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Bloodborne (enredo e ambiente)

Jogos conseguem ser cada vez mais imersivos com os recursos atuais. Podem trazer um mundo vivo ou fazer o jogador sentir o que seu personagem encara na aventura digital. Como espectador, o jogador vê o mundo pelo lado de fora, e sua conexão é feita a partir de um personagem, neste caso um estrangeiro também alheio aos eventos da cidade. 

Juntos avançam pelas fases desafiadoras para satisfazer seu objetivo, mas o trajeto traz mistérios sedutores, com grandes consequências caso revelados. São segredos de seres superiores capazes de diminuir os humanos a animais insignificantes frente ao cosmo. Quanto mais desvendamos, maior será o horror. 

Bloodborne foi lançado em 2015. Um RPG de ação com temática horror e sistema desafiante. O jogador deve controlar um caçador e enfrentar criaturas bizarras na busca de uma cura à sua doença desconhecida. 

From Software é reconhecida pelos jogos Soulsborne, entre eles: Demon Souls, trilogia Dark Souls e Bloodborne. Esses compartilham a dificuldade acima da média na jogatina, e possui meios semelhantes de narrar sua história de forma indireta. 

Nascemos do sangue, tornamo-nos homens pelo sangue, somos desfeitos pelo sangue 

Seu personagem é um caçador doente que vê em Yharnan uma esperança de cura. A cidade é conhecida por usar um sangue singular capaz de curar todo tipo de doença, porém ela está quase destruída. Muitos humanos “curados” com esse sangue acabam se transformando em licantropos, bestas perigosas que trazem riscos aos demais. 

Alguns moradores ainda sobreviveram às transformações, e permanecem em casa, protegidos com incenso capaz de afastar as feras de seus lares. Mesmo amedrontados, eles rejeitam qualquer estrangeiro. 

O caçador seguirá sozinho pelas ruas de Yharnan contra os humanos transformados. Silêncio só se rompe com os passos, cortes de lâminas e disparos de revólver com balas de mercúrio. Os civis transformados tentam se defender contra o caçador implacável, rugidos se transformam em gemidos quando são dilacerados. Uma bala de mercúrio no momento certo deixa o inimigo vulnerável a um ataque visceral, mortal à maioria. Tudo isso até alcançar o chefe… 

A música estoura nos ouvidos do jogador quando uma fera gigante pula direto ao campo de batalha. As garras têm longo alcance e arremessam o caçador de um lado a outro. Rugidos da fera colaboram com o terror de sua aparência e resistência aos ataques de um simples humano. Além de estratégia, é preciso perseverança, e quando consegue enfim derrotar o monstro, não fica contente por ter vencido a batalha, mas sim por ter sobrevivido. 

O céu e o cosmo são um 

Bloodborne - céu e cosmos

Bloodborne e outros jogos da From Software oferecem excelente exemplos da técnica “mostre, não conte.” Pouco do enredo é narrado ao jogador, e este só conseguirá compreender o enredo se observar o ambiente, bem como as poucas conversas entre NPCs (personagens não jogáveis) e descrição dos itens adquiridos. Detalhes primordiais se misturam com as convenções de estética e objetos comuns, e oferecem o desafio ao jogador para decifrar a história.

As inspirações de H.P. Lovecraft são bastante evidentes com a imersão ao horror cósmico. Quanto mais o jogador avançar frente aos segredos do jogo, pior ficará. Ter muito discernimento aumenta os perigos de alguns lugares, deixa suscetível ao frenesi, revela seres ocultos aos humanos, e possibilita a presença de caçadores de outros mundos. Algumas ameaças são inevitáveis, outras punem jogadores curiosos ao mesmo tempo que compensam se vencer os desafios, e se ousar ir além: prepare-se, e veja seu personagem sofrer. 

Longe de ser apenas um jogo desafiante, Bloodborne é um vislumbre de ambiente e história de horror. Quem entrar na atmosfera e explorar os aspectos implícitos, será recompensado com novos desafios e temores, mas todos fenomenais. 

H.P. Lovecraft (Medo Clássico Vol. 1)

Somos sete bilhões de humanos no planeta Terra. Convivemos em divisões políticas com regras que tentam harmonizar nossas vidas enquanto fazemos a se orgulhar. Estudamos, trabalhamos, relacionamos com outros; desenvolvemos nossas vidas e contribuímos à sociedade nem sempre compreendida. Fazemos tanto por nós, pelo planeta, porém vivemos em um minúsculo ponto azul, sequer somos visíveis quando comparados à imensidão do universo. 

O horror cósmico é um gênero literário em que explora a mediocridade humana quando em face a criaturas de outros mundos com capacidades não apenas superiores, mas inconcebíveis a nós. De nomes impronunciáveis pelo aparelho fonético humano, entrar em contato com tais seres ou simplesmente estar ciente de sua existência é o suficiente para o ser humano enlouquecer de horror. 

Esta é a proposta dos contos da coletânea Medo Clássico Vol. 1 — H.P. Lovecraft. Publicada em 2017 pela Darkside Books na edição Miskatonic, reúne algumas das histórias enquanto oferece materiais complementares como artigos, cópias de cartas e rascunhos originais, e ilustrações dos seres abordados em cada história. 

Howard Philips Lovecraft não obteve sucesso em vida por publicar seus trabalhos em revistas pouco conhecidas com outros autores de qualidade regular ou questionável, entretanto seus amigos conseguiram levar seus contos a um público maior e transcendeu gerações a ponto de muitos trabalhos atuais fazerem referências e homenagens ao trabalho de H.P. Lovecraft. 

Em sua casa, em R’lyehCthulhu, morto, aguarda sonhando  

Os contos são narrados em primeira pessoa. O protagonista faz o registro de suas investigações ou do que testemunhou por experiência própria, cujo relato formal se mescla com a espontaneidade do personagem quanto ao desespero de relatar algo surreal. 

Por ser apenas relatos dos personagens, não sabemos por vezes qual foi o seu fim quando alcançamos a última linha do conto. A angústia toma conta do leitor, a falta de informações proposital pode influenciar a imaginar inúmeros desfechos do personagem que pôde vislumbrar o inimaginável. 

Esses registros também ficam disponíveis aos demais personagens de Lovecraft, que interliga os contos usando os próprios como referências a outros. Alguns ficam explícitos no conto, outros exigem uma maior percepção do leitor quanto aos detalhes. 

A curiosidade supera o horror 

É importante destacar: são histórias publicadas há quase um século, quando o estilo e a narrativa eram diferentes dos livros recentes. Prepare-se para desbravar extensos textos descritivos até formar a imagem de cada cena. Diálogos são raros nessas histórias de Lovecraft, algumas nem têm, o que mantém a estrutura firme de parágrafos longos. 

Além de entregar uma história, os relatos dos protagonistas expressam o sentimento deles enquanto descrevem o horror a ponto de atingir o leitor. A minha curiosidade com Cthulhu se transformou em desespero após conhece-lo em seu conto. Quando o terror não atinge, ainda há o vislumbre de imaginar as criaturas elaboradas de forma tão criativa pelo autor, cujas homenagens dos trabalhos atuais não são em vão. De filmes, desenhos, músicas a jogos; todas as mídias oferecem formas distintas de imersão à Mitologia Lovecraftiana que se originou por essas conexões de palavras impressas capazes de incitar a nossa imaginação. 

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