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Sons da Fala (Estreia do Projeto Cápsula da Morro Branco)

Nunca tivemos tantos recursos de comunicação iguais os de hoje, e isso acarreta numa ideia ingênua de tirarmos grandes benefícios desta situação. Na verdade até podemos elencar elogios a esses avanços, só é preciso destacar também os problemas. Todos podem ter voz, e isso nada garante de a voz mais ouvida for transmitida por ter conhecimento ou propostas de melhoria. É aquela provinda do desgaste, da injustiça ou ingratidão reconhecida por muita gente, e por isso é mais difundida. E se perdermos essa capacidade de ampliarmos nossa voz, ou pior, perder a própria comunicação verbal ou escrita? O desgaste, injustiça e ingratidão ainda prevalecerão, e ganharão força na violência.

Sons de Fala aborda este mundo onde a comunicação foi perdida. Publicado pela primeira vez em 1983 por Octavia E. Butler, a editora Morro Branco disponibiliza este conto de graça através do Projeto Cápsulas. Com tradução de Heci Regina Candiani, o conto narra a história de Rye e sua tentativa de sobrevivência neste mundo sem comunicação verbal.

“Observou-o gritar com uma raiva sem palavras”

Rye está no ônibus, a caminho onde ainda poderia encontrar algum parente vivo, quando a confusão acontece. Dois passageiros começam a brigar, deixam os demais apavorados, apesar de terem consciência de algo do tipo acontecer. O motorista força manobras, balança o ônibus e tenta desequilibrar os lutadores a ponto de os derrubarem e impedir a agressão, e ao conseguir, dois outros passageiros também brigam.

O motorista pausa a viagem depois dessas confusões, Rye mantém distância até tranquilizar a situação e poder continuar a viagem, quando observa outro carro se aproximar — os veículos são raros tanto quanto os combustíveis —, é de um sujeito com o uniforme do Departamento de Polícia de Los Angeles, instituição que deixou de existir. Ele tenta comunicar com Rye através dos gestos, custa compreender a situação entre os passageiros do ônibus, tudo por causa da doença capaz de inibir a capacidade de comunicação entre eles, alguns desaprenderam a ler e escrever e/ou perderam a capacidade de formar palavras ao falar.

“A despeito do uniforme, lei e ordem não eram nada — já não eram sequer palavras”

O tema deste conto vem aos poucos, dilui pelos primeiros parágrafos e permite o leitor digerir a situação extraordinária. Só depois confirma: as pessoas perderam a capacidade de comunicar. Oferece um tempo confortável a interpretar o problema apresentado e as consequências dele, como o motivo de deixar as pessoas mais violentas — com maior incidência em homens — e denunciar muitos comportamentos presentes mesmo trinta e cinco anos depois do conto ter sido escrito.

Octavia usa da prosa descritiva, incisiva quanto ao que acontece aos personagens ou sobre sentimentos e ideias deles. O narrador diz sobre as pessoas desta ficção e das situações desconhecidas pelos personagens, cita o nome dos lugares mesmo quando Rye é incapaz de ler, servindo de intermediário entre o leitor e a protagonista com esta dificuldade. A autora prova outra vez de como contar a história em vez de mostrá-la pode funcionar, quando bem executado; o leitor pode deixar de sentir empatia através dos gestos e intertextualidade comum à narrativa exibicionista, por outro lado o percebe quando as questões do enredo surgem na hora certa e conseguem gerar impacto ao personagem afetado.

Também é nítida a exploração de temas sociais. A diferença entre os gêneros das pessoas e os possíveis conflitos dessa, a violência eminente no encontro de pessoas desconhecidas, pois apesar de compartilharem da mesma miséria, reagem de formas diferentes, e ainda por cima a esperança com a devida precaução de poder seguir mesmo nessas dificuldades. Octavia usa o gênero da ficção científica ao apontar e denunciar os aspectos de nossa humanidade.

O Projeto Cápsula da Morro Branco fez bem em estrear pelo conto Sons de Fala. O motivo vai além de Octavia trazer ótimos retornos à editora através dos outros romances já publicados pela primeira vez no Brasil — como a duologia Semente da Terra. Este conto persiste as qualidades da autora mesmo nessa história breve, trazendo aquele desconforto impactante capaz de nos provocar e refletir os problemas resilientes que parecem nunca desaparecer.

“E nesse mundo em que a única linguagem comum provável era a corporal, estar armada quase sempre bastava”

Sons da Fala - capaAutora: Octavia E. Bulter
Tradutora: Heci Regina Candiani
Ano de Publicação Original: 1983
Edição: 2019
Editora: Morro Branco (Projeto Cápsulas)
Quantidade de Páginas: 35

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A Taverna: Volume 2 da Revista de Contos (Divulgação)

Já tive a oportunidade de conferir a Revista de estreia do blog A Taverna com cinco contos muito bem escolhidos, caprichados e aperfeiçoados pelo trabalho de edição. Toda iniciativa a trazer maior visibilidade aos trabalhos nacionais é bem-vinda, e esta Revista serve como exemplo por trazer oportunidade a autores reconhecidos ou iniciantes a conseguirem publicar seu texto entre os demais em destaque.

Muitos aproveitaram a chance de ter o conto publicado na segunda edição da Revista A Taverna, poucos passaram pelos critérios rigorosos — e justos — dos editores do blog, e dentre eles houveram cinco escolhidos a terem seus contos conhecidos nesta pequena antologia digital. O mais surpreendente é, entre esses cinco, eu sou um deles. Isso mesmo! Eu, Diego Araujo, criador e editor deste site, venci o concurso e pude compartilhar meu conto junto com os demais quatro autores de contos extraordinários.

Reconheci a qualidade dos contistas premiados na primeira edição, e está difícil expressar tamanha gratidão por eu estar entre os cinco selecionados do novo trabalho da equipe A Taverna. Mas este post não é apenas uma comemoração, apresento a seguir cada conto disponível na Revista. Recuso a chamar de resenha, pois fico pouco à vontade de avaliar meu próprio texto. A intenção aqui é divulgar esta edição, mostrar os melhores pontos de cada conto e torcer para que a iniciativa do blog A Taverna persista e cresça cada vez mais.

Enfim, vamos aos contos!

“O que o Vento Sul Sussurra”, de H. Pueyo

Conhecemos Elías Bazuá em seu serviço solitário, o de manter o escudo da região Ushuaia contra colisões de cometas. O planeta Terra sofre impactos astronômicos há tempos, apenas os escudos protegem os locais da colisão. Elías conta com a ajuda de Heloise, um sistema de inteligência artificial, e enfim recebe uma colega de trabalho humana de acordo com as características pedidas por ele, a Lola. Tanto Elías como Lola são autistas, apesar de o rapaz ter maiores dificuldades com esta situação.

O conto de ficção científica situa o planeta no ambiente posterior a calamidade, que para variar é desconhecida da maioria das pessoas, essas alheias aos estudos científicos. Apresenta dois casos de autismo e torna nítida a diferença no desenvolvimento da pessoa em tais condições, de como a ausência de tratamento adequado pode prejudicar alguém, como privá-lo da interação com outras pessoas. Além do tratamento, os recursos desta ficção científica auxiliam os autistas, quando esses têm condições de obtê-los. O que o Vento Sul Sussurra representa esta minoria de necessidades específicas ao demonstrar de perto como tais pessoas convivem, ou no caso a dificuldade de elas conviverem.

“O Touro Vermelho”, de Ana Lúcia Merege

Antonio está na excursão com os amigos sobre a civilização minoica. Presunçoso quanto as informações dadas, o garoto demonstra a falta de coragem em outros aspectos, aquela insegurança comum de adolescente. Se distrai na excursão ao desenhar as peças em exposição, e de repente fica surpreso com a aventura disponível a frente.

O conto acompanha a intimidade do rapaz protagonista quanto aos dilemas típicos da idade. No plano de fundo há menções sobre a civilização apresentada nesta excursão, a contextualiza antes de levar os personagens rumo à conclusão inesperada, apesar da prova de superação por parte do Antonio.

“Limiar”, de Jaime de Andruart

Aqui encontramos um gaúcho a serviço de encontrar o touro sequestrado do patrão, exceto de nada do desenrolar desta história ser simples. O gaúcho ouve a profecia tanto pelo representante guarani quanto de cristão, e as mensagens demonstram pouca clareza quanto ao destino da caçada como também da humanidade.

O conto mescla conceitos de velho oeste adaptados na realidade da região sul brasileira. Além da ambientação bem representada, a narrativa em primeira pessoa carrega a linguagem distinta do gaúcho por todo o texto, enfeita as descrições com termos característicos e sempre mantém o ritmo da história no enredo reservado a esta aventura.

“Alameda dos Ratos”, de Guilherme Alaor

El Ratón puxa conversa com Ruan, um dos “Reportadores” do Conde a serviço de flagrar delitos na Alameda dos Gatos. El Ratón o convida a conhecer a outra parte deste bairro, a Alameda dos Ratos, e mostra de boa vontade a realidade negada pelos cidadãos de “Sangre”.

O conto constrói a sociedade elaborada pelo autor com terminologias próprias enquanto mostra ações ordinárias das pessoas desprovidas de benefícios. El Ratón coordena toda a história, desde a narrativa, as descrições e a interação de Ruan com o cenário a ser descoberto pelo Reportador junto com o leitor. Os argumentos sobre as diferenças de classes conclui pela justiça poética, ainda tendo espaço a mostrar outras particularidades da sociedade.

“Lembre-se, Setembro”, de Diego Araujo

Antônizo procura pelo colega de trabalho Elísio, o menino prodígio da empresa. Enquanto interage nessa realidade futurista, o amigo insiste em falar com o garoto após ele insinuar a desistir da própria vida.

Nesta ficção científica, a tecnologia funciona a favor do conforto de cada pessoa, atende as necessidades individuais enquanto prezam pelo respeito alheio. A sociedade previne o ócio através das competições constantes, motiva as pessoas a serem ativas ao entrar nas mais diversas disputas, sejam no trabalho ou na vida particular. Mas tal sistema não acomoda a todas as pessoas, e Antônizo busca a solução a Elísio por conta própria. Além das especulações científicas, este conto transmite a mensagem de conscientização e prevenção ao suicídio, acima de tudo: sobre a valorização da vida.


A Taverna Vol2. - capaAutores: Ana Lúcia Merege, Diego Araujo, Guilherme Alaor, H. Pueyo e Jaime de Andruart
Editora: A Taverna
Edição: 2
Ano de Publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 103

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Revista A Taverna: Edição 1

Sabemos da dificuldade em produzir conteúdos literários no Brasil. Mais ainda caso a literatura seja de especulação (fantasia/ficção científica), pois alcança determinados leitores.

Nenhum empecilho impede os escritores apaixonados por este nicho. Desbravando em blogs, canais de mídias sociais ou na busca da publicação tradicional, os aspirantes a escritores traçam caminhos distintos na jornada de compartilhar histórias fantásticas. 

O post de hoje destaca a iniciativa do blog A Taverna, que realizou um concurso literário para a edição de sua primeira revista de contos. Publicada em 2019, selecionaram cinco contos dos inúmeros participantes e capricharam na edição de estreia.

Revista A Taverna: Edição 1 - capa

Os merecedores de ter histórias reconhecidas nesta estreia são: Anna Fagundes Martino, Rubem Cabral, Letícia Copatti, Renan Bernardo e Daniela Almeida.

Arrastou-se por um pântano de pensamentos suicidas  

Um conto de terror, outro de ficção científica e três de fantasia. A variedade também se situa nos cenários e características dos personagens. Os autores aproveitam da premissa elaborada pelos mesmos e constroem a trama com as consequências daquela realidade. Nenhuma capacidade sobre-humana traz apenas maravilhas. Os contos exploram muito bem quais seriam as consequências, seja pelo uso em si ou das circunstâncias levantadas na respectiva história.

Com leituras de dez minutos a meia hora por conto, os organizadores do concurso sabem escolher quem aproveita das poucas palavras e entregam a narrativa coesa, sem faltar detalhes ou impor aspectos desnecessários.

Sorrisos gastavam energias demais  

Adquiri a primeira edição da revista A Taverna como incentivo à iniciativa. Levantei muita expectativa neste trabalho e fiquei satisfeito com o resultado. Torço pelo sucesso e garantia de novas edições. Quem sabe até com versões impressas a venda nas livrarias? A qualidade para tal já está garantida.

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Crônicas de Espada e Feitiçaria

Histórias medievais estão famosas no momento. Séries, filmes e jogos aproveitam o destaque com adaptações de livros já consagrados da literatura fantástica, embora sempre tenha novos lançamentos impressos também. Desta imensa quantidade de obras há ainda enorme qualidade, muitas das minhas melhores leituras de 2018 são de histórias de cavaleiros.

O público brasileiro infelizmente recebe uma pequena parcela dos talentos fantásticos de nível internacional. A instabilidade no mercado editorial sofre dificuldades mesmo quando lançam obras de escritores já conhecidos. Porém houve esta oportunidade de trazer pequenas histórias de autores desconhecidos entre os famosos no Brasil e demonstrar mais talentos da literatura internacional aos fãs tão carentes deste nicho em nosso país.

Crônicas da Espada e Feitiçaria reúne contos de diversos autores, todos relacionados a aventuras de cavaleiros em ambientes fantásticos. Publicado em 2018, nomes como Scott Lynch, Robin Hobb e George R. R. Martin dividem as centenas de páginas com outras histórias de fantasia.

Crônicas de Espada e Feitiçaria - capa

Por ter muitos fãs da série As Crônicas de Gelo e Fogo, destaco o último conto do livro chamado Os Filhos do Dragão, história com os acontecimentos após a conquista de Westeros pela casa Targaryen.

Os cavaleiros nascem antes de serem feitos  

Histórias diversas trazem personagens das mais diversas origens e posições. De cavaleiros a reis e ferreiros a ladrões, eles possuem o desafio de encantar o leitor nas cerca de trinta páginas disponíveis da história — com algumas exceções. De mundos distintos, todos refletem em características conhecidas dos tempos passados, sejam histórias europeias clássicas, de cunho nórdico, oriental ou até lugares onde espadas dão lugar a revólver, embora ainda tenha feitiçaria.

Antes da história presente no livro, apresenta o autor correspondente. Resumo de seus trabalhos, publicações e prêmios vencidos demonstram o currículo nada humilde dos escritores selecionados. Além da temática compartilhada, a competência dos escritores selecionados são de mesmo nível.

Todos nós somos feito de luz e trevas, Gilchrist  

Os desfechos de cada história são as melhores partes deste livro. As últimas páginas prometem reviravoltas ou conclusões inesperadas que melhoram a história já boa, ou ao menos capricham os contos medianos e os tornam interessantes. A qualidade da história difere do nível social do respectivo protagonista, as pessoas cinzentas da ficção trazem questões complexas na trama e mostram suas capacidades mesmo quando são apenas seres marginais naquela realidade criada por determinado autor. 

Há textos medianos, sim. Mesmo no pouco espaço disponível para contar a história, alguns escritores exageram nos detalhes e na abordagem de alguns personagens secundários; desgasta a leitura até ver o desfecho daquela história, onde pelo menos recompensa a paciência do leitor.

Outro incômodo neste livro com vários contos de muito autores é a escrita padronizada por causa da tradução. Dois tradutores trabalharam ao longo do livro, além da terceira exclusiva ao conto de George R. R. Martin. As traduções de cada editor foram dispostas em sequência salvo uma exceção de cada, além de notar certa normalidade em todos os textos. Em outras palavras, os diversos autores internacionais foram convertidos como se escritos por apenas uma pessoa com a tradução.

Honra e fé não são virtudes, apenas desculpas para roubar mais 

O Filho dos Dragões é diferente não apenas pela tradutora exclusiva, mas na abordagem escolhida pelo próprio George R. R. Martin. Esta novela é narrada como registro histórico do passado de Westeros. Sem abordar ponto de vista de personagens específicos, são acontecimentos narrados por um meistre tal como historiadores acadêmicos fariam. Caso pense nesta história como outro capítulo das Crônicas de Gelo e Fogo se decepcionará, pois a história está completa nas quarenta páginas, só que contada por um meistre compilando os eventos. 

As Crônicas de Espada e Feitiçaria pode virar a porta de entrada a autores desconhecidos por brasileiros. Determinadas histórias já fazem parte de um universo maior do escritor e podem ser incentivados a trazer obras relacionadas ao Brasil. Faltou criatividade na edição brasileira para manter esses contos com escritas únicas, respectivas a cada autor traduzido; ainda assim o livro tem repertório interessante e vale a leitura.

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Confira o livro

Inteligência Artificial (conto distópico)

Independente da ideologia política, todo governo totalitário capaz de por em risco o bem-estar da população e negar o direito do indivíduo em tomar decisões é ruim. George Orwell chocou com a história distópica de vigilância constante, distorção de fatos e manipulação através da linguagem; só que há outras formas de apavorar o leitor com uma realidade imposta através da tecnologia. 

Inteligência Artificial é um conto breve sobre uma sociedade com chip implantado em cada indivíduo e manipulado pela tecnologia citada no nome da obra. Disponível nas plataformas digitais desde 2017, foi finalista no concurso Sweek Stars na categoria Ficção Científica. 

Inteligência Artificial - capa

Débora de Mello já apareceu no blog com suas obras da saga Hale & Hastings, além de realizar serviços de design no meio editorial. 

Repetíamos as mesmas atividades, como robôs 

[Por ser uma obra curta, a apresentação do enredo a seguir conterá alguns spoilers. Caso prefira, acesse apenas a análise final clicando aqui]

O conto é sobre a indignação de um homem idoso com as transformações da tecnologia a ponto de interferir na vida de cada cidadão. A sociedade permitiu o implante de artefatos complexos no corpo em busca de aprimoramento pessoal, entretanto a mesma tecnologia condicionou as pessoas à manipulação em massa, atuando como robôs. 

Esse senhor foi um dos primeiros a ter o implante do chip em seu corpo, e por isso a inteligência artificial tem limitações na manipulação sobre ele, o que possibilita a revolta contra o regime totalitário. 

Nossas armas são mais fortes que o que nos torna inúteis 

O narrador é pouco desenvolvido. Serve apenas de sustento entre os parágrafos de diálogo em que os personagens contam a trama com pouca ação, esta o suficiente de explorar a premissa. 

Vejo o conceito deste conto como uma metáfora ao comportamento atual de cedermos à tecnologia em busca de vantagens sem importarmos com as condições. Com o uso inconsciente das ferramentas, nos condenaremos a situações comprometedoras difíceis de lidar quanto mais demorarmos a perceber. O governo totalitário da Metrópole personifica o perigo de quem não sabe como suas ferramentas funcionam.

É uma história curta, mas provoca reflexões a ponto do leitor divagar por muito mais tempo além da breve leitura.

Morte em Luto (Não ao Suicídio)

Este foi o primeiro texto escrito por mim com a intenção de abordar a prevenção do suicídio. Decidi compartilhar no blog após revisar o conto.

Boa leitura!

Morte em Luto - árvore

O sol castigava o solo com sua intensidade impiedosa no sertão, restringindo a ligeira manifestação de umidade para um nível ainda mais ínfimo. Senhor Inocêncio perambulava com sua pá repousada em seu ombro depois de mais um sepultamento realizado, o quarto somente naquele dia.

O suor refletia o brilho da luz sobre a barba grisalha enquanto o humilde chapéu de palha protegia modestamente a cabeça ausente de qualquer fio de cabelo. No passado o tom de pele estava aquém do que seria considerado um homem de cor, mas o período de cinquenta anos de trabalho a céu aberto no mesmo local definiu uma nova tonalidade ao seu corpo.

Interrompeu seu percurso ao fitar uma criança sozinha sobre o balanço instalado num grosso galho do umbuzeiro. A menina apenas permanecia sentada no banco suspenso de madeira, com a cabeça abaixada e uma foice em sua mão direita.

Os trapos vestidos por ela eram de um pano espesso, recortado improvisadamente para adequar às dimensões da garotinha pequena. O único aspecto peculiar é a cor preta da vestimenta. Ninguém ousava vestir nada escuro sob um clima tão quente.

Seus pés estavam descalços, com algumas unhas quebradas como as de qualquer pessoa trabalhadora no campo, principalmente os desfavorecidos de se ter ao menos um par de calçados, sendo o caso dela.

Ao chegar mais perto dela, via-se lágrimas percorrendo em seu corpo até se juntar às demais numa pequena poça cheia delas no chão. Seu rosto estava imundo, como o resto de sua pele negra, e a mão com a qual mantinha sua foice empunhada estava cheia de calos. Uma visão triste como a de qualquer outra naquele lugar.

“Boa tarde, senhor Inocêncio.” Os olhos verdes maquiados com sombra borrada encaravam o coveiro se aproximando.

Opa, menina! Pode descansar o quanto tu quiser nessa balança. Parece que teve um dia difíci hoje.” O sorriso sincero do coveiro não foi capaz de animar a menininha, embora ela também tenha respondido com uma flexão nos lábios. “E como sabe meu nome?”

“Eu não estou descansando, Inocêncio. Estava esperando pelo senhor. Como pode ver eu empunho uma foice para ceifar o que deve ser colhido, mas não sou uma colhedora de verduras. Eu ceifo almas, e está na hora de eu pegar a sua, pois eu sou a Morte.”

Ficava evidente o semblante tenso na garota ao ter de explicar o seu trabalho para mais uma pessoa. Desviou seu olhar da vítima, a garganta ficou contraída ao terminar sua fala ao mesmo tempo em que exerceu mais força na mão que segurava a foice; da mesma forma que acontecia todas as outras vezes.

As feições de suas vítimas mudavam abruptamente ao anunciarem o seu fim, os lamentos se manifestavam de uma só vez no indivíduo, transformando-o em uma criatura desesperada por achar sua partida acontecer cedo demais.

Só que isso não ocorreu com o coveiro. Seu instrumento de trabalho foi ao chão, mas seu sorriso não desvaneceu, na verdade até abriu-se para apresentar os dentes amarelados entre alguns vãos dos que já não estavam presentes em sua boca.

Intão posso dizer que a gente é colega de trabalho? Por causa de tu eu tive bastante serviço essa semana.

“Sua reação me impressiona, Inocêncio. A maioria teme à mim quando eu me apresento a eles, até mesmo para quem convive com a morte durante toda a vida.”

É natural partir, minha fia. Não posso me deixar triste agora que descobri que a morte é tão bonita.

O elogio arrancou um sorriso verdadeiro na garota. Não se esperava um tratamento admirável numa ocasião tão desconfortante. No entanto até ela mereceria uma frase carinhosa nesse dia.

Tu sempre lamenta quando leva a vida do povo?” questionou Inocêncio.

“Desculpe, não costumo ser assim. É que hoje aconteceram muitas coisas ruins.

“Tive de ceifar muito mais do que o previsto”, continuou a garota. “O fim acontece em muitos lugares distantes, mas a maioria é premeditada. Só que hoje muitas pessoas antecederam sua morte cometendo suicídio. É uma atitude pensada muitas vezes de cabeça quente, que é executada praticamente na hora e sem algum planejamento.”

Um vento seco derrubou algumas das poucas folhas da árvore que caiu nos cabelos avermelhados da menina, não que alguns ramos secos a mais sobre o seu corpo a incomodasse.

“Isto aumenta a minha carga de trabalho pelo número de pessoas a mais sem nenhuma previsão, e eu não gosto de coletar almas desta forma. Quantas vezes eu já não testemunhei um indivíduo que teria seu grande sonho realizado caso não tivesse se matado um mês antes? Sem falar da tristeza dos familiares ao descobrirem o ocorrido, sendo que alguns eu ainda vi se lamentando pela sua perda quando eu os reencontrava para recolher sua alma.”

A maquiagem da criança tornou a ficar ainda mais borrada, com riscos negros rabiscados até a bochecha, e Inocêncio tirou o sorriso de seu rosto.

Intendo sua dor, menina bonita. Aqui nesse tempo todinho de trabalho tive poucos casos desse, mas era de partir o coração.

“Obrigada por me permitir desabafar, o senhor é muito gentil. Talvez o mais simpático que conheci por um bom tempo.” Seus soluços intermitentes ficaram mais fracos, e a voz menos esganiçada. “Estou até feliz em finalmente poder te livrar daquelas tosses cheias de sangue, do incômodo da urina que não consegue atravessar as pedras em seu rim, e de sua coluna comprometida que o senhor disfarça tão bem enquanto exerce seu ofício com tanto afinco.”

A garota desceu da balança, e um vento gelado chegou repentinamente às costas de Inocêncio, como se o sol tomasse distância somente dele naquele momento. A menina o fitava enquanto ele ficava de joelhos, finalmente cedendo após suas pernas tremerem desde o último enterro, uma fadiga a ser extinta em breve para o repouso eterno.

“Basta um toque meu em qualquer parte do seu corpo para tudo acabar”, explicou a mocinha. “Como deseja ter seu fim, Inocêncio?”

Se posso escolher o jeito, intão eu não exijo mais que um beijo na bochecha esquerda, igual a minha netinha Adria me dava todas as manhãs, até sepultar ela há três semanas atrás.

“Você realmente é um amor de pessoa, Inô. Logo reencontrará Adria bem ao seu lado.”

Conforme pedido, os lábios quentes estalaram na bochecha do coveiro o qual deu um último suspiro para se despedir da terra seca. Uma chama branca tornou-se presente na foice da menina, colhendo finalmente a alma do coveiro mais simpático dos cemitérios, cujo corpo estava repousado e protegido da luz sob os galhos da árvore sagrada do sertão.

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