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O Despertar, de Clecius Alexandre Duran

Mês de novembro está acabando, e as postagens especiais também. Eu sei, pode pegar seu lenço e enxugar as lágrimas. Achei uma ideia tão bacana que quero repetir no mês de novembro do ano que vem, então não precisa ficar triste! Alegre-se e sinta o terror com a história de hoje! Exato, dei uma folga a vocês com o conto do convidado passado, e agora volto com tudo neste texto d’A Maldição do Lobisomem.

Clecius aceitou compartilhar um texto no blog. Não é um conto como os demais, mas sim a disposição do primeiro capítulo de seu livro na íntegra neste post.

Autor de dois romances e um conto, Clecius merece aplausos por trazer as histórias viscerais de lobisomem em contraste com as versões amigáveis e felpudas de certas obras, além de trazer a realidade das lendas às cidades brasileiras tanto atuais como na Revolução Farroupilha. É um escritor independente cuja dedicação garantiu um serviço como editor da nova versão de O Brakki, escrito por André Regal e relançado sob o selo Acervo Books. Clecius promete a publicação de um livro inédito de terror, além do terceiro volume da antologia Crônicas da Lua Cheia, histórias que estou ansioso para ler!

Com as devidas apresentações dadas, confira o capítulo O Despertar de A Maldição do Lobisomem. Não se esqueça de seguir Clecius nas redes sociais e conferir seus livros, todos os links estarão após o texto:


Capítulo 1 – O despertar

28/Jul/2015 (terça-feira) – 1º dia do ciclo da lua cheia

CONFUSÃO.   CACOFONIA.   UMA   MIRÍADE   DE   ODORES  se mesclando na escuridão. Cheiros que ele conhece de longa data misturando-se com fragrâncias inéditas ao seu olfato. Os demais sentidos   ainda   estão   entorpecidos.   Os   membros,   paralisados  e dormentes. Este é o momento que ele mais odeia. O Despertar.

Vagarosamente a penumbra da inconsciência se afasta, descortinando o véu da realidade. Ele acorda exausto, dolorido e sentindo-se derrotado. – É sempre assim! – pensa com rancor. Esse é um dos fardos da maldição que ele carrega. Aos poucos, o animal percebe a dor que lhe perpassa o corpo, como uma avalanche infinita de agulhas em brasa. Ainda deitado em posição fetal, ele luta contra a vontade de permanecer imóvel até que cesse o martírio da recente transformação. No entanto, ele sabe que precisa se levantar e pôr-se em guarda.

A criatura bestial estica lentamente cada um dos membros, alongando os músculos e acompanhando cada movimento com um baixo grunhido sentido. Embora tenha vontade de urrar, revelando ao mundo a dificuldade da tarefa posta em execução, o monstro contém o impulso. Ele tenta se colocar em pé, mas falha miseravelmente caindo sobre suas quatro patas, retorcendo-se em intenso sofrimento. O demônio profano sente o aperto dos trapos espalhados por sobre seu corpo. Trapos impregnados com um cheiro que, num só momento, é e não é o seu.

Com o pingar dos segundos que aparentam durar uma eternidade, ele recupera a capacidade de movimento de cada um de seus membros. Um a um. Pouco a pouco. Embora a dor seja excruciante, sua capacidade de recuperação não é menos notável. Com o autocontrole voltando paulatinamente, a criatura rasga os restos das roupas que ainda insistem em se grudar ao torso. Enfim, completamente livre das amarras humanas!

Respirando lentamente e com dificuldade, o licantropo recupera suas forças e sua mobilidade, finalmente sentindo-se capaz de se pôr em pé. Sua altura prodigiosa é capaz de assustar mesmo o mais corajoso caçador e enganaria aqueles que, porventura, tivessem antevisto apenas o animal com a postura contraída e colocado sobre as quatro patas. Ao ficar ereto, o tronco hirsuto e musculoso do lobo se expande, revelando uma espantosa criatura antropomórfica: uma silhueta corporal que lembra um gigantesco ser humano, com exceção da longa cauda e das pernas cujo desenho ainda guarda estrita semelhança com as patas traseiras de sua ancestralidade animal, o canis lupus signatus. Por outro lado, ao arriscar uma olhada de mais perto, a visão de uma cabeça extremamente volumosa coroada com uma grande cabeleira e um par de orelhas triangulares e pontiagudas, além de uma poderosa mandíbula protuberante encimada de um focinho pronunciado, não permitem confundir a hórrida entidade com um ser humano. Sua pelagem escura tem a cor castanha, apresentando no dorso uma lista negra que se estende da nuca ao final da cauda.

Ao seu redor, uma fina película de vapor o envolve, resultado da contraposição do clima frio ao corpo hipertérmico do lobisomem.

Num rápido exame, ele aponta o focinho em direção ao céu e aspira profundamente o ar da noite para se localizar e determinar eventuais perigos à espreita. Assim como o olfato, os demais sentidos da criatura também são mais desenvolvidos, mais sensíveis, embora temporariamente reduzidos pelo recente e turbulento despertar. Ele já conheceu outros predadores. Alguns são aliados, outros não. Alguns são fortes, outros são numerosos, mas todos são capazes de representar um perigo à sua sobrevivência.

Terra úmida, mato recém-cortado e algumas árvores são os cheiros mais próximos. Nenhum perigo imediato foi revelado pelos odores captados. O fedor pungente de urina e fezes de animais menores destaca-se ao olfato. Utilizando a visão que se adapta à noite, como convém ao animal de hábitos noturnos, a fera esquadrinha a escuridão à sua volta, reconhecendo o território e percebendo estar em um local ermo, ligeiramente distanciado das casas e edifícios que rodeiam aquele pequeno perímetro parcamente arborizado. O lobo se encontra numa praça na cidade de Londrina chamada pelo apelido de Zerão em razão de seu formato ovalado. Um pequeno espaço de verde com árvores altas, vegetação rasteira, um amplo gramado e duas quadras cimentadas, encravado no centro da cidade. Junto ao leito do pequeno riacho onde ocorreu a transformação, o lobisomem toma consciência de que se encontra, novamente, cercado pelas construções com luzes artificiais que, mesmo com sua visão acurada, ofuscam o brilho das estrelas. Ele está em território hostil, longe das árvores abundantes de uma floresta ou de um mero matagal, que são seu habitat natural.

Apesar das dores lancinantes e da tontura provocada pelo excesso de informações que seu cérebro busca processar, a criatura tenta caminhar, mas é vencida pela vertigem, tombando de encontro ao chão. A dor em seu estômago aumenta repentinamente e ele sente o latejar de seu esôfago preparando-se para expelir todo o conteúdo estomacal semidigerido: pães, vegetais, frutas e apenas um pouco, somente um pouquinho intoleravelmente diminuto, de carne. A fera caliginosa sabe que precisará conseguir comida de verdade. Uma quantidade generosa de carne para saciar sua fome e satisfazer seu apetite voraz. Mas, antes, precisa livrar-se daquilo que a aflige.

As convulsões, então, aumentam provocando intesos espasmos até que o líquido quente e malcheiroso que se alojava em suas entranhas sobe pela garganta e é arremessado ao chão num jato multicolorido com predominância da cor verde. Uma pasta espessa composta de restos de folhas de alface, arroz, tomate, beterraba e outras folhas, frutos e raízes – que compõem o banquete de uma vaca, um cavalo ou qualquer outro ser nas escalas inferiores da cadeia alimentar, e não o repasto digno de um predador – é depositada no espaço à sua frente, entre seu corpo e um banco de concreto.

O monstro lupino respira com dificuldade em arquejos curtos, ainda não totalmente livre do enjoo.

Um novo regurgitar expulsa o resto da porcaria que ainda lhe ataca o estômago, sobressaindo em sua língua um toque ácido, levemente picante.

Imediatamente, o lobisomem torna a olhar para o céu noturno à procura da posição do pequeno disco prateado. A lua cheia, parcialmente escondida por nuvens escuras, indica, pela sua trajetória orbital, a proximidade da meia noite.

—Ladrão maldito! — é o insulto que cruza sua mente enquanto um nó dolorido lhe aperta a boca do estômago. — Dessa vez, sua beberagem não conseguiu atrasar minha chegada!

Depois de vomitar todo o conteúdo estomacal, o monstro metamórfico percebe o desaparecimento de grande parte de sua fraqueza anterior. A náusea que lhe limitava os movimentos e entorpecia parcialmente seus sentidos aguçados é substituída pelo ímpeto atávico de se alimentar.

A fome o envolve como uma amante antiga e familiar, abraçando todo seu corpo e fazendo surgir uma irrefreável vontade de saciar seus instintos primevos. O licantropo anseia não somente pela carne que lhe arrefecerá o vazio na barriga, mas também pelo sabor cúprico do sangue quente da presa a escorrer por sua boca, encharcando o pescoço.

Obedecendo ao desejo imperativo que lhe é inerente, a fera torna a se erguer sobre as patas traseiras, farejando o ar a fim de perscrutar os arredores na tentativa de localizar uma presa apetecível.

As lendas referentes aos hábitos alimentares da sua espécie ditam que os lobisomens têm especial predileção pela carne humana. Na verdade, esta espécie de predador consome qualquer animal, racional ou irracional, grande ou pequeno. Os animais de maior porte são preferíveis aos pequenos pela maior quantidade de carne oferecida, bem como por darem menos trabalho no momento da caça – os animais menores são excessivamente medrosos, rápidos para empreender fuga e encontram refúgio em diversos locais não alcançados pelas garras lupinas. Se a escolha da presa for entre um coelho e uma vaca, fica-se com a vaca. Por sua vez, a grande frequência do ataque aos humanos decorre do simples fato que esta presa encontra-se em qualquer localidade e com maior abundância. A caça selvagem a que os licantropos estavam acostumados no Velho Continente está incrivelmente escassa. O mesmo acontece em toda a América e no resto do mundo. A fauna abundante que permitia o sustento tranquilo dessas criaturas não mais existe. Em contrapartida, os seres humanos encontram-se disponíveis no cardápio de qualquer local, isolados em pequenos grupamentos rurais ou reunidos em grandes aglomerados urbanos.

Dos  odores  trazidos  pelo  gelado  ar  noturno,  destaca-se  um  suave  perfume adocicado  mesclado  pelo  cheiro  inconfundível  dos  hormônios  femininos secretados durante a gestação. Tal combinação de aromas faz o lobo salivar.

Dentro da espécie humana, os lupinos voltam especial atenção às mulheres em estado  final  de  gravidez.  Embora  consumam  a  integralidade  do  corpo  humano,  o lobisomem  costuma  começar  a  devorar  a  vítima  pelas  entranhas.  Geralmente,  as vísceras são ingeridas em primeiro lugar para atender o especial paladar da criatura. Não é de se estranhar, portanto, a particular preferência pelas grávidas. O ataque a uma fêmea prenhe tem duas vantagens: de um lado, seu estado físico dificulta a escapatória e faz com que oponha menor resistência, facilitando o ataque do animal; de outro lado, há o prêmio a ser saboreado. Embora o lobisomem aprecie o sabor das tripas em geral, o feto, nos últimos meses da gravidez, representa uma iguaria ímpar, um misto delicioso de carne tenra e ossos macios – a versão baby beef na licantropia.

Por sorte ou por interferência do destino, uma mulher grávida caminha em direção à praça. Esta noite, o atalho para chegar mais cedo em casa terá um alto custo…

Transição - Clecius

Sandra pensa que a pessoa que aconselha a caminhada como exercício ideal para as gestantes nunca experimentou o peso extra dos últimos meses da gestação. Além do volume que ela carrega no ventre esticado, seu corpo todo está inchado e sua forma física silfídica, que arrancava olhares de admiração da maioria dos rapazes (e de inveja da totalidade das outras moças), parece-lhe um sonho distante.

Cansada de um dia de trabalho, ela pensa nas tarefas domésticas que ainda tem pela frente e arruma a touca vermelha de lã que lhe escorrega da cabeça. Mãe solteira que vive sozinha, ela tenta melhorar de vida, arriscando um destino melhor que aquele partilhado pelos outros membros de sua pobre família, que se resignaram a permanecer na pequena cidade onde nasceram, com poucas oportunidades de trabalho e nenhuma perspectiva de ascensão social.

Mesmo surpreendida com a gravidez não planejada, Sandra continua a perseverar na busca de seus sonhos.

Naquela noite fria de final de julho, o cansaço e a pressa de encontrar o abrigo do lar modesto fazem-na decidir cortar caminho e, em vez de encarar o trajeto mais longo contornando o logradouro público, a jovem opta pelo precário e mal iluminado atalho. Sua decisão parece-lhe extremamente razoável, pois a trilha encurtada passa pelo meio de um punhado de árvores que, mesmo com fraca iluminação pública na orla da praça, não apresenta qualquer obstáculo.

Ao atravessar a rua que circunda o Zerão, uma vibração se faz sentir no interior de sua bolsa, acompanhada com o pegajoso refrão de uma música viralizada pela internet: “♪ Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego… ♫ Delícia, delícia, assim você me mata!”.

Sem diminuir o ritmo, Sandra saca o pequeno celular e, olhando rapidamente no visor do aparelho, atende à chamada.

— Oi, mãe — ela cumprimenta sem diminuir o ritmo dos passos.

— Oi, filha. Onde você está? — Dona Cremilda indaga deixando um leve traço de preocupação vazar pelas palavras.

Ligeiramente ofegante, Sandra responde com rispidez: – Já estou indo pra casa, mãe. Mais dez ou quinze minutos e já chego lá – conclui, esperando ter colocado um ponto final no colóquio.

— Tá bom, filha. Só liguei para saber se está tudo bem com meu netinho – acrescenta com voz langorosa.

Um carro, com os faróis baixos acesos, passa lentamente na rua adjacente à praça no momento em que Sandra inicia a passagem pela trilha do atalho. A luz do veículo ilumina por um breve relance o trecho em que a iluminação dos postes não alcança o caminho. Sandra procura disfarçar a ligeira preocupação que lhe assalta pensando que nada de errado pode acontecer em tão curto espaço. Uma suave brisa noturna passeia por entre as árvores, fazendo farfalhar a folhagem das copas e acariciando a nuca da jovem com um toque gélido. Um arrepio perpassa sua espinha e Sandra não consegue afirmar se a sensação se deve exclusivamente ao vento noturno. Ela coloca um cacho solto de cabelo atrás da orelha, gesto recorrente sempre que se encontra apreensiva, mas busca um tom de voz leve e relaxado para tranquilizar sua interlocutora.

— Ai, mãe! A senhora se deu ao trabalho de ligar a essa hora só para isso? — questiona fazendo um muxoxo. — O médico disse que demora mais duas ou três semanas. Não se preocupa, não — declara com segurança.

— Ah, Sandrinha… — Dona Cremilda recrimina a filha com um tom magoado. — A gente nunca deixa de se preocupar com os filhos, não importa a idade ou a distância. Você logo vai saber como é… De qualquer forma, só queria saber se estava tudo bem. Vê se descansa,

Sandra pensa ter vislumbrado uma sombra passar pelas árvores, numa trajetória paralela à sua, mas a conversa com a mãe a distrai: – Pode deixar, Dona Cremilda. Quando tiver novidades, eu te ligo. Deixa eu prestar atenção no caminho para não cair nem tropeçar em nada.

— Você está de novo voltando sozinha a pé pra casa? – Dona Cremilda dispara, sem conseguir disfarçar a crítica embutida na pergunta.

— Estou, mãe. Não se preocupa, já estou quase lá – Sandra responde tentando disfarçar o aborrecimento que sente.

Apesar do carinho revelado pela preocupação materna, a jovem se ressentia da suposta sabedoria materna que sempre tentava dissuadi-la de todas as suas escolhas de vida. Se fosse ouvir os conselhos da mãe, Sandra sequer teria saído de sua cidade natal. Assim, sem dar espaço para o início de uma longa e tediosa peroração sobre os perigos da cidade grande, Sandra se despede: – Um beijo, mãe. Depois eu volto a te ligar…

— Um beijo, filha — resigna-se Dona Cremilda.

 

Transição - Clecius

O caçador noturno avalia o rumo de sua presa e, encontra o melhor local de ataque, longe das luzes amareladas das lâmpadas de vapor de sódio dos postes de iluminação pública e dos olhos de eventuais testemunhas. Silenciosamente, como só as criaturas nascidas para caçar são capazes de se movimentar, ele corre pelo interior da praça, tomando dianteira e escondendo-se atrás do grosso tronco de um ipê-roxo, fazendo com que seu contorno sobrenatural se confunda com as sombras. A respiração lenta e compassada do lupino solta pequenas lufadas de vapor no ar da noite, mas nada que possa alertar a mulher sobre a sina que se aproxima.

Com a atenção voltada ao som dos passos que se avizinham e do cheiro adocicado do perfume feminino que se intensifica, o lobisomem contrai os músculos das pernas e permanece com as orelhas levantadas e direcionadas para a origem do barulho ritmado.

Quando o vulto da vítima se encontra no raio de alcance de seu salto, um par de olhos fosfóricos e flamejantes se acende na escuridão e o predador implacável dispara contra a mulher. Esta se vira instintivamente, seguindo o conselho de um sexto sentido atribuído ao gênero feminino, mas é tarde demais. O choque dos corpos faz com que o ar escape dos pulmões da presa, sufocando o grito nascido do horror. Ao ser derrubada, Sandra tenta inutilmente afastar o agressor com os braços, mas sua força é insuficiente para sequer sustentar a pesada criatura, e, antes que consiga recuperar o fôlego para gritar por uma ajuda que nunca chegaria a tempo, um poderoso torno de maxilar e mandíbula com dentes pontiagudos se fecha sobre seu pescoço, torcendo-o até que o estalo como de um galho seco se faz ouvir. O gosto de cobre derretido se espalha pela língua da fera. A adrenalina disparada no momento do ataque ainda se encontra no sangue da mãe-que-não-será quando uma garra peluda abre-lhe o ventre a partir do esterno. Diferente da estória clássica, não é o lobo que é eviscerado. O talho rompe diversas camadas de pele, gordura e músculos até deixar exposta a bolsa amniótica e o feto que ainda se agarra à vida. Sem hesitação ou remorso, o licantropo arranca-o da carcaça abatida, mastigando o pequeno ser que rapidamente se transforma em pedaços sangrentos de carne, deixando rubro o focinho e os cantos da bocarra animalesca. A trituração dos frágeis ossos fetais faz com que o paladar do lobisomem se perca em intenso deleite ao sentir o sabor levemente untuoso do líquido gelatinoso da medula óssea.

Após saciar o primeiro impulso carnívoro, o lobisomem arrasta o corpo inerte para longe da trilha em direção a um conjunto mais cerrado de árvores, próximo ao leito do riacho onde despertou há poucos minutos, e, uma vez nesse abrigo improvisado, termina calmamente seu banquete macabro. Sem pressa, a criatura arranca nacos generosos dos intestinos, desenrolando-os de dentro da barriga aberta de Sandra. Na sequência, o fígado, o estômago e todo o resto do aparelho digestivo são consumidos com volúpia.

Depois de saborear tranquilamente o que restou das vísceras da mulher, o lobisomem inicia o processo brutal de ingestão completa da presa.

Os pequenos ossos das mãos e dos pés estalam como salgadinhos crocantes quando mastigados pela bocarra sobrenatural. Depois de consumir a carne, o predador passa a roer prazerosamente os ossos, procedimento necessário para repor o cálcio utilizado na modificação esquelética ocorrida no momento da transformação arcana.

Sem deixar traços que identifiquem o ataque recente, a criatura alcança dois objetivos: alimentação plena e manutenção do segredo da sua existência. Antes mesmo que lhe seja ensinado, o lobisomem possui um sentido atávico de preservação que lhe aconselha a disfarçar e ocultar o que ocorre durante sua caça.

Terminada a lúgubre refeição, o lobisomem sabe que deve procurar um local afastado das construções humanas. Seu faro indica um caminho arborizado lindeiro ao riacho. Não é a primeira vez que ele se utiliza daquela trilha para escapar para os braços da natureza.

Mas antes de empreender a fuga, com o estômago cheio e inebriado pelo aroma penetrante do sangue fresco, o lobo empina seu focinho para a lua cheia e uiva longamente em cumprimento ao astro que lhe orienta a vida.


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Livros de Clecius

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

O Brinquedo (conto)

O Brakki (editado por Clecius no selo Acervo Books)

Resenhas do Blog

A Maldição do Lobisomem

A Ascensão do Alfa

Um Banquete à Borrasca, de Auryo Jotha

E continuamos os posts especiais de novembro com o conto do convidado! Outro autor teve o prazer de compartilhar um de seus textos e mostrar do que é capaz, lembrando que no fim do post tem link com seu perfil e indicação de livro. Se não viu o conto de Wan Moura que abriu o mês com esta novidade, clique aqui e conheça.

Auryo Jotha é o autor do conto de hoje. Sua obra principal é Carne Morta, um livro do Wattpad que foi um dos vencedores do maior concurso da plataforma, o The Wattys 2018. O livro mantém-se atualizado com novas histórias de mitos já conhecidos com uma pegada mais sombria. É um entusiasta da mitologia existente em nosso território, seja ela brasileira ou anterior a chegada dos europeus.

Assim como o convidado antecessor, Auryo nos trouxe uma demonstração tenebrosa de suas habilidades narrativas com a história sobre o mito grego, mas ainda com elementos brasileiros. Então tire as crianças da sala durante a leitura! Ou se você for uma criança, recomendo ler O Pequeno Príncipe. Brincadeira! Pode (e deve) ler O Pequeno Príncipe na idade que quiser. Aproveite o texto de Auryo Jotha a partir de agora:

Carne Morta - Auryo Jotha


Um Banquete à Borrasca

Sim… como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais… Mais… Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso…!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcançou uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho… A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre…

Ah…!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas… — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo “idiota”. Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou…

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per…

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

— Humm… Pois bem, Luna-Ninguém…

A criatura se virou abaixada com a uma pata erguida em busca do corpo nu atrás de si. Elegante. Fincou as garras no crânio dele, e o levantou devagar. Um sorriso contido. As pernas dele arrastaram-se na pedra, quando foi mostrado para a visita.

— Amigo seu? Ou de ninguém? Encontrei esse mais cedo andando por minha caverna.

— Não! — Não era uma resposta ao que fora perguntado. Os olhos fixos no rapaz marejaram. Recompôs-se. — Felizmente, não.

— Muito bem, Luna, e quantos vêm contigo? — Sua voz saiu rasgada, áspera.

— Sou apenas eu.

— O quão imprudentes são os Homens, não? — Soltou, e o corpo caiu sem jeito. — Mas é uma pena serem tão frágeis.

A moça fechou os olhos, respirou fundo, tentando se acalmar. Dois de seus companheiros já haviam sumido nas sombras ao fundo da caverna, o outro ficou no meio do caminho para caso algo desse errado; Luna olhou para ele, arma em punho, mira na Harpia, qualquer movimento atiraria, sabiam do risco, por isso ela não havia jogado tão longe a arma, estava ali no chão ao alcance; a criatura veria se tentasse?

— Sei que parece um absurdo, vir… — ela prendeu o fôlego quando a criatura começou a se aproximar de novo — um absurdo vir até aqui desacompanhada.

— Realmente, minha cara. — Mais três passos. — O que tens? Não tenha medo, pode se aproximar, como vês já tenho comida… para hoje.

A Harpia ficou séria de repente. Inclinou a cabeça para um lado. Suas garras arranharam a rocha. Ela ouvirá algo? Não!

— Me desculpe!, — Luna deu uns passos p’ra frente — de novo. É que estou muito cansada, não queria ser mal-educada. É que nos últimos anos viajo sozinha — os olhos da criatura voltaram a mirar sua visita — e acho que desaprendi como lid…

— Pois me conte. Você acertou meu ponto franco, sempre estou disposta para uma boa história; e se tiver sorte não só eu a conhecerei…

Nem todos juntos a matariam; só agora entendia isso. Essa era a oportunidade. Agarre-se! Tinham que conseguir o que vieram pegar. Fale!

— H…? Bem… Vi lugares e seres incontáveis. Ouvi — fez uma pausa involuntária ao perceber que havia se afastado do local onde havia jogado a …! — Ouvi os mais extraordinários mitos, lendas. Perigos vindos em todas as formas. Porém nesse tempo havia mais gente comigo, lógico, eramos…

— E o que houve?

A Harpia chegou tão perto; Luna não podia recuar.

O medo é fétido.

Olhou para trás em busca da arma. Continue!

***

Uma bagunça. O ar em podridão no fundo da caverna fazia com que os dois respirassem rápido e prendessem o fôlego; a saliva se acumulava não querendo ser engolida. O chão estava escorregadio de umidade e das sobras de antigas refeições.

“Entendo.” A voz da Harpia rastejava até eles pelas sombras.

“Principalmente porque não sabíamos o que era aquilo”. A de Luna também. Estava tudo correndo conforme as instruções recebidas.

As luzes das lanternas passavam por ossos, palha, tecidos retalhados, algo que lembrava um ninho, restos de animais, um livro, espadas, joias que mal brilhavam por baixo da sujeira. Cadê?

“Descemos o rio…” Enquanto as vozes conversassem eles estavam a salvo. “… ele ‘tava ferido, mas ainda conseguia ficar…”

Tinha que estar ali; trazido junto com alguma refeição antiga. Perdido há anos, finalmente localizado; a informação era certa, tinha que estar ali. Talvez estivesse encoberto pela sujeira.  Um deles apertou com a mão uma medalha que trazia no peito: um santo carregando uma lança e um lampião – São Longino.

“…ntramos o que ‘tava causando todas aquelas mortes…” Acabou. Não havia mais para onde ir, tinham agora que revirar cada corpo, cada monte de roupas, revirar os minutos que não possuíam. “…tínhamos que queimá-la…”

E se jamais fora levado p’r’aqui? E se nunca…? Não! A informação era confiável. Não era?

“MENTIRAS!” A Harpia berrou. E o som de asas pesou o ar.

***

— Estou velha, como pode ver. Mas, séculos e mais séculos não mudam os Homens; o que verdadeiramente quer aqui?

— Eu… — hesitou.

— Sem timidez, diga-me. — O hálito forte.

— Por favor, eu… — a criatura entortou a cabeça para ouvir. — Eu sei… que parece…

— Mais mentiras? Insistirá nisto? Então, eu mesma descubro. — Encostou o bico no braço de Luna e respirou fundo. — Estranho. Não sinto o seu cheiro.  Por quê? De onde vieste?

— Br… Brasil.

— Impossível. Como conseguiste fugir de lá se as fronteiras estão fechadas para nós? Eu sei, Luna-Ninguém… Nem se espante. Posso viver isolada, mas sei de muito do que acontece em outras terras. A opressão e a caça que ocorrem lá chegaram até meus ouvidos.

— Eu… — A proximidade da Harpia a incomodava.

— Não houve fuga. É isso…? Livre acesso? Livre saída? E isso é o que me deixa mais curiosa por saber quem te enviou. E como fala tão bem o meu grego? Sua língua foi encantada com prata? Peixe Babel? Diga-me.

— Fugi pelo sul do país com a ajuda de um espírito e cavalos invisíveis.

— Pséma! Pséma. Mentira! Eu sei que o Errante se levanta… que escolas bruxas foram fechadas, oráculos perseguidos, vampiros mortos, sei que licantropos servem como cães farejadores. Mesmo que escondam… é um país em guerra. Responda-me: por que alguém que fugiu de tamanhos horrores iria querer morrer aqui?

— Vim em busca de algo para deter tudo isso.

— Se é no que acreditas.

A Harpia abriu as asas, desprendendo de seu corpo uma lufada de odor e podridão. Suas asas envolveram a moça, taparam sua visão. E com uma das patas agarrou-lhe o queixo.

— Mentiras! MENTIRAS. — Sentiu o cheiro do sangue a escorrer pelas pontas das garras em contato com a pele. E puxou. O maxilar da moça foi arrancado, e sua língua balançou em sangue. Sem gritos, sem gemidos, os olhos se apagaram de dor.

A poeira dançava ao redor. Ouviu-se um tiro. Tarde demais.

ATIRA!

Ela caíra mole no chão.

ATIRA! ATIRA!

O gatilho. As balas. A criatura se virando. Aqueles olhos brancos. Cegos.

VAI! ATIRA!

Um grito agudo, seco rasgou-se da garganta daquilo e jorrou-se por entre os dentes, por entre o bico aberto.

Não, não.

Ela não morria; POR QUÊ?!

Em segundos as garras da Harpia se encaixaram no crânio do que ficara de guarda; e a pata desceu… Ossos esmagados, algo escorrendo por entre os dedos: silêncio.

…!

Ela esperou mais algum ruído… eles sempre faziam.

— QUEM OS ENVIOU ATÉ MIM?

Com os compridos dedos entrelaçados às costas, caminhava em direção aos fundos da caverna deixando uma pegada de sangue pelo caminho, junto com raras gotas vindas das feridas deixadas pelas balas.

— MAS ME DIGA QUEM DISFARÇA O VOSSO CHEIRO? Magia… não? Tanta CAUTELA assim… Quem seria…?

Os joelhos se dobrando ao inverso dos dos Humanos a levavam mais e mais perto dos dois últimos visitantes encostados à parede.

— Ah eu sei o que quereis… O que tu procuras há muito foi levado.

Abriu as asas tentando fechar a passagem. Curvada, caçava: movia lentamente as asas para alcançar qualquer coisa viva. Um único som era o que precisava.

— Não há recompensa para esta missão. Não há caminho de volta. Não haverá banquete à tua espera. Ficarás aqui: meu caro herói anônimo… derrotado no meio da jornada. Como ninguém.

Cega: ela agarrava o ar. Mais um passo. A respiração presa deles dois iria denunciá-los quando fosse solta. Mais um passo. Os dedos da criatura quase os tocavam. Aquela língua seca, negra queria ser saciada. Mais um passo. Cada pena de seu corpo arrupiava-se com a Morte.

Os dois precisavam arriscar. Um olhar, um acenar de cabeça. Soltaram o ar quase juntos, e saíram correndo para lados opostos. Sacaram as armas; mirar e correr: atiraram ao léu.

A Harpia agarrou um jogando-o no chão. Bem seguro, deitou-se sobre ele, abriu o bico, inclinou-se; uma bala entrou-lhe pela garganta, mas a criatura continuou, fechou o bico com um único movimento entorno do rosto de sua visita, que se fora com um estalo. E a arma ainda fumegante caiu inerte no chão.

O último de seus visitantes era agora passos distantes. Iria atrás dele? Ensopada, um pouco ferida, levantou. E os olhos brancos dela miraram a saída.

***

Sim! Estava a salvo. Tremia, as lágrimas lhe escapavam como o ar dos pulmões. Sobrevivera. Descera a montanha esperando ser içado aos céus a qualquer momento, depois ser arremessado lá de cima. Mas, agora… estava sob a proteção de um bosque, e mesmo que próximo da caverna não haveria mais perigo.

— Consegui! — Um sorriso ergueu essa palavra no ar por alguns instantes.

A Harpia estava morta, sim… era isso que diria para todos. Mesmo que não tenha conseguido salvar mais alguém do seu grupo, e nem recuperado o que tentaram achar, matara a Harpia, isso já era muito, já seria uma história e tanto. A criatura ia terminar de se apodrecer naquele lugar. Morta com um tiro na garganta. Ele mesmo que a enganara contando histórias, arriscara-se muito e sozinho, sozinho, mas era o único jeito de acabar com aquela aberração. Sua própria bala rompera a vida dela. Isso… Um herói!

O melhor é que não sobrara alguém para desmentir sua história. Um herói.

A glória enfim estava pronta para ser colhida.

Por entre as árvores uma sombra de asas passou sobre ele seguida por um vento forte com cheiro de chuva.

— Um gavião… — Disse para si. — É só… um gavião…


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