses trabalhos tão bem avaliados, por certo tempo. O problema desta abordagem acontece quando o leitor percebe que determinado canal só sabe falar bem e se decepciona com algum dos livros indicados, a reputação daquele trabalho entra em cheque junto com o de todo livro resenhado por ele depois da desilusão, prejudicando mesmo os bons autores.

Só tenho duas ressalvas: já encontrei resenhas positivas sobre livros que detestei, e nesses casos só houveram divergências entre a minha impressão e a do outro resenhista, algo comum de acontecer na análise de trabalho artístico; também há canais que deixam de postar quando a leitura for ruim, pois preferem apontar as falhas ao escritor em privado e poupá-lo de denegrir sua imagem evitando de publicar a crítica. Também discordo deste último caso, sou defensor de manter a transparência em muitos sentidos, entre eles o de demonstrar a verdadeira qualidade dos livros escritos pelos brasileiros. Ter a ciência de estar sujeito a apontamentos públicos quanto a qualidade da escrita exerce aquela “pressão saudável”, aumenta a disposição de melhorar o texto com intenção de garantir a melhor impressão dos leitores.

Ao discordar das atitudes desses colegas resenhistas, estou longe de afirmar ser contra eles. A opinião divergente faz eu agir de modo distinto, e como ainda vivemos num ambiente democrático, é possível coexistir essas diferenças de trabalho, atraindo perfis de público correspondentes à proposta do canal.

Críticas negativas feitas só por criticar também atrapalham

No outro extremo temos gente disposta a apenas falar mal. Não trabalham com resenhas, apenas são espontâneos quando detestam determinado livro e ignoram qualquer qualidade ainda disponível, insistem tanto a ponto de acusar quem gosta ter péssimo gosto. E a pessoa consegue se favorecer com este tipo de atitude? Infelizmente sim! Tal comportamento atrai a atenção de várias pessoas, podendo gerar discussão desnecessária, o que ainda assim corresponde ao bom engajamento nas redes sociais, por isso promove quem fala mal. Quando ganha atenção, esta pessoa transborda postagens e memes apenas com intuito de tirar sarro, gerar mais engajamento; é uma estratégia desonesta e fácil de executar, basta focar na quantidade e ignorar a qualidade da critica elaborada, depois é só promover o seu próprio material, pois conseguiu formar público.

Mesmo quando detesto alguma leitura, faço questão de procurar pelas qualidades do livro e mostrar os pontos fortes e fracos. Quando o livro é de brasileiro independente ou editora pequena, tem maior probabilidade do próprio autor conferir minha resenha, por isso aponto as falhas sem comprometê-lo, ou seja, as críticas negativas estão lá, só que dispostas como conselhos a melhorar, bem ao contrário de desprezar determinado trabalho só por eu encontrar falhas.

Avaliar os pontos fracos faz parte do resenhista. Reforço o dito no começo deste artigo, faço resenhas para aprender mais da escrita a partir do esforço alheio, e aprendo muito quando identifico erro nos grandes escritores, conforme até James Wood disse. A perfeição é um estado inalcançável, então todo livro está sujeito a ter pontos a melhorar. Caso o resenhista não encontre tais pontos, é porque este falha na análise, por outro lado o autor foi bom o bastante em superar a visão crítica do leitor, e levando em consideração ser mais fácil criticar do que escrever livros, esse autor possui um mérito e tanto. Confesso já cometer essa falha, nem é tão difícil encontrar resenhas minhas onde só existem elogios, basta ver os livros eleitos na lista dos melhores XPs Literários — minha meta é isso acontecer cada vez menos.

Quando a resenha é honesta, o leitor compreende as críticas negativas apontadas e as pondera com as qualidades citadas nesta e nas outras análises. Quando conhece o crítico, os livros elogiados por ele terão maior credibilidade ao leitor, pois foi mérito do autor dedicar tanto a ponto de superar os demais trabalhos analisados por aquele canal. Defendo esta abordagem sendo a mais justa aos leitores e escritores, além do cuidado de respeitar o esforço mesmo daqueles carentes de aprimorar a escrita, com intenção que de fato melhore!

Alerta de Gatilho Relacionado ao Suicídio

Ainda há poucos exemplos de produtoras e editoras atentas a efeitos negativos de certa cenas, capazes de comprometer pessoas sensíveis a reviver o passado traumático ou incentivar a cometer automutilação. Cenas de estupro, violência e consumo de drogas podem significar pouco à maioria dos espectadores, por outro lado transtorna a minoria quando poderia evitar apenas avisando sobre determinado conteúdo, publicando notas de alerta de gatilho.

Avisar sobre o gatilho passa longe de ser a carta branca que impedirá as pessoas sensíveis a assistir determinada cena. É muito difícil julgar a intensidade do conteúdo nas pessoas sensíveis, além de fatores subjetivos e do momento mental de quando a pessoa é exposta à cena. Mesmo assim é aconselhável manter o aviso a precaver de tais transtornos, pois o próprio público já procura saber de possíveis gatilhos antes de consumir determinada história. Também há abordagens de tema sensível sem provocar conflito a quem experiencia, até mesmo faz o efeito contrário, o de motivar o debate da situação ou traz pontos de vista esperançosos diante da problematização.

Como o blog traz questões sobre a prevenção do suicídio e publica análises de livros e às vezes de games, este artigo apresenta obras que retratam o suicídio em algum momento e aponta quais deveriam ter alerta de gatilho, além de bons exemplos de abordar esse tema sem expor os leitores/espectadores comprometidos.

Sekiro: Shadow Dies Twice, da From Software

Lançado no primeiro semestre de 2019, Sekiro foi a nova proposta da empresa reconhecida por fazer jogos desafiantes — Dark Souls —, desta vez ambientando os combates no japão feudal. A cena em questão trata de um dos finais alternativos do jogo, então fica o aviso de spoiler — apesar de quem precisar saber do gatilho, pouparei dos detalhes. Este final acarreta em suicídio, prática comum no período retratado no jogo, mas poderia ter maior cuidado em expor. O problema deste ato foi ter parabenizado o personagem por executar a si próprio, servindo de exemplo a outro personagem ter uma jornada semelhante até chegar ao mesmo fim “honroso”. Evite de retratar o suicídio como alternativa.

Depois do Azul, de Élaine Turgeon

A novela foca nas consequências enfrentadas por uma família após perder a filha pelo suicídio. A irmã gêmea idêntica a falecida também sofre, pois muito veem nela o rosto da garota ausente. Sem gatilho algum, o livro sabe retratar a dor da família com a perda do ente querido, abordagem rara na ficção e que pode conectar leitores com situações semelhantes. Ao comprar este livro, parte do valor é repassado ao Centro de Valorização da Vida — CVV.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Apesar da qualidade do livro inquestionável, pode  ser perturbador ler — spoiler Bentinho enquanto decide cometer suicídio. Chega até a procurar pelos remédios que podem fazê-lo mal, tudo ainda explícito em detalhes na narrativa. Ele decide desistir da ideia, de maneira ainda perturbadora: após ver a cena de suicídio no desfecho da peça teatral de Otelo — fim do spoiler. Em suma temos dois problemas, mostrar detalhes de como a pessoa pretende realizar o suicídio e a discussão de oferecer motivos ao realizar este ato — igual a Sekiro. Machado de Assis fez história na literatura, e apesar dessa crítica, tenho nada contra ele ou esta obra em particular, só é preciso cuidado para não levar pessoas sensíveis a este trecho apenas por ser obra clássica da literatura brasileira.

Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

A melhor experiência de leitura deste blog no ano passado passa mensagens lindas sobre a prevenção do suicídio. O livro trata da vila próxima à floresta reconhecida no Japão por muitos realizarem o suicídio por lá. Apesar da situação triste, Valter Hugo Mãe foca na esperança àqueles pretensos a encerrar a vida na floresta, mostra os moradores dispostos a oferecer conforto, dar a oportunidade de repensar a atitude, e por vezes consegue evitar a tragédia. Também vale notar o cuidado em trabalhar nesse lugar reconhecido por haver suicídio, o livro não cita o nome correspondente e até altera sua localização no romance, tirando o foco da floresta em si para destacar a mensagem de esperança.

É possível trabalhar com temas sensíveis e contornar esses gatilhos. Sendo “limitadores” à primeira vista, pode levar os autores a desenvolverem ótimos trabalhos conscientes, sem necessariamente conter mensagem motivadora, também pode trazer abordagens saudáveis a proporcionar debates.

Link Externo

Saiba o que são “trigger warnings”, ou alertas de gatilho, sobre séries e filmes

Favela Gótica (Fantasia na Favela Carioca)

Podemos estar rodeados de coisas e seres invisíveis, pois recusamos a ver. Fantasiamos sobre conquistas alcançadas pela determinação, resumimos atitudes como sendo bem ou mal, preto no branco, e assim ignoramos o contexto alheio, tomamos o nosso sendo o único e o justo. O livro desta resenha fantasia de outra maneira, ela expõe a carne viva da sociedade menosprezada pela falta de oportunidade, demonstra a verdade fedida dos responsáveis por manter o mundo como é, e ousa cutucar tudo e todos à queima-roupa.

Favela Gótica* é a fantasia nacional inspirada nos fatores sociais os quais os brasileiros reconhecem à primeira vista — ou fingem desconhecer. Publicado em 2019 por Fábio Shiva pela editora Verlidelas, a história de fantasia preenche as ruas do Rio de Janeiro de monstros, com a diferença de ninguém se disfarçar nesta realidade.

*Livro recebido pelo autor para realizar a resenha

“No fim dá no mesmo; são apenas formas diferentes de exploração”

Liana vive na favela e é viciada na droga Z-SDA, também conhecida como hóstia ou apenas Z. Sustenta o vício diário comprando direto dos jacarés, os jovens vendedores desta droga. Ela obtém o dinheiro através da prostituição e da dança erótica enquanto tenta se manter de pé sob as adversidades da droga. Por vezes a dependência química é o menor dos problemas, a atmosfera envolta de Liana transpira violência, ela sofre ameaças e insultos de várias camadas da sociedade, sejam ogros, lobisomens ou endemoniados; ninguém a respeita por ela ser zumbi, a criatura dependente de Z. Algumas pessoas descobrirão a verdadeira natureza dela, esta desconhecida por ela, e assim convive enquanto sofre com as crises da dependência química.

“De todos os horrores, esse é o maior: a perda final das ilusões”

A protagonista conduz o romance no olhar representante de uma das classes mais rebaixadas, e desta forma oferece a oportunidade de mostrar a crueza nada agradável da rotina de Liana e do meio onde convive. Parágrafos são curtos e sucintos, progridem a história com descrições ácidas sobre a sociedade em geral. No lugar de pessoas, a realidade de Favela Gótica contém monstros, cada espécie com as devidas características físicas, mas as de comportamento têm destaque, pois é nada inventado da cabeça do autor, apenas observado. Os monstros refletem as piores condutas exercidas pelas pessoas representadas por eles, pessoas reais. Zumbis comedores de cérebro, o temperamento irascível dos lobisomens durante a noite e a fraqueza à prata, o contexto ao redor dos pequenos seres invisíveis; as explicações desses comportamentos são metáforas da realidade nem sempre acessível a quem recusa a ver.

Todo o contexto é mostrado ao longo da jornada de Liana conforme ela presencia cada particularidade dos seres incluindo a si própria, além dos Registros Akáshicos, textos explicativos sobre as criaturas, locais e situações encontradas pela protagonista. Com aspecto de verbete de enciclopédia, os Registros Akáshicos ficam no meio do texto, interrompem a narrativa do romance e dão informações sobre o mundo criado pelo autor. Tal intervenção textual é justificada no decorrer do livro e serve ao propósito do enredo, mas demora a contextualizar essas interrupções e tendem a atrapalhar a leitura no início do romance. A ideia seria melhor aproveitada se a sincronia entre os Registros e o enredo fossem claras desde o começo.

Favela Gótica nos convida a tomar um soco no estômago enquanto prosseguimos nas páginas de textos ágeis e ácidos a descrever a transparência da corrupção no Brasil e a vida das vítimas sob as consequências desses atos e desleixos. A metáfora usada de forma inteligente neste livro denuncia e expõe os detalhes já óbvios, no entanto nem sempre vistos pela sociedade.

“Por pior que seja a notícia, se ela for repetida por tempo suficiente todo mundo acaba se acostumando”

Favela Gótica - capaAutor: Fábio Shiva
Ano de Publicação: 2019
Editora: Verlidelas
Quantidade de Páginas: 276

LoveStar (Sci-Fi de Andri Snar Magnason)

Já discuti sobre o livro com foco em analisar a tecnologia vigente e discutir as prováveis consequências da humanidade com a evolução tecnológica. A história a seguir faz o mesmo a partir das próprias especulações, elabora discussões a partir de acontecimentos chocantes advindos do novo meio de produzir tecnologia, a possibilidade de criar novas funcionalidades alteram o modo de viver da população, atiça os obsessivos a ignorar os problemas decorrentes das novidades e proporciona o absurdo na realidade. Inacreditável mesmo é ler toda esta alucinação do autor transcrita em palavras, e mesmo assim traçar paralelos com a nossa realidade.

LoveStar extrapola a ficção científica a fim de fazer críticas ácidas sobre o desenvolvimento tecnológico e o comportamento da humanidade causado pela existência dessas funcionalidades imaginadas. Publicado em 2002 por Andri Snar Magnason com edição da Morro Branco em 2018 e traduzido por Fábio Fernandes, o livro traz duas histórias paralelas e apresenta nelas as nuances do ponto principal da obra.

“Em seus olhos brilhava a própria felicidade, reluzentes como a palavra LOVESTAR”

Tudo começa a partir de comportamentos estranhos de certos animais, como os pássaros que sempre iriam ao sul na véspera do inverno no hemisfério norte, e de repente elas seguem ainda mais ao norte. As pesquisas apontam a alguma interferência nas frequências emitidas e recebidas pelos animais como a causa, e isso leva a pessoas comuns atribuírem qualquer problema posterior como decorrente desta anomalia. Tais suposições absurdas levam a crer apenas a elementos sobrenaturais, aspectos ignorados pela ciência pelo simples motivos de serem inconcebíveis… Até o momento de determinados cientistas averiguarem essas especulações e comprovarem do sobrenatural na verdade ser real, é possível utilizar a frequência dos pássaros e revolucionar os meios de comunicação. A nova descoberta substitui todos os fios e cabos e possibilita a invenção de novas tecnologias com incríveis funcionalidades e absurdas transformações na vida de todas as pessoas.

O homem por trás de toda essa evolução assume o nome de LoveStar, cuja empresa é homônima e a mais potente do mundo graças às invenções bem como das estratégias de marketing da filial iStar. As invenções possibilitaram novas formas de trabalho, transformou a forma de lidar com a morte e possibilitou o cálculo certeiro do amor. Depois de tanto fazer pelo mundo, LoveStar faz a última viagem com uma semente em mãos, ciente de possuir menos de quatro horas de vida, tempo usado a refletir os acontecimentos importantes de sua vida.

Capítulos de LoveStar alternam com os da história de Indridi, um homem com a vida transtornada por conta das tecnologias produzidas pela empresa LoveStar. Vive a rotina apaixonada e louca com a namorada Sigrid até o momento de descobrirem que o cálculo do amor definiu Sigrid como a cara metade de outra pessoa. O cálculo infalível contradiz cada momento feliz do casal ainda crente de eles serem feitos um para o outro, porém a empresa encarregada pelo cálculo do amor — a LoveIN — insiste na Sigrid conhecer o verdadeiro amor da vida dela em prol do objetivo maior, o de estabelecer a paz na Terra através do amor.

“Pelo amor de Deus, comporte-se cientificamente!”

Os personagens e o enredo do livro são elementos secundários, responsáveis por sustentar o objetivo da história: o de mostrar as consequências na rotina e vida da humanidade a partir das invenções tecnológicas. O meio de desenvolvimento criado dessas tecnologias pouco tem a ver com a realidade, funcionam dentro das regras lógicas elaboradas pelo autor, essas quebradas na intenção de demonstrar um novo argumento da crítica ao progresso tecnológico. Toda especulação remete a reflexões propostas ao leitor, pois nos meios dos absurdos há a crítica quanto como grupos de pessoas desinformadas podem ser manipuladas, da obsessão de progredir na carreira comprometer a vida de gente próxima como a família, em como a apresentação de algo revolucionário pode mascarar o quanto este algo é na verdade perigoso.

Mesmo a intenção do enredo ter o foco menor, este perde a linha no meio do livro. Capítulos levam os personagens a nenhum ponto relevante, apenas oferece mais oportunidades de mostrar novas tecnologias criadas na mente criativa do autor, mas repete as críticas já ditas e assimiladas capítulos atrás. Pelo menos o enredo alinha à proposta original do livro ao final, oferece climas tensos acompanhadas ao ápice da criatividade maluca do autor nas extrapolações tecnológicas. O desfecho é bizarro de tão espetacular.

LoveStar consegue prender a atenção ao leitor às críticas sinceras por meio dos argumentos extraordinários a partir do mundo maluco criado ao longo dos capítulos. Exagera nas extrapolações e deixa o enredo de lado em prol da escrita  agradavelmente perturbadora.

“Não pensamos pelas pessoas. Só fazemos o que elas querem.”

LoveStar - capaAutor: Andri Snar Magnason
Ano de Publicação Original: 2002
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Fábio Fernandes
Quantidade de Páginas: 336

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Ciência: Interesse, Desinformação e Importância

Mesmo com o foco do blog na literatura, assuntos relacionados à ciência são muito bem-vindos nos posts bem como por este que vos escreve. Já abri discussão quanto a importância de todo indivíduo precisar ler artigos acadêmicos além dos problemas decorrentes na ignorância ao conhecimento. Trago assuntos tanto com conclusões animadoras como a reflexões críticas, todas com a devida importância. Vi uma matéria na semana passada com título chamativo e proposta questionável, esta a qual discutirei neste artigo quanto ao interesse, desinformação e importância relacionados à ciência.

A matéria é da TAB Uol, sobre os brasileiros serem mais interessados na ciência em comparação ao resto do mundo, baseado no estudo mais recente feito pela empresa 3M chamado State of Science Index.  A notícia seria animadora, pena os detalhes ignorados pela matéria forem trágicos. Segundo os dados da pesquisa, o interesse do brasileiro em destaque é a importância na ciência no dia a dia, onde o índice é maior no Brasil comparado aos outros 13 países avaliados. Só que este é apenas um dos índices levantados pela pesquisa, há outras questões analisadas as quais outros países se destacam, como a maior curiosidade na ciência por parte dos mexicanos, a importância de todo cidadão entender como a ciência funciona independente da profissão como os habitantes de Singapura, e o maior interesse em motivar as crianças a seguirem carreira científicas entre os sul-africanos.

Outro problema na matéria é falar dos brasileiros terem a maior percepção sobre vários aspectos da ciência do que o resto no mundo. Isto é meia verdade. O Brasil supera certos índices da média global, o erro ao dizer em superar o resto do mundo é por ter países com determinados índices superior ao Brasil, como por exemplo: 79% dos brasileiros são curiosos quanto à ciência, proporção maior a da média global de 72%, mas perde em relação à Alemanha com 82%.

Estatística - Ciência

A estatística desmente o argumento

Os interesseiros da ciência

Tanto o estudo como o destaque da matéria desperta questões quanto a importância do interesse pela ciência frente a outros fatores. A maioria dos entrevistados na pesquisa — sejam brasileiros ou da média global — assumem conhecer nada ou apenas pouco sobre a ciência. O conhecimento falha em acompanhar o interesse, e é possível testemunhar as consequências deste gargalo, dentre elas a pessoa confiar em determinado apontamento só pela menção de algum estudo sem dizer onde este foi feito ou sequer conferir a fonte original. O estudo da 3M afirma dos entrevistados terem mais confiança quando a fonte de informação vir de cientista comparado a pessoas próximas ou publicações de sites e redes sociais, entretanto não deixa claro se a credibilidade da pessoa ou publicação permanece igual ou aumenta ao dizer que tirou a informação de pesquisa científica.

O jargão “a ciência só está certa quando concorda comigo” reflete no viés do indivíduo superar a confiança no trabalho dedicado dos acadêmicos responsáveis por analisas e discutir determinado assunto. Todo o trabalho perde o valor pelo indivíduo apenas por entregar o resultado diferente do esperado por ela; tal comportamento corresponde a 50% dos brasileiros, superior a média global de 45%.

Discordar - Ciência

Os suricates discordam quanto ao formato da Terra

Em suma: o brasileiro — no geral — tem interesse pela ciência, apesar de possuir pouco conhecimento e da metade concordar com a ciência apenas quando os estudos dela for de acordo com a sua crença. Tal situação gera cenários favoráveis a matérias que atribuam descobertas a partir de “estudos científicos” e no fim nem cita quais estudos são esses. A pessoa lê apenas a matéria e aceita aquela informação sem procurar saber mais do estudo — por falta de conhecimento — ou apenas o ignora quando for contra a ideia preconcebida da pessoa.

O perigo do ceticismo

O estudo traz o alerta sobre as pessoas céticas quanto a ciência. Elas representam um terço dos entrevistados e seu número cresceu em 3% comparado à pesquisa feita no ano anterior. O ceticismo seria importante para desenvolver o pensamento crítico e incentivar o indivíduo a buscar as respostas por si, pena os motivos de os tornarem céticos quanto a ciência segundo a pesquisa da 3M demonstrar o caminho reverso.

A maioria critica a alta incidência de conflitos de opinião entre os cientistas, sinal de ignorância da parte dos céticos em como a ciência funciona, pois os estudos progridem justamente a partir da discussão de ideias, analisa as falhas de cada estudo e propõe melhorias a partir dos novos. O segundo maior motivo é por fazer parte da natureza deles questionarem sobre a maioria dos assuntos, e esta é uma ótima postura, desde que tome esse questionamento e procure as informações por si mesmo.

Também há forte incidência de argumentos sobre a ciência sofrer influência de empresas, governos ou até dos vieses dos próprios cientistas. Tal conspiração existe, impossível negar a parcela de pessoas com interesses egoístas a ponto de forjar estudos condizentes com a crença do autor — ou de quem financia o projeto. Por isso é importante haver discussão dos estudos na maior diversidade de fontes possível, assim terá a oportunidade de desmascarar estudos enviesados e intenções nada acadêmicas.

Conspiração - Ciência

Tudo feito por computação gráfica!

O ceticismo seria capaz de estimular melhores discussões quanto a ciência, pena os argumentos apresentados por eles no estudo da 3M terem o efeito contrário. Boa parte dos céticos analisados perde a confiança na ciência, e talvez isso justifique tal índice diminuir na maioria dos países analisados.


A desinformação está presente desde antes da recorrência de Fake News nas eleições do ano passado. O conhecimento científico por parte da população é prejudicado graças a ela, e ver esta alta incidência de interesse me leva ao pensamento de piorar a situação, pois o interesse sem conhecimento leva as pessoas a crerem na ciência ao invés de estudarem-na. Por isso muitos são fisgados por teorias da conspiração que soam com argumentos científicos, porém o conhecimento pertinente é ignorado pelos conspiradores e desconhecidos por quem acredita nessas mentiras. Enquanto o interesse não estiver na própria pessoa em ir atrás do conhecimento, a ciência continuará menos acessível.

Referências

Brasileiros são mais interessado em ciência que o resto do mundo (matéria do TAB Uol)

Página onde destaca o que cada país acha mais importante na ciência segundo o estudo da 3M (Em inglês)

Apresentação dos índices levantados pela 3M com opções de filtragem (Em inglês)

Arquivo do estudo realizado pela 3M (Em inglês)

Para Ler Como Um Escritor

Esqueça a ideia de nem todo bom escritor não precisa ler livros. Desconheço casos assim, apesar de quase ter a certeza de existir esta raridade. Cansa ver membros de grupos online se agarrarem a essas exceções e torná-las regras. A dádiva da criatividade reservada a escritores inexiste, eles a obtém através das referências lidas e experiências vividas, tudo combinado com muita técnica e inúmeros erros antes do acerto. Ler também é participar do meio onde pretende trabalhar, possibilita a descoberta de autores com quem possa aprender e até ter amizade. A leitura proporciona prazer e jamais deveria ser ignorada.

Para Ler Como Um Escritor oferece dicas aos amantes da leitura a aprender e observar detalhes ocultos a quem apenas lê, e essenciais a aspirantes a escritor ou qualquer profissional literário. Publicado em 2006 por Francine Prose e lançado no Brasil em 2008 pela editora Zahar com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, os onze capítulos demonstram como apreciar os elementos da escrita a partir de trechos transcritos no livro e comentários dos mesmos pela autora.

“Se querermos escrever, faz sentido ler — e ler como um escritor”

Francine Prose leciona o que nos Estados Unidos é chamado de Master of Fine Arts, cuja área abrange cursos artísticos e literários. O livro reflete as aulas delas em como reconhecer as qualidade da escrita a partir da leitura, e para isso seleciona inúmeros trechos de livros como exemplos do assunto principal de cada capítulo. A escolha dos livros é pessoal, por isso nem todos são tão conhecidos, apesar da maioria ser de literatura clássica e escrita há mais de um século. Além da escolha íntima dos livros, Prose reflete a experiência pessoal dela em todo o texto, o livro é baseado no aprendizado prático da leitura e lições apreendidas enquanto lecionava, tudo transparente ao leitor.

O começo apresenta a exposição desleixada da autora, dá a oportunidade de a conhecermos um pouco antes de acompanharmos suas observações competentes no restante do livro. Cada capítulo aborda certo elemento da escrita, seja a escolha de palavras, construção de frases e parágrafos; na concepção dos personagens, detalhes, narrativa, e mais alguns outros. Esses capítulos são compostos de comentários da autora e transcrição de trechos em que ela sugere a leitura atenta, e então ela explica onde ficam os detalhes do elemento correspondente ao capítulo.

“O que não está sendo dito é tão importante quanto o que está”

Todos os exemplos têm a mesma premissa: de reconhecer as qualidades do texto através da leitura atenta — chamado de close reading em inglês. Esqueça a ideia de terminar o livro o quanto antes e pegar o próximo da infinita lista de leituras de todo leitor, o importante é captar a qualidade. Prose nos ajuda a encontrá-la nos trechos selecionados por ela, e seus comentários dão dicas úteis a técnicas de escrita mesmo o foco do livro sendo a leitura. Certos capítulos são engessados, com muitos trechos a ler e muitos comentários a contemplar, exigem além da leitura atenta, também a releitura de absorver melhor os detalhes. Mesmo assim na primeira leitura já possibilita o aprendizado de muitos conselhos na escrita.

Os livros são, na maioria, de literatura estadunidense, inglesa e russa, com capítulo exclusivo das lições tiradas com leituras de Tchekov. Com todas as indicações voltadas ao exterior — incluído a lista de livros sugeridos pela Francine Prose —, esta edição tem o complemento de Italo Moriconi focado nas obras brasileiras. A literatura estrangeira tem a qualidade incontestável, mas é preciso destacar as particularidades da nossa linguagem pelos autores clássicos do Brasil, o que esse posfácio demonstrou muito bem.

Para Ler Como Um Escritor ensina muito enquanto recomenda o uso da leitura atenta. É um baú cheio de textos excelentes de vários livros com indicações de como absorver toda a qualidade desses. Desconstruiu algumas de minhas visões de determinados elementos enquanto abriu meus olhos a outros detalhes. Com certeza meu aprendizado com este livro fará com que eu avalie as próximas leituras com mais detalhes!

“Parte da obrigação do leitor é descobrir por que certos escritores permanecem”

Para Ler Como Um Escritor - capaAutora: Francine Prose
Tradutor: Maria Luiza X. de A. Borges
Autor do Posfácio: Italo Moriconi
Editora: Zahar
Ano da publicação Original: 2006
Ano da Edição: 2008
Quantidade de Páginas: 320

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Problemas Comuns dos Livros Brasileiros

Aqui vai outro XP de Escrita com puxões de orelha! Um terço das minhas leituras do ano até o momento foram de livros nacionais. Eu tenho o maior carinho por eles e torço para eu eleger algum desses como a minha melhor Experiência Literária do Ano, só que não premiarei tal obra apenas pela autoria conterrânea, o livro deve provar seu valor a alcançar o topo entre as dezenas de histórias conferidas. Por carregar essa ansiedade, por vezes me entristece conferir um livro nacional e avaliar o quanto ele poderia melhorar, o pior mesmo é eu ficar cansado de criticar os mesmos problemas em cada livro. Acontece com livros internacionais também — inclusive com best-sellers vencedores de prêmios —, porém vejo certo desleixo nas obras escritas por aqui pela recorrência da situação.

Listo neste post três dos problemas mais comuns nas minhas últimas leituras de livros nacionais. Longe de desprezar tais obras por esses erros, minha intenção aqui é incentivar os escritores a melhorar sua escrita e assim evoluir a qualidade dos nossos livros.

Advérbios terminados em “mente”

Stephen King critica os advérbios por serem redundantes na cena. O contexto de todo o parágrafo já determina a intensidade da ação citada no verbo sem precisar do advérbio. O autor caça os advérbios na revisão feito inimigos mortais da escrita literária, e isso deixa os longos livros prazerosos de ler, com frases dinâmicas graças a limpeza empenhada por King.

A regra vale na língua portuguesa também, e a nossa tem outro agravante sério: os advérbios terminados em “mente”. Exatamente, milagrosamente, paralelamente, irritantemente. É extremamente angustiante ver essas palavras no texto literário, elas quebram todo o ritmo de leitura devido a extensão da palavra, maiores do que qualquer outra disposta no mesmo parágrafo. O custo é alto e traz pouco significado, quando eu reviso meus textos e identifico essas palavras, eu consigo substituí-las por — pasmem — nada, apenas retiro a palavra e mal perco o significado da frase. Haverá casos quando fará falta ao tirá-los, então veja a possibilidade de trocar a palavra por um sinônimo mais curto, e se aquele advérbio é o termo apropriado naquela situação, então deixe-o. Faça isso e verá como terá poucos advérbios em “mente” no texto, depois leia em voz alta e perceba a mudança no ritmo da leitura. Lembre de me agradecer depois.

Verbos de Pensamento

Este problema vem da dica do escritor Chuck Palahniuk, que emplacou o segundo lugar nas minhas melhores leituras de 2018 com o livro Clube da Luta. Vários sites traduzem o conselho de Chuck na íntegra, acessível a qualquer escritor brasileiro conferir, e mesmo assim enlouqueço de ler esses verbos tantas vezes.

Verbos de pensamento resumem as ideias e sentimentos do personagem, e o problema está na palavra resumir. Ninguém abre um livro de ficção esperando a síntese de uma história, e sim acompanha cada triunfo e problema do personagem, sofre com ele e fica a mercê da catarse da vitória ou chora no fim trágico. Como o livro vai provocar essa explosão de sentimentos no leitor quando a descrição limita a dizer como o herói acha o vilão feio e gosta da garotinha indefesa, esta que se preocupa pelo bem-estar do herói enquanto ele quer apenas um mundo melhor? Não funciona!

Esses verbos são atalhos de descrições e atrasos da qualidade literária. Evitá-los o levará ao caminho da metodologia de mostrar a situação ao leitor ao invés de contá-la — o famoso show, don’t tell. Longe dessa abordagem ser obrigatória, eu elogiei A Parábola dos Talentos com a narrativa descritiva, e mesmo neste livro há poucos verbos de pensamento, sem falar na capacidade da autora em impactar o leitor por contar as piores situações vividas pelos personagens, causa desconforto quando esta é a intenção da cena. Francine Prose — autora de Para Ler Como Um Escritor — também defende a ideia de narrativa descritiva nos momentos que é melhor citar as situações pouco importantes naquela cena e focar no objetivo daquela parte do texto. Em suma, demonstre domínio e direcione sua intenção na escrita, e fará isso moderando os verbos de pensamento.

Siga o conselho de Chuck reforçado aqui. Odeie-o, odeie-me. Tire esses verbos e desenvolva os parágrafos a expressar o pensamento ao invés de condensá-lo na única palavra, depois leia, compare com a versão anterior, e entenderá o porquê de eu criticar tanto nas resenhas quando vejo abuso nos verbos de pensamento.

Impor mais peso no enredo do que nos personagens

Essa crítica é importante, pois aconteceu também na última temporada de Game of Thrones — até grandes produções cometem erros. As grandes reviravoltas no enredo têm o poder de surpreender o leitor. O problema ocorre quando vem a pergunta “o personagem faria tal coisa mesmo?” e não encontra a resposta. O enredo apelou a reviravolta sem dar a devida motivação ao personagem.

Toda história deve desenvolver os elementos essenciais da narrativa em conjunto, ficará nítido ao empenhar em um e fraquejar nos demais. Nem preciso dizer o quão horrível é o leitor descobrir a falha narrativa do autor, compromete a expectativa envolta da obra e a credibilidade de quem a construiu. Quando vi a transformação da Daenerys no término do seriado eu refleti: “isso seria legal, se tivesse me convencido”, mas os poucos episódios falharam em desenvolver essa nova característica dela.

Livros são mais flexíveis ao tamanho da história, então o escritor precisa desenvolver a motivação de cada personagem, mostrar os conflitos deles e alimentar justificativas da mudança radical. Quando acontece a reviravolta, é preciso sustentar os argumentos dela, seja pelas explicações posteriores ou remeter a eventos anteriores e demonstrar como existia o prenúncio da mudança. Deixe-me falar de Clube da Luta de novo, o livro faz a revelação que vira a história do avesso, e conforme lê os parágrafos seguintes, percebe como todos os indícios estavam lá e respondem as inquietações provocadas na revelação.


Esses são os problemas encontrados nas minhas leituras de livros nacionais. As histórias ainda tiveram a sua qualidade, pois demonstrei também quais foram os acertos delas nas respectivas resenhas. Evitei de listar quais livros eu vi os erros pois quero evitar de denegrir tais livros com o foco negativo deste post, ainda acredito no potencial dos escritores brasileiros e espero este texto ajudar alguém a melhorar a escrita.

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