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Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

Favela Gótica (Fantasia na Favela Carioca)

Podemos estar rodeados de coisas e seres invisíveis, pois recusamos a ver. Fantasiamos sobre conquistas alcançadas pela determinação, resumimos atitudes como sendo bem ou mal, preto no branco, e assim ignoramos o contexto alheio, tomamos o nosso sendo o único e o justo. O livro desta resenha fantasia de outra maneira, ela expõe a carne viva da sociedade menosprezada pela falta de oportunidade, demonstra a verdade fedida dos responsáveis por manter o mundo como é, e ousa cutucar tudo e todos à queima-roupa.

Favela Gótica* é a fantasia nacional inspirada nos fatores sociais os quais os brasileiros reconhecem à primeira vista — ou fingem desconhecer. Publicado em 2019 por Fábio Shiva pela editora Verlidelas, a história de fantasia preenche as ruas do Rio de Janeiro de monstros, com a diferença de ninguém se disfarçar nesta realidade.

*Livro recebido pelo autor para realizar a resenha

“No fim dá no mesmo; são apenas formas diferentes de exploração”

Liana vive na favela e é viciada na droga Z-SDA, também conhecida como hóstia ou apenas Z. Sustenta o vício diário comprando direto dos jacarés, os jovens vendedores desta droga. Ela obtém o dinheiro através da prostituição e da dança erótica enquanto tenta se manter de pé sob as adversidades da droga. Por vezes a dependência química é o menor dos problemas, a atmosfera envolta de Liana transpira violência, ela sofre ameaças e insultos de várias camadas da sociedade, sejam ogros, lobisomens ou endemoniados; ninguém a respeita por ela ser zumbi, a criatura dependente de Z. Algumas pessoas descobrirão a verdadeira natureza dela, esta desconhecida por ela, e assim convive enquanto sofre com as crises da dependência química.

“De todos os horrores, esse é o maior: a perda final das ilusões”

A protagonista conduz o romance no olhar representante de uma das classes mais rebaixadas, e desta forma oferece a oportunidade de mostrar a crueza nada agradável da rotina de Liana e do meio onde convive. Parágrafos são curtos e sucintos, progridem a história com descrições ácidas sobre a sociedade em geral. No lugar de pessoas, a realidade de Favela Gótica contém monstros, cada espécie com as devidas características físicas, mas as de comportamento têm destaque, pois é nada inventado da cabeça do autor, apenas observado. Os monstros refletem as piores condutas exercidas pelas pessoas representadas por eles, pessoas reais. Zumbis comedores de cérebro, o temperamento irascível dos lobisomens durante a noite e a fraqueza à prata, o contexto ao redor dos pequenos seres invisíveis; as explicações desses comportamentos são metáforas da realidade nem sempre acessível a quem recusa a ver.

Todo o contexto é mostrado ao longo da jornada de Liana conforme ela presencia cada particularidade dos seres incluindo a si própria, além dos Registros Akáshicos, textos explicativos sobre as criaturas, locais e situações encontradas pela protagonista. Com aspecto de verbete de enciclopédia, os Registros Akáshicos ficam no meio do texto, interrompem a narrativa do romance e dão informações sobre o mundo criado pelo autor. Tal intervenção textual é justificada no decorrer do livro e serve ao propósito do enredo, mas demora a contextualizar essas interrupções e tendem a atrapalhar a leitura no início do romance. A ideia seria melhor aproveitada se a sincronia entre os Registros e o enredo fossem claras desde o começo.

Favela Gótica nos convida a tomar um soco no estômago enquanto prosseguimos nas páginas de textos ágeis e ácidos a descrever a transparência da corrupção no Brasil e a vida das vítimas sob as consequências desses atos e desleixos. A metáfora usada de forma inteligente neste livro denuncia e expõe os detalhes já óbvios, no entanto nem sempre vistos pela sociedade.

“Por pior que seja a notícia, se ela for repetida por tempo suficiente todo mundo acaba se acostumando”

Favela Gótica - capaAutor: Fábio Shiva
Ano de Publicação: 2019
Editora: Verlidelas
Quantidade de Páginas: 276

A Parábola dos Talentos (Semente da Terra, vol. 2)

A ideologia pode ser essencial na vida das pessoas. Regras sistematizadas formam objetivos de vida, definem o caráter de alguém. Nenhuma é adequada a todos, e só descobrirá ao ter a oportunidade de conhecer ideologias até encontrar a ideal — ou criar a própria. Lamentável ver certos grupos ideológicos capazes de atrapalhar as crenças alheias, diminuí-las seja menosprezando ou destruindo. Falha com os princípios originais da própria crença afim de eliminar a outra.

A Parábola dos Talentos traz o conflito ideológico na continuação da história de Lauren Oya Olamina. Escrito em 1998 por Octavia E. Butler e trazido pela editora Morro Branco em 2019 com tradução de Carolina Caires Coelho, a nova eleição dos Estados Unidos pode colocar em risco tudo o que a protagonista conseguiu criar desde A Parábola do Semeador.

“Eram disputas idiotas — desperdícios de vida e riqueza”

Anos após os acontecimentos do livro anterior, Lauren tem o próprio espaço a pregar A Semente da Terra, crença organizada por ela a partir das verdades testemunhadas. A comunidade onde vive e coordena tem poucas pessoas, todas de confiança, nem todas seguidoras da religião dela, com direito de permanecer no local ao ajudar em algum trabalho. Garantem a segurança do local através da vigia constante e dos equipamentos adquiridos com o tempo, mesmo assim seu marido Bankole tem receios quanto à segurança de Lauren, ainda mais quando ela fica grávida. A nova eleição dos Estados Unidos tem como principal candidato Jarret, que pretende implantar a América Cristã pelo país e eliminar qualquer culto diferente do cristão.

Além da história contada de forma autobiográfica por Olamina, este livro tem pequenos trechos contados por outros personagens, em especial a filha de Lauren. Todo começo de capítulo começa pela filha, ela faz comentários sobre o que lê dos diários da mãe e expõe desde o começo a sua opinião, discorda de tudo afirmado pela Semente da Terra, uma seita aproveitadora da boa vontade alheia, segundo a garota.

“Morrer vítima da violência era ainda mais fácil do que é hoje. Viver, por outro lado, era quase impossível”

Após acompanhar as crises presentes na Parábola do Semeador, o começo deste livro traz esperança de quem vive próximo de Olamina conseguir vida mais digna. Independente de acreditar na Semente da Terra, Lauren acolhe e ensina todo interessado a exercer tarefas úteis. Há planos no futuro, vida amorosa com o marido, até a esperança de ter filho! E então tudo desmorona.

A narração é toda descritiva, sem citar ações correspondentes aos sentimentos e gestos dos personagens, tudo é contado com palavras objetivas. Demonstra como o modo de escrita show, don’t tell — mostre, não conte — não é o único meio válido de contar a história. A escrita de Octavia impacta o leitor mesmo usando verbos e definições descritivas, ela sabe como construir a estima do leitor e então destruí-la com os acontecimentos do romance. Passagens longas de diário e parágrafos grandes conseguem prender na leitura da história de Olamina e sua busca em expandir a Semente da Terra de modo a criar raízes entre as estrelas.

Os personagens são inúmeros, alguns mais presentes em certos pontos, mas mesmo quando muitos estão reunidos é fácil acompanhar quem diz, nem entedia o leitor por dar espaço desnecessário de interação, todos os presentes na cena são úteis. Pessoas contestam as ideias da Semente da Terra a todo o momento com Lauren ou nos trechos narrados por outra pessoa, e nem sempre são adversárias da protagonista, na verdade o contato próximo estimula o debate das ideias criadas nesses dois romances sem riscos, apenas com oportunidades de avaliar o valor da seita formada por Lauren, que resiste ao pior enquanto mantém a crença dela em si.

A Parábola dos Talentos encerra a autobiografia de Lauren Oya Olamina com alarmes quanto a consequências na crise ambiental e econômica nacional, bem como na capacidade humana ao agir contra a ideia diferente. Traz debates capazes de lembrar ao leitor que as ideias de Olamina devem ser debatidas, longe de aceitá-las no romance apenas pelo protagonismo da idealizadora da religião, a leitura propõe a reflexão pela divergência ao concluí-la.

“Uma das coisas mais valiosas que eles trocavam uns com os outros era conhecimento”

A Parábola dos Talentos - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1998
Editora: Morro Branco
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Quantidade de Páginas: 560
Série: Semente da Terra #2

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Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Vivemos tempos difíceis por conta do cenário político. Toda discussão fica complicada pela repulsa ao ponto de vista alheio, da propagação de notícias e conceitos falsos e a ausência de coordenação entre os representantes — eleitos ou não. Pelo menos ainda podemos criticar qualquer decisão mal feita, às vezes conseguimos mostrar os argumentos no meio de tanto fervor de pessoas com visões verossímeis apenas quando lhe convém. Já num governo autoritário temos direito a nada, inexiste lados senão o opressor e os oprimidos. A coordenação é eficiente, impõe submissão a todos com condições difíceis de perseverar. Tal regime totalitário incitará rebeldia nas pessoas capazes de ameaçar a opressão, mesmo que aconteça depois de mil anos.

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação mostra o domínio de Una e o desespero de alguns habitantes de Untherak ao descobrir seus segredos. Publicado em 2017 na editora Intrínseca, Felipe Castilho entrega esta fantasia nacional onde a violência é exposta e imposta aos personagens.

“Com requintes de crueldade a cada sílaba”

Untherak é o lar da civilização após os seis Deuses darem a última chance aos seres existentes. Humanos, kaorshs, anões, sinfos, gnolls e os gigantes vivem sob a consequência dos pecados dos ancestrais, todos submissos à vontade dos seis Deuses que se uniram e viraram Una, a governanta imortal da cidade. Com força militar dominante, o general Proghon coordena os soldados — chamados de Únicos — com a ajuda da tenente Sureyya. Centípede é o grupo de arautos da Deusa, com rostos de difícil assimilação. A vontade de Una também é garantida pelos Autoridades, fiscais com permissão de punir qualquer cidadão que falte com as obrigações.

Entre os cidadãos há duas classes. Os servos prestam serviços mais pesados durante seis dias da semana e moram em celas, e os semilivres possuem mais liberdade quanto a tarefas e onde podem ir, mas ainda sujeitos a qualquer demanda do governo. O servo consegue ascender à semiliberdade ao pagar um preço exorbitante ou sobreviver na batalha jamais vencida no Festival da Morte.

Aelian serve no setor de correspondências como assistente de falcoeiro. Apesar de presenciar na pele as reprimendas dos Autoridades, o humano insiste em se arriscar nas ações nada prudentes. Harun é anão e Autoridade, sonha em reconquistar as relíquias dos antepassados, valores quase perdidos no domínio de Una. Ziggy é um sinfo, criatura ainda menor que os anões, assexuado e de pouco tempo de vida; vive com os outros da mesma espécie no Segundo Bosque, nada comparado ao lar original deles, o Primeiro Bosque. Raazi e Yanisha são amantes e kaorshs, espécie com capacidade de mudar o tom da própria pele. Yanisha descobriu o segredo de Una, e quer acabar o reinado dela junto com Raazi desde então. Todos esses personagens conhecem Aparição, um guerreiro oculto com vontade de combater o governo totalitário de Una, portador de espada grande e com a cabeça coberta com o capuz da cor proibida, a vermelha.

“O tempo tem a capacidade de transformar tudo, exceto a si mesmo”

Conhecemos Untherak e seu regime totalitário através das histórias dos personagens citados, em especial Aelian e o casal de kaorshs. Eles têm os próprios objetivos, com o tempo alinhados com o da trama, o de dar um fim a Una e o sistema cruel da cidade. Aparição é o símbolo de ameaça aos Autoridades e Únicos, bem como a esperança a quem é salvo pelo ser excepcional. As demonstrações de violência são constantes, punição é eficiente apenas ao impor medo, muitas pessoas — cidadãos e Autoridades — aproveitam das brechas e vistas grossas para benefício próprio, demonstrando a Lei de Gérson através da fantasia brasileira.

Cada personagem tem as suas particularidades. Passado, problemas e ambições possibilitam empatia enquanto mostra os perrengues do capítulo vigente, demonstram-se verdadeiros a ponto do leitor importar com cada um deles, mesmo quando não de primeira, pode mudar de opinião após descobrir todo o contexto vivido. É fácil compartilhar sorrisos nos momentos pertinentes, bem como prender a respiração ao longo do enredo tenso. Mesmo assim o autor perde algumas oportunidades de aprimorar a empatia por usar verbos de pensamento em certas partes do capítulo. Tais verbos resumem a sensação do personagem sem a repassar ao leitor.

O enredo trabalha a formação e evolução dos protagonistas e impressiona nas reviravoltas. Cenas surpreendem e oferecem o suspense antes de dar a resposta, umas no momento certo, já outras sob entrevistas — diálogos feitos de perguntas e respostas — que despejam a informação no leitor. Seja na construção ou destruição de conceitos, tudo empolga a curiosidade quanto a surpresas reservadas nas próximas páginas.

Ao começar a ler as cenas de ação, espere qualquer resultado. As batalhas ameaçam retalhar seja quem for, lâminas rasgam o corpo sem pudor e terminam vidas importantes, reconstroem o enredo com as consequência levando a novas possibilidades.

“Pessoas prestes a morrer eram bem mais perigosas do que brutamontes”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tem ótimos pontos positivos em fantasia e comprova a capacidade de Felipe Castilho como autor brasileiro de ótima qualidade. Com ressalvas quanto a passar a informação e demonstrar sentimentos do personagem em vez de contá-los por verbos de pensamento, ainda assim é preciso congratular pela ambientação e demonstração verossímil de um governo violento que recorre a qualquer alternativa capaz de manter os moradores submissos; o vilão gera a consequência de causar empatia ao leitor nos personagens vivos através das palavras.

“Alguns infernos duram mil anos; outros, um dia. Mas nenhum é melhor que o outro”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação - capa

 

Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Gênero: Fantasia
Quantidade de Páginas: 448

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Fatos à Venda (Crônica sobre narrativas)

Fatos à venda! Fatos à venda! Vocês sabem do que estou falando, posso produzir qualquer visão, teço a narrativa para favorecer ideais, ligo veracidades e monto a verdade. Todos podemos ser como queremos, basta produzir fatos convincentes, por isso estou aqui! Pretende subir na carreira? Precisa cultivar ódio numa pessoa? Tornar o corpo gordo a nova tendência do verão? Virar o novo presidente da República? Vem cá, rapaz, seus olhos transmitem o desejo honesto e faminto pelos caminhos fáceis. Solta o verbo.

— O senhor garante todo tipo de conquista mesmo?

Garanto. É tudo verdade, tudo obtido através de fatos, sob narrativas assertivas que favorecerão os sonhos, seja qual for. Ninguém verá a Mão por trás da visão, apenas os méritos de sua dedicação formulada pelas minhas palavras.

— E o senhor oferta tal serviço em plena praça pública. Sem ofensas, mas parece lunático.

“Sem ofensas, mas já ofendendo…” Por isso poucos respeitam meus talentos.

— Além do preço rabiscado nesta caixa de papelão. Algo tão caro e nem monta um estabelecimento decente…

Estabelecimento decente?! Isso aqui não é servicinho de loja, não. Acha que existe CREA sobre vendas de fatos? Chegue mais perto, amigo, fique do meu lado e olhe ao redor. Lembre-se daquele vestido azul para alguns e dourado a outros, isso acontece a todo momento. Todos esses pedestres, motoristas, guardas, engravatados e garis veem cores diferentes do mesmo objeto, visões alternativas do mesmo fato. Eu conheço o motorista triste por outros não terem condições de pagar pelas aulas de direção, já o outro critica de qualquer meia-roda conseguir tirar carta hoje em dia. Garis sonham com dinheiro, uns com trabalho duro e outros com distribuição de renda justa. Aquela de salto-alto odeia a obrigação de usá-lo no emprego, e nem queira saber onde a moça de casaco colocou a boca na última noite.

— Ou disse apenas ideias sobre eles tiradas da cabeça.

Fiz isso mesmo, e funciona! Ou você irá perguntar a cada um deles se estou dizendo a verdade? Os motoristas já saíram do alcance, a vida de todos seguiram adiante, e meus fatos sobre eles continuam aí, na cachola. Você verá o próximo gari e refletirá em qual lado ele está, mais ainda, verá um gari beiçudo e o tomará como quem defende a distribuição de renda. Por quê? Porque eu te disse.

— Errado, senhor. Posso discordar de tudo dito até agora.

Tem razão, pode, discorde enquanto todo o resto acredita. A sociedade quer seguir a narrativa, seduzir-se a ter esperança ou motivos a odiar alguém.

— Suas respostas são coerentes, eu até sinto em dizer o quanto desacredito.

Isto é o importante: fazer sentido, de preferência o mais simples possível. Existem verdades compreensíveis apenas através de muito tempo e estudo, e aquelas capazes de mudar a vida hoje. Nem preciso perguntar quais verdades o povo deseja mais, a minoria do primeiro grupo pode trabalhar à vontade, eu faço acontecer a maioria do segundo.

— Está bem. O senhor me convenceu.

Maravilha! Sou mesmo bom nisso, e posso convencer qualquer pessoa de qualquer fato sobre você. Já viu qual o meu preço, se consegue pagá-lo, basta pedir. Qual cargo tanto almeja?

— Nenhum.

Então já trabalha com o que quer, é um jovem de sorte. Eu posso tornar o seu produto ou serviço como o melhor da concorrência.

— Já é. Modéstia à parte, ninguém faz sites responsivos e rápidos como eu.

Olha a humildade, rapaz! Vamos assegurar esta sua posição. Qual a concorrência? Eu posso destruir a reputação de quem detesta.

— Eu sou cristão, senhor! Jamais pedirei pela desgraça de meu semelhante.

Está fingindo de ingênuo ou é babaca mesmo? Veja o quanto de cristão passando a perna por aí, eles precisam tirar vantagem, só assim garante o sustento da própria família.

— Este é o problema.

Não entendi. Explica direito este problema.

— Moro sozinho, longe de irmãos e pais. E, sabe… Tem uma garota, conheci ela há pouco tempo. Tenho calafrio só de vê-la. Queria apenas trocar algumas palavras…

Olha, este pedido é bastante diferente, rapaz. E eu gostei, será desafiante. Apesar de você conseguir algo muito melhor com meus serviços, eu te vendo o fato a ela.

— Impossível conseguir algo muito melhor. Ela é o amor da minha vida!

Certo, jovem. Sou velho e tarado demais para te entender, ainda assim acredito nessas palavras românticas. Pegue este cartão com meu telefone, mande todos os detalhes sobre ela, fotos também, e fale também de você, qualidade e defeitos. Manda tudo no zap-zap mesmo, eu saindo da praça já desenvolvo minha narrativa, divulgo nos lugares certos e ela ficará doidinha por um papo com você. Ela não mergulhará a seus pés ou implorará por passar noites no motel, seu pedido é outro. Pode pagar tudo depois do serviço feito, só lembre de trazer dinheiro vivo, viu?

Rapaz, que jovem foi esse? Desperdiçar o talento como o meu em troca de namoro honesto. É cada uma! Pior, adorei esta tarefa. Dá aquela sensação de o mundo ainda ter jeito, da humildade persistir e quem sabe um dia salvar este país da corrupção. É, existe esperança amanhã, hoje eu ainda preciso forjar em como a mídia manipulou um vídeo pornográfico postado pelo presidente. Todo dia tenho de arrumar as presepadas deste asno!

A Revolução dos Bichos (George Orwell)

Tempos de crise exigem iniciativa daqueles dispostos a melhorar a vida de seus semelhantes, oferece motivação suficiente a reconhecer os problemas atuais causados pelo responsável e traçar a alternativa salvadora. Os de iniciativa ganham reconhecimento ao criar oportunidade e mudança no modo de vida, olhos brilham com o trabalho contínuo rumo a realidade justa e garantida de direitos iguais. Mantém confiança aos responsáveis pela Revolução, carentes de lembrança e atitudes, o povo acredita nas novas inverdades e volta a ficar submisso à classe dominante, aquela com direitos mais iguais que o resto.

A Revolução dos Bichos traz sátiras ao regime totalitário de Stálin por meio dos animais na Granja do Solar. Publicado em 1945, é o livro mais importante de George Orwell com críticas a medidas do governo soviético, junto com 1984.

A Revolução dos Bichos - capa

Humano bom é humano morto

Major é o nome do porco mais velho da Granja do Solar. Reúne os animais depois de sonhar com a oportunidade de libertar todos os bichos da tirania do humano Jones e seus comparsas de duas pernas. Porcos, cachorros, ovelhas, cavalos e galinhas ouvem a ideia e se entusiasmam, cantam em conjunto a canção Bichos da Inglaterra, louvam o início da Revolução.

O velho porco morre dias depois, ainda assim os bichos sonham com a liberdade. Certo dia acontece a rebelião, atos desesperados levam os bichos ao limite contra Jones e os funcionários da granja, conseguem expulsar os humanos de lá. Os bichos tomam o ocorrido como inacreditável, acordam no dia seguinte ainda estupefatos, sozinhos na fazenda, enfim estão livres e podem trabalhar na garantia dos recursos ao sustento próprio.

Bola-de-Neve e Napoleão assumem os trabalhos de administrar a agora nomeada Granja dos Bichos, ambos são porcos e demonstram inteligência na estratégia e liderança nos afazeres para manterem a vida de todos confortável. Os dois líderes possuem opiniões divergentes a como coordenar a Granja e no princípio resolvem através de debates, até o porco Napoleão expulsar Bola-de-Neve à força e ser o único líder restante. Sem contrapontos, a nova postura de Napoleão traz medidas estranhas aos demais bichos, mesmo assim aceitam após a explicação eloquente do porco Garganta, demonstrando o quanto eles estavam enganados a determinado assunto jamais ocorrido. Assim prossegue, onde Napoleão ordena atitudes severas e depois justifica por meio de Garganta, além de proporcionar mais benefícios aos porcos comparado ao resto dos animais.

Napoleão sempre tem razão

Com pouco mais de cem páginas, Orwell retrata o desejo da população animal sob abuso dos humanos, existindo apenas em função de sustentar as necessidades do dono. Após o inacreditável tornar-se verdade, os bichos são coordenados sob nova direção sem observar os detalhes nem questionar as novas decisões, ficam a mercê da liderança cada vez mais autoritária, inconscientes de perderem recursos aos poucos.

Basta fazer bom discurso e aproveitar da memória escassa dos bichos e os manterá no controle, caso alguém contrarie algum posicionamento, tira-o da jogada e explica depois, reescreve as regras e os acontecimentos. Há quem questione, mas mudam de ideia após ouvir os argumentos do porquinho sob a narrativa sarcástica que entrega a história vista de fora. Sem mais liberdade e alterando fatos conforme os interesses do líder tal como mostra bem no livro 1984.

Os acontecimentos ocorridos na Revolução dos Bichos parodiam ações reais do regime totalitário na União Soviética. Mesmo quem desconheça a história do regime tratado, o leitor consegue visualizar alguns pontos através do livro, basta acompanhar a ironia quanto às ações dos porcos e o desconhecimento dos outros animais. Indo além das críticas ao socialismo de Stálin, certas atitudes não são exclusivas da ideologia e precisam ser desencorajadas independentes do lado político, por isso a leitura deste trabalho de Orwell é imprescindível aos interessados em política.

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Cansei de Fake News

Odeio começar este artigo respondendo a possíveis declarações de alguém que não leia ou compreenda o texto a seguir, ainda assim adianto: esta publicação não tem o objetivo de acusar determinado político. O cronograma deste blog é de conteúdo próprio toda segunda-feira e resenha toda quinta, ambos agendados às seis da manhã, mas escrito, revisado e editado dias antes da publicação. Portanto desconheço o resultado das eleições enquanto escrevo este artigo. Longe de protestar contra qualquer candidato, o texto critica apenas as fake news. 


Acertei em partes nas minhas previsões para 2018 no artigo feito em janeiro. O desconhecimento da população sobre o próprio país e a baixa compreensão científica foi aproveitada na difusão de informações duvidosas, mentirosas e satisfatórias ao viés do indivíduo. O uso da Inteligência Artificial nas edições de vídeo e manipulação da voz felizmente não se concretizou, digo, houve uma suspeita da qual eu me recuso a conferir. Caso alguém se dispor a fazê-la, vejo a análise depois.

Houve uma falha grave no meu artigo. Na hora de montar o roteiro, eu deixei de abordar um assunto, evitei estender aquele texto retirando justo o tema principal desta campanha eleitoral: as fake news. 

Fake News dot com

O título é verdadeiro, eu cansei de ouvir/ler o termo em inglês. Portais de notícias e canais de comunicação de diversos gêneros atraíram o público usando esta palavra-chave, além da oposição usar como recurso para declarar quando há acusação de atitudes impróprias. Fake news receberam os quinze minutos de fama, e alguns veículos de informação estão fazendo análises profundas sobre elas, e eu gostaria de contribuir neste lado da discussão com este artigo. 

Jornalismo sem credibilidade  

O mercado tradicional de jornalismo é uma das várias vítimas da crise econômica e das transformações de interação no mundo digital. Tomam atitudes duvidosas na tentativa de se manterem no mercado, como restringir o acesso ao material online e cobrar do usuário pelas notícias, incentivar os leitores a acessarem seu conteúdo regular com títulos sensacionalistas, até fazer atualizações automáticas nos sites para aumentar o número de visualização na página e garantir mais renda vinda pelos anúncios. 

Escolhas infelizes deixam o público descontente e perdem credibilidade mesmo quando publicam informações corretas. Somado a deficiência da formação e senso crítico da população quanto a realidade e conhecimento científico, muitos são incapazes de distinguir notícia de opinião e acusam membros da mídia tradicional como se todos fossem ativistas ou que distorcem fatos. Infelizmente eles só acusam ao invés de debater e verificar se de fato há algo de errado na publicação do jornal. 

Jornalismo desaprovado - fake news

Quando cometem erros, a empresa e os profissionais de imprensa possuem responsabilidade e devem ser punidos. Entretanto a população não possui a mesma responsabilidade, e qualquer pessoa é capaz de propagar informações em larga escala graças as redes sociais. Técnicos de informática, enfermeiros e jardineiros possuem liberdade em transmitir conteúdos — nem sempre verdadeiros — sobre economia, e ainda conseguem mais credibilidade que os meios oficiais de comunicação, pois são parentes, colegas de trabalho ou amigos, pessoas próximas e portanto mais confiáveis, ao contrário dos profissionais de imprensa sem contato familiar. 

Recursos das Redes Sociais 

A difusão de informação feita por indivíduos encontrou a terra prometida nas conversas de WhatsApp, o aplicativo de conversa mais usado no Brasil. O aplicativo possui transmissão criptografada de mensagens, ninguém tem acesso fora o transmissor e o receptor. As mensagens encaminhadas não indicam sua origem, ao contrário do Facebook que indica de quem a publicação foi compartilhada, então a fonte da informação no aplicativo acaba sendo a pessoa próxima do sujeito.  

E admiro a perspicácia de aproveitar o limite da conexão de dados para deixar o WhatsApp tão eficiente em propagar fake news. Como o acesso ao aplicativo e às redes sociais mais conhecidas é irrestrito nos planos de internet móvel, poucos vão buscar informação em outra fonte e serem cobrados pela franquia. Também alegam da rotina turbulenta impossibilitar alguém a gastar tempo na verificação da notícia, porém eu não entendo como conseguem a disponibilidade de consultar o WhatsApp e encaminhar mensagens, inclusive durante o expediente! 

WhatsApp no expediente - Fake News

Parabenizo também o uso dos recursos do Facebook na divulgação de fake news. A Cambridge Analytica conseguiu direcionar conteúdo ao público correto e influenciá-lo a favorecer seus interesses.  Foi preciso coletar uma quantidade massiva de dados pessoais na rede social, e eles conseguiram de maneira inteligente e sutil. Desenvolveram quizzes inocentes com temáticas relacionadas a músicas, séries, celebridades, horóscopo e personalidade. Porém na hora de compartilhar o resultado do quiz, a aplicação solicita permissão a conceder informações privadas da conta e as de seus contatos. Graças a popularidade do quiz e a mania de muitos aceitarem sem ler os termos de uso, a empresa de publicidade conseguiu reunir o maior banco de dados sobre os usuários a partir do Facebook, e usou os próprios mecanismos de anúncio da plataforma para direcionar conteúdos com precisão. 

A informação só é válida quando concorda com ela 

As fake news podem partir da notícia verdadeira, basta apenas manipular o enquadramento do fato. Montagens atribuindo fontes a canais onde jamais publicaram o conteúdo, recortes de textos originais ou até edições de vídeos foram usados como estratégia nas campanhas. Todos esses meios são, na maior parte, fáceis de serem flagrados como tendenciosos, então por que tanta gente acredita? Porque elas querem. 

Seres humanos não são incitados por fatos, e sim por emoções. A eleição foi decidida através do repúdio e do medo, e essas montagens são feitas aproveitando dessas emoções a convencer o eleitor sobre o mal propagado do outro lado caso vença. A pessoa reconhece seus receios naquela imagem ou vídeo e age naturalmente ao encaminhar aos amigos, pois ela acredita em fazer a diferença. 

Eleitores de 2018 - Fake News

Existe solução contra as Fake News? 

Um professor do município de Ourinhos, interior de São Paulo, criou o curso semanal para alunos do ensino médio sobre as fake news. A proposta da aula é pedir aos estudantes selecionarem notícias com características duvidosas, trazerem na sala e debater quanto a veracidade dessa. A iniciativa foi até reconhecida pelo projeto Inovadores, da Google. 

A internet é uma ferramenta universal e democrática, com espaço a todos os tipos de iniciativa, inclusive as úteis. Canais de divulgação científica trazem assuntos complexos com explicações simplificadas, mas embasadas em referências e trabalhos acadêmicos. Muitos desses divulgadores já sofreram repúdio semelhante a imprensa tradicional, questionando sua parcialidade ou competência. Eles devem ser avaliados e corrigidos como toda pessoa que expõe conteúdo ao público, e para as críticas serem honestas devem também conter embasamento e estímulo a discussão. É melhor oferecer condições a todos verem ambos os lados e ter compreensão mais ampla do assunto, do que apenas refutar uma pessoa. 

Discussões Embasadas - Fake News

Existem portais especializados em averiguar se determinada notícia é verdadeira. E-Farsas é o portal mais antigo e ainda bastante ativo, e vieram muitos outros depois deste, ainda mais agora com o exagero de ocorrências das fake news, como a iniciativa do Projeto Comprova. 

Eu poderia encerrar o artigo listando dicas de como identificar conteúdos falsos ou tendenciosos, alguns textos disponíveis na seção de referências fazem isso, inclusive. Entretanto sou pessimista o quão efetivo isto seria. A rotina continua turbulenta na maioria de nós, além de muitos serem indispostos a conferir as informações. É preciso demonstrar a importância de difundir conteúdo honesto e estimular a discussão sobre este, sem menosprezar o autor da informação. Publico este artigo depois da campanha eleitoral já ciente que convenceria a ninguém se estivesse feito antes. Tenho esperança deste texto servir de estímulo nas discussões do futuro serem honestas, com campanhas eleitorais baseadas em argumentos, que aborde as diversas pautas da sociedade com base em fatos e estatísticas no lugar de sentimentos, e maior disposição da população para estudar em vez de ver memes. Este é o Brasil que eu quero.


Referências

Eleições mexicanas são tomadas por notícias falsas no WhatsApp e ilustram o que pode ocorrer no Brasil

Como reconhecer uma notícia falsa para não compartilhar mentiras

A arte de manipular multidões

Para especialistas, difusão de fake news está ligada à crise do jornalismo

Professor usa fake news para ensinar ciência na escola

Facebook CEO Mark Zuckerberg testifies before US Congress: Highlights

Robert Mercer: the big data billionaire waging war on mainstream media

Projeto Comprova entra em operação para combater desinformação na campanha eleitoral

Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

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